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08/11/2025

A minha casa está cheia de saudades

Andam pelas paredes, arrastam-se no chão e no tecto, uivam quando abro uma janela, e quando a fecho, transbordam por qualquer frincha que haja, por baixo da porta da rua, rodopiando de tristeza no quarto dele, dando murros no lugar dele à mesa, estão os mesmos lençóis na cama, não me atrevo a tirá-los de lá, a argola do guardanapo abandonada e vazia, o cheiro dele nas almofadas, o abraço dele em lado nenhum, anda a gata aos gritos pela casa, “Gonçalo! Gonçalo!”, vê uma mala de viagem e fica de sentinela, depois a mala desaparece, como desapareceram as dele há um mês, e não arreda do local onde a mala esteve, até que desiste e vai miar-lhe o nome para a cama, adormece comprimida de desilusão e falta, eu engulo um rio de lágrimas, que as saudades não me deixam em paz.
(Outro dia, arranhou-me os braços, nunca tinha sido assim atacada por um animal, há de pensar que lho escondi, quem me dera ter sido isso, pelo menos as saudades já não abarrotavam a minha casa. Mas ele também não estaria tão feliz e tenho que lidar com isso, foi para o que o preparei, despreparando-me.)
Vemo-nos no Natal. Isso é daqui a quantos meses?

03/09/2025

Eu agora perco

Acho que nunca fui roubada na vida, que me lembre ou tenha dado por isso. Perco coisas, mais do que pessoas, e só faço esta comparação porque, torturada com a crítica de que guardo tudo, mudei para o lema seguinte: Se as pessoas acabam, por que é que as coisas não hão-de acabar? Assim, tornou-se mais fácil deitar fora tesouros antigos, inutilidades queridas, coisinhas que ainda poderiam vir a fazer muita falta, mas que depois, não sei porquê, nunca fizeram. Perco coisas dentro de casa, de tal modo, ainda assim, tenho gavetas e móveis atafulhados de tudo o que só eu gosto, porque escolhi, porque usei em acessos de alegria e festa, porque não servem a mais ninguém, toda a gente é magra, toda a gente é gorda no meu país das maravilhas. Mas também ofereço às filhas, ponho à venda — e vou ao Correio com aquela falta de ar das despedidas —, dou à que fala muito, meto nos contentores — lavado, passado a ferro, dobradinho num saco fechado como um presente —, ou encafuo no lixo, mesmo a rasgar o fundo do saco, que corresponde ao diabo que o carregue, quando estou na raiva, porque já não serve para nada, deu-me azar, só teve utilidade para chorar um dia, nem para trapos terá serventia. Assim, estou convencida de que as minhas coisas ganham perninhas em casa, algumas delas não gostam de mim, outras estão num tédio que querem lugares mais arejados e gente mais viva do que eu, e então partem, para não mais voltar, pois jamais as revejo. Na rua, tenho a certeza de que ganham asinhas, caso contrário teria encontrado aquele brinco que perdi na praia este ano e, horas volvidas, lá fui ver dele, só me faltou peneirar o areal todo, mas sei que só não o encontrei devido às asas ou então ficou debaixo do rabo de alguma pessoa estendida ao sol e depois o mar levou, que é onde ele será mais feliz. 

Vinha aqui contar que este ano já tomaram outros caminhos um par de óculos de sol — que eram o meu amor amado sob a forma de óculos, estive a isto de chorar, foram tão caros, tinham dez anos, as melhores lentes que algum dia usei, não me escorregavam pelo nariz abaixo, tive que correr o globo por uns iguais, nem a marca já tinha reservas, lá fui ao mercado dos aflitinhos e zás, um quarto do preço de há dez anos —, o tal brinco, um anel fininho de prata pelo qual sentia bastante simpatia porque representava o ciclo da vida — foi o que me disseram na loja e eu engoli, a pensar "Mas o que raio é o ciclo da vida? E por que raio tenho eu que o amarrar ao dedo?", quando na verdade eu gostava era do anel no meu dedo pequenino e até já comprei outro igual, também sumiu do meu radar outro anel igualmente do ciclo da vida [she´s a maniac], mas mais pequeno, um ciclinho, uma vidinha, que a que fala que se desunha encontrou numas luvas de nitrilo que eu tinha usado para fazer o bolo de aniversário do meu bebé, que olhem, não tardam muitos dias, vai para longe de mim, não sei o que será feito de mim, se calhar perdida, não sei como vai ser ele longe e eu cá, a perder coisas, paciência, desde que não perca pessoas, está tudo na boa das saudades infernais.


06/11/2024

A gata e ele

O meu menino azul, de olhos copiados do meu pai —, mas grandes, grandes —, que me olham, agora já só de vez em quando com aquela luz de deslumbramento que era plena quando no berço, começou há um par de anos a sacudir as peninhas e a abri-las em ensaio de voo, coisa que percebo pela maior escassez dos abraços primeiros, que vinham sempre depois das minhas tempestades. Disse um dia, há muitos meses, que queria ir de Erasmus, e eu atónita, como se ele ainda estivesse dependente da minha opinião, autorização ou dores muito maiores, perguntei, nunca saberei se a brincar: “A mamã pode ir contigo?”. Também nunca saberei, talvez nem ele, da seriedade da resposta: “Podes.” 

“A gata vai morrer de saudades tuas.”

Agora prepara afincadamente a candidatura para um mestrado longe de mim o suficiente para que não possa amparar-lhe alguma queda, pois imagino que sente as asas fortes e a desnecessidade das minhas mãos. Longe de casa, longe da gata. Há pouco avisou-me que vai para ficar, porque aqui não há nada.

Deita-se na cama, acabado de chegar do treino, a gata corre-lhe para cima do peito, ele afaga-lhe o dorso e ela fica num transe amoroso, a olhá-lo nos olhos, enquanto ronrona. É a imagem dele, pequenino, deitado sobre mim em êxtase perante a perfeição que já perdi. Diz ele exactamente o que penso naquele instante: “Não sei o que será desta gata quando eu me for embora.”

A gata vai morrer de saudades dele.


12/12/2023

red velvet

A doença envelheceu-te muito, diz-me ele à mesa, onde fica a maior parte do tempo calado, apenas atento. Está ao meu lado esquerdo, quero ver-lhe os olhos — os mais lindos que já vi, para além dos outros três pares — para perscrutar-lhes a emoção de, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele dentro da minha barriga, comentar qualquer coisa de negativo em mim. Por breves momentos, pensei “Não cortes o cordão que, na verdade, é uma corrente de ferro sem aros abertos, não existe ferramenta para tal”. Nesta pausa, ele retomou sem precisar de novo fôlego, e então compreendi que não era uma crítica, tão pouco um dito momentâneo para me magoar ou provocar — que jamais esperaria vindo dele —, e sim só uma constatação de facto: a doença envelheceu-me, cansou-me, desalegrou-me, levou-me aos píncaros da tristeza. E fisicamente, achas que também? Ele em consciência, breves segundos de impasse e, sem olhar para mim, caso contrário talvez me dissesse a verdade que custa a todas, “Não”. Não. Não me mentiu, simplesmente desarredou subtilezas femininas desimportantes. 

Fiz anos há umas quantas semanas e queria soprar as velas num bolo red velvet. Porém, em casa mais ninguém concordou, a não ser ele. Bolo delicioso, cor de sangue, sangue do meu sangue foi comprar os ingredientes, meteu-se umas horas na cozinha com aquele par de mãos que são as mais bonitas que eu já vi — para além dos outros três pares — e, no final, apresentou-me o bolo do meu capricho — ou do meu sonho guloso —, onde espetei as velas e cantámos todos a um ritmo alucinante, impróprio para aniversários. Houve abraços e desejos de muita saúde e houve também a prova de que nada me envelhece. Nem quando eu já for velhinha — se lá chegar —, enrugada e encolhida, haverá sempre aquele olhar que, com a desculpa de que me vê todos os dias, não me verá envelhecer.


31/01/2023

Esvaziada

Dizem eles que isto é o “síndrome (ou fenómeno? Ou dor?) do ninho vazio”, que sabem eles do que significa o momento em que o teu primeiro amor pequenino sai pela porta da casa que a viu crescer dentro de ti, parece mesmo que choram as paredes, e tu agora a tremeres das asas que a envolvem, ela tremendo as asinhas aninhadas nas tuas, saiu de ti e coube sempre inteira nos teus braços, que hão-de ter esticado ao longo do tempo, ambas sem saberem muito bem como — e também porquê — segurar o que os olhos teimam em deitar, vai agora experimentar o Mundo sem que possas picar o teu voo para a apanhares se ela for a cair, sem os beijos da noite e os sorrisos estremunhados da manhã, vai também ser feliz no ninho que construiu com mérito, talento e esforço, devias estar a rir, e até estás, há um peito cheio de ar puro, orgulho e boa esperança imediatamente abaixo dessa garganta apertada de medo e saudades, já.


31/08/2022

Entrelaçados

Vi-os primeiro de costas, caminhando pela sala de espera dos tratamentos, as mãos dadas com os dedos entrelaçados, havia um amor na junção da pele dos dois,

parecem namorados

mas alguma coisa me disse que talvez mãe e filho, uma diferença pouca, 

se calhar teve-o com quinze anos

E depois, tão parecidos, os namorados nunca são parecidos, as mãos iguais que não se largaram, e então senti que estavas ali comigo, as nossas mãos iguais e dadas, entrelaçadas, nós, que somos mais de abraços, o teu abraço que vem sempre, o teu abraço que é sempre o primeiro, naquele dia “carcinoma”, veio logo, inteiro e meu, também já vi pérolas de vidro a saírem dos teus olhos desde aí, tu lembras-te de eu te agarrar o braço já adolescente e pedir a brincar, na rua, “Vamos fingir que somos namorados?”?, e tu “Oh, mãe…”, a soltares-te sem convicção nenhuma, olha, hoje lembrei-me de nós naquelas duas mãos dadas, sei perfeitamente que ali estavas também, como estás há exactamente vinte e dois anos abraçado a mim. Meu pequenino, meu amor tão grande.



18/06/2022

Nunca digas nunca

Foi durante aqueles dias de calor, a praia que este ano me está proibida — mas já lá estive, sentada sob o guarda-sol, de chapéu na cabeça e besuntada como um peixe (fora de água) para assar, juro que só pus os pés metade do corpo no mar uma vez, e nem mergulhei, olha, para o ano posso pedir seis desejos, paz, saúde, alegria, beleza, dinheiro e chocolates, não necessariamente por esta ordem —, que saí à rua e a canícula ia-me fritando os mióis, Natércia transformada num capacete de ferro daqueles que se colocam nos condenados da cadeira eléctrica, só lhe faltavam os fusíveis, achei mesmo que ia electrocutar a caixa craniana, então cheguei a casa e arranquei-a. Perguntei para o lado da casa onde se encontravam todos se preparados para me verem sem Natércia, o uníssono positivo, surgi então cheia de medo e alívio, mas sou tão parva e amada, a primeira reacção veio dele, não que goste mais de mim do que os outros, mas porque é mais rápido no gatilho, mesmo à macho, @s não binári@s que não me escutem, fui eu que fiz este homem que me enche sempre de orgulho e afecto, o primeiro abraço vem sempre dele, como naquele dia em que mandei mensagem para o nosso grupo com a palavra carcinoma, depois também naquele outro em que a palavra era remissão, disse ele: “Tão bonita”, com os olhos escuros e enormes que guardam a comoção dos do meu pai, para logo desmontar a “fraqueza” e acrescentar “Pareces um kiwi”. A mais velha, minha primeira vida, “Pareces uma actriz, ou a Sinead O’Connor”, a mais nova, “Que pausada”, o pai deles todos, “Pelinhos [meu mais recente petit nom], estás cheia de pelinhos na cabeça”. Foram seis meses a esconder o que estava por baixo da cabeleira, agora acabou também isso. Fiz o que disse que nunca faria.


23/01/2022

Braços de anjo

Já durmo, por isso devo estar a sonhar, quando à noite vem um anjo arrumar o que deixei à solta da minha vida terrestre: tira-me os óculos, põe no lugar os comandos da televisão que não vi, e então dá-me um abraço inteiro, em que me toma nos braços que tomei eu desde o primeiro dia para o alimentar de mim, segurando-me a cabeça com uma das mãos, pouco lhe importando a falta do cabelo, que eu lhe escondo numa touca, por vergonha e amor, e que ele ignora, por sabedoria e amor.


22/09/2021

Às vezes, também eu vivo no limite

Rosinha, minha canoa, transmutou-se, por motivos não óbvios, mas vários, num carro partilhado do lar que acolhe estes ossos que agora aqui escrevem. Meu boi envelheceu drasticamente, talvez nem seja possível arranjar-lhe novo dono, encontrando-se apenas à espera que um meteorito venha dar-lhe paz, o que pode nunca vir a acontecer, pois está jazendo na garagem.

Depois, acontecem episódios destes: pessoa humana liga a ignição de Rosinha, toda lampeira que vai dar um giro, e lê o sinal de falta de combustível. Havia emprestado a viatura a uma das crianças durante a manhã, ou melhor, um dos consortes havia feito uso do bem comum. Quando aquele sinal se ilumina, costuma carregar lá no botão que avisa quantos quilómetros ainda pode percorrer sem ficar apeada de colete reflector vestido e ar compungido numa qualquer estrada da vida. Digamos que deu 0. Zero. Dava para, tipo, minha gente, zero. Zero mais zero, é igual a zero. Podia, em suma, ligar o motor e ficar dentro do carro estacionado, à espera que ele se desligasse naquilo a que os antigos chamavam o peido mestre. 

Raciocinando soluções, ir buscar um jerrican de gasóleo era qualquer coisa de impensável: as quatro bombas mais próximas, equidistantes, todas a mil e quinhentos metros: uma a direito, duas a subir, outra a descer. Três mil metros de saltos altos não me pareceu fazível, pelo que se está mesmo a ver qual das quatro escolhi: se tudo falhasse, era destravar Rosinha e weeeee, lá vai disto. Pois, porque empurrar a coisa, lá está, de saltos altos, nem falecida, quanto mais a vender saúde. 

Enfim, ar condicionado desligado, vidros abertos, um quilómetro e meio de rezas e algumas promessas — nomeadamente, “Apagas-te agora e nunca mais levas Evologic” —, transgressão muito bem efectuada com vista a atalhar caminho, lá levei Rosinha até à manjedoura com tranquilidade. Para ela, porque a pessoa condutora ia nuns nervos tais, que desconhece ainda hoje como é que não entrou em auto-combustão, agravada pela profusão, no local, de combustível, passe o pleonasmo.

Ainda não foi desta que estreei o colete (tamanho XXL, não acho normal. Terei que lhe fazer uns ajustes e personalizá-lo com um cinto, ou assim), nem tive que adoptar aquele semblante de vítima do infortúnio.


11/09/2021

Onde andavas tu?

Em casa. Nesse tempo, eu era feita do material de uma bolha protectora. Tinha um bebé com um ano, que tinha acabado de almoçar e estava a deitá-lo para a sesta. Tinha uma menina com dois anos e meio, uma com quase cinco  — que tinha rachado os queixos dias antes e não parava de pular (ainda hoje, minha cabrinha Mimi) — e uma com quase sete. O mundo mudava lá fora, mas, não fora o telefonema de uma comadre das minhas, e não teria sabido de nada. Desconheço por quanto tempo mais duraria a minha ignorância, mas estou certa que, se soubesse o que sei hoje, nunca teria deixado rebentar a querida bolha.

(Curiosamente, o dia 11 de Setembro estava — e está — gravado no meu coração como a DPP de abertura e encerramento da minha maternidade.)


30/07/2021

And that awkward moment # 63

em que, após ter feito a encomenda das lentes de contacto para as crias (que, em quatro, só uma saiu à mãezinha nojolhos, que coisa tão matematicamente — e economicamente também — mal distribuída), e porque as ditas demoravam a chegar ao lar, contactei o site, entabulei conversações com o responsável via telemóvel, que me explicou que uma das caixas (para astigmatismo) estava a atrasar a encomenda toda por motivos de ruptura de stock. Sugeriu-me, então, que aceitasse a substituição daquelas por outra marca, igualmente boas, eventualmente até de melhor qualidade, e eu ai que sim — após ter exposto o problema à criança — mande lá as outras. Impôs-se-me então a premente questão:

- Ó Sr. Fernando, por favor diga-me se há alguma coisa a pagar pela diferença de preço entre as novas lentes para astigmatismo e as que eu tinha encomendado.

- Ó Sra. D. [Linda], a senhora fique descansada com isso, não se preocupe, que estas que lhe enviei agora até são um bocadinho mais baratas do que as outras. 



26/07/2021

Bem Bom
Se acharem que é spoiler, é não lerem # 14

Estranha forma de vida, esta agora.

Fui ao cinema na véspera do início da quarentena, e fui também no primeiro dia após confinamentos vários. Calhou ir às mesmas salas — Cinema City — e, de ambas as vezes, estar só minha companheirinha e eu. Honestamente? Prefiro assim. Nada de cabeçudos à frente, irrequietos do coice nas minhas costas atrás, faladores, gente que não se lava, hiper-perfumados, roedores do milho estalado, namorados excitados e idosos ressonantes. (Acho que não me esqueci de ninguém.) Eu também como pipocas, está bem? Mas tenho o cuidado de morfar aquilo tudo (chamar "pequeno" ao pacote menor é meramente metafórico, não é?) antes de o filme começar (pub indesejada e trailers à martelada em barda!) ou durante as cenas mais ruidosas (entendam o que e como quiserem) do filme.

Dessas duas vezes que refiro, pudemos escolher se queríamos publicidade ou não (adivinhem), trailers ou não (foi sim. Eu queria comer o bidon de pipocas, apesar de estarmos só as duas), e ambas queríamos relaxar as quatro pernas nas costas das cadeiras defronte.

Desta vez, sala só não cheia derivados das contingências: fila sim, fila não, interditadas com fita fluorescente, não fosse a malta não a ver no escuro; nas filas sim, espaço de uma cadeira entre ocupadas e não ocupadas, a menos que se tratasse de pessoas do mesmo agregado/ grupo. Eu acho uma cadeira pouco, devia ser a fila toda para uma ou duas pessoas, no máximo. Não que sofra de receios covid, porque isso já era, mas porque, no fundo, sinto que agora é que a cena social está correcta: antes do vírus, andávamos cá todos a roçarmo-nos uns nos outros, e aos dois beijinhos uns aos outros, um exagero de contactos físicos que (espero que) acabou. Éramos apresentados a alguém que nunca mais íamos ver e logo dois beijos? Não admira que o vírus tenha singrado até sangrar.

Quanto ao filme propriamente dito, que é o que nos traz aqui hoje: Bem Bom. Mais nada. Pode não ser aquelas coisas em termos de luz, imagem, som — cinema português, é um estilo como outro qualquer —, mas consegue o que parece impossível, que é devolver-nos os e aos anos 80's — excelente reconstituição histórica — e, de uma vez por todas, desfazer o boato com a Laura Diogo. Já veio tarde, é certo, mas mais vale do que nunca. Coisa para ter detonado uma banda icónica, quatro carreiras e quase uma vida. 

Se eu não adorava as Doce — era muito miúda, queria ser assim, mas não bem assim quando crescesse —, pelo menos sabia (e sei) as letras das músicas quase todas. E lembro-me bem da prequela das Doce, que foram os Gemini, com duas delas (Fátima e Teresa) e dois dos produtores (Tozé Martinho e Mike Sergeant). Nessa altura, a pessoa humana era uma criança em idade escolar, mas cantava com alguma solenidade aquilo do prazer que uma criança nos deu. E não percebia, como ainda não percebo, a estrofe o acordar de tristeza ao ver as horas passar e o jantar frio na mesa. Alguém explica isto? Não é preciso, falecerei com a dúvida, mas muito obrigada na mesma. 

20/09/2020

Diálogos à sombra # 30

Não hajam dúvidas de que o sentido de humor é genético. Contava-lhe os apertos - literalmente - em que me meto, pelo meu próprio pé - de novo, literalmente:

- Ontem resolvi calçar umas botas que a tua irmã tinha posto de parte para deixar no depósito. Mesmo giras, ficavam-me boas, achei boa ideia calçá-las para ir jantar. No meio da pressa e da preguiça, nem meias pus. Olha, os pés deram em inchar lá dentro, que estava a ver que tinha que viver o resto da vida com elas nos pés. A do esquerdo ainda saiu, já a do direito, meu Deus.

- Consideraste amputá-lo?

- Isso, por acaso, não. Mas recortar a bota a toda a volta do pé, ou então ir buscar uns forceps, como num parto difícil, isso, sim.


11/09/2020

Superstições

Sabe-me supersticiosa, presa por crendices que não explico nem domino, nada com bruxas, galinhas ou sal grosso, tudo com as coincidências que a ironia da vida é capaz de enredar. Liga-me numa aflição, um sorriso de nervos na voz, insegura quanto ao que sente, “Olha, o ramo de flores em homenagem à miúda que morreu atropelada no Campo Grande está tombado, todo torto. Achas que dá azar se o endireitar? Pergunto porque, como sei que és supersticiosa, podias saber alguma coisa e que fosse melhor não mexer”. Eu, que já tinha visto que do ramo restava apenas um molho de flores secas, respondi-lhe que não, que a única coisa que poderia dar azar ali, seria passar indiferente ao ramo, vendo-o caído e abandonado, ou então aquilo mesmo: sentir a necessidade de prestar uma “homenagem”, por breve que seja, só de coração, mas perder a coragem a que mesmo as mais singelas obrigam. Louvei-lhe também a bondade, “Isso é tão bonito da tua parte”. 

Diz-me igualmente a minha superstição que ela anda por ali, na sua bicicleta, ou marcando pontos nas tabelas que foram a glória e a fonte de alegria da sua tão breve vida.


24/08/2020

Ditaduras

Coitadas das crianças que caem nas mãos de adultos vestidos de cordeiro. 

Quatro - duas mães, claramente irmãs uma da outra - e sete crianças, seis com idades entre os dois anos e meio e os seis, e um bebé de dois meses, que poderia (e deveria, diz-me a lógica materna) estar ao peito, mas isso é que nem pensar. Todos Franciscas e Tomáses, muitos fatos de banho com folhos e lacinhos, muitas regras e travões a fundo, alguns até sem nexo, oportunidade à vista (“sente-se ali”, “saia daí”, “não vá ao mar”, “vá lavar as mãos”, tudo um horror de não-tu, que não é o mesmo que o tratamento por “você”), ou razão de ser perante meninos e meninas tão obedientes. Um dos pais muito empenhado, em exclusivo, com o bebé, o outro um pai/ tio porreiro, aquela acepção que lhe permite brincar com as crianças, falar mais alto que os restantes, olhar em volta em busca de aprovação (ou mera plateia), usar cordão grosso com crucifixo ao peito, tudo ainda muito recente, muita primeira água, “Benedita, o que é que você quer?”, ao invés de “Benedita, o que é que a Benedita quer?”, ou “o que é que quer?”, ou “o que é que a menina quer?”, mas não podes tirar a aldeia do rapaz. 

Chegada a hora da refeição, uma das duas generalas alinha as crianças, saca de seis caixinhas plásticas de cores diferentes e distribui por todas, um conteúdo que nenhuma rejeita, parece-me cenoura em pauzinhos e panadinhos de frango, nada mau para refeições de piquenique, não fora repetirem-se dia após dia. E comenta uma delas, vitoriosa: “Este ATL funciona lindamente!”, enquanto dá mais ordens, “Esteja quieto”, “limpe a boca”, “acabe a sua refeição”, num louvável automatismo repleto de impessoalidade, seis pessoas tratadas como um todo, e vejam bem que, neste caso, não me parece nada que esse todo seja meramente a soma das partes: há seis cabeças diferentes, seis personalidades únicas, ali tidas como um grupo acéfalo, mas quem sou eu?

Notei apenas que, naqueles dias, não ouvi nenhuma daquelas crianças rir daquela forma que só a infância permite - e que alguns adultos, felizmente, conservam -, um riso gutural, solto e livre, vindo das entranhas e projectado pelos ares, que os meus ouvidos ainda guardam na enorme caixinha das saudades que é o coração. 


13/04/2020

primogénita

Nasceu em primeiro lugar, quem sabe se por acaso ou então por haver desígnios. Chegou pequenina, uma “amostra de gente” que se manteve assim mesmo até hoje - e até sempre, disso já terei certamente uma certeza. Em tanto me traz a minha mãe de volta, no tanto de melhor que tinha, até nisso do tamanho em altura e leveza, ambas medíveis com pouco mais de meia-dúzia de palmos, impossível medir-me eu aos palmos com qualquer das duas. Eu sempre demasiado grande perto de uma e de outra, infinitamente pequena se com elas comparada. Tantas vezes invertemos os papéis, sobretudo quando o horizonte se estreitou e os amanhãs da minha mãe foram deixando de existir. Deve ser isso o envelhecimento, essa troca inadvertida, suave e natural, em que um dia somos filhos dos nossos filhos, numa eterna dança que eles também dançarão um dia com os filhos deles. Talvez por isso mesmo, nestes dias de tempestade, em que as boas notícias tardam em chegar e são raras como milagres, quantas vezes ao pedir-lhe numa lamúria quase infantil, "Dá-me os números bons", foi ela, pequenina, os olhos enormes que perscrutam este Mundo inteiro e ainda o outro que é só dela, as duas mãozinhas agarradas aos meus braços, tão séria, tão mamã, "Hoje tivemos uma taxa de aumento de quatro por cento". Acredito fervorosamente que aqueles olhos enormes e aquelas duas mãos pequeninas interferem, lá naquele outro planeta que ela também habita, nalguma fórmula secreta de inversão da tal tendência, pois todos os dias, protectora, cheia de candura, toda ela feliz, me vem trazer os números bons.

04/02/2020

certezas

Uma semana depois de ter tirado a carta de condução, levou-me a jantar fora, bem sei que a convite meu, mas também a volante dele. Sentada no lugar do passageiro da frente, posicionada entre a surpresa e a comoção - o que fizeste tu ao meu bebé, que, embora o veja em ti ainda, uma magia tão rapidamente transformou num homem? -, vieram-me à cabeça imagens que já vi tanto, os filhos e as filhas a irem buscar as mães e os pais para um passeio num dia bonito, e então disse-lhe: Um dia também vai ser assim, eu vou ser muito velhinha e tu vais buscar-me para me levares a passear. Ele fez um daqueles silêncios que me são tão próximos, percorreu com os olhos incondicionais e eternos, primeiro o retrovisor, e depois os meus, e respondeu: Mas isso já está a acontecer neste momento. 
Foi disso que rimos juntos, eu ainda assim desconhecendo onde foi parar o meu bebé, mas também com a saborosa glória de ter dado, afinal, uma ínfima contribuição para a construção de um homem bom.

07/08/2019

Livro de reclamações

Só faltava o pequeno cartaz mandar-nos sorrir [está a ser filmado], mas dizia qualquer coisa como "aqui pode elogiar". Já estávamos na sala de espera há duas horas, e eu, obviamente, já tinha ido reclamar. Isto, ao fim de meia-hora sem termos sido atendidas. Falei em desorganização e falta de respeito, fiz saber que sei que a profissão de médico é a única que pode incumprir com horários, e também aquela em que esse incumprimento sai sempre impune de todas as contravenções. A funcionária que me escutou fez que sim com a cabeça, mais para me mandar calar do que por concordância, e, de propósito ou por distracção, ainda aumentou o volume à minha pequena ira, quando me mostrou o painel com as consultas da tarde, onde facilmente constatei que a pessoa das 14:30 estava a ser atendida naquele momento, isto eram 16:30, mais minuto, menos segundo. Concluindo, pelo menos esta parte, a doutora obviamente não havia chegado às 14:30 e nós iríamos - como, efectivamente, fomos - ser atendidas com duas horas de atraso. Só a mim não me saem empregos destes. A ver se na próxima encarnação não me esqueço de me meter na Faculdade de Medicina. (Estudasses.)
Quando entrámos, a dita doutora balbuciou umas desculpas mal enjorcadas, atirando para cima dos doentes anteriores o motivo do próprio atraso, É que sabe, as pessoas vêm para aqui desabafar, isto uma médica de músculos, ainda que fosse psiquiatra ou oncologista. Ou veterinária.
Então, a consulta demorou vinte minutos, nos quais couberam dois telefonemas das filhas da médica, porque uma se encontrava à porta de casa sem chave para entrar, a narração das maleitas do pai da senhora e uma declaração à boca cheia de que "Eu não sei ler ecografias porque não sou radiologista". 
Ai dela que se tenha lamentado ao doente seguinte do atraso dos anteriores, incluindo-nos, assim, na sua desarrumação mental. Estimo que lhe caia um dente da frente de cada vez que faltar à verdade de forma tão vil. E leviana.
E sim, pagámos a consulta, mas mais porque já passava da hora de lanche e queríamos sair dali para fora rapidamente. 
E não, esta não foi a pior médica que consultei na vida. [Palmarés para uma que também nos fez esperar duas horas - há aqui um padrão? - e, para além de me cheirar a suor - dela - quando entrei no gabinete, fiquei com a sensação de que nem à porta da tal faculdade passou, tamanho era o adormecimento em cima do teclado e a hipnose diante do monitor. Facebook? Pornografia? Desenhos animados? Valium? Nunca saberei. Mas também nunca teria sabido a solução para o que nos levava ali, se dependesse dela.]

05/05/2019

SEM AR MAR SEA SER MÃE


A combinação de letras, que forma a composição de palavras mais bonita de toda a cidade.


14/03/2019

se eu fizesse uma tatuagem

era à esquerda de mim, sobre a pele que cobre toda a área que fica entre a primeira e a quinta vértebras, o gradeado que protege como pode o coração, e pedia para me pintarem o contorno de um avião, e, dentro dessa linha, o número 8668, que é o exacto número de quilómetros que me separa da maior parte de mim, e isto sei porque agora, por uns dias demasiado largos, por temporadas futuras que não saberei contabilizar em horas, estarei aqui em estilhaços de mãe, aguardando que me volte sã, salva, e de novo minha. Há quem diga que os filhos são do Mundo, são da vida, oh!, que acertadas palavras que nenhuma mãe sente - os filhos são nossos, gerados e dados à luz por via directa deste que agora eu tatuaria de bom grado, assim isso ma trouxesse de volta mais depressa.