18/05/2022

Ultimamente endureci

Entrei no gabinete e toda eu era sombras e tempestades: sentei-me sem convicção, os ombros denunciando desalento, um pequeníssimo suspiro imperceptível, ou, melhor dizendo, talvez o mundo inteiro tenha ouvido, pois a médica perguntou-me por que é que estava tão desanimada, se dias antes havíamos falado pelo telefone e eu era a personificação do optimismo. Falei-lhe do tempo, das nuvens, do quão isso influencia o meu estado de espírito, depois, perante a descrença dela, que podiam ser efeitos químicos, por fim ainda tentei a desculpa das hormonas, até que confessei num fio de voz, os olhos pregados no chão por uma culpa e um medo que me esmagavam sem piedade — imerecida —, que, na sala de espera, tinha estado perto de mim uma senhora da minha idade, a barriga enorme semelhante à de uma gestação de seis meses, um gemido baixinho e contínuo, e não fui eu — porque endureci ultimamente — que lhe perguntei se precisava de ajuda, como faria sem hesitar noutros tempos que sei lá se voltam, foi outra senhora que também ali estava e, certamente, feita de massa melhor do que a minha. Ela que não, que a enfermeira já vinha, até que lhe percebi o corpo inteiro a sacudir-se, eram soluços como os de uma criança magoada, Tenho dores, e eu, endurecida, saí dali para fora quando vi chegar duas médicas e a mim me chegavam, cobardes, duas míseras — miseráveis — lágrimas aos olhos, duras como pedras.


15/05/2022

Há quem não dialogue comigo

Creio que estou a desenvolver a arte, com bastante perícia e minúcia, do monólogo. Estou demasiadas horas sozinha em casa, já que não posso fazer sequer as bem fadadas caminhadas (unhas dos pés ainda em processo de descolagem, qual avião com asas). Falo com as gatas, rabujo com os objectos, enfim, atingi o ponto da velha tonta, que era suposto chegar daqui a umas (poucas!) décadas.

Chegara eu à caixa do supermercado, pusera meus quase haveres na passadeira rolante, em primeiras uma palete de leite com seis litros dele, em segundas um outro bagulho qualquer, creio que um quilo de sal grosso, que preciso de tingir umas calças encarnadas de encarnado (porque um dia tinha uma nódoa que esfreguei tão bem que lhes arranquei a tinta, e, vá, a p. da nódoa também), e o tingimento envolve sal grosso, de contrário não o adquiriria, que a gente só usa flor de sal cá no lar, somos um jardim salgado, mui finos.

Vai a pessoa que me calha na rifa registar os meus coisos, o leite, o sal, e nisto reparo que o meu total já vai em 31 paus e uns cêntimos, e é quando me saltam os dois olhos das órbitas na direcção do ecrãzinho e me apercebo que a palete do leite foi registada como se custasse 30 dele. Olha, queres ver que me enganei e trouxe leite de chinchila? Ou será que fui catapultada para 2099 e isto é o preço normal do leitinho? Ah, já sei: isto é para “Os apanhados”. Vou dialogar.

- Olhe, desculpe, por que é que me registou o leite por 30 euros?

- …

- Já sei: tem ouro na sua composição. 

- …

- Sou menina para me engasgar se der um gole num leite desse preço.

- …

- Ou então, se calhar desisto do leite e passamos a pôr água da torneira nos cereais lá em casa.

A muda desregistou o leite sem uma palavra, nem desculpe, nem enganei-me, e voltou a registar, desta vez por 5 euros. Ou seja, minha iluminada passou o código de barras da palete e depois multiplicou por seis, que eu ainda sei a tabuada. Tão comunicativa, até me deu vontade de ir buscar mais cinco paletes, já que me tinha mentalizado em despender 30 mocas em leite, não fora depois ter que os alombar até ao cume da montanha onde vivo (um segundo andar com elevadores).


04/05/2022

Sombras

Saí do elevador em direcção ao parque de estacionamento subterrâneo, só tinha descido um andar, mas eu agora posso, deixou de me apetecer fazer o exercício mental de descer um lance de escadas, e vi-o a alguma distância, parado no meio da faixa, uma chave de carro na mão, um papelinho na outra, triste, só e abandonado. Não percebi, no primeiro relance, se teria algum atraso, demência ou — claro que a vaidade do meu vestido roxo me fez ponderar, apesar dos evidentes sinais de quimioterapia que carrego — algum tarado daqueles que vão para a via pública com conversa da treta só para poderem meter-se com mulheres. Procurei desviar-me, mas ele há coisas. Quis fugir-lhe, é verdade, estou farta que me magoem, me piquem, me dêem coisas a tomar que me adormecem, não a dor, mas toda eu, e vinha de mais um hospital, por isso achei que podia.

Preciso de ajuda, disse-me ele. E era uma criança, afinal, olhos, lábios, ombros e barriga descaídos, o corpo todo desistido, o olhar embaciado de vidro martelado molhado, os cantos da boca a tremer para baixo, fez-me lembrar eu quando a minha mãe me deixava no jardim de infância, ou demorava a chegar, ou alguém me fazia mal — o que, segundo os meus cânones de migalhinha frágil, era todos os dias —, que perdia o controle da musculatura dos cantos da boca e, não querendo chorar (não sei se por valentia ou por cobardia), ficava para ali naquele tremor denunciante, assim como este homem. 

Não consigo encontrar o carro da minha filha, suplicou então. A chave que trazia na mão era o comando de um carro, o papelinho que tinha na outra, um bilhete de entrada no parque, com a data, a hora, a matrícula e mais um ou dois pormenores que não ajudavam grande coisa para a agora nossa busca. 

Qual é o carro da filha do senhor? — Eu, na esperança de que ele me dissesse “um carocha encarnado”, mas claro que recebi em troca “um Citroën cinzento”, oh Cristo, para pessoas como eu, Citroën cinzento são todos os carros, desconfio mesmo que cá em casa temos três Citroëns cinzentos, esta resposta, dada a outra qualquer, ainda dava pano para mangas, “um C3, ou assim?”, comigo não, os carros são todos iguais, com ligeiras nuances, mas vai de não desistir: peguei no comando do senhor, que é como quem diz, tomei o comando da operação, apontei para o fundo do parque, premi o botão de abertura das portas, mas nada. Tentei com o do fecho das portas, o mesmo insucesso. O botão do meio tinha um símbolo com um farol desenhado,  tentei esse e bingo, o carro iluminou-se a seis metros de nós. 

Não vi o homem ficar alegre, aliviado, agradecido, ou expressar qualquer emoção. Era só eu, quando me passava o tremor dos cantos da boca porque já não me doía nada. 

(Já faltou mais para que um destes dias também ninguém mais me magoe, me pique ou me dê coisas que me adormecem, toda eu.)


25/04/2022

O céu é um limite

Quero agora saber onde é que foste beber a tua fé. Quero agora uma igual para mim. O que é, onde fica o teu porto seguro, o teu abrigo, o teu ombro, o teu colo, a mão que se estende na tua direcção, a tábua de salvação, e outras metáforas semelhantes que não me ocorrem agora? Quero acreditar, quero também essa certeza de que vai correr tudo bem, que tudo acabará bem, que até eu ficarei bem, seja onde e como for. Que existe algo maior do que eu, que me fará companhia independentemente da duração do calvário, do tamanho e do peso da cruz.

~

Íamos em quê? Trinta anos de amizade, ou bastante mais do que isso? E agora desapareceste, quando me soubeste doente. Não que precise mais de ti agora, nestas coisas é assim mesmo como diz o dito: quem está, está; quem não está, estivesse. Mas quero perceber, daí ter-te perguntado a razão desse afastamento, logo agora. Apareceste via mensagem escrita, por ocasião da Páscoa, desejando-me uma “santa Páscoa”, com muitos bonecos de pintainhos e raminhos. Não me falaste em amizade, na tua vida que eu sei descomplicada, nos dias que voam. Pediste-me apenas perdão e manifestaste a esperança de que eu um dia entenda as tuas fragilidades. Fiquei, então, com mais uma incumbência para a minha vida, imagina: entender as tuas fragilidades. Um dia, que cómico: quando eu for dada como curada ou como perdida? Queres escolher agora?

Pergunto-me quanto tempo mais duraria a tua ausência se não fosse a “santa Páscoa”. Entretanto, se dependesse só de ti, todo o meu percurso seria de solidão e desapoio. 

~

Não tenho um rumo religioso muito bem definido, pode ser que ande perto da definição de católica não praticante. Não tenho paciência nem tempo para ir todos os domingos ouvir as palavras lidas de um homem cumpridor e enfadado, lado-a-lado com mais não sei quantas outras almas que crêem, mas também precisam de ver e ser vistas, de apaziguar as pequenas tormentas do dia-a-dia, ou sei lá por que razões o fazem. A minha conversa com o meu Deus é em discurso directo, às vezes zango-me, ralho, a maior parte das vezes peço. E não é por mim.

Dir-me-ás o que dizem os tais praticantes sobre os que não frequentam o vosso culto: que é mais fácil ficar em casa do que ir ouvir a palavra do Senhor. Sim, até concordo. Mas também é mais fácil ir à missa todos os domingos bater no peito, por mea culpa, por mea tão grande culpa, e encontrar assim a paz, depois da punhalada num amigo ao qual só precisavas de ter dado essa mesma mão que bate, em contrição, religiosamente, todos os domingos no teu peito cheio de fragilidades.




23/04/2022

Destravada

Tínhamos como intenção, minha Rosinha e eu, estacionar num parque de estacionamento de um supermercado, lado-a-lado com o carro de outro condutor que acabara de fazer a mesmíssima manobra. E assim fizemos. O senhor saiu da viatura dele, foi ao porta-bagagens remexer não sei em quê, quando me apercebi de que o carro dele estava a andar sozinho, recuando na sua direcção. Curiosamente, o homem também deslizava para trás, numa óbvia impossibilidade de ser colhido pelo próprio automóvel, como se ambos estivessem em cima de um tapete rolante, ou a fazer moonwalk, sempre à retaguarda. Mas o que é que o neurónio louro/ ansioso/ incapaz de raciocinar algo que não seja sempre A tragédia, processou logo? “O homem vai aqui morrer esmagado pelo próprio carro à minha frente e eu não terei movido uma palha para o evitar”. Mais nada, isto logo pela manhã, quase madrugada, eram umas 10:30. Então, vai de reagir, como faço sempre nas situações de pânico (mesmo naquelas que não são, como se verá pelo exemplo desta), valha-me ao menos isso, que não sou dessas que “ai, eu paraliso”, ou seja, “mais um mono para carregar se houver um incêndio, estúpida”. Bati no meu próprio vidro, já que não conseguia abri-lo (motor desligado), tentei apitar (motor desligado), e, quando tomei a decisão que considerei certa — abrir a porta e gritar-lhe que tinha o carro destravado —, já o homenzinho podia estar falecido sob sua máquina, mas ao menos eu tentara salvá-lo e isso, parecendo que não, conta pontos não sei aonde. Mas não, ele continuava a mexer no interior do porta-bagagens, recuando à medida exacta em que o carro dele recuava. 

Percebi, nesse momento, que era eu quem tinha o travão de mão desligado e que Rosinha avançava, felizmente sem que houvesse qualquer obstáculo à nossa frente, caso contrário lá se teria ido com os porcos mais um pára-choques (que é para isso que eles servem, literalmente).

Moral da história? Acho que não há. Pus um chapéu sobre Natércia, para me disfarçar de Greta Garbo, ainda me cruzei várias vezes com o senhor nos corredores do supermercado, ponderei desculpar-me com a seguinte frase: “Afinal, a destravada era eu”, mas o ar atónito da figura de cada vez que me encarava era tal, que deixei para uma próxima.


16/04/2022

Pilosidades oculares

Hoje pus pestanas postiças pela primeira vez na minha vida. Quer dizer, já tinha experimentado, mas a própria colocação havia-se revelado algo de parecido entre uma luta de cola, pêlos rígidos e nervos, com um resultado final não muito longe do que conseguiria a traveca de Almada, pestanas gigantescas à drag queen, as da direita coladas para um lado e as da esquerda para o outro, quase a meio da pálpebra, só faltava colá-las na testa. 
Na perspectiva de ficar sem as minhas, mandei vir umas especiais de corrida, naturais (com tamanho próprio para mulher), elaboradas por alguém sobrevivente a um cancro, o que, se nada garante quanto à eficácia do produto, pelo menos dá-lhe uma credibilidade acrescida relativamente às pestanas que parecem capachos extensões, que ainda estou para saber como é que alguém aguenta aquilo dependurado das pálpebras por cinco minutos que seja.
Correu mal, a minha enésima tentativa e primeira colocação. Estava enervada de me ver, de dia para dia, com menos pestanas. E a não caírem simetricamente, o que só estimulava o meu TOC com assimetrias: caíam mais da pálpebra superior direita e da inferior esquerda, mas isto faz alguma lógica? Deviam cair só as de baixo, ou então na mesma proporção à esquerda e à direita. Não, uma desarrumação impossível de disfarçar com rímel, uma indómita vontade de cortar tudo rente.
Enfim, hoje acordei determinada. Tenho um jantar com amigos — só para que conste, eu tenho amigos e que jantam comigo —, e, já que tenho que ir com as unhas todas negras, cabelo postiço e sobrancelhas pintadas, ao menos que leve pestanas nos olhos. Já não digo buço.
Aquilo tem um autocolante transparente, “invisível”, que até dá para maquilhar por cima. Mas a aplicação é o mesmo drama que é para qualquer par de pestanas postiças: são dedos a mais, pelinhos que se entortam, a cola é sempre necessária porque a curvatura das postiças nunca corresponde à da nossa pálpebra e as pontas ficam espetadas, a pessoa usa pinça (correndo o risco de espetá-la num olho e ficar invisual à custa de), prega com o pelame no sítio errado da pálpebra, descobre rugas que nem sabia que tinha (ou nasceram entretanto, com tanta contrariedade), toda uma briga entre a nossa minha teimosia e a necessidade de me sentir bela. 
Levei uma hora nisto. Aguentei, posteriormente, outra hora com elas “postas”, a sentir picar em todo o globo, um peso nas pálpebras superiores que parecia aquelas actrizes de Hollywood dos anos 50’s do século passado (só me faltava a cigarrilha), que não conseguiam abrir mais do que meio olho, uma sensação de estar pejada de remelas, pronto, arranquei tudo. Vou jantar com as poucas pestanas que ainda tenho, ou então meto uns óculos de sol e digo que estou com fotossensibilidade, derivados do luar. 

05/04/2022

Aquele doce poço de egoísmo

Não peço caridades, nem dedicações exacerbadas, também já para aqui disse que não pretendo ouvir elogios à minha não beleza actual, acho que até os incentivos de "força" já me irritam, como se eu estivesse em trabalho de parto constante, ou com prisão de ventre. A mim basta-me, como sempre me bastou, que me tratem bem, porque sou um ser reactivo, e oh, só consigo tratar bem quem me trata bem, olha lá a mentalidade do bicho-da-conta. 

Mas peço, encarecidamente, aqui (semi) publicamente, que não me sobrecarreguem com os vossos calos e as vossas águas passadas, quando estiveram tão mal que não conseguem esquecer-se, porque, convenhamos, neste momento sinto que estou a defecar-me (não literalmente, por enquanto) para o vosso assunto. 

A conselho de quem agora (tenta, pelo menos) me orienta os neurónios sobrevivos, que defende que não devo "concentrar-me na doença, para não cair numa depressão" (não sei se ria), encetei uma saída semanal com uma amiga diferente de cada vez, quer para lanchar, quer para almoçar. Nada de copos e folia, portanto. Não se percebe.

Tenho cumprido com o esquema, embora esteja a sair-me do bolso, já que sou quase sempre eu que convido e, quando não, uma vez que mando vir sempre o prato mais caro (não do estabelecimento, mas comparativamente com o da minha companhia), lá alanco com a despesa sem pestanejar. Pelo bem que me sabe, pela saúde dos meus filhos, não por esta ordem, dou-o por bem gasto.

Mas. 

A semana passada fui "beber café" com uma amiga daquelas que nos puxam para baixo, sabem? Acho que toda a gente tem, pelo menos, uma. Aquela porra de uma aura negativa, a pessoa com quem tens uma espécie de paralisia de soltar uma gargalhada. A amiga com quem nunca deves falar de bâtons — porque desconhece o conceito —, mas podes falar de pus à vontade. Já ia à retranca, a pôr uma hora limite para o encontro, porque intuía que não ia ser um momento feliz, e eu preciso de momentos felizes agora, que quereis? Estabeleci mentalmente a duração de uma hora, apesar de achar que era tempo a mais. Então, acabou sendo uma hora e meia, finda a qual eu disse que já não aguentava mais tinha que ir ao supermercado comprar coisas. Porque foram noventa minutos — noventa minutos — a ouvir as queixas dela e a descrição de uma doença que teve recentemente, que a ia matando. Ora, vamos lá a ver: é verdade que ela esteve muito mal, knocking on heaven's (or hell) door. Esteve. Já è finito. E repito até já não poderem ler-me: eu não sou psicóloga, ninguém me paga para isto, não tenho que levar secas das doenças de cada um, ainda mais agora. Se a ideia é não falarem da minha doença, óptimo, não falem, que eu também não falo. Dissertem sobre flores, cágados, gente que anda à chapada. Façam teses de doutoramento sobre o ovo e a galinha, e despejem-mas para cima. Mas poupem-me aos vossos calos e borbulhas, porque eu me estou, realmente, soberanamente, olimpicamente, cagando para isso. 

Posso ser — ou estar transformada — num poço sem fundo de egoísmo e cavalada. Mas tenho a meu favor (ou contra mim) o facto de ter recebido uma educação em que as pessoas não explicam o que se passa com elas em termos de saúde. Como na anedota, em que o inglês pergunta "How are you?", o outro inglês responde "Fine, thank you", mas se o mesmo inglês perguntar a um português "Como é que estás?", leva com um enxorrilho de sintomas, suspeitas, doenças, auto-diagnósticos, idas ao hospital, incompetência dos médicos, prognósticos e dramas para os quais ninguém tem cu. 

E continuo a repetir que coitadas das pessoas, estão muito sozinhas, e isso justifica tudo. Não, não justifica. Eu também sou uma pessoa, de alguma maneira também estou muito sozinha, e não massacro ninguém com o que me dói. Portanto, agradeço que me deslarguem dentro da minha bolha e, se não têm nada para me fazer rir nem que seja um segundo, eclipsem-se. 

(Ainda a raiva, ainda não a aceitação.)


27/03/2022

Distâncias

Desde que fiz a transição de um hospital privado para um público, ainda não tive uma consulta com a médica que me foi atribuída. Isto não é uma queixa, é uma constatação de facto. As consultas são de três em três semanas, na primeira e única até agora, a minha médica foi substituída por uma colega que, coincidentemente, foi a mesma que me atendeu ao telefone numa necessidade, e depois numa consulta de urgência. Tudo estaria bem, não fora o facto de esta substituta ser uma maçarica com zero empatia comigo, logo, consequentemente, amor com amor se paga. Digamos que eu não tenho propriamente culpa de ter rebentado com o plafond do meu seguro, nem de que ela tenha uma situação precária no emprego que arranjou (não consta da folha de médicos efectivos no hospital e, aparentemente, está sempre de urgência). Eventualmente, também não terei culpa de estar doente e de ela ser médica da especialidade que pode tratar-me. Mas já começo a ficar nervosa com o posicionamento das sobrancelhas da pessoa: nunca estão cá em baixo, tranquilas, nem lá para cima, espantadas. Estão sempre naquele meio caminho, diga eu o que disser, pergunte eu o que perguntar. E, convenhamos, eu só faço perguntas cuja resposta é imediatamente importante para mim, porque a última coisa que quero é ficar a bater papinho com uma azeda que me exponencia a ansiedade. 

Esta semana que passou, tive que me dirigir à urgência porque unhas, porque pus, porque dores, porque descolamento de algumas, porque antibiótico no sexto dia e nada de ver melhoras, e mais não adianto, que isto é um espaço sério, não é para as pessoas virem para aqui vomitar. Estava um dia chuvoso, então vesti-me de calças quentinhas, casaco grosso e havaianas. Chegara a um ponto em que era humanamente impossível não andar quase descalça. Assim me apresentei no gabinete das urgências, onde fui encontrá-la. Mal me viu, mandou-me esperar um minuto à porta, porque ainda precisava de acabar uma coisa. Imagino que algo a ver com o jovem colega que também ali estava, mas então não me chamasse pelo altifalante, que eu até lhes dava dois minutos, quanto mais um. Ao fim de sessenta segundos, disse-me que entrasse. Constatei que a cadeira do paciente estava a, pelo menos, três metros da do médico, e, como não ia ali propriamente para assistir a um stand up nem me apetecia gritar para o palco/ plateia, arredei a cadeira para a frente antes de me sentar.

- Deixe estar a cadeira onde estava, por causa do distanciamento, devido ao covid.

Isto, vindo da mesma pessoa que já me apalpou as axilas e zonas adjacentes. Se calhar, não gostou. Oh, wait, eu estou a gostar muito de estar doente e de ter que levar com estas, já para não falar da cena das unhas, das dores no corpo, do cansaço, e agora calo-me. Fiquei assim ligeiramente atordoada, a pensar se teria feito uma viagem no tempo e estaríamos de volta à quarentena, mas lá me sentei com o distanciamento que o covid dela impõe, um bocado a pensar como é que ela pretendia ver o meu pé àquela distância, mesmo que eu esticasse a perna toda.

Esta pessoa leva-me a questionar-me sobre o motivo pelo qual escolheu Medicina e, mais tarde, oncologia. Foi tudo uma questão de média aritmética nas notas do secundário e depois do curso? Tinha verdadeira vocação, que se lhe sumiu pelo ralo desde o primeiro doente que não conseguiu salvar? Prometeram-lhe que ia ficar rica e isso ainda não aconteceu? Tinha ainda menos vontade de escolher outra especialidade? Só não gosta de mim porque me pôs o rótulo de tia que faliu do privado e agora vem para aqui sugar do SNS?

Filha, eu repito: estou doente e tu és médica. Preciso de me tratar e tu, a contragosto ou não, juraste um dia fazê-lo. Não precisamos de ser amigas, mas também era giro poupares-me a mais uma sobrecarga, que é esse teu humor de merda.

(Sim, ainda estou na raiva. Duvido que algum dia saia dela, ou ela de mim.)

24/03/2022

No litoral-centro, nada de novo

Liga-me um número identificado, uma voz masculina pergunta: “Quem fala?”, ao que respondo o que sempre me pareceu lógico, uma vez que não fui eu que fiz a chamada: “Para onde é que quer falar?”.

- Para a minha irmã.

- Então é engano.

- Como é que a senhora sabe?

- Porque não tenho irmãos.

(Risos.)

~

Liga-me um número identificado, não o mesmo da história anterior, uma voz masculina pergunta: “Quem fala?”, ao que respondo o que sempre me pareceu lógico, uma vez que não fui eu que fiz a chamada: “Para onde é que quer falar?”.

- Para a minha papoilinha.

(Desligar; bloquear número, não vá o coiso encornar que eu posso, eventualmente, ser a papoilinha dele. Que pena os telefones fixos não terem esta função quando eu era adolescente. Meses de tortura com um tarado sexual que não desarmava, nem de noite.)

~

Peço rede para prender pensos nos dedos ao balcão, preciso de proteger as unhas e as pontas de alguns dedos, de entre os quais o maior de um dos pés. A que tenho em casa é extremamente estreita, só serve para os dedos das mãos e não alarga até à medida do polegarzão.

- Não, só temos da mais estreita, para dedos.

- Ah. E aquilo que temos nos pés, é o quê?

(Depois admiro-me que as pessoas não gostam de mim.)

~

A vida continua.


19/03/2022

Bela adormecida

Cá manias, gosto de ir compostinha para os tratamentos de quimioterapia. Sei, pelo que vejo à minha volta, que o confortável e aceitável, logo, o normal, seria ir de leggings, camisolão e pantufas, gorro de lã ou absolutamente nada na cabeça, mas dá-se que eu não sou confortável, aceitável, e muito menos normal. Fui educada na premissa de que uma ida ao senhor doutor é para ser levada quase como uma cerimónia. Ainda que chegue ao ponto de estar toda postiça e, à noite e de manhã, rever a decadência a que os tratamentos me vão levando, não abdicarei da minha maquilhagem e de Natércia, para além de trapos bonitos. Não me lembro de ter comprado tanta roupa numa só estação como este ano. Às vezes até me sinto mais bonita do que antes de ter cancro. Ele há parvas para tudo.

Mudei de hospital e, consequentemente, de médico. A maior diferença que encontrei até agora foi a da papelada, que é de uma profusão assustadora. E entrega-se um papel em cada guichet, cada um com sua senha de espera — e não há prioridades, que prioritários somos todos —, mas isso leva-se de letra depois da primeira vez. De resto, só encontrei diferenças para melhor: pessoal de enfermagem muito mais dedicado (e em muito maior número), assim como pessoal auxiliar. A última vez que lá estive, pedi sopa e dois lanches e não houve cá mão na anca, “ó filha, o lanche é só às 5!”, para alguém que estava ali a largar o preço de um automóvel novo. (Um Dacia, pronto.)

Ao contrário do que eu sempre imaginei, nas salas de quimioterapia não existe tristeza, nem lágrimas, nem suspiros. Talvez o pessoal, com toda a sua dinâmica e sorrisos prontos, tenha a maior responsabilidade nisso. Mas conta alguma coisa estarmos todos “ao mesmo”, não haver a dúvida que lemos nos olhos dos outros na rua, “será que…?”, estarmos todos agarrados por aqueles tubinhos da esperança ou da certeza de que um dia destes não teremos que voltar ali.

Desta última vez que lá estive, posso ter carregado nas tintas e ido exageradamente bela. Pus-me em preto total, de calças, só com um apontamento de lenço de seda, oferecido por um dos meus genros, que tem um bom gosto avassalador (e estou à vontade para escrever o que quiser, porque nem ele nem a respectiva que dei à luz lêem isto. Também é giro, trabalhador e faz a minha criança feliz, que mais posso eu pedir à vida, a não ser saúde também para ele?). Mas queria estrear um sobretudo novo, cor-de-rosa, com o qual sonhava desde os tempos do “Cisne Negro” (Nathalie Portman) e que consegui na Vinted, praticamente oferecido.



Pode ter sido tanto arraso que deu aso à situação que aqui vinha descrever e que, por pouco, já me escapava. Tenho o polegar cansado.

Não sei se já disse aqui no buraco que, durante os meus tratamentos, só faço uma de duas coisas: ou durmo (noventa por cento do tempo), ou como (os restantes). Não sei o que é, mas tudo me dá sono. A maior parte das vezes, sou acordada por uma enfermeira, que me avisa que me vai dar uma injecção de anti-histamínicos, que me fará ter bastante sono. Imagine-se.

Desta vez, estava eu a deglutir talvez o primeiro lanchinho, aborda-me o senhor da cadeira ao lado (a minha, reclino-a logo até ficar na horizontal, não vá cair-me a cabeça para a frente e ainda sair de lá marreca do pescoço), com o seguinte diálogo:

- Então, a senhora tem passado bem?

- Muito bem, muito obrigada. E o senhor?

(Este nível de educação também não tem sido lá muito meu amigo ao longo da vida. Tudo seria muito mais fácil se, por vezes, me limitasse a uma gargalhada sarcástica ou a um “vá defecar à mata”.)

O homem, incrédulo:

- Não me está a conhecer, pois não?

Eu, sincera:

- Não.

O homem, desapontado:

- Ah, é que eu estava aqui a semana passada.

Eu a pensar, pela enésima vez nesta vida: “Isto, das três, uma: ou sou eu que tenho cara de profissional do sexo, ou sou tão bela que não é possível estar ao pé de mim sem que se inicie uma porra de uma conversa de ir às nalgas, ou então sou um mix de ambos”. Sim, também pode dar-se o caso de as pessoas estarem muito sozinhas e quererem um bocadinho de companhia, e mimimi. Não sou psicóloga, nem padrisa, nem tenho saco para diálogos mansinhos que começam assim para acabarem assado. Deixem-me, que eu ainda estou na fase da raiva e não há meio de chegar à da aceitação.

De todo o modo, cortei o canal ao senhor, porque adormeci.


04/03/2022

Filha de uma dor menor

Acompanhada pelo anjo dos braços que mais me abraçam, no corredor que dá acesso à sala de tratamentos — o corredor da vida? —, vi passar, depois de o altifalante ter chamado um nome masculino, um rapazinho com talvez dezanove (ou estarei a exagerar, dezanove parece menos grave do que os dezoito ou dezassete que teria?), mochila da escola às costas, cabelo intacto, certamente primeira quimioterapia. Com ele, a mãe. A enfermeira aproximou-se de ambos, enlaçando os dois ombros da mulher, que, não posso estar enganada, chorava a mágoa daquele tenebroso momento.

Só os vi de costas — a não ser num brevíssimo segundo em que o rapaz se virou e lhe vi o rosto ainda infantil, de olhos grandes e moldado por bochechas —, e ainda bem. Estava já tomada por uma vontade irreprimível de ir meter-me inteira naquele semi-abraço, que não era meu, sequer era para mim, poderia apenas, na mais fraca das hipóteses, ser de mim. Foi também por pudor, possível embaraço dele e refreio social que não abracei o meu filho, em nome do dela, e não pedi “Não me deixes, nunca me deixes”, nem roguei aos céus “Não permitas, não leves aquele filho, não leves os filhos de ninguém”. E a minha dor, a minha tormenta, a minha dura caminhada até aqui e até ali, pareceram-me tão menores, perto daquelas lágrimas que, ainda assim, não vi.

01/03/2022

A mulher que podia ser minha mãe # 6

É primeira vez que vamos ver-nos desde que. Carrego, enfiada na cabeça, Natércia, com a qual ainda não decidi que tipo de relação tenho. Sei apenas que não é de ódio, talvez porque atravesse — pessoalmente e como ser humano desta Terra — uma fase em que quero estar longe de tal registo. Mas também ainda não é de amor, como confessei outro dia à comadre que lhe deu o nome, tornada, deste modo, madrinha de uma cabeleira, assim como de uma filha das minhas.

A mulher abre-me a porta, escancara os olhos miudinhos em clara e simulada surpresa, abre também os braços e exclama: 

- Está tão linda!

Ao fim de três meses (contando apenas desde o diagnóstico) disto, já só sorrio para dentro quando alguém me diz que estou bonita. Ainda que também o exteriorizasse, pessoas como ela talvez não captassem esse sorriso, com a desculpa da máscara. Mas, na verdade, devo ter perdido pelo caminho a capacidade para que os olhos acompanhem a reacção. De qualquer modo, habituei-me a elogios físicos desde que sei e que sabem que tenho cancro. Agora sou linda: de peruca, com as pestanas a metade e cor de vela, mas linda. Por acaso, estou com uma pele maravilhosa, lisa como a de uma criança, não só porque toda a penugem voou pelos ares, como também porque sou militar com a hidratação e bebo chá rigorosamente todo o dia. E sim, devia dormir algaliada, ou de fralda. As minhas noites são mais belas do que os vossos dias. Micçamente falando, claro.

Abre-me também os braços, para os quais me dirijo sem reservas — na ingénua ilusão de que nunca se recusa um abraço —, quando me trava subitamente, me agarra as duas mãos com a força das unhas compridas a cravarem-se nas minhas palmas, os anéis nos meus nós, e esclarece:

- Isto ainda não dá para abraços. 

Entendo. Está preocupada com a segurança dela, e existe uma infinitésima possibilidade de eu lhe transmitir um vírus que, apesar de bi-vacinada, pode matá-la. Como é estúpida, a estúpida da vida.

- Sabe, estou muito doente. Até já tive que ir a um psiquiatra, que me fez tão bem… Acertou-me a medicação,

[que pena que não tenha sido o passo]

tirou-me muitas dúvidas que eu ainda tinha, e agora sinto-me bem, mais leve, muito melhor.

Sabe, estou muito doente. 

À saída, desejei as melhoras, votos que ela não devolveu, não sei se sorri para dentro ou para fora, e atravessei a porta, desabraçada e linda.


22/02/2022

Sapatos cor-de-rosa

Apaixonei-me perdida e irremediavelmente por um par de sapatos cor-de-rosa que vi numa página de Instagram de uma blogger muito conhecida. Contactada a mesma, fiquei a saber que o modelo tem dois anos e foi vendido pela Zara. Perdidas quase todas as esperanças de os ter para mim, ainda assim não desisti. Corri primeiro o site da loja, depois fui aos das semelhantes, de seguida fiz uma pesquisa por imagens, utilizei o Google Lens, e nada, à escala global. Encurtando caminho, quando já me preparava para partir para os Ebay e OLX — espaços que detesto frequentar, porque um só me dá resultados nos EUA ou na China e já não tenho propriamente idade nem estofo para ir bater com os costados na alfândega, depois de preencher mil formulários e atestar pela minha honra, comprovando através de documento da encomenda, que aquele mísero rímel é mesmo para mim (been there, done that) e o outro só me apresenta fancaria (sapatos velhos, com chulé, ou fotografados com um pé gordo dentro, na arrecadação, com luz artificial, por verdadeiras fortunas, que ainda me obrigariam a deslocar-me a Fernão Ferro para os ir buscar) —, quando me lembrei da Vinted, aplicação que havia instalado há uma semana e, essa sim, me pareceu, se não excelente, pelo menos um feliz casamento entre o Ebay e o OLX, mas sem alfândega nem Casal de Cambra no bolo. 

Tinha passado parte de sábado em buscas pelos sapatos. Ainda não os amaldiçoava, porque o amor só crescia, com as expectativas de posse a diminuírem. (São factores intimamente relacionados, para quem não saiba.)

Domingo acordei de lua minguante. Durmo mal e pouco, tenho desgosto pela falta de cabelo (sobrancelhas e pestanas, ainda tudo ok, mas fiz nanoblanding, que ainda vou retocar, e mandei vir pestanas especiais para quem não tem nenhuma, já a prevenir. Estas.) Doem-me as pontas dos dedos, as unhas estão roxas e não podem crescer nem um milímetro para além do sabugo porque doem, o meu nariz sangra um niquinho todos os dias, não tenho as esperadas aftas, mas já tive que mudar para uma pasta de dentes sem mentol (para evitar a sensação de boca queimada), os alimentos começam a saber-me, basicamente, todos ao mesmo: químicos. Não tenho vontade de correr, de dançar, de fazer algo mais do que ir e vir do hospital ou dormir, quando consigo. E posso alegrar-me por não enjoar nem ter vómitos. 

Lembrei-me então da Vinted, abri, pus filtros, “mulher” (sempre), “sapatos de salto”, “estado: novos ou muito bom”, “Zara”, “37” (número do meu pé direito, o esquerdo calça 36), “cor-de-rosa”, e foi correr sob a forma de scroll a sete pés, até que se deu o milagre de Natal.

Eu já disposta a dar qualquer preço por eles, e eles novos, à minha espera, por quinze paus. Foi clicar ‘comprar’, pagar, e por pouco não me levantar da cama e sentar-me à porta à espera que chegassem no minuto seguinte. Parece que chegam hoje, daqui a uma hora. Vêm para o lar onde pertencem, sem ter que andar feita estúpida às voltas no Samouco, a gastar combustível, tempo e nervos. Acho que vou buscar um banquinho e colocar-me estrategicamente à porta para os receber nos braços, beijá-los até à indecência e colocá-los logo nos pés. 

O que retiro desta história sem interesse e nem pés (calma…) nem cabeça? Nunca desistas. Mesmo quando tudo parece mais negro e sem saída, mesmo quando somas os teus bocadinhos e todos te parecem demasiado quebrados para os colares e refazer-te inteira, não baixes os braços. Haverá sempre um par de sapatos cor-de-rosa à tua espera.


18/02/2022

Post cheio de marcas, mas nenhuma me sponsorisa

Ando há meses a lavar a cara com um sabão sob a forma de gelatina, que tanto se me dá a marca, desde que: 1. Não me custe os olhos da cara; 2. Efectivamente, me tire a graxa à noite e o creme de noite de manhã. Não peço mais nada. Retirar a maquilhagem é um frete que pratico com afinco desde os tempos do liceu, todos os dias tenho mais um dia no lombo, e falta-me o animus para mais do que esfregar uma espécie de escova de dentes gigante plus gel para que saia tudo de uma vez sem maiores esforços mentais do que isto. Já sei que a solução era não me maquilhar. Sim, também podia não me lavar. 

Usava eu um gel desses, marca Nivea, que cumpria perfeitamente o função, quando, e porque o frasco se aproximava do fim (naquele eternamente misterioso ponto por que todas as embalagens que estão a acabar passam: é tu comprares hoje uma nova e a anterior dura mais uma semana, um mês, um ano; é tu não comprares e ela acaba ontem, sem avisar), dirigi-me à loja tipo parafarmácia da grande superfície, e disse assim: "Olhe, se faz favor, queria aquele gel de limpeza para o rosto,  da Nivea". O horror da funcionária, como se eu lhe tivesse dito que queria lavar o rabo com sérum da Lancôme. Ruga na testa, olhos em linha, "Nós aqui não vendemos Nivea". Não deve ser chique, a Nivea, lá para o sonae. Bem, eu tinha pressa e carência de vontade de discutir minudências, ímpetos de desenrugar aquela testa e, sobretudo, necessidade de continuar a lavar a cara, o que, tudo conjugado, fez com que carregasse para casa uma coisa parecida, ao dobro do preço, marca Garnier. 

Passaram-se as semanas e, derivados ao facto de ter usado o seu conteúdo, o frasco Garnier também se findou. Lá fui à loja, desta vez já conformada em comprar a marca mais cara — que não é melhor do que a Nivea —, digo o que pretendo, e responde-me o funcionário assim, sobrancelhas ao alto, olhos às escancaras: "Nós aqui não vendemos Garnier". 

Olha, tu queres ver que eu hoje levo Christian Dior para lavar a axila?

"Mas olhe que eu já comprei o gel de lavagem do rosto da Garnier numa loja das vossas."

"É franchisada?"



O que é que se responde a isto? "Não, sou raivosa."?

"Deixe estar, eu sei o que quero, vou com certeza encontrar noutro lugar."

O Nivea vende-se no supermercado Continente. Que é do mesmo grupo destas Wells, que ainda não conseguiram decidir se são farmácias, lojas de óculos, perfumarias, drogarias, estéticas, ortopédicas ou só chatas. 


16/02/2022

Sou um número

Se existe sensação dolorosa que guardei da infância e me atormenta até hoje, é a de dar saltos no escuro ou — basicamente, em consequência — ficar perdida. 

Lembro-me do dia em que o meu pai tirou as rodinhas  de apoio à minha bicicleta. Eu nem sequer sabia arrancar e travar, tinha que ser ele a empurrar-me o selim, e, quando acabasse o meu passeio em círculos, agarrar-me de frente o guiador. Naquele dia, depois de dezenas de voltas ao pátio do prédio onde morávamos, pedi-lhe que me travasse a bicicleta. Ele negou, eu passei a implorar, mas o meu pai persistiu, “Hoje vais aprender a travar sozinha”, e eu às voltas, já aos prantos, “Pai, por favor!”, e que não, isso acabou, “Papá, eu não consigo travar!”, até que tive a pior das ideias, que foi largar a bicicleta e atirar-me para o chão. Esfolei-me toda, dos joelhos às palmas das mãos, não ficou bocado nenhum que não misturasse alcatrão com pele. Não sei como não parti nada, mas sei que aprendi a travar e a iniciar a marcha da bicicleta nesse dia.

Lembro-me também de constantemente perder-me da minha mãe nas grandes superfícies. Naquela época, havia só talvez o Tutti Mundi, na Avenida de Roma, o Grandella e os Armazéns do Chiado, na Baixa. A minha mãe ia para os provadores, avisava-me para ficar ali ao pé e não sair sob pretexto algum — embora soubesse que ia acontecer —, e, de repente, era toda uma queda no buraco da árvore, não sei se era eu que começava a cirandar pelos expositores, se a minha mãe se eclipsava para um mundo paralelo, sei que eu ia parar ao País das Maravilhas, onde tudo era estranho e nada fazia sentido, principalmente porque tentava voltar à casa de partida e nada de mãe, altura em que abria o berreiro, sentava o meu desespero na alcatifa — as lojas eram alcatifadas —, e, ou era socorrida por uma condoída senhora, tão estranha como todo o cenário, ou era “encontrada” pela minha mãe, às vezes impaciente (o que percebi mais tarde, quando tive filhos).

Entraram agora as palavras “companhia de seguros” e “plafond máximo anual” na equação da minha caminhada, e então pôs-se a urgência de sair da minha zona de conforto — literalmente — para uma outra onde, talvez embora não haja croissants, sei que há os melhores pãezinhos com manteiga e doce do mundo. Estive naquele hospital há meses, não tenho uma ponta de unha a apontar ao tratamento que lá recebi. A não ser, claro, uma ou duas pessoas que me azedaram uns minutos da estadia, mas essas, por alguma razão inexplicável, estão um pouco espalhadas por toda a parte.

Porém, isto significa também que vou deixar o meu médico giro, para gáudio de uns (“olha-me esta vacuda, instala-se no cinco estrelas com uma cabeleira linda, sobrancelha ok, unhas pintadas, não enjoa nem grega, e ainda lhe calha um oncologista giro”), e para indiferença de outros (“o que importa é o protocolo do tratamento”), a verdade é que sinto que estou a fazer uma dolorosa transição. Não sei o que me espera do lado de lá, desconheço se vou encontrar um/a médico/a simpático/a e optimista como este que me acompanhou até agora, tenho medo de encontrar alguém pragmático e seco, porque sou aquela cobarde que prefere que lhe digam “Estás óptima, daqui a poucos meses já acabou”, mesmo que só lhe restem umas horas de vida. Descobri em mim uma pessimista nata, que, entre a surpresa e a queda, opta pela primeira, daí que espera sempre o pior, não tanto para poder comemorar, ao invés de lamber feridas, mas mais para respirar fundo até à próxima angústia, real ou imaginada. Isto parece tudo um bocadinho contrassensual, mas lá está, atentem na palavra, que significa apenas mais duas características minhas: sou do contra e sim, tenho o ar de mulher fatal.

Living by numbers tem bailado muito ultimamente nesta cabeça já de si perturbada: o primeiro encontro com o oncologista giro foi de uma empatia imediata, os olhos dele sorrindo sobre a máscara, eu ainda com o cabelo sem necessidade de Natércia. Pareceu-me algo de recíproco e definitivo, que duraria, pelo menos, até um dia em que nos despedíssemos sem vontade de nos revermos. Tipo amores de Verão, que ficam enterrados na areia. No entanto, desde que lhe anunciei a imperiosa mudança para o “público”, senti o abandono de uma forma inexplicável. Os olhos dele escureceram e, no final da consulta, levantou-se da cadeira, segurou-me no braço e disse “beijinhos”. Ofereceu-se para me receber quando eu quisesse. Mas nunca mais o vi, ou sequer passou por mim a acenar e a sorrir daquela maneira. 

They don’t want your name. Just your number.

Estou um pouco assim: mãos e joelhos esfolados, e perdida da minha mãe. 

Mas sei que, apesar de they just want your number, vou aprender a travar a bicicleta sozinha e tenho a certeza de que existe algures à minha espera uma mão não estranha para segurar a minha e sairmos juntas do armazém.


15/02/2022

Dia Mundial da Criança com Cancro (aquela data que não deveria ter que ser assinalada)

Ainda vão muito a tempo, embora a campanha acabe hoje: El Corte Inglès, Gocco e Tous’R’Us têm à venda os bonecos da Fundação Juegaterapia, cuja receita reverte para o IPO, com vista à construção de uma sala de cinema para as crianças internadas. 




Não trouxe o boneco comigo, apesar de o achar adorável, porque quis que fosse entregue ao seu destinatário. Na folha das dedicatórias, constava apenas uma, “Coragem e muita força”. Para uma criança, que pode ter dois anos, quatro, doze… Então aqui a prolixa — que não sou melhor do que ninguém, simplesmente podia ter menos pressa, posso ter outra visão do assunto, posso até, simplesmente e tão só, ser pouco sucinta — gastou as cinco ou seis linhas que tinha ao dispor para a mensagem, apertou bem a letra, o nó na garganta e os picos nos olhos e rabiscou: “Gosto de ti, apesar de não te conhecer. Penso em ti todos os dias, com a certeza de um amanhã cheio de sol e festa e alegria. Deixa-me dar-te um beijinho e também um xi-🤍”.



06/02/2022

Eu agora não sei dançar

Nem sei como explicar-te a ti e a ti e a ti, que deixei de saber dançar, saltar e correr, que tenho agora um corpo que me pede reservas para uma batalha que há-de ser guerra, e me parece que até sorrir ou dar uma boa gargalhada já são exercícios que me requerem um esforço que só os meus — aqueles que são mesmo meus — merecem. Não me diagnostiquem depressão, não preciso de médicos sem diploma, bem sei o que tenho e a palavra que me dá um pontapé na cabeça todos os dias de manhã — e todas as madrugadas da noite — chama-se cancro. Não me venham cá com estímulos de força e coragem e andrà tutto bene, que esses aliviam os vossos próprios temores, mas não os meus terrores, sabem lá vocês o futuro, assim como nem eu sei, só sei que já por demasiadas vezes na vida passei a malha dos zero, vírgula, zero, um das estatísticas, quem me diz que desta vez também não vou passar?

É por isso que quase não saio de casa, aqui trabalho, aqui vivo e respiro o quanto e quando posso, apesar de ter a cabeleira mais bonita do universo — quem dera às do cabelo Pantene —, as sobrancelhas mais bem delineadas a nanoblanding, as ainda pestanas a aguentarem estoicamente uma boa camada diária de rímel, as unhas pintadas com um verniz próprio para quem faz quimioterapia (La Roche-Posay), que disfarça as manchas roxas (já agora, dolorosas) das unhas, não quero encarar com a comiseração, as mil perguntas multiplicadas por x (em que x = número de almas com que me cruze a cada saída), os clichés (“Tenho trezentas amigas que passaram por isso e estão todas óptimas”; “Tens um mau bocado pela frente, mas daqui a um ano já nem te lembras”; “Isso, hoje em dia, já não é o que era há vinte anos”), a trista pena com que me olham (e sim, já aconteceu encontrar uma pessoa que me falou como se eu estivesse nos paliativos).

Prefiro dias inteiros enfiada na minha toca, como um coelho assustado, do que enfrentar essa outra guerra dos olhares e das opiniões. Se alguém me vir na rua, muito provavelmente será mal assim cai a noite, uns breves dois minutos, em que vou dar de comer e beber à gatinha que adoptámos vai para três anos, e que, essa sim, não me olha com estranheza nem me pergunta por que é que não vou dançar, que me fazia tão bem.

Porque me fazia tão mal.


31/01/2022

Corrompi uma autoridade policial

Fomos ao Bryan, minha Natércia, cônjuge e eu.

(No fundo, este post destinava-se, praticamente em exclusivo, a dizer isto: fui ver o concerto do Bryan Adamzinho, coisa mais boa, que com seis décadas em cima do lombo, continua invulgar. Cantou todas as que a menina pediu, inclusive Straight from the heart, quando disse que ia entoar o que o público pedisse, o público era aquela plateia em pé que vai para lá de véspera e parece que houve uma Estefânia — quem porras se chama Estefânia, a não ser o Hospital Dona, a respectiva rainha que nunca pinou e a outra avariada da marmita lá do principado? — que pediu Please, forgive me (podia ser mesmo um pedido, que Bryan percebeu mal), e ele lá vai disto, It still feels like our first night together, mas dei comigo a berrar Straight from the heart, o artista a cerca de cem metros de onde me encontrava, em diagonal superior, dizem que vozes de burro não chegam ao céu, mas olhem, vozes da lasca chegam lá abaixo ao palco do Arena, sei que ele, minutos mais tarde, era todo I could start dreaming but it never ends, não que seja a minha preferida, mas faz parte do núcleo duro do programa de Adams, e esse é para se cumprir.)

À entrada, verificação uma a uma da existência de certificados/ testes, comparados com a respectiva identificação, tudo isto a vinte mil almas, imaginem o tamanho do staff. Eram bués, grande parte deles polícias da segurança pública. A mim, calhou-me um que tinha um contentor do lixo ao lado, comecei logo a ver a minha garrafinha de água ir com os porcos, mas vai ele e diz: “Pode levar a garrafa, mas tem que deixar a tampa”, eu: “Tudo menos a tampa, ai por Cristo, a tampa é para a cadeirinha de rodas”. Até retirei uma outra do bolso, para lhe mostrar, “Está a ver? Faço colecção, para a cadeirinha…”, porque para tonta só me falta mesmo um niquinho, então se não podia ter deixado a tampa quieta no bolso, para tapar a garrafa lá dentro? Ele, talvez sofredor do mesmo mal e no mesmo grau, respondeu: “Podíamos juntar tantas tampinhas nestas noites, é uma dó, vai tudo para o lixo”. Depois os olhos dele, que eram azuis como o mar à noite, riram assim já corruptos, e disseram pela boca: “Leve lá as tampas, essas eu não vi passar”.

23/01/2022

Braços de anjo

Já durmo, por isso devo estar a sonhar, quando à noite vem um anjo arrumar o que deixei à solta da minha vida terrestre: tira-me os óculos, põe no lugar os comandos da televisão que não vi, e então dá-me um abraço inteiro, em que me toma nos braços que tomei eu desde o primeiro dia para o alimentar de mim, segurando-me a cabeça com uma das mãos, pouco lhe importando a falta do cabelo, que eu lhe escondo numa touca, por vergonha e amor, e que ele ignora, por sabedoria e amor.


19/01/2022

Um dia virá a aceitação

Pode ser raiva, sim. Contra coisa nenhuma, muito menos contra alguém, não tenho o desejo de trocar com outra pessoa que eu considere mais “merecedora”, tudo aquilo por que estou a passar, já nem é um “por que não eu?”, nunca foi um “porquê eu?”, é todo um “porquê nós?” em tantos momentos como aquele.

Éramos só três a fazer tratamento naquele dia, todas mulheres, duas senhoras de idade e eu. Fui relativamente espampanante, vestido bonito, botas com salto, já bem nos bastam as tristezas. As duas que ali coincidiram comigo, calças neutras, confortáveis e macias, sapatos ortopédicos, blusinhas sem viço nem vida. 

A auxiliar perguntou a cada uma o que queria para o lanche, à senhora que estava ao meu lado ouvi dizer “Uma bolachinha”, a rapariga respondeu que trazia um pacotinho de bolachas, “Mas eu só quero uma bolachinha”, só que os pacotes trazem quatro ou cinco, “Eu trago à senhora o pacotinho e a senhora come só o que tiver vontade”. Eu pedi um croissant com queijo e manteiga e um galão com descafeinado, mania que nasceu para princesa.

O lanche demorou tanto para lá do normal, que o meu tratamento acabou e ainda esperei uns minutos, primeiro inquirindo, depois protestando, finalmente levantando-me, malinha ao ombro, vestido e minha Natércia esvoaçantes pela sala, “Hoje não lancho aqui. Imaginem o que seria, quando os meus filhos eram pequenos, na época em que tinha dois no jardim de infância e duas na primária, se eu levasse este tempo todo a preparar quatro lanches. As crianças lanchavam à hora de jantar. Repare que somos só três e a senhora que está ao meu lado pediu uma bolachinha. Quanto tempo leva a preparar uma bolachinha?”. As duas serenas, desistidas, nem um ai, a bruta a fazer um pandemónio por um croissant, a raiva a subir, tanta injustiça, senhores, eram duas velhinhas, que só por esse motivo arrastavam os pés a andar, por que é que o dedo aleatório pousou nelas, se já não lhes chegava o resto?

Porquê nós? Não é “por que não outros?”, é “porquê nós?”. Porquê elas? Ou só: porquê?


16/01/2022

Não sei se é raiva

Diz que passamos por algumas fases nos acontecimentos dramáticos da vida, que primeiro vem a negação, depois de umas quantas a raiva, olhem, modestamente acrescento a surpresa como podendo ser a primeira, mas saltei todas como num jogo da macaca e fui directa à da aceitação. Havia um instinto que me dizia “Vai ver”, e não era um caroço, não era uma mancha, nada, a não ser “Vai”, um covid demasiado prolongado, excessivas “interdecorrências” em duas semanas de hospital, “Vai ver, começa por algum lado, vê as mamas”, bingo. Não entrei em negação, sou demasiado mole e conformada para considerar a clássica “Porquê eu?”, quando “Por que não eu?” me responde muito mais vezes à pergunta “Que mal fiz eu a alguém/ Deus?”, sei lá, fiz mal, com certeza, ou então isto é tudo uma lotaria ao contrário, saiu-me a sorte pequena, ou pode ser a paga por tantas vezes ter dado à luz o número premiado. São matemáticas e tentativas de lógicas que não vou fazer, servem apenas para encher verbo aqui e na minha cabeça praticamente oca, que, no momento, apenas quer ocupar-se com Natércia, a cabeleira, nanoblanding de sobrancelhas, vernizes compatíveis com tratamentos de quimioterapia. E ainda temos por resolver o problema das pestanas, que passará certamente por muita cola, muitos nervos, muitas lágrimas, mas todas de frustração e intolerância dérmica.

Diz-me uma companheira de danças que passa pelo mesmo processo, embora mais adiantada nos tratamentos,  que só devo fazer aquilo que o corpo me pede. O corpo, do qual me parece que a cabeça faz parte, pede-me que vá correr. (Por favor, por-fa-vor, ninguém mais me sugira caminhadas. Por piedade.) Ou que vá dançar. Porém, no momento em que até, o mesmo corpo pede-me encosto e molenguice. E faço a vontade ao caprichoso.

Estou só a começar a intolerar os que alardeiam que têm saúde para dar e vender. Não querendo ser, mas já sendo um velho do Restelo, tenho a declarar ao Mundo que as minhas análises clínicas, um mês antes do diagnóstico, eram as de um atleta (com mais de cinquenta anos, mas, ainda assim). “Marcadores tumorais: negativo”. E que corri dez quilómetros três dias antes de sair o resultado da biópsia. Pelos cálculos de quem sabe dessas coisas, já eu passeava — e corria e dançava com — um cancro junto ao coração há seis meses. Também tinha saúde para dar e vender. Como não me lembro de a ter vendido a alguém (a conta bancária não mente como as análises), devo tê-la dado, sei lá se a quem nem sequer a merecia, e agora se arroga dela.




11/01/2022

A nossa Natércia

Tenho uma comadre que só não é minha irmã porque não nasceu de obra de nenhum dos meus pais. Todos os dias, sem excepção, liga ou manda mensagens, a saber de mim. (Em contrapartida, tenho uma outra que me manda mensagem à segunda-feira a desejar boa semana.)

A minha comadre Madalena — que não podia ter um nome e um coração mais bonitos — baptizou a minha cabeleira (cansei de chamar peruca ao meu novo cabelo) de Natércia. Disse-me: “Arranjámos uma amiga para a vida: a nossa peruca!”. Assim, tal e qual. Eu uso, mas ela é nossa, faz parte deste caminho de pedras pontiagudas que percorremos descalças, de mãos dadas. Não vamos sozinhas, pois está connosco uma pequena multidão disposta a trilhar o túnel comigo, sem permitir que eu caia de todas as vezes que tropeçarei.

~

Nossa Natércia é da melhor qualidade: bati o pé por uma de cabelo natural, pois o nome diz tudo. Faz-me confusão ver as pessoas com cabelo de boneca e temi que me voltasse em forças a vocação para cabeleireira que tive entre os quatro e os sete anos, em que não houve boneca nenhuma — e tive dezenas, filhas de médico são cruel e profusamente brindadas no Natal e em datas aleatórias — que não ficasse escalpada até à “raiz”/implante, julgo que por estar convencida de que aquilo crescia. Mais tarde, apurei a técnica (ou talvez tenha levado três anos a perceber que “aquilo não crescia”), passei a usar rolos ou escova de enrolar e secador, e passei também a queimar/ encolher/ trilhar o cabelo às bonecas. Em suma, a técnica estava toda lá, o material é que era fraco. Por estas e outras razões, decidi deixar um rim na loja das cabeleiras, mas trouxe o cabelo da outra, que agora é meu. “Ah, é porque podes”, dirão as inflamadas da vida. Biafine.

~

Natércia passou a prova de fogo — longe vá o agoiro — numa ida ao hospital. Perguntei ao segurança da oncologia onde é que podia fazer análises clínicas e ele indicou-me um laboratório a cinquenta metros dali, também pertencente ao hospital, porém para outras especialidades. Assim fiz, e só quando a enfermeira me perguntou por que é que estava a fazer análises ali e não no laboratório próprio para oncologia, é que percebi que, para variar, havia batido pela enésima, porém não última vez nesta vida, à porta errada. Já que tinha que voltar ao edifício para ter consulta com o giro, perguntei ao segurança por que é que me tinha mandado para o outro laboratório, sendo que havia um ali mesmo ao lado. Olhos escancarados, “Oncologia?”, “Sim.”, mãos unidas em oração, “Ai, ó minha senhora, desculpe, mas é que não se percebe nada, ninguém diz!”. E eu, tão feliz, peguei numa mechinha de nossa Natércia e disse: “Isto não é meu.”, fazendo aquele gesto de vitória com o punho fechado, baixando o cotovelo, e, melhor que tudo, fazendo com que ele se risse do meu riso.

Gosto sempre mais de me ver despenteada, nem Natércia escapa

07/01/2022

Como enterrares a tua empresa em 4, 3, 2, 1…

Sobrevivi a ver-me sem cabelo — e, a partir daí, a encarar-me assim duas vezes por dia —, terei que aguentar a paulada que será ver-me sem pestanas, jamais terei forças sequer para pôr um pé fora da cama se ficar sem sobrancelhas. O oncologista giro diz que isso não vai acontecer, mas a mim palpita-me que, por uma vez, ele pode estar enganado. Vai daí, meti pés a caminho, isto é, fiz uma prospecção de mercado sobre o que é que há por aí que não pareça um murkin em cima de cada olho, nem se aproxime daquela tatuagem preta, com formato de vírgula (logo eu, que tanto aprecio as vírgulas colocadas no seu devido lugar, mas não me parece que seja aquele) que por aí tanto se veem. Deixem-me, eu sou uma senhora de meia idade, preciso de me sentir bem na minha quase velha pele.

De entre várias empresas que contactei, guardei uma no coração, naquele micro-cantinho do azedume: a da Vanessa. Um primor de atendimento esdrúxulo e desorganização, assim narrável: liguei, atendeu-me uma possidoníssima do mais chique que há ao nível do sotaque tá-a-ver?, disse-lhe que precisava de informações acerca do procedimento que a empresa anuncia, uma vez que estou a fazer quimioterapia e, em breve, ficarei sem sobrancelhas, e que agradecia igualmente que me dessem uma ordem do valor. Pussy, ignorando olimpicamente a palavra “quimioterapia”, respondeu: “Olhe, vou passar a outra pessoa, que está mais dentro do assunto do que eu”, ai queres ver que estive a relatar intimidades a uma telefonista de uma multinacional e não à pessoa que atende numa m. de um centro de estética?, lá veio outra igual, passados três segundos, ok, podem ter sido sete, que já estava a par do assunto — portanto, era a mesma doida —, que me disse assim, à queima-roupa: “Olhe, eu agora não estou em condições de lhe revelar valores”, ai tu queres ver que me enganei e perguntei a quanto é que estava o graminha da coca? Assim que prometeu ligar-me mais tarde, desliguei entre o atónita e o caguei-nestas, risquei o nome da lista que tinha feito e passei à seguinte. 

Ao fim da tarde, recebi este miminho:

Olhe, thia, fudi com tanto anacronismo. Afinal, estavam de férias. Não sei como não percebi logo que estava a interromper algo dessa importância com o meu miserável telefonema. E também magoei com essa de ter começado uma mensagem na primeira pessoa do plural e depois a acabar no singular. 

Bom, esperei até às 15:38 de hoje, mas Van ainda devia estar a almoçar. Precisava de lhe dizer que há muito tempo que não era tão estupidamente mal atendida em lado nenhum. Mas depois deixei de precisar, defequei nela e sua heterónima e bloqueei o número, que é das melhores coisas que não sei quem inventou. Não estamos nessa, Vanessa.