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17/10/2018

Agora nunca mais morria uma mãe

Desde a perda da minha, do núcleo estreito que são as minhas relações sociais, já saíram desta vida outras quatro mães. 
As mães deveriam adquirir imortalidade efectiva — não essa, a da memória, totalmente metafórica — no momento do nascimento dos filhos. Isto seria uma espécie de garante, se não do aumento, pelo menos da preservação numérica da população mundial. Depois eram livres de entregar a sua imortalidade aos filhos, assim que o achassem conveniente e necessário. O Mundo seria muito melhor, e tudo seria mais justo e harmonioso. A cada filho, uma imortalidade renovada, uma possibilidade nova de abnegação. Não creio na existência de mães que não o fizessem sem pestanejar, assim a vida dos seus filhos corresse perigo. Caso contrário, à mais ínfima hesitação, merecido seria que a sua mortalidade fosse restabelecida, no imediato momento em que a dúvida as acometesse.

Quão cravejado de erros está este raciocínio, pois se fosse possível a uma mãe fazer a entrega da sua imortalidade a um filho doente, então regressaria à sua condição de simples mortal, e, consequentemente, voltaria a poder acontecer a nada simples morte de uma mãe.

Custou-me mais do que os outros, este último adeus que fui dar a uma mãe. Na verdade, ia acompanhar uma filha minha, que, por sua vez, ia acompanhar a amiga, filha daquela mãe a quem íamos dizer não vás. Ou melhor, não vais. Para sempre ficarás, mãe desta filha ainda demasiado incapaz de não te ter aqui. (Não sei se existe uma idade para se ficar sem mãe.)
Sei que a vi chorar nos degraus, e depois junto do corpo da mãe. Os meus olhos picavam quando tivemos que desenlaçar o abraço em que ela, enorme e muito magrinha, por momentos pequenina, me soluçou no ombro. Pedi-lhe apenas que me deixasse dar-lhe um beijinho, e assim fiz, acariciando-lhe o cabelo louro de seda. Retraí o instinto, que me impelia a dizer-lhe que, quando precisasse de mãe, lhe podia dar um bocadinho, daqueles tantos que ainda tenho, e me sobram nas mãos, nos bolsos, no regaço, no colo, nos dois ombros — mesmo que inundados de soluços e lágrimas —, nos ouvidos, nas noites de insónia e medo, e, em geral, no coração. Calei o impulso, envergonhada da minha própria soberba, lembrando a velha máxima mãe há só uma, e saí do local, investida da minha simples condição de simples mortal.

24/09/2018

Bola prá frente

Coincidência — ou sei lá se talvez não — é ouvir no mesmo dia, com meia-hora de diferença, em dois locais totalmente distintos da cidade, mas exactamente pelo mesmo motivo, a expressão 'bola prá frente'.
Tratada e assinada a papelada necessária por motivo da morte da minha mãe, estou a levantar-me da cadeira onde me havia sentado, quando o funcionário que acabou de me atender me aconselha: Bola prá frente.
Deixo-o para trás e vou ao cemitério. Preciso de tratar de mais uma questão burocrática, que não é urgente, não fora a urgência de desapertar o coração, indo ver os meus pais.
À saída, cruzo-me com algumas pessoas que ali ficaram a conversar, depois de terem ido deixar alguém, que não sei quem nem porquê, mas imagino. Avalio o tamanho do grupo, as idades, a ausência de lágrimas, o despojamento, e sei, ou ponho-me a adivinhar, que terá sido uma pessoa de muita idade, ou tão doente que a morte lhe sobreveio à vida como um alívio seu e dos seus. Não faço julgamentos, who am I to judge? Não sei para o que estou guardada, e, na verdade, também não quero saber. É quando ouço um dos elementos do grupo dizer para outro, eventualmente mais enlutado, mais próximo do falecido: "Agora é bola prá frente". Há algo que me tranquiliza quando percebo que não me vou cruzar com alguém que esteja a chorar. O meu primeiro impulso é sempre socialmente inaceitável, e, por isso, prefiro seguir caminho para a vidinha, deixando a morte — e uma considerável parte da minha vida — para trás. A bola, essa, é prá frente, dizem eles na sua imensa sabedoria futebolística. Seja qual for o tamanho da perda e a dimensão do desgosto.



09/09/2018

~

Talvez ao longo de uma longa vida, todas as pessoas se desdobrem em várias; talvez só assim entenda e aceite que perdi todas as minhas mães — e foram tantas — de uma vez, numa orfandade multiplicada por inúmeras, que nem sei por qual hei-de começar a chorar primeiro. Eu própria fui todas elas enquanto filha, primeiro acabada de chegar, depois criança, mais tarde adolescente, a seguir eu própria mãe, fazendo da minha mãe, mãe, mulher, a senhora que foi sempre, e depois avó. Faltam-me todas, mas, paradoxal e egoistamente, falta-me mais do que todas a última, falta-me precisamente a que já não estava, dependente — ou mais independente do que nunca — e ausente, entregue, e tão mais minha. Do que nos sobrou nos últimos anos, daquele ténue vestiginho de mãe, é o que me faz verdadeiramente uma falta esmagadora. Se pudesse fazê-la regressar, quem sabe não optaria por recuperar — paradoxal e egoistamente — a minha última mãe.

12/08/2018

Dancei, mãe

Hoje acordei infeliz e dancei, mãe. Não dançava há dois meses. Não era capaz de me mexer ao som da música, as pernas tristes, a anca infeliz, já para não falar dos braços, um desalento de dar dó. Estava à espera do dia em que acordasse contente e tivesse vontade de dançar, mas o dia não veio e hoje fui assim mesmo. 
(Não para me alegrar, não para espantar a tristeza - como se ela permitisse uma coisa dessas -, mas para lhe dar largas e deixá-la voar comigo.)
(Ela é volátil.)
Tenho sonhado consigo, mãe. A mana sonhou todas as noites desde que nos vimos pela última vez
(que saibamos)
agora sou eu que sonho. Revezamo-nos a cuidar de si, outra e mais outra vez. 
Quando tomei duche, havia manchas de sabonete em forma de coração aos meus pés. 
(Muitas gotas de água, também. Nem todas saíam do chuveiro, pelo que me pareceu.)
Não sei interpretar estes sinais que a vida me dá 
(são sinais ou eu estou maluca?)
mas acho que era outra vez Alguém a dizer-me que estivesse descansada, que sossegasse o coração
(esta pedra)
que a mãe está bem.
E que eu pare de sonhar, também.

19/07/2018

podia ser (a) minha mãe

Saímos da padaria, ela à minha frente, uma muleta num braço, um pequeno saco, com um pãozinho lá dentro, na mão do outro. Pretendeu descer os dois degraus que a separavam do passeio, apoiou o braço que levava o saquinho num murete logo ali ao lado, pôs o pé da muleta no primeiro degrau e o saco caiu ao chão. Desviei dois passos do meu caminho que havia de ser feito com duas pernas saudáveis até um carro confortável, e segurei-lhe o braço sem muleta, dizendo Vamos descer juntas, pois que sempre me deixou desconfortável o verbo ajudar. Assim fizemos, alcançámos o passeio em segurança, entreguei-lhe o saco que, nem quero imaginar, seria o jantar dela, até que ela disse, Que Deus lhe dê tudo o que a senhora desejar, e eu debati-me entre duas verdades íntimas e, se calhar por isso, dolorosas, Já deu -, pensamento posto nos meus filhos -, Já tirou também -, pensamento posto nos meus pais. É esta a lei da vida, dizem, e eu aceito, quem sou eu para contestar leis, ainda mais se forem dessa tal vida? Fiz o pequeno percurso até ao carro de cabeça baixa, envergonhada de mim, dos meus pensamentos, da minha heresia ou da minha descrença. Ela seguiu, desapareceu logo, talvez se tenha refundido com a calçada ou com o ar, posso tê-la sonhado, quem sabe não ando a delirar de saudades, se ela podia ser minha mãe.

19/03/2018

o odor do amor

Houve aquele momento em que ele pediu que, de olhos fechados, nos lembrássemos das três mais remotas recordações da nossa infância. Não preciso de fechar os olhos para saber que todas as que trago guardadas em mim há mais tempo estão ligadas ao olfacto: tenho comigo o cheiro da minha mãe, da sua pele branca e lisa, orvalhada de um perfume desaparecido há muitos anos, dando-me que pensar se esse não terá sido também o ponto da sua partida. Conservo intacto o cheiro do meu pai, dos abraços com braços pequeninos e de cabeça encostada às pernas dele, ao abdómen, mais tarde ao coração, e a passagem neles da certeza de que tudo estava bem e de estar num abrigo que jamais me faltaria. Ficaram-me outros tantos odores só meus, do mar da Costa, dos pinheiros carregados de resina, da lareira no Alentejo, das azeitonas nos alguidares de barro, dos tarros de cortiça, da casa da minha avó no Porto, dos móveis passados a óleo de cedro da minha Titi, das sardinheiras da sua varanda, dos lápis de cera e dos pincéis na escola, das sardinhas na Feira, e do vento, que nunca mais cheirou da mesma maneira. Todos são irrepetíveis mas eternos, se calhar por serem meus, apesar de eu já não ser aquela mesma. 
E os olhos do meu pai. Havia também neles um odor de desvelo e entrega, que era o odor do amor.
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.


08/02/2018

uma varanda, duas janelas

Umas vezes porque calha, outras porque tem que ser, em todas elas porque o coração assim mo dita, passo pela casa dos meus pais, nos percursos vários que a vida me destina. É uma passagem breve, porque apressada, porque de carro, porque é assim que tem que ser. Morávamos numa avenida larga, com muito trânsito, que hoje talvez tenha dobrado, mas já não estamos ali. A varanda e as duas janelas, sempre presentes, passam-me pelos olhos, que as percorrem. Elas ali ficam, intactas, porém já não à nossa espera. Certamente, sabem que não voltaremos. Naqueles dois segundos que desvio o olhar para lá, sinto-as reconhecerem-me, e acenarem-me adeus, um adeus de olá, tão minhas que me são. Ontem à noite, a luz do quarto dos meus pais estava acesa. 
Não sei por que não subi, não meti a chave à porta e não me aninhei de saudades, ontem.
Também não sei se deixarei um dia saudades do som dos meus beijos.


17/11/2017

dignidade

Fui encontrá-lo muito velhinho, tolhido pela doença que o definha há mais de vinte anos, cruel e sarcástica, de roer músculos e ossos, de deixar a cabeça intacta. Contra todas as expectativas, continua bonito, a mesma proporção perfeita em todos os quadrantes do rosto, o mesmo sorriso impossível, que a doença proíbe, o mesmo sentido de humor dos Natais da minha infância no Porto, a mesmíssima alegria por me ver chegar. Acho que nunca o tinha abraçado tão longamente, nunca lhe tinha dado tantos beijos, mesmo somados todos aqueles que lhe dei ao longo da minha vida inteira. 
Meu tio, meu querido tio. 
A afinidade é aquela espécie de parentesco que acontece por adopção, e essa pode acontecer por via do coração. Marido da irmã do meu pai, meu tio, meu querido tio do coração. 
Não me viu crescer, sequer envelhecer, perguntou se eu tenho vinte anos, numa quase gargalhada sem vestígio de confusão — elogioso, amoroso, íntimo. 
Depois, aquela sopa que teimava entornar para fora da tigela, derramando-se pelo prato afora, aquela colher que não chegava cheia à boca, e a minha hesitação — num daqueles momentos em que qualquer decisão que tomemos será forçosamente a decisão errada —, logo seguida da pergunta sussurrada,
Tio, quer que eu faça isso?
Quis evitar a todo o custo o verbo "ajudar", que tanto me consome. 
Num silêncio sem olhar, sem qualquer movimento de cabeça, ouvi dele, no mesmo tom quase mudo,
Não, filha. 

23/10/2017

Mãozinha boa

Vinha de fato de natação vestido, chinelos de borracha, touca, e trazia um bebé embrulhado num lençol de banho, cuja ponta lhe cobria a cabeça. Pousou-o na bancada, constatei que era um menino e avaliei a idade para cinco meses. No momento em que a criança olhou para mim, abriu os olhos muito pretos, esticou o corpinho num espasmo de alegria e soltou um grito, ao qual respondi, "Olá!". A mãe perguntou-me, então: "Está muito frio aqui para eles, não acha?", ainda vestida com roupa molhada, saída de água destemperada, o corpo num arrepio, preocupada em aquecer o filho. Com receio de parecer o tipo de pessoa que mais me enervava quando tinha os meus pequeninos — os sentenciadores da verdade absoluta, os sabichões da pedo-puericultura, designadamente aqueles que nunca tiveram filhos —, mas levada por um impulso irreprimível, sugeri, "Veja as mãozinhas. Se estiverem quentes, ele não está com frio", mas, em vez disso, toquei eu na pequeníssima mão, que se agitava na minha direcção, afaguei-a breve e levemente, envergonhada pelo abuso, mas preenchida de vazios vários, comuniquei "Ele não tem frio, tem a mãozinha boa. Isto é tudo genica", pois ele continuava numa agitação, dobrando gargalhadinhas de bem-estar e alegria genuína, contagiosas — que me contaminaram no silêncio que me impus, arrumando a roupa suada da dança no saco. Disse adeus à mãe e adeus ao filho, deixei que a porta do balneário batesse nas minhas costas com estrondo, e voltei.


13/10/2017

Hoje vi a minha Titi

Estava a televisão ligada na missa de Fátima, ela pôs-se de pé, as mãozinhas pequeninas, muito juntas, numa fé e numa certeza inabaláveis por eternas, a cabecinha branca levemente inclinada, os olhos atrás de óculos grossos e pesados, de onde em onde fechados, fervorosos, e juro que pequei porque a invejei, e juro que pequei porque matei saudades da minha Titi, quando na verdade estava a matar saudades da minha mãe, mas a Titi também foi minha mãe, e queria só ter um bocadinho, mesmo que pequenino, daquela fé, que me fizesse acreditar que um dia ainda vou voltar ao colo dela, já que da barriga não lhe saí, minha Titi, minha Titi.


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.




11/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 2

Quis publicar uma imagem ilustrativa [alerta redundância] do meu post anterior. Porém, Ai-fostes, acometido de uma má net, derivados de estar demasiado próximo do mar [se esse conceito existisse], não mo permitiu. O quartel-general onde estava instalado o router do pólo onde me acampei era demasiado longe [e cem metros pode ser um conceito interpretável como demasiado longe] para que me deslocasse, metesse pic condicente e voltasse para a boa barraca, pelo que só hoje, regressada e ressabiada, com cara de fim de férias, aqui a publico.
Sem filtros, como tudo em mim.
Já não se trata de uma tentativa de meter nojo, pois que até a mim mesma, ao contemplá-la, agora, a esta distância [duzentos e oitenta e cinco quilómetros, vírgula — após vírgula simbólica — três, pode considerar-se demasiado longe] e sob este prisma (pesadíssimo), a imagem mete nojo, e inveja, e drama, e já saudades, e só coisas feias — não fora ela tão linda.


Diz que Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe. O povo é quem mais ordenha. 
E amanhã é outro dia, lá dizia a outra dos ventos. 
Adeus, que agora vou ali pôr-me em posição fetal e encher-me de baba até me passar a fase da raiva.
[A ver se agora alguém aqui vem desejar-me "Boas não-férias".]


23/06/2017

um copo cheio de amor

Existem refeições em que a comida, por muita que seja à mesa, parece nunca ser suficiente: ou porque alguém não lanchou, ou porque está tudo muito saboroso, ou porque está calor, ou porque as hormonas pedem, ou porque estamos todos cansados e a refeição nos aconchega, ou porque está a ser bom estar à mesa, ou até porque sim. 
Estava "só" eu e todos os filhos que pus no Mundo.
O sumo acabou logo que começou a refeição. Só havia para um copo, ele quis reparti-lo comigo, mas cedi-lho por inteiro, porque mais vale um copo cheio do que apenas meio cheio. (Não se considera a possibilidade de copos meio vazios.)
Era uma refeição de comida vegetariana, comprada fora. 
Uma pediu para ficar com um pouco da dose de tofu que havia de me calhar a mim, uma vez que tinha ficado com pouco e não come seitan. Cedi, dei-lhe a maior parte do "meu" tofu. 
Outra disse que estavam deliciosos os bolinhos [de não sei quê], e eu tinha um no prato. Disse-lhe que ficasse com ele, ela que não, eu que ficasse, ela que não. Então, falou ele:
- A mãe já não vai comer o bolinho, é melhor aceitares.
- Come, sim, não come porquê?
- Porque é mãe. — Disseram os olhos lindos e enormes do meu Henriquinho, que me matam as saudades só de olharem assim para mim. 
Estendeu-me então o copo dele, ainda cheio de sumo e amor, pegou no meu, ainda vazio de líquido, e disse que preferia beber água. 


22/06/2017

~

É por absoluta incapacidade minha — exclusivamente minha — que hoje — dia 22 de Junho —, sou incapaz de chorar os mortos de alguém, e é por isso que tenho passado o dia a rir, e é por isso que vou acabá-lo não sei como.
Amanhã já posso voltar a chorar os mortos de toda a gente.


17/06/2017

xenoamor

O pai é japonês, a mãe é loira. Falam inglês entre si, língua que, provavelmente, descobriram como veículo de entendimento no topo da Torre de Babel. Ela é a japonesinha mais loira e mais linda que algum dia vi na vida. Calculo-lhe uns seis meses de idade e sei que não costumo errar por muito: já se senta muito bem e vocaliza monossílabos. No entanto, ainda está longe do tamanho e robustez dos oito meses, idade da pré-marcha. Acordo de manhã ao som dos sons dela e isso transporta-me para um tempo de saudades que não mais verei. É madrugada, mas era também de madrugada que os meus seis meses todos chamavam ma-ma. Nunca pesquisei sobre o assunto, pois sempre assumi como verdadeiro que a origem de mamã é mama, assim como de papá é papa. No entanto, para a minha japonesinha loira (que só não roubo porque nunca passaria por minha filha, que fique já aqui claro), cuja língua materna é aquela que os pais encontraram no topo da Torre, o que será ma-ma, que não seja mamma, entendível universalmente como mamã? Os bebés, eles sim, inventaram uma linguagem comum, espécie de esperanto, sem barreiras nem desentendimentos. E isto, com meia dúzia de palavras, mono e bissilábicas.

19/02/2017

Queria falar-te da minha tristeza pequenina sem te carregar com ela

Não quero que penses que sou uma pessoa triste, logo eu, que sou a pessoa mais alegre que conheço (e, se calhar por isso, a mais triste também. Preciso de equilibrar tanta euforia pela vida, tenho que justificar ao Mundo que gosto de aqui estar — quando gosto, porque gosto, e por que gosto, e que é muito —, que tenho tido uma sorte mal ou bendita, que parece nunca me querer largar, lagarto, lagarto), porque não sou. Mas tenho umas tristezas pequeninas, que são as que me dão mais alegrias, pois sem elas nem saberia ser feliz, assim desta forma, tão vasta e tão parva, tão plena e tão funda. Sei, por exemplo, neste momento, que se aloja uma tristeza minha num canto de uma sala, nem sei como, se aquele é o ponto mais bonito e mais iluminado de todo aquele espaço, mas é precisamente ali que ela me toma, e por isso já não vou para lá, cobarde ou desistente de lutas sem tréguas em que saio sempre vencida. Fosse eu a triste pessoa que não sou e quisesse ter uma inspiração bonita para escrever bonito, e era ali que iria recolher-me em criação literária. Também sei, por outro exemplo, que senti uma tristeza pequenina, fina e afiada, no momento em que ela me relatou uma história que envolvia um boneco bebé-chorão, mimado até ao desinteresse nos braços que me haviam de carregar a mim no colo, grande demais para eles que sou agora, mas que, por mais uma vez, esteve indisponível para me acolher, umas vezes demasiado pequeno, outras efectivamente distante. É por estas coisinhas assim, sem importância nenhuma, que às vezes choro da mágoa que foi a grande injustiça de ter perdido a minha gata. São tão pouco importantes as minhas tristezas pequeninas que qualquer dia não me lembro de nenhuma delas — ou terei outras, assim exactamente do mesmo tamanho, para me compensar da falta destas —, só que, se as somar todas juntinhas, parecem mesmo a soma das partes e dão um todo, que é uma tristeza que parece mesmo enorme. Mas não é.

11/01/2017

aromamor

Calhou-lhe entrar num local que lhe trouxe aos sentidos, à lembrança, ao coração, o aroma da casa da avó que a vida lhe levou tinha ela onze anos. Simultaneamente, por uma daquelas coincidências que acontecem quase nunca, sentiu no ar, exalando talvez de outra senhora, o mesmíssimo perfume usado pela avó.
Acerco-me dele, inalando-lhe o perfil, sentado à secretária, decalcado da imagem do meu pai diante do estirador, e sussurro, penso alto, ou calo quase sempre, Henriquinho, até no cheiro és o meu pai.
No cheiro dos que nos são nossos, há um denominador comum, que se nos entranha sentidos afora, olfacto adentro, respiração feita na memória íntima do odor amado. Pode ser o que nos faz reconhecer como pertença, assim como acontece com os outros animais. É também o que nos acirra as saudades, e o que as mata. O olfacto e as memórias que lhe são inerentes, tanto aguçam como suavizam a falta que as pessoas, as coisas e os lugares nos fazem.
Pergunto-me quantas vezes não percorro as minhas léguas apenas em busca do cheiro da minha mãe. Há uns dias, como naquele último, em que não o encontro logo, nem ela mo reconhece a mim. Depois, à despedida, porque é sempre à despedida, consigo sentir e cheira-me, de forma absoluta, intrínseca, definida e definitiva, a mãe.

05/01/2017

Coisas tão óbvias...


A ver se consigo situar-me.
Recebi este sms na passada segunda-feira, dia 2 de Janeiro.
(Já não tinha percebido o teor do de 7 de Junho, mas admiti-o como genérico.)
A Mel nasceu no dia 29 de Abril de 2011.
Morreu no dia 5 de Dezembro de 2015.
Nunca foi ao veterinário no Vasco da Gama, a não ser naquele dia, sábado, em que apareceu morta, pelas 8:30 da manhã. Quando saímos de casa ainda não eram 9 horas, e o veterinário dela só abria às 10. Procurámos por um que estivesse aberto àquela hora de um sábado e que pudesse recebê-la. É aqui que aparece o Vasco da Gama. Foi onde fomos confirmar o óbito (dúvidas houvesse...) e depositá-la para necrópsia. (Outra gata em casa, umas flores de proveniência desconhecida, a idade dela, demasiado jovem, vários foram os motivos para querermos o exame.) Não esteve lá mais do que dois dias, pois foi recolhida pela Faculdade de Veterinária na segunda-feira seguinte.
Obviamente, tratou-se de um engano. Apareceu no computador um(a) Mel, que também pode ser um cão ou um papagaio, e vai de mandar para o telemóvel que estava mais próximo.
Obviamente, há pessoas pouco cuidadosas.
Obviamente, é parvo mandar um sms de parabéns a um gato/cão/papagaio/ouriço-cacheiro.
Obviamente, é parvo saber estas datas todas tão bem.
Obviamente, é parvo escrever este post.
Obviamente, isto foi tudo uma tristeza.



29/12/2016

consoada

Era uma noite de consoada consolada, a sala estava cheia de gente, desembrulhavam-se prendas e ofertas, tantos presentes, e ausentes também. Houve abraços, agradecimentos, olhos felizes, gente contente. O homem abrira os seus, agradeceu a cada um dos ofertantes a sua dádiva, beijou testas, dirigiu palavras tão doces quanto os doces que ainda estavam pousados na mesa e já confortavam os espíritos, e não sentiu nenhum par de braços a pedir por acolhê-lo. Todos se viraram uns para os outros, abraçando-se aos dois e dois, enquanto ele, de braços vazios, pensou seriamente em abraçar a árvore de Natal. Quase soluçou uma gargalhada amarga diante da ideia, e achou por melhor abraçar o gato, que, apesar de morto, lhe alentava sempre as faltas maiores e lhe serenava as falhas — as imperfeições e os defeitos — que sentia como suas, tantas vezes. 


20/12/2016

Espera

A rampa das chegadas do aeroporto é um cais de desembarque onde, especialmente nesta altura do ano, muitas emoções se encontram — e se reencontram — à flor da pele. Quem espera, faz-se pontual na aterragem, apresenta-se no cais à hora a que as rodas do avião tocam o solo, como se fosse possível que quem chega pudesse saltar directamente da pista para os braços ainda vazios de quem está. Só isso explica que a extensa multidão se mantenha firme, a mesma, expectante, durante largos minutos, meia-hora, uma hora. Entretanto, saem aviões inteiros de gente, e ficam outras gentes, como eu, a distrair a impaciência e a saudade, tentando adivinhar de onde vêm (Olha, este é fácil, vem do Japão), quem os espera, o que os traz aqui no Natal (É fácil, são japoneses).  
Dezenas de pessoas, algumas terminando a rampa num abraço adiado e demorado, uma mulher que sai da multidão e abraça um rapaz, escondendo as lágrimas no peito dele, uma menina que corre ao encontro de um pai, e pula, e trepa-o com risos e beijinhos. Tão diferente, a manifestação das saudades, em função da idade de quem vêm.
Vejo-a ao fundo e toda eu sou lágrimas e gargalhadas engasgadas, que não consigo libertar. Esperei-a nove meses, e agora estes três. Espero-a ao fundo da rampa, mas ela é interceptada a meio, pelo pai e pelos irmãos, fazem-se todos num corpo só e ela, tal como a mulher que reencontrou o filho, esconde e dissolve as lágrimas por todo o grupo. Vem mais pequenina, mais magra, mais pálida, mas isso são os meus olhos, que nada vêem, que vêem. Também a vejo maior. Cabe inteirinha na palma da minha mão, penso assim, enquanto me aproximo, me agiganto, me faço tão grande que sinto os meus braços, o meu corpo todo a redimensionar-se para a acolher — reengravidando dela —, na amálgama de família em que se encontra. Apanho o enorme corpo de gente nos braços, depois isolo-a só para mim, meto-a dentro de um abraço e percebo, finalmente, que nunca daqui saiu.