Mostrar mensagens com a etiqueta Machos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Machos. Mostrar todas as mensagens

28/03/2018

Post interdito a machos # 7

O soutien, ou sutiã, conforme preferirdes, é aquela peça de vestuário que, salvo as excepções dos de desporto e medicinais, regra geral, vem apetrechado com colchetes, que são o que encerra o dito cujo até à próxima abertura, isto tanto para o bem como para o mal. A mim parece-me, mesmo sem ter feito uma auscultação de mercado exaustiva ou de qualquer espécie, que toda a mulher, mais ou menos a partir dos doze anos de idade (ou desde que as meninas eclodem), consegue fechar os dois colchetes atrás das costas, atrás dos olhos, à frente do peitoà frente das costas, nas costas, sem recurso a ajudas, espelhos ou outras manobras que tais. O tacto também é um sentido, e é em grandes momentos como o da abotoadura do sutiã que dá provas cabais da sua grande oportunidade. Portanto, apertar dois colchetes, minúsculos e quase juntos, em duas ou três fileiras, quantas vezes com unhas compridas, não sendo tarefa que exija grande ciência nem tecnologia, também não é impossível aos olhos (mesmo sem recurso a eles) de qualquer mulher desde o final da infância.
Com o advento dos bralettes, advieram com eles as fileirinhas de colchetes, mais concretamente três fileiras paralelas (vá lá não serem perpendiculares; ou oblíquas. Secantes) de nada menos do que quatro colchetes cada uma. Quatro. Não sei como não se lembraram de pôr um fecho-éclair naquilo.
Ora bem, quatro vezes três, é igual a doze. Doze colchetes são vinte e quatro peças do tamanho de uma mosca recém-nascida, para uma mulher ter que manusear sem olhar, nas suas próprias costas. Esta intrincada matemática, qual autêntica matriz, que envolve análise combinatória (aliada à ginástica contorcionista de todas as articulações do braço), equivale a n possibilidades de combinações entre os doze colchetes, cada qual, como já vimos, com duas peças, e em que há que fechar em recta perfeitamente vertical, nada menos do que quatro deles. Nada confuso, portanto.
Aposto todas as minhas fichas em como quem desenha os sutiãs são homens. Esquecem-se — ou não — do super-multitasking feminino: tal como nos primórdios da eclosão, havemos de abotoar o bom bralette na barriga, rodando-o e depois subindo-o torso acima, até que nos reabituemos à estratégia da cabra cega. Subestimam-nos, os meninos.


01/03/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 13

que, quando outro condutor me bloqueia o carro com o seu, e olho à volta (sem esperança), depois dou uma apitadela simpática (elas existem, são assim duas seguidinhas, pi-pi), espero mais um tempinho (uns quê?, largos quatro segundos, ou assim), apito já menos simpaticamente (piiii-piiiii), espero mais um bocado (desta vez, dou-lhes bastante, quase três segundos que custam a passar como os dos agachamentos com a barra nos ombros, com pesos desumanos), e é que nada de me aparecer o bloqueador da minha vida, 
[congemino manobras impossíveis, imagino que vou ficar ali para sempre e um dia vão encontrar-me putrefeita ao volante (mesmo que esteja em esqueleto, por favor, alguém me penteie), elaboro mentalmente discursos imaculadamente ofensivos para o momento do aparecimento do meliante, suo um bocadinho das mãos e das pálpebras, pondero chamar o reboque, a polícia de intervenção militar, a brigada dos bons costumes, os bombeiros, os rapazes da obra (há sempre uma obra por perto) que me levantem o prevaricador no ar, a minha família toda, chamo pela minha mãe, brado aos céus por uma ajudinha nesta hora de aflição,]
e isto, ao cabo de menos de nada, tudo me dá para meter as duas mãos na buzina e já de lá não as tirar até ensurdecer a rua, o bairro, a cidade, até alguém chamar a ambulância do asilo de doidos ou até, olha o disparate, aparecer o dono da m. do carro que está a atravancar o meu e a minha vida toda desde que nasci, no século passado?
...
E eis que me surge no horizonte, negro e nervoso, uma de duas possibilidades:
1. É homem: corre para o carro, faz parkour, vem de braços no ar, a pedir desculpas a todos os santinhos e, já agora, a mim. Sorri, desdobra-se em penitências, só lhe falta ir buscar o cilício, cortar os pulsos ou dar o corpo às balas, quer dizer, às rodas, debaixo do meu. Geralmente, mete-se no dele, sai disparado como uma bala e desfaz-se em fumo;
2. É mulher: vem para o carro com a paz e a calma de uma procissão, talvez traga cristais nos bolsos, ou nem quero imaginar aonde. De caminho, só lhe falta fazer um bocadinho de moonwalk, para atrasar mais a coisa e exponenciar a minha irritação. Não pratica o contacto visual comigo, sequer faz um breve gesto com a manita (não, não é esse; esse, deveria eu fazer) como sinal de desculpas. Adivinho-lhe mesmo um semblante contrariado, toda a sua linguagem corporal grita "Mal educada!". Mete o rabo entre as pernas e mete-se toda, rabo incluído, dentro do carro. Faz uma micro-manobra, para não me facilitar a saída e me provar por A + B + C + D até Z que eu sou uma má condutora e uma azelha. Depois de me obrigar a chegar à frente e atrás cerca de dez vezes, ainda me fica com o lugar. E oh, efectivamente, a malcriada sou eu.


20/01/2018

A minha vocação (perdida) para porteira

Numa ombreira de grande afluência de mulheres como é a de um balneário, cruzam-se pessoas de todas as espécies e, quem sabe, com várias moods, que serão as do momento/dia/fase da vida/m. de feitio. Pessoalmente, prefiro balneários sem porta, como era o do outro ginásio que frequentava antes deste. Se algum arquitecto me estiver a ler, por favor, atente nisto: esqueça a porta do balneário. Ela é o pomo da discórdia para pessoas como eu. Quanto aos balneários masculinos, desconheço como se processa o encruzilhamento das personagens, mas imagino que é bastante mais eclético, até mesmo porque eles se mandam lá para as respectivas genitálias com uma frequência avassaladora, quando não verbalmente, com o gesto do olhar.
Vou, então, tentar elencar exaustivamente as diversas categorias, e logo me darão razão:
1. A que abre a porta para entrar, puxa-a o estrito necessário para passar o próprio corpo, entra e larga-a logo, porque a p. da porta lhe queima as mãos;
2. A que abre a porta para entrar, verifica pela visão periférica que tem alguém atrás (chatas como eu), mas, como alguém um dia lhe disse "Não és criada de ninguém", larga a porta mesmo a tempo de quem vem atrás levar com ela em cheio;
3. A que está atrás de ti, espera que tu abras a porta para entrares, tu segura-la para que ela entre, e nem a ponta do dedo usa para a segurar quando passa, fazendo com que fiques tu a segurá-la enquanto a princesa passa. E não agradece;
4. A que, quando abres a porta para entrar, vem a sair e tem o requinte de malvadez não só de não segurar a porta, como também de passar antes de ti. E não agradece;
5. A que, quando abres a porta para sair, entra de rompante, e, de repente, já vem em grupeta de duas ou três, e passam todas, aflitinhas e com pressa de chegar a horas à aula/ficar rapidamente fits e tonificadas/cagar;
6. A que, quando lhe seguras a porta, espera a sua vez, mas esquece-se de agradecer. Esta é menos grave, mas é parva na mesma;
7. A que, quando lhe seguras a porta, espera a sua vez, agradece, mas larga a porta em cima da desgraçada que vem logo a seguir, denunciando uma fraca capacidade de aprendizagem;
8. A que abre a porta, vê uma senhora de cabelos brancos a pretender sair/entrar e não lhe dá passagem (true-true);
9. A que espera que tu abras a porta, passa à tua frente e diz "Ai, desculpe". Terapia, já;
10. Tu, que abres a porta. E um dia a arrancas com os dentes, só da p. da enervadeira que a p. da porta te provoca.

13/09/2017

Aquele discurso feminista por que todos — eu incluída — esperávamos

Tudo é suportável num homem. Enfim, há uma coisa (incorpórea) que não se aguenta.
É suportável que ele seja teimoso como uma mula, porque diz que um teimoso nunca teima sozinho. Isto inclui a fraca memória para ditos e feitos de que circunstancialmente se desmemoria, contra a memória de paquiderme que qualquer mulher tem para datas, locais, pessoas, indumentárias, até mesmo expressões faciais e entoações de voz. Não sei mesmo como é que a prova testemunhal não está confinada apenas às mulheres.
É suportável que ele conjugue os verbos partir e estragar sempre com o pronome oblíquo -seIsto partiu-se — e nunca Eu parti isto.
É suportável que ele conheça mil caminhos alternativos à óbvia linha recta que lhe apontamos para chegar do ponto A ao ponto B, se perca num deles e jamais pergunte a um estranho indicações para voltar ao eixo.
É suportável que ele fique à morte cada vez que espirra (e vê mosquitos brilhantes no ar, e estoiram-lhe os tímpanos, e a cabeça explode, e sente palpitações pré-enfarte, e as pernas falham-lhe, e sua).
É suportável que ele seja previsível, e que, se conjugarmos o estímulo A com o estímulo B, consigamos o resultado X, como aquilo de juntar dois fios eléctricos e ah, fazer-se luz.
É suportável que ele se ache graça, já tenha percebido que as mulheres preferem os que as fazem rir, e esteja algures numa destas categorias: i. O que tem graça e não sabe; ii. O que tem graça e sabe; iii. O que não tem graça e não sabe e insiste; iv. O que não tem graça e sabe e insiste (porque ainda não percebeu toda a dimensão do conceito de palhaço); v. O que não tem graça e sabe e não insiste (abençoado).
É (até) suportável que ele seja um mentiroso descarado, sobretudo quando se enaltece. Que mal vem daí ao mundo?
É suportável que ele tenha a melhor mãe do mundo.
É suportável que a ex seja a tal (e que nunca cheguemos a perceber como é que ela lhe escapou. Ingrata.) (Nem como é que ela engordou e descaiu daquela maneira, mas ele continua a suspirar por ela com dezoito anos, fresca e seca.)
É suportável que aquele lugar de estacionamento que nós indicamos, à sombra e sem espinhas, não seja o melhor para o seu amado espadalhão de 1999, e aquele outro, em cima da lama, à tangente de uma árvore e com um pombal de pigeons com desinteria mesmo por cima seja, esse sim, o lugar perfeito.
É suportável a neura pelas derrotas do clube, pelo patrão que é um cão, até mesmo pelo cão que não toma banho, pelo banho que não querem tomar. 
É suportável até a vaidade física, o espelho, a barba lisinha, a depilação, as sobrancelhas acertadas, a tatuagem, a roupa desnecessariamente reveladora, o andar gingão, o cabelo ridículo. 
Mas a vaidade intelectual, senhores, essa é que já é insuportável e imperdoável. 
Pior que um intelectual vaidoso, é um vaidoso intelectual, cheio de proa e pose, debitando sabedoria e cultura a cada frase.
Nós, mulheres, precisamos de um niquinho de futilidade, que nos deixem ser mulheres em paz.
Falo por todas.
Ó pá, deixem-nos (se não puderem amar-nos cá com os nossos defeitos todos), lindas e maravilhosas.


03/08/2017

Laser para melhor lazer

Um altar a quem inventou a depilação a laser. Sinto necessidade de beijar pés, só por conta desta liberdade proporcionada não sei por quem. (Vá, e se eu não vou googlar, façam-me a fineza de também não o fazerem por mim.)
Nunca como agora me senti um homem, e está a ser bom: é vestir os trajes de banho e ala que se faz tarde para o charco, livre de preocupações menores (ou nem tanto) com pilosidades indesejadas. Longe vão os tempos de cavernícula, em que, à porta de casa ou já no areal, se me atravessava um pêlo no olhar - qual cisco, quase me fazendo chorar -, e isso era assunto bastante para dobrar as tormentas por horas, enquanto durasse a permanência, já que um único pêlo, esquecido/ignorado pela lâmina/máquina/pinça/cera, tresmalhado do grupo a que pertencia, escapado à morte a que condenara os irmãozinhos, era coisa para me arrasar os nervos e o dia de veraneio. Quanto mais vários pêlos. Um tufo. So-cor-ro, nem me quero lembrar. E depois, aquela sombra do pelinho nascituro, a saga do pêlo encravado, a frequência com que era preciso dedicar-me à transformação de mãe Eva em Gisele Bündchen, toda essa contratempice acabou, graças ao Senhor Laser.
No entanto, e por acaso, isto sem qualquer base científica - como tudo o que profiro para aqui -, acho que a depilação a laser só foi inventada no momento em que os homens começaram a arrancar os pêlos deles. Foi certamente em homenagem (não mulheragem, vêem?) a eles que surgiu o ditado 'A necessidade faz o engenho'. Isto que disse agora e o que vou dizer a seguir, enquadra-se no meu sector machista, ou sei lá se apenas controverso: nós, mulheres, somos dotadas de um espírito de sacrifício e abnegação, que nos levaria a suportar mais não sei quantos séculos de tortura depilatória, até, na melhor das hipóteses libertárias, criarmos um no shave qualquer e regressarmos à peluda origem. Aliás, não fora os homens terem começado a viver sozinhos e a sentir necessidade de preparar as suas refeições, e o micro-ondas estaria por inventar, e nós estaríamos de barrigas coladas a um fogão (a carvão.) (A pedras friccionadas.) Ou agarradas a um tanque de roupa. Ou a bater claras em castelo com um garfo. Tudo por causa do tal espírito.


18/04/2017

Jaguar

Comprou, em segunda mão, mas quem sabe em primeiro coração, um carro de marca cara, coisa para o encher e inchar de vaidade. Fez-se impante, soberbo, ufano daquilo. Assim percorre os passos naturais da chegada à meia-idade, necessitando de sinais exteriores de riqueza e status, para afirmar ao Mundo uma valia que, segundo aqueles cânones, deles deverá depender. 
Chega junto de meu Rosinha, minha canoa, coisa linda, coisa boa, ainda com dois mesinhos mal contados da vida, exclama Eh, pá, granda carro!, mal escuta quando lamento o risco que lhe fizeram de uma ponta à outra, e coloca os dois cotovelos na janela do passageiro, a cabeça dentro do carro. Sei que vai começar a feira de vaidades, ocorre-me que posso pregar-lhe um susto subindo um pouco o vidro, mas refreio a irreverência e dou-me ao sacrifício. Percebo que não aguenta nem mais um minuto sem falar na aquisição do seu orgulho, mas que tudo fará para disfarçar a pressa que tem em chegar ao assunto. Primeiro conta que foi não sei aonde, à neve, depois que veio de almoçar não sei aonde, ao peixe grelhado, e termina com:
- Já não cabemos todos no carro.
Tem três filhos, naturalmente que um carro comum fica lotado com cinco ocupantes. (O quarto filho é o filho do carro novo, eu que o diga.) Mas é-lhe fundamental à sobrevivência lembrar que o filho mais velho já tem uma namorada fixa, assim como ele foi namorado fixo durante doze longos anos da mulher com quem casou há vinte e seis, e essa longevidade, feita de antiguidade e resistência, lhe atribuirá, igualmente lá nos tais cânones, uma distinção em relação aos demais, uma espécie de voto de confiança de bonus pater familias.
- Tivemos que levar o Jaguar.
...

Já não cabemos todos no carro. Tivemos que levar o Jaguar
Isto, convenhamos, não existindo maiúsculas na linguagem falada, que imagem mental faz uma doce parola desavisada como eu?


13/03/2017

Coisas em que não é assim tão bom ser mulher # 1

Estacionares o teu carro no lugar mais impossível, entre duas colunas, em que ficam apenas disponíveis cinco centímetros para cada lado dos lados, saíres contente, mas não vitoriosa, aliviada, mas não impante, e teres que ignorar os sorrisos condescendentes, paternalistas, admirados pela sorte que protege os principiantes (mesmo, e principalmente, sem te conhecerem de lado nenhum de todos os teus) e não os audazes, a mesma sorte que não os acompanhou a eles, por falta de qualquer coisa (que passa, basicamente, por saber estacionar a porcaria de um carro). 



27/11/2016

Acho que vou montar uma escola

Por contingências cá das minhas sete vidas, vi-me na situação de visitar casas na óptica da arrendatária. Logo à primeira, saiu-me na rifa um mediador que é o exemplo paradigma de tudo o que não se deve fazer quando se vai mostrar uma casa a uma chata como eu. 
Tenho alguma pena que não sejam dadas lições de etiqueta e boas maneiras a este povo da mediação, seja lá do que for. Nem quero imaginar o gesto e modo de mediadores matrimoniais, os novos mediadores familiares. 
Estávamos um homem, uma mulher (a pessoa humana) e uma jovem adolescente. O homenzinho chegou (1) magistralmente atrasado um quarto de hora, (2) sem se desculpar ou justificar, (3) estendeu bacalhau à criança, o homem ia estender-lhe a mão, vai o homenzinho e (4) recusa, com um "desculpe", de quem diz "primeiro as senhoras" [but wait, e a miúda? Foi primeiro que eu porquê? O coiso opera por ordem crescente de idades?] e, com um gesto rápido, (5) esticou a manita na minha direcção, (6) tendo-me oferecido só mesmo as pontinhas dos dedos. Deu-se que a casa era um 4.º andar sem elevador, e começámos os quatro a subir os oito lances. Deu-se ainda que eu estava de saias e (7) o homenzinho deixou-se ficar para último. Como eu não ia imediatamente na dianteira dele, ainda aguentei a cena até ao segundo andar, mas, lá chegada, e por ter sido ultrapassada e ter ficado mesmo à frente dele, decidi parar e disse-lhe que subisse à minha frente. Ele que não, que não tinha pressa (8) [a chamar-me cansada, velha e desgastada], que eu subisse à frente. Eu que a regra dita que os homens sobem à frente das senhoras, (9) mas o cavalo não percebeu. Deu-se ainda que cheguei ao 4.º andar incapaz de não lhe ferrar com um salto dos meus no joelho, que também ninguém o mandou ir quase colado a mim escadas acima. Até por questões de segurança. 
É claro que não quis a casa. 

[Os números de (1) a (9) são as falhas que o homenzinho cometeu. Nem que a casa fosse um palais e estivesse de borla. Pata que o pôs.]

31/05/2016

Hoje quem manda aqui sou eu: os problemas dos homens # 4

Hoje acordei a querer perceber uma nova moda que para aí anda, que é a dos sapatos encarnados. 
Tudo começou um dia. Ia eu a passar na rua, e cruza-se comigo um personagem, todo vestido de preto, e de téne encarnado. (Sim, já sei que o singular de ténis é téne. É como o singular de Paez ser Paê. Chiu.) Pensei que prontos, aquilo fosse um golpe de originalidade, ou o único par que o jovem teria à mão — haha — ou um ponto de quebra do black total look. (Eu também faço isso com a minha mala amarela, ou com a minha pashmina azul. E fico Linda.) Mas não: depois vi mais, e mais, e cada vez mais, até que se tornou uma quase-regra andar de téne encarnado. Ora, convenhamos.
Ontem estive à beira do stroke por três vezes no mesmo dia, e uma delas deveu-se exactamente ao facto de ter avistado um homem de sapatos encarnados, estava eu muito descansada a comprar alfaces. O que me ia levando daqui nem foi propriamente o sapatongo, foi mesmo o todo do mastronço: fato rosa-velho, aquele tom entre o rosinha-minha-canoa e o velho-mariconso, dois números abaixo do recomendável para semelhante corpitcho, pois que se lhe transbordava todo pelas costuras. 
A este propósito, hoje venho ensinar uma coisa aos homens do meu país, que é para que não andem, como aquele, por aí a arriscar-se a provocar o enfarte a senhoras de idade como eu: o fato completo, seja ele rosa-velho a combinar com sapatos encarnados, ou seja ele amarelo-limão a combinar com sapatos beringela, nunca por nunca deve ser dois números abaixo do vosso percentil. Para além dos riscos que correm, por exemplo, ao sentar, de romper literalmente pelas costuras, o fatinho pequenininho faz-vos, como direi isto sem parecer cruela?, mais gorduchinhos, fonfom, fofuchos do nosso perímetro.
Eu amostro, que isto nada como ilustrar: o fato dois números abaixo fica bem a este tipo. E a mais nenhum. 

Ryan, o giro, na fatiota de Crazy Stupid Love. Maluco. Estúpido. Amor. Riquezas de sua avó.
 De nada.

17/05/2016

Eu queria ser o homem da blogobola

Assim contas feitas por alto, são quantos, ao pé de nós? Dez por cento? Vinte, no máximo. E não estou a contabilizar quem tem dois ou mais blogues, que los hay.
É que isto chateia. É tão cansativo como trabalhar numa fábrica de parafusos e, para se ganhar dois terços, ter que se fazer o dobro dos parafusos em metade do tempo. 
Isto faz saltar os parafusos.
Uma pessoa senta-se na cadeirinha nova, azul de linda que é, amanda os dez pequenos fósforos ao teclado com vista (larga) a incendiar isto tudo, chega a meter a ponta da língua ao canto da boca como os gaiatos a aprender a escrever, bomba na tecla, acha-se com garras para ela, faz um esforço homérico — ou helénico, para ser mais consentâneo —, puxa pelo bestunto, sua as estopinhas e todos os tecidinhos, incluindo os moles do organismo, esfalfa-se e esfola-se, bate com a cabeça em todas as paredes adjacentes e limítrofes, arranca parte da cabeleira (tipo um fio, senão era a desgraça pilosa em menos de nada), tudo para lhe saírem, na melhor e na pior das hipóteses, duas linhas com nexo, conexas, quando a eles basta chegarem ao brinquedo, semi-serrarem os olhos, criar mensagem, deixa cá ver, hoje é sobre o mundo, zás-trás, três linhas, dez linhas, e pumba, publicar e ficar a ver o Sigh Counter a elevar-se na estratobola da blogobola como se não houvesse depois de amanhã. 
Juro que estou a pensar em inaugurar (montar? fabricar? urdir?) um blog masculino, como já vi por aí fazer com maior ou menor habilidade. Depois escrevo para as massas e vamos lá a ver quem é que suspira mais profundamente, mais alto e mais vezes. Vou transformar isto numa aula de Pilates, em que o Pilateiro, desta vez, serei eu.
O único problema que terei que resolver, é de somenos: as p. das hormonas. Porque é sabido que nós, femedo, somos aquela panela de pressão, fssssss, sempre pronta a piiiiiiiiiiiiiiiii, senão buuuumba. Naqueles dias, ou naquelas horas, em que nos encontramos desencabrestadas, e o ideal e mais sensato seria não escrevermos, pode tornar-se complicado disfarçar o género. Mas eu cá me arranjo.
Também não quero imaginar os dias, como estes que tenho vivido, em que nos encontramos em fase de enamoramento por umas sandálias, e não há como disfarçar a cara de bambi quando pensamos nelas, quanto mais quando nos sentamos a escrever para as massas anónimas. Mas eu cá me arranjo, já disse.
É isso: vou despoletar (detonar? destravar? desencadear?) um blog à homem, em que possa livremente falar de sandálias bonitas. E não, não será concorrente do Cláudio Ramos, porque no meu não haverá erros ortográficos a cada duas palavras. Desculpa, Cláudio, se vieres a ler-me, mas tens que despedir o teu editor de texto, dizendo-lhe que ele está guardado para melhor e que estão a recrutar nos Comandos.

28/04/2016

Velhas máximas sobre os homens que nunca ninguém me ouvirá dizer # 4

Que lindo que fica um homem com os óculos (podem ser de sol) a fazer de bandolete
ou
Que lindo que fica um homem com os óculos (podem ser de sol) pousados no meio da testa

A sério. Cada vez que vejo algum nesse preparo, penso logo que me vai: 
1. Dizer que é da óptica e está a vender um desconto igual à idade, só para me irritar;
2. Tentar vender cabides; 
3. Perguntar a direcção da rua aonde ambos nos encontramos;
4. Perguntar se eu não entrei numa novela. [Esta nem sequer é inventada. Nem sei como não tive a presença de espírito de responder: "Sim. Fazia de criada n'"O espelho dos Acácios".]
5. Dizer uma frase qualquer, com tema aleatório, em que entrem, forçosamente, as palavras "fostes", "grama" (conjugado no feminino), ou tentar saber o meu nome para — se eu, estupidamente, lho dissesse —, me tratar por "Ó dóna". 

Hoje estou nos cascos, no meu melhor daquele pior que consigo atingir. 

17/04/2016

Hoje quem manda aqui sou eu: os problemas dos homens # 3

Vou falar na terceira pessoa, porque isso é mais à blogger e eu já estou suficientemente irritada, para que alguém ainda fique a pensar que lá está a gaja, olha a convencida, olha a top model, trinca espinhas o caraças e quem vai à guerra dá e leva.
A terceira pessoa sofre.
Eu quero perceber o que é que leva um homem a perseguir uma mulher no ginásio. Ou no escritório. Ou na mina. Isto é, perseguir, no sentido de seguir atrás, ir para todo o lado para onde ela vai. E não se dar conta de que toda a linguagem corporal dela diz: "Deslarga-me, genitais!". 
Vamos supor que o campo de visão da terceira pessoa é de 18, vá, 30º, vistas estreitas e curtas, palas dos lados, como o jerico. Na imaginação do homenzinho, se calhar, o melhor é colocar-se exactamente a 90º, à distância de dois metros — ou ainda menos! — dela. Que é para ela o ver bem. Não há nada que lhe indique que, se ela projecta o olhar no tecto — cheio de cabos do ar condicionado e calhas técnicas de tudo e mais um par de botas —, ou à esquerda — onde se encontra uma parede branca, ou à direita — onde nada se passa —, poderá querer dizer que, de todo, não quer olhar para ele? Não há um segundo de dúvida que o leve a concluir que não é ficar especado, parado, imóvel, inanimado, a brincar aos frequentadores de museus, que vai fazer com que ela vire o olhar na direcção dele, lhe sorria candidamente e lhe diga: "Importa-se de me possuir agora e aqui?". Acaso não lhe ocorre que o facto de ela mudar de sala com uma frequência que não obedece a outra cadência senão a de não estar onde ele está, pode ser porque ela não quer estar onde ele está?
É verdade que uma solução possível seria a terceira pessoa exibir um belo — porque é dotada de belos dedos — pirete ao homenzinho. Mas vá que ele interprete o nobre gesto lá à maneira dele, e julgue que a desgraçada quer significar "O que eu quero sabes tu", numa derivação de "Importa-se de me possuir agora e aqui?"? É que, com gente que não se manca, todo o cuidado é pouco, e isto de ser bela consegue ser um transtorno equivalente a ser burra. A terceira pessoa que o diga. 
(Sim, já sabemos: não te maquilharás, não vestirás o que te favorece, não cuidarás do cabelo, encher-te-ás de enchidos — passe o pleonasmo —, arrastarás o chinelo, e ninguém mais arrastará a asa por ti, nem mesmo os abutres. É verdade. Também deixarás de tomar banho, de lavar os dentes, de cortar as unhas e de pentear o cabelo, que isso são tudo artificialidades que derivam da vaidade. Também deixarás de fazer ginástica — e, lá está: nunca mais terás problemas na pdv, porque será, certamente, esse tipo de atitude que fará com que o pessoal que não tem noção desapareça da face da tua terra.)

15/04/2016

Hoje quem manda aqui sou eu: os problemas dos homens # 2

Ginásio, fim da tarde, mês de Abril, sexta-feira, chuva — tudo se conjuga para que esteja cheio, a abarrotar, transbordante pelas costuras. Numa palavra, gordo.
Sala de treino, gente a mais, máquinas a menos, bocados de tempo à espera de umas, fazem-se outras para não arrefecer
Está uma toalha no assento da máquina que eu quero usar, e trato de a tirar de lá, depois de esperar 4-3-2-1 segundos, que isto, quem vai ao ar, olha agora, marcar vez numa máquina, não faltava mais nada. Sento-me e vem de lá um calmeirão, com os dentes todos de fora, parecia o Johnny Bravo. (Só não ia de óculos de sol, mas, em compensação, havia um jovem cheio de estilo uns metros adiante, que estava com o capuz da sweat posto na cabeça. E outro dia vi lá um de cap, a treinar.) Só aí é que percebi que a máquina estava a ser possuída pelo calmeirão, e eu tinha ido ali interromper qualquer coisa. Diz o calmeirão ai que eu podia alternar a máquina com ele, que só lhe faltavam duas séries. Olha, agora alterno com este. OK, mas que mudava os pesos, que a largura das minhas costas é sensivelmente metade da que têm as dele (esta última parte não disse, mas pensei), e vai ele e que sim. 
Tinha a máquina para 54 quilos, eu lá baixei para os meus 45 e zupa-zupa, dei-lhe quinze vezes e já sentia as têmporas a rebentarem as duas de esguicho, mas levantei-me que parecia uma dama antiga, e fiz-lhe aquele gesto take-your-seat, ou a-menina-dança-?, que são quase iguais. 
Ele é capaz de não ter gostado de só ter usado mais uma dezena mal pesada de quilos do que eu, pois meteu aquilo para os 64 e zupa-zupa, nem lhas contei, que eram de raiva, e desconheço em que estado ficaram as têmporas do bruto. 
Passa-me a cadeira outra vez, ai queres alternar?, então pega: mais quinze nos meus 45 quilos, arrebentei-me toda, mas também o apanhei distraído e, antes de sair da máquina, mudei-lhe aquilo para os 82, que é para não se armar em brutamontes indelicado. 

Hoje quem manda aqui sou eu: os problemas dos homens

Estou ao balcão da charcutaria, e é chegada a minha vez de ser atendida. Ao meu lado está ele. Toda a sua movimentação corporal me diz que ele acha que chegou primeiro que eu e, por conseguinte, deve ser atendido antes — porque eu sei que tenho o dom da invisibilidade. (Havia de desenvolver isto em meu favor, até agora só tenho tido prejuízos.) Bom, mas dizia eu que ele se pôs em campo para me passar à frente, e porque me terei tornado opaca no mesmo instante, ignorando-o, desistiu — o que também li na sua linguagem corporal —, e ficou expectante, enquanto eu pedia, musical:
- São duzentos gramas de fiambre, por favor.
Engraçado. Quase jurava que o vi revirar os olhos.
No entanto, esperou, com a paciência impaciente de quem desespera, que caíssem no papel, fatia após fatia, os meus duzentos gramas de fiambre.
Chegada a sua vez, ouço-o dizer, desafinado:
- São duzentas gramas de fiambre, por favor.
Engraçado. Quase jurava que me vi revirar os olhos.

31/03/2016

Tonifika-te




É mais na Segunda Circular que me acontece: vou ali a passar e aquilo está tão bem colocado que nem à visão periférica escapa. Refiro-me aos outdoors do Tonik, aquele ginásio que diz que já tem 13 anos, mas do qual eu só comecei a ouvir falar anteontem, e vocês hoje e agora. 
Daqui fala-vos uma pessoa que, conforme sabeis — e, se não, ficais a saber agora (isto hoje é só surpresas, pareço um ovo Kinder*) — pratica exercício físico, e não só o mental, ao qual assistis diariamente, com uma profusão que até a mim assusta.

Não sei porquê. Ainda hoje, não sei por que é que ando no ginásio. Aquilo cansa-me dos músculos e da mente; obriga-me a uma organização psíquica, física e estratégica que não foi feita para mim. Eu sou do sofá, e o sofá tem-me. Eu sou da pipoca, do hambúrguer e do Ginger ale, e eles são meus; gasto lá dinheiro; comprometo o meu descanso dos sábados e dos domingos; fico toda suada e a sentir-me um sebo; aturo o cheiro a suor e a chulé de uma série de desconhecidos (não perdendo a oportunidade para orar no sentido de que não passem a conhecidos — aquilo a que a linguagem facebookiana chama "amigos", hahahahehehehihihihohohohuhuhu —, e de oferecer em sacrifício pela saúde dos meus); partilho o balneário com uma data de mulheres e miúdas, algumas tontas como baratas; topo e interpreto, com o semblante mais inexpressivo que consigo forjar, mas com a tensão arterial a níveis exponenciais e a têmpora prestes a rebentar, os olhares mais diversificados que me são dirigidos, entre sou-muita-bom-não-sou-?, tásmaquerer, deves-ter-a-mania, fraquinha, ó-minha-senhora-já-deslagava-essa-máquina-que-é-para-jovens, que-gorda, que-magra. Devia odiar lá ir. E odeio, mas vou, porque adoro sofrer e posso ter reencarnado no Marquis (allo, ça va?).

Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas (eu hoje estou este poço e vou continuar no registo via de ensino), não existem corpos perfeitos. E isto também é válido para os ginásios. Ninguém que frequente um ginásio (e faça exercício, que isso de lá ir ver as vistas e conversar com os PTs também não tonifica, a não ser os globos oculares e a língua), passa de gorducho ou gordinho a Iron Man, e, em princípio, a inversa também é verdadeira. Mas não é isso que diz a campanha do Tonik. Diz que sim. Mais: promove a ideia de que magreza é beleza, e que os gordos têm que ser todos infelizes ou carrancudos, já para não dizer mal sucedidos. E que só depende deles (ATÉ QUANDO?) mudarem essa imagem e essa forma de estar, para a de magros e fixes.

Por acaso, a mim, que tenho a PDM, instilam-me, devagarinho, a ideia inversa.




* também não me importava de ser patrocinada pelos ovos Kinder, vejam lá isso. 

14/02/2016

Velhas máximas sobre os homens que nunca ninguém me ouvirá dizer # 3

Os homens não servem para nada

Só quem nunca, como eu ainda há pouco, aflitinha que estava para abrir um frasco de tremoços, é que pode afirmar uma leviandade destas. No meu plano dietético estão previstos e não punidos os tremoços, aqueles que gozam da fama de marisco dos pobres, que eu acolho no meu pobre seio de pobre, quantas vezes de espírito, quantas vezes de nobre (isto não é verdade, mas rimava e a métrica é quem mais ordenha). 
Porque até me ajeito a desentupir canos e consigo não vomitar as tripas diante daquela papa preta, de nhanha e cabelos, com cheiro a inferno, que de lá extraio; 
Porque até lembro uma pistoleira a sério quando uso o berbequim;
Porque até prego pregos nas paredes (sem cair um naco de estuque para o chão e tudo), e amigos do senhorio que não tenho (o senhorio, que amigos acho que ainda me sobram), e aqueles preguinhos de plástico muito horríveis que se inventaram há uns anos, mesmo sem martelar a unha contra a parede; 
Porque até sei atarrachar para o lado certo e sei o que é uma chave de quatro. E sei desatarrachar, também; 
Porque até pinto paredes, com rolo e esmero, e trincha e preceito, pareço mesmo o Michelangelo, mal comparado.
Toca a abrir frascos, e eis-que-me assemelho logo a uma menina. Até coloco a manita esquerda, porque eles (os frascos) abrem para a esquerda, e faço força e respiro, força e respiro, qual puérpera em pleno Lamaze, tudo sem epidural, depois chamo reforços tão femininos quanto eu, ainda tenho que ouvir "Calma. Nós somos mulheres independentes", já eu desisti da independência, do separatismo e da guerra dos sexos em geral, e de provar o que não valho, a hora é de aflição, o tremoço boia à transparência do indescerrável frasco, é clamar pelo homem e aquilo são 3-2-1 segundos agarrado à tampa — e, subitamente, ela move-se.

19/11/2015

E aquele tipo

de homem — que há-de ter um correspondente feminino, mas eu não sei, nem me interessa, qual é (a dengosa?) — que chega e sente que domina, impondo uma presença que não é necessariamente agradável, tira partido de uma estatura quase gigantesca — altura exagerada, quase encurvado, cabeça-cabeçorra, mãos-manápulas, voz de trovão — excesso de simpatia intimista no primeiro contacto, "Passei aqui só para lhe dar um beijinho", beijinho mole e lento, passagem mole e lenta para a bochecha seguinte, e uma pessoa a despertar os sentidos todos, a ver se a patorra não roça a linha do soutien, o nível das costelas, ou — oh, cúmulo do suplício — a cintura, enquanto constata, mais uma vez, que este tipo de homem nem sequer — ao menos!, pelo menos!, no mínimo! — é bonito. Fora a mãe que o pôs no mundo, que lhe terá repetido ad nauseum Meu filho, tu és lindo!, que é o que qualquer mãe normal faz ao seu filho [e eu sei-o por experiência, mas o meu é lindo de morrer], mas fora isso, quem raios convenceu este tipo de homem de que são os maiores, o mundo em que circulam é uma grande coutada de fêmeas disponíveis e dispostas, e tudo o que mexe é para se comer? O espelho?
Céus, quanta dioptria.


03/11/2015

Não adoptem mais esta, por quem sois!


A mim custa-me que tenha que ser "o meu mês" que é sacrificado para tradições directamente desligadas da higiene corporal. Ainda que fosse da mental. Mesmo que me digam que é por uma boa causa (lembrar o mundo — designadamente o mundo que nos rodeia diariamente, tipo família, colegas, povo que traseunta connosco os passeios, as estradas e as corridas — da existência do cancro e de uma das consequências do seu tratamento, que é a queda do cabelo), a mim retorce-se-me logo o narizinho preconceituoso, inflamado não pela adenoidite (já mos arrancaram, anyway), mas pela convicção de que, regras destas, aplicadas à escala nacional, dão merda. E não me estou a referir a merda enquanto adjectivo qualificativo, mas a merda stricto sensu, na acepção olfactiva do termo. Nosso nobre povo, em larga escala de moura tez morena (na qual orgulhosamente me incluo), deixa de se barbear e, daí a adoptar o kit completo barbudo-deslavado-piolhoso, vai um ai — ai Jesus, ai quem me acode, ai some-te daqui.
Eu podia fazer disto um post sério, porque o é, e falar da importância do cabelo para as pessoas doentes de cancro, muito em particular para as mulheres. Assisti ao vivo ao desgosto de uma senhora que tirou a mama e me disse com todas as letras que, à noite, quando se despia de roupas, soutien adaptado, prótese, cabeleira e olhares curiosos, mais do que ver-se sem mama, o que mais lhe custava era ver-se sem cabelo. 
Mas não vou (só) por aí. Não barbear em Novembro (e suspeita-me que o femedo não se rapa neste mês, coisa que, ó pá, não comento, não vá dar-se o caso), a mim dá-me logo o pânico, só de imaginar que os heróis do mar são gajos para completar o calendário, como aqueles bombeiros de Setúbal, com dicas mês a mês.

NO SHOWER JANUARY
NO BEING AN ASSHOLE FEBRUARY
NO BALLS-SCRATCHING MARS
NO FART APRIL
NO BURP MAY
NO LIE JUNE
NO MISTREAT JULY
NO TEETH-PICKING AUGUST
NO NAILS-CUTTING SEPTEMBER
NO SWEAR OCTOBER
...
NO STREATER HAIRASSMENT DECEMBER

Se a coisa pega, plizz-plizz, wake me up when November ends. 
(Não me choca perder o meu aniversário. Até pode ser que o tempo deixe de contar para mim.)

04/07/2015

Os homens também têm o período, não têm?

Por acaso, acho isto há anos, mas não consigo comprovar. Se calhar, não têm.
Mas parece.
Também eles têm épocas do mês em que estão mais rabugentos. Mais implicantes. Mais incapazes de nos ouvir, de nos receber com boa cara, de nos aturar. E também com mais apetite. Esse também.
Parecem gajas.

Hoje apanhei Pilateiro de má maré. Bandeira vermelha. O mesmo que faz a fineza de, sistematicamente, passar por mim e fazer aquele gesto com o dedo espetado — o polegar, genitais —, que até parece o like das redes, ou seja, que demonstra, por linguagem gestual, o quão aprecia a minha movimentação corporal, olha, hoje armou-se em esquisito e corrigiu-me não sei quantas vezes, que lhe perdi a conta ao número de mãos que o homem tem, agora o pescoço, agora a anca esquerda, agora os ombros. Ou fui eu que acordei marreca e hoje fiz tudo mal. Deve ter sido do xitex de estar a estrear um top da Primark que comprei nos saldos e faz de mim a Sofia Vergara daquele ginásio, mas em melhor — pelo menos, segundo a douta opinião do meu espelho de casa, mas parece que os de lá não partilham da mesma. Quero lá saber, fiz a minha obrigação, que é manter-me este brasedo que até queima, e cagari na má disposição do menstruado. 

A linguagem pilateira continua a descoordenar-me ao nível cerebral, enquanto tento que o mesmo não aconteça no plano meramente físico. André Pilateiro dá-nos comandos como
Sintam que engoliram o vosso soalho pélvico,
Certifiquem-se que a ponta do vosso nariz fica alinhada com o púbis.
Não quero imaginar que imagens mentais fazem os homens neste momento em que ouvem falar da ponta do nariz. E depois aquilo do púbis. 
Ainda por cima, sugeriu-nos que, para nos orientarmos, podíamos usar o umbigo como ponto de referência. Ora, vejamos: eu tenho um nariz de antologia, uma coisa que nem o Cutileiro era capaz de reproduzir em calhaus. Mas o meu umbigo, tal como o de qualquer ET que se preze, tem um marcado desvio para a esquerda, de cerca de dois centímetros. Tive que me abstrair dele, e referenciar-me apenas ao arco, ou linha recta nariz-púbis, e vá que não tenho mais nada desviado, nem para a esquerda, nem para a direita, caso contrário era verem-me com a cabeça aos ziguezagues pelo meu torso abaixo, a tentar alinhar o nariz sei lá com o quê meu de mais íntimo. Um transtorno.

A verdade é que terminámos a aula em arado, mas quando digo terminámos, foi só ele e eu, que não vi mais nada que se parecesse com arados nos cinquenta metros quadrados que há-de ter aquele cubículo. Mas foi também o que determinou que, mais uma vez, eu fosse a única pessoa, de um grupo de trinta, que ficou de rabo virado para o mestre.


Ele é muito bonito. Tem um corpo absolutamente perfeito, e uma cara lindíssima, de olhos azuis escuros e voz rouca. E sabe que é assim, porque os espelhos de casa e os dali lho devem dizer sem rodeios. E também é metrossexual. Todas as semanas leva o cabelo e a barba com cortes novos, cada vez mais inovadores. Esta semana, acho que entregou a cara a uma daquelas grandes malucas, malabaristas da linha de coser, que lhe depilou as sobrancelhas, que são grossas e fartas, à parva. Não gostei. Ficou depilatado, hahaha, esta foi boa. Devia ter-lhe dito, já que hoje estávamos numa de pôr defeitos um ao outro. Fazia-lhe um unlike.
Depois fui para a praia e a bandeira estava vermelha. Faz todo o sentido.
O cosmos fala connosco.
Eu acho.

30/05/2015

Ser dependente de cafeína é muito triste

(não sabia que título dar a isto, porque tenho sono)

Ah, já sei:

Tenho sono

Acordei a ferros, estava lá tão bem, icei-me de grua, arrastei-me a penas das mais duras e submergi-me em Pilates, imediatamente após angustiada constatação de que o café acabara.
André Pilateiro tem vindo a melhorar com o tempo, assim como o vinho do Porto e eu.
Passou ali uma fase lumbersexual, com mais barba do que cabelo — que também não lhe falta —, mas felizmente há luar, e há mulheres no mundo, e alguma lhe há-de ter dito, com melhores ou piores modos, Corta-me essa barba, pá!, que ele lá lhe fez, de entre outras talvez, essa vontade.
Desconheço, com sinceridade, o que é que fui fazer hoje para o ginásio, a não ser que me movesse a ideia subconsciente de encostar o lombo por enquanto não sovado por algum subcomissário desta vida, num colchonete daqueles, esses sim suados e batidos, que só a um corpo exausto como o meu podem apetecer, já que a cabeça desistiu, por escassas vinte e quatro horas, de tecer bordados de raciocínios válidos. 
Ando assim, a precisar de dormir por anos seguidos, desde que tomei as três colheradas bem aviadas de anti-histamínico e a garrafa de Cartuxa, embora não o tenha feito no mesmo momento. Exaurida, é o meu middle name do momento.
Pilateiro apareceu de boneca ao colo e isso fez-me imediatamente considerar, mais uma vez, a possibilidade de raptar uma criança — que, convenhamos, nem sequer cumpriria os requisitos do crime de rapto, uma vez que não haveria lugar ao pedido de resgate, quanto mais à devolução da raptada. Pronto, um criminho de subtracção de menor e não se fala mais nisso. 
Justificou-se ele que ela havia dado uma péssima noite lá em casa e, como entendeu que a mãe precisava de descansar, levou-a com ele para a labuta.
Perfeito. 
Homens, aprendam: podem ter os abbs mais definidos do mundo (quando, na verdade, nós não estamos minimamente interessadas em lavar cuecas à mão nesse tanquinho), podem ter a maior cara de anjo (mesmo que devasso), podem ser o cavalheiro mais requintado de todos os nossos castelos de areia, podem ter uma voz que nos põe as borboletas a provocar o caos desde a Austrália, que nada bate a imagem de um papá com uma menina de um ano ao colo, sobretudo e muito em particular se ela deu uma má noite, vai de babygrow e chucha na boca, e ele todo despenteado e sorridente de sol. 
Era assim: eu ia para me encostar ao colchão, ora levanta um braço, ora as duas pernas, ora respira fundo, ora, em calhando, fecha os olhos e dá uma de Bela Adormecida, que se ôda. 
Foi assim: levanta um braço [acho que agora é uma boa altura para a roubar], levanta as duas pernas [ai, que fofa, vou-me agarrar a ela e enchê-la de beijos], respira fundo [tão querida, está a adormecer, ai... e eu... queria... tanto... levá-la... para... casa... mesmo... a... dar... más... noites...].

Nem me quero lembrar do que significa para o corpo e para a cabeça uma noite totalmente em claro, por conta da gritaria de um bebé.
Ainda bem que não a roubei. Teria que a devolver ainda hoje.