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04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

03/10/2018

Carta à minha gata

Querida gata:

Escrevo-te esta carta sabendo que nunca a lerás, pela circunstância de seres analfabeta e, previsivelmente, assim permaneceres até todo o teu sempre. Mas preciso de dizer-te algumas coisas e dá-se, do meu lado, a contingência de não saber falar a tua língua, embora já vá entendendo a tua linguagem. Por esses dois motivos, espero que percebas, pelo menos, uma pequena parte do tanto que tenho para te dizer.
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em  tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".


25/09/2018

Notícias da minha gata

Depois de ter sido operada na passada quinta-feira, a minha Mia voltou para casa com um vestido cor-de-laranja e um cone abat-jour chapéu sem copa, transparente. A vet achou por bem vestir-lhe o tamanho 1, já que Dona Mia é uma gata light e slim, e qualquer outro ficaria grande aos seus abundantes (em ossos e pêlo) 2,880 Kg. 
(Sim, é extremamente magra; e sim, foi esterilizada; e sim, é ansiosa e vomita com alguma frequência; e não, não tem mais nada, a não ser agora caroços nas maminhas que ainda não tirou, e já basta de sustos e medos.)
Deu-se que na primeira noite pós-operatória, a safadinha conseguiu tirar o vestidinho e arrancar o chapéu, tendo ficado com os pensos à mostra e à mão, meio caminho andado para arrancar tudo até à costura, e, quem sabe, a própria também. Repusemos-lhe tudo como antes, ela não voltou a tentar tirar, mas foi ficando cada vez mais inactiva, mais quieta, mais triste. Esteve exactamente quarenta e oito horas sem comer, sem beber (e Lisboa abafava), sem ir à areia. Até que, no sábado passado, de volta à vet, tirou os pensos, mudou de vestido (para o tamanho 0, que a vet costuma vestir a coelhos) para um cor-de-rosa com debrum cinzentinho (também havia azul, mas achei que a minha menina ficava muito mais fashionerer em rosinha), tirou o chapéu e, autorizada a comer guloseimas (Agora vale tudo, disse a vet, embora não tenha permitido chocolate, à minha pergunta. Então, não é tudo), comeu comida mole das latas, bebeu água e já foi à casa-de-banho dela. E a toma do antibiótico passou a ser uma guerra de nervos e garras entre humanos e felina. 
Tudo muito melhor, em suma. Mas quero, em muito breve, voltar a vê-la como ela é e sempre foi: tímida,  nervosa, soberana, sobranceira. Uma rainha com medo do trono. 


21/09/2018

Mihinha

A Mia, minha gata mais velha, foi operada ontem. No sábado demos com um caroço numa maminha, no domingo fez análises e ficou marcada a cirurgia para quatro dias depois. Tirou as maminhas todas de um lado, daqui a quatro ou cinco meses, já com dez anos, tira as do outro. 
A minha Mia nunca teve bom feitio, nunca foi o gato dócil que era a Mel, uma vez mordeu-me a ponto de me deixar uma cicatriz na perna, sempre odiou estranhos, nunca se enroscou nas visitas. Mas também não pediu para ir para a nossa casa, chegou-nos com três semanas, foi alimentada a biberon, tudo por um imperdoável capricho meu. E pode ter sido isso que fez dela desconfiada, insegura, ansiosa. 
(Adoro-a.)
E quebra-se-me o coração vê-la assim, ainda mais sabendo que vai acontecer de novo daqui a meses. 
Não sei como se mede o tamanho do amor que se tem a um animal, mas não deve haver uma régua, sequer uma balança fiel.




05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

05/03/2017

Se não tivesse gatos, tinha cães

E tinha uma casa grande, na pradaria, para os ter.

 

(Parecendo que não) a propósito do oitavo aniversário da minha Mia. Está uma senhora. Oito anos.


24/01/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 13

Gravura da criação (inspiração) de uma das minhas crias,
em parceria com outra menina igualmente habilidosa (elaboração), e Gráfica

Deitada junto ao retrato das três gatas da casa, tapando com o corpo a imagem das outras duas. 

12/09/2016

Já sei que vai chover

Uma das gatas está passada. Já andou a voar sobre todas as costas dos sofás, por cima de mesas e móveis, com aquela expressão focinhal de quem viu o diabo que nos carregue, cruzes, canhoto, salvo seja três vezes, lagarto, lagarto.
Agora sei que fui gato noutra encarnação. Também me apetece ficar passadinha cada vez que está para chover. E fugir do diabo, como da cruz.

11/09/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 9

Uma das gatas só adopta bonecos felinos.
Teve, em tempos, um pequeno tigre da marca Nici*, pelo qual se desvelava, brincando, protegendo, exercendo o boneco os papeis de cria, presa, companheiro, brinquedo. Um dia, de seu nome Tigrinho, foi-lhe raptado por uma gata vadia que nos entrou porta adentro em férias, e nunca mais ninguém o viu. Nessa altura, a marca já não vendia tigres, e eu vá de comprar um polvo cor-de-rosa, da mesma marca, achando que do que ela gostava, efectivamente, era do tecido, ou do cheiro dos bonecos. Mas nem pensar que ela lhe ligou alguma importância, até ao dia em que consegui encontrar um leopardo à venda. E agora lá anda ela, com seu Leopardinho na boca, miando e cuidando dele, escondendo-o debaixo das camas, dormindo encostada a ele. 
Ou seja, apenas aceita como cria, presa, companheiro ou brinquedo, bonecos que pertençam à sua "família". Tudo o mais, ignora, com aquela soberba de que só um gato é capaz.



* com o selo NMPPI


22/08/2016

A doce liberdade

De abrir a porta de casa e não sair uma gata disparada escada abaixo, escada acima.
De poder ter janelas abertas sem medo de que uma das bichas saia em voo picado.
De poder andar às arrecuas sem olhar, com a certeza de que não se vai pisar uma cauda e, como brinde, quem sabe, receber uma dentada. (Sim, também utilizo a marcha-atrás sem retrovisor.)
De deixar o fio do carregador ligado à ficha, sem ter a preocupação de que uma felina vai roer a ponta onde passa, precisamente, a corrente. (Sim, sou tão incivilizada quanto isto, e sim, pago balúrdios de luz.)
De deixar a casa às escuras quando se sai à noite, sem achar que as coitadinhas vão andar a marrar com as paredes.
De não ser relevante se faz sol ou se vai chover, porque não vai uma chanfrada desatar a subir às paredes.
De poder usar o secador do cabelo sem que surja um animal assustado com o barulho, porém doido para lutar contra o fio.
De deixar o ferro a arrefecer no chão, sem receio de que haja um focinho/bigodes queimados no minuto seguinte.
De meter a roupa na máquina e poder ir buscar uma peça esquecida, deixando a porta da máquina aberta.
De abrir armários e gavetas à vontade e mantê-los abertos pelo tempo que for preciso, sabendo que não vai aparecer do nada um bicho que se instala num canto e já não sai de lá até acabar a sesta, umas dez horas depois. 
De deixar a sanita com o tampo aberto, sem pensar que, três segundos depois, uma gata se enfia inteira lá dentro. (Sim, a minha casa possui sanita.)

O amargo que foi a primeira viagem sem a Mel, que viajava fora da gateira, à janela, a ver a paisagem, ou a dormir num colo. 
O amargo que ainda é ter toda esta doce liberdade.

23/03/2016

Enquanto o mundo deambula como um louco, eu falo com os animais

E o meu coração dispara por nada. Não sei como é possível continuar vivo, se recebe os disparos que dispara, em ricochete, mesmo em cheio. Este constante sobressalto não pode fazer-lhe nada bem.
Cheguei a casa e não vi ninguém. Procurei pelas gatas.
(Também vou, muitas vezes, verificar se os passarinhos estão vivos. Obrigo-os a sair do fundo da gaiola, para os ver no poleiro, só para me certificar. Até parece que não sei que, se um deles resolver morrer, até o bebedouro lhe serve de último poiso. Mas fico mais descansada quando, assustados com o meu Ei, passarinhos!, em voz de comando militar — ou de mãe em pânico, que é quase igual —, aparecem, em alvoroço.)
A gata pequena, dormia. A grande, estava deitada em cima da manta dela, mesmo ao lado do aquecimento. Quieta, e de olhos abertos, parados. Fiquei, também eu, diante dela, quieta, e de olhos abertos, perscrutantes.
Olá, Mia.
E ela, nada. Os olhos, sobretudo os olhos, abertos, sem movimento.
(A Mel estava assim, quando a encontrámos, naquela manhã de sábado — deitada, parecia dormir, os olhos abertos, parados, a íris que fora dourada, transfeita negra.)
Estás bem, Mia?
(Será que eu espero que os animais me respondam? Estou bem, deixa-me em paz, ansiosa.)
(É proibido falar com os animais *)
Mia, estás bem?
E a bicha quieta. E muda. E surda.
Mia...
Perdida toda a coragem para verificar se o corpo estava arrefecido — aquela temperatura da Mel... — corri a casa e encontrei o rapaz.
- A Mia...
- O que é que tem?
- Está deitada e muito quieta. E tem os olhos abertos. E eu falei com ela, e ela não me respondeu. E...
O espelho diante de mim mostrava-me toda medo, os lábios descorados.
A gata envelhece todos os dias, assim como eu. Os períodos de descanso dela, a pouco e pouco, prolongam-se e acentuam-se, ao contrário dos meus.

~


* É proibido falar com os animais
(Conto de José Eduardo Agualusa)

João Abel dormia num banco do jardim. Acordava de manhã, muito cedo, e percorria a cidade inteira à procura de emprego. Regressava à noite, cansado, deitava-se no banco e adormecia. No meio do jardim havia uma jaula com macacos e rolinhas. Todas as manhãs João Abel parava em frente à jaula e via a placa. Estava presa em cima da porta e dizia: “É proibido conversar com os animais”.
O rapaz achava aquilo muito estranho. Os animais falam? Não, não falam. Os cães ladram, as vacas mugem, os gatos miam, os passarinhos trinam, gorjeiam, piam ou cantam; as abelhas zumbem, os grilos trilam, os lobos uivam, as rãs coaxam, os porcos grunhem, os cavalos relincham, as hienas gargalham, os leões rugem, os burros zurram, as baleias bufam, as cabras balem e os elefantes (aposto que não sabem) os elefantes bramam. Já os macacos, assobiam. E as rolas? As rolas arrulham. Falar, articular palavras, ordenar as palavras numa frase que tenha sentido, isso nem os papagaios conseguem fazer. Só os Homens.
“É proibido conversar com os animais”. João Abel achava aquilo tão estúpido quanto colocar um aviso no meio do jardim: “É proibido conversar com as magnólias”. Ou com as pedras, as nuvens, as paredes.
Por outro lado, supondo que os bichos na jaula realmente falassem, por que diabo não podiam as pessoas conversar com eles?
Se aquela placa não estivesse ali nunca lhe ocorreria a possibilidade de conversar com os animais. Assim, de todas as vezes que lia a estranha advertência João Abel ficava com vontade de se dirigir às rolas e aos macaquinhos. Porém tinha medo que alguém o visse. Além disso não sabia muito bem o que dizer. Não se lembrava de nenhum assunto que pudesse interessar ao mesmo tempo a rapazes, rolas e macacos.
Uma manhã acordou decidido a esclarecer aquele assunto. A única forma de saber se os animais falavam era falando com eles. Um belo sol de verão levantava-se sobre o jardim. O rapaz encheu-se de coragem:
- Vocês falam? – Perguntou. – Vocês podem falar?!
As rolas ignoraram a pergunta. Continuaram aos pulinhos, de poleiro em poleiro, ou esvoaçando através da jaula. João Abel teve a impressão de que uma delas dissera qualquer coisa – “estou rouca, estou rouca” -, mas não parecia ser com ele. Os macacos, esses, permaneceram estendidos ao sol, preguiçosamente, fazendo cafuné na cabeça uns dos outros.
João Abel repetiu a pergunta, mais alto, e nesse momento sentiu que alguém lhe agarrava os ombros.
- Não sabe ler?
O rapaz voltou-se, assustado, e viu à sua frente um velho de longos cabelos brancos. Antes que tivesse tempo para dizer alguma coisa o velho continuou:
- Eu escrevi esse letreiro.
Não estava zangado. Pelo contrário, parecia feliz.
- A maior parte das pessoas aceita qualquer coisa sem fazer perguntas – explicou o velho.
– Eu queria encontrar alguém que não tivesse medo de contrariar regras estúpidas. Alguém inteligente e curioso, porque a curiosidade é que faz mover o mundo.
O velho não tinha filhos. Era muito rico e não sabia a quem deixar a sua fortuna.
- Não quer trabalhar comigo?
Tudo o que João Abel queria era trabalhar. Aquele encontro mudou a sua vida. Aos domingos, porém, costuma ainda passear pelo jardim. A placa continua presa à gaiola. As pessoas lêem o aviso, encolhem os ombros, algumas riem-se, mas poucas se atrevem a contrariar a proibição. Mesmo que as rolas falem elas nunca irão saber.

11/03/2016

Gata baby suicida


Assim tenho eu uma gata em casa.
Às onze semanas de vida, ainda não sossegou. Vive connosco há seis. Quarenta e dois dias, e a farra continua.
Em vinte e quatro horas,
1. Ainda mal o dia raiara, atirou-se para dentro de uma sanita — quero dizer, atirou-se mesmo, nem sequer se apoiou no rebordo, simplesmente disparou lá para dentro —, e ficou, a quatro patas, todas abertas, assim como uma raia, se as raias tivessem patas, o bandulho mergulhado nas águas sanitárias, não fétidas porque, naquele preciso momento, estava a louça impregnada de detergente, precisamente;
2. Mais pela tardinha, e porque devia estar aborrecida da vida sem esbórnia que lhe é proporcionada, achou que fazer da sala uma arena era a melhor opção para combater o tédio. Julgo que pretendeu recriar uma cena tauromáquica, ou, de forma cristã e literalmente original, um circo romano. Talvez por semelhança cromática, ou vá-se lá perceber por que outro motivo, entendeu que a Mia fazia tranquilamente o papel de toura e ela própria — por que não? —, de forcada. E deu-se a pega de caras. Eu vi (e quase ouvi aquela melodia
) quando a pequena gata entrou porta dentro, ladeou a grande (era o quê? Uma pega de cernelha?), depois rodeou-a (era o quê? A decidir-se pelo papel do rabejador?), e, finalmente, foi-se a ela a todo o gás, frente-a-frente, consumando, desta forma, a pega de caras. Ooooooolé!


É claro que a outra lhe deu um sopapo, só com uma pata, com aquela sobranceria de que só um gato é capaz. E ela ficou deitada, de lado, o rabo num pompom, a rosnar (imagine-se um forcado, acabadinho de levar sopa de corno, encolhido nas areias da arena — pois é, palavras irmãs — assim estava ela);
3. Mais à noitinha, ouço o grito (pensava eu que) inconfundível de um gato a ser pisado. Fui ver. E não era o ovário. A tipa tinha-se enfiado numa prateleira, onde em tempos coube, e não conseguia desenfiar-se.

Também tem coisas muito ternurentas, escatologicamente falando. Não sei se por claustrofobia, ou por exibicionismo, não conseguiu adaptar-se à porta da caixa de areia, pelo que a retirámos. Assim, só não faz as suas necessidades a céu aberto porque a caixa ainda tem tampa, e nós ainda não vivemos ao ar livre. No entanto, trata-se de uma criança. E também de um gato: quando defeca, escava, escava, escava, com uma intensidade tal que, um destes dias, vai parar ao andar de baixo (e lá se me vão os chocolates e o champanhe no Ano Novo que o vizinho oferece). Escava, sobretudo, no canto errado, deixando as caganitas à superfície (fica giro, parecem os relvados de Lisboa, mas com areia. Ou a praia da Cruz Quebrada). Naquelas mesmas 24 horas, Dona Molly conseguiu o pleno, no momento em que fez saltar um cagalhoto porta fora, e depois andou a brincar com ele, qual bolinha, até ser apanhada, vá que não com a boca na botija, mas seguramente com o cocozinho a rolar sob as patitas.
Então não é uma ternura?


05/03/2016

Nesta data querida

Deixei de fumar há vinte anos e a minha gata Mia hoje faz sete anos. A ordem dos factores não é arbitrária, mas também não sei qual é. Cronológica, talvez.
Passei o dia todo a querer comemorar um acontecimento e o outro, mas não comemorei nenhum.
Podia ter fumado um cigarro até queimar, porque eu adorava fumar.

(Ainda hoje nos rimos, ao lembrar uma época em que, tendo comprado um maço de cigarros em Badajoz, e porque cheiravam muito mal, os guardámos para ocasiões em que não houvesse mais nada para fumar em casa. No maço, estava escrito, numa letra muito rebuscada, "De Lujo", mas o L era tão retorcido que parecia um S, e então era ver-nos, fechadas no quarto, à noite e às escondidas, de janela escancarada sobre a cidade, agarradas aos cigarros mal cheirosos, e incrédulas com o "De Sujo". Então, tínhamos épicos diálogos, "Olha lá, diz aqui 'de sujo'. Tu achas que isto é feito com lixo?"; "Deve ser, cheiram tão mal...".)

Podia ter enchido a gata de beijos até ela me arranhar, mas já me doem tantos arranhões.
No entanto, ainda me sobram uma hora e dez minutos para decidir se, efectivamente, opto pela queimadura ou pelo arranhão.

17/02/2016

Dia das minhas gatas

Hoje estava a observar o comportamento hiperactivo da Molly, a tentar lembrar-me se a Mel ou a Mia eram assim, a ver se percebia se aquilo se deve apenas ao facto de ser um bebé, ou se tenho em casa uma pequena terrorista, que a tudo trepa, em todos os cantos se mete, em tudo morde, de tudo se pendura para saltar (e depois fica presa por uma unha negra, metaforicamente falando, ou seja, por uma garra branca). Dizia, então, que noto a tristeza numa das minhas bonecas — para quem a Mel era tudo, a quem a Mel considerava tudo —, pelo facto de a Molly não se assemelhar em nada à Mel — o que, para mim, é um enorme alívio: não as queria parecidas, nem mesmo fisicamente. Procurei uma gata que não fosse preta (mau feitio), preta e branca (já tenho uma), castanha e preta (não sei explicar), branca (muitas vezes, são surdos, e, com uma gata agressiva em casa, não me pareceu boa ideia meter cá uma gata surda) ou amarela (iria sempre ver a Mel). 
~
Lembro-me das discussões, no quarto da maternidade, acerca das semelhanças do bebé com os parentes, É a cara do pai, Parece-se com a mãe, Acho que dá ares à tia, Lembra muito o seu pai — e de a minha titi ter ouvido aquilo tudo, calada, e ter dado a sua opinião, que foi de todas a mais sensata, quem sabe se não por ser ela o elemento mais idoso do grupo: Não se parece com ninguém, parece-se com ela mesma.
~
A Molly é a Molly, não é mais nenhum gato. E eu quero-a assim. Independentemente de poder vir a deixar de ter olhos azuis, de acalmar este ânimo infantil (ou não), de ser mais uma territorial como é a Mia, não a quero diferente. Por mais saudades que tenha da Mel, por mais falta que ela me faça, quero que a Molly não se pareça com nenhuma outra gata — mas que se pareça com ela mesma.



31/12/2015

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 6

Dona Gata Mia, ocupando todos os spots de Mel Maria. Dormindo nos mesmos lugares, fazendo marcações de território (sim, voltou à carga) nos cantos que foram dela.
(E a esquisita sou eu.)



30/12/2015

Blue, so blue, que resoluções para 2016 traças tu? # 4

Quarta resolução para 2016:
A ver se consigo tornar-me uma pessoa mais normal.
~
Hoje é o terceiro dia seguido em que não verto uma lágrima pela minha gata. A tristeza pela morte dela não se me desarranca, mas já não choro de manhã, à tarde e à noite. Eu não sou feita desta massa, de pedra dura e fria. A minha, é uma composição muito mais mole e lisa, que pulsa, mas que também pára, como parado ficou o coração dela, debaixo dos meus polegares, que tentaram, descrédulos da certeza de fim, trazê-la de volta à vida. 
A Mia apareceu com uma lágrima num olho, e a espirrar. Tive tanto medo que me morresse, que liguei à vet,
Sabe, senhora doutora, morreu-nos uma gatinha, de morte súbita, faz mais de três semanas, e agora parece que tudo é motivo para pânico.
Diz a veterinária que é constipação ou alergia.
Lembrei-me que andei a limpar o pó no Natal, para que a casa me cheirasse a Porto e a fadas. Tenho uma gata alérgica ao pó, e isso parece ser um alívio, neste momento. 
Lembrei-me também de um episódio, há muitos anos, em que tive um aquário cheio de guppies, e uma das peixinhas resolveu dar à luz vinte e quatro filhos de uma assentada. É claro que ficou bastante combalida do parto, e teve um pós-parto de agonia. Ora, encontrando-me eu própria em pré-parto — e só dessa forma admito uma explicação para a atitude que tomei —, liguei para a loja de animais (vá que não foi para um veterinário), e relatei, com detalhes, senão sórdidos, pelo menos, escusados, o que se passava com a minha guppie.
Sabe, ela teve agora vinte e quatro bebés, coitadinha. Anda para ali, a nadar pelos cantos, muito quietinha, parece-me que não se encontra lá muito bem, e eu tenho medo que ela morra...

(Pronto, era isto que eu queria corrigir, no fundo.)

07/10/2015

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 5

A minha Mia, tão comum europeu quanto a Mel, todos os dias demarca que as semelhanças entre uma e outra se ficam por aí: são ambas gatas e rafeiras. A Mia tem mais dois anos, mas é mais pequena e magra. E tem um péssimo feitio. É desconfiada, assustadiça e move-se na sombra. A postura dela nunca é de tranquilidade — nem quando dorme —, de alegria ou de desejo de contactos humanos. Também odeia a Mel, para além de todas as coisas e pessoas. Ou melhor, abre uma pequena excepção para pequena Miss Mimi. E é tudo. Qualquer pessoa que frequente cá o lar, tem que se manter afastado da tigra preta, no mínimo, um metro — começa bufando, depois assanhando-se, e é ter oportunidade, que saem unhada ou dentada frescas, certas e prontas. Eu, que nunca tinha sido mordida por um cão, já levei uma dentada da bicha, na perna, que deu direito a uma cicatriz que durou dois anos. 
Às vezes, a agressividade da Mia vem mesmo a propósito, apesar de eu perceber que é ela quem não está bem. Uma vez deu uma unhada no mariconso do administrador do condomínio, andava ele a pavonear a anca na minha sala, a dar palpites sobre a disposição das divisões. Apareceu aqui com a desculpa de acompanhar os rapazes que vinham arranjar a campainha, o empecilho. Um deles percebia de gatos e disse-me aquilo que eu já sabia: que a minha Mia tem pêlo de persa. E tem, parece que pôs uma estola de arminho. Tão bonita. E tão má. Coitadinha.
Fui buscá-la à quinta onde nasceu com três semanas de vida. Foi muito estúpido da minha parte ter insistido em trazê-la da mãe com tão pouco tempo. Nunca mais faço uma coisa assim, prometo. Foi um egoísmo muito grande, que eu vou pagar com uma culpa eterna. A mim, souberam-me bem os primeiros dias dela em casa: dava-lhe biberon de duas em duas horas, ou talvez menos, noite incluída. Parecia que tinha tido um bebé. Depois deitava-a numa cama pequenina, de lado (que deve ser a pior posição para se deitar um gato recém-nascido, mas era a prática com crianças e o terror da morte súbita que me faziam fazer aquilo), e ela ficava, tranquila e consolada. 


Tem seis anos, já foi esterilizada há quatro anos e continua a fazer demarcações de território que, neste momento, são diárias. Uma vez, a funcionária da vet disse-me que a maior parte das pessoas que ela conhece, com um gato assim em casa, já o tinham posto à estrada.
A Mia sofre de ansiedade. Para além de se tornar incómoda com as demarcações, de ser agressiva com tudo o que vê à frente, de ter ataques de loucura, a correr por cima dos móveis até que lhe passa o trotil, pouco come, pouco bebe, pouco vai à areia. Sente-se mal na sua pele — no seu pêlo lindo — e no seu ambiente.
Há dias em que eu a entendo tão bem. Só não tenho uma gola de arminho, nem a mim me é permitido correr em cima dos móveis. 



30/06/2015

Na cabeça das minhas gatas

Mia:
Odeio tudo.

Mel: 
Fiambre
Frango
Levem-me lá fora
Por que é que não me dão fiambre e frango, lá fora?
Lá vêm eles pegar-me ao colo
Eh, pá, agora estou de barriga para cima. Que bom. É melhor fingir que não gosto
Arranhar, arranhar
Agora estou cansada
Agora vou para o chão
Tenho sono. Vou dormir
Primeiro, vou limpar a minha pata
Olha a Mia. Está cada vez mais magra. Que medo. Vou-me esconder. Fogo, não caibo debaixo da cómoda. Tenho que comer menos
Olha, vem aí mais alguém. Vou segui-los. Já me toparam. Vou comer da taça, para disfarçar
Comer, comer, comer
Vou dormir
Dormir

[post escrito a quatro mãos, a meias com uma menina, sem parcerias nem subsídios cá desses]


02/07/2014

Tenho uma gata que faz chichi

Uma das minhas gatas fazia marcação de território e punha-me aquele líquido amarelo com cheiro a cio por todos os lados. Habituei-me a lavar tudo na máquina, mesmo o que não é comum lavar-se: malas e mochilas, sapatos, e, uma vez, até ponderei meter lá a árvore de Natal. A bicha foi esterilizada, fui avisada de que as marcações podiam só passar dali a meses e esperei. Melhorou, mas não passou. Já foi operada há dois anos, mas neste momento está numa crise qualquer que está péssima. Não se dá com a outra gata e marca os locais por onde a outra anda. Diz a psicologia do gato que não se deve ralhar nem castigar, senão o bicho fica mais ansioso e piora a situação. De qualquer maneira, eu não sou de ralhar nem de bater a baratas, vou lá agora desmimar a minha bichana. Mas o problema do cheiro do cio e da urina é que não sai com a lavagem. Fica lá sempre qualquer coisa. A menos que encontremos a solução. Agora aprendam, que eu não duro sempre: vinagre.

Um copo cheio de vinagre no depósito da máquina de lavar - mesmo que só vá a lavar uma peça ou duas. E não, não fica a cheirar a vinagre, o que, convenhamos, a ser verdade sempre era melhor do que aquele cheiro do cio. Outra dica: nunca, por nunca, usem detergentes de limpeza com amoníaco (tipo Sonasol verde). Só pioram, activando o cheiro.

Passei, assim, a ser uma fiel consumidora de frascos de vinagre, qual bêbeda pobre do bairro.