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14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

02/01/2017

Ano novo, boi novo

Ando em vias de ter boi novo.
Queria um Audi A1 (cor indiferente, mas podia ser branco, à manicure, ou à futebolista), ou um Mini Cooper encarnado (é claro que só podia ser encarnado, Benfica, sangue Rh -, a discrição, tudo a ver comigo), mas isto é coisa que não escolho sozinha, quase um cavalo dado, daqueles a que não se olha o dente, e este há-de trazer muitos cavalos, logo, muitos dentes, para os quais não pretendo olhar, e, portanto, recebo-o de braços abertos e as duas manitas no volante. E há-de ser azul, porque o mar é azul e é de azul que eu gosto.
Meu boi pede-me a reforma de há um ano para cá. Não pára de me arranjar motivos para o meter no estaleiro. Ora são as portas, quando as tranco por dentro, que já só abrem pelo comando da chave; ora é o depósito da gasolina que já não abre, a não ser que abra a mala e use das minhas parcas forças para, carregando na alavanca, abrir a tampa; ora é o forro do tejadilho que se descola; ora foi outro dia ter-me parecido que chovia lá dentro. Convenhamos: eu aguento tudo, as manchas de tinta que o cigano lhe tatuou e tudo, agora ficar com o cabelo à Choné só por causa da falta de isolamento de um automóvel, é que me parece demais. E aquilo não é um cabrio (embora pareça, sobretudo no ponto de embraiagem, méééééé).
No entanto, meu boi é-me tão caro, literal e metaforicamente falando. Está velho, mas, quem sabe se devido a uma característica genuinamente feminina, afeiçoei-me a ele, já não digo que como a um filho, porque a anormalidade tão vai lá tão longe, nem como a um animal, porque idem. Mas anda a custar-me a ideia de o abandonar como se ele fosse uma lata velha (errr). Por isso, já lhe arranjei melhor destino do que o do ferro velho (até porque ele é todo em alumínio, quanto muito iria parar ao alumínio velho): vai passar a ser o carro da malta, o que significa que, daqui a máximo dois anos, terá não uma, mas sim quatro condutores a puxar por ele — aos seus dezoito anos de vida, ou seja, quando atingir a idade maior. E, nos entrementes, terei para sempre comigo a miniatura do meu boi querido que, derivados do seu tamanho, cabe inteirinho no meu infinito, por elástico, coração.

  

29/09/2016

Eu vou dizer-vos o que é que, verdadeiramente, me irrita quando vou meter gasolina naquele posto

Não é chegar e ter que considerar as várias hipóteses de bomba onde parar meu boi: quero uma cuja pistola fique à direita, lado do depósito, pois aquela cena de esticar a mangueira em todo o contorno da traseira dele, dispenso. Além do que há umas que têm uma mangueira tão curta que ainda me vejo na contingência de ter que chegar o desgraçado à frente. Quero também uma que não me obrigue a pagar gasolina evologic, só por uma questão de princípio: eu ponho em o boi o que me apetecer, e não o que alguém por mim manda.
Não é esperar numa fila de pessoas que se perdem a comprar árvores de cheiro para o carro e pacotes de batatas fritas para o bucho.
Não é chegar à caixa e ter um funcionário a chamar-me menina a torto e a torto, a tentar impingir-me pastilhas e a cantar "Eu não sei o que é que te hei-de dar" em repeat.
Não é o ritual de carregar no botão do depósito, meter a mala dentro do carro, fechar e trancar as portas, abrir a tampinha, meter a pistola lá no buraco do meu bichinho e pôr a cara número três vou-fingir-que-não-acho-esta-cena-algo-porn.
Nada disto.
Mas aqueles últimos cinquenta segundos, que é o que dura meter os últimos cinquenta cêntimos de gasolina, gota-a-gota, cêntimo-a-cêntimo, são coisa para me deixar mesmo, mesmo nervosa dos nervos.

(Nota mental: quando ganhar o Euromilhões, tranco a pistola nesses últimos cêntimos e vou à minha vida. O próximo que os aproveite.)

23/09/2016

Ando a deixar rasto por aí

Por me conhecer tão bem como a mais ninguém, exactamente como as palmas das minhas mãos, ou melhor ainda, tenho o cuidado de fixar o sítio onde fica o carro, cada vez que o deixo num daqueles parques em que tudo são colunas, cores, números, pontos de encontro e sistemas de fixação do lugar através de uma máquina que nos dá o papel. Quando estou mais fora da caixa, ou longe de mim, fotografo o número do lugar (existem parques cujos lugares têm números de quatro dígitos, e vá que nunca me calha o 1111), por causa das coisas.
Deixei meu boi perfeitamente estacionado num lugar de privilégio — assim o senti —, por ser em frente do elevador, e deserta estou eu para andar a cansar as pernas para mais do que o que já canso, fui-me à selva urbana, sobrevivi com um vestido novo debaixo do braço, e foi no regresso ao parque que pensei que tinha entrado na quinta dimensão: o lugar estava lá, mas o boi não, e, pior, estava outro, no espaço onde o tinha deixado. 
Espaços escuros, e eu; espaços de paisagem uniforme e eu; espaços fechados e eu; espaços onde só passam carros e eu. Uma suadeira. Puxar pela memória? Mas como é que se puxa por uma coisa que não se tem? (E não, isto não é uma piada dessas.) Pensei em tudo: que me haviam rebocado o boi e tinham lá posto outro, só para me baralhar; que meu boi havia ganho asas e voado, como naquele filme que vi em miúda; que talvez o tivesse posto noutro sítio, e era apenas uma questão de o procurar. Corri a zona, usei o truque da chave, aprendido numa outra vez que me aconteceu coisa semelhante (obrigada, Silent, mas ainda não foi desta que resultou), até que parei diante do sítio onde tinha a absoluta certeza de o ter deixado, olhando o lugar, incrédula, furiosa, transpirada e a sentir surgir em mim aquela vulcânica vontade de fazer A birra, deitando-me para o chão a chorar, quero a minha mãe!, quando passou um segurança, num daqueles carrinhos, e desabafei, entre soluços reprimidos:
- Deixei de saber onde está o meu carro...
[Não disse "perdi o meu carro", porque não era essa a verdade.]
E ele, como uma voz do Além, como um adivinho dos bruxedos, como um profissional experiente em assuntos semelhantes ao meu, como se já me conhecesse, a mim e a meu boi (e será que não?), respondeu apenas:
- Minha senhora, a senhora deixou o carro no - 2.

(Já devo ter ficha em determinados locais.)

16/06/2016

Jacarandal

É uma árvore que dá uma flor do genital.
Um pouco por toda a minha bela cidade, bastante por todo o meu bairro, muitíssimo ao longo da minha rua —, que, se fosse minha, eu mandava-a enfeitar —, os jacarandás estão em flor, pintando atmosfera (e também as calçadas) de lilás, imprimindo a nostálgica tonalidade da agonia ao ambiente, aquele que é meio. 
A flor do jacarandá, frágil e bela, havia de ser estudada para a indústria de colas de contacto.
Uma pessoa humana deixa seu boi sob a anil árvore, e eis que, quando regressa, o que até pode ser escassas horas após, para além de ter o boi transformado numa dançarina taitiana, verifica ainda que as florzinhas roxas estão coladas à chapa, ao vidro, a todo o boi. Para além disso, tem o bicho todo revestido de uma gosma  peganhenta que, se não se besuntar imediatamente com óleo, arrisca-se a ficar colada à chapa, assim mesmo, pelo lado de fora. De seguida, e porque a visibilidade desce para 50 %, trata, como eu tratei, de ligar os pára-brisas mais mija-mijas, para que, ao menos, o vidro da frente desembacie, e, vá, possa andar para a frente. Esse é o feliz momento em que a cola do jacarandal faz uma demonstração da sua força, e a pessoa se apercebe de que as borrachas do limpa pára-brisas simplesmente estão agarradas ao vidro, não permitindo, sequer, que o sistema funcione. À terceira tentativa, que é a que o ditado dita que é de vez, as borrachas lá se desprendem, proporcionando-nos uma alegre mistura com a água e o detergente dos esguichos, espalhando uma também feliz papa, em tudo semelhante a ranho (mas do transparente, e caso tivesse ele propriedades adesivas).  Vencida, mas não convencida, a pessoa avança, com a vista comprometida, esfregando os olhos, passando o paninho no retrovisor (porque o vidro de trás também está opaco, mas parece mesmo que o que está sujo é o espelhinho de dentro). Passa ainda pelo estranho momento em que abre o vidro, e sente, por parte dele, uma ternurenta hesitação, colado que está à borracha da moldura. 
Quando fecha a porta do boi, ouve ploshhc. 
E rabisca umas quantas notas mentais:
1. Tem que ir dar banho ao bicho;
2. Tem que evitar deixar o carro sob jacarandais;
3. A Natureza, como qualquer mãe, tem caprichos;
4. A experiência é a madre das coisas;
5. Logo, a experiência e a Natureza são uma única entidade — e isto já é um axioma.

19/05/2016

E tu, que lixo guardas?

Na mala, nem vos conto. Eu própria não sei. Sei apenas que nada sei, e também que são muitos rebuçados, pois que, cada vez que vou buscar sushi, enfio a manita lá naquele aquário que eles têm, cheio de flocos de neve, e sinto que roubo, tamanha é a quantidade que tão delicada e pequena manapulinha é capaz de açambarcar de uma só investida. Depois, é um mundo de coisas doces e amargas, mas acho que nada podre, senão cheirava. 
Vem isto a propósito de ter estado há pouco a proceder à recolha do lixo em meu boi. Não sei como se chama aquela espécie de caixa ao pé da manete das mudanças, abaixo do rádio, do ar condicionado [gajas. Tinha que dizer que tem AC, senão já nem dormia descansada esta noite] e daquela prateleirazinha, que fica imediatamente antes do cinzeiro — que, por sua vez, é fiel depositário de toda a escumalha e pequenos detritos que uma pessoa vai acumulando — que, conforme o verbo indica, como uma mula, e até ao cume. 
Então, encontrei, não necessariamente por esta ordem: 
- Um papelinho de uns que dizem que passam por mim, não no Rossio, mas onde eu estiver alojada no momento. Logo a mim, que adoro passar a ferro (e isto, para variar, não é uma ironia daquelas minhas, mas é iron);
- Um papelinho de um senhor que diz que compra o meu carro, mas que, para meu descanso, deixou papelinhos iguais em todos os pára-brisas da minha rua, a dizer COMPRO USADOS, mesmo que as matrículas digam 16-05. Também aprecio o facto de estes senhores se chamarem todos SR. ou SENHOR (tende piedade de nós);
- A embalagem vazia de um pacote de bolachinhas;
- O arame de fecho de um pacote de bolachas à séria;
- 6 bocados de fio dental — isto preocupa-me deveras: será que procedo à minha higiene oral em pleno andamento? É que, sendo uma senhora como sou, reparem, é certo que não o faço nos semáforos (esses, reservo para sms e bocados de post). Portanto, se é com o carro em andamento que limpo a dentuça, e, para tanto, necessito das duas mãos, olhem, nem quero pensar. Deve ser com os joelhos, como o Toy. # soumalôuca;
- 5 papelinhos da EMEL, 3 amachucados (também me dá a raiva) e 2 com anotações de uma importância tão extrema, que foram todos parar à papeleira municipal na mesma; 
- 3 post-its que deveriam estar na minha mesa de trabalho. Assim, como fugiram à regra, castiguei-os, dando-lhes o destino do restante lixo;
- Uma conta de supermercado, cujas letras (e números, sobretudo) já o tempo, o sol e o vento comeram. Lá se me vai a contabilidade e a regra das partidas dobradas ao ar;
- Um cabo, que eu não sei para o que serve, mas esse trouxe-o para casa, para ignorá-lo por mais uns anos — que é o que faço com tudo o que não percebo.


12/04/2016

Hoje amarrei um granda bode

Chegou a conta do mecânico.
Até chorei.
Estragou-me o dia.
Estragou-me a tarde, melhor dizendo (foi ao almoço). (Estragou-me o almoço.)
Estragou-me a vida.
Matou-me os sonhos.
Fui à massagem. 
Vão-se os dedos, fiquem-se os anéis. 

04/04/2016

Bumba, meu boi, metáfora de mim mesma

Agora foi o elevador do vidro do condutor: abriu um nico, coisa de quatro centímetros, e nem desce nem sobe. 
Está a ser giro, entrar em parques de estacionamento e ter que abrir a porta para carregar no botonete, como as gajas que se enganam na distância e acham que o braço esquerdo é igual ao da Senhora Incrível (eu, por acaso, tenho uma caneta no carro, que me serve de extensor quando erro esse azimute, mas isso sou eu, que sou imensamente dotada de miolos e outros órgãos moles). Apetece-me sempre ir esclarecer o condutor do carro de trás, Sabe, tenho o elevador avariado, agora nem para baixo, nem para cima. Mas vá que tenho consciência que haverá muito poucas coisas que, ditas por mim, não tenham uma segunda leitura. E, às vezes, terceira.
Ficou ali o suficiente para arejar — grande poupança em ar condicionado, logo, em gasolina —, e também para me aperceber de que chove lá fora, designadamente porque passou a chover cá dentro, ao nível do meu ombro. Estou, pois, em condições de afirmar que o céu chora no meu ombro, neste quase preciso instante. Era ser Verão, o sol estar a pino e a flic-flac, e nem notaria a brecha aguadeira. Era estar vento, sem esta água pluviosa, e até aproveitaria para treinar a condução à vela, ou wind-driving, em especial quando fosse para a A 5 esgalhar a quinta velocidade, naquelas sinuosas curvas que nem eu. Assim, limito-me a escutar os lamentos do dia, metendo-lhe o piloto automático da resposta chapa 1 — Tudo passa, o tempo ajuda

[Vou pô-lo ao mecânico neste momento. Se virem passar uma senhora de idade, metida num carro velho, de vidro um nico aberto, e toda encharcada, não me apitem. Eu sou sensível.]

31/03/2016

E também chega o dia em que

transformas uma avaria do teu carro num reflexo condicionado teu.
Pavlov, onde é que estás?
Cachorrinho...
Como nunca pode estar tudo bem com a saudinha do meu boi, agora é o motor de arranque que está a falhar, digamos. (Ainda eu não paguei a conta do arranjo anterior — mas não por falta de vontade ou outra falta qualquer, e sim porque o mecânico se retraiu, ou se condoeu, ou se absteve.) O que é certo, é que, agora, tenho que dar à chave duas vezes, caso contrário o bicho não liga nem mexe. Só à segunda bombada na chave é que mostra ao mundo que, afinal, sempre quer viver. 
Mas hoje, sei lá por que santinho que caiu do altar, dei à chave, ele ligou o motor à primeira, esperei três segundos, desliguei-o e voltei a ligá-lo. 
É que eu também levo tempo a desabituar-me do que me faz sofrer.

09/03/2016

And that awkward moment # 10

Em que, após prolongada ausência de teu boi (uma semana sem boi, custou-me a amanhar, fiquem sabendo. Tive que conduzir outro da frota, que é extremamente gigante), o vais buscar ao estaleiro (está mesmo velhinho, o meu boi — passa lá a vida, coitadinho), e o mecânico te diz que Não é hoje que [te] apresenta a conta [olá, 'tá boa?], porque ainda falta somar uma parcela. 

Ainda falta somar uma parcela.
Ainda. Falta. Somar. Uma. Parcela.
E pára-te a boneca. Paras de respirar, paras para pensar, mas não paras de sorrir. 

16/01/2016

Quase posso afirmar que tenho um carro novo

Há quatro dias, uma delas chegou muito enervada. 
Eu vi riscos novos no meu boi.
Ralhei, e ouvi:
Achei que não se notava...
Hoje diz-me outra delas assim para mim:
Mãe, raspei-te o carro. 
E eu constatei que foi do lado oposto ao dos riscos da outra.
Está personalizado, simétrico, tem um friso original, é modelo exclusivo.
Tamãe...

02/12/2015

Pára-choques

Desesperada por um lugar à sombra, que rapidamente havia de se tornar penumbra, e logo breu, e tendo avistado um buraco que me pareceu quase exactamente aquilo que pretendia, vai de pisca para a esquerda — pois que ficava do lado esquerdo da via, esse mesmo onde dantes era proibido estacionar, mas que a EMEL recriou em espaços úteis e explora até ao tutano — e de iniciar a manobra. Já tinha o boi todo atravessado em diagonal perfeita com a via, fazendo um vértice com o passeio que dava gosto, quando me apercebi da redonda asneira que havia irremediavelmente iniciado — e não mais redonda por força da rectangularidade do espaço que pretendia ocupar, e também da viatura —, e ainda, não só da pequenez do putativo lugar, como também do meu esdrúxulo cálculo, que ainda agora não sei qual era o mais tacanho dos dois. 
Lembrei-me então da verdadeira acepção da dupla palavra pára-choques. 
Encosta ao de trás, encosta ao da frente, toca atrás, toca à frente, bate atrás, bate à frente, e pumba!, boi estacionado. Custou bastante, nomeadamente porque, agora que se chega o frio, a pessoa vai encasacada e com ele todo abotoadinho, depois tem a mania de comprar o S, para fazer que é magra, acaba que se vê nas amarelas para se mexer durante as manobras. Mas ela aconteceu, e ficámos os três carros sem um risco, quanto mais uma mossa. 
É certo, e isso reconheço, que ficámos a uma distância do passeio que dava para aninhar ali outro boi, ou, quem sabe, uma mota de cilindrada boa, o que levou a que ocupámos, um nico a mais do que o necessário, a estrada. Mas a pressa era inimiga da perfeição, naquele momento, pelo que ficou mesmo como estava, durante todo o tempo que durou a minha dolorosa ausência.
Por acaso pensei que, quando voltasse, um dos dois outros já teria saído do lugar onde estava, e que me facilitaria a manobra de saída a mim. Se assim pensei, assim não fizeram eles, pelo que foi praticamente tão extremamente difícil retirá-lo como colocá-lo havia sido. 
Encosta ao de trás, encosta ao da frente, toca atrás, toca à frente, bate atrás, bate à frente, e pumba!, boi batido em retirada.
(Acho que os três carros sem um risco, quanto mais uma mossa.)


23/10/2015

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 30

Nem a lado nenhum.
Perco o carro. Deixo de saber onde o pus. Eu sei que não sou única, porque, se reparardes bem, um parque de estacionamento de centro comercial ou de hipermercado, parece sempre um antro de zombies, ou uma espécie de limbo, cheio de almas penadas — mais mulheres, convenhamos (porque também vão muito mais a esses lugares. Só hoje, éramos duas, se não contarmos que eu estava acompanhada pelo rapaz mais giro que conheço, e que fui eu que fiz) —, ou uma coisa tipo o cenário do Thriller do Michael, aquele defunto que eu defendo estar mais vivo do que eu, mas isso sou eu e a minha mania da teoria da conspiração, que vergonha, que até acho que o homem Armstrong não pisou a lua, mas isso ao pé dos que acreditam na inocência do outro que esta semana saiu que nem um passarinho, não é nada. Tem piada, foi uma semana de debandada, de saída em massa e com massa (esta não fui eu que inventei, mas é tão boa que não resisto. Cá beijinho, querida, tenho tanto orgulho quando penso que fui eu que te fiz, também.)

retirei do Thriller, pois
Enchi o saco (quase, quase na acepção brasileira da expressão) de coisas pesadas, de entre as quais se contava um pack de dez minis. Para não sobrecarregar demasiado o saco, entendi por bem pôr as minis à parte, para distribuir os pesos entre o rapaz e eu (que, nesta história, fazia ou de velho ou de burro). Ele, que é um cavalheirinho, ofereceu-se para levar o sacão pesadíssimo, com o argumento que não queria fazer figura de alcoólico, pelo que coloquei as minhas minis debaixo do braço, assim à anca, como um leitão (ai, não me falem em leitões...), e "Ah, pois, preferes fazer figura de filho da bêbada", e ala para o parque.
Era eu de mini-grade de minis ao sovaco, e ele a carregar um saco que mais parecia que levava lá um morto não vivo dentro, que não foi um momento nada fácil. Não sei explicar como é que perdi o carro, pois se acho que desci pelo mesmo lado e saí pela porta por onde tinha entrado, o raio do boi não me aparecia nem se eu rezasse às alminhas (cruzes, que hoje estou tão tétrica). Entrei em desespero e implorei-lhe que trocasse de pesos comigo, ele lá cedeu, ficou com as cervejas, eu com o saco do morto, mas continuei a fazer de velho ou de burro nesta história, porque ele não despiu a casaca de rapaz (ou era uma t-shirt?). Só sei que cheguei a amaldiçoar a p. da genética, e a lamentar que ele fosse tão, mas tão igual a mim, e que tivesse exactamente o mesmo sentido de orientação e memória para fixar minudências da m., e que tenhamos chegado a um ponto em que já tínhamos perdido não só o carro como também a calma, a cabeça, e nós próprios — estávamos perdidos. 
Foi quando me lembrei que, aqui há uns largos meses, senão séculos, um dos meus grandes môres que frequenta aqui o buraco me disse que, para a próxima, usasse o truque da chave: quando achasse que estava próxima do carro, accionasse as portas, a ver se via as luzes a acender. E foi o que fiz. Ele estava, vá, debaixo do meu nariz. E quando fez traque e flash, olha, porra, quase chorámos de alívio. Tenho que agradecer, não sei a quem, ter-me ensinado esta magia, que valeu que hoje não tenha tido que voltar a pé para casa, carregada daquela maneira, ou, pior, para aliviar a carga, a ver-me obrigada a ir bebendo as minis pelo caminho.
Mas, afinal, encontrámos o burro, o rapaz e eu.


02/09/2015

Meu querido boi

Foi para o estaleiro, o meu boi, como já vem sendo costume com demasiada frequência nos últimos meses. Pode estar a gritar-me "Estou velho, pá!", e eu não o ouço, para não ter que lhe gritar de volta "Também eu, pá!".
Foi a arranjar os riscos que o vizinho lhe fez, daquela vez. 
Estou a pensar seriamente em iniciar um modus vivendi inovador, que seja por conta dos meus vizinhos, uma vez que o risco já foi corrido, concretizado na chapa do meu boi. Esta semana recebi mais um caixote de hortícolas do Horácio, e este arranjo paga o Paulo, que foi quem provocou o desarranjo bovino. É desencantar um vizinho encantado, que seja gasolineiro, e tenho a minha auto-subsistência heteronimamente garantida.
Mas vamos a factos: ando há três dias com um carro de substituição, e isso é dramático. 
Deixar de ter via verde, por exemplo, é perder automatismos vários, como, por exemplo, o da entrada em parques de estacionamento. Ontem desci a rampa de entrada num, lembrei-me que tinha que tirar bilhete, mas não sabia abrir o vidro, para deitar a manita de fora. Não encontrava botão, alavanca, manivela ou corda de saltar na porta do condutor, e não me lembrei de ir procurar ao tejadilho nem ao pé dos pedais. Preparava-me para abrir a porta e sacá-lo exactamente como faria se fosse montada num carro de bois, quando alguém que não eu me disse que o vidro abria no botonete junto ao travão de mão. Olha que grande porra de bom jeito que aquilo faz ali, naquele sítio. 
Hoje precisei de passar uma portagem, por duas vezes. À ida, tranquilo, apanhei uma portageira simpática que, basicamente, fez o serviço todo. No regresso, apanhei a caixa automática, que me gritou, a mal educada. Fiz tudo bem, e ela gritou comigo na mesma. 
PAGAMENTO EFECTUADO.
AGUARDE PELO COMPROVATIVO DO SEU PAGAMENTO.
NÃO FALE AO TELEMÓVEL DURANTE A CONDUÇÃO.
[E eu ali, de gesso, à espera que ela — é claro que era uma ela — se calasse e abrisse a cancelinha.]
PODE SEGUIR VIAGEM.
BOA VIAGEM E BOAS FÉRIAS.
Isto tudo aos gritos. Arranquei de vidro ainda aberto, quase jurando que a deixei a gritar-me mais ordens.
PÕE O CHAPÉU.
NÃO FUMES.
NÃO BEBAS.
VAI TOMAR BANHO.
TEM CUIDADO A ATRAVESSAR.
BEIJINHOS!
Chata do genital.

27/08/2015

The girl next door # 3

Eu coloco, não, eu deposito, não, eu meto o carro num lugar de garagem, que foi o que a permilagem e o genitagem me distribuíram, cujo tamanho só não é igual a zero porque o meu carro cabe lá dentro dos contornos. Porém, porque de um lado tenho uma coluna e, do outro, fica o lugar de um vizinho que também deve ter uma permilagem assim do calibre da minha, mas tem um carrão mesmo à gajo, faço a manobra toda, pelos corredores claustrofóbicos e com mais curvas do que eu, de maneira a que o meu boi fique ali quieto, ao lado do gnu dele, mas que possamos, ele e eu, sair dos nossos bovídeos sem termos que fazer apneia, nem roçar os nossos corpos pelo animal do outro, limpando-lhes a pintura ou provocando-lhe algum risco com a braguilha das calças, nomeadamente se for ele no meu, que eu cá sou menos de braguilhas e, até ver, os vestidos não as usam. Assim, encosto o bicho o mais que posso à coluna, corro riscos de o riscar, e deixo-o ligeiramente chegado à frente, para que tenhamos mais abertura, um e outro — isto sou eu a falar de portas —, e também para que a porta da frente do meu não pique a pintura do dele, que aquilo parece mesmo um corno, tem ali um verticezinho que é um chifre da tourada à espanhola, todo em pontas, olé, mal me descuido e lá o vizinho tem uma cornada na pintura. Não se faz, e eu preocupo-me, capaz até de me tirar o sono, pois tudo mo tira, cambada de gatunos. Mas não posso fazer nada quanto à porta de trás e aos ímpetos da juventude dos meus passageiros. O boizão do vizinho tem vindo, ao longo dos tempos, a sofrer uma, duas, dez, talvez vinte marradas da porta de trás do meu garraio, o que, pese embora o ter tornado um charmoso modelo personalizado, há gostos para tudo, e o dono pode não gostar desses gostos. 
Por um lado, achei cavalheiresco que não me tenha deixado um recado explícito no para-brisas. Mas, por outro, quando vi os cartões com que ele forrou a lateral e a roda (wtf? Eu nunca lhe rocei a roda, olha a intimidade!), fiquei um tudo-nada apreensiva, a pensar se o cartão maior não conterá uma mensagem subliminar. 


Acham que é seguro ir lá escrever por baixo qual é o meu sonho?

17/06/2015

O meu boi e eu, num 'Regresso ao futuro 5'

Este cartaz encontra-se pespegado num outdoor de quem vem do Oriente e vai para os Olivais, nesta cidade.


Estava eu ali parada, como quem não tem nada para fazer na vida, mas até tinha, estava era o semáforo vermelho, que não me deixava avançar, e pode ter sido essa conjugação de factores que me toldou as vistas, o pensamento e o raciocínio lógico a uma só vez, porque reparai: vinha do Oriente, provavelmente, do Médio Oriente, na direcção dos Olivais — oliveiras, oliveiras, ao longe são olivais, por muito que tu me queiras, eu ainda te quero mais, ó és tão linda —, tinha acabado de marrar com o vermelho, e tive aquela visão, que, ó pá, desatei a ter flashbacks, e a pensar que tinha, por efeitos das avarias várias do meu boi, voltado ao passado uns bons dez anos. — Sim, eu sei, é triste viver de ilusões, mas tu foste a mais linda história de amor que um dia me aconteceu e recordar é viver? — Só estava ali parada e parva, sem conseguir perceber se me tocava o papel do Marty ou do Dr. Emmett, mas, a avaliar pela expressão do meu rosto, julgo que a decisão estava tomada pelas criaturinhas do inferno que me haviam colocado ali, àquela hora, a contemplar semelhante obra de arte. Instintivamente, por mera necessidade de protecção da espécime (rara) que sou eu, desatei a rezar, pedindo a todos os anjos e santos que não tenham sido os proventos dos meus impostos que, mais uma vez, alancaram com a despesa daquele quadro impressionantista e dos devaneios do modelo que o inspirou.


Depois abriu o verde, revesti-me de esperança e avancei, desacordada, mas acordada.

28/05/2015

Bebo uma mini e fico assim

Soube há pouco que o mediador deste lar fez uma simulação de um seguro para o meu boi, a ver se abatia, não o boi, mas a carestia em que ele vem ficando, por conta das maleitas que o assolam, ora ao nível das correias de distribuição, ora ao nível dos pneus, ora ao nível dos cilindros, ora ao nível dos pistons, isto tem sido um arraial de porrada (como dizem lá naqueles sítios) na minha carteira Tous, que até me tenho arregalado em termos oculares, e ela magra-magra como um cão. 
Vai na volta e, surpreendentemente, não sei se mais para ele do que para mim, a simulação, dissimulada, deu, oferecido de mão beijada, como resultado, que até parecia uma lotaria daquelas da roleta russa, pum, já morreste, que, e muito cavalheiristicamente, por se tratar de uma condutora do sexo (tântrico ou à bruta) feminino, o seguro fica, como é que hei-de dizer isto sem parecer que sou burra?, mais caro. Não é mais querido, é só mais caro, mais dispendioso, menos em conta, mais oneroso, menos bagatelas. 

No Grupo Novo Banco Seguros, o mesmíssimo seguro, é mais caro — não sei explicar isto melhor, mas saem-vos mais moedas do porco — se o condutor tiver pipi em vez de pilinha, mesmo que esta seja microscópica ou já tenha sido decepada por alguma daquelas chinesas vingativas, que os apanham a dormir e zás, rente. Genitais.

Por outro lado, descobri hoje que existe uma marca de combustível que responde pelo nome Optima, e que não cedeu o nome ao manifesto, às balas, à tentação e ao acordo ortográfico, embora lhe falte o acento, mas é que não se pode ser boa em tudo, quanto mais óptima, eu que o diga.

*

Vou passar a abastecer-me na Optima, por uma questão de feliz e alegre associação de ideias.
Resta-me procurar no mapa onde é que elas andam mas não mordem, e, nem que tenha que fazer 30 quilómetros para meter dez euros de gasolina, acredito que valerá a pena.
Não sei porquê, liguei um assunto com o outro.
Acho que foi um anagrama daqueles meus: Mulher — Incapaz — Estúpida — Óptima — Optima — Gasolina.

* Ninguém me paga para isto (mas estou aberta — chiu — a propostas).

01/05/2015

Notícias do meu boi # 2

Isto rala-me.
Custa-me, porque me afeiçoo às coisas da mesma forma que me afeiçoo às pessoas: entrego-me e dou-me, crio relações de dependência emocional - não confundir com obsessiva ou paranóica -, das quais, em correndo de desfeição, saio sempre partida, estilhaçada, ou, no mínimo, lascada. Às vezes, mesmo destruída, pelo que me vejo na contingência de, lentamente, soerguer-me, colar os cacos todos, com maior ou menor vagar, com cola de melhor ou pior qualidade, e seguir em frente, umas vezes cambaleante, coxeante ou ziguezagueante, ainda outras de cabeça levantada para trás do nível da ogiva, mas lá vou eu, que o caminho é em frente e atrás vem gente, que é como dizem as pessoas. Acontece a cola ser reles e descolar-se ao fim de pouco tempo, e lá vêm as dores da quebra lembrar-me que fiquei mal colada e, ou dou tempo ao tempo e deixo-me ficar, novamente a catar cacos, mas à espera de melhor cola, ou persisto em retomar caminho, perdendo bocados por ele afora.
Custa-me ver as pessoas envelhecer - egoistamente, mais a mim do que aos outros, não sei porquê -, assim como me custa ver as coisas envelhecer.
Logo eu, que tenho a teoria de que, se nem as pessoas são eternas, apesar de o serem, as coisas não têm que o ser, e não são mesmo.
Mas estou a cometer uma má despedida, o tal crime imperfeito para que sou incapaz. Nem para criminosa sirvo.
E entenda-se que isto de chamar boi ao meu boi é um reflexo da ternura que eu lhe verto, em muito maior quantidade e francamente mais líquida do que a gasolina que ele me suga a uma velocidade que não se compadece com as velocidades que ele não atinge. Imagino que, em troca, por questões de reciprocidade amorosa, que é a que desagua em felicidade plena e se quer em qualquer relação a dois, ele me tem por a minha vaca, isto, se for totalmente justo - dentro dos critérios de justiça bovina -, embora reconheça que, sendo-o, só posso sê-lo, se for do tempo das vacas magras. 
O meu boi está velho. Apesar de belíssimo, tem muitos anos. Em tempos idos e áureos, foi uma grande maquininha, mas está demente e cheio de artroses. Apesar da idade, não tem muitos quilómetros nos cascos, o que, no entanto, não lhe retira o desgaste e o cansaço do asfalto. 
Há bem mais de um mês, o meu boi começou a tremer e a fazer estranhos ruídos, que indicavam, senão fatalidade, pelo menos qualquer doença - que, como todas, pedia cuidados. 
O médico-veterinário-mecânico, não fora esta terceira especialização do ofício oficinal, teria dado conta da maleita ao primeiro contacto e ao primeiro olhar, que é o que fazem os especialistas da saúde de pessoas e bichos e os grandes apaixonados. Mas este, apurado nas artes do bom ludíbrio, como julgo ser grande parte da classe, diagnosticou velas queimadas, como se o meu boi fosse algum peregrino e houvesse estado em cumprimento de promessa algures, em santuário que não fez parte de nenhum dos meus percursos. Assim lhe pôs candeias novas, assim ele persistiu no comportamento de chaleira ao lume, com a clara desvantagem de não me produzir sequer tisana chalada, quanto mais chá a sério, para ser bebido por pessoa a sério, e séria. 
Tornou o boi ao hospital dos bois, estaleiro do meu barquinho que me dá as asas que servem para voar. 
Diz que, agora, é um dos cilindros. 
Quase aposto em como, quando não encontrar mais razões para a decadência física do meu boi, o especialista, para se poupar a maiores e mais altas figuras da sua incapacidade de salvador, ou para me poupar a mim a maiores e mais altas figuras de incapacidade para perceber o fim das coisas, me atira com a desculpa caldeirão, onde tudo cabe, que é a centralina. 
Eles acabam sempre por falar na centralina.
Eu só quero o meu boi de volta - e continuar o meu caminho, em frente, que atrás vem gente.

21/02/2015

Notícias do meu boi

O bicho leva cascos especiais e difíceis de encontrar. Tem a mania que é diferente. Levou os dois da frente novos, porque só um podia fazê-lo desequilibrar-se.
O meteoro bateu-lhe por baixo, também, junto à protecção do motor. Podia ter furado. Podia ter dado no ratere. Podia ter partido o eixo. Tudo isto, segundo o mecânico, que, como é sabido, é catedrático no que nos podia ter acontecido, mas, afinal, não, e, mesmo que tivesse acontecido, estava cá ele para remediar e esmifrar-nos a carteira com igual dedicação.

A mim, na minha incomensurável ignorância, e infinita bondade, basta-me saber que não projectei a pedra contra ninguém.


Recuperei as asas, com os cascos novos do meu boi.

De qualquer maneira, não seria isso que me impediria de ir matar as minhas saudades.
Que eu, quanto a essas, sou uma assassina sanguinária.

20/02/2015

Quando Murphy te quer uder, ode-te de qualquer maneira

Estás com a gasolina à pele. O ponteiro encostado, o aviso à mostra, impossível não dar por isso de cada vez que ligas o motor, porque ouves aquele piiiiii.
Tens uma bomba de gasolina a 1,5 km. Se não abusares da velocidade e do ar condicionado, ainda pode ser que lá chegues sem ter que empurrar o boi uns metros.
Estás à mesma distância de casa e, ainda com mais sorte, podes arriscar levar o carro até casa e pode ser que a gasolina dê para chegares à bomba amanhã de manhã.
Amanhã tens ginástica às 9:30 e estás farta de correr para chegar a horas à aula.
Decides ir meter gasolina, para teres menos uma porrinha amanhã de manhã.
Pisas uma pedra pedregulho rochedo meteoro e o pneu da frente rebenta.
(Só não fez bum. Só não explodiu. Mas a jante ficou logo a lamber o asfalto)
Os 500 metros que faltavam para chegar à bomba e os 1500 que distam da bomba a casa foram feitos a quatro piscas e em primeira.

Se eu não tivesse ido meter gasolina, não rebentava o pneu.
Se eu não tivesse ido meter gasolina, amanhã empurrava o carro até à bomba.
Com o equipamento do ginásio vestido.