26/09/2022

And that awkward moment # 67

em que recebes uma mensagem a anunciar a missa por alma de uma pessoa tua parente — e, consequentemente, a sua morte, facto que desconhecias —, em que a imagem de perfil é da própria, e toda ela  escrita na primeira pessoa do singular. Tipo aquele falso e maravilhoso bilhete de suicídio da personagem Sebastião do Pôr do Sol, quando foi assassinado: 

Boa tarde, 

Matei-me. Adeus e boa continuação, 

só que com a nuance Morri, venham à missa comemorativa do primeiro mês.

Dúvidas houvesse sobre a minha muito remota, porém provável, disfuncionalidade, eis uma possível explicação, com parentescos deste nível. É que nem a desculpa de se tratar do enredo de uma novela cómica tenho. Isto é a vida real. A minha vida.

Ainda estou em posição fetal. Tenho medo de partilhar genética com pessoas humanas que tomam estas iniciativas. 

Não vou comparecer à dita missa. Nunca se sabe.


23/09/2022

Exposição imersiva, submersiva, subversiva, interactiva, tudo em um

Olá, esta sou eu a cultivar-me. 

Chego à Mãe d’Água (nome mais bonito, recuso-me a chamar-lhe reservatório) para ver uma exposição sobre o Egipto, embora estivesse lá escrito “Egito”. Ou era “Egipo”? Ou “Epigo”? Olhem, não sei. Fui. Ainda proibida de ir à praia, um domingo assaz ventoso, peguei em dois familiares e aqui vai dela. Lá chegados, somos informados na bilheteira de que cada entrada (plateia em pé, porque sentados era um preço que eu esqueci imediatamente) custa doze paus, mas que, se fizermos prova de sermos moradores em Lisboa, passa milagrosamente para dez. Acho isto uma xenofobia interna, mas siga. Fiquei tão nervosa que só me apeteceu dizer com sutak dos Açores, “Atã num se vê lóg que sumos de Lisbôa?”, mas contive-me porque, efectivamente, queria poupar seis dele. Fizemos a tal prova com as cartas de condução (donde se conclui que, quem não conduz, não entra), mas em que só uma delas (por ser mais recente) continha a morada. Porém, aquele meu ar afectado e possidoninho de revolta (a terceira em minuto e meio), denunciou a minha origem lisboeta e a senhora cedeu ao óbvio. Deslargados logo ali seis contos de réis, lá entrámos para aquela sala belíssima e sinistra que tem um lago ao meio, onde um segurança nos indicou o caminho para os melhores lugares (em pé, já referi?), que eram exactamente ao lado dele, mas que, para alcançarmos sem que ele tivesse que retirar uma fita amovível, teríamos que dar a volta completa à sala (vá lá que sem um mergulhinho pelo meio, à laia de brinde), que tem seguramente seiscentos e qualquer coisa metros quadrados. Eu cá liguei a lanterna do telemóvel, porque se há coisa que me dá angústia é andar às escuras em sítios que não conheço. Isso e cheiro a suor, mas já lá vamos. Chegámos ao local indicado — a zona dos lugares sentados cheia que nem um ovo, pois isto é povo que não pode pagar o arroz e o feijão, mas lá ficar em pé meia hora é que nem ponderar —, local aprazível, fresco, cheio de espaço e um varandim para a pessoa apoiar os cotovelos ou outra articulação qualquer, e eis que chega uma família de quatro elementos, era o pai, era a mãe, era a adolescente parva e a criança sossegada, e, num espaço de vinte e cinco metros de comprimento, todo ele disponível, em quem é que a tonta vem encostar-se? Adivinharam. (Covid, aquele vírus maroto, jamais será vencido.) A exposição começou, a catraia sentou-se na varanda, de costas para as imagens, e eu desejei com ardor que ela submergisse nas águas da Mãe d’. O pai da dita considerou, com certeza, que nós éramos uns privilegiados em termos de localização, porque foi colocar-se exactamente atrás de mim. Lembro que tínhamos à disposição uma parede com vinte e cinco metros para nos colocarmos (para além das outras três com mais vinte e cinco metros cada uma) e que foram vendidos, ao todo, treze bilhetes da modalidade em pé. Lembro ainda que Covid.

Tinham-nos fornecido à entrada uns headphones com uma caixinha, para ouvirmos a explicação das imagens projectadas na parede, ao som da voz de Ricardo Carriço, dramatiquíssimo, olhem, até tive medo cada vez que ele dizia Tutankamon. Também foi o único nome que fixei, uma vez que já o conhecia. 

Do lado de lá da fita de segurança, mesmo ao meu lado, instalaram uma família que chegou atrasada, constituída por pai, mãe e bebé. Arranjaram-lhes cadeiras, eles sentaram-se, tiraram o bebé do marsúpio e deitaram-no no chão de pedra. Cheiravam tanto a suor que tive oportunidade de ver a exposição em quatro dimensões. 

Não sei se recomendo, vou pensar. Sei que vou passar a ir cultivar-me para outras paragens, nem que seja numa alfaia agrícola.



17/09/2022

Read the fucking manual

Ando cá a matutar em escrever um manual de instruções — porque sinto que não tenho estudos para publicar um livro — sobre “Como lidar com alguém que tem cancro”. A ideia é um bocado alcançar o Pulitzer, o Nobel, ganhar uns cêntimos, mas, essencialmente, ensinar o Outro, espalhando a palavra. Já o alinhavei e tenho, assim sendo, alguns vectores:

1. Não ignores, nem a doença nem o doente. Não finjas que não o vês (oh, como seria bom adquirir o dom da invisibilidade, mas não por essa via), não evites falar-lhe no assunto, não fujas. Se não tens nada para dizer, pergunta apenas: “Como é que estás?”. Simples, assim;

2. Não tenhas medo das palavras. Podes dizer “cancro” à frente de uma pessoa com cancro. “Um problema”, “a doença”, “isso que tens” são eufemismos. Mete-os no coiso, agora não me lembro do nome. Cancro, está bem?

3. Não digas “Estou aqui para o que precisares” quando não estás. Ninguém espera que sejas mais nem melhor do que és, prometer o irrealizável é só um desperdício de saliva, agravado se for escrito nas redes sociais, para o povaréu ver e se comover com tamanha bondade;

4. Não massacres com as tuas pequenas maleitas, olímpicas diarreias e sintomas de covid. Uma pessoa com cancro está-se completamente cagando para as tuas desinterias sazonais ou porque abusaste dos enchidos;

5. Abraça. Dá a mão. Faz uma festa na cara. Aperta as duas mãos. Olha dentro dos olhos. Evita os clichés, “Vai correr tudo bem”. Isso não tem qualquer base científica e a pessoa que está doente sabe. Pode correr e pode não. Mas abraça sempre e nunca com segundas intenções. Percebe que a libido de um doente de cancro é muito semelhante à de um calhau. Não. Lhe. Apetece. Pinar;

6. Não exageres na simpatia. A condescendência, a súbita cortesia quando foste uma besta até agora, a compreensão desmedida, cheiram a piedade e a piedade cheira mal. Age normalmente, sem demasiados “Estás tão linda”. Ninguém se sente tão linda quando carrega consigo uma doença que mata e cujos tratamentos a desfiguram;

7. Não dês espaço sem que a pessoa te peça. Dar espaço é desaparecer. Cómodo para quem salta fora, demolidor para quem fica, doente e só;

8. Deixa a pessoa respirar. É ela que acorda e se deita todos os dias com o monstro escuro. Para onde quer que se vire tem-no na sombra. Sobrecarregá-la com mais inputs é tão inútil quanto cruel;

9. Não desvalorizes. Há quem se ria do seu próprio cancro, há quem chore rios e oceanos, há quem se mantenha à tona, mas todos, sem excepção, têm uma pistola apontada à cabeça para o resto da vida, e, para viver assim, nem todos têm tomates;

10. Se não puderes fazer nada disto, vai ver se está a chover. 


12/09/2022

Voltei às pistas

O fenómeno deu-se há duas semanas, ainda faltavam nove tratamentos para acabar a radioterapia. Ao contrário do que o povo julga, eu não sou valente nem corajosa: sou das maiores e mais temíveis teimosas que conheço. Tinha consultado o oráculo da aplicação que me mede as maratonas e concluí que havia corrido pela última vez há oito meses, cinco dias antes de começar a quimioterapia. Não acredito nisto, porque não tenho nada ideia de ter corrido dez quilómetros já com o diagnóstico feito. Mas, se a aplicação diz, deve ser verdade.

Os primeiros duzentos metros, fi-los em subida, o que foi bastante inteligente da minha parte: tive, desta forma, a clara noção do que é ser um carro de bois, em que eu era o animal de tracção e os bois iam lá atrás, deitados no carro, de papo para o ar. Ponderei seriamente a possibilidade de me sentar no chão e deixar correr o marfim, porque estava quase a mascar os pulmões e a fazer um balão com eles.

Teimosa como uma mula, arre burra, obriguei-me a pensar noutra coisa, tipo trapos bonitos, e siga. Fiz o percurso que fazia há oito meses, determinada a, em vez de dar dez voltas ao largo — o que fazia das minhas corridas qualquer coisa de bastante monótono e aborrecido, mas tinha a vantagem de 1. Saber que aquelas dez voltas representavam cinco quilómetros; 2. Não corria (passe o pleonasmo) o risco de me perder, se fosse em linha recta —, dar apenas uma. A ideia era correr um quilómetro ou dois, na loucura. Cheguei ao largo e ele estava transformado numa feira, com farturas, churros e porras, tudo menos livros. Tive que contornar dezenas de barracas de louça e cacos, tapetes e cenas que desconheço para o que servem, mas dei a volta completa ao largo e, quase morta dos bofes, voltei ao lar. 

A aplicação somou cinco quilómetros, mas acho sinceramente que estava toda avariada de saudades. Na semana seguinte fui correr para o estádio universitário, que é só lombas, parece uma pista de motocross, e, aos três quilómetros, toda eu era suor e sei lá que mais porcarias. Aguentei até aos cinco e meio e basicamente estraguei o meu domingo. 

Tenho que ir mais devagar, dizem os outros humanos. Mais devagar do que isto, nem as velhinhas das caminhadas. Ou faço moonwalk, que sempre justifica a lentidão da actividade.



04/09/2022

Os meus becos

Então, acabo a radioterapia na próxima quinta-feira. Comentei o facto com uma desvairada do ginásio, que só conheço de lá, e que me esbugalhou os olhos e afirmou, peremptória: “Na sexta-feira trazes uma garrafa de champanhe”. Perante a minha hesitação, “Não gostas de champanhe?”, eu “Heh, neste momento não gosto de quase nada.”, “Então, tinto. Gostas de tinto?” [Não sei que parte de “nada” é que ela não percebeu.] “Dá-me sono. Imediatamente. Tipo coma. Uma vez adormeci a meio de uma conversa com a minha cunhada.” “E branco, gostas?”, “Sim, mas tem que estar fresco. Também gosto de Rosé.” Ela, a torcer o nariz e a processar a ideia, cinco enormes segundos: “Gostas de Rosé?”. “Gosto. Mas tem que estar fresco.” E eu a dar-lhe, no fundo a arranjar uma desculpa para me livrar da carraça. O ginásio não vai guardar uma garrafa no frigorífico dos funcionários porque há uma borracholas que quer comemorar o fim dos tratamentos de uma desgraçadinha mal agradecida. Ela outra vez com uma paragem da boneca, os olhos escancarados e o sorriso congelado no seu expoente máximo. Procurei demovê-la: “Não acho muito boa ideia, repara: antes da aula, vamos para lá enjoar”. [Poupei-a à vez em que, calor assassino, tempo de sobra e muita gula por um prato de tremoços, emborquei uma cerveja antes da aula e ainda hoje desconheço como é que não expeli tudo cá para fora — tremoços incluídos — a meio de uma pirueta.] “Depois da aula, pior ainda: a noite já caiu, não vamos ficar as duas no meio da rua de copo na mão. E preciso de conduzir em segurança para casa.” Ela ainda argumentou que “o professor podia juntar-se a nós”, mas isto porque ela tem um crush por ele, que eu, lamento, não tenho.

Antes da aula, tinha-me perguntado como é que eu estou psicologicamente. “Acredita que, desde o início, ainda não deitei uma única lágrima”. [Não contam duas chatices que tive entretanto e aproveitei para purgar umas quantas a mais que tinha cá engasgadas.] “Mas tens que deitar. E vais deitar. E vai ser comigo que vais deitá-las.”

Eu não quero beber com ela. Eu não quero chorar com ela.


01/09/2022

The girl next door # 18

Por razões que desconheço em absoluto, que tanto podem prender-se com uma extrema empatia para com o outro (ser humano) — aspirando a que, se todas as pessoas fossem como eu, ninguém andaria com a blusa do avesso na rua —, um TOC de não poder ver nada fora do lugar, ou simplesmente porque tenho a mania que sou estupendaça, outro dia corri a avisar uma vizinha de que ela trazia as cuecas à mostra.

Vinha eu com meu Pacheco — comprei um carrinho para me alombar com as compras, tipo velhas no mercado, e assim lhe chamei, em homenagem à grande Hermínia Silva e seu guitarrista —, quando vislumbro, ao fundo da rua, a minha vizinha de baixo, senhora para os seus setenta e picos e de carnes abastada, que, após despejar várias garrafas de vinho no vidrão, se preparava para entrar num carro daqueles que têm uma etiqueta TVDE. Subitamente, ela move-se, exibe-me a traseira e vejo-lhe, não o traseiro, convenhamos, mas a cueca, com a saia toda ali entalada. Quem nunca? Só quem não usa saias, uma percentagem quase irrisória da população mundial. Basta um chichi à pressa, há um repuxar mais desajeitado das pregas-laregas do vestido-larido, e lá se vai para a rua, enfrentando o(s) desconhecido(s) de pernas até ao quadril e cuecas à vela. 

Foi uma sensação de quase pânico, a que me tomou, mas, como sempre nessas, agi imediatamente. Dava para bombeira. Ou paramédica (paranóica, mas sim). Ou super-heroína, drug free. Desato então a correr na direcção da vizinha, Pacheco a reboque, quando me lembro que não sei o nome dela (apesar de vivermos sob o mesmo tecto vai para trinta anos), então foi mesmo de “Ó vizinha! Ó vizinha!”, como naqueles bairros, e ela a meter-se no carro e a fechar a porta. “Queres ver que vou morrer na praia?”, pensava meu músculo cardíaco todo acelerado. Felizmente, e porque existe um pequeno compasso de espera entre a pessoa entrar no carro e o motorista arrancar, alcancei-o, bati desesperadamente no vidro, a vizinha abriu a porta e disse-lhe: “Tem a saia presa nas cuecas”. “Estou indecente?”, respondeu ela, num risinho de nervos. “Está.” Estive mesmo para lhe recomendar passar a andar sem cuecas, a ver se estas coisas não voltam a acontecer-lhe.


31/08/2022

Entrelaçados

Vi-os primeiro de costas, caminhando pela sala de espera dos tratamentos, as mãos dadas com os dedos entrelaçados, havia um amor na junção da pele dos dois,

parecem namorados

mas alguma coisa me disse que talvez mãe e filho, uma diferença pouca, 

se calhar teve-o com quinze anos

E depois, tão parecidos, os namorados nunca são parecidos, as mãos iguais que não se largaram, e então senti que estavas ali comigo, as nossas mãos iguais e dadas, entrelaçadas, nós, que somos mais de abraços, o teu abraço que vem sempre, o teu abraço que é sempre o primeiro, naquele dia “carcinoma”, veio logo, inteiro e meu, também já vi pérolas de vidro a saírem dos teus olhos desde aí, tu lembras-te de eu te agarrar o braço já adolescente e pedir a brincar, na rua, “Vamos fingir que somos namorados?”?, e tu “Oh, mãe…”, a soltares-te sem convicção nenhuma, olha, hoje lembrei-me de nós naquelas duas mãos dadas, sei perfeitamente que ali estavas também, como estás há exactamente vinte e dois anos abraçado a mim. Meu pequenino, meu amor tão grande.



30/08/2022

Eu tenho problemas com médicos # 31

Tenho quase a certezinha absoluta que, se conhecesse uma pessoa como eu, fugia dela a sete ou oito pés. Há dias, como hoje, em que pareço desvairada.

Hoje foi dia de tratamento plus consulta. Entrei no serviço um nico desmoralizada, com receio de que me acontecesse o mesmo que ontem: sorvi uma hora de espera naquele salão inóspito. Mais do que a doença, custam os tratamentos; mais do que os tratamentos, custam as esperas. Porém, nem teriam passado cinco minutos de me ter posto com cara de sala de hospital — a explorar sites de roupa bonita — quando ouço o meu nome no altifalante, a chamar para o tratamento. Rápido, como sempre (a não ser naqueles segundos em que não posso respirar e só me passam disparates pela cabeça, para além das placas da máquina), lá fui para o vestiário preparar-me para voltar ao salão e esperar duas horas pela consulta. Ainda só tinha puxado o fecho (nas costas) do vestido, ouço o meu nome a ser chamado para o gabinete oito, enfiei Natércia até aos sobrolhos e, ainda com o colar na mão, dei mais corda à alpercata corredor afora, na gula de não perder a vez. Dez metros volvidos, entro de rompante no gabinete do médico, “Ai, desculpe, senhor doutor, mas é que estava no vestiário e ouvi o meu nome”, tudo isto enquanto endireitava Natércia, sem espelho nem nada. (Devo ter posto o risco ao meio, que é para aí o pior penteado de sempre para mim, fico a parecer o John Lennon. Ou a Yoko Ono.) O médico consultou-me em cerca de três minutos — sem queixas —, quis ver a minha pele — sem queimaduras —, pelo que comecei a preparar-me para me ir embora. Puxei outra vez o fecho do vestido (saudades do meu cirurgião, que sempre mos desceu e subiu, com a desculpa de que essa é uma das tarefas para as quais um homem serve), quando reparei que tinha atirado o sutiã para cima da marquesa, para onde lançara também a mala de mão e a pasta com os cartões necessários. Já não podia, porque não queria, voltar a abrir o fecho do vestido. Azar meu: as minhas malas de mão são minimalistas, cabe lá dentro o telemóvel, as chaves de casa e carro e uma nota de quinhentos euros, mais nada. Sorte minha: tenho ordens para só usar sutiãs sem arames, portanto foi só amachucá-lo o melhor possível e sair de telemóvel na mão. Nem imagino o que teria feito se levasse um desses com arames e caixas. Se calhar, tinha que esquecê-lo e deitá-lo para o cesto dos papéis. Teria sido tão mais constrangedor. Assim, foi só engraçado, ver a cara do médico.



26/08/2022

Mal-haja

O homem que está atrás do balcão embirra comigo porque sabe que eu o detesto. Também pode ser ao contrário. Outro dia, precisava de uma informação, estava cansada de tanto esperar, e aproximei-me do vidro. Ele estava sentado a uma secretária, olhou para mim e ignorou o meu “Boa tarde, precisava de uma informação”. Chegou uma mulher com uma senha na mão e ele desata a atendê-la. Claro que protestei que estava primeiro, mas o inflexível disse que ia atender primeiro a senhora que tinha senha. “Ah, entendi. Eu estou invisível e não sei. Posso fazer os gestos que me apetecer? Porque deduzo que não me viu a fazer-lhe sinal que queria uma informação”. Afinal, eu só queria saber [onde raios] existia uma casa-de-banho, “já não digo limpa, porque isso me parece impossível, mas, ao menos, em que a porta feche”. 

Não gosto de mim agora. A fase da raiva nunca passou e, aparentemente, nunca passará. Tenho vontade de bater nas pessoas intransigentes. Nas pessoas, ponto.

Uma mulher foi até ao vidro do cumpridor, não levava senha, pediu muitas vezes “por favor”, “desculpe lá”, sempre nuns sorrisos, todo um exagero que pensei que fosse ajoelhar-se, e ele só lhe pediu o cartão dos tratamentos. Mais três “obrigada, desculpe lá” e ele, “Não tem de quê”. Ela, por três vezes — que eu contei —, “bem haja”. Também tive vontade de lhe bater, a subserviência é tão ridícula e tanto há quem a confunda com educação ou simpatia.

Depois ela sentou-se atrás de mim ao telefone e disse mais duas vezes “bem haja” — que eu contei —, à despedida, antes de desligar a chamada.

Eu não quero ficar assim.

23/08/2022

A sala da solidão

Às vezes, apetece-me desistir. Parar agora e sentar-me, a esperar para ver. Estou farta de salas de espera, já agora. Cansei-me de casais de reformados que vão juntos aos tratamentos de um deles. Se é ela que está doente, ele pavoneia-se de um lado para o outro, as plumas de pré-viúvo ainda — considera ele — em forma, todas no ar. Há um que, assim que a mulher vem lá de dentro, faz uma espécie de vénia a quem está sentado (onde me incluo) e, histriónico, deseja as melhoras e acrescenta um “até amanhã”, que me irrita a ponto de ter vontade de o mandar à merda ou fazer-lhe aquele gesto do dedo. Intimamente, mando mesmo, às vezes até para lugar mais fálico e menos escatológico, reviro os olhos e nunca respondo. A educação de águas límpidas que me foi fornecida não me obriga a ser simpática com pavões, cláusula primeira. Se é o homem que está doente, lá vão elas de unhas dos pés verde fluorescente, exagerando nas mesuras e cuidados (“Queres um pãozinho?”, “Uma bolachinha?”), rainhas do esmero, em compensação tratadas como criadas, fazendo de conta que não ouvem a resposta brusca e o mau modo constante. Precisavam eles de uma igual àquela cigana (ups, disse) que outro dia consolava o marido birrento, “Já disse que não vou, ninguém me obriga”, batendo com o pé no chão: “Mas a doutora não disse que o tratamento é para te curar, é só para te tirar as dores”. Depois, há o senhor de cadeira de rodas que só tem meia perna e veste calções de ganga, o coto todo à mostra e uma cruz desenhada a caneta Bic no lugar da cicatriz. Há as mulheres e os homens também que, como eu, vão sozinhos ao tratamento, porque aquilo são meia-dúzia de minutos, não dói no corpo nem dá efeitos secundários imediatos. Há a rapariguinha negra, de vestidinhos floridos e justos como os de uma criança, que dorme sempre. Invejo-lhe a tranquilidade e a alienação, quando afinal até é fácil deduzir que ela está muito mais doente do que eu. Há os da etnia, que vão em grupo para o tratamento de uma delas. Há as senhoras de idade, de touca ou de peruca sintética, que têm todo o tempo do mundo e as longas esperas não parecem afectá-las em nada. Há os magros como cães famintos, que não inspiram coisa nenhuma, a não ser talvez espanto. Parecem saídos de um campo de concentração e têm todos aquele mesmo olhar que vemos nas fotografias de Auschwitz. De vez em quando, passa uma maca ou uma cadeira de rodas, à partida ou à chegada de uma ambulância. Já não olho.
Dizem-me, quando me vêem ir abaixo, que falta pouco. Não falta pouco, não senhor. Faltam treze vezes este outro mundo, que, mesmo que — por um paradisíaco absurdo — esperasse só um minuto de cada vez que ainda terei que lá ir, seriam sempre treze minutos de inferno para enfrentar.


20/08/2022

Travão de mão, travão de pé, travão de dedo

A frota do lar, se contabilizadas todas as viaturas de que já fomos alegres proprietários, tem variado alguma coisa em termos de tamanho, em função do número de elementos que compõem la famiglia. Quando começámos, éramos dois e um Y10, que ainda aguentou uma petiza — embora muito mal, já que a cadeirinha não cumpria o efeito de concha em caso de embate ou travagem brusca, tão curta era a distância entre os bancos da frente e os de trás (parecia um avião, sim. Ou o Coliseu dos Recreios) —, mas já não aguentou duas, e, assim, fomos indo ao mercado automóvel de cada vez que esta barriga se enchia de vida. No último, ricos em sonhos filhos e pobres em ouro, tivemos que enveredar pela via da segunda mão no volante, que é como quem diz, dos usados. E, assim, tivemos a primeira de três monovolumes de sete lugares (o sétimo era conhecido por “o lugar da sogra”, que ficava à porta e era, idealmente, para ser usado sem cinto de segurança em percursos com curvas muito apertadas. Calma, não estava destinado à minha mãe). A última que tivemos, aqui designada por “o camião”, resolveu falecer o ano passado, assim do nada, a meio do nada, ou seja, de uma autoestrada. 

Sejamos francos: já nunca andamos os seis no mesmo carro em simultâneo, pelo que o arranjo do camião — que ficava mais dispendioso do que o valor de mercado dele — era mais um capricho (bastante meu) do que uma necessidade. E, assim, entrou para o parque automóvel desta barraca o primeiro carro com travão de dedo.

Enquanto condutora do camião, não posso dizer que tenha tido grandes dificuldades em utilizar o travão de pé: o carro destravava-se com uma alavanca mais ou menos escondida, como a do combustível, e travava-se com aquele quarto pedal à esquerda, que nos exige um alongamento ao nível da correspondente perna, mas que é um stretching que só faz bem. No entanto, tal sistema não só é perigoso por ser tão fácil destravar o carro — e ele há crianças muito irrequietas e imaginativas —, como também é impossível a qualquer passageiro travar o carro no caso de o condutor (inadvertidamente…) o deixar destravado. Por acaso, nós fomos muito mais neuróticos com os filhos do que os meus pais foram connosco: iam tomar um café à Pastelaria Roma, enquanto nós ficávamos as duas a apitar até endoidecermos um quarteirão inteiro.

A mais recente aquisição automóvel tem, como já disse e nunca é demais repetir, travão de dedo: carrega-se num botão e trava, carrega-se outra vez no botão e destrava. Se a possibilidade de os passageiros poderem travar o carro está resolvida, a de as crianças o destravarem não está. Nem para elas, nem para humanas como eu. Aquilo ora acende uma luz quando trava, ora apaga a luz não sei quando. E é que nunca me lembrei de ir verificar ao painel se aquele P estava aceso. Parava o carro, carregava no botão, dava assim uns abanões para a frente e para trás e era desta forma que achava que sabia se o boi estava manso ou não. Outro dia abanei-me no banco e ele não se moveu. No entanto, deixei-o destravado. Vá que foi num plano sem inclinação. A partir desse dia, nunca mais lhe toquei, não vá ele dar uma de touro mecânico. Tenho minha Rosinha e somos muito felizes a gente as duas.

Conclusão: que prejuízo e que espaço ocupava a velha trave do travão de mão para andarem com invenções destas? Já só falta inventarem o travão de testa, se é que me faço entender. Vou fundar um movimento qualquer, #naoabrimosmaodotravaodepuxarparacimaeparabaixo.



13/08/2022

Nunca fujas ao teu destino

Estava eu relativamente mal instalada no grupo do whatsapp da dança, no qual havia entrado apenas e tão-só para obter o nome de uma música — que adoro de paixão e é para aí a única coreografia que sei de cor sem erros, o que já faz de mim uma interesseira inescrupulosa —, onde me aborrecia com toda a solenidade, basicamente porque, sendo o mesmo constituído por dezenas de pessoas, as trocas de mensagens eram acerca de tudo menos do interesse comum, já não contando com os aniversários, em que era um dia inteiro de quadrinhos amorosos de parabéns, numa desordenada competição de quem é que conseguia o mais piroso, depois fiquei doente, abandonei as aulas e saí do grupo, um alívio sem precedentes, só comparável ao da satisfação de uma necessidade fisiológica premente, sete meses de paz e sossego, e depois voltei. Voltei, e voltei a dançar, e devo ter ficado tão excitada com essa volta que a minha vida deu, que pedi a uma das administradoras [olha a cagança] que me incluísse de novo no grupo, ela assim fez, e eu, sejamos honestos, aguentei-me lá… quatro dias. Desta vez, já não havia necessidade de alguém fazer anos, estava rigorosa, diária e definitivamente instituída a parolice no grupo, por conta não sei de quem, ou de quens — a pessoa entra, baila e sai, não conhece nomes, não associa caras, não nada, sabe apenas que há a alta, a gira, a que dança bem, a gorda, a antipática, e já sabe muito —, todos os dias gifs cheios de glitter a desejar um dia bom, bonecos a brilhar, corações a explodir de tanto amor, my eyes, my eyes, não posso desver tanta saloiada, então saí outra vez, desta feita para não mais voltar, o problema és tu, não sou eu, podes ficar com o carro, a casa, as jóias, os putos, mas nesta barraca de farturas não fico eu.



Estava eu descansada da minha vida, livre de gifs com ursinhos e outros bichos cheios de amor para me dar, quando, de repente, a mulher que podia ser minha mãe — que, relembro, deu um olímpico trambolhão e partiu não sei quantos ossos, ao nível do fémur e do pulso, mas, que eu tenha sido informada, nenhum no crânio — desata a mandar-me diariamente bonecada semelhante à anteriormente descrita, os bons dias, a frase lapidar, a lição de vida, as protecções divinas, tudo muito cheio de brilhantinhos e corações e sopeiradas assim. Vejo-me compelida a responder-lhe com um singelo porém assertivo coraçãozinho, em sinal de “gostei”, só para não a ofender, quando, efectivamente, “não gostei”, isto de ser uma pessoa educada é um fardo excessivamente pesado, que faz da pessoa uma conformada e hipócrita, quando a minha vontade era correr tudo ao coice, socorro, tirem-me deste pesadelinho!

Preciso de uma explicação do cosmos: porquê?


 

11/08/2022

Incondicional

Excepcionalmente, hoje fiz tratamento de manhã. Mandaram-me estar lá às 8:30 e eu, obediente, assim fiz. Pode ter sido da hora do dia, pode ter sido da luz matinal assim triste, pode ter sido do meu próprio sono — a radioterapia dá-me sono; a quimioterapia dava-me sono; todas as anestesias que fiz entretanto me deram sono; também há pessoas que me dão sono —, mas o ambiente do salão de espera é totalmente outro, como se o espaço não fosse o mesmo: quem ali está, está verdadeiramente doente. Aquela é a recta. Um rapaz com pouco mais de trinta, apoiado na companheira, talvez irmã, talvez Simão de Cirene ou apenas Maria, todo cera, todo rosto de Cristo, arrastando os pés até ao calvário, uma senhora em cadeira de rodas, boca deformada, perna corroída, e aqueles dois: a mesma imagem, com algumas décadas de distância um do outro. O mais velho, muito velhinho, calças e camisa impecavelmente passadas a ferro, cabelo cuidadosamente penteado. O nariz preso a uma caixa de oxigénio, tossia forte, mas também fracamente, enquanto o mais novo lhe estendia lenços de papel atrás uns dos outros e o ajudava a limpar-se a cada acesso. “Quer outro, pai?”, e nisto os olhos envidraçados caídos nele, assim quieto e embevecido, num desvelo tão absoluto, que eu, que agora tenho uma pedra no lugar do coração, não resisti a molhar as pestanas.


10/08/2022

Invisibilidade indolor

(Este blog parece uma página de Instagram que tive que deixar de seguir porque a autora, apesar de muito cómica, era assaz aborrecida: cada vez que “abria a boca”, era para dizer “Eu sou vegan”. Já eu, cada vez que escrevo um post, digo “Eu tenho cancro”. Cada parva com a sua mania.)

Passei a conhecer as pessoas por outros prismas, como se me tivesse sentado numa cadeira elevatória e giratória e pudesse andar-lhes a toda a volta, vê-las por quadrantes nunca antes imagináveis porque impossíveis, olhá-las de cima, de viés, do avesso, à socapa. Sentir-lhes, assim, as fragilidades, as cobardias também, as fraquezas, as falhas. Claro que a inversa também é verdadeira, e foi-me igualmente dada oportunidade de conhecer a dimensão inumana — no sentido positivo do termo — de outras, por tão generosa e abnegada. Curiosamente, nestas últimas incluem-se pessoas da blogosfera, ou daquilo que resta deste nosso recanto, que vieram dar-me um abraço muito mais apertado e definitivo do que o de outras da minha vida real.

Antes que haja por aí alguma confusão, estou a lembrar-me concretamente de uma amiga de amiga, que se cruza comigo no ginásio e que, desde que o mundo soube, logo a seguir a mim, que eu estava doente, simplesmente deixou de me falar. Não que antes travássemos diálogos muito profundos, basicamente não passávamos do “olá”, ou, no limite da loucura, algo acerca de treinos ou da nossa amiga comum, mas agora julgo que me tornei invisível, pois a criatura passa por mim e desvia o olhar, ou, melhor ainda, olha-me à transparência, eu feita cristal bonito que se quebra quando cai.

Não sei como, nem se vale a pena, explicar a estes seres que o que eu tenho não se pega. Que o que eu tenho precisa de palavras, sobretudo se forem ditas por mim, sobretudo se forem um bocadinho mais do que chavões, andrà tutto bene. Que o que eu tenho se chama cancro, não tumor, não problema, não doença, só. Eu chamo o boi pelo nome, nada temam, que não desmaiarei se disserem “cancro” à minha frente. Cancro, cancro, cancro. 

Compreendo que, sem saber o que fazer ou dizer, haja quem prefira não fazer ou dizer coisa alguma. Eu também já fiz isso. E agora sei o quanto dói essa forçada indiferença. Mas também sei que, quando nos tornamos invisíveis, deixa de doer.


09/08/2022

Estar, ser, parecer

Na Radioterapia todas as mulheres são iguais: cabelo muito curtinho, roupa prática — fácil de despir, geralmente da cintura para cima —, sandálias rasas. Uma usa meias cirúrgicas bege debaixo das sandálias, os dedos à mostra, as unhas pintadas. Algumas ainda com a touca oncológica, um lenço, quase todas com as sobrancelhas em tímido renascimento. Os homens também são todos iguais, mas a eles bastam dois centímetros de cabelo para já não “parecer”. 

No salão de espera, estão apenas duas perucas: a de uma senhora de idade, que se maquilha até à exaustão, usa vestidos de flores e sandálias douradas, e a minha. A dela é sintética — sem movimento, com o brilho do nylon, parece (e, eventualmente, estará) carregada de laca —, porém combina na perfeição com todo o restante cenário. Tem franja, é cor de cobre, bate nos ombros e é enrolada para fora. Há uma harmonia com as sobrancelhas tingidas a lápis, os lábios de borrões vermelhos, o blush gritante, o sorriso exausto mas ingénuo. Eu levo os meus vestidos de sempre, a bela Natércia e sapatos fechados, sob a forma de alpercatas, claro que de cunha de oito centímetros. Não posso mostrar as minhas unhas dos pés. A quimioterapia simplesmente destruiu-as e o meu organismo ainda não as reconstruiu.

Um a um, somos chamados lá para a câmara de ficção científica. As técnicas muito técnicas, como treinadores de futebol, há muito pouco espaço e tempo para uma piada, um sorriso, uma gargalhada. As minhas ficam todas suspensas no nada. Estou rodeada de pessoas que consideram que alguém com cancro tem que estar sempre aos miares e suspiros. E não há lugar para um bom bâton borrado pelos dentes afora, nem para o campo de flores que um vestido pode carregar.


05/08/2022

Descalça

De entre outras, mais ou menos criadas por mim, tenho usado muito a metáfora do caminho de pedras pontiagudas que percorro descalça. Às vezes até tenho superstição em abrir a boca para falar, pois que até as imagens figuradas que construo vêm ter comigo: a quimioterapia sensibilizou-me mãos e pés, julgava eu que se limitaria à infecção nas unhas, afinal deu-me de graça plantas e palmas ultra sensíveis, com uma maravilhosa pele que não devo ter desde o berço, e que, apesar, contudo, todavia, mas, porém, não aguentam qualquer calçado e, uma vez descalça, qualquer piso.

Isto para dizer que a enfermeira que me fez a consulta preparatória de radioterapia me deu carta branca para ir à praia até começar os tratamentos. O que é que ela foi dizer. Fui, e fui à grande: alugámos colmo, almoçámos que nem reis (ignoremos, só agora por momentos, o facto de o meu paladar estar do avesso e um hambúrguer de salmão com batatas doce fritas poder saber-me a uma barra ferrugenta), fomos mergulhar até lhes perder a conta. Pedi os três desejos da praxe, que, se fosse uma pessoa normal, pediria “a cura, a cura, a cura”, mas sou tão prosaiquinha que “desperdicei” (aos olhos e sob o ponto de vista de humanos mais elevados) um deles a pedir “que o meu cabelo cresça depressa”. Só me danei por não ter definido “depressa”, por ser um conceito tão vago e vasto, que lá quem recebe estes pedidos tanto pode ser uma lesma e pôr-me o cabelo a crescer ao ritmo dos elevadores do IKEA, como pode ser um hiperactivo e amanhã acordar qual cavernícula. Também nadei, apesar de frequentar uma praia cujo mar não permite grandes braçadas, mas era verem-me sem Natércia, a nadar enquanto levava tareia das ondas, e teriam a imagem perfeita de um pato feliz.

A saída do mar, de todas as vezes que lá entrei naqueles dois dias, custou-me muito mais do que a entrada: havia uma barra larga de conchas partidas, que todas as pessoas passavam como se fosse areia fina, mas aqui à princesa do pé fino causaram dores excruciantes, rés-vés a lágrima bem salgada. Então, ofereci pela saúde dos meus filhos. (Caluda, eu é que sei onde é que gasto as minhas fichas.)

Portanto e à conclusão, corrijo a metáfora: estou a percorrer, descalça, um caminho de conchinhas partidas. 

(Pode ser que, para o ano, já tenha pés de tairoca, com aquele calcanhar de queijo de Serpa, ai que delícia.)

04/08/2022

Radio gaga

Chego à sala de espera — que é mais um salão, dadas as suas medidas, talvez uns cem quadrados, dava para um belo bailarico, não fora as circunstâncias — e apercebo-me de que está bastante compostinha. Faço aquela matemática básica, um terço são lugares vagos, metade das gentes podem ser acompanhantes. Mesmo assim, imagino que vou ali passar o resto do dia e uma parte da noite e pergunto à do balcão se está muito demorado, ao que ela me responde a frase que está ex aequo com “só há o que está exposto”, “esse artigo foi descontinuado” e “isso é com a minha colega”: “A senhora tem que esperar a sua vez”, logo a mim, que adoro retóricas. “Claramente, isso não responde à minha pergunta”, “Mas é que eu não sei”, “Acabou a conversa”, e ficámos por aqui. Pena que também só haja o que está exposto nestes lugares, que não descontinuem estas azedas que estão sempre em modo de frete no seu local de trabalho e, efectivamente, tudo deve ser assunto para a colega, que não está à vista porque nem sequer existe.

A Radioterapia é detestável desde que entro até que saio. O pessoal não tem a noção que trata exclusivamente com pessoas com cancro, como acontece na Oncologia. Já lá dentro, em vez de enfermeiras e assistentes, existem técnicas, com a simpatia de um empregado de mesa. Zero empatia, zero humanidade, é um corre-corre de despe, deita, posiciona milimetricamente para que os raios que partam a possibilidade de o cancro voltar funcionem, luzes e máquinas a toda a nossa volta, uma placa redonda, uma placa rectangular, uma outra que parece um ovo de avestruz, as técnicas saem da sala e uma delas transforma-se numa voz, “Dóna Maria, suspenda a respiração”, “Agora tranque”, e a p. da centrifugadora a fazer girar as placas à minha volta até à asfixia, “ai, que morro da cura”, parece que estou numa daquelas competições absurdas que fazíamos em miúdos, de atravessar a piscina debaixo de água até ouvirmos um gemido que nos saía da garganta, a mim só me apetece fugir dali a bater o dente e correr para os braços da minha mãe, que me espera com uma toalha seca e macia, como macio era o abraço dela.


03/08/2022

Hoje ando em limpezas (e não são de Verão)

Fartei-me de páginas que andava a seguir, de mulheres com cancro, e hoje des-segui-as todas. Só faltou a Fernanda Serrano, que é um caso de recuperação, bonitíssima (ainda mais ao vivo do que em fotografias), e a quem outro dia descobri uma cicatriz na axila igual à minha, pelo que me senti menos desanimada com o assunto. De resto, foi tudo. É com algum remorso, mas também tranquilidade que confesso que nunca segui @ilovecancer, porque o nome da página me deixava demasiado apreensiva e incrédula. I hate cancer, want to kill it. Até a queridíssima Joana Cruz foi na cheia, zanguei-me com ela desde que cortou o cabelo, ainda ele estava curto. E uma outra, muito animada, sempre a rir muito e a achar um piadão às fases todas desta merda. No mesmo barco meti uma que foi mesmo mastectomizada e passa a vida a ralhar com a vida e os seguidores. Compreendo-a, também me apetece acabar com o mundo à dentada e à unhada, só não me apetece aturar as birras das outras, se nem as minhas aturo.
Outro dia falei com uma amiga que passou por um processo semelhante ao meu pouco tempo antes de mim, a quem o cabelo e todo o pêlo caíram até à lisura — ao contrário de mim, que mantive o meu pente um do início ao fim da quimioterapia, sem uma pelada, ou seja, não caía mas também não crescia —, e que começou a rapar quando ele começou a crescer porque não aguentava ver metade branco e metade escuro, “parecia uma porca malhada” (sic). Até tive vontade de lhe bater.
Todos os dias vou verificar se o meu cabelo já cresceu mais um milionésimo de milímetro. Há dias em que sim, há dias em que não. E esses são duros como o caminho de pedras pontiagudas, descalça, que tenho percorrido. Chamem-me fútil. Digam-me que isso não é o mais importante. Digam que “é só cabelo”. E que “cresce num instante” (um centímetro por mês, vai demorar até bater nos ombros, não?). Claro que sim, tendes razão. Mas eu quero o meu cabelo de volta. É a minha fuga? Pode ser, respondam os psis. Enquanto me entretenho com isso, não penso no cancro. Mas, de todas as dores por que tenho passado, esta é de longe a que me dói mais. 


28/07/2022

The radio star

Acho que me criaram expectativas demasiado altas, ai que aquilo não custa nada, ai que é só deitares-te lá e esperares que o tempo passe, ai que são quinze minutos e está feito, tudo muito cheio de ais, seguidos da peta.

A sala de espera, onde permaneci para lá de uma hora (ninguém me manda chegar mais cedo, mas quarenta e cinco minutos foram derivados ao atraso no atendimento), é uma caixa de gritos. As únicas pessoas silenciosas eram quatro mulheres daquela etnia que Deus me livre dizer o nome — não venham de lá os histericofóbicos e me soltem os cães —, cônjuge e eu própria. Quer dizer, nunca me calei, mas porque tive sempre urgências para debater, e tudo num tom aceitável. Entraram dois bombeiros daqueles do transporte de doentes, que suponho que o maior incêndio que viram na vida foi o de algum fósforo que acenderam lá por casa, não desmerecendo nas suas funções, mas que fizeram um chavascal de tal modo — porque se puseram a conversar com pessoas na sala, ao invés de tratarem do assunto que ali os levava —, que o homem do altifalante teve que gritar “Silêncio na sala!”, parecia mesmo um juiz zangado em plena audiência, usando aquele sistema de som dos hospitais públicos, cheio de ruído e zero de percepção. (Eu só percebi porque precisamente a mesma frase já me gritava aos ouvidos há bastantes minutos.)

Depois lá me chamaram. Estava a estrear um vestido lilás para me dar sorte. Foi nada, apeteceu-me comprá-lo e ir dressed to impress com alguma moderação. Logo passou uma enfermeira por mim, que disse: “Que senhora tão bonita!”, o que me fez encolher porque não incho, mas registei a parte do “senhora”. Sou uma bruta, porém sorri e agradeci. Na verdade, estou cansada de ser bonita, linda e querida. Queria só sair deste pesadelo, dá licença?

Depois foi despir, deitar numa marquesa que parece uma cama ginecológica, mas ao contrário — os estribos são para pôr os braços, não os pés — e obedecer a ordens: respire normalmente, encha o peito de ar, tranque a respiração (uma eternidade de quarenta segundos que parecem duas horas), pode soltar o ar todo (sorte delas que eu não sou dada à flatulência e compreendi de que ar se tratava), isto por cinco ou seis vezes, p. da minha sorte, que nem a radioterapia pode ser feita a limar as unhas. Mais depressa fazia duas sessões de quimioterapia do que uma disto, embora não queira voltar para lá, hã? Lagarto, lagarto. Mas isso sou eu, que tenho a mania que sou diferente. 

Já só faltam vinte e nove iguais às acima descritas. Logo à noite já serão só vinte e oito.



23/07/2022

Tetratlo # 4

Consulta de Fisiatria: a ver se não é preciso fisioterapia, para não ficar com um braço mais gordo do que o outro. Só me falta mais essa. É acontecer-me semelhante desgraça e passo a levantar diariamente pesos com o outro braço, para ao menos ficarem iguais. 

O hospital é um labirinto, projectado por um arquitecto esquizofrénico, penso eu de que, enquanto percorro quatro corredores, dois em cada piso, e de já ter apanhado, pelas minhas contas, dois elevadores. Isto, depois de ter ido bater a duas portas que não abriam e tocado a uma campainha que não funcionava. Enveredei então por um outro corredor, onde não se via uma alma viva, mas se ouviam martelos e marteladas. Uma voz, atrás de um guichet escondido num canto escuro, perguntou-me para onde ia, respondi que para a Medicina de Reabilitação (não me lembrava do nome da médica), e a pessoa disse-me que era lá ao fundo do corredor, depois das portas automáticas, e que eu seria chamada pelo nome (que ela não perguntou qual). Percorri aquilo, não passei por portas automáticas nenhumas, mas sim por uma obra a céu aberto, uma parede destruída que dava para a rua, que local tão seguro. Sentei-me quietinha quando vi umas cadeiras, embora continuasse sem ver uma pessoa para amostra. Ao fim de quinze minutos, abre-se uma porta e surge a médica, muito sorridente, muito simpática, muito faladora. Cansou-me a beleza, falou durante meia hora seguida. Mediu-me os braços, deu-me a grande novidade de que eles são milimetricamente iguais (o que eu considero bastante anormal, visto que todos temos assimetrias por todo o corpo. Devo preocupar-me?), mandou-me fazer uns exercícios em casa para a mobilidade do braço e chutou-me para a próxima consulta, em Outubro. Saí de lá exausta, mas — e talvez por isso — consegui atingir a porta da rua sem me enganar no labirinto.


Tetratlo # 3

Consulta de Oncologia: a médica é uma simpatia, mas não há dúvidas de que eu gosto mais de homens e eles de mim. Não perdoo ao destino nem à m. do meu seguro ter tido que abandonar o meu oncologista giro. Disse-me ela que estou livre de consultas por três meses e que as idas ali serão cada vez mais espaçadas. Estou com ela há cinco meses e não cinco semanas, como estive com o cirurgião, e não houve abraço de despedida. Perguntou-me apenas se já comemorei a remissão do tumor, e respondi a verdade: “O vinho tinto ainda me sabe a aguarrás”. Sugeriu outra bebida, mas nem a cerveja marcha neste momento: arde-me a boca de tal maneira, que parece que a enchi de álcool etílico e depois lhe meti um fósforo aceso. Estou tão abstémica como era aos quatro anos de idade. 

Despedi-me dela com um: “Espero que não tenhamos que nos ver antes dos três meses que referiu”. Sorrimos, acenámos adeusinho com as mãos e pronto. Sem espinhas, sem lágrimas.



Tetratlo # 2

A seguir, fui tratar da injecção que faz com que, de três em três semanas, saia daquele hospital com uma das coxas a valer milhares de euros, quais Pretty Woman, quais quê, walking down the hospital. Burocracia inultrapassável, retiro senha para a triagem das enfermeiras, para que peçam à farmácia do hospital que envie a preciosidade, o que costuma levar uma hora, mais minuto, menos minuto. Dada a distância da farmácia para a Oncologia, cerca de duzentos metros, imagino que a injecção faz o trajecto a rebolar sozinha. Espero meia hora para ser atendida na triagem, o que faz com que me convença que são três da tarde e não duas, tanto sinto que esperei. Imploro que ela escreva no mail que aligeirem o processo de envio, pois tenho uma consulta às 16:00 (o que é verdade), e que diga que a injecção é para uma senhora muito ansiosa, que vem da Psiquiatria e até têm que lhe misturar uma dose de calmante na seringa, que ela está a começar a partir tudo. A enfermeira ri-se muito e escreve o mail, desconheço em que termos. Volto para a sala de espera, onde as mulheres discutem cabelos e respectiva queda, e apercebo-me das horas. Volto à triagem e digo: “Senhora enfermeira, esqueça tudo o que lhe disse há pouco. Julguei que já eram três da tarde, vi mal as horas. Escreva outro mail para a farmácia e diga que a ansiosa não sabe ver as horas e que agora já pode esperar. E que até podem demorar mais do que é costume”. Noutros tempos, ter-me-ia deixado ficar na sala de espera, envergonhadíssima da minha impaciência/ insistência inútil contra esta espécie de establishment secular. Agora, depois de ter perdido tanta coisa, mas tanta, o pouco filtro que ainda me restava também ter ido na cheia, é das minhas menores preocupações.

Tetratlo # 1

Quatro compromissos agendados para o mesmo dia, no mesmo hospital. Primeiro, às 13:18 (gosto. Podia ser 13:19 ou 13:17, mas era mesmo 18), análises clínicas. Sou de tal forma pontual, so british, que chego e falta uma pessoa para a minha vez. Sei que não vou demorar, são quinze gabinetes e aquilo é sempre a aviar. Enquanto espero, um velhote cai na rua, fica sentado no passeio, as pernas na estreita estrada onde passam as ambulâncias, um braço esfolado. A mulher grita mais do que ele. Noutros tempos, iria a correr ajudar, perguntar se podia fazer alguma coisa, não sei quê, não sei que mais. Mas agora tenho um calhau no lugar do coração, não posso — nem quero — fazer esforços, e apercebo-me, livre de eventuais culpas, que são precisos três bombeiros para içar o homem. Esqueço logo o assunto, até porque chega a minha vez, gabinete 13. Já estou sentada na cadeira da sanguessuga quando irrompe o casal velhote e mulher aos gritos, ela pedindo ajuda para o marido, que está a sangrar do braço e precisa que lhe façam um curativo. Gabinete 13, repito. Acredito que a personagem veio a correr atrás de mim, pois teve que correr o corredor todo desde o 1 para se ir enfiar no meu. A técnica em protesto pouco veemente, que ali não se faziam curativos, mas após uma frase onde se incluía a palavra “órina”, lá pôs um penso rápido no braço do homem. Entrementes, eu bufava a minha sorte macaca, mas por que raios a mulher havia arrastado o homem até ao gabinete que era nada menos do que o décimo-terceiro mais longínquo da porta? Noutros tempos, ainda era capaz de limpar a ferida ao homem, ralhar com a sugadeira de sangue que um band-aid não era suficiente, accionar connects para o internarem e ainda me alistar nas Carmelitas Descalças. Mudei muito. Ando a aprender a pôr-me em primeiro lugar em todas as ocasiões da minha vida. Não que antes me pusesse em segundo (plano), era em último, mesmo: nos escafundós da fila, onde já ninguém me via, nem eu própria a mim mesma. Isso acabou, agora tenho que olhar-me ao espelho e pensar: “Linda”.


12/07/2022

autoestima <--> subestima

Isto é uma espécie de Novas Oportunidades, que no meu tempo de adolescente dava pelo nome de Novas Profissões: estar doente é toda uma agenda. Neste momento estou, já não petrificada, mas até um pouco fascinada, com a quantidade de marcações que tenho para o mesmo dia, vá que todas no mesmo hospital: análises, a injecção que me é dada — literalmente duas vezes: na coxa e na bolsa, pois não pago os milhares (envergonho-me de dizer quantos são) de euros que ela vale (?) — e duas consultas, cada uma de sua especialidade, que é para não me enjoar. 

Ando revirada, se não de pernas para o ar, pelo menos do avesso: perdi a conta ao número de TACs, ressonâncias, análises, consultas e testes de covid que fiz nos últimos sete meses. Passei em todos com distinção, nem eu sei bem como. Lembra-me isto aqueles exames na universidade, em que a pessoa vai totalmente às escuras, com a sensação/ certeza de que não pesca um boi e depois tem uma nota injustíssima de tão boa para a ignorância que para lá carregou no lombo, arre burra. 

Estou farta, mas também enfiada num túnel que não tem volta atrás — porque se recuar ainda será mais escuro — e o caminho é sempre em frente. Não posso sequer sentar-me no chão e fazer a birra que me apetece, a bater com os pés e os punhos. Tenho que continuar, por muito que a vontade que tenho seja sair deste corpo e ir para outro (mesmo que mais feio e velho e gordo, deixem-me lá ser este estupor), ouvindo a voz exterior dos outros e a minha voz interior: "O pior já passou, já subi a montanha mais alta". Passou? Se calhar, mas eu também tenho medo da planície, sou esta caguinchas que fica a relaxar depois do esforço mais cruel, a pensar "E se...?".

Em matéria de autoestima, atingi quase o pináculo. Nem aos dezoito anos recebia tantos elogios (até porque, nessa idade, infelizmente, alguns eram assédio porco, como qualquer mulher sabe). Conforme já disse aqui, agora sou querida e linda. Posso dizer, fazer ou escrever as maiores barbaridades, que nada é levado tão a sério que me faça cair em desgraça, pois que talvez não exista, aos olhos dos outros, maior do que aquela em que já caí. 

Aprontava-me para fazer treino respiratório de preparação para a radioterapia, que mais não é senão obrigarem-nos a estar sem respirar uma eternidade até estarmos azuis, mas tudo pelo bem dos pulmões e do que perfeito coração. As técnicas disseram-me que teria que tirar Natércia (não sem antes perguntarem se era cabelo meu, ganda Nat) e eu tirei. "Ainda fica mais bonita", assim ouvi logo, enquanto exibia o meu cabelito de Mariza na época em que ela usava rente à cabeça. Depois retiraram-me a máscara e "Mais bonita ainda". (Estão tão habituadas, que já dizem aquilo quase sem olhar para os doentes.) Até que me pediram para abrir o fecho das calças — para que pudessem monitorizar a minha respiração pela barriga —, mas eu, que sou mal intencionada, pensei (juro que apenas por breves segundos) assim: "Tu queres ver que agora também...? E ainda irão dizer-me: 'Ainda mais bonita'?”.


04/07/2022

… deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Andava há cinco semanas a fazer penso pós-cirúrgico, uma vez, duas vezes por semana, e esta minha mania de me aconchegar nas rotinas, já estava a ser um programa qualquer, as enfermeiras amorosas, o médico um prato cheio, todos os meus pensos foram uma paródia pegada, cada vez que me lembro que de uma das primeiras idas a enfermeira me disse: “Eu sou a Mónica das mamas” — por ser especialista em amamentação —, e eu, que já conhecia aquele nome e alcunha de outro lugar, escancarei olhos e boca, “O quê? A Mónica das Mamas da Bumba na Fofinha? A mesma que mexeu nas mamas da Bumba está a mexer nas minhas!?”.

Então hoje o cirurgião disse-me que já não era preciso voltar lá, deu-me alta e aquilo pôs-me em baixo. A enfermeira igualmente desolada, “Espero que tudo lhe corra bem, foi das pessoas mais simpáticas que por aqui passaram”, e eu de beiça caída, “E agora, senhor doutor?”, ele de braços abertos para mim, “Agora…”, e abraçámo-nos quase longamente, “Vai tudo correr-lhe bem, é muito querida, gosto muito de si”. 

Devia ter saído do hospital aos pulinhos, mas nunca achei graça nenhuma a despedidas. Flutuei até ao carro, embargada, apesar do quase doce sabor de mais uma pequena vitória.

https://youtu.be/ifm00JEjSeo


 

03/07/2022

Dançar é como andar de bicicleta (sem rodas e sem rodinhas)

A última vez que tinha dançado tanto tempo seguido tinha sido há uma semana, aquando do Rock in Rio, mas, antes desse memorável evento, estive quieta de bailaricos talvez meio ano. Claro que tinha que vir para aqui gabar-me que fui ao RIR (hahaha). Fui no dia dos fósseis, em que tocavam Ub4, A-ha e Duran Duran, eu à espera de só encontrar thios de calças encarnadas e camisa branca, sapato de vela sem meia (ugh), acompanhados de thias cheias de extensões, botox e casaco de couro amarrado à cintura, afinal foi pacífico: média etária, meio século, mas muita canalha miúda e até duas senhoras idosíssimas (uma delas de cadeirinha eléctrica, a outra de bengala), havia de tudo um pouco, só não bebés (especialmente daqueles que guincham). Perdi praticamente todo o concerto dos Ub4, mas tinha que jantar sem ter que me meter numa bicha do demónio. (Meu pequeno grupo, hambúrgueres ao preço do ouro, eu um Pai Thai vegan ao preço da platina.) E sim, também estive mais de uma hora numa fileirinha pirilau para receber à borla uma cadeira insuflável, como tanto critica esse povo influencer (?), que não só tem menos quinze anos do que eu, como também vai parar a tendas vip e sentar-se em maples feitos de rabo de boi. Adiante: assim que me apanhei com o pufe, dei em dançar toda a noite, pelo que não usufruí praticamente nada dele, mais valia tê-lo oferecido a um pobrezinho que fosse ali a passar, sei lá.
Mas não era a isto que eu vinha: era também para me gabar, é certo, mas sobretudo para comunicar ao mundo que hoje voltei às minhas danças no ginásio. Levei três ou quatro abraços da treinadora, agradeci-lhe a frase que me inspirou durante estes sete meses e que saiu da boca dela, fiz a aula a sentir-me a maior, a não errar praticamente nada nas coreografias todas (embora suspeite que só fiz m., mas soube-me tão bem!), sempre com Natércia a assar-me a mioleira, ao fim de quinze minutos pensei: “Olha, faleço feliz!”, mas aguentei até ao último minuto, soubesse eu o que sei hoje e ter-me-ia voluntariado para os Comandos, pois desconfio que numa tropa especial é que eu me encaixava bem. 

01/07/2022

O António e os dedos no rabo

Sim, se calhar estas coisas acontecem a toda a gente, mas dá-se que não o creio. É por esse motivo que necessito de desabafá-las por escrito, como se, ao fazê-lo, elas se me descolassem da mente, ou, pelo menos, perdessem a força estrondosa com que me atormentam.

Era eu a chegar à bicha (blhá) da estação de serviço, e reconheci-o logo, de costas: careca, envergando o tipo de calças que usa sempre — skinny jeans, o homem já passou dos sessenta e aquilo ainda lhe aumenta mais o perímetro da cintura e lhe diminui o volume do traseiro a níveis praticamente inexistentes —, camisa desportiva entalada por dentro das calças, todo um menear de anca enquanto se queixava do aumento do preço dos combustíveis. Quando se apercebeu de que era eu que estava atrás dele, perguntou-me como é que eu estava, deu-me dois beijinhos extremamente perfumados e eu respondi a verdade: "Agora estou melhor". "Ah, do quê?", "Cancro.", "Aaaah, de quem?", "Meu.", e ele de nariz franzido, óculos a subirem para o intervalo das sobrancelhas, olhos exageradamente escancarados, boca a tomar aquele formato da das influencers quando se fotografam em selfie, "Aaaah, não fazia ideia!", lá veio a retórica das amigas que tiveram, milhares de amigas que tiveram e estão óptimas, olha que maravilha, ter um cancro é o prelúdio de ficar óptima, imagino o que ficarei, se óptima já eu era. 

Estava nestes pensamentos etéreos — não esquecer que o cenário era uma bomba de gasolina —, quando ele larga de lá, depois de me dizer que o Paulo é como um filho para mim, sendo que eu sei que o Paulo e ele vivem maritalmente: 

- Eu faço o exame da próstata todos os anos. Os meus amigos recusam-se, dizem que ninguém lhes mete os dedos no rabo, ou então aquele aparelho, mas eu não. 

E eu a pensar que sorte a dele, amigas pós-cancro óptimas, amigos pré-cancro com medo dos dedos no rabo, agora finalmente concluo que isto de ser mulher é um privilégio muito maior do que eu pensava, talvez me pirasse daqui neste preciso momento, antes que ele seja um nico mais gráfico. 


30/06/2022

Gente que não sabe estar

Era eu querer, e todos os dias teria episódios desta minha surpreendente existência para relatar. A ver se amanhã não me esqueço e me sobra tempo para contar a do António e os dedos no rabo. 

Agora que me tornei uma assídua frequentadora de salas de espera, parece que se desdobram cenas diante de mim para me fornecerem conteúdo aqui para o buraco. Também se confirma que os loucos sentem uma atracção irresistível pela pessoa humana. 

Então, estou sentada numa cadeira que fica na ponta de uma fileira delas, aguardando que me chamem para tomar uma pica na coxa, e há um bombeiro/ cuidador/ filho que coloca a cadeira de rodas de um senhor de idade mesmo ao meu lado, mas em perpendicular, ou seja, com a cara do homem virada para o meu perfil. E quem o empurrou até ali, pirou-se não sei para aonde, já vamos perceber porquê: o homem dá em tossir levemente e puxar escarretas fortemente, a um ritmo, vá (não cronometrei, mas em média), de uma langonha a cada dez segundos. Apercebi-me de que não as cuspia, pelo que presumi, levemente incomodada, de que as engolia. Mas, lá está, isto de ser bem educada é uma grandessíssima merda, pelo que comecei por decidir aguentar, depois aquilo foi num crescendo de insuportáveis sons da parte dele e agonia da minha, e nessa altura pensei que, mal o altifalante chamasse um nome feminino, levantava-me e fugia para a sala ao lado. Mas nada, exactamente porque é sempre assim comigo: a voz só chamava homens. Estive mesmo para me fazer flausina e levantar-me dali ao som de "José Silva à sala de tratamentos", a abanar o codril. Quando atingi o pináculo da aflição gástrica, levantei-me, desconsiderando a possibilidade de o velhote se e me ofender por sair de perto de tão agradável companhia e fui sentar-me na sala ao lado. Porém, os sons escarratórios do homenzinho ouviam-se com a mesma nitidez, tal e qual estivesse dentro da minha cabeça — e, pelos vistos, de todas as pessoas que estavam nesta outra sala. Deu-se então que uma senhora extremamente africana se revoltou com o ruído dimanado pelo outro, e começou a berrar-lhe algo como "Não sabe estar, ó!?", sendo que o Ó não lhe ligou nenhuma e continuou com a sinfonia expectórica. Nesse momento, ela recebeu uma chamada no telemóvel, que colocou em altos berros alta voz, e em que gritou a plenos pulmões para a sua interlocutora, num crioulo completamente perceptível, qualquer coisa acerca de um balde do lixo que o raio do velho lhe partiu porque se sentou nele, mas que lhe ia pagar, cena que durou seguramente oito ou nove minutos. 

As viscosidades bronco-pulmonares do idoso tornaram-se, assim, white noise, se é que isto é possível. Ficou uma sala cheia de gente com a atenção suspensa na saga velho, mais balde do lixo, mais compensação em espécie. E eu, uma vez que já tenho um lugar garantido na quinta subcave, ou porque me enervei muito, tive um ataque de riso, silencioso, é certo, mas daqueles que nos sacodem como se estivéssemos a ter um espasmo. Valeu lágrimas e tudo. Pode ser que o Hades me ensine a estar.


28/06/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 7

Estatelou-se ao comprido no chão de casa, desfez o colo do fémur em mil cacos e o pulso direito em três ou quatro. Escorregou em água, entornada de um copo que não viu cair. 
Escreve-me então um relato mais semelhante a um relatório, ou a um relambório de amarguras, embora pouco amargurado: duas mensagens de whatsapp com vinte linhas cada uma, logo seguidas por quinze fotografias e um filme, antecedendo estes mais duas mensagens igualmente semelhantes à espada de Dom Afonso Henriques. As fotografias retratam as várias fases da queda plus hospitalização, plus pós-operatório, plus já em casa. Não sei eleger a melhor ou a pior de todas: ela de óculos de sol na cama do hospital, ela na cadeira de rodas, solitária, num corredor, ela em casa de camisa de noite tigresse. O filme é a filmagem do momento em que os bombeiros a retiram pela janela de casa — mora, obviamente, numa moradia —, para evitarem ter que pôr a maca na vertical e passar os corredores todos desde o local da queda até à rua com a múmia senhora em pé, ou, quem sabe, de cabeça para baixo, não fosse ela soltar-se das amarras e esfarelar mais um fémur. Perguntei quem filmou, diz que foi um genro (of course, quem perderia um prato destes com a sogra, que ponha o dedo no ar, no nariz, whatever).
Isto não tem piada nenhuma, é apenas mais uma prova de que a minha vida dava uma longa metragem de m. Mas fiquei a meditar nas razões que levam alguém a encher a caixa de conversação — e a dos pirolitos — de outrem com tão profusa informação (?). E também no quão desimportantinha sou, pois nem uma simples pergunta a saber de mim a mulher me dirigiu. E ainda bem, porque ser a vedeta da doença é o papel que pior me assenta em todo o elenco.

18/06/2022

Nunca digas nunca

Foi durante aqueles dias de calor, a praia que este ano me está proibida — mas já lá estive, sentada sob o guarda-sol, de chapéu na cabeça e besuntada como um peixe (fora de água) para assar, juro que só pus os pés metade do corpo no mar uma vez, e nem mergulhei, olha, para o ano posso pedir seis desejos, paz, saúde, alegria, beleza, dinheiro e chocolates, não necessariamente por esta ordem —, que saí à rua e a canícula ia-me fritando os mióis, Natércia transformada num capacete de ferro daqueles que se colocam nos condenados da cadeira eléctrica, só lhe faltavam os fusíveis, achei mesmo que ia electrocutar a caixa craniana, então cheguei a casa e arranquei-a. Perguntei para o lado da casa onde se encontravam todos se preparados para me verem sem Natércia, o uníssono positivo, surgi então cheia de medo e alívio, mas sou tão parva e amada, a primeira reacção veio dele, não que goste mais de mim do que os outros, mas porque é mais rápido no gatilho, mesmo à macho, @s não binári@s que não me escutem, fui eu que fiz este homem que me enche sempre de orgulho e afecto, o primeiro abraço vem sempre dele, como naquele dia em que mandei mensagem para o nosso grupo com a palavra carcinoma, depois também naquele outro em que a palavra era remissão, disse ele: “Tão bonita”, com os olhos escuros e enormes que guardam a comoção dos do meu pai, para logo desmontar a “fraqueza” e acrescentar “Pareces um kiwi”. A mais velha, minha primeira vida, “Pareces uma actriz, ou a Sinead O’Connor”, a mais nova, “Que pausada”, o pai deles todos, “Pelinhos [meu mais recente petit nom], estás cheia de pelinhos na cabeça”. Foram seis meses a esconder o que estava por baixo da cabeleira, agora acabou também isso. Fiz o que disse que nunca faria.


14/06/2022

Eu tenho problemas com médicos # 30

Dúvidas houvesse, a minha vida dava um filme de cinema do piolho: Covid, aquele vírus, caçou-me de novo na curva. O jeito que dá desta vez, nem comento. 
Acontece que tinha uma bola de líquido (soro com sangue) a formar-se na axila, sei lá se de um dreno precocemente retirado. Vai disto, faço contas à minha vida, isolamento até sexta, penso marcado para quarta, e, não querendo quebrar o recolhimento, e após chamada para o Saúde 24, ponho-me em Santa Maria em menos de nada. Ia com instruções para me dirigir à Urgência Central ou à Oncologia, e comecei pela primeira. A macha antipática do guichet, mal ouviu falar em Covid, mandou-me para o covidário e eu lá fui. Estavam para aí 38º Celsius e umas seis pessoas cá fora, de entre as quais uma mulher gorda esparramada (toda reclinada para trás, a apanhar a fresca) numa cadeira de rodas, da qual claramente não necessitava. Tinha cabelos — crespos, espigados e secos — cor-de-rosa choque. Em choque, bati à porta do covidário e veio logo uma parola atrás de mim, na fuçanga de que a madame ia passar à frente do povo, a querer armar a p., logo com quem. Ignorei-a. De qualquer maneira, a enfermeira — de mãos nas ancas, como deve ser obrigatório naquele contentor da lepra —, perguntou-me com muito mau modo onde é que eu ia, e ordenou que tinha que esperar a minha vez. Gosto de evidências destas, especialmente vindas de pessoal que não tem pachorra para a vida em geral e para o seu trabalho em particular. Eu, submissa, "Ó senhora enfermeira, eu só preciso de saber se fico aqui ou se vou para a Oncologia", vai ela e diz que tem as seis boxes cheias e que ainda nenhum daqueles doentes foi visto. Lá fiz contas outra vez, lembrei-me que o ano passado estive na boxe dez horas (true, true, 10:00/20:00) até ser internada, ora dez mais dez, a contar com os que estavam lá fora, são vinte horas de espera, por isso despedi-me delicadamente da varina enfermeira e fui espreitar a sala de espera, o que constitui uma triste metáfora, pois trata-se de outro contentor, mas sem ar condicionado, quer dizer, primeiro assam os doentes, depois é que os metem na boxe (que é gélida, portanto a ideia é o choque térmico). Estavam lá dentro, acho que ainda vivas, umas quinze pessoas, por isso voei para o hospital privado da minha eleição, onde fui atendida em menos de quinze minutos, um fresquinho de dar gosto, tudo tão limpinho que pensei que tivesse morrido e aquilo fosse o Paraíso. Mas não era. Fui atendida por um médico pigmeu, cuja farda do hospital lhe estava tão grande que as calças arrastavam por baixo dos sapatos (não têm o XXS, está visto), mudo como uma porta, ao qual expliquei (quase) tudo o que me atormentava no momento. Ele ouviu com aparente atenção, escreveu tudo num papelinho muito pequenino, em letra extremamente miudinha, e concluiu assim a consulta: "Eu vou chamar a Cirurgia Plástica". Também podia ter dito a Estomatologia, que o meu espanto não seria maior, mas já estava por tudo, chamasse também a P.E. e os bombeiros de Algés. Entretanto, um enfermeiro chamou-me, arrancou-me da veia um canhão de sangue, levaram-me a outro piso para fazer um raio-x ao tórax (tudo a ver com o que me levava lá, obviamente), veio uma médica que viu a minha bola da sovaca e disse que "aguenta até quarta-feira" (sem rebentar?), e saí de lá com menos 96 pacas na conta do banco, mas, se não aliviada, pelo menos muito mais confusa.

07/06/2022

200 dias

Foram exactamente duzentos dias entre aquele em que, agarrada ao papel, na avenida cheia de trânsito no chão e aviões no céu, percebi que tinha chegado o momento de me fazer forte e enfrentar a fera, e ontem, quando o médico me tirou a cruz das costas, as correntes dos tornozelos e a corda da garganta, e me disse que estou livre, matei o monstro, a quimioterapia limpou-mo do corpo. 

Estávamos a lanchar, ela e eu, amigas desde os dez anos, já perdi a conta a quantas décadas tem esta amizade. Tínhamos o sol em cima, a luz toda só nossa, quando me lembrei de lhe mostrar em que pé está o meu cabelo. Levantei um dos lados de Natércia e os olhos dela logo marejados, eu sem cabelo, ou melhor, com um cabelinho pequenino, e de repente também sem chão, sem saber o que dizer, “O que é que foi? Ficaste comovida por veres o meu micro-cabelo?”. Agarrei as duas mãos dela, queria consolá-la do mal que tinha acabado de lhe provocar, e nisto ela dá-me a resposta mais bonita que podia ter dado: “Não, é que me lembraste muito o teu pai”.


28/05/2022

Sabichona

Naquele dia, que verdadeiramente não interessa para aqui qual foi, dirigi-me ao balcão de levantamento de exames médicos de um dos hospitais de Lisboa onde é praticamente imperioso que se deixe um órgão qualquer à nossa escolha para que seja possível liquidar uma factura. 

A jovem criança que me atendeu, pestanas muitíssimo postiças, cabelo apanhado num rabo-de-cavalo extremamente repuxado, farda impecável, responde-me, após consulta do oráculo computorizado onde haveriam de constar quase todos os meus passos do último meio ano: “Não tenho cá nada”. Pacientemente, expliquei-lhe que não se deve usar secador no cabelo das bonecas seria operada no dia seguinte, pelo que um electrocardiograma e um RX de tórax são fundamentais para que a cirurgia possa ter lugar. E diz-me a bebé, de repente médica por osmose, do alto da sua científica sabedoria: “Mas não é por a senhora não ter o resultado desses dois exames que vai deixar de ser operada amanhã”. Tive uma pequena taquicardia, respirei um bocadinho fundo, equacionei dar-lhe uma palmada no rabo, mas apenas esclareci: “Uma cirurgia com anestesia geral requer que se façam esses dois exames, para que o anestesista saiba em que estado está o nosso coração e os nossos pulmões. Sem eles, nem o cirurgião pode operar, nem eu me deixo operar. Repare, se eu morrer a meio da operação porque não toparam com uma insuficiência cardíaca, dado que não tinham o resultado dos meus exames, a culpa morrerá comigo, mas solteira, pois ninguém saberá que este diálogo aconteceu”. 

Acho que a baralhei. As pestanas postiças abriram em leque, pareciam uns pavõezinhos, quando me despachou para a colega — “A senhora vá ali ao balcão do internamento, pode ser que lá consigam [percebê-la] esclarecê-la” —, onde, simplesmente, no mesmo oráculo que a petiza consultara, constavam os meus exames, que a colega imprimiu e me entregou. Isto levou cerca de dois minutos, vá, dois minutos e trinta e nove segundos.



18/05/2022

Ultimamente endureci

Entrei no gabinete e toda eu era sombras e tempestades: sentei-me sem convicção, os ombros denunciando desalento, um pequeníssimo suspiro imperceptível, ou, melhor dizendo, talvez o mundo inteiro tenha ouvido, pois a médica perguntou-me por que é que estava tão desanimada, se dias antes havíamos falado pelo telefone e eu era a personificação do optimismo. Falei-lhe do tempo, das nuvens, do quão isso influencia o meu estado de espírito, depois, perante a descrença dela, que podiam ser efeitos químicos, por fim ainda tentei a desculpa das hormonas, até que confessei num fio de voz, os olhos pregados no chão por uma culpa e um medo que me esmagavam sem piedade — imerecida —, que, na sala de espera, tinha estado perto de mim uma senhora da minha idade, a barriga enorme semelhante à de uma gestação de seis meses, um gemido baixinho e contínuo, e não fui eu — porque endureci ultimamente — que lhe perguntei se precisava de ajuda, como faria sem hesitar noutros tempos que sei lá se voltam, foi outra senhora que também ali estava e, certamente, feita de massa melhor do que a minha. Ela que não, que a enfermeira já vinha, até que lhe percebi o corpo inteiro a sacudir-se, eram soluços como os de uma criança magoada, Tenho dores, e eu, endurecida, saí dali para fora quando vi chegar duas médicas e a mim me chegavam, cobardes, duas míseras — miseráveis — lágrimas aos olhos, duras como pedras.


15/05/2022

Há quem não dialogue comigo

Creio que estou a desenvolver a arte, com bastante perícia e minúcia, do monólogo. Estou demasiadas horas sozinha em casa, já que não posso fazer sequer as bem fadadas caminhadas (unhas dos pés ainda em processo de descolagem, qual avião com asas). Falo com as gatas, rabujo com os objectos, enfim, atingi o ponto da velha tonta, que era suposto chegar daqui a umas (poucas!) décadas.

Chegara eu à caixa do supermercado, pusera meus quase haveres na passadeira rolante, em primeiras uma palete de leite com seis litros dele, em segundas um outro bagulho qualquer, creio que um quilo de sal grosso, que preciso de tingir umas calças encarnadas de encarnado (porque um dia tinha uma nódoa que esfreguei tão bem que lhes arranquei a tinta, e, vá, a p. da nódoa também), e o tingimento envolve sal grosso, de contrário não o adquiriria, que a gente só usa flor de sal cá no lar, somos um jardim salgado, mui finos.

Vai a pessoa que me calha na rifa registar os meus coisos, o leite, o sal, e nisto reparo que o meu total já vai em 31 paus e uns cêntimos, e é quando me saltam os dois olhos das órbitas na direcção do ecrãzinho e me apercebo que a palete do leite foi registada como se custasse 30 dele. Olha, queres ver que me enganei e trouxe leite de chinchila? Ou será que fui catapultada para 2099 e isto é o preço normal do leitinho? Ah, já sei: isto é para “Os apanhados”. Vou dialogar.

- Olhe, desculpe, por que é que me registou o leite por 30 euros?

- …

- Já sei: tem ouro na sua composição. 

- …

- Sou menina para me engasgar se der um gole num leite desse preço.

- …

- Ou então, se calhar desisto do leite e passamos a pôr água da torneira nos cereais lá em casa.

A muda desregistou o leite sem uma palavra, nem desculpe, nem enganei-me, e voltou a registar, desta vez por 5 euros. Ou seja, minha iluminada passou o código de barras da palete e depois multiplicou por seis, que eu ainda sei a tabuada. Tão comunicativa, até me deu vontade de ir buscar mais cinco paletes, já que me tinha mentalizado em despender 30 mocas em leite, não fora depois ter que os alombar até ao cume da montanha onde vivo (um segundo andar com elevadores).


04/05/2022

Sombras

Saí do elevador em direcção ao parque de estacionamento subterrâneo, só tinha descido um andar, mas eu agora posso, deixou de me apetecer fazer o exercício mental de descer um lance de escadas, e vi-o a alguma distância, parado no meio da faixa, uma chave de carro na mão, um papelinho na outra, triste, só e abandonado. Não percebi, no primeiro relance, se teria algum atraso, demência ou — claro que a vaidade do meu vestido roxo me fez ponderar, apesar dos evidentes sinais de quimioterapia que carrego — algum tarado daqueles que vão para a via pública com conversa da treta só para poderem meter-se com mulheres. Procurei desviar-me, mas ele há coisas. Quis fugir-lhe, é verdade, estou farta que me magoem, me piquem, me dêem coisas a tomar que me adormecem, não a dor, mas toda eu, e vinha de mais um hospital, por isso achei que podia.

Preciso de ajuda, disse-me ele. E era uma criança, afinal, olhos, lábios, ombros e barriga descaídos, o corpo todo desistido, o olhar embaciado de vidro martelado molhado, os cantos da boca a tremer para baixo, fez-me lembrar eu quando a minha mãe me deixava no jardim de infância, ou demorava a chegar, ou alguém me fazia mal — o que, segundo os meus cânones de migalhinha frágil, era todos os dias —, que perdia o controle da musculatura dos cantos da boca e, não querendo chorar (não sei se por valentia ou por cobardia), ficava para ali naquele tremor denunciante, assim como este homem. 

Não consigo encontrar o carro da minha filha, suplicou então. A chave que trazia na mão era o comando de um carro, o papelinho que tinha na outra, um bilhete de entrada no parque, com a data, a hora, a matrícula e mais um ou dois pormenores que não ajudavam grande coisa para a agora nossa busca. 

Qual é o carro da filha do senhor? — Eu, na esperança de que ele me dissesse “um carocha encarnado”, mas claro que recebi em troca “um Citroën cinzento”, oh Cristo, para pessoas como eu, Citroën cinzento são todos os carros, desconfio mesmo que cá em casa temos três Citroëns cinzentos, esta resposta, dada a outra qualquer, ainda dava pano para mangas, “um C3, ou assim?”, comigo não, os carros são todos iguais, com ligeiras nuances, mas vai de não desistir: peguei no comando do senhor, que é como quem diz, tomei o comando da operação, apontei para o fundo do parque, premi o botão de abertura das portas, mas nada. Tentei com o do fecho das portas, o mesmo insucesso. O botão do meio tinha um símbolo com um farol desenhado,  tentei esse e bingo, o carro iluminou-se a seis metros de nós. 

Não vi o homem ficar alegre, aliviado, agradecido, ou expressar qualquer emoção. Era só eu, quando me passava o tremor dos cantos da boca porque já não me doía nada. 

(Já faltou mais para que um destes dias também ninguém mais me magoe, me pique ou me dê coisas que me adormecem, toda eu.)


25/04/2022

O céu é um limite

Quero agora saber onde é que foste beber a tua fé. Quero agora uma igual para mim. O que é, onde fica o teu porto seguro, o teu abrigo, o teu ombro, o teu colo, a mão que se estende na tua direcção, a tábua de salvação, e outras metáforas semelhantes que não me ocorrem agora? Quero acreditar, quero também essa certeza de que vai correr tudo bem, que tudo acabará bem, que até eu ficarei bem, seja onde e como for. Que existe algo maior do que eu, que me fará companhia independentemente da duração do calvário, do tamanho e do peso da cruz.

~

Íamos em quê? Trinta anos de amizade, ou bastante mais do que isso? E agora desapareceste, quando me soubeste doente. Não que precise mais de ti agora, nestas coisas é assim mesmo como diz o dito: quem está, está; quem não está, estivesse. Mas quero perceber, daí ter-te perguntado a razão desse afastamento, logo agora. Apareceste via mensagem escrita, por ocasião da Páscoa, desejando-me uma “santa Páscoa”, com muitos bonecos de pintainhos e raminhos. Não me falaste em amizade, na tua vida que eu sei descomplicada, nos dias que voam. Pediste-me apenas perdão e manifestaste a esperança de que eu um dia entenda as tuas fragilidades. Fiquei, então, com mais uma incumbência para a minha vida, imagina: entender as tuas fragilidades. Um dia, que cómico: quando eu for dada como curada ou como perdida? Queres escolher agora?

Pergunto-me quanto tempo mais duraria a tua ausência se não fosse a “santa Páscoa”. Entretanto, se dependesse só de ti, todo o meu percurso seria de solidão e desapoio. 

~

Não tenho um rumo religioso muito bem definido, pode ser que ande perto da definição de católica não praticante. Não tenho paciência nem tempo para ir todos os domingos ouvir as palavras lidas de um homem cumpridor e enfadado, lado-a-lado com mais não sei quantas outras almas que crêem, mas também precisam de ver e ser vistas, de apaziguar as pequenas tormentas do dia-a-dia, ou sei lá por que razões o fazem. A minha conversa com o meu Deus é em discurso directo, às vezes zango-me, ralho, a maior parte das vezes peço. E não é por mim.

Dir-me-ás o que dizem os tais praticantes sobre os que não frequentam o vosso culto: que é mais fácil ficar em casa do que ir ouvir a palavra do Senhor. Sim, até concordo. Mas também é mais fácil ir à missa todos os domingos bater no peito, por mea culpa, por mea tão grande culpa, e encontrar assim a paz, depois da punhalada num amigo ao qual só precisavas de ter dado essa mesma mão que bate, em contrição, religiosamente, todos os domingos no teu peito cheio de fragilidades.




23/04/2022

Destravada

Tínhamos como intenção, minha Rosinha e eu, estacionar num parque de estacionamento de um supermercado, lado-a-lado com o carro de outro condutor que acabara de fazer a mesmíssima manobra. E assim fizemos. O senhor saiu da viatura dele, foi ao porta-bagagens remexer não sei em quê, quando me apercebi de que o carro dele estava a andar sozinho, recuando na sua direcção. Curiosamente, o homem também deslizava para trás, numa óbvia impossibilidade de ser colhido pelo próprio automóvel, como se ambos estivessem em cima de um tapete rolante, ou a fazer moonwalk, sempre à retaguarda. Mas o que é que o neurónio louro/ ansioso/ incapaz de raciocinar algo que não seja sempre A tragédia, processou logo? “O homem vai aqui morrer esmagado pelo próprio carro à minha frente e eu não terei movido uma palha para o evitar”. Mais nada, isto logo pela manhã, quase madrugada, eram umas 10:30. Então, vai de reagir, como faço sempre nas situações de pânico (mesmo naquelas que não são, como se verá pelo exemplo desta), valha-me ao menos isso, que não sou dessas que “ai, eu paraliso”, ou seja, “mais um mono para carregar se houver um incêndio, estúpida”. Bati no meu próprio vidro, já que não conseguia abri-lo (motor desligado), tentei apitar (motor desligado), e, quando tomei a decisão que considerei certa — abrir a porta e gritar-lhe que tinha o carro destravado —, já o homenzinho podia estar falecido sob sua máquina, mas ao menos eu tentara salvá-lo e isso, parecendo que não, conta pontos não sei aonde. Mas não, ele continuava a mexer no interior do porta-bagagens, recuando à medida exacta em que o carro dele recuava. 

Percebi, nesse momento, que era eu quem tinha o travão de mão desligado e que Rosinha avançava, felizmente sem que houvesse qualquer obstáculo à nossa frente, caso contrário lá se teria ido com os porcos mais um pára-choques (que é para isso que eles servem, literalmente).

Moral da história? Acho que não há. Pus um chapéu sobre Natércia, para me disfarçar de Greta Garbo, ainda me cruzei várias vezes com o senhor nos corredores do supermercado, ponderei desculpar-me com a seguinte frase: “Afinal, a destravada era eu”, mas o ar atónito da figura de cada vez que me encarava era tal, que deixei para uma próxima.


16/04/2022

Pilosidades oculares

Hoje pus pestanas postiças pela primeira vez na minha vida. Quer dizer, já tinha experimentado, mas a própria colocação havia-se revelado algo de parecido entre uma luta de cola, pêlos rígidos e nervos, com um resultado final não muito longe do que conseguiria a traveca de Almada, pestanas gigantescas à drag queen, as da direita coladas para um lado e as da esquerda para o outro, quase a meio da pálpebra, só faltava colá-las na testa. 
Na perspectiva de ficar sem as minhas, mandei vir umas especiais de corrida, naturais (com tamanho próprio para mulher), elaboradas por alguém sobrevivente a um cancro, o que, se nada garante quanto à eficácia do produto, pelo menos dá-lhe uma credibilidade acrescida relativamente às pestanas que parecem capachos extensões, que ainda estou para saber como é que alguém aguenta aquilo dependurado das pálpebras por cinco minutos que seja.
Correu mal, a minha enésima tentativa e primeira colocação. Estava enervada de me ver, de dia para dia, com menos pestanas. E a não caírem simetricamente, o que só estimulava o meu TOC com assimetrias: caíam mais da pálpebra superior direita e da inferior esquerda, mas isto faz alguma lógica? Deviam cair só as de baixo, ou então na mesma proporção à esquerda e à direita. Não, uma desarrumação impossível de disfarçar com rímel, uma indómita vontade de cortar tudo rente.
Enfim, hoje acordei determinada. Tenho um jantar com amigos — só para que conste, eu tenho amigos e que jantam comigo —, e, já que tenho que ir com as unhas todas negras, cabelo postiço e sobrancelhas pintadas, ao menos que leve pestanas nos olhos. Já não digo buço.
Aquilo tem um autocolante transparente, “invisível”, que até dá para maquilhar por cima. Mas a aplicação é o mesmo drama que é para qualquer par de pestanas postiças: são dedos a mais, pelinhos que se entortam, a cola é sempre necessária porque a curvatura das postiças nunca corresponde à da nossa pálpebra e as pontas ficam espetadas, a pessoa usa pinça (correndo o risco de espetá-la num olho e ficar invisual à custa de), prega com o pelame no sítio errado da pálpebra, descobre rugas que nem sabia que tinha (ou nasceram entretanto, com tanta contrariedade), toda uma briga entre a nossa minha teimosia e a necessidade de me sentir bela. 
Levei uma hora nisto. Aguentei, posteriormente, outra hora com elas “postas”, a sentir picar em todo o globo, um peso nas pálpebras superiores que parecia aquelas actrizes de Hollywood dos anos 50’s do século passado (só me faltava a cigarrilha), que não conseguiam abrir mais do que meio olho, uma sensação de estar pejada de remelas, pronto, arranquei tudo. Vou jantar com as poucas pestanas que ainda tenho, ou então meto uns óculos de sol e digo que estou com fotossensibilidade, derivados do luar. 

05/04/2022

Aquele doce poço de egoísmo

Não peço caridades, nem dedicações exacerbadas, também já para aqui disse que não pretendo ouvir elogios à minha não beleza actual, acho que até os incentivos de "força" já me irritam, como se eu estivesse em trabalho de parto constante, ou com prisão de ventre. A mim basta-me, como sempre me bastou, que me tratem bem, porque sou um ser reactivo, e oh, só consigo tratar bem quem me trata bem, olha lá a mentalidade do bicho-da-conta. 

Mas peço, encarecidamente, aqui (semi) publicamente, que não me sobrecarreguem com os vossos calos e as vossas águas passadas, quando estiveram tão mal que não conseguem esquecer-se, porque, convenhamos, neste momento sinto que estou a defecar-me (não literalmente, por enquanto) para o vosso assunto. 

A conselho de quem agora (tenta, pelo menos) me orienta os neurónios sobrevivos, que defende que não devo "concentrar-me na doença, para não cair numa depressão" (não sei se ria), encetei uma saída semanal com uma amiga diferente de cada vez, quer para lanchar, quer para almoçar. Nada de copos e folia, portanto. Não se percebe.

Tenho cumprido com o esquema, embora esteja a sair-me do bolso, já que sou quase sempre eu que convido e, quando não, uma vez que mando vir sempre o prato mais caro (não do estabelecimento, mas comparativamente com o da minha companhia), lá alanco com a despesa sem pestanejar. Pelo bem que me sabe, pela saúde dos meus filhos, não por esta ordem, dou-o por bem gasto.

Mas. 

A semana passada fui "beber café" com uma amiga daquelas que nos puxam para baixo, sabem? Acho que toda a gente tem, pelo menos, uma. Aquela porra de uma aura negativa, a pessoa com quem tens uma espécie de paralisia de soltar uma gargalhada. A amiga com quem nunca deves falar de bâtons — porque desconhece o conceito —, mas podes falar de pus à vontade. Já ia à retranca, a pôr uma hora limite para o encontro, porque intuía que não ia ser um momento feliz, e eu preciso de momentos felizes agora, que quereis? Estabeleci mentalmente a duração de uma hora, apesar de achar que era tempo a mais. Então, acabou sendo uma hora e meia, finda a qual eu disse que já não aguentava mais tinha que ir ao supermercado comprar coisas. Porque foram noventa minutos — noventa minutos — a ouvir as queixas dela e a descrição de uma doença que teve recentemente, que a ia matando. Ora, vamos lá a ver: é verdade que ela esteve muito mal, knocking on heaven's (or hell) door. Esteve. Já è finito. E repito até já não poderem ler-me: eu não sou psicóloga, ninguém me paga para isto, não tenho que levar secas das doenças de cada um, ainda mais agora. Se a ideia é não falarem da minha doença, óptimo, não falem, que eu também não falo. Dissertem sobre flores, cágados, gente que anda à chapada. Façam teses de doutoramento sobre o ovo e a galinha, e despejem-mas para cima. Mas poupem-me aos vossos calos e borbulhas, porque eu me estou, realmente, soberanamente, olimpicamente, cagando para isso. 

Posso ser — ou estar transformada — num poço sem fundo de egoísmo e cavalada. Mas tenho a meu favor (ou contra mim) o facto de ter recebido uma educação em que as pessoas não explicam o que se passa com elas em termos de saúde. Como na anedota, em que o inglês pergunta "How are you?", o outro inglês responde "Fine, thank you", mas se o mesmo inglês perguntar a um português "Como é que estás?", leva com um enxorrilho de sintomas, suspeitas, doenças, auto-diagnósticos, idas ao hospital, incompetência dos médicos, prognósticos e dramas para os quais ninguém tem cu. 

E continuo a repetir que coitadas das pessoas, estão muito sozinhas, e isso justifica tudo. Não, não justifica. Eu também sou uma pessoa, de alguma maneira também estou muito sozinha, e não massacro ninguém com o que me dói. Portanto, agradeço que me deslarguem dentro da minha bolha e, se não têm nada para me fazer rir nem que seja um segundo, eclipsem-se. 

(Ainda a raiva, ainda não a aceitação.)