25/03/2015

Tenho uma nova profissão

Mudam-se os lugares, mudam-se os hábitos.
Não me deixavam arranjar as unhas à minha mãe. Nós encarregamo-nos disso. Como se alguém, que não eu, pudesse limar de amor, pintar de cuidados, pôr brilho de luz, nas unhas da minha mãe.
Os dias a passarem, as unhas tristes e sem cor. Na sala, não pode fazer isso. É onde estão os outros utentes.
A memória leva-nos para lugares incríveis, e lembrei-me de um maricas - que não era exactamente maricas -, que tinha gabinete ao lado do meu, e que ficava tonto e incomodado com o cheiro, de cada vez que eu pintava as unhas, na casa-de-banho, sete metros dali distante. Também achava que eu tinha um parafuso a menos, desde o dia em que me empoleirei de uma cadeira para ir roubar as persianas do gabinete do chefe, uma vez que tinha acabado de partir as do meu próprio gabinete. Mas era Verão, a altura do vestido era incompatível com a altura da cadeira, e ele, para variar, não podia subir a ela - também devia ficar tonto com as alturas - e preferiu ficar lá em baixo, a ver-me soltar os parafusos das persianas do chefe, pelo que há-de ter pensado que um deles se havia soltado da minha cabeça.
Também já não vou para nova, e deve ser por isso que a memória me põe a misturar assim os assuntos, tudo isto por culpa do cheiro do verniz. 
Cheguei lá hoje toda cheia de vento. Parêntesis para dizer que o vento me tem lavado tanto, bem mais eficazmente que a chuva. Pus-me a pensar que não há nada mais saboroso que um homem a cheirar a vento e até me ri sozinha das peripécias que o olfacto e a memória, em mim sempre conluiados, para o bem e para o mal, nos fazem reviver. Estou tão velha, e esta fase é tão boa.
O caminho foi feito num barco à vela, em mar de asfalto. Não há, no país todo, estrada mais ventosa - avisos por todo o lado, as mangas de vento rígidas, na horizontal, o carro a abanar, aflito.
Hoje não houve oportunidade para mais ai-ais, levei a minha mãe para um canto de sol, e ali, banhadas as duas pela luz que doía, entrelaçámo-nos os dedos, falámos em metáfora, como desde sempre, És tão linda, Gosto tanto de a ter aqui, só quem entende metáforas como nós nos entendemos, é que alcança a dimensão e a lonjura deste diálogo, mas que é que isso me importa, se nós nos entendemos, porque nos sabemos desde muito antes de nascermos as duas?
De volta à sala, pontilhada de cabelinhos brancos, anuncio sem pudor - há-de-me faltar o tal parafuso que parecia solto das persianas do chefe, Sou a nova manicure desta casa, apreciem a qualidade do meu trabalho. Muito risonhas, Então e quanto leva?, Cinco tostões a cada uma, Mas o tostão já não existe, Pois não, são cinco beijinhos e não se fala mais nisso.
Se calhar, devia comprar material, vernizes de cores, e também o transparente, que dá brilho. E encarar essa despesa como um investimento num negócio muito lucrativo, pago em beijinhos, todos brancos e feitos de luz, que o vento levo-o eu comigo, e trago-o comigo de volta. 


12 comentários:

  1. "se nós nos entendemos, porque nos sabemos desde muito antes de nascermos as duas"

    Lindo texto, linda filha, lindas mãos, linda mãe. Lindo, LP.

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    1. :)
      Obrigada, querida.
      Mãos lindas, mãos minhas, estas mesmas me agarraram inteirinha, quando cheguei, saída dela.

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  2. Só digo:
    "Bençoada" sejas!
    Abreijinhos :)

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    1. Sou só filha...
      :)
      Beijaços :)

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  3. é tão bom cuidarmos dos nossos, daqueles que no passado cuidaram de nós.

    bj doce

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    1. Fechamos um ciclo, trocando de papeis.

      Bj meu

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  4. Minha querida LP, cada post destes, com conteúdo tão perfumado e pleno de ternura, deixa-me abanada cá no mais íntimo do meu ser!
    Se pudesse, abraçava-te!
    Mia

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    1. Querida és tu, Mia, a dizer coisas tão boas - essas, e as outras, que todos os dias postas.
      Sinto aqui o teu abraço, estou a correspondê-lo, mas, se te souber a pouco, a gente combina por aí :)

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  5. Querida LP, adoro quando falas da tua mãe, quando retratas esse amor, quando expões essa ternura. Tens um jeito tremendo para manicure (filha), assim com ela tem umas mãos lindas (de uma mãe que te cuidou assim).
    Um beijo de ternura (a mesma com que te li).

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    1. São as únicas mãos às quais sei fazer manicure bonita. Nem as minhas ficam assim. Deve haver uma relação qualquer entre os vernizes e os sentimentos, que faz com que o resultado final seja este. Parece aquela história do "Como água para chocolate" (Laura Esquivel), mas com manicure.
      Um beijo, Rainha, pelas tuas palavras tão lindas.

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  6. E eu venho chafurdar isto tudo. Cheiro a vento? É só a mim que isto faz confusão escato-peido-lógica? Cheguei cheia de vento? Ainda me you a rir!

    Mamã de LP tem sorte de ter uma filha como tu! Tomara muitas... Beijo beijo minha querida

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    1. Grande suíno me saíste :P
      Como sabes, eu sou uma senhora, não sofro de ventos desses.

      Pois tem. Mas tem mesmo :)
      Beijo, maluco.

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