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05/09/2018

O elefante no meio da sala

Estava eu muito descansada, à-roda-à-roda-à-roda como uma ratazana, girando e rodopiando na aula de dança, quando, derivados ao aparelho e sua consequente maior salivação,
(porquê, não se pode falar sobre cuspo na blogobola? Quer dizer, as outras falam de piolhos, cacos de monco e puns de traque, e eu não posso falar de cuspigongos?)
que, meninos, aumenta exponencialmente quando se coloca o objecto estranho na boca, me salta um perdigoto tamanho xxl para o soalho da sala de bailarico, mas uma coisa gigantesca, daqueles que até fazem um arco no ar, se elevam acima da nossa cabeça, e aterram, estatelados e grandiosos, nem bem aos nossos pés, mas a uma distância suficiente para que, embora não possamos esborrachá-los, eles não nos saiam do campo de visão nem do Mundo, o que nos permite pressupor que todos aqueles que nos rodeiam o vêem, porém fazem a fineza de o ignorar, o que é, convenhamos, muito mais constrangedor do que se, efectivamente, não o avistassem. Um pouco a cena do elefante no meio da sala, que toda a gente vê, mas todos fingem que não. 
A própria coreografia que a humana tentava seguir no momento também não deu uma ajuda, pois não surgiu nenhum passo, por mais que me adiantasse, cruzasse ou saltasse, que calhasse pisar o perdigoto. É certo que poderia ter saído do esquema, saltado a pés juntos em cima da poça, mas sei lá se aquilo não dava em rebentar e lá ia eu pelos ares, cheia de saliva por mim acima. Além disso, tal atitude daria ainda mais nas vistas. Quem é que pula em cima do elefante? Pois. E ele ali, brilhante, exuberante, rechonchudo, só faltava içar um flyer a dizer "Mamã, estou aqui".
É claro que, até se evaporar completamente, se transformou numa pequena lagoa, depois num riacho, logo a seguir num oceano em modo tsunami. Só depois encolheu, e, quando fui para o pisar, com todos os cuidados para não escorregar - a ver se alguém lá meteu um daqueles avisos de piso molhado, é o metes! -, ele já se evaporara para não sei onde, quiçá para a atmosfera, ou para a minha pele, onde terá sido reabsorvido e reentrado no meu sistema linfático-nervoso e de hoje para amanhã se transformará na maior pérola de canto de boca que a História ilustrada da minha rua já viu.


11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


29/07/2018

Nunca voltes a uma praia onde já armaste, pelo menos, três barrracas

Logo à chegada, a da recepção do hotel diz-nos de chofre que não aceita, como documento identificativo, a carta de condução de uma das minhas crianças. Já estou a rodar a baiana e os olhos, explicando-lhe que qualquer documento que contenha a fotografia e o nome completo de um cidadão, serve como comprovativo da sua existência, só que ela arruma-me com o argumento de que são ordens do SEF, e é então que me apercebo de que não estamos a falar a mesma língua e ou ela julga que está a entabular conversação com um jerico. Ou um jumento. (Existe uma vaga possibilidade de aqui a humana dar ares de estrangeira. Marrocos, Tânger, por aí.)
Depois vamos jantar a um local óptimo, quanto mais não seja porque é consensual: uma pizaria. O espaço tem cinquenta por cento das mesas ocupadas, mas já não tem menus para todas as mesas, logo, logicamente, é-nos pedido que aguardemos por uma mísera lista, para os cinco que estamos à mesa. Aguardamos, assim como aguardamos uns pelos outros, assim como aguardamos que nos venham registar os pedidos, assim como aguardamos pela comida propriamente dita. Apercebo-me então que a mesa ao lado, composta por três pessoas que chegaram depois de nós, está servida, já todos mastigam, só lhes falta mesmo o arroto-mestre. Chamo um dos que cirandam pela sala, afirmo apenas que quero perceber a lógica deles, e, num passe de mágica que ainda leva mais cinco minutos a operar, põem-me o repasto debaixo do nariz.
Dois dias depois, chega o meu rapaz, necessário fazer novo check-in, vai a mesma alimária do cartão de cidadão e diz que ele não pode entrar no hotel porque ainda é menor. Parece que se trata de um “adults only”, conceito muito hilariante se aplicado a um rapaz com dezassete anos e onze meses, se nos abstrairmos do facto de a estadia estar paga desde o primeiro dia (metade em Fevereiro, ainda ele era muito menor!), e de as datas de nascimento dos hóspedes nunca serem questionadas até àquele momento. [Vá que não me falou no SEF outra vez, quiçá por já conhecer as (minhas) ventas da total rejeição.] Respondi-lhe apenas que muito bem, que se ele não entrava, então saíamos todos, e devolviam-nos o valor da estadia desde o início. E foi assim que aceitaram a entrada da minha criança num hotel para adultos only. A esta senhora atribuí secretamente a mais alta categoria, com louvor e distinção, só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.
Mas ele há coisas boas, no meio disto tudo: a praia é excelente e o vento suporta-se. E também soube da existência de um restaurante vegetariano que pretendo visitar, nas redondezas, e que responde pelo nome de “Vegetarianus”, valha-lhe o abençoado (em casos como este) Acordo Ortográfico, que era o circunflexo não ter caído e tínhamos ali um bonito serviço, não sei se literalmente.
(Vá, tudo a googlar onde é que eu me encontro a banhos. Pessoas, eu sou uma agulha num palheiro. Uma gota no oceano.)

26/07/2018

Com este tom de tez, ainda assim tenho momentinhos louros muito meus

Exausta de ouvir a pergunta "Tens MB Way?", e de, à negativa, receber em contra-resposta a incredulidade e a estupefacção (só comparáveis à reacção de uma amiga de amigos, quando um dia lhe disse que não tinha carta de condução - porque, efectivamente, na altura, ainda não a tinha arrancado -, e ela praticamente assobiou para o ar, mas quando, logo após, lhe disse que não tinha microondas, a mulher se ia lançando pela janela, tamanho o assombro que lhe provoquei), olhem, instalei essa coisa em Ai-fostes. Pelo menos, nas vezes seguintes em que me questionassem acerca da detenção do tal aplicativo que faz maravilhas e malabarismos bancários através do telefone, não seria vítima do mesmo bullying ao me chamarem infoexcluída, ou, se o quisesse evitar, não teria que omitir a verdade, faltando-lhe ou distorcendo-a, de mais a mais porque não saberia manter a tanga, que, conforme sabeis, é justa e curta, pelo que mais depressa se apanha quem a usa do que a um coxo.
O problema adveio a posteriori, no momento em que finalmente pude responder sem mentir com todos os dentes que tenho na boca - actualmente, e espero que para toda a eternidade, vinte e sete, pois que me foi surripiado um recentemente -, e levei como, se não resposta, pelo menos esclarecimento, o seguinte: "Sabes que podes levantar dinheiro no multibanco através do MB Way?". 


Foi mais a imagem mental, sabem? 
É que visionei mesmo as notinhas a saírem Ai-fostes afora, regurgitadas, paridas, irrompidas.
Foi um breve momentinho louro, já passou, Chiu.

15/07/2018

Começo a suspeitar que a fada dos dentes não existe

Fui ao dentista dos olhos bonitos, desta vez para que ele me colocasse um aparelho, que era coisa que já queria fazer para aí desde os meus onze anos, ou seja, há várias décadas. Ainda bem que esperei, pois, nessa idade, o senhor deveria ter deslargado os cueiros há pouco, e eventualmente não estaria preparado para me aparelhar a dentuça.
Aterrei os quartos traseiros na cadeira lá dele, recostei-me naquele misto de excitação com ansiedade, e abri-lhe a boca. Vai ele, e esclarece-me que só me iria colocar o arame de baixo, já que os de cima não necessitam, mas que sim, que mo porá na mesma, assim os que a natureza me implantou e assentam no maxilar móvel estejam alinhados. Eu um pouco desanimada, acho que até amuei um nico, pois lembro-me de ter fechado a boca para desenhar um beicinho. Mas passou-me logo, quando ele me perguntou se estava psicologicamente preparada para arrancar um dente da frente, eu que ia preparada psicologicamente era para meter os açaimes de cima e de baixo, mas que sim, pois então, se se trata(va) de um dente inferior, arranca lá o que te aprouver, desde que daqui a uns meses tenha o sorriso mais Kolynos da minha rua, que é para isso que aqui estou. Picou-me então as gengivas até se fartar, viu-se e desejou-se para pôr o dente a abanar, e depois, de alicate em riste, fez sair o 41 (foi assim que lhe chamou), coitadinho, até tive pena dele, tão saudável que estava que a raiz era exactamente dois terços do total do marfim. Para que eu não ficasse desdentada e a fazer vento a cada S e a cada F, pôs-me porcelana no entremeio, de modos que nem assim consegui ficar ciciosa e sibilante. 
Já com o freio novo, fui-me embora. Mas lembrei-me, à saída, que me faltava (literalmente) o meu dente, e então voltei ao gabinete e pedi-lho, com a desculpa da fada dos dentes. Ofereceu-mo numa caixinha própria e tudo, apesar de não ser azul, mas eu também não me sentia em condições de regatear.
Começo a suspeitar que a fada não existe, pois ainda não deu mostras disso, e já lá vão duas noites com o dente debaixo da almofada a moer-me os ossos. Chateia-me muito e volto a pô-lo no lugar dele.


23/06/2018

Cycling, uma experiência esmagadora

Na pendência do dia de ontem, fui-me a uma aula de cycling. 
Tudo isto, porque tenho a PDM que sou a mãe mais fixe do pedaço (constituído por meu lar), e não consigo dizer que não, incapacidade que detenho para aí desde que corrigi o vício, logo após ter aprendido a segunda palavra de todo o meu já extenso vocabulário. (A primeira foi "pai"; a segunda foi, exactamente, "não".)
À chegada, o instrutor perguntou aos cerca de quarenta da enorme sala, quem é que estava ali pela primeira vez. Só eu e outra levantámos o braço, mas, por alguma razão que não me assiste, ele só se acercou de mim para me dar explicações acerca do funcionamento da máquina (bicicleta — cujo nome é uma metáfora, já que não tem rodas — estática). (Há-de ter pensado, "Aquela senhora tem uma alta probabilidade de faleceri, deixa cá dar-lhe uma aula teórica, e assim isento-me já de responsabilidades".)
O ar condicionado estava avariado, o que, passe o pleonasmo, condicionou grandemente a minha performance. 
De resto, correu tudo mal. O selim é uma peça claramente congeminada pelo Cão, ou por um torturador profissional (que, como se sabe, são uma e a mesma pessoa), coisa para esmagar uma determinada zona do corpo da humana, a níveis olímpicos, tal e qual um esmagador de alhos. (Dei comigo a olhar para os meus companheiros de Volta e a temer pela masculinidade deles, se é que algum ainda a conserva.) Tanto que, nos momentos em que o instrutor mandava pedalar de pé, cá o ser era a primeira a elevar-se e a pedalar, ou sei lá a fazer o quê com as pernas e os pedais. 
Ao cabo de quarenta e cinco minutos de senta-esmaga-aumenta-a-intensidade-pedala-de-pé, e muitas gotas litradas de suor escorridas, a tormenta acabou e foi possível apear-me e até ser cínica e mentirosa, quando o mestre me ordenou/pediu/perguntou/afirmou, "Isto é para continuar", "Claro que sim", de cara deslavada e suada, e toma lá bacalhau.
Um dia, à chegada ao Purgatório, Alguém me perguntará: "E tu, filha, o que fizeste tu de bem?", "Ai, eu fiz cycling durante quarenta e cinco minutos para ser querida com uma filha". E certamente levarei dois merecidos pares de estalos, com a palma e as costas da mão, "Vai para o Diabo que te carregue, que isso é coisa para te fazer merecer o Inferno".
Vá que hoje não tenho dores. Devem estar reservadas para esse momento.

19/06/2018

Onde é que está o gato?

Conformada com o facto de termos (todos, a união diz que faz a força) deixado de ter Primavera, num muito pouco alegre goes-around-comes-around, Inverno-Outono-Verão-Inverno-Outono-Verão, e assim sucessivamente, que não, a ordem dos factores não é arbitrária, e após ter amargado com a canícula do dia de ontem, suando as estopinhas e todos os outros tecidos que me envolviam (designadamente o de um muito famoso vestido de flores, que se mantém impecável ao nível dos vincos e rugas — ao contrário da pessoa humana — pelo facto de ter um nico de fibra na sua composição, e, por esse motivo, ainda me fazer suá-las mais), e ainda aliviada por dar a entender que isto hoje estão menos dez graus do que ontem, deu-se que tomei a se não dramática, pelo menos drástica resolução de envergar um vestido branco, a ver se afastava os raios, complementado, não encimado, pela bela sandália que imita a pele da cobra, e que também já aqui publicito desde os anais (desta coisa), eu feliz a fazer contas de cabeça — aquele conceito que sofre várias variáveis em se tratando de mim —, tentando chegar à conclusão de quantos anos é que as cobrinhas já levam, acho que vão para o quinto Verão, congeminando que — genitais! — cinco anos numas sandálias já faz delas uma peça do Museu de Arte Antiga, mas também um objecto de culto e comprovada amortização, quando ouço miar. Era um miar sob mim, um miar de gatinho bebé, um miarinho. À medida que continuava a andar, miau-miau debaixo dos meus pés. Antes mesmo de ter a veleidade de imaginar que havia gatinhos sob a calçada portuguesa, apercebi-me que uma das sandaletes agora mia. Não sei se a outra se vai solidarizar, e passarei a andar com dois gatinhos no lugar das cobras, se isto passa, se me habituo e deixo de ouvir, se virá uma mãe gata tirar satisfações com o meu pé um destes dias, ou se, de facto, e efectivamente, tenho um gato dentro, sob, sobre ou através da sandália. Mas está a ser animado, ter um animal de companhia constante, na rua inclusive.
Pronto, desculpem. No fundo, não tinha mais nada para dizer ao mundo, hoje. Nem nunca, na verdade.

16/06/2018

Ainda não foi hoje que enlouqueci

Enquanto sentir vidros debaixo dos pés

Na verdade, não sabia que título pôr a isto. E também não tenho nada para dizer, vim cá só varrer os cantos, arejar a casa, ver se está tudo bem.
Mas é verdade que ainda não foi hoje que enlouqueci.
Casa em obras; a viver noutra casa; sem máquina da loiça; um estendal que não comporta uma máquina; empregada de férias [pronto, lá vou perder uma seguidora. Fazei como entenderdes, eu não posso fazer nada contra o facto de ter empregada e de ela, apesar de falar pelos cotovelos, pelos tornozelos e, em geral, por todas as articulações, me dar muito jeito], uma prova para fazer daqui a horas [umas 36, vá, com sono, refeições e trabalho de permeio], acompanhada da sensação certeza de que fui brindada à nascença pela ignorância, e que devia reprovar [aka, repetir a prova], se justiça existisse neste Mundo; trabalho com prazo a correr contra mim, qual locomotiva; depois da chuva em Junho, agora o vento; ontem, numa breve pausa que me impus, comi areia esfoleei os dentes.
Não sei mais de que me queixar para pintar este quadro de ainda mais negro. 
Enquanto sentir vidros debaixo dos pés, foi uma frase por mim proferida, a propósito de uma garrafa de vidro que se estatelou no chão desta minha agora cozinha [uma ou várias desgraças nunca vem/vêm só(s)], e passei a sentir a vidraria moída sob meus chanatos, daí a frase, que tanto gostei de ouvir a mim mesma, que equacionei até a possibilidade de escrever um livro com este título. Só não sei sobre o quê.

10/06/2018

And that awkward moment # 48

em que estás numa aula de dança, aquelas mesmas que têm fama de "não se suar nada" — e sim, antes que perguntem e eu não saiba como responder sem me enterrar, titubear ou enveredar pela mentira deslavada, esta pessoa humana maquilha-se antes da actividade, porque lá está, dançar feia e pálida e com cara de dia seguinte aos santos populares não está nos seus projectos mais longínquos, e, assim, colocou um pouco de iluminador —, e notas, através do espelho onde, no teu delirante imaginário, és uma dançarina exímia e de uma beleza avassaladora, que tens uma lâmpada acesa na testa? E é que ainda te ocorre que oh!, estás a ter uma ideia brilhante, pára tudo, mas o que é?, queres ver que são os números do Euromilhões?, a cura para a piolheira? o método cabal com vista ao definitivo irmanamento da meia desirmanada?, mas, afinal, é a cintilante luz provinda do teu suor, e a única ideia luminosa que poderias ter tido — não colocar o iluminador, passe a redundância —, não tiveste?

08/03/2018

Ser mulher

também é isto: a pessoa é fiel detentora de uma viatura automóvel, que responde pelo nome de Rosinha, minha canoa, que, por sua vez, possui uma coisa debaixo do banco do passageiro da frente, à qual não consegue atribuir um nome. Trata-se de uma espécie de caixa de metal, não sendo, no entanto, uma caixa, uma vez que não tem tampa. Porém, tem uma abertura, numa das faces, por onde tudo entra e fica. E, quando digo, tudo, quero significar, exactamente, tudo. Qualquer miudeza que caia da mão direita do condutor, ou de qualquer mão do passageiro-pendura, enfia-se pela lateral dos bancos, e eclipsa-se para lá. A dita abertura da dita coisa é bastante pequena, pelo que não permite a entrada de uma mão, e, quanto a dedos, estamos conversados, pois só entram ali dois ou três, impossibilitando-os de alcançarem o fundilho, transformando qualquer busca numa sessão de contorcionismo inútil. Já para lá refundi acessórios do cabelo, a chave de abertura do telemóvel, as costas do telemóvel — que recuperei com um palito de sushi, um torcicolo, três cãibras e um esgotamento nervoso —, dinheiro (sim, comprovei-o hoje, mas não sei afiançar a quantia certa), e só o Criador saberá o que mais. 
Então, aqui há dias, enfarpelada com um sobretudo alapado ao torso e todo abotoado à frente, e, num largo gesto, não de abnegação, como é meu apanágio, mas sim de impaciência — porque outra das características peculiares de Rosinha é a de que o cinto do passageiro fica a bater tac-tac-tac quando ele sai de Rosinha —, na tentativa, em pleno andamento, de esticar o referido cinto, hei-de tê-lo feito com tal convicção que, assim me estiquei para a direita em diagonal, assim me saiu a jacto um dos botões do casaco, mas isto com uma violência tal, que dei graças ao cosmos de não me ter acertado numa das vistas. Ao invés, disparou lá para o canto, entre a porta e o banco, e nunca mais o vi. 
Estou, aliás, convicta de que, debaixo daquele banco, está Nárnia. É toda uma outra dimensão, um verdadeiro universo paralelo. As coisas, simplesmente, incorporam de alguma forma alternativa, saem do radar, desintegram-se. 
Mayday.
Estou farta de procurar a m. do botão, e ele não aparece. Já fiz pesquisas dentro e fora do carro, já usei a lanterna, já tirei fotografias ao interior (tenebrosas, irreais e indecifráveis), já subornei o rapaz para que tentasse por sua conta, já só me faltou enfiar-me, eu própria, lá dentro e transformar-me numa ameba proteus. Ainda agora, fiz a enésima tentativa e, após um momento Carochinha, em que encontrei vinte cêntimos (será o botão, transmutado?) e mais três arranhões nos dedos, o coiso não apareceu. Deve estar, feito parvo, a rir-se de mim, lá com o mundo de cenas, de entre objectos e, quem sabe, animais, que já foram ali parar antes dele. 
E não, não adianta equacionar a solução do botão sobresselente, que esse deve existir, mas eu também o extraviei algures, para uma qualquer caixa lá do lar, onde repousam todos os botões extra que a roupa nos fornece, e deve estar cheia deles, pertencentes a peças que eu já nem sei quando e por que é que comprei. Ou então, juntou-se ao outro, e vivem agora, felizes para sempre, em Nárnia, metamorfoseados em unicórnios. 
Chiça.

20/02/2018

Je suis la pièce de résistance

Sinceramente, às vezes — nem sempre, mas já aconteceram para aí umas duas vezes na minha vida — equaciono a hipótese de ser (eu própria) um ser transcendente, um ente iluminado, uma unidade genial, Alguém. Tipo do Além, percebem? Uma Única. 
(Sempre ouvi o meu pai dizer que, se eu não existisse, tinha que ser inventada. Nesse tempo, já eu existia, portanto. Inventada por ele, na parte melhor que tenho.)
É que me sucedem ocorrências levadas da breca, aquela que há-de ser aparentada com o Diabo. 
Então: vou a chegar a casa de uma amiga, que se me lamenta de ter o pc crashado. (Por acaso, ela usou outro termo qualquer, mas este é mais evoluído e dá, simultaneamente, a ilusão a quem está a seguir este episódio, de que eu domino a linguagem. Acho que disse "brecou".) No mesmo instante, pegou nele ao colo e exibiu, desolada, um portátil aberto, em cujo ecrã (sim, eu sou daquelas pessoas que não hesitam ao escrever a palavra ecrã. Escuso de escrever monitor) cinzento, apenas aparecia uma pequena frase, no canto superior esquerdo, a dizer blá-blá-blá-definições-blá-blá. E pergunta-me ela assim para mim: "Percebes alguma coisa de computadores?". Vou eu e digo a verdade nua e crua: "Nada.", no exactíssimo momento em que, assim pensei, melhor fiz ["Experimenta control-alt-delete, que dá para tudo"], só que fiz ainda melhor do que o melhor: movida sabe-se lá por que forças divino-diabólicas, a minha manita esquerda colocou dois dos deditos em Ctrl e em Alt, enquanto o da direita, ao invés de no Delete, foi aterrar de emergência no Enter.
...
...
E, subitamente, ele não se moveu, sequer explodiu. Fez-se foi luz. O animal, comatoso há um bom par de horas (o que, conforme sabeis, corresponde, em anos de vida humana, a cerca de quatro e três meses), ressuscitou-se todo sem um esperneio, sem um ai-que-me-dá, sem um ronco, só me dando tempo a confirmar, balbuciosa, "Mas eu não percebo nada disto", "Mas eu não sei o que fiz", "Mas eu enganei-me, porque ia carregar em delete, a ver se, ao menos, o desligava", "Mas é o milagre de Natali!", tudo muito cheio de mas-mas, perante a incredulidade dela, um pouco misturada e retorcida com aquela admiração que fazem as outras pessoas quando diante de um génio. 
E eu sem lamparina. 

17/02/2018

And that awkward moment # 46

em que entras numa aula de dança, a titcha avisa que está com um braço magoado e, por conseguinte, não o mexerá da mesma forma que fará com o outro, tu não ligas nenhuma ao aviso (precisas de aquecer músculos, turbinas e alma), e depois percebes, já a aula vai para mais de meio, que, naqueles passos em que é suposto levantar os dois braços, tu és a única que está a fazer exactamente como ela — levantando só o braço "saudável" —, e, naqueles outros em que é para esticar o braço direito quando danças para a direita e o esquerdo quando danças para a esquerda, só tu danças para um lado na posição correcta, e para o outro, aí vais tu sem esticar o braço?
Devo ter um problema de identificação com as pessoas que me dão aulas de dança. Há muitos anos, numa época em que fazia latino-americanas + africanas, também aconteceu estar tão concentrada em fazer o mesmo que a instrutora, que, de uma das vezes em que ela levantou o braço, indicando a aproximação de três passos iguais, esticando primeiro três dedos, depois dois, depois um, eu
...
...
...
fiz igual.


14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

08/02/2018

Azul aos meu pés!

Primeiro, foi a Zara* que os teve, que eu namorei sem com eles ter casado (nem ter chegado a perceber muito bem quem é que foi deixado no altar); depois foi a Ros*, pelos quais suspirei, sem ter cedido ao ímpeto, a bem das Finanças do País.
Agora são meus.
É certo que não sei quando, nem como, nem porquê, nem onde os vou usar. E dão todo o ar de que vão fazer-me sofrer um bocadinho das cruzes.
Mas o que é isso interessa, se o mar é azul e se é de azul que eu gosto?


* NMPPI
É verdade. Não sei fotografar cenas. Mas vá, concentrai-vos na beleza do objecto e esquecei lá essas minudências.

16/01/2018

Agora sim, o Mundo está dividido em duas metades # 2

Os que sentiram o abalo e os que não. 
Desta vez, para variar, e só porque tenho a mania de ser original, sou das que não. Nem estava num ponto muito baixo da cidade, nem estava num ponto muito alto, mas, por qualquer insensibilidade que me assolou no momento, não dei por nada. 
(Por acaso, estou preocupada comigo mesma: eu costumo ser uma pessoa humana assaz sensível.)
(Também estou preocupada com os tapetes de Arraiolos. Já chega de ziguezagues.)
Em consequência, há que mandar imprimir novas t-shirts distintivas, ou, para aqueles que chegaram a tatuar o dorso da outra vez, a correcção da frase alegórica. 


(Quanto ao assunto do momento, logo vejo o que é que me apraz. Não gosto lá assim muito de encarneirar aqui na blogobola, mas por acaso até acho que tenho uma opinião.)

12/11/2017

Quem é que guarda o guarda?

Hoje ia lá nos meus pensamentos, conduzindo Rosinha por esta cidade azul afora, quando, à entrada de uma rotunda, após abertura do sinal verde, ouço uma sirene, paro, e me passa a mota de um senhor PSP do Trânsito, feito parvo a sorrir-se para mim, tipo a achar-se, por me ter feito parar quando eu ia na minha mão, tipo a gozar o prato de ter, basicamente, usado da sinalização de emergência por não estar para ficar parado no semáforo vermelho, como lhe competia, a alargar ainda mais o cu gordo.
Fiquei revoltada. 
Sei perfeitamente que não se deve tomar o todo pela parte, e que o todo é igual à soma das partes, e que, as duas máximas juntas não formam um axioma em si mesmo considerado, tendo em conta que uma é que é, ela sim, um axioma, sendo que a outra é apenas uma regra de convívio social, ou coisa assim. [Não sei por que é que escrevi este parágrafo.]
Mas acontece que ainda há menos de quarenta e oito horas, noite escura das seis da tarde, indo eu, indo eu, a caminho de sei lá eu, sabendo que havia de virar à esquerda ali pela Defensores de Chaves em direcção à República, mas errando cabal ou tangencialmente na transversal para o fazer, eis que me apercebo de estar a praticar a contramão, no momento em que visiono os faróis brancos de uma comunidade automóvel apontados na minha direcção, e, simultaneamente, um sinal de proibido, também a apontar para mim. Nesse mesmo segundo, surgiu-me do céu, caído aos trambolhões, o quê? Nada menos do que um polícia! Hã? Sou ou não sou a maior vacuda do pedaço? Mijinha fora do penico, zás, Senhor Lei logo ali a dar por ela (por mim, no fundo). Conformada com a possibilidade de levar uma multa das boas para casa, deitei-lhe para cima aquele sorriso com mil significados — de entre os quais já-fiz-merda-e-sei-o —, e não é que o agente autoritário se transformou subitamente em polícia sinaleiro [oh, pá, tenho tantas saudades...], se prostrou no centro do cruzamento, mandou parar o trânsito de um lado, depois do outro, só para a menina fazer a manobra e voltar para a sua mão? 
Portanto, cada um faz o que quer. Com prejuízo ou benefício da pessoa humana. 


10/11/2017

Eu tenho problemas com tudo # 29

Sei que entrei naquele parque de estacionamento ainda não eram 4:30 da tarde. 
Tirei o bilhete à entrada, não só porque não havia Via Verde, como também porque, ali, as duas primeiras horas são grátis, e estacionei Rosinha. Fui à minha vida e voltei. Entre tirar o bilhete e voltar ao carro não passaram mais do que quinze minutos. 
O bilhete não estava na mala, naquela bolsa específica onde sempre os ponho, já por causa das coisas. Não estava na outra bolsa. Não estava na do fecho. Não estava entalado no porta-moedas. Não estava misturado com os mil papeis e o lixo todo do interior da mala. Não estava no tablier. Não estava no chão do carro. Não estava no tecto do carro. Não estava neste Mundo. Como um anjo alado, fora-se. Sumira-se no ar.
No ar, também o meu suor. Passei, então, ao Plano B: despejar a mala. Porque tinha que ser na mala que o tinha posto. Vi bloco a bloco, agenda a agenda, papel com anos a papel com anos, e nada. Parei para respirar, saí do carro, tentei raciocinar as possibilidades várias para explicar aquele sumiço. E também as que se me apresentavam, caso não encontrasse o bendito: qual é a tarifa máxima diária — que é o "preço" do bilhete perdido, conforme sabeis —, tendo em conta duas horas grátis? Quis multiplicar zero por zero, para não piorar a minha situação, mas piorei. Sabia perfeitamente que: 
A. Encontrava o cartão;
B. Não encontrava o cartão:
    i) Pagava a tarifa máxima diária;
    ii) Fazia uso de eyelash power e o responsável lá se compadecia e abria a cancelinha;
  iii) O responsável era uma mulher, pagava a tarifa máxima e ainda era enclausurada numa catacumba qualquer, despojada de todos os meus bens e raciocínio lógico.
Meti-me corredores afora, a pé, até à entrada do parque, pensando na possibilidade de o ter deixado cair quando o retirei da coluna. Mas também não estava lá. 
De volta ao carro, despejei a mala pela terceira vez, procurei de novo, liguei a lanterna de Ai-fostes, procurei em todos os recantos possíveis e imaginários — esses mesmos, que proporcionam posições à pessoa de uma elegância digna de registo fotográfico —, mas o c. do bilhete não apareceu. 
Toda eu era suor, desânimo, raiva e vontade de chorar de abandono e frustração e tudo o que assiste a uma mulher nestas horas. (Ninguém nos dá o nosso devido valor.)
Desisti. Há sempre um momento, em todas as lutas, em que o guerreiro, por mais bravo que seja, baixa os braços. Se não há, devia haver. Eu baixei os meus ao fim de quinze minutos de enfardar pancada.
Arrastava-me, pesarosa, para o gabinete do segurança, quando vi um bilhete no chão, a uns cinco metros do meu carro. Hora de entrada, 16:24.
Se não era o meu, passou a ser. Naquele momento, perdera todo o civismo, e tinha como único objectivo de vida sair daquele parque. Se fosse outro o dono daquele bilhete, paciência, pusesse-se ele de rabo para o ar dentro do carro dele, e tratasse de encontrar outro bilhete, de outro avoado da vida. 
Depois até segui as setas que indicavam a saída, mas, quando alcancei a rampa para subir para o exterior, elas estavam desenhadas em contramão. Posso ter saído pela entrada, sim. Mas saí. 


28/10/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 59

Por isso, amiúde, vou sozinha.
Queria, ou precisava, de substituir os meus sapatos de salto pretos, Cubanas* de meu coração, marca que, pelo menos para o meu pé e para a minha cabeça, este ano não fez nada de jeito. [Diga-se que eu estou para a Cubanas* como estou para a Fly London*: em cinquenta pares, encontro um pelo qual me apaixono para o resto da vida (deles).] 
Pesquisei na nettinha, encontrei o que queria — confortável e bonito — na Hush Puppies*. Só mesmo eu para acreditar que uns sapatos tão altos, apesar da compensação, possam ser confortáveis. Sômalouca. 

Assim mesmo, avancei para a grande superfície, sabendo a priori que a marca tem uma loja numa das pontas de um dos corredores. Entrei na Geox*, sem perceber que não estava na Hush Puppies*, obviamente que não encontrei o que procurava, escolhi qualquer coisa de semelhante, obriguei a antipática seca senhora a ir buscar-me quatro pares diferentes, e lá vim, porta fora, vá lá que não com eles calçados. Por acaso, tenho a dizer em minha defesa que não errei por muito, porque a Hush Puppies* é, de facto, na ponta do corredor, simplesmente na outra ponta. Já estava no carro quando fui acometida por um daqueles flashes-oh-oh, era uma luz, era uma voz que me dizia Hush hush Puppies, hush, hush... [ao som de Ice ice baby, estão a ver?]
E foi assim que, voltando à superfície, no espaço de quinze minutos, comprei os sapatos que queria — lindos e, obviamente, não confortáveis, o que não significa desconfortáveis, não sei se me faço entender —, troquei os outros por umas sabrinas (após ter obrigado a antipática seca senhora a trazer-me mais quatro pares) e despejei a carteira por uns tempos largos. 


Já recuperada, porém, hoje, derivados do calor, sou ser humano para ir ver de uns botins, que isto, parecendo que não, não tarda aí a neve, e não quero estar desprevenida. 




Entre les trois, mes pieds balancent
Dêem-me lá uma opinião, pf.

* NMPPI

01/10/2017

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 58

Não preciso de psicoterapia porque tenho sempre a quem recorrer quando estou mais aflita dos meus nervos.











Depois disto, efectivamente acerquei-me da mesa dos doces. Porque uma mulher pode estar morta de pernas inquietas, de aborrecimento e de outras incapacidades várias, mas lá para se anafar mais um niquito, está sempre capaz.
Entretida que andava a digitar em Ai-fostes (isto é tudo uma tristeza derivada da cultura ocidental, escrevam o que vos escrevo), e por não estar a utilizar a minha visão plena mas apenas a periférica, deu-se que achei, às tantas, que encontrara o homem no meio da sala. Coloquei-me atrás dele, sempre digitando no coiso, e, no momento em que ele saiu para ir para o jardim, fui atrás e, muito chegada ao ouvido dele, disse assim: "Faltam é guardanapos, para uma pessoa limpar os beiços". [Vá lá que não sou de dar apalpões e dizer obscenidades.] Só quando ele, entre o surpreendido e o divertido, me foi buscar uma molhada de guardanapos, é que percebi o engano, mas também era impossível desfazê-lo, uma vez que a semelhança entre um e outro se fica apenas pela cor do cabelo, e conjecturas acerca da minha sobriedade/falta de visão/distracção imperdoável, não haviam de faltar. Portanto, fui confundir cônjuge com o único colombiano — pequeno, moreno, todo vestido de preto, casaco de napa, cabelo ondulado quase a dar nos ombros, que não me surpreenderia se me perguntasse se não preferia aos guardanapos uma linha narina acima — existente num lugar com, pelo menos, mais setenta homens. E estava sobriíssima. À seca e a seco.


24/09/2017

Tudo por um penico

Passei a tarde de ontem metida em retretes. 
Vou mandar refazer uma das casas-de-banho, e deve ser preciso um penico novo. Quer dizer, não é uma necessidade absoluta, que aquele que possuímos não é velho, mas apeteceu-me esta abordagem para um belo sábado de sol lisboeta, em alternativa a ir a banhos lá para a periferia. Um destes dias é capaz de se me repor o problema do tampo. Para já, é só a louça. 
Comecei pelo Leroy Merlin* — [lerruá mérrlã, não lérói mérlim], local onde cheira tanto a suor que a pessoa pensou existir por ali algures um ginásio low cost, mas afinal não. (Qual era o mal? Quem entra no Décathlon não leva com os desportistas de fim-de-semana a experimentarem as máquinas todas, enquanto os petizes jogam à bola com toooodas as bolas que estão à venda e ou patinam com toooodos os skates e patins que apanham à mão e aos pés? Então...) (Tamém, não posso dizer nada que é logo uma coisa...) Vi retretes quadradas, redondas, ovais e outras que nem se percebia muito bem como é que se havia de sentar ali. E eu queria uma triangular. Hah, era a brincar. Não sei o que queria. Ah, já sei: fugir dali.
Depois abordei a Porcelanosa**, onde cheira tanto a hotel de cinco estrelas [subreptícia forma de dizer que já estive, pelo menos, num], que uma pessoa nem lhe apetece sair de lá. Empregados de fato e gravata, educadíssimos, prontos para nos vender uma sanita a um preço tal que somos bem capazes de querer transformá-la numa floreira, mas praticar a defecação lá para dentro é que se torna um problema. Deve requerer alguma estratégia, ou concentração, mas em chique. 
Sei que acabei o sábado em cólicas.
Pronto, já passou. Hoje é domingo e tenho que começar a viver a neura do fim da tarde. 

* Ninguém me paga para me calar
** NMPPI