22/02/2026

Ela fala(va?) tanto # 34

Olá! Feliz Ano Novo. Ai, já cá estive depois disso? Nem fazia ideia. Ontem recebi uma notificação do comando desta coisa, a avisar que não usava a conta há mais de três meses, e que, por conseguinte ma iam apagar. Também não gostei. Vim logo a correr — e, aparentemente, levei um dia a chegar — pôr um poste, antes que me varressem onze ou doze anos de trabalho árdua e infinitamente intelectual. 

Que é feito de mim? O costume. Novidades: tenho a que fala tanto de baixa há cinco meses, portanto, tenho que partir do pressuposto de que ela, de facto, esteve doente. Isto, por comparação com a minha pessoa humana, que já viu o agulhão da anestesia tantas vezes e tão sem conta, que nem vos conto. Operaram-lhe as tripas, mas acho que não fez delas coração, porque a primeira atitude que tomou foi, exactamente, abandonar a mão que lhe deu de comer. Nada oncológico, tenham lá calma. Pela descrição dela, uma tripa meteu-se dentro da outra e depois, ao invés de resultar uma tripinha desta promiscuidade, fez um nó lá dentro que, afinal, era uma hérnia. Eu não sei nem a o que é que ela foi operada, sei apenas que andou ali pela zona do cocó. [Note to self: se, na próxima encarnação, calhares em médica, não escolhas gastroenterologia. Recuso-me a aceitar o pivete que vai na sala de cirurgia a cada doente que lá mete o rabo.] Lamento a sorte dela, só que nunca vi ninguém recuperar de uma cirurgia às miudezas durante cinco meses. Tem-me brindado com atestados médicos vários, todos assinados pela mesma médica, uma senhora de idade já reformada, que deve ter sido muito boa aluna a ditados na escola primária: vêm todos com a advertência de que não pode fazer esforços (como se ela andasse a subir a escadotes e a limpar janelas do lado de fora, sentada nos parapeitos.) Estou a ponderar, quando e se ela voltar, sentá-la no sofá da sala, e desatar a mudar camas, a estender roupa, a recolher, a passar a ferro, e ela sem fazer um único esforço, em obediência à Dra. Ditados. Lembro-me de, se antes de tudo isto, ela sofria dos pulsos, e fazia pouco e mal, então agora com as tripas viradas do avesso, piorou a minha situação. A ver se algum dia lhe doeu a língua.

Então, o que é que tem acontecido? Linda faz trabalho de Fala Tanto, com excepções (passar lençóis de cama e camisas de cônjuge, vai tudo para a engomadoria, senão qualquer dia zurrava, arre burra) e ainda o de Linda. Exerço tarefas que sempre odiei, como a de tirar a louça da máquina (só de me lembrar do cagaçal, arrepio a espinha toda) e outras que sempre amei (passar a ferro é tão relaxante, que só chamo a engomadoria porque também tenho os meus limites). Outro dia parti quatro pyrexes* de uma só vez, que foi um alívio. Dois eram mesmo Pyrex*, dos grandes, da carne e do peixe (passamos a comer só lasanha no lar...?) e os outro dois eram de porcelana. Caíram os quatro em cima do lava-louças, uma das crianças achou que eu falecera porque fiquei calada, mas não faleci, fiquei foi paralisada com o frete de ter que limpar aquela m. toda. Não me ocorreu fazer os puzzles para os reaver e rever, pois os cacos eram tantos, que era capaz de inventar uma nova forma de arte e já chegam as que existem.

Adquiri um aspirador novo, no qual Fala Tanto não poderá pôr as unhas de gel (sim), caso volte, pois é pessoa dotada da arte de dar cabo como mais ninguém, para além de falar. O meu aspirador, do qual não vou dizer a marca, porque NMPPI, mas é o Ferrari* dos aspiradores. Aquilo, uma pessoa anda com ele de trás para a frente, e o lixo desaparece todo sob a pá, sem ser preciso fio, ficha, tomada, sacos, nada! Só falta mastigar o lixo e cuspir um bolo brigadeiro. 

Tenho, pelo menos, dois armários que me obrigam a fazer uma ginástica incrível, incredível, inacreditável, para meter a louça toda lá dentro. Mas, no final, consigo e sinto-me bastante mais tonificada e inteligente. No entanto, se o problema é o excesso, um destes dias parto, não toda, mas metade da loiça, enquanto grito e esperneio o que me aborrece na vida, e resolvo o problema. 

Vou também ter que impor novas regras no lar, de entre as quais: 1. Não quero ouvir um pio (e não "piu" como para aí se diz) durante todo o expediente. Acho que é a única regra. Não sei como é que isso vai correr... Claro que mal, pois ela vai amuar, mas ao menos amua calada

Parece que este discurso é um bocado facho. Mas então, vamos lá a ver: ela opera as molezas da barriga e está, pelo menos, cinco meses de baixa. Não pode fazer esforços, quando a profissão que exerce obriga a alguns — e tudo depende do conceito de "esforço". Eu, por exemplo, considero um esforço quase tudo. Nesse caso, quem é que pode fazer esforços no lar? Hum? Linda, claro, a pessoa mais saudável, musculada e com as forças puxadas que existe naquele espaço.

Está na minha casa há vinte e oito anos. 


* NMPPI