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17/10/2018

Agora nunca mais morria uma mãe

Desde a perda da minha, do núcleo estreito que são as minhas relações sociais, já saíram desta vida outras quatro mães. 
As mães deveriam adquirir imortalidade efectiva — não essa, a da memória, totalmente metafórica — no momento do nascimento dos filhos. Isto seria uma espécie de garante, se não do aumento, pelo menos da preservação numérica da população mundial. Depois eram livres de entregar a sua imortalidade aos filhos, assim que o achassem conveniente e necessário. O Mundo seria muito melhor, e tudo seria mais justo e harmonioso. A cada filho, uma imortalidade renovada, uma possibilidade nova de abnegação. Não creio na existência de mães que não o fizessem sem pestanejar, assim a vida dos seus filhos corresse perigo. Caso contrário, à mais ínfima hesitação, merecido seria que a sua mortalidade fosse restabelecida, no imediato momento em que a dúvida as acometesse.

Quão cravejado de erros está este raciocínio, pois se fosse possível a uma mãe fazer a entrega da sua imortalidade a um filho doente, então regressaria à sua condição de simples mortal, e, consequentemente, voltaria a poder acontecer a nada simples morte de uma mãe.

Custou-me mais do que os outros, este último adeus que fui dar a uma mãe. Na verdade, ia acompanhar uma filha minha, que, por sua vez, ia acompanhar a amiga, filha daquela mãe a quem íamos dizer não vás. Ou melhor, não vais. Para sempre ficarás, mãe desta filha ainda demasiado incapaz de não te ter aqui. (Não sei se existe uma idade para se ficar sem mãe.)
Sei que a vi chorar nos degraus, e depois junto do corpo da mãe. Os meus olhos picavam quando tivemos que desenlaçar o abraço em que ela, enorme e muito magrinha, por momentos pequenina, me soluçou no ombro. Pedi-lhe apenas que me deixasse dar-lhe um beijinho, e assim fiz, acariciando-lhe o cabelo louro de seda. Retraí o instinto, que me impelia a dizer-lhe que, quando precisasse de mãe, lhe podia dar um bocadinho, daqueles tantos que ainda tenho, e me sobram nas mãos, nos bolsos, no regaço, no colo, nos dois ombros — mesmo que inundados de soluços e lágrimas —, nos ouvidos, nas noites de insónia e medo, e, em geral, no coração. Calei o impulso, envergonhada da minha própria soberba, lembrando a velha máxima mãe há só uma, e saí do local, investida da minha simples condição de simples mortal.

01/09/2018

Avenida de Roma, meu amor # 5

Foi um dia uterino, aquele. Fazia anos — dezoito — que tinha nascido o meu último filho, último da cadeia cadenciada de quatro, último (amor) da minha vida, o mais pequenino, a deixar assim de o ser, feito maior. Sem aviso prévio, sem autorização, sem recurso de apelo nem de agravo, diante da minha incredulidade derretida. 
Quis o destino que fosse à Avenida de Roma buscar o bolo de anos dele, quis o acaso que ainda não estivesse pronto, havia querido na véspera a sorte que tivesse ficado a saber em que casa, concretamente em que número, fui concebida, naquela avenida que calcorreei vezes que não contei durante toda a minha adolescência. Diante da possibilidade de esperar um bocadinho, preferi meter-me ao caminho, percorrê-la mais uma vez, e ir .
E lá estava ela, sólida, intacta, a porta da minha fundação como gente, eterna enquanto eu também o for, indestrutível como este meu amor.


14/08/2018

sangue do meu sangue, que não é sangue de traça


Estava a minha Mimi a entrar para uma aula de grupo no ginásio, quando avistou uma borboleta no chão,
Mas não era uma borboleta daquelas, era uma traça.
(Sim, uma borboleta, filha. Eu sei que sabes que, assim como há pessoas bonitas e pessoas feias, assim é também com os animais, e não é por isso que...)
Disse ao professor que estava ali uma borboleta e que era preciso abrir a porta que dá para o jardim, que é a porta de saída de emergência, para a pôr lá fora.
(Boa.) 
(Muito boa.)
Ele disse que não podia abrir a porta, porque estava trancada e que os alarmes se accionavam todos caso a abrisse.
[Todos os meus alarmes accionados por saber que a referida sala, numa cave, tem a porta de saída de emergência trancada. Quero lá saber das sirenes, quero é a porra da porta destrancada. Lá vou ter que me chatear com mais um assuntinho-assuntão.]
E tu?
Eu peguei na borboleta, subi as escadas e fui até à porta do ginásio. Deixei-a no jardim.
[Alguns dos meus alarmes a sossegar. Tenho feito um bom trabalho, e honni soit qui mal y pense.]
(Não sabes quantas vidas salvaste com esse gesto...)


07/08/2018

sangue do meu sangue, que não é sangue de barata

Esteve uns dias numa casa de praia com os amigos, uma dessas casas que são óptimas, longe dos pais, longíssimo da praia, perto da diversão e da liberdade total. E são baratas, mesmo até porque, invariavelmente, têm baratas. 
Então, a contar-me que passou por eles um desses bichos, que causou o apocalipse, o caos, o pânico dentro da casa infestada. Ele, chamado a intervir — uma vez que não reagiu de forma tão enfática à presença do animal —, simplesmente pôs a barata fora de casa, com um único chuto para longe, expulsa do lar por indecente, má figura, ou apenas salvação. 
- Não a matei, pu-la fora.
- Fizeste bem, poupaste-lhe a vida. Foi ser feliz para outro lado.
(Já não era capaz de tirar a vida a nada desde que fui mãe, agora que perdi a minha piorei. Não sei ensinar nada de útil nesse campo.) (Aliás, julgo que conheço todos os truques de salvamento e poupança de vida de qualquer tipo de animal.) (Sim, apago a luz e acendo a de fora para fazer sair uma mosca.) (E um mosquito também.)
Os olhos dele — enormes e meus —, nos meus, suspensos naquele breve instante, como também os meus ficam, flutuando entre um raciocínio lógico e uma emoção inesperada.
- Mas não foi para não a matar que a pus fora. 
(Claro, filho.)
- Só não me apeteceu matá-la. 
(Claro, filho.)
(E eu sei tão bem o que é a vida quando se está a dias de fazer dezoito anos.)


05/08/2018

O saco de praia da mãe, aquela instituição

Hoje levo só a minha toalha dentro do saco de praia, uma garrafa de água, um livro, um protector que umas vezes é comunitário — quando acaba o deles, quando é preciso "na minha cicatriz", quando é preciso passar "só nas costas e porque não me apetece levantar daqui e ir buscar o meu" —, outras dispensável (que mania que as mães têm do factor 50, sinceramente!) e uma micro-macro bolsa com trezentas necessidades básicas: espelho, elástico para o cabelo, porta-moedas, cartões de identificação e débito, fio dentário, pastilhas elásticas, duas paçocas, um bloco, uma caneta, conchinhas de outros anos, outras praias, outros planetas.
É com quatro adultos que estamos agora estendidos na areia. Cada um traz o seu saco, ou, pelo menos, a sua toalha. Chegam à vez, às vezes, as suas horas de sol não correspondem em absoluto às nossas horas de sol. Despem a t-shirt, o vestido de praia, os pequenos calções, e, passado pouco tempo ou nenhum, apercebo-me que tenho o meu saco cheio das roupas deles, exactamente como quando, em pequeninos, era eu que os despia, guardava meticulosamente as roupinhas no meu saco, e depois os protegia com protector e mil olhos de amor.

23/06/2018

Cycling, uma experiência esmagadora

Na pendência do dia de ontem, fui-me a uma aula de cycling. 
Tudo isto, porque tenho a PDM que sou a mãe mais fixe do pedaço (constituído por meu lar), e não consigo dizer que não, incapacidade que detenho para aí desde que corrigi o vício, logo após ter aprendido a segunda palavra de todo o meu já extenso vocabulário. (A primeira foi "pai"; a segunda foi, exactamente, "não".)
À chegada, o instrutor perguntou aos cerca de quarenta da enorme sala, quem é que estava ali pela primeira vez. Só eu e outra levantámos o braço, mas, por alguma razão que não me assiste, ele só se acercou de mim para me dar explicações acerca do funcionamento da máquina (bicicleta — cujo nome é uma metáfora, já que não tem rodas — estática). (Há-de ter pensado, "Aquela senhora tem uma alta probabilidade de faleceri, deixa cá dar-lhe uma aula teórica, e assim isento-me já de responsabilidades".)
O ar condicionado estava avariado, o que, passe o pleonasmo, condicionou grandemente a minha performance. 
De resto, correu tudo mal. O selim é uma peça claramente congeminada pelo Cão, ou por um torturador profissional (que, como se sabe, são uma e a mesma pessoa), coisa para esmagar uma determinada zona do corpo da humana, a níveis olímpicos, tal e qual um esmagador de alhos. (Dei comigo a olhar para os meus companheiros de Volta e a temer pela masculinidade deles, se é que algum ainda a conserva.) Tanto que, nos momentos em que o instrutor mandava pedalar de pé, cá o ser era a primeira a elevar-se e a pedalar, ou sei lá a fazer o quê com as pernas e os pedais. 
Ao cabo de quarenta e cinco minutos de senta-esmaga-aumenta-a-intensidade-pedala-de-pé, e muitas gotas litradas de suor escorridas, a tormenta acabou e foi possível apear-me e até ser cínica e mentirosa, quando o mestre me ordenou/pediu/perguntou/afirmou, "Isto é para continuar", "Claro que sim", de cara deslavada e suada, e toma lá bacalhau.
Um dia, à chegada ao Purgatório, Alguém me perguntará: "E tu, filha, o que fizeste tu de bem?", "Ai, eu fiz cycling durante quarenta e cinco minutos para ser querida com uma filha". E certamente levarei dois merecidos pares de estalos, com a palma e as costas da mão, "Vai para o Diabo que te carregue, que isso é coisa para te fazer merecer o Inferno".
Vá que hoje não tenho dores. Devem estar reservadas para esse momento.

09/06/2018

Fato azul, com amor

Tínhamos que comprar toda a indumentária para ele levar vestida ao baile de finalistas. A mais clássica e "beta" que tinha - calças bege, camisa azul e sapatos de vela - não era apropriada para a ocasião, e constatámos com simulada preocupação e indissimulável alegria que teríamos que ir juntos às compras.
Eu sou assim uma espécie de homem nessa matéria: sei ao que vou, onde vou, e é muito raro perder tempo de pesquisas e buscas infrutíferas. Falta-me o tempo, falta-me a paciência e já sei que, se vou sem rumo, fico perdida nas lojas, como uma criança pequena que não sabe da mãe. [Tenho este trauma de infância, entrava nos armazéns com a minha mãe e perdia-a imediatamente.] Também nesse aspecto nos damos como Deus e os anjos. Ele, desconheço se por razões hormonais, mas o que é certo é que comigo também é assim, impacienta-se nas lojas, sobretudo se tiver que correr muitas e estiver mais do que dez minutos em cada uma.
Entrámos no Centro, fomos à loja que eu tinha sugerido - em alternativa àquela outra onde "os meus amigos compraram os fatos deles lá" -, consensuais na cor do fato - azul, está bem de ver - rumámos ao expositor dos fatos e ambos agarrámos naquele azul. À entrada dos provadores, tive que justificar que entrava com ele, "sou a mãe" (não fora dar-se o caso de ser alguma coogar assanhada, sem outro poiso onde explorar os recantos do menino.) (Enfim, tão distraída que estava a "polícia dos costumes" connosco, que não deu pelo casalinho que se enfiou num provador, com a desculpa de marcar as bainhas de umas calças ao homem, e por lá ficou, de cortina fechada, o tempo e para o que lhes apeteceu. Mas eu dei.) Escolhi-lhe o tamanho certo, que lhe caiu como uma luva, pagámos e saímos. A compra dos sapatos em nada diferiu deste esquema, a da gravata foi ainda mais rápida, com ele sempre a dizer "confio no teu bom gosto": escolhi-a sem ele, uma gravata cinzenta de pintinhas brancas só para "fugir" ao azul (noção que, aliás, desconheço).
No dia do baile, ele era o mais bonito. Não precisei de verificar todos os outros, um a um, para tirar esta óbvia conclusão. Ainda assim, quis levá-lo ao ponto de encontro do transporte que os levava a todos ao local do baile. À saída do prédio, dei-lhe o braço e fui sincera quando lhe disse: "Estás tão giro, agora é que toda a gente vai dizer que a velha sustenta o rapazola". Ele naquele sorriso que me aceita assim mesmo, desconexa e inconveniente, "Cala-te, que me estás a pôr nervoso", como se não estivesse já nervoso.
Vi meninas de vestidos armados até aos pés, cabelos armados cabeça acima, com colas e lacas insuportáveis, caras frescas inutilmente armadas em maquilhagens compactas até ao osso. Observei os outros rapazes e confirmei o que já sabia.
Depois contou-me que esteve no ranking para o melhor fato, mas perdeu a competição para o que levava a gravata mais ridícula (porque são adolescentes e faz toda a lógica eleger o mais feio no lugar do mais belo).
Guardo também para sempre os olhos dele, à saída do carro, enormes e lindos para mim, "Obrigado, madre".
Obrigada a ti, filho. Tu és (e serás) sempre o mais bonito.

06/05/2018

fada do bem

Inspirada pela NM, ou, mais concretamente, pelo seu Baby, lembrei-me de um desenho feito pelo meu também mainovo, quando ele tinha também quatro anos, e ainda também aquando da comemoração do Dia da Mãe. Calhou-me, numa pequena peça de teatro no Jardim de Infância, o papel de Fada do Bem, pelo que me vesti a rigor, varinha mágica na mão, tiara na cabeça, e assim me apresentei em palco o melhor que podia e sabia, a fazer magias das boas. Depois, ele desenhou-me de Fada do Bem, e eu guardei o desenho no coração para o resto da minha vida.


Hoje ainda era cedo, quando ele se levantou da cama. Recebi dele o primeiro abraço do dia, bordado a beijos e a palavras que me saem encadeadas de emoção, Ainda bem que vieste, filho. E eram de cristal líquido os olhos dele quando desfizemos o abraço, esse mesmo que nunca, efectivamente, se desfará. 
Fez-se homem, entretanto, o meu bebé. Já não lhe caem continhas transparentes dos olhos lindos que herdou do meu pai. Ficam ali suspensas, iluminando-o daquela felicidade com tristeza que é a do amor.
_________________
Não há nada que eu possa escrever hoje, ou algum dia, que supere isto.
Não há nada que eu possa dizer ou escrever hoje, ou algum dia, que explique a honra que sinto ao ler isto.
Obrigada, Miss Smile, por toda a amizade e simpatia. Aceite ser, como claramente já é desde o "início", também uma das mulheres da minha (blogo)vida. Desejo-lhe a si, e a todas as mães, um dia muito feliz. 


04/05/2018

Murphy, deves-me mais uma!

Saio de Cascais e verifico que o conta do gasóleo de Rosinha me dá para 46 quilómetros. Sei que estou a 30 do meu destino, que é a distância entre uma boa parte do meu coração e a minha vida. Faço aquela viagem uma vez por semana — e não mais por impossibilidade absoluta —, assumo que 46 me dá para estacionar nas calmas e ainda ir à bomba mais próxima, assim haja vagar e tempo. É essa corrida contra ele, ou a minha inultrapassável preguiça que me levam a meter-me a caminho, matemática certa, imprevistos não ponderados. 
O conta vai baixando e ainda não cheguei à A 5, mas está tudo controlado, penso eu, logo insisto. Tomo a autoestrada feita de prata pelo sol do meio-dia, que me aquece Rosinha, e a mim por inteiro. Tenho o ar condicionado desligado e começo a sentir que não vai ser possível chegar a Lisboa com a temperatura a subir àquele ritmo. Penso,
Mais vale ficar sem gasóleo à chegada do que morrer de calor,
ligo o ar, que me bafeja um hálito quente demoníaco para a cara, mas não ponho a hipótese de parar em Oeiras, porque 
o gasóleo vai dar
E também,
Quanto mais depressa chegar, mais cedo acaba esta agonia,
e toca de acelerar Rosinha. Faixa da esquerda, pisca-pisca-pisca, numa ultrapassagem infindável. Mas o conta baixa a níveis que me fazem suspeitar da possibilidade de o combustível não esticar até à minha porta. Passo para a faixa do meio, para poupar nas rotações. O conta estabiliza, já passei Oeiras, tenho para 14 quilómetros e o optimismo regressa. Mantenho-me atrás de uma fileira de carros que persistem nos 80 km/h, e penso,
Mais vale ficar sem gasóleo do que morrer de tédio,
e sigo, de novo pela esquerda.
Estou a passar a última bomba, a mil e duzentos metros de casa, quando recebo um telefonema de trabalho. Isso distrai-me do conta, que já tinha baixado dos 10, largos metros antes. Quando acaba o telefonema, estou a quatrocentos metros de casa e tenho gasóleo para 3 quilómetros. Chego à minha rua com 2. Não encontro lugar para estacionar, dou uma volta ao quarteirão e, quando paro, tenho gasóleo para 1 quilómetro.
É o momento em que se me acabam as forças e entro em desespero, pois sei que não chego a bomba nenhuma com três gotas de combustível. Concluo que não sei viver no limite.
[Felizmente, tive filhos. E uma delas, valente, pegou em Rosinha e levou-a à bomba. Contou-me depois que nem teve que desligar o carro: assim que parou para abastecer, ele simplesmente "morreu".]

09/04/2018

regressado

Chegou-me inteiro. Vinha sujo, queimado de um sol que eu nem sabia ter havido, rouco e cheio de frio pelos calções abaixo. Trazia "vontade de comida a sério", cansado de hambúrgueres sempre iguais e cereais secos. Na pequeníssima mala, toda a roupa suja, meticulosamente dobrada. Nos olhos adornados de olheiras, o brilho da idade da inocência, umas vezes perdida, outras tantas intacta.
Lavou os dentes, tomou banho, comeu comida de casa e adormeceu, tornando-se, num breve segundo, de homem rude e exausto, em criança tranquila e apaziguada.
Poucas horas depois, perante as notícias que davam conta do acidente com a camionete de finalistas, partida lá do mesmo sítio de onde ele veio, veio também o inevitável impossível de não me colocar na pele dos pais do João, de não sentir uma imensa compaixão por duas pessoas que, tal como nós, passaram toda a semana com o coração nas mãos, esperando pelo regresso do filho que, no último momento, não aconteceu. Não posso nem quero imaginar o tamanho da dor daqueles pais. Mas consigo perceber o alcance dela, assim como a dimensão da tragédia nas vidas de uma família inteira.
Foi com esse aperto no coração que entrei no quarto azul e o constatei adormecido. Fui espreitá-lo, confirmá-lo em casa e nas nossas vidas, como se assim o pudesse garantir.
Chegou-me inteiro, o meu menino.


06/04/2018

Ela fala tanto # 24

No entanto, ou tem breves bloqueios, ou serei eu que não alcanço raciocínios tão intrincados, esdrúxulos, direi mesmo abstrôncios.
Ouve um estrondo no quarto das miúdas, vai calmamente saber do que se trata. Vê uma delas com uma das portas do roupeiro na mão, que acabou de descarrilar do trilho que é a calha. Coisa para dois metros e tanto de altura, algo como oito ou dez quilos de peso. 
- Ah, pensava que tinhas caído.
E assim disse, melhor fez: saiu do quarto e foi à atarefada e inadiável vida dela.
Pergunto-me assim: então e se ela tivesse caído? E respondo-me assado: provavelmente, diria: “Ah,  pensava que a porta do armário tinha caído”. E lá ia, à atarefada e inadiável vida dela.
Só não me pergunto o tamanho da puta que ela havia de armar se a porta lhe descarrilasse nas mãos, ou se desse uma queda na minha casa. Logo baixa, quais agora?
(Se calhar, se fosse comigo, defecava no assunto. Em se tratando de uma das pessoas que eu gerei, é que temos a burra nas couves, que parece que tudo muda de figura. E de cores.)

03/04/2018

Viagem de finalistas

Diverte-te, aproveita, cuida-te,
e travei mais não sei quantas palavras, presas na garganta como fumo espesso, tantos pedidos, já não conselhos — pois quem sou eu, senão apenas mãe? —, com laivos de rogo, e um (que me pareceu) leve timbre de súplica.

Uns dias antes, havia começado a lista, encimada pelos mais terríveis e inadiáveis, por ordem de importância na escala da aflição,
Por favor, não bebas até cair. Se beberes até cair, não te aproximes de uma janela. Nem de uma varanda. Nem da piscina. Pede ajuda, se te sentires mal. Não sei se já te disse que me és precioso. Já disse? Então, repito.
Calei-me a tempo de não debitar tudo o que me ensombra a alma de cada vez que um pássaro me sai do radar.

[Senta aqui ao meu colo. Toma a chucha. Não arranques a fralda. Vai ao bacio. Tira isso da boca. Não te descalces. Vem para o banho. Toma leitinho. Dorme um bocadinho. Come a sopa. Não subas para aí. Desce daí. Diz 'obrigado'. Põe o chapéu. Deixa-me pôr-te protector solar. Bebe água. Sai do sol. Espera pela digestão. Não fales com estranhos. Não digas 'não' a tudo. Não corras aqui. Dá-me a mão. Faz um desenho. Sonhos azuis. Dá-me um beijinho.]

[Não apanhes chuva. Não abuses do sol. Leva protector. Cuidado com os mergulhos. Sê educado. Come sopa. Come também fruta. Alimenta-te como deve ser. Respeita a digestão. Não passes fome. Nem frio. Veste um casaco. Leva roupa suficiente. A escova de dentes. Cuecas para todos os dias. E meias. Os calções de banho. A sweat com capuz. Uma farmácia completa, I mean. Também devias levar a tua gata, ninguém a aguenta quando tu não estás.]

[Senta aqui ao pé de mim. Vamos comer pipocas. E batatas fritas. Chiu, é segredo. Tem cuidado. Atravessa na passadeira. Bom treino. Vai sempre pela pista. Não resistas se fores assaltado. Foge da confusão. Vai estudar. Vai para o banho. Acorda, que já são horas. Corre. Diz 'não' ao que te prejudica. Não venhas tarde. Não fumes. Não estragues a tua pele. Dorme bem. Dá-me um abraço.]

Agora a sério, diverte-te. Aproveita. Mas cuida-te.
(Já te disse que me és precioso?)


31/01/2018

Amor em Celsius

Todas as noites, antes mesmo de me deitar, percorro a casa e vou dar beijos de boa noite a todos os meus quatro. Longe vai o tempo em que aconchegava lençóis, contava uma história — eu às meninas, o pai ao rapaz, alternadamente —, voltava a entalar os lençóis debaixo dos colchões, dava beijinhos, uma última atenção, "Dás-me mais um beijinho?"; "Cheiras tão bem..."; "Amanhã levas-me à escola?"; "Tens frio?", apagava a luz (deixava uma de presença, nessa época) e saía, se não cem por cento tranquila, por não ser da minha natureza, pelo menos apaziguada, num misto de cansaço e amor, que é aquela combinação implosiva que nos dá alento enquanto os filhos são pequenos. 
Uma vez, estava à porta do quarto das três, não havia nada que me indicasse que havia qualquer coisa de anormal, estavam todas deitadas há umas horas, apenas a penumbra azul da fraca luz, e recordo-me de me sussurrar, Vai lá. E aconteceu — coincidência ou não — uma delas estar com febre.
Lembro-me de a minha mãe nos beijar na testa com alguma frequência, de sentir o mimo mas também a demora, e, uma vez ou outra, após esse beijo, constatar: "Tu estás com febre". 
(Às mães incorpora-se-lhes um termómetro nos lábios quando os filhos nascem, faz parte do kit.)
Os beijos de boa noite que dou aos meus são sempre no cabelo. Porque têm cheiros diferenciados, que eu distinguiria entre si e entre milhares, porque (ainda) me cheira a crianças, porque não peço em troca, basta-me dar, e o cabelo é o local ideal para a oferenda sem retribuição.
Dei-lhe o beijo no cabelo, disse Dorme bem, meu amor, e fiquei parada na hesitação. 
Vai lá.
Usei o termómetro da boca de mãe, "Tu estás com febre". 
Que não sei, que talvez, que pode ser que não. Usa o outro, então. 
38,1º.

12/12/2017

Eu também tenho uma árvore de Natal, ou pensam?

Era para ter sido montada a 8, que é uma espécie de tradição não vinculativa na minha casa, dia de dois dos quatro baptizados, dia de Nossa Senhora da Conceição (concepção, a quem justiça fiz), antigo Dia da Mãe, mas, essencialmente, porque marca o início dos trinta dias em que se aguenta a árvore em casa. Mais do que um mês do repolho — que, apesar de artificial, larga coisas verdes, enche de pó tudo à sua volta (há quem não aspire; não há quem aspire), e, a partir do dia, vá, 4 de Janeiro, já é lignum non grata —, parece-me demais.
Foi montada a 10, no limite do agora-já-não-aguento-é-não-ter-árvore-de-Natal. Algo que, não há muitos anos, era uma quase cerimónia, com direito a músicas natalícias de fundo (que me irritam, mas aguento e não choro), quatro crianças de barretes de Pai Natal (meus queridos duendes) a colaborar na decoração — brigando porque "tu já puseste mais bolas do que eu", "eu é que quero pôr a estrela", "estás a pôr os enfeites todos no mesmo sítio, este lado está careca", "eu não chego lá acima!" —, passou a ser uma tarefa que resolvemos os dois, em talvez quinze minutos, por uma estar fora, outra estar dentro mas sem vontade, outra ter ido ali "já volto, é o tempo de lavar os dentes" e o outro ter procrastinado com um "já vou". (Meus queridos duendes, onde vos haveis escondido, seus patifórios?) (Estão todos convocados para a desmontagem.)
Ficou azul, a minha árvore. Um pouco escura, porque é verde (não percebo porquê). Mas cheia de luzes, que este ano todas têm forma de amor.


04/11/2017

Tenho medo

A Uva e a Filipa (não sei se por esta ordem, mas foi por esta que as li) já disseram tudo o que me vem atravessado na garganta, no peito, no coração, nos últimos dias. Não tenho muito mais a acrescentar, a não ser aquilo que sinto em mim. Este medo de, um dia, acordar e ser mãe destas pessoas:

Daqueles ali ao fundo

Ou desta

Daqueles, que continuam ali

Ou deste palerma

Daqueles mesmos, sempre os mesmos.
Quantos são, mesmo?

Ou deste, do pull overzinho ao ombro

Daquele, da calça bege,
ou deste, da fralda de fora

que agora até aparece a compor a toilette

Desta grande maluca do Halloween,
ou deste casaleco, todo aninhado para o espectáculo

Tenho medo de um dia acordar e ser mãe da conivência, do silêncio, da compactuação, do conluio, que são, afinal, todos irmãos da cumplicidade e da co-autoria. Desculpados pelo medo, impassíveis e, no limite, indiferentes. 
Este meu medo é todo ele egoísmo, é todo ele reflexo, é todo ele hipotético: então e se o rapaz que está a ser espancado fosse o meu filho? Era assim, era com "gente" desta, a assistir e a filmar?
[Crucificava-os.]
[Um por um.]
[Com as minhas próprias mãos.]


24/10/2017

Vinte e um, meu amor

Agora que penso nisso — como se fosse possível nunca ter pensado —, foste o primeiro nascimento de gente a sério a que assisti, e logo acontecido em mim. Se calhar, já não te lembras, mas vieste num dia de sol e luz, e eu, que andava iluminada há nove meses de amor por ti e de ti, fiquei deslumbrada no momento em que surgiste, tão bonita como eras já quando aparecias na ecografia, tão minha como te sentia desde a caneta com duas risquinhas anunciando a boa-nova.
Vou ter outra menina
comuniquei ao Mundo, e assim foi, e assim fiz.
Filha mulher
os brasileiros é que sabem o Português correcto na hora da poesia.
Filha mulher.
Ainda hoje acho que foi por eu ter querido assim que vieste assim, linda, saudável e robusta, de coração inteiro e alma boa. Não queria que fosses diferente, nem num milímetro dos teus tantos. Só peço à vida todos os dias que sejas sempre feliz, e que ela te seja branda e clemente, e que nunca te arrede desse caminho tão bonito que escolheste para ti.
Para mim, guardo apenas a certeza de que o amor que trago dentro, há muito mais de vinte e um anos, é o mesmo que trarei até ao fim dos meus dias. E, depois deles, eternamente, inalterado.


23/10/2017

Mãozinha boa

Vinha de fato de natação vestido, chinelos de borracha, touca, e trazia um bebé embrulhado num lençol de banho, cuja ponta lhe cobria a cabeça. Pousou-o na bancada, constatei que era um menino e avaliei a idade para cinco meses. No momento em que a criança olhou para mim, abriu os olhos muito pretos, esticou o corpinho num espasmo de alegria e soltou um grito, ao qual respondi, "Olá!". A mãe perguntou-me, então: "Está muito frio aqui para eles, não acha?", ainda vestida com roupa molhada, saída de água destemperada, o corpo num arrepio, preocupada em aquecer o filho. Com receio de parecer o tipo de pessoa que mais me enervava quando tinha os meus pequeninos — os sentenciadores da verdade absoluta, os sabichões da pedo-puericultura, designadamente aqueles que nunca tiveram filhos —, mas levada por um impulso irreprimível, sugeri, "Veja as mãozinhas. Se estiverem quentes, ele não está com frio", mas, em vez disso, toquei eu na pequeníssima mão, que se agitava na minha direcção, afaguei-a breve e levemente, envergonhada pelo abuso, mas preenchida de vazios vários, comuniquei "Ele não tem frio, tem a mãozinha boa. Isto é tudo genica", pois ele continuava numa agitação, dobrando gargalhadinhas de bem-estar e alegria genuína, contagiosas — que me contaminaram no silêncio que me impus, arrumando a roupa suada da dança no saco. Disse adeus à mãe e adeus ao filho, deixei que a porta do balneário batesse nas minhas costas com estrondo, e voltei.


13/10/2017

LB, aquela pessoa que devia ser proibida de se aproximar de um televisor

Palavra que estava para aqui sossegadinha a jogar um jogo no meu Ai-fostes, porque adoro viver no limite e não me conformo de não fornicar a bateria do coiso em menos de um pum, ou de um fósforo, o que for mais rápido.
Por razões que não me assistem, aquilo da televisão estava no canal que dava o espectáculo dos bovinos. Tenho medo destas exibições, tanto porque acho que vai acontecer uma desgraça no minuto seguinte, como porque me encho de peninhas do touro, do cavalo, do cavaleiro, de todos os forcados, desde o cara ao rabejador, passando pelos ajudas, ai, quem me acode? Ainda por cima, nesta corrida vai pegar o filho da minha prima, não sei como é que o coração dela aguenta, se fosse com o meu, amarrava o rapaz à perna da cama e dava-lhe duas nalgadas, chiu com a violência doméstica, só quem é mãe é que sabe, e maior violência é a besta contra os meninos, nem quero pensar, eu nem com calmantes me acalmavam.
Então, um senhor explicava uma parte histórica da corrida à portuguesa, e resolveu usar a expressão “na luta contra os tuberculosos”. Já eu ria, dos nervos, já eu perguntava a uma das queridas o que é que ela achava que o senhor queria dizer, já ela me respondia “Ele queria dizer ‘a luta contra os tubérculos’”, e eu, que sou uma fácil e ela é tão assertiva naquele humor ultrafino, olhem, ainda me ri mais, mas continuo a afirmar que também sou extremamente nervosa, sobretudo quando me maltratam a língua.
Ainda não refeita, praticamente rarefeita, eis que vem outro e fala no “panorama taurino”, e então era ver-me desfeita no gargalhedo, só a imagem mental já é muito boa.
Vou mas é pjê uó-uó, como eu dizia quando era pequenina e nunca devia ter deixado de ser.
Também não quero ver a pega do primo, a ver se não me esqueço de lhe dar duas nalgadas e de o amarrar ao pé da cama, da próxima vez que o vir.

26/09/2017

And that awkward moment # 40

Entro na papelaria da antipática e do morto-vivo-ó-amor para registar um jogo do rapaz. Só é permitido jogarem maiores de idade, sei isso e quase respeito, mas ele também veio comigo fazer compras pesadas e carrega-mas todas. Por interesse, delicadeza ou pura boa vontade, não me interessa: ninguém me tira estes momentos só com ele e a expectativa de, a seguir, irmos para casa fazer mousse de chocolate juntos. Todos os amores são, em maior ou menor escala, desproporcionados e desequilibrados, ou não seriam amores. E este nosso não é excepção.
A azeda da mulher, que me conhece há mais de duas décadas, trata-me por "minha senhora" desde que eu era pouco mais do que uma garota. 
- Minha senhora, preciso do seu número de contribuinte.
Começo a debitar-lho, e ela interrompe-me ao terceiro dígito.
- Minha senhora, tenho que ver o seu cartão de contribuinte, não pode ser ditado.
[Na era em que esta pessoa vive, ainda existem cartões de contribuinte.]
Estendo-lhe o cartão de cidadão, a sentir a exasperação a tomar conta de mim.
- Tem aqui, minha senhora. — E acentuo o tratamento. 
Ela põe-se a ler, aproxima os olhos do cartão, só falta bater com ele nos óculos, e faz os olhos de toupeira ainda mais miudinhos.
- Cento e...
- Noventa e nove, minha senhora. 
- Cento e noventa e nove...
Ditei.então.os.segundos.três.números.E.ela.não.conseguiu.ver.os.terceiros.três.Por.conseguinte.ditei-lhos.também.
A seguir, deu-me um papel pequenino onde constava o meu número de contribuinte, e disse:
- Aqui tem, minha senhora. Para a próxima, escusa de ditar o número, basta trazer este papelinho.