12/10/2023

Agora eu sabia fazer malas e o meu cavalo só falava Inglês

A noiva do cowboy era você além das outras três

Algarve em Outubro, em cheio na semana de calor, férias marcadas com um mês e meio de antecedência. 

Tive trinta e seis horas para fazer esta mala, não seguidas, pois entretanto houve que dormir, satisfazer outras necessidades básicas, cozinhar, lavar, estender, recolher, passar a ferro, limpar cantos mais visíveis - Mlle. Que Fala Tanto adoeceu após três semanas de férias (provavelmente, fazem-lhe mal. Para o ano já só goza duas semanas) e meteu baixa por outras quatro. Esta que tecla não quis chamar outra de substituição, pois cada uma que vem é pior que as anteriores todas. O ano passado tive cá uma que me partiu o cano do aspirador e me torceu irremediavelmente o cabo do ferro. Cheira-me que andava às piruetas pela casa com os meus electrodomésticos na mão. Não me lembro como é que ficou a bicha do duche. Só devia apreciar eléctricos. Tive diálogos com as substitutas de minha Sandra dignos de filme de terror: "Senhora, eu não sei dobrar camisas"; "Passe-as, que eu as dobro". Fim do dia: camisas todas dobradas por ela. "Senhora, eu não sei passar a ferro, mas fui ver ao Youtube e acho que aprendi". E não é que passou tudo eximiamente? Fico-te a dever uma, You.

Ora, esta mala, comecei a fazê-la de antevéspera, porque já sei que me falha sempre qualquer coisa. Mas também aprendi que posso começar na semana anterior, que vou sempre esquecer-me das cotonetes. Ou do único champô que faz iludir que o meu cabelo não parece tanto acabado de sair de uma permanente. Desta vez até nem me esqueci de coisas muito importantes, a não ser dos dois biquínis de que mais gosto (e os únicos que não demonstram por A + B que me sobram coisas), do corta-unhas (não as cortei, portanto) e do espelho que aumenta a imagem por dez e nos revela pormenores na cara que desconhecíamos ter e dos quais devíamos envergonhar-nos: pêlos, manchas, altos, baixos, rídulas (quais rugas, quais quê). Já estive para escavacar aquilo, só para não ter mais trinta e quatro preocupações diárias, mas diz que dá azar por sete anos, e não esquecer que este multiplica por dez. Há cinco anos, partiu-se um espelho enorme no lar (durante uma das mil obras que o dito já sofreu), estava na varanda para ser transportado para outro lado, lá veio o vento e tudo levou, escaqueirando-me a grande porra e a minha vida por sete anos. Ainda faltam dois, ando aqui mais direitinha do que na trave olímpica. 

Enfim, revelei ao mundo que me rodeava as chichas que, se pudesse, arrancava à naifada, cheguei à cidade com umas unhas boas para esgrimir com Eduardo, Mãos de Tesoura e com pelitos vários a assomarem-se no sobrolho, dando-me aquele ar mais sóbrio com que a pessoa fica.

(Férias maravilhosas. Levei comigo primogénita, que tem exactamente os mesmos ritmos biológicos que eu, o mesmo humor - o bom e o mau, nas mesmas proporções -, só que é francamente mais inteligente.)