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09/07/2020

Milu

Milu chegou às nossas vidas há quatro dias, e já no-las revolucionou de alto a baixo e de ponta a ponta. Na verdade, chegou no dia em que nasceu, pois da casa onde se deu o grande evento que foi a pequena coisa ver a luz, recebemos notícias e reportagem fotográfica com a frequência provável com que se processam todas as adopções felizes. Assim, veio da Figueira da Foz, sob um calor abrasador, e recebi-a com os meus enormes braços, que creio ainda terem crescido em comprimento naquele momento, tamanha é a pequenez da figurinha. Tem basicamente o comprimento de uma embalagem de champô. O nome já lhe foi posto algumas horas depois de se ter tornado residente cá do lar, mas até calhou bem começar por M, como são os de todas as fêmeas desta barraca, felídeas incluídas. (Lembro que, e por ordem cronológica, Mia - minha saudade querida -, Mel - ainda hoje dói de tanto que falta -, Molly, meu terror, minha boneca.) Ainda alvitrei Chica (Maria Francisca nas horas de mau comportamento), Benta (porque tem uma risca ao meio à Paulo Bento), Belém (por ter um olho à Belenenses), mas isto parece que é uma democracia musculada em que eu basicamente não mando nada, e Milu venceu, o que dá um jeito atroz para quando tiver que lhe ralhar, faço um nico de catarse e tudo, vai de Maria de Lurdes, que era o nome da minha professora primária, da qual, ao contrário de todos os (ex) meninos que conheço, que adoraram de paixão a sua primeira professora, o que também acontecia com os outros meninos da turma, eu sinceramente desgostava da senhora, que Deus tenha lá em descanso por muitos anos e bons, sem mim e sem os meus. Mas olhem, eu devia ser torta, ainda passei o primeiro período quase todo com cinco anos, a megera era uma anciã com voz tabaqueira e sinais pretos na cara, deve ter-me dado o medo (por na época ainda acreditar em bruxas, sei lá), ainda hoje me arrepio de me lembrar, mesmo agora, ao escrever estas linhas, toda eu sou fremências e tremeliques, o que é certo é que quando pulei para o liceu ela nunca mais me viu nem os dentes nem sequer a cor dos olhos nem nada. Fui, Marilu. (Ela também não gostava de mim, demasiado pequena, demasiado tímida, demasiado etérea lá para os vagares das dinâmicas do movimento da Escola Moderna.)
Mas pronto, venho hoje aqui apresentar Dona Milu, Maria de Lurdes nas horas de tropelia. 


14/11/2019

lágrimas de suor

Começou a corrida e eu levava os olhos cheios de água, vinda não sei de que esforço, ou seria da alma que se arrasta por estes dias, que até nem chovia.
Carcinoma das maminhas, tinha dito a veterinária há um ano. E ela bem, recuperada das duas cirurgias quase seguidas, magra, silenciosa como só um gato sabe ser. De um dia para o outro, ainda mais magra, ainda mais silenciosa, o ser gato levado a um extremo insuportável. 
Está maior, o tumor dela. Por isso, também por ela, fomos correr no domingo. Quando a Ciência avançar para umas, terá igualmente um braço que alcance as outras. Fiz o melhor tempo de sempre, não parei para andar, para descansar, para pensar - mais ainda -, sequer para chorar. A alegria de ter concluído a corrida sem percalços nem dores no corpo esteve sempre atravessada por aquela farpa que transporto no coração, eu no meu e os outros cinco nos deles. Ainda assim, não adianta camuflar com demais explicações: estou velha, estou extremamente velha, sou aquela ridícula que adoece cada vez que lhe morre ou adoece um animal de estimação. Diz agora a veterinária que devemos - como se se tratasse de um dever tout court, e não de algo que, implícita e naturalmente, sairia de nós - dar-lhe todo o mimo, todas as guloseimas que ela aceite. E também que devemos - esse, sim, um dever a cumprir ninguém sabe muito bem como - preparar-nos para a deixar partir
Não sei fazer essas preparações, e recuso-me a tentar, sequer. Não considero nem quero fazer mais nenhum luto, seja ele antecipado ou em tempo real. Ao invés, encho-lhe a boca com a cortisona receitada, o corpinho com festas, a cabecinha com beijos. E, contra tudo o que é normal - ou não fosse eu - rejubilo com todos os pequenos progressos, quando come bem, quando dorme tranquila, quando esgatanha alguma coisa, desconsiderando a evidente reacção à medicação, subestimando que o tempo corre implacável, numa corrida cuja meta será toda ela de lágrimas, enchendo-me de uma coisa qualquer a que nem admito chamar esperança.

05/03/2019

"Vamos para casa, menina"

Faz hoje dez anos que nasceu a minha Mia. Sei a data com precisão porque a dona da mãe mo disse, quando a fui buscar, com vinte e quatro dias de vida. Foi um absurdo, que reconheci quase imediatamente, tê-la trazido tão pequenina, mas ela não morava aqui ao lado, teríamos de voltar dali a duas semanas, tudo parecia conjugar-se para que eu tivesse tomado a decisão por outras cinco pessoas indecisas, pegando-lhe e segurando-a junto ao peito, "Vamos para casa, menina". E assim veio, minúscula, perdida, mal sabendo andar, tomando biberon de três em três horas, quando não menos espaçados. 
Culpa minha, ou porque seria sempre assim, nunca a senti feliz, nunca lhe vi uma atitude de alegria ou gozo pleno de bem-estar, como vi nas outras duas gatas que, uma, tivemos, outra, temos. Desconfiada, agressiva, ressentida, muito em particular nos primeiros anos. Escolheu uma humana para ela, de entre as minhas três filhas, apesar de, com o passar do tempo (e a esterilização?) ter amansado gradualmente, até se ter tornado uma senhora, com toda a altivez, independência e sobriedade que isso implica. Hoje já não trepa para o topo dos armários, não se recosta a dormir na parte mais alta dos roupeiros, junto ao tecto, não caminha pelos varões dos cortinados ou pela parte superior das portas, naquela elegância ímpar da magríssima jovem ginasta da trave olímpica. Reveza os seus dias entre o pequeno caixote de papelão da sua eleição, contendo uma manta macia, e suficientemente perto de um radiador, as suas idas à casa-de-banho, às taças e a uma torneira específica da casa, única por onde bebe, algumas incursões pelos cantos da casa, especialmente se banhados por sombras, a janela maior, a cama da humana eleita e várias perseguições à Molly, que pesa, seguramente, o dobro e tem menos de um terço da idade dela.
Sabemo-la doente, com a vida a prémio, em contagem decrescente. Mas não é essa a realidade efectiva de todos nós, mesmo que saudáveis? Não tem qualquer sinal de mal-estar, o último caroço não cresceu nem mudou de configuração, a patinha não inchou, ela não coxeia, não se mostra incomodada nem dorida. Tem dez anos, são cinquenta e seis em humanos. Percebo-lhe os enfados, as faltas de paciência, os dias de morrinha, por me perceber a mim própria quase assim. Não é uma desistência, é uma espécie de desvontade. 
Quero para ela o que lhe desejei hoje, ao enchê-la de festas e beijos na cabeça: "Só mais dez, por favor, por favor, por favor!". 

créditos para uma das minhas crianças, a humana da Mia

29/01/2019

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 18

Imagina que se dá o momento em que metes a chave na fechadura, ela dá duas voltas lá dentro - e, com isso, te apercebes de que não está ninguém em casa -, entreabres só um bocadinho - porque sabes que as gatas têm aquela mania de ir passear para o patamar das escadas (serão só as minhas que manifestam este fremente desejo de fugir do lar?) e depois é um sarilho grande para convencê-las a voltar - e sai-te a jacto, ligeira e silenciosa - na verdade, com um "prrr" - a Molly, logo escadas acima. Nem pousas a mala, nem despes o casaco, corres atrás dela, mas oh, engano!, ela sobe mais uns quantos degraus, por isso mais vale ficares cá em baixo a praticar psicologia felina, "Anda cá, vamos para casa, Molly!", mas o bicho nada, nem desce nem sobe mais (vá lá...), olha-te apenas por cima do ombro com aquela desconfiança e soberba, do alto dos seus olhos azuis de gelo, como quem diz "Vai tu, daqui não saio, I've got stuff to do upstairs", ainda tentas a solução radical, que é fechares a porta de casa, como se faz às crianças teimosas, "Olha, ficas aí, que eu vou para casa. Adeus", mas depois lembras-te do dia em que ela ficou mesmo e, passadas duas horas (cálculos muito por alto), o vizinho de cima veio perguntar-te se o gatinho que tinha lá à porta a miar, e ao qual já havia dado leite e pão aos pedaços (e a lontra devorou como iguaria sem igual) não seria teu, e, aflita com a repetição do episódio (se bem que ela talvez não, vai-se a ver e curtiu da refeição alternativa), voltas a abrir a porta e sai a Mia, não a jacto, mas igualmente ligeira, e efectivamente silenciosa, sem "prrr".
E ficas sozinha no patamar, tu e as tuas gatas que, por acaso, se detestam. Não se odeiam, mas não se dão, o que equivale quase ao mesmo.
A Mia dirige-se para a escada que sobe, encara com a Molly, e os dois rabos fazem-se num comovente e lustroso pompom. Uma das duas, ou as duas, assanha-se para a outra, e tu pensas que é capaz de ser melhor saíres da jaula, e os leões que se entendam, pois, se for para ficares sem cara, mais vale ires para o lar e esqueceres o dia em que quiseste adoptar gatos. Já não te bastavam quatro filhos nascidos no espaço de seis anos, para ainda te ires meter noutros trabalhos quase semelhantes.
Mas depois, gostas delas. Uma é parva, a outra está doente, porém gostas das duas na mesma medida. E então, raciocinas. Com a Mia, tudo é mais fácil, quanto mais não seja porque pesa metade do que pesa a outra fat, que é agressivíssima e só a ideia de lhe pegares já te arrefece o sangue-frio. Pegas nela por baixo, com cuidado para não lhe magoar a barriga, e carrega-la para dentro de casa, sob protesto (a assanhar-se, aqueles "rugidos" dos gatos), feita manifestante activista e rebelde sem causa. A repetição da fuga para fora de portas é bastante rara, por isso podes descansar de uma.
Dona parva continua estática, sem vontade ou iniciativa de sair do degrau onde se instalou a mirar a paisagem. Não é por acaso que os suricatas se chamam assim. Ponderas o truque do papel amachucado em forma de bola, o truque do boneco dela (um pinguim vestido de Pai Natal, don't ask) atirado para dentro de casa, mas sabes que, cada vez menos, se deixa enganar, e isso pode ser uma perda de tempo que a fará subir mais degraus. Então, lembras-te do truque dos gatinhos a miar, sabes que é um golpe baixo, mas que resulta em pleno: "Gatinhos a miar" no Google, Ai-fostes com o som no máximo, e esperar. 
Lá veio ela, percorrendo todos os cantos à casa até eu desligar aquilo, sei lá se para brincar, ou então para se assanhar também para os gatinhos que procurava e não estavam em lado nenhum.



LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam35

19/01/2019

coração azul

A minha Mia está doente. Foi operada duas vezes nos últimos três meses, mas não ficou curada do mal que a tomou. Um novo caroço, tão pouco tempo após a segunda cirurgia, lançou-nos o alarme e também a suspeita. A veterinária é de opinião que “não devemos operar”, nós não queremos que ela seja novamente operada. Queremo-la viva e com qualidade de vida enquanto for “humanamente” possível. 
Entretanto, descobrimos-lhe, numa das peladas que tiveram que ser-lhe feitas (para colagem do adesivo para as dores), um coração azul.
Assim está o meu, a acompanhar-lhe estes dias, que podem ser semanas, meses, ou - numa perspectiva optimista que não quero largar -, anos dela.


10/01/2019

vulnerabilidades

Creio que nunca me tinha apercebido da existência de uma câmara de aflição na sala do veterinário, até ontem. Talvez porque eu própria ali tenha entrado assustada e apreensiva, carregando a minha cabeça a abarrotar de fantasmas, as pulsações latejando em todos os sentidos, a respiração desacordada num susto. Na véspera tínhamo-nos apercebido de um novo caroço na axila da Mia, e o pânico pela recidiva (ou nunca cura) da doença havia voltado. Era igualmente o momento de fazer o raio-x de despiste de metástases, pelo que a deslocação ao consultório tinha dupla razão de ser. 
Não sosseguei a alma quando a veterinária analisou o caroço e disse apenas não gostar nada da consistência dele. Fez punção, colocou o conteúdo em três lamelas e preparou tudo para enviar para análise de laboratório no mesmo dia. A Mia portou-se como uma senhora, sem um ai, sem um rosnado, sem uma tentativa mais radical de se libertar de tantas mãos - as minhas incluídas - que a prendiam. 
Esperava a revelação do raio-x quando ouvi soluços na sala de entrada. Dirigi-me para lá em ânsias e vi uma mulher adulta com qualquer coisa de bastante pequeno nas mãos, postas em concha fechada, como que numa oração. Quando as entreabriu, ouvi-a explicar que "ele põe três ovos por mês, este mês ainda não pôs nenhum, costuma ficar assim paradinho quando põe, mas nunca como hoje". Percebi então que se tratava de uma fêmea, apesar da referência no masculino, de um pequeno papagaio verde. Levado às pressas para a sala de cirurgia, para ser posto a soro e oxigénio, deixou assim para trás a dona inconsolável. Ainda ensaiei uma tosca tentativa de alento, mais em busca de convencimento próprio, com um inseguro "tenha calma, vai ver que não é nada", quando nem sequer nas minhas palavras acreditava. Calei-me imediatamente, pois as lágrimas dela contagiaram as minhas e precisava de manter as forças para o que viesse a seguir.
Revelado o raio-x, a veterinária deu-nos a única notícia boa daquela visita: pulmões "limpos", por ali não há "nada". No entanto, insistiu na muito provável "maldade" do caroço. Aguardamos uma semana, de credo nas mãos e coração na boca. 


25/12/2018

Ainda não bebera uma gota nem duas de álcool e já confundira várias ideias

Então, partilhava eu aqui no meu salão, que a minha gata foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda se encontra em convalescença da última, quando travei o seguinte diálogo com um senhor com quem partilho uma afinidade:
LB - Foi operada duas vezes nos últimos três meses e ainda está a convalescer da segunda, que foi há pouco mais de duas semanas.
SCQPUA - Mas eles duram muitos anos, para aí uns vinte.
LB - Esta, não sei se durará tantos, com um carcinoma...
[Momento em que se gera alguma confusão, agora visto a esta distância.]
SCQPUA - Agora parece que é moda, toda a gente tem um.
LB - Pois, parece que está provado que uma grande percentagem da população terá um, mais tarde ou mais cedo.
(Esta minha mania de lançar números aleatórios quando não conheço a percentagem exacta, nem estou muito certa do que digo. Mas tenho em meu favor que SCQPUA também não escutou com atenção o que eu afirmei.)
SCQPUA - Lá na minha terra, toda a gente tem um.
[LB a considerar a possibilidade de existir um fenómeno endémico na terra do SCQPUA.]
LB - Ai sim?
SCQPUA - Sim, até há quem tenha dois ou três...
[LB assaz consternada com a existência de uma população inteira com semelhante pouca sorte.]
SCQPUA - ... cães.


14/12/2018

Cada vez mais convencida de que David Lynch escreveu o guião da minha vida, e não há como sair deste registo

Não sei se sou eu que sou uma nervótica, ou se realmente tudo vem ter comigo, mas deu-se que fui à veterinária com a minha gata, mais uma consulta pós-operatória, oito dias após a segunda mastectomia em dois meses e meio, e ia nervosa. Ando sempre um bocado, na verdade, ora por isto, ora por aquilo, mas sou pessoa para (achar que estou a) disfarçar extremamente bem. Ainda outro dia o médico do coração ia tendo um enfarte quando me mediu a tensão e me tomou o pulso.
Há três dias, apanhei uma seca tremenda de uma hora e meia - haveis lido bem - de espera lá no médico dos bichos, porque cheguei e tínhamos dois cães à nossa frente e aquilo funciona por ordem de chegada. A vet estava na sala de cirurgia a operar um iguana, o que ainda demorou meia-hora até começar a atender os fregueses expectantes, de entre os quais minha boneca e eu. Entretanto, apareceu uma figura muito obesa e lenta de gesto e modo, que disse que ia buscar o Jaime, vai a funcionária e pergunta: "Ah, o camaleão?", e ela corrigiu, em voz roufenha e ameaçadora (eu, pelo menos, assim a senti), "Não, é um dragão", e não é que me vieram várias imagens mentais à mente, nomeadamente a de uma princesa presa na torre de um castelo, ao som do gingle do Dragon Ball (e depois o David Lynch é que é o transtornado)?
Hoje até fomos de manhã, para atalhar. Quando chegámos, estava só um cão à nossa frente, e fomos mandadas esperar num gabinete, sei lá porquê. Até achei bem, sempre estávamos isoladas e podíamos dialogar em paz, sem que alguém nos julgasse esquizofrénicas. Só que a espera durou quinze minutos, e, perdida a paciência para esperar mais um que fosse, vou-me à funcionária e questiono se aquilo ainda está muito demorado, porém ela responde-me o óbvio, que eu já sabia, que "a doutora está em consulta com o cão". Então, pus-me a prestar atenção à conversa da consulta, e era sobre bolçar, vomitar na cama por causa da tosse, mudar lençóis a meio da noite e cansaço diurno, e eu vá que a memória não me falha para nada dessas coisas e compreendi que falavam dos filhos, a dona do cão e a vet. Pode dizer-se que estava passada da marmita quando, ao fim de meia-hora de espera e, pelo menos, um quarto de hora de tereréu sobre crianças que se vomitam, a última que referi entrou no gabinete e, que grande lata, me pediu desculpas. Respondi, agastada, que fora tempo a mais de conversa pediátrica, e ela diz-me assim para mim: "Sabe, às vezes as pessoas precisam de desabafar". Mas liquidei-a com um cáustico "Pois olhe, eu não. Quando preciso de desabafar, não vou ao veterinário". Ela há-de ter percebido que eu estava nervosa e não me pôs a deu trela. Tratou da minha bicha maravilhosamente, e eu saí mais tranquila. 
(Teve que drenar líquido de um papo que formou entretanto - duas seringas cheias - e voltou a tomar anti-inflamatório. Não tirou nenhum ponto - que são alguns quinze - e prolongou o antibiótico de dez para quinze dias.) (Não são excelentes notícias, mas também não são más.)
Recebeu um barretinho de Pai Natal de prenda, pus-lho para a pic, mas é o que se vê: minha Mia odeia merdas.) (Eu adoro-a, mesmo - e sobretudo - assim.)


07/12/2018

Velhotinha

Foi operada pela segunda vez em menos de três meses, a minha Mia. Assim como uma mulher tem duas mamas, as gatas têm duas enfiadas de maminhas, e, para cada uma, é necessária uma cirurgia diferente. E, assim como não há duas gravidezes iguais, ainda que na mesma mulher, parece que também não há dois pós-operatórios semelhantes no mesmo animal. 
Ou será do abat-jour?
Foi quase uma imposição, em jeito de pedido, que não lhe pusessem o chapéu sem copa. Da outra vez, ela ia morrendo de stress - sob a forma de apatia - enquanto teve aquilo amarrado ao pescoço. Pensámos que era da anestesia, pensámos que eram dores, pensámos que era tudo junto, mas, afinal, era só o cone que a estava a angustiar/revoltar/contrariar. 
Veio para casa sem o plástico na cabeça, só com o seu vestidinho fashionerer. Embora chateada com a vida - olhos em alvo, não-me-toques, deslarga-me-pá -, tranquila, sem rosnanços nem miaus doloridos. Foi operada ontem de manhã, teve alta ao fim da tarde, e hoje já foi à areia e já petiscou gourmet. (Só quando lhe fazem maldades é que permitem comidas chiques, lá no vet. De resto, só aquela ração que cheira a escorbuto.)
A vet lembra-me constantemente que ela "é velhotinha". Não diz "velhinha", não diz "velhota", não diz "velha". É velhotinha.
Eu vejo-a sempre com três semanas, como da primeira vez que lhe peguei. Ainda assim, perguntei, só para confirmar aquilo cuja resposta me deixou mais ou menos na mesma: "Quanto tempo ainda a teremos?".
"Há gatas que duram seis meses, há outras que duram muitos anos."
Eu quero a segunda, se faz favor.


04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

03/10/2018

Carta à minha gata

Querida gata:

Escrevo-te esta carta sabendo que nunca a lerás, pela circunstância de seres analfabeta e, previsivelmente, assim permaneceres até todo o teu sempre. Mas preciso de dizer-te algumas coisas e dá-se, do meu lado, a contingência de não saber falar a tua língua, embora já vá entendendo a tua linguagem. Por esses dois motivos, espero que percebas, pelo menos, uma pequena parte do tanto que tenho para te dizer.
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em  tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".


25/09/2018

Notícias da minha gata

Depois de ter sido operada na passada quinta-feira, a minha Mia voltou para casa com um vestido cor-de-laranja e um cone abat-jour chapéu sem copa, transparente. A vet achou por bem vestir-lhe o tamanho 1, já que Dona Mia é uma gata light e slim, e qualquer outro ficaria grande aos seus abundantes (em ossos e pêlo) 2,880 Kg. 
(Sim, é extremamente magra; e sim, foi esterilizada; e sim, é ansiosa e vomita com alguma frequência; e não, não tem mais nada, a não ser agora caroços nas maminhas que ainda não tirou, e já basta de sustos e medos.)
Deu-se que na primeira noite pós-operatória, a safadinha conseguiu tirar o vestidinho e arrancar o chapéu, tendo ficado com os pensos à mostra e à mão, meio caminho andado para arrancar tudo até à costura, e, quem sabe, a própria também. Repusemos-lhe tudo como antes, ela não voltou a tentar tirar, mas foi ficando cada vez mais inactiva, mais quieta, mais triste. Esteve exactamente quarenta e oito horas sem comer, sem beber (e Lisboa abafava), sem ir à areia. Até que, no sábado passado, de volta à vet, tirou os pensos, mudou de vestido (para o tamanho 0, que a vet costuma vestir a coelhos) para um cor-de-rosa com debrum cinzentinho (também havia azul, mas achei que a minha menina ficava muito mais fashionerer em rosinha), tirou o chapéu e, autorizada a comer guloseimas (Agora vale tudo, disse a vet, embora não tenha permitido chocolate, à minha pergunta. Então, não é tudo), comeu comida mole das latas, bebeu água e já foi à casa-de-banho dela. E a toma do antibiótico passou a ser uma guerra de nervos e garras entre humanos e felina. 
Tudo muito melhor, em suma. Mas quero, em muito breve, voltar a vê-la como ela é e sempre foi: tímida,  nervosa, soberana, sobranceira. Uma rainha com medo do trono. 


21/09/2018

Mihinha

A Mia, minha gata mais velha, foi operada ontem. No sábado demos com um caroço numa maminha, no domingo fez análises e ficou marcada a cirurgia para quatro dias depois. Tirou as maminhas todas de um lado, daqui a quatro ou cinco meses, já com dez anos, tira as do outro. 
A minha Mia nunca teve bom feitio, nunca foi o gato dócil que era a Mel, uma vez mordeu-me a ponto de me deixar uma cicatriz na perna, sempre odiou estranhos, nunca se enroscou nas visitas. Mas também não pediu para ir para a nossa casa, chegou-nos com três semanas, foi alimentada a biberon, tudo por um imperdoável capricho meu. E pode ter sido isso que fez dela desconfiada, insegura, ansiosa. 
(Adoro-a.)
E quebra-se-me o coração vê-la assim, ainda mais sabendo que vai acontecer de novo daqui a meses. 
Não sei como se mede o tamanho do amor que se tem a um animal, mas não deve haver uma régua, sequer uma balança fiel.




05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

05/03/2017

Se não tivesse gatos, tinha cães

E tinha uma casa grande, na pradaria, para os ter.

 

(Parecendo que não) a propósito do oitavo aniversário da minha Mia. Está uma senhora. Oito anos.


24/01/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 13

Gravura da criação (inspiração) de uma das minhas crias,
em parceria com outra menina igualmente habilidosa (elaboração), e Gráfica

Deitada junto ao retrato das três gatas da casa, tapando com o corpo a imagem das outras duas. 

12/09/2016

Já sei que vai chover

Uma das gatas está passada. Já andou a voar sobre todas as costas dos sofás, por cima de mesas e móveis, com aquela expressão focinhal de quem viu o diabo que nos carregue, cruzes, canhoto, salvo seja três vezes, lagarto, lagarto.
Agora sei que fui gato noutra encarnação. Também me apetece ficar passadinha cada vez que está para chover. E fugir do diabo, como da cruz.

11/09/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 9

Uma das gatas só adopta bonecos felinos.
Teve, em tempos, um pequeno tigre da marca Nici*, pelo qual se desvelava, brincando, protegendo, exercendo o boneco os papeis de cria, presa, companheiro, brinquedo. Um dia, de seu nome Tigrinho, foi-lhe raptado por uma gata vadia que nos entrou porta adentro em férias, e nunca mais ninguém o viu. Nessa altura, a marca já não vendia tigres, e eu vá de comprar um polvo cor-de-rosa, da mesma marca, achando que do que ela gostava, efectivamente, era do tecido, ou do cheiro dos bonecos. Mas nem pensar que ela lhe ligou alguma importância, até ao dia em que consegui encontrar um leopardo à venda. E agora lá anda ela, com seu Leopardinho na boca, miando e cuidando dele, escondendo-o debaixo das camas, dormindo encostada a ele. 
Ou seja, apenas aceita como cria, presa, companheiro ou brinquedo, bonecos que pertençam à sua "família". Tudo o mais, ignora, com aquela soberba de que só um gato é capaz.



* com o selo NMPPI


22/08/2016

A doce liberdade

De abrir a porta de casa e não sair uma gata disparada escada abaixo, escada acima.
De poder ter janelas abertas sem medo de que uma das bichas saia em voo picado.
De poder andar às arrecuas sem olhar, com a certeza de que não se vai pisar uma cauda e, como brinde, quem sabe, receber uma dentada. (Sim, também utilizo a marcha-atrás sem retrovisor.)
De deixar o fio do carregador ligado à ficha, sem ter a preocupação de que uma felina vai roer a ponta onde passa, precisamente, a corrente. (Sim, sou tão incivilizada quanto isto, e sim, pago balúrdios de luz.)
De deixar a casa às escuras quando se sai à noite, sem achar que as coitadinhas vão andar a marrar com as paredes.
De não ser relevante se faz sol ou se vai chover, porque não vai uma chanfrada desatar a subir às paredes.
De poder usar o secador do cabelo sem que surja um animal assustado com o barulho, porém doido para lutar contra o fio.
De deixar o ferro a arrefecer no chão, sem receio de que haja um focinho/bigodes queimados no minuto seguinte.
De meter a roupa na máquina e poder ir buscar uma peça esquecida, deixando a porta da máquina aberta.
De abrir armários e gavetas à vontade e mantê-los abertos pelo tempo que for preciso, sabendo que não vai aparecer do nada um bicho que se instala num canto e já não sai de lá até acabar a sesta, umas dez horas depois. 
De deixar a sanita com o tampo aberto, sem pensar que, três segundos depois, uma gata se enfia inteira lá dentro. (Sim, a minha casa possui sanita.)

O amargo que foi a primeira viagem sem a Mel, que viajava fora da gateira, à janela, a ver a paisagem, ou a dormir num colo. 
O amargo que ainda é ter toda esta doce liberdade.