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25/01/2018

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 12

Desenhado em 16.02.2011, através de um programa, Bitstrips, que já não existe. (Portanto, escusais de ir a correr tentar fazer lindinhos com ele à pala de minhas super inestimáveis dicas, que, quanto a este, capute.) (Mas vá, que eu não sou assim tão pérfida. Se desejais assim com tanto ardor brincar à bonecada online, instalai este, que deve ir dar ao mesmo. Eu não experimentei.)

Hã? Foi só mudar-lhe o nick e ficou como novo, e actualíssimo.
Já na altura, vejam bem ao tempo que isto foi, usava e abusava de parênteses rectos. 

Então, vamos lá a aprender alguma coisa hoje, a ver se nos entendemos quanto aos rectos e quanto aos curvos, em se tratando de parênteses, aqueles que nunca caem na lama. Ou não deveriam.


10/10/2016

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 11

[Recebido por mail no dia 01.05.2010]

23 Coisas que não se pode morrer sem saber... 
(ui. Começa logo mal. não se pode morrer? Então e "23 coisas que se deve saber antes de morrer"?)

01 - O nome completo do Pato Donald é Donald  Fauntleroy Duck. (Podia ser pior, se fosse conhecido por Pato Fauntleroy);

02 - Em 1997, as linhas aéreas americanas economizaram US $40.000 eliminando uma azeitona de cada salada.(Donde, se tivessem retirado duas azeitonas, a economia seria de US $80.000);

03 - Uma girafa pode limpar suas próprias orelhas com a língua.(A mim dava-me jeito. Vou começar a treinar);

04 - Milhões de árvores no mundo são plantadas acidentalmente por esquilos que enterram nozes e não lembram onde eles as esconderam. (Nogueiras, portanto. Há milhões de nogueiras no mundo);

05 - Comer uma maçã é mais eficiente que tomar café para se manter acordado. (Para lavar os dentes, então, nem se compara);

06 - As formigas se espreguiçam pela manhã quando acordam. (Quáu é, ô cara? Tá mi chamando dji formiga?);

07 - As escovas de dentes azuis são mais usadas que as vermelhas. (E as vermelhas mais do que as amarelas, portanto);

08 - O porco é o único animal que se queima com o sol além do Homem. (Quáu é, ô cara? Tá mi chamando dji porca?);

09 - Ninguém consegue lamber o próprio cotovelo, é impossível tocá-lo com a própria língua. (A mim chegava-me aquilo das orelhas);

10 - Só um alimento não se deteriora: o mel. 
(Das abelhas?);

11 - Os golfinhos dormem com um olho aberto. (E o outro fechado);

12 - Um terço de todo o sorvete vendido no mundo é de baunilha.(Outro terço é de chocolate e outro terço de sabores esquisitos);

13 - As unhas da mão crescem aproximadamente quatro vezes mais rápido que as unhas do pé. (As do dedo mindinho nem crescem, o que é uma pena para quem as usa para a higiene íntima otorrina);

14 - O olho do avestruz é maior do que seu cérebro. (Do que o meu? Olha a novidade. O tamanho da massa não tem correspondência directa com a capacidade dela. Ora pega. Esta não sabias);

15 - Os destros vivem, em média, nove anos mais que os canhotos. (A minha irmã e eu somos dextras, casadas com canhotos. Se nós fumarmos e eles não, a média mantém-se?);

16 - O "quack" de um pato não produz eco, e ninguém sabe porquê. (Eu sei: é porque lhe sai da alma, ou de trás);

17 - O músculo mais potente do corpo humano é a língua. (Também pode ser);

18 - É impossível espirrar com os olhos abertos. (Que o digam as que paralisam após um espirro, seguido de flato);

19 - "J" é a única letra que não aparece na tabela periódica. (Pois, senão era a jenstruação);

20 - Uma gota de óleo torna 25 litros de água imprópria para o consumo. (Lá está a teoria da azeitona: se forem duas gotas...);

21 - Os chimpanzés e os golfinhos são os únicos animais capazes de se reconhecer na frente de um espelho. (Quáu é, ô cara? Tá mi chamando dji chipanzéna ou dji golfinha?);

22 - Rir durante o dia faz com que você durma melhor à noite. (Objection! Passo o dia a rir e durmo malíssimo. Não se pode trocar a ordem dos factores, só para experimentar?);

23 - Aproximadamente 70 % das pessoas que lêem este email, tentam lamber seu cotovelo!!!(Sou 30%!!! Não tentei!!! Mas estou quase a conseguir aquilo das orelhas).

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E agora, mais uma, totalmente de graça:

24 - Se uma vaca (ou qualquer bovino) saltar as barreiras e subir para a assistência, fujam na direcção da arena. (Parecendo que não, esta pode ser muito útil, e, à partida, mais provável do que imaginam.)

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Credo. Eu morrer sem saber estas coisas, nem me perdoava.

07/08/2016

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 10


Diário de bordo
(25.08.2009)

Querido diário:


Caiu um penedo em cima de um número indeterminado de pessoas. São 4 da tarde, e a rocha despencou-se ao meio-dia. Tiraram de lá um homem morto e uma senhora foi para o hospital. O rádio diz que a praia voltou à normalidade, e a mim parece-me que está tudo do avesso. A normalidade do rádio significa que os banhistas estão no mar, a banhar-se, e ao sol, a corar. Ninguém cora de vergonha, acontece que é um dia diferente, caíram umas pedras lá de cima, uma era enorme, morreu um homem, está uma mulher muito mal, há máquinas de obras no areal, muito movimento de bombeiros, vêm os políticos, sabe-se que há mais pessoas lá debaixo, mas o mar chama, o bronzeado bonito apela, “isto não me vai estragar as férias”, diz quem viu, diz quem podia ter lá ficado também, diz quem chorou quatro horas antes.

De repente, parece que muita gente podia lá ter estado, e só não estava porque “se deu o milagre”. Como quando cai um avião. Eu própria equaciono assim a coisa: tive uma casa apalavrada na Oura, a praia mais próxima dessa casa seria a Maria Luísa, será que… também eu…? Não. Eu não gosto da Maria Luísa. Não gosto de praias pequenas, metidas entre três paredes e o mar, claustrofóbicas, não gosto de rochedos altos, montanhas de asfixia num ambiente que se quer tudo menos apertado. Iria para a praia de outros anos, mais uns quilómetros de carro, mais ar, mais areia, mais espaço. Suporto cada vez com mais dificuldade esta quantidade de tias castanhas, que estão a ficar piladas, não concebo como é possível estarem daquela cor sem recurso a instituto, a milhares de horas de sol, a exageros de óleos. Tenho medo de ficar assim, um dia. Já cheguei à cor que quase não gosto, e escondo-me à sombra todo o dia. O mar é tão quente que nem dá para nadar, mas, ao menos ondula o cabelo. Faz-me falta o gelo da Costa, a hipotermia nas pontas dos dedos, as sovas do mar cavado, o sangue a correr nas veias.

Os homens ganharam mamas, estão quase iguais às mulheres, e elas, para se vingarem, ganharam barriga, e ficaram iguais a eles. Não se distingue o que é deselegância e o que são gravidezes no primeiro trimestre. Está toda a gente a escorrer celulite, varizes e mazelas várias. Os carecas resolveram rapar o cabelo que lhes restava, passam creme nas costas obesas das tatuadas, ao longe todos parecem muito sujos, mas é tudo tatuagem! Toda a gente tem pêlos a mais, ou amolgadelas algures, ou então um penteado indecifrável. Os fatos de banho são inomináveis. Devia existir uma taxa à porta da praia. Tatuado, peludo, calções ridículos, taxa. Para elas também. Pena de prisão, não remível, multa.

Eu passo a ferro. Cuido dos filhos. Cuido da gata. Take care, naturally.

Vou para a praia de carro. Enjoo de carro. Sou a única adulta que conheço que enjoa de carro. O mar está demasiado quente.

Mãe, não é verdade que o G. fica gordo se continuar a comer desta maneira?

Mãe, dá-me mas é a bola de berlim!

A gata está nas suas sete quintas. Ninguém me convence que os gatos não conhecem dono. Esta está-se borrifando para o facto de ter mudado de casa. Está connosco, está bem. A casa tem dois andares. Ela anda escada acima e escada abaixo atrás de mim. Deita-se na tábua de passar a ferro a fazer-me companhia, e a ocupar-me parte da tábua, o que me impede de colocar o ferro no descanso. Come a relva do jardim, vomita verde, mas não desiste daquilo. Cheira a piscina e prova a água.

O rapaz inventou uma dor no joelho. Coxeia como o Dr. House só por saber que eu gosto dele. Continua em pleno complexo de Édipo. Para o torturar, digo-lhe, enquanto o cubro de beijos: "Não chegas aos calcanhares do meu Housinho". Não se safou de ir ao médico, e de fazer um tratamento com gelo e pomadas. O pai fez, eu nunca acreditei naquela dor. Dói-me tanto uma costela que não tenho tempo para complexos com nomes de deuses gregos. Devo-a ter partido, e são dores tão lancinantes quando espirro ou tusso que já só rezo para não me constipar. Quase não posso rir-me, o que não é fácil por estes lados, com os figurinos da praia e os nomes dos candidatos a autarcas. Dá a sensação que, para alguém se candidatar a estes municípios, tem que ter um nome estrambólico — Abúndio Martins, Seruca Emídio, Noélia Ribeiro, Jovita Ladeira, Joaquim Vairinhos, Jamila Madeira...

Um destes dias volto. Agora vou ver o Dr. House.

(tenho um nome demasiado vulgar)

07/12/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 9

A tinta preta é do Mal
(22.02.2010)

Achei importante para a minha maturidade enquanto cidadã desta pequena polis que responde pelo nome de Lisboa tirar o passe do metropolitano, já que o bem-fadado cartão custa 18 euros e dá para 30 dias, e eu gasto um mínimo de 8 euros por semana nas 10 viagens que faço. Nada que o senhor da mercearia não tivesse concluído há mais tempo do que eu, que faço hoje quatro semanas de trabalhadora assalariada naquele novo muquifo, e só me deu a luminosa porque outra cabeça pensante me deu a ideia.

Vai daí, fui perguntar a um guichet do metro se podia tirar o passe nas máquinas - as tais que sabem tanto mais desta vida do que eu, que me fazem repensar toda a minha existência no planeta desde os memoráveis tempos da fralda de pano.

A funcionária que me atendeu esclareceu-me que não, deu-me uns impressos para a mão e disse-me que lhes acrescentasse duas fotografias e os entregasse na estação Avenida, porque lá só levavam um dia útil a fazer o meu passe, contra os quinze úteis em qualquer outra estação. Dobrei o papelote, depois perguntei se podia dobrar ao meio, ela respondeu que só uma vez (talvez ela tenha pensado que eu o ia dobrar mais do que sete vezes, o que nem possível seria, uma vez que está cientificamente comprovado que nenhuma folha dobra mais do que essas sete, por muito grande que seja), e meti-o na mala. Isto é importante porque o papel excede um nico o tamanho A4 e são relativamente raras as malas de senhora com mais do que esse tamanho, logo, defendo a teoria de que as fêmeas deviam ter uma autorização especial para dobrar o papel(zinho).

Então hoje embarquei rumo à Avenida, para conceber o meu passe. A coisa está feita para nos obrigar a gastar uma viagem, porquanto o buraco redondo do guichet está de costas viradas para o torniquete. Temos que dar saída do bilhete e depois, se quisermos entrar no metro outra vez, gastamos outra viagem. A menos que moremos na Avenida.

"Núcleo 69", ouvi eu dizer para uma das três pessoas que estavam à minha frente, a conceber seus passes também. Duas delas foram recambiadas para um objecto igualzinho àquele que os maestros usam para segurar as partituras, e que se chama estante. Ambas para repetirem o preenchimento da papelada. Enchi-me da nervos. Desatei a alisar o vinco ao meio dos meus papeis.

Depois percebi. A tirana que estava no núcleo 69 nunca estava contente com o preenchimento, e é um ser alienígena formatado para estragar a paciência aos do Bem. Ela é do Mal. Quando chegou a minha vez, mandou os meus papeis para trás, através da rodinha do balcão (acho que para não haver contacto físico entre ela e a freguesia). Perguntei o que é que estava mal, porque ó c'um caneco, eu sei preencher documentos.

Então ela disse:
- A senhora preencheu isto a azul, e tem que ser a preto.

(E forneceu-me uma caneta preta que mal escrevia, com a qual eu voltei a preencher os papeis do passe do metropolitano de Lisboa. E preenchi aquilo tudo sem pestanejar pela estupidez dela, porque sou uma pessoa feliz, e as pessoas felizes estão sempre a encontrar saídas para os entraves que as infelizes lhes põem no caminho.)

Passados esforços para que a caneta do Mal escrevesse, e distraída que estava a observar a zona oral da figura - uns maxilares bastante protuberantes, os 32 dentes da dentição adulta a saírem boca fora a cada palavra, uma franja à anos 80 que já só se usa no planeta Zycon 69 de onde ela vem - eis senão quando a alien pega num corrector branco, apaga quatro dos meus cinco apelidos e fica lá só escrito, por hipótese: "Linda Blue V. G. Estrume". Estive para começar a espernear e a gritar coisas deste estilo: "Mas quem corellos é que lhe diz a si que eu quero que na minha ficha fique V. G.? Eu posso ter um complexo associado a V. e a G.!". Mas ela perguntou-me: "Que nome quer que fique no passe?". Doida para lhe dizer: "Giselle Bündchen, e faz favor não se esquece do trema", disse a verdade: simplesmente, Linda. Blue. Estrume.

PS - Ah, custou-me a pressa dez euros. Mais os dezoito do carregamento, ainda levo 3 semanas e meia a amortizá-lo. Ou tenho que viajar mais vezes, para a amortização acontecer em menos tempo. Paul Samuelson, tu fosteS grande, mas eu ainda sou maior!


24/09/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 8

03.02.2012

4 da manhã. A socorrista de sempre, Dona Mimi: Mãe, a M. vomitou na sala.

A pessoa ergue-se do leito, esquece-se, drivado à sonite, de calçar as havaianas (eu disse isto só para que ninguém fique a pensar que eu uso pantufas ou chinelinhos de quarto), alcança a que eu gostaria que se parecesse e todos conhecem por sala e depara-se com o cenário seguinte: filha M. sentada no sofá, a segurar a própria cabeça, e um lago — poluído, é certo, mas um lago — de vómito, constituído por muita água e sólidos com farripos brancos de pão e de panadinhos e de sei lá que mais ácidos estomacais. Com uma dimensão de cerca de 1,5 metros por 70 cm.

(Quem quiser, que mude agora de canal, que a tendência da descrição é para piorar. Há por aí muito blog fofão onde é possível encostar sem nos sujarmos todos, como aqui neste buraco.)

Ainda derivado à sonite, a pessoa toma a primeira de várias atitudes: mete os dois pés, descalços, no lago. Preocupação imediata: não escorregar. Isto são muitos anos a virar a franga, e a experiência diz-me que o vomitado escorrega bastante. A mim parece-me que o dos outros ainda escorrega mais do que o nosso, conclusão tirada empiricamente, mas não cientificamente comprovada.

Segunda preocupação: limpar o lago. De cócoras, a dormir só não em pé exactamente por estar de cócoras, afinfei-lhe com um rolo inteiro de papel de cozinha, coadjuvado por duas colheres, para retirar os sólidos maiores do soalho, e munida de um saco de plástico, para guardar tudo para memória futura.

Agora as coisas mudaram um pouco, para melhor: embora os golfos, dignos das Bruxas de Eastwick, continuem a sujar tudo à volta do cenário, já só sobra para mim a lavagem da área envolvente e das roupas e objectos atingidos. Sinto, por isso, uma grande libertação, em não ter que, como acontecia antigamente, levar a criança, quase pendurada pelos ombros, com pinças, pelos ares, até à banheira. Portanto, ela lavou-se. E eu fiquei a limpar o chão e o sofá. 

Pelo meio, uma breve incursão masculina, com o velado aviso, em tom de murmúrio do Além, eu estou a ajudar a tua mãe. Viu-me de esfregona em punho, já o rolo de papel de cozinha tinha acabado, e deu-me a entender, muito expressamente, que tinham ficado resíduos sólidos entre os tacos do soalho. Quando lhe perguntei se os queria retirar com uma faca, foi-se deitar. 

Todo aquele esforço abriu-me o apetite. Fui comer um iogurte, senão já nem conseguia dormir o resto da noite.


07/08/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú # 7

01.08.2009

Erros meus, má fortuna, amor ardente

Estou pasma. Isto não se faz.

Domingos Amaral. Só ainda não li o mais conhecido dele (“Enquanto Salazar dormia”), porque tentei e não agarrei. Mas hei-de. Li o “Já ninguém morre de amor” – sim, pois, os “meus títulos” têm, geralmente, a palavra amor. Há quem só compre títulos com a palavra chocolate (está provado, não inventei nada). Esse romance é uma pérola de bem escrito. Notável a passagem em que o protagonista perde o filho na praia. É aquilo mesmo, sem tirar nem pôr.

Peguei no primeiro romance dele, “Amor à primeira vista” e dou com ele cravejado de erros ortográficos. A colocação das vírgulas caótica. Estou na página 30 e tais e já não me apetece continuar a ler. Sinto-me roubada. Paguei 13 euros por este rascunho.
Começo a suspeitar que tanto os nossos autores como quem lhes faz a revisão gráfica confiam demasiado no corrector ortográfico do word. Só que ele não distingue erros de sintaxe. Tanto lhe faz que escrevamos à ou , sabe lá ele o que é que é o correcto naquela frase! Mas deixar passar lês-te em vez de leste (2.ª pessoa do singular, verbo ler, indicativo, pretérito perfeito) é de mestre. Mestre de obras, bem entendido. E mal comparado. E sem ofensa aos mestres de obras.

Andei à procura da editora para lhes escrever a dar conta dos lapsos. A Casa das Letras é uma “subeditora” da Oficina do Livro. Não tem site próprio. Na Oficina do Livro não existe um mail ou um campo para comentários. O livro que estou a ler nem sequer consta do site. Penso que não existe. Será fruto da minha imaginação tortuosa, ou do meu delírio enquanto purista da língua.

Cansada de dar murros em pontas de facas, e a sentir-me uma andróide, pus-me a reconsiderar a minha postura diante das letras. Serei uma fanática solitária? Serei a última das amantes do português bonito? Qualquer das hipóteses me serve à luva. Já nem procuro a origem deste rigor. Montanhas de gente que teve os mesmos professores que eu, e está-se nas tintas para as cores do texto. Quantos não chegaram à faculdade a dar erros de palmatória, quantos não saíram de lá a escrever mal na mesma, ou ainda pior, depois de um crivo tão mais rigoroso que o do liceu? E ainda se viram para quem os corrige a chamar nomes, ainda que essa correcção seja privada e subtil. Dá a sensação que têm orgulho no erro. Estão na moda.

Nem me vou alongar para o assunto blogues. Isso então, é vasto pano para mangas. Li há pouco uma frase que me chocou mas, até certo ponto, me ajudou a encontrar um fio condutor para o meu próprio blog. Dizia mais ou menos isto: “Os blogs são diários virtuais de frustrados que não têm coragem de dizer as coisas cara a cara e vão para ali vomitar as suas ideias estúpidas”. Depois de ler a tal frase passei a ter uma preocupação acrescida com este blog que, como repito, nem sei se alguém lê, para além de duas ou três pessoas que sei que sim. É a preocupação de não personalizar posts, de não dirigir canhões a ninguém, de não aproveitar para destilar, num espaço que, de uma forma ou de outra, é um espaço público. Apercebi-me que o melhor que tenho a fazer é mesmo tornar-me autista virtual, depois de me ter tornado autista gramatical. É não cair em erros, e não dar erros — por uma questão de respeito para com quem me lê. Ainda que ninguém me leia. Eu leio-me.

31/07/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 6

03.06.2009

A minha Zá

Entrámos para a sala de reuniões, pela enésima vez em quinze dias. Estamos a ficar fartos da cara uns dos outros. Hoje vamos desfazer o órgão para o qual fomos eleitos há seis meses. Era um órgão provisório, portanto, é natural que esteja no fim. Devíamos estar aliviados por isso, mas não há tempo para sentimentos. A seguir, vamos constituir o órgão definitivo, e esse tem um mandato de quatro anos para cumprir.

Despedimo-nos de forma mais ou menos formal, desejamos bons trabalhos a quem fica e agradecemos a quem não, e fazemos um intervalo para ponderar quem vamos escolher para presidente do órgão definitivo. Saímos da sala, ficamos a conversar cá fora, e nota-se uma certa tensão no ar, que eu não sei de onde vem — se do fim do trabalho de um lado, do começo do trabalho do outro, do momento de ponderação a que nos comprometemos, ou só porque nos vamos separar. As separações custam sempre. Mesmo esta.

A professora Zá é das pessoas mais extraordinárias que eu conheço, sem reservas. É viúva de um patife que deu um tiro na cabeça diante dela e do filho de ambos. Venceu um cancro da mama que mais tarde ou mais cedo a vence a ela. De vez em quando, aparece com o braço metido na manga elástica. Nunca lhe ouvi um ai, um lamento, uma recusa a um esforço, mesmo físico, que sabe que não pode suportar. Trabalhamos juntas há anos, mas ela trabalha desalmadamente. Ela como directora da escola, depois vice-presidente do conselho executivo, agora nada. Eu só ando ali a passeio, estou de passagem. 

Falamos com os olhos, como as amigas a sério. Ela insiste em tratar-me pelo título académico. Eu trato-a por Zá, mas refiro-me sempre a ela por professora Zá. E dá-me os abraços mais gordos e mais saborosos, por serem gordos. Ela é gorda, e eu adoro-a por isso. Estou-lhe sempre a dizer que não está nada gorda. Mas está cada vez mais gorda.

Acabei de saber que a directora do agrupamento, recém-eleita, amiga de longa data, companheira de conselho executivo, não a escolheu para vice-directora. Perguntei a uma, primeiro, e ela deu-me uma resposta institucional. Depois perguntei à minha Zá. E ela deu-me a mesma resposta, automaticamente, muito explicada, os olhos a entrarem dentro dos meus, os meus a escancarar sem acreditar.

A minha querida está a olhar para mim com esses olhos tão grandes assim...

É que estou a olhar para os seus e aquilo que me diz não é o que lhes leio 

E os dela cheios de água,

Já nos conhecemos há muitos anos

As minhas mãos na cara gordinha dela.

Já passámos tanto juntas. O ano passado andámos a arrastar um monstro de 900 quilos, com mais duas almas penadas, no recinto do recreio, porque nos convencemos que estava uma criança lá debaixo. Aquilo moveu-se uns três milímetros — ou nenhum. Depois de verificarmos que não estava, sucumbimos aos nervos, sentámo-nos num banco, lado a lado, como duas crianças assustadas, e chorámos juntas.

As amigas são assim. Falam com os olhos. Choram juntas. Se não fazem estas duas coisas, pelo menos uma vez na vida, não são amigas.



05/07/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 5

Lisboa, 21 de Setembro de 2008

Ontem quis fortemente hibernar. Fui ao IKEA ver de uma mesa para a cozinha, porque a minha família está a crescer. Não em número, mas em tamanhos. Já não cabemos naquela sem estarmos à cotovelada. Daqui a pouco, ninguém consegue usar o garfo - e a faca -, sem o espetar na boca cinco vezes em cada refeição. 

Bom, se já me faz alguma confusão entrar em grandes superfícies, com amontoados de gente, ir ao IKEA ao sábado é uma romaria, digna de objecto de estudo com fins antropológicos. À entrada, depois da saga Parque-2-por-o-parque-1-estar-lotado, uma palhaça. Tínhamos percorrido uma ponte, passagem aérea, tapete superior, ou que raio, no meio de uma multidão que carrega consigo o carrinho do bebé, o miúdo insuportável, o jovem que não é nada a ninguém, mas também vai, e não sei por que desistiram de levar a velha. Antigamente, quando inauguraram os primeiros hipermercados, era quase obrigatório levar a velha. Família que se prezasse, ia assim constituída para a grande superfície: dois casais, um de namorados (?), sem filhos, que se beijavam e apalpavam a cada esquina de enlatados, outro com uma Soraia Patrícia a tiracolo, a quem chamavam a menina, e a quem os quatro davam ordens, mas brigavam todos por causa da menina, e a velha. Nunca percebi bem qual o parentesco da velha com os restantes, tal a autonomia em relação ao grupo, por desprezo de uns ou indiferença da outra. Havia também o tal espécime que se mantém, o jovem-que-não-é-nada-a-ninguém, demasiado novo para ser irmão de um dos elementos dos casais, demasiado velho para ser filho deles. 

A entrada estava semi-impedida pela palhaça, por ela estar a oferecer balões às crianças: daqueles meio fálicos, que se torcem todos e ficam mesmo a parecer um phalo. Fugi a sete pés com os meus pelas mãos, não fora ela confundi-los com as Irinas Danielas, e oferecido uma coisa daquelas a cada menina das minhas. Entretanto, subi as escadas do inferno, invadida por um cheiro a alface misturada com suor. Eu não entendo a cozinha sueca, definitivamente. A única vez que comi no IKEA foi há uns anos, na primeira vez em que lá estive, e em que comprei sete peças de mobília em quinze minutos, mas a saga de ir para o armazém buscar os caixotes e depois da bicha para me habilitar a transportar aquilo tudo para casa sem ser às minhas costas, levou escassas três horas e meia. Às três da tarde, verde às bolas de fome, arrastei-me para um balcão, onde pedi aquilo que mais se parecia com comida, assim dita normal: um crêpe com salmão. Digamos que, apesar da descompensação, aguentei metade daquilo. 

Lá em cima, ainda metida na multidão, já depois de ter perdido quase todos os sentidos menos o olfacto - francamente incomodado -, e a audição - toda arranhada - devo ter desatado a ter visões: aquilo é o antro do chinelo e da bermuda (bérmuda, como eles dizem), do cabelo pintado a cores indecifráveis, do top + banha = o que é bonito é para se ver, e da mobília esquisita. Barata, mas esquisita. Tem tudo o ar que se desmonta com a mesma facilidade com que se monta. Ainda por cima, paradoxalmente, nada se monta facilmente. Nada obedece a estilo nenhum. O encaixe final das peças nunca se dá na perfeição. O pesadelo do transporte e carga e, depois, da montagem, transformam a fórmica treta em mobília caríssima, se desistirmos de fazer tudo sozinhos. 

Quando atingi o armazém, desiludida por não ser capaz de hibernar até à próxima Primavera, a sentir-me uma ET, incapaz de perceber o que é que estava ali a fazer, vim para casa sem mesa. Havemos de comer por turnos, ou aprender a fechar ainda mais os braços, mas, ali, não me parece que vá comprar uma mesa de refeições.


01/07/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 4

Ou:
A lagartixa hiperactiva mascara-se de gata

Ou:
De como se demonstra que o estudo da matemática pode ficar comprometido com um bebé em casa

Ou:
Se queres ter um gatinho, diz adeus aos sofás




19/06/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 3

A minha gata mais velha, Mia, que tem agora seis anos, veio cá para casa com 3 semanas. 
Este filme, embora seja de má qualidade, mas não série B, atesta em como eu a ensinei a limpar a sua própria caixa de areia, e como isso é possível. Basta muito amor e alguma tenacidade, como para quase tudo na vida. Até para fazer molho de escabeche.



08/05/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 2

15.40
Chegámos a casa.

Leio convocatória para uma Assembleia de Escola. Não sou eu o representante neste órgão. Ou sou eu? Então, quem é? Continuo sem certezas. Nunca tenho certezas, e isto é capaz de ser patológico. Ou socrático. Começo a fazer lanches. Enquanto torro pão para uma e aqueço leite para o biberon do rapaz, dou bolachas a todos, saídas da mochila de uma e também do armário da cozinha. Faço SMS para avisar da convocatória. Entrego o biberon ao rapaz, enquanto barro manteiga nas torradas da M. São todas M, as minhas meninas. M de minhas, M de meninas, sou eu a mãe, M de mãe. As outras duas M decidem que querem uma sanduíche de fiambre cada uma, mas uma quer que seja torrada, e a outra não. Eu preferia que ambas quisessem torrada, para me facilitar a linha de montagem, que eu inventei, mas não existe. 
O rapaz não começou a beber o biberon, mas começou a esfarelar uma bolacha de chocolate para o chão. Pegou num toalhete e desatou a “limpar” a mesa, o chão, e disparou para a sala, onde “limpou” mais mil coisas, de entre as quais os vidros das portas da sala, tudo com o mesmo toalhete. Uma das M bebeu uma caneca de leite, a outra uma caneca de leite com chocolate, e a outra dois copos de água. O rapaz, cansado de tanta limpeza, o toalhete desfeito em farelos, começou, finalmente, a tomar o leite e eu fiz um telefonema. Falei para o 'voice mail'. Antes assim. Arrumei a roupa do fim-de-semana – dois cestos. Recebi o telefonema de volta. O rapaz foi fazer chichi e chamou-me para ver. Tem dois anos e meio, tenho mesmo que ir ver. Uma das M quis uma fatia de melancia, que eu cortei e tirei as grainhas. Desesperada, mudei de blusa. Aspirei o local onde o miúdo esteve a comer bolachas. Tirei a louça da máquina. Fiz um café para mim. Outra M quis um copo de água com açúcar. Eu achei insensato — porque ainda acho coisas —, e disse não. Outra M quis uma fatia de melancia. Eu disse não — vais ficar com a barriga cheia de água da melancia, em cima do leite”, argumentei. Mas ninguém me ouve, fale devagar, baixinho, sensatamente (sei lá o que isso é) ou aos gritos. 
São 17.30 e eu estou nas lonas. Vou abrir camas. Enquanto abro as camas, penduro vestidos e calções. Uma das M fez chichi no chão. Dei-lhe uma palmada no rabo e limpei o chichi.

17.30
Dói-me a palma da mão.
Dói-me o pulso.
Dói-me a alma.

30/04/2015

As coisas que eu vou desencantar ao baú...

Já em casa, a discussão continuou. Comecei com os clichés da praxe, Estás de castigo (conceito do qual desconheço o conteúdo, mas, mesmo assim, persisto na ameaça, in extremis), Vou contar ao teu pai, Já não levas o bay-blade, nem hoje nem amanhã (como é que é possível que a maternidade me tenha tornado tão estúpida e tão básica?), e ele a chorar cada vez mais. Mãe, desculpa, mãe, desculpa!. Deitou-se num cadeirão e começou a adormecer. Não quero que ele durma à tarde, senão à noite é um sarilho para adormecer. Abano-o, Não durmas, por favor!, ele acorda, volta a fechar os olhos, depois à noite não me deixas dormir a mim, vais às potrilhas para a minha cama!, ele abre e fecha logo os olhos, eu aproximo-me e a posição da cabecinha, abandonada no braço do sofá, as orelhinhas tão encostadas, amolecem-me a zanga. Lá vem a onda de ternura a passar por cima de mim sem dó nem piedade, aproximo-me mais e é o cheiro dele que me demove de o acordar mais uma vez. Pego-lhe ao colo, ele entreabre os olhos, entaramela não me compraste aquilo..., pois claro, lá onde ele está agora não se fala inglês, nem ele se pode lembrar do nome bay-blade. Levo-o para a cama dele, que tem grades e dali não cai, penso que vou ter um serão animado, cheiro-o mais uma vez, é a sabonete, a rebuçados, a leitinho, ou é a tudo misturado, é um bebé, é a bebé. Já tem quatro anos, mas é o meu bebé. Aquela imagem de tranquilidade transmite-se, invade-me toda e torna-me leviana – quero lá saber do serão.