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22/10/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 16

Que me dou ao trabalho de consultar o mapa das lojas nos shoppings desta vida, por me considerar incapaz de decorar o lugar de todas as lojas de todas as grandes superfícies, e, ainda assim, me desoriento?


Horrível. O coisinho diz "Você está aqui", e não consigo perceber onde estou (menos ainda quem sou eu, para onde vou, o que faço aqui, etecetera). Olho e reolho, miro e remiro os desenhos das lojas que me envolvem, estudo discreta, porém minuciosamente, a área envolvente (tanto no desenho como na realidade, aparentemente virtual, em que me encontro), e não atino onde exactamente estou eu. Suponhamos, e isto sem quaisquer intenções publicitárias, mas a mero título de exemplo, que vejo a Zara à esquerda na realidade, mas ela está à minha direita no mapa. Já experimentei pôr-me de costas para ele, precisamente para "colocar" a loja mais próxima do lado que acho que é o correcto, mas é que nem assim. Para já, deixei de ver o croquis, e só isso já me baralhou um nico. Logo a seguir, a loja "real" continuou no mesmo lugar, a do desenho também, e eu toda torta, perdendo a lateralidade, o ponto de referência, a direcção e as estribeiras. Já equacionei socorrer-me da aplicação do Google maps, mas tenho um medo que me pelo daquela senhora que começa quase todos os textos por "Seguir para oeste". Ora, como não possuo uma bússola incorporada, não sei para que lado é oeste, e, mesmo que me digam que a loja fica a jusante, só quero chegar à porra da perfumaria, que, eventualmente, estará a montante. Então, acho que só pode ser para trás, embora o boneco diga que é para a frente. Lá sigo o meu destino, que é perder-me, lá constato que me enganei no rumo que tomei, ou alguém fez de propósito para me enganar, lá volto para trás, ou para a frente, tudo depende do ponto de vista/de partida/cardeal, e aquela que procurava encontra-se exactamente no extremo oposto ao que dizia o mapa, ou me dizia a minha cabeça, ou não dizia em lado nenhum. Isto se, entretanto, enquanto eu percorria o corredor todo, não se tiver mudado de armas e bagagens para o outro lado. Ou simplesmente desaparecido, como outro dia com a Partyland. Puf, eclipse total do mapa. E do radar.

27/08/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 15

Que não consigo desocupar a minha parcela da unidade hoteleira sem antes fazer uma ronda semi-obsessive-compulsive-cleaner, passando jacto no duche, retirando cabelos do lavatório, puxando várias vezes o autoclismo, dobrando toalhas de rosto, alinhando toalhas de banho, esticando a cama, retirando migalhas da mesa, do balcão da kitchenette, fechando o saco do lixo, compondo objectos móveis - o comando da televisão ao lado dela; o do ar condicionado perto dele; os candeeiros em simetria -, retirando nódoas, malhas e marcas de dedadas (serei apenas uma criminosa perfeita, pergunto-me e -vos?), e ainda ficando p. da minha vida porque não há por ali uma vassoura, uma esfregona, um spray ambientador, um esfregão, baldes e detergentes?
É nada um TOC, eu é que não quero que alguém vá a seguir limpar e pense assim: "Porca, badalhoca, suja, deslavada." Porque seria o que eu pensaria, no lugar desse alguém? Porque "nas costas dos outros vejo as minhas"? Porque sim?

11/03/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 14

que avisto uma mota da Ubereats e acho aquele conjunto homem-motocicleta tão parecido com o do senhor polícia motorizado, que me ponho logo a conduzir como manda o Código? Oh, pá, não sei se é o coletinho verde, se é o capacete, se é tudo junto, sei que me temo. Aquilo assim, num relance, à laia de soslaio, é um ai-Jesus, um ar que me dá, um ai-que-susto. Não sei explicar o temor reverencial que me assola, mas sei que me ponho logo no trilho, calhando haver um do Eléctrico, e é nesse mesmo que me alinho. 



Na verdade, o mesmo se me passava aqui há uns anos não muito largos, com aquela maravilha inventada por alguma cabeça cheia de nem quero imaginar ideias luminosas, que dava pelo nome de Motocão, tinha um cabo de aspirador incorporado e tresandava a estrume de vaca. Pois, eu cruzava-me com um condutor daquilo, e, muito antes de o fedor me dominar até às têmporas, já eu me punha em sentido, cheia de respeito pelo agente. Que, afinal, era um desgraçado, incompreendido, provavelmente mal pago, e com um emprego de merda. Antes outra coisa. Essa função, tão benemérita — e não estou a usar da ironia — desapareceu, sem deixar rasto (nem mesmo olfactivo), pese embora os animais não tenham deixado de defecar a calçada, com toda a pompa e circunstância que lhes apraz assim que a tripa grita por alívio.


Quero explorar o assunto. 
Será que, noutra encarnação, fui gatuna e andei reclusa por essas penitenciárias, pagando penitências, qual pagadora de promessas, mas em bom?
Será que sou uma irreverente irreprimível, que se alterca toda quando visiona um senhor autoridade?
Será que, ainda neste sentido, a autoridade me provoca medos encapsulados?
(O que é um medo encapsulado?)
(Não sei, inventei agora.)
Será que há em mim uma agente frustrada?
Quem sou eu?
O que faço aqui?
Para onde vou?


01/03/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 13

que, quando outro condutor me bloqueia o carro com o seu, e olho à volta (sem esperança), depois dou uma apitadela simpática (elas existem, são assim duas seguidinhas, pi-pi), espero mais um tempinho (uns quê?, largos quatro segundos, ou assim), apito já menos simpaticamente (piiii-piiiii), espero mais um bocado (desta vez, dou-lhes bastante, quase três segundos que custam a passar como os dos agachamentos com a barra nos ombros, com pesos desumanos), e é que nada de me aparecer o bloqueador da minha vida, 
[congemino manobras impossíveis, imagino que vou ficar ali para sempre e um dia vão encontrar-me putrefeita ao volante (mesmo que esteja em esqueleto, por favor, alguém me penteie), elaboro mentalmente discursos imaculadamente ofensivos para o momento do aparecimento do meliante, suo um bocadinho das mãos e das pálpebras, pondero chamar o reboque, a polícia de intervenção militar, a brigada dos bons costumes, os bombeiros, os rapazes da obra (há sempre uma obra por perto) que me levantem o prevaricador no ar, a minha família toda, chamo pela minha mãe, brado aos céus por uma ajudinha nesta hora de aflição,]
e isto, ao cabo de menos de nada, tudo me dá para meter as duas mãos na buzina e já de lá não as tirar até ensurdecer a rua, o bairro, a cidade, até alguém chamar a ambulância do asilo de doidos ou até, olha o disparate, aparecer o dono da m. do carro que está a atravancar o meu e a minha vida toda desde que nasci, no século passado?
...
E eis que me surge no horizonte, negro e nervoso, uma de duas possibilidades:
1. É homem: corre para o carro, faz parkour, vem de braços no ar, a pedir desculpas a todos os santinhos e, já agora, a mim. Sorri, desdobra-se em penitências, só lhe falta ir buscar o cilício, cortar os pulsos ou dar o corpo às balas, quer dizer, às rodas, debaixo do meu. Geralmente, mete-se no dele, sai disparado como uma bala e desfaz-se em fumo;
2. É mulher: vem para o carro com a paz e a calma de uma procissão, talvez traga cristais nos bolsos, ou nem quero imaginar aonde. De caminho, só lhe falta fazer um bocadinho de moonwalk, para atrasar mais a coisa e exponenciar a minha irritação. Não pratica o contacto visual comigo, sequer faz um breve gesto com a manita (não, não é esse; esse, deveria eu fazer) como sinal de desculpas. Adivinho-lhe mesmo um semblante contrariado, toda a sua linguagem corporal grita "Mal educada!". Mete o rabo entre as pernas e mete-se toda, rabo incluído, dentro do carro. Faz uma micro-manobra, para não me facilitar a saída e me provar por A + B + C + D até Z que eu sou uma má condutora e uma azelha. Depois de me obrigar a chegar à frente e atrás cerca de dez vezes, ainda me fica com o lugar. E oh, efectivamente, a malcriada sou eu.


16/02/2018

Por uma vez na vida, sei que não sou só eu

que sofro de tiques, picadas e comichos vários aquando da pintura das unhas das mãos. (Há que especificar, pois que o mesmo fenómeno não ocorre quando se passa verniz nas unhas dos pés.)
Vão por mim que, apesar de não ter experimentado, garanto esta veracidade: até podemos fornecer  previamente uma boa dose de coça-coça ao nariz, até podemos esfregar o couro cabeludo com o esfregão de palha de aço, até podemos esgatanhar os globos oculares até sangrar, que, se tiver que ser, vai acontecer:
1. Uma narina que pica. As mais arrojadas, chegam mesmo a espirrar, retorcem a cabeça na direcção contrária à das mãos e, gloriosas, assim evitam despejar o jacto nas unhas, mas também conseguem bater com elas num lugar qualquer que garanta igualmente a esmerdança do momento artístico;
2. Uma leve comichão na cabeça. Que depois passa a picadela. Logo a seguir, parece um insecto. Depois, um enxame deles. Finalmente, levamos as pontas de dois dedos à cabeça, coçamos ao de leve, a comichão agrava-se gravemente, raspamos com os nós dos dedos, e, nesse cuidado todo, esmerdamos três unhas contra a palma da mão;
3. Um cabelo que se atravessa num olho. Aliás, os olhos são férteis em desculpas para estragar a manicure. Também existem as modalidades caiu-me-uma-pestana/sobrancelha-no-olho, tenho-um-cisco-no-olho, comovi-me. Seja o que for que seja, um olho agredido por objecto invisível, ao ponto de ameaçar saltar da órbita, é urgência que nos leva a manita de unha fresca até lá. O normal e natural, por ser tão frequente como cem por cento das vezes, é a mão voltar de lá com um cabelo atravessado na unha. Ou dois. Ou em duas unhas. E a consequente defecança do processo todo;
4. Um dia de bad nails, que os há, assim como os há de bad hair. Porque está húmido lá fora, e as unhas não secam, nem que as metas no micro-ondas; porque o verniz está velho, e até podes esperar uma semana com as mãos no ar, que a primeira vez que as usares, nem que seja para fazer um gesto largo sem tocar em lado nenhum, vão-te aparecer vestígios de um fantasma, que é o Fantasma das Unhas; porque sim, porque não era para ser e tu teimaste em pintar as unhas logo hoje, que os chakras não estão alinhados; 
5. Um telemóvel que toca. Tal não devia sequer ser um factor ponderável diante da importância que é deixar secar o verniz até não haver risco de ficar riscado. Porém, nestas alturas, o telemóvel de uma dama é uma sucursal do 112: liga o filho que está doente, liga o cliente mais importante (que ainda não pagou o último trabalho), liga a sogra, liga o bombeiro, liga o gato que ainda está preso no telhado. É atender, minha gente. Já sabemos que vamos ficar com o verniz colado ao aparelho, teremos que recomeçar tudo desde o início dos primórdios da pré-História, rangeremos os dentes mais um bocadinho, e, afinal, a p. da chamada era só para te dizer que "está tudo bem". Está tudo bem??? 
OK, respira, hiperventila para o saco de papel, corta as unhas curtas, ou melhor, rói-as até ao sabugo, deita fora a caixinha da manicure e torna-te hippie. Caga nisso. E também naquilo. Caga na mata. A vida é curta como as tuas unhas deviam ser, e há coisas verdadeiramente mais importantes. Tipo as flores e a Natureza. E cenas.

14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

22/01/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 12

Que vejo um saco de papelão, cheio de coisas lá dentro, despejado no meio da estrada (sim, pois, ainda agora...), um saco do Mc com seu respectivo lixo, e, ao longe, no relance da corrida do carro, me parece um cão? Até completo o filme: um pequeno labrador bege, enrolado e morto, apenas uma criança? E sofro ali uns instantes. 
Que vejo um trapo preto caído na berma e me parece um gatinho pequenino, enrolado e morto, também ele apenas uma criança? E dá-me um frio na barriga, uma pancada na cabeça.
Que vejo um trapo, um desperdício daqueles da mecânica automóvel, à beira-passeio, e me parece um cão, um gato, não sei como não uma ovelha, ou 'ma velha, mas não, pois talvez seja pequeno demais para isso? E é o susto, o calafrio.
Que vejo um saco de plástico com um conteúdo qualquer (lixo orgânico? Roupa suja? Um tricot inacabado? Uma feze?) atirado para junto de um vidrão (expliquez-moi cette bêtise), e acho logo que pode estar um animal morto lá dentro? E viro a cara, para evitar prolongar o nefando momento.
Que vejo qualquer molho de penas amontoadas num recanto da sarjeta, e tento adivinhar se foi em tempos idos, porém recentes, o canário, o periquito, o bico-de-lacre, o papagaio de alguém, evadido das grades e correntes que o detinham, e cuja breve liberdade se transformou num voo picado com aterragem esmagadoramente infeliz? E "ai-não-quero-olhar!".
Que vejo um pombo assassinado asfalto afora, ainda uma asa no ar, tamanha foi a traulitada, e, ainda assim, também me condoo?
Que vejo um rato esmagado [percebe-se que é um rato derivados da cauda, que fica sempre inteiriça] algures no passeio (esta cidade é uma verdadeira metrópole, há um nico de tudo) e penso "ai-coi-ta-di-nho"?
Que vejo, vá, qualquer manchinha na estrada, e já acho que vou assistir a uma imagem traumática, que me perdurará por tempos infindos até me esquecer de mim e de tudo, mas daquilo não?

[Lisboa é uma cidade tão suja. Isto sim, dói-me dizer, mas é tão verdade.]

06/01/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 11

Hoje venho insurgir-me.
Cada vez que vou a um cinema NOS, para além de ser brindada com três ou quatro trailers — pequena tortura que chega a ser boa, pois fico com mais alguns filmes na lista "obrigatório" ou então na lista "não esquecer de não ver" —, mas aos quais não consigo fugir, uma vez que tenho vergonha (respeito ao próximo) e medo (posso ter a certeza que o chão que está à minha frente é plano, que ela é anulada por aquela outra certeza de que no próximo passo vou tropeçar/ meter o pé em falso num degrau/ cair num fosso estreito e fundo até ao centro da Terra, qual Alice, "Adeus, Dinah!") de entrar às escuras, sou igualmente agraciada com esta coisa:


Eu tenho medo. 
Primeiros: não percebo por que é que elevam o som a níveis de decibéis capazes de estoirar com os miolos da pobre assistência. 
Segundos: não percebo por que é que me tratam por tu no anúncio, se não andámos juntos na escola, não temos a mesma idade, nem somos todos bloggers. Enfim, se não nos conhecemos de lado nenhum.
Terceiros, quartos, quintos e tudo o resto: porquê o rugir de leão do dinossauro, que come e morde tudo? E as ordens, imperativas, aos gritos, de comportamentos elementares? "Desliga o telemóvel e mantém o silêncio!"; "É proibido filmar e fotografar!"; "Mantém a sala limpa!"; "Respeita as normas dos cinemas NOS!" [ou não antes as normas básicas de civismo?]; "Podes comprar o teu bilhete nos kiosks (?), na app.m.ticket (?), em cinemas.nos.pt (...), ou na tua box (?)".
[Por acaso, esta versão que encontrei no youtube ainda acrescenta "I'll be back!". Vá que nunca me apercebi disto ao vivo, lá na sala. Pois, porque ainda não estava bem clara a ameaça exterminatória].
Depois sai um helicóptero (militar?) a voar, o homem grita-me "Bom filme!", e eu fico capaz de começar a chorar alto, a chamar pela minha mãe, "Mamã, tenho medo, quero ir para casa!", mas incapaz de prestar atenção aos primeiros cinco minutos do filme, tal é a aceleração que me leva o músculo. A sério.

30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


19/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 9

Que cada chamada para a NOS requer uma preparação mental a níveis olímpicos, porque acontecem várias coisas, eventualmente tudo, menos um telefonema?
1. Ligo e aguardo; atende-me uma gravação, feminina voz animada, que me dá as boas vindas à NOS, e me apresenta diversas opções, de entre as quais "falar com um assistente", que é a que escolho, e aguardo; a gaiata logo me avisa que "o atendimento por um assistente terá um custo até ao máximo de um euro, dependente do seu tarifário (?)", e aguardo; A Voz avisa-me que [para além de pagar até ao máximo de um euro, dependente do meu tarifário], a minha chamada vai ser gravada [suspiro de alívio, porque já se sabe, antes escutada do que ignorada] e aguardo;
2. Metem-me Freddie Mercury aos brados pelos ouvidos adentro. Diz que So don't stop me now | 'Cause I'm having a good time, having a good time | I'm a shooting star leaping through the sky, e aguardo;

   

metem-mo em repeat, só aquele nico da canção, danço um tico, morre-me o Teco de pancada, e aguardo; desconheço qual o critério quanto à escolha da música — embora a adore —, quanto à passagem [minutos 00:00:30 a 00:00:48, porquê aqueles 18?], quanto ao repeat da cena, e aguardo; é uma pastilha/injecção/tratamento de choque que se repete, em repeat, um mínimo de dez vezes [enquanto o assistente, do lado de lá, acaba o café/cigarro/serradura na colega, e A Voz me avisa que estou à espera há 55 segundos e me dispõe a possibilidade de desligar, ou ligar 8 e aguardar — hahaha — que me confirmem o número (?)], só não corto os pulsos porque o assistente não faz uma aparição presencial, e aguardo;
3. Sou atendida pelo assistente, que se identifica, mas que, em cem por cento das vezes que falamos, tem o som do telefone tão baixo, ou fala tão baixo que pondero se não estará a comunicar-se comigo a partir das catacumbas lá do call center; identifica-se, por isso, com um nome inaudível, invariavelmente David (?), Paulo (?), João (?) + Simões (?), Matos (?), Silva (?), ou algo rápida e facilmente esquecível, mas que, de toda a maneira, não ouço; identifico-me igualmente e ele reclama que não me ouve, solicitando-me de forma enfática/ impaciente/ imperativa que fale mais alto; digo-lhe ao que vou e começa por me perguntar se já li a minha factura; mau; ponho-o a explicar-me os tintins todos, um por um; ouço cerca de 50% daquilo que sussurra, apesar de me ter enfiado numa câmara de silêncio/ sala de emissão de rádio/ bidon fechado à chave;
4. Pergunta-me em que mais pode ser útil [suspiro de alívio porque a tortura está no fim]; respondo que em mais nada, porque já foi muito inútil.



29/09/2017

All my loving

Não sei se foi ontem ou se foi anteontem, que ouvi na rádio, mas também não sei em qual (acho que foi na Radar, que ocupa 90% do tempo que eu ouço rádio), em que perguntaram não sei a quem importante — mas lá está: não fixo nada do principal, mas retenho o acessório —, qual a música dos Beatles preferida dele. Ainda suspendi a respiração enquanto a resposta não chegava, porque — com os outros, não sei, comigo é assim — achamos sempre que hélas!, há uma alma gémea nossa algures, em cada uma das nossas pequenas opções, mas rapidamente veio a infirmação de que, desta vez, pelo menos, não era aquele Bobby (?) quem tinha um gosto igual ao meu, mas também a confirmação de que gostos não se discutem, nem o musical, por conseguinte.
Ele escolheu She loves you
Eu escolhi, há muitos anos, All my loving.


Então e tu?

25/09/2017

Post interdito a machos # 4


E aquele momento em que, no recesso do lar, ao abrigo da assoalhada dormitória, no silêncio de vagos pensamentos matinais, ao vestirmos umas calças que ainda não havíamos experimentado desde que o sol se dispôs - e ele há pressa em fazê-lo antes que ele se ponha de vez e vá para outras paragens dar um ar da sua graça e apenas volte em força lá para o ano de 2018 -, elas vestem, elas sobem, elas abotoam, elas apertam, e nos vem a tentação de meter a cabeça de fora do quarto e gritar sem pudor: "Olhe, por favor, traga-me o número acima!"?

[Pronto, já sei que sou só eu.]

20/09/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 8

que, quando vou a algum lado em que pressuponho que vou demorar, mas não posso, mas não quero, mas não devo, mas não nada, antes de sair, não faço chichi, bebo uma boa garrafada de água para encher ainda mais a bexiga e calço uns sapatos apertados?
Errr...
É para ir e vir mais depressa.

(Se virem uma senhora de idade aos pulinhos e a fazer uma estranha dança na rua, já sabem.)

Está bem, já percebi que, desta vez, sou mesmo só eu. 
Passo.

19/08/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 7

a quem foi pedido, como "recordação das tuas férias, que é sempre o que eu peço a toda a gente: um íman para o meu frigorífico", que fui até criteriosa e escolhi, de entre dezenas, um alusivo, alegórico, e o menos parolo possível, mas que respeitasse a vieille tendance da pessoa em questão, que lho entreguei num minúsculo embrulhinho, pode-se dizer que feliz da vida (o pacote e eu própria), que já estranhei o facto de ela não se lembrar do pedido e também de não se surpreender com a efectiva resposta a ele [serei assim tão (agradavelmente) previsível?], que estive com ela por bem uma hora e meia, e, durante esse tempo, sequer mencionou a oferta, quanto mais desembrulhá-la, e isso me entristeceu um nico?

E agora, que passaram três dias sobre o "assunto", que ela podia ter mandado mensagem e não o fez, cada vez que penso nisso, fico mais um nico chateada, contrariada, surpreendida?
E que, qual agraciada-laureada, já preparei o discurso de não-agradecimento? "Chegaste a abrir a lembrança que te trouxe de férias? É que, como não disseste nada, pensei que nem tinhas desembrulhado".
Antes lacónica e cabra do que a parva de serviço, lá diz o povo. Ai, não diz? Digo eu, então. E eu sou O povo, como o outro era l'État. Pelo menos, cá no meu perímetro (cefálico). C'est moi.


06/08/2017

Estou em vias de deixar de ser amiga dos animais

Sou atacada por piolhos do calor, quando estou na praia. Penso que é do meu protector solar, factor 50 - que eu sou morena, mas não sou parva e o tempo corre contra mim, e não quero esbarrar-me de frente com ele, e os UVA e os UVB também existem, independentemente do tom da pele, e era haver UVC e UVD, ou todo o alfabeto até UVZ, e eu também levava com eles -, mas estou acompanhada por quem usa o mesmo creme, e os bichos estão nem aí para outra que não eu; penso que é da cor do fato de banho, mas não estou de amarelo, nem de branco - que, conforme cientificamente comprovado por tentativa-erro, são as cores que mais atraem bicharada -, e, mesmo quando estou de vermelho - cor que os repele, facto que comprovei pelo mesmo método que concluiu aquele do branco e do amarelo -, não me largam o pé (nem a perna, nem a outra perna, nem milímetro de pele meu), mas os outros podem enrolar-se num lençol de cama, que os piolhos nem os vêem; penso que é por estar molhada e os animais gostarem de exponenciar o seu colesterol através da ingestão de sal, mas, lá está, só me dão dentadas a mim?; penso que sou uma comichosa e só eu sinto as mordeduras, hipótese mais plausível das apresentadas até ao momento, pois está tudo na santa paz, a ler ou a conversar, enquanto eu me açoito e assassino carinhosamente micro-pontos negros; penso, finalmente, no meu sangue raro, sem rhesus, e ah!, faz-se-me luz: sou o único elemento, desta enorme família que construí, que tem RH negativo, e parece que a piolhada gosta é desse. Isso, ou então sou maluca, e aqueles pontinhos pretos que me trincam as peles de dez em dez segundos são só fruto da minha imaginação torturada pelo sol. 

19/07/2017

Passei as últimas vinte e quatro horas da minha vida à sombra de uma bananeira, a digitar números

Estou à beira de um esgotamento nervoso.
[Há hipérboles, metáforas e mentiras deslavadas no título e nesta última frase, dramática aproximação da realidade.]
Já copiei a agenda toda para meu novo telemóvel, que se mantém mouro. Encontrei muitas pessoas, outras perdi acho que espero que para sempre. 
Não sei se também é assim com vosotros, mas, a mim, a purga triagem dá-me para:
1. Banir uns quantos contactos, por haver até cerca de 10% de hipóteses de voltarmos a falar algum dia na vida deles e ou minha. E, convenhamos, 10% não valem o esforço de estar ali a passar à pata, feita pata, números com 9 dígitos, todos desconexos uns dos outros, com a única garantia (salva uma honrosa excepção) de começarem por 9;
2. Copiar uns quantos contactos, apesar de haver 0,5% de hipóteses de voltarmos a falar algum dia na vida deles e ou minha. Servem estes para prevenir que, caso lhes dê a travadinha de me ligarem, eu estar alerta e:
         a) Não atender;
       b) Esperar cinco, seis, sete toques, consoante o grau de má vontade que tenho em estabelecer qualquer tipo de contacto, seja a que pretexto for. (Ex-chefe, por exemplo.) Terei, então, tempo para:
                I - Atender;
                II - Não atender;
                III - A pessoa desmelgar.
3. Não copiar duas boas dezenas de contactos, inúteis (Apoio TMN? Praia Kontiki? Rui dos toldos? SOS Náufragos?) ou dispensáveis: aquelas pessoas com quem há 0,5% de hipóteses de voltar a falar algum dia na vida deles e ou minha, mas que, se me ligarem, tranquilamente:
          a) Atendo;
          b) Simulo uma gravação automática;
          c) Faço voz de ladrão e digo que roubei o telemóvel a uma mulher belíssima.
4. Copiar milhares de contactos, de pessoas que me são queridas e com as quais falo todos os dias, mas que, e apesar disso, não sei os seus números de cor, e, ainda que soubesse, copiaria na mesma, porque, como todas as pessoas com perturbações desta ordem, julgo que incluí-las na minha agenda é uma grande homenagem que lhes faço, com o contraponto de uma grande honra que elas, mesmo sem saber, sentem por dela constar.

(Confuso? Experimentem copiar centenas de números em cerca de umas horas e depois falamos.)

14/07/2017

Também sou só eu?

Que, cada vez que vejo este cartaz, num relance leio pela Nossa Senhora?

Escuso de dizer que fui eu que coloquei o halo?
Não sei se é do lettering cinzento, se é da pressa com que leio, se é do facto de terem posto o pronome possessivo com maiúsculas, se é analfabetismo puro da minha parte, ou se a agência sabe muito bem o que está a fazer.
(A candidata do PSD até fica um bocadinho diabólica, ali ao lado, a rir-se toda.)

13/07/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 6

1. Que fico a contar em decrescente, os segundos de 5-4-3-2-1, para "pular anúncio", no Youtube, já com o cursor em cima do botão, para zás, em milissegundos, clicar, pulando?

2. Que não sei de quem se trata Eva Ekiblad e por que diachos o Google comemora o seu 293.º aniversário?
[A senhora ainda está viva?]
(Vá, não vale ir ao Google — precisamente —, para me explicar quem é Eva, essa quase tricentenária senhora. Isso, eu também posso fazer.)

3. Que faço apostas comigo mesma em como vou ser capaz de levar a couvette do gelo, cheia de água, da torneira até ao congelador, e nunca-por-nunca deixo de entornar o equivalente a duas goladas, por mais cuidado e ou vagar que utilize?

4. Que, quando calço umas sandálias com motivo cobra, já não sou capaz de pôr um discreto lencinho motivo leopardo, por me sentir um zoo, ou uma zebra, ou sei lá o quê?

5. Que fico melhor em fotografias desfocadas? 
(Haja miopia neste mundo.)

6. Que não posso beber um copo de água a seguir a comer meloa, sem que me fique a boca a saber a aguarrás?
(Nunca bebi aguarrás, mas deve ser ao que sabe.)

7. Que tenho um rímel (máscara de pestanas) tão bom, que mas estende a ponto de não poder abrir demasiado os olhos, pois sujo as sobrancelhas?

8. Que falo numa pessoa que não vejo há dois anos e ela, no máximo vinte e quatro horas depois, se cruza comigo na rua?

9. Que escrevo posts que parecem aquelas curiosidades de merdinha das Selecções do Reader's Digest?

10. Que — por falar nisso — me vejo aflita para me livrar de vendedores das Selecções e outras pragas semelhantes, porque sou demasiado bem educada e também porque ninguém me ensinou a dizer NÃO, e levo determinadas situações até ao limite do insuportável, só para não ser má-feia-cruel-mal-educada-bruta-antipática-[digam vocês]?



09/06/2017

Post about posts

Não sei se com as outras pessoas que têm blogs acontece o mesmo que comigo, mas não só os rascunhos se multiplicam a uma velocidade estonteante, como também tenho sempre o rascunho rascunhado, o rabiscado que nunca vê a luz do dia, que é como quem diz, que nunca salta para outros olhos que não os meus: o que é editado vezes sem fim, alterado, limado, podado, acertado e nunca parece estar bem — bem, ou com requisitos mínimos para ser lido sem ter cara de lixo logo ao primeiro minuto de publicação. Acontece mesmo gostar dele, mas não ter coragem, paciência, tempo ou disposição para o parir, e então ali fica em gestação dias, semanas, meses, até que um dia é apagado como se nunca tivesse existido. São 93, neste momento, a contar com este, que também já foi começado hoje de manhã. Fiquei aqui a ler um outro, que está rascunhado há vários dias, escrito com o meu próprio sangue, guardei e fechei o computador. Ser cada vez menos anónima tem destas coisas: a liberdade, senão literária, pelo menos linguística, a da expressão escrita pura e dura, perde-se numa proporção tão grande que, o que sobra do que se pode dizer sem ficar a parecer, é uma ínfima parte da criação, é um quase nada de nós. Nem as metáforas nos podem valer.

(yey, também consigo escrever um post-pastilha-pastelão)


02/03/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 5

Que, quando não sei do telemóvel, peço a alguém próximo que me ligue, a ver se ele não estará a brincar às escondidas comigo (em que eu sou o do coito) ou à cabra cega (em que eu sou a cabra), a pessoa até me faz a vontade, eu lá encontro o animal, agarro-me a ele como se tivéssemos uma relação, e a primeira coisa que constato, surpreendida, é: Ah, olha, e já tinha aqui uma chamada não atendida...?