Não sei quem é que trabalha na Cidade FM, nem quem faz a locução daquilo às 9:30 da manhã. Nem me venham cá com a treta que são jornalistas, que isso, então, é matéria suficiente para me pôr a arfar como os cães quando querem brincar ao atirei-o-pau-ao-gato.
Hoje, estava eu a ouvir a radiofonia a essas lindas horas da madrugada, e diz ela — é uma ela — de uma assentada só, qual lambada no meu pobre rosto desacordado pela míngua de cafeína na veia:
Se está a pensar em colocar férias, esta deve de ser a altura ideal para...
Flop. Morri.
Já tinha ouvido fazer férias (com as mãos, com os pés, com o poder da mente, com a imaginação, como castelos na areia), ir de férias (e de mochila ao ombro, de máquina a tiracolo e de sogra, cão, gato, passarinhos, e restante família atrás), meter férias (metê-las, presume-se que é metê-las no calendário laboral, sempre tão embutidas, tão encastradas, tão esmifradas, aos olhos das entidades patronais e chefiais, mas metê-las bem metidas, cada um por si, salve-se quem puder, cada um sabe de si e mete onde melhor lhe dá jeito), ou tirar férias (tirar, pôr para o lado, amealhar, ou, se nos pusermos na pele do lobo mau, roubar, apoderar-se, usurpar, furtar, que roubalheira, vinte e dois dias úteis, em trezentos e sessenta e cinco).
Colocar férias?
Colocar a mesa.
Colocar o Rossio na Rua da Betesga.
Entre marido e mulher, não coloques a colher.
Colocar a bola dentro da baliza.
Colocar a mão na massa.
Colocar a foice em seara alheia.
Colocar a cabeça na areia.
Abaixo com o medo do verbo meter. Meta-se o meter nas frases, à bruta, à meiga, à brava, à fartazana, à doida, mas meta-se de uma vez por todas. E sem medos, que ele existe, é para ser usado. Mas usado correctamente, não é como também já ouvi:
Eu meto a mesa; eu não meto isso em causa; eu meto isso aos ombros. (Metes mas é o genital, ignorante. Mete mais tabaco nisso, se te custa engolir pessoas como eu: chatas de meter dó.)
Quanto ao deve de ser, pois.
Prefiro não me pronunciar. Trata-se de um verbo que não aprendi na escola (dever de ser), pelo que mais vale ficar calada, a dizer alguma artoada que seja o meu fim enquanto autora de alto calibre e calibragem, que sou. Ora, com licença, que aquela radiação que sofri de manhã, via frequência modulada, já me agastou o dia.