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24/09/2018

Bola prá frente

Coincidência — ou sei lá se talvez não — é ouvir no mesmo dia, com meia-hora de diferença, em dois locais totalmente distintos da cidade, mas exactamente pelo mesmo motivo, a expressão 'bola prá frente'.
Tratada e assinada a papelada necessária por motivo da morte da minha mãe, estou a levantar-me da cadeira onde me havia sentado, quando o funcionário que acabou de me atender me aconselha: Bola prá frente.
Deixo-o para trás e vou ao cemitério. Preciso de tratar de mais uma questão burocrática, que não é urgente, não fora a urgência de desapertar o coração, indo ver os meus pais.
À saída, cruzo-me com algumas pessoas que ali ficaram a conversar, depois de terem ido deixar alguém, que não sei quem nem porquê, mas imagino. Avalio o tamanho do grupo, as idades, a ausência de lágrimas, o despojamento, e sei, ou ponho-me a adivinhar, que terá sido uma pessoa de muita idade, ou tão doente que a morte lhe sobreveio à vida como um alívio seu e dos seus. Não faço julgamentos, who am I to judge? Não sei para o que estou guardada, e, na verdade, também não quero saber. É quando ouço um dos elementos do grupo dizer para outro, eventualmente mais enlutado, mais próximo do falecido: "Agora é bola prá frente". Há algo que me tranquiliza quando percebo que não me vou cruzar com alguém que esteja a chorar. O meu primeiro impulso é sempre socialmente inaceitável, e, por isso, prefiro seguir caminho para a vidinha, deixando a morte — e uma considerável parte da minha vida — para trás. A bola, essa, é prá frente, dizem eles na sua imensa sabedoria futebolística. Seja qual for o tamanho da perda e a dimensão do desgosto.



19/07/2018

podia ser (a) minha mãe

Saímos da padaria, ela à minha frente, uma muleta num braço, um pequeno saco, com um pãozinho lá dentro, na mão do outro. Pretendeu descer os dois degraus que a separavam do passeio, apoiou o braço que levava o saquinho num murete logo ali ao lado, pôs o pé da muleta no primeiro degrau e o saco caiu ao chão. Desviei dois passos do meu caminho que havia de ser feito com duas pernas saudáveis até um carro confortável, e segurei-lhe o braço sem muleta, dizendo Vamos descer juntas, pois que sempre me deixou desconfortável o verbo ajudar. Assim fizemos, alcançámos o passeio em segurança, entreguei-lhe o saco que, nem quero imaginar, seria o jantar dela, até que ela disse, Que Deus lhe dê tudo o que a senhora desejar, e eu debati-me entre duas verdades íntimas e, se calhar por isso, dolorosas, Já deu -, pensamento posto nos meus filhos -, Já tirou também -, pensamento posto nos meus pais. É esta a lei da vida, dizem, e eu aceito, quem sou eu para contestar leis, ainda mais se forem dessa tal vida? Fiz o pequeno percurso até ao carro de cabeça baixa, envergonhada de mim, dos meus pensamentos, da minha heresia ou da minha descrença. Ela seguiu, desapareceu logo, talvez se tenha refundido com a calçada ou com o ar, posso tê-la sonhado, quem sabe não ando a delirar de saudades, se ela podia ser minha mãe.

30/05/2018

Duas linhas paralelas que se encontrarão no infinito

Era uma vez um homem que, pouco depois dos quarenta, sofreu um acidente muito grave, que o atirou para uma cama de hospital, num coma que parecia não ter fim. A mulher, médica, persistiu na ligação de todas as máquinas que lhe suportaram a vida durante quarenta dias, contra todas as perspectivas, contra a vontade de todos os colegas que observavam o marido, contra a lógica científica. Uma familiar, em visita, ouviu o seguinte comentário de um para outro: "Mas o que é que ela quer mais? O homem está morto!". E, dessa mesma "morte", um dia o homem "ressuscitou" e ainda sobreviveu mais vinte anos, sem sequelas, fazendo felizes mulher e filhas, e mãe e irmãos, e cunhados e sobrinhos, e sendo feliz, também ele. A tal morte, quando veio, não adveio em consequência do acidente.
~
Era uma vez uma senhora, passados que haviam sido os noventa anos, frágil como um passarinho, que caiu doente com uma doença que de nenhum cuidado seria, não fora o factor idade, o factor debilidade física, o factor indiferença pelo mundo. Contra todas as perspectivas, contra a opinião de médicos, de ombros encolhidos e a palavra "idade" a cada suspiro, contra a lógica científica a que o pequeno corpo recusou obedecer, a senhora recuperou e, apesar de (não há melhor metáfora, daí o pleonasmo) frágil como um passarinho, saiu do hospital para viver ninguém sabe quanto mais. 
~
Estas são as histórias do meu pai e da minha mãe, assim ordenadas por uma mera opção cronológica. 
Esta é a minha opinião sobre a eutanásia. Baseia-se apenas em — dirão alguns, pobre — experiência pessoal. Nem sequer tem influência religiosa — com aquela base "o que Deus deu, só Deus pode tirar", pois que, contra-argumentando comigo própria, também por uma lógica estritamente científica, se fui eu que dei vida aos meus filhos, também só eu... É que não. 
Não sou fundamentalista em relação a coisa nenhuma. Mas não consigo estruturar ideias inteligentes e forma(ta)das quando o assunto é amor.


19/03/2018

o odor do amor

Houve aquele momento em que ele pediu que, de olhos fechados, nos lembrássemos das três mais remotas recordações da nossa infância. Não preciso de fechar os olhos para saber que todas as que trago guardadas em mim há mais tempo estão ligadas ao olfacto: tenho comigo o cheiro da minha mãe, da sua pele branca e lisa, orvalhada de um perfume desaparecido há muitos anos, dando-me que pensar se esse não terá sido também o ponto da sua partida. Conservo intacto o cheiro do meu pai, dos abraços com braços pequeninos e de cabeça encostada às pernas dele, ao abdómen, mais tarde ao coração, e a passagem neles da certeza de que tudo estava bem e de estar num abrigo que jamais me faltaria. Ficaram-me outros tantos odores só meus, do mar da Costa, dos pinheiros carregados de resina, da lareira no Alentejo, das azeitonas nos alguidares de barro, dos tarros de cortiça, da casa da minha avó no Porto, dos móveis passados a óleo de cedro da minha Titi, das sardinheiras da sua varanda, dos lápis de cera e dos pincéis na escola, das sardinhas na Feira, e do vento, que nunca mais cheirou da mesma maneira. Todos são irrepetíveis mas eternos, se calhar por serem meus, apesar de eu já não ser aquela mesma. 
E os olhos do meu pai. Havia também neles um odor de desvelo e entrega, que era o odor do amor.
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.


08/02/2018

uma varanda, duas janelas

Umas vezes porque calha, outras porque tem que ser, em todas elas porque o coração assim mo dita, passo pela casa dos meus pais, nos percursos vários que a vida me destina. É uma passagem breve, porque apressada, porque de carro, porque é assim que tem que ser. Morávamos numa avenida larga, com muito trânsito, que hoje talvez tenha dobrado, mas já não estamos ali. A varanda e as duas janelas, sempre presentes, passam-me pelos olhos, que as percorrem. Elas ali ficam, intactas, porém já não à nossa espera. Certamente, sabem que não voltaremos. Naqueles dois segundos que desvio o olhar para lá, sinto-as reconhecerem-me, e acenarem-me adeus, um adeus de olá, tão minhas que me são. Ontem à noite, a luz do quarto dos meus pais estava acesa. 
Não sei por que não subi, não meti a chave à porta e não me aninhei de saudades, ontem.
Também não sei se deixarei um dia saudades do som dos meus beijos.


17/11/2017

dignidade

Fui encontrá-lo muito velhinho, tolhido pela doença que o definha há mais de vinte anos, cruel e sarcástica, de roer músculos e ossos, de deixar a cabeça intacta. Contra todas as expectativas, continua bonito, a mesma proporção perfeita em todos os quadrantes do rosto, o mesmo sorriso impossível, que a doença proíbe, o mesmo sentido de humor dos Natais da minha infância no Porto, a mesmíssima alegria por me ver chegar. Acho que nunca o tinha abraçado tão longamente, nunca lhe tinha dado tantos beijos, mesmo somados todos aqueles que lhe dei ao longo da minha vida inteira. 
Meu tio, meu querido tio. 
A afinidade é aquela espécie de parentesco que acontece por adopção, e essa pode acontecer por via do coração. Marido da irmã do meu pai, meu tio, meu querido tio do coração. 
Não me viu crescer, sequer envelhecer, perguntou se eu tenho vinte anos, numa quase gargalhada sem vestígio de confusão — elogioso, amoroso, íntimo. 
Depois, aquela sopa que teimava entornar para fora da tigela, derramando-se pelo prato afora, aquela colher que não chegava cheia à boca, e a minha hesitação — num daqueles momentos em que qualquer decisão que tomemos será forçosamente a decisão errada —, logo seguida da pergunta sussurrada,
Tio, quer que eu faça isso?
Quis evitar a todo o custo o verbo "ajudar", que tanto me consome. 
Num silêncio sem olhar, sem qualquer movimento de cabeça, ouvi dele, no mesmo tom quase mudo,
Não, filha. 

23/06/2017

um copo cheio de amor

Existem refeições em que a comida, por muita que seja à mesa, parece nunca ser suficiente: ou porque alguém não lanchou, ou porque está tudo muito saboroso, ou porque está calor, ou porque as hormonas pedem, ou porque estamos todos cansados e a refeição nos aconchega, ou porque está a ser bom estar à mesa, ou até porque sim. 
Estava "só" eu e todos os filhos que pus no Mundo.
O sumo acabou logo que começou a refeição. Só havia para um copo, ele quis reparti-lo comigo, mas cedi-lho por inteiro, porque mais vale um copo cheio do que apenas meio cheio. (Não se considera a possibilidade de copos meio vazios.)
Era uma refeição de comida vegetariana, comprada fora. 
Uma pediu para ficar com um pouco da dose de tofu que havia de me calhar a mim, uma vez que tinha ficado com pouco e não come seitan. Cedi, dei-lhe a maior parte do "meu" tofu. 
Outra disse que estavam deliciosos os bolinhos [de não sei quê], e eu tinha um no prato. Disse-lhe que ficasse com ele, ela que não, eu que ficasse, ela que não. Então, falou ele:
- A mãe já não vai comer o bolinho, é melhor aceitares.
- Come, sim, não come porquê?
- Porque é mãe. — Disseram os olhos lindos e enormes do meu Henriquinho, que me matam as saudades só de olharem assim para mim. 
Estendeu-me então o copo dele, ainda cheio de sumo e amor, pegou no meu, ainda vazio de líquido, e disse que preferia beber água. 


22/06/2017

~

É por absoluta incapacidade minha — exclusivamente minha — que hoje — dia 22 de Junho —, sou incapaz de chorar os mortos de alguém, e é por isso que tenho passado o dia a rir, e é por isso que vou acabá-lo não sei como.
Amanhã já posso voltar a chorar os mortos de toda a gente.


22/03/2017

eu acho que estive lá

estava uma mulher ao meu lado, segura pelo que foi a cintura — não presa nem amarrada — ao cadeirão onde estava sentada, para que não se levantasse dali e saísse a correr, como se isso fosse possível, dada a fragilidade das pernas e de toda ela. Repuxava as calças de malha para cima, expunha as meias de lã grossa e a magreza da velhice, e murmurava, os olhos pregados nos meus, 
ai meu pai, ai meu pai
e isto foi no dia a seguir ao Dia do Pai, ainda eu não tinha recuperado da falta do meu nesse e nos outros dias todos. 
Antónia, Antónia
e depois dirigiu ainda mais o olhar perdido para o meu, acertando-me em cheio,
ó Ana,
e eu, que sou parva, cantei-lhe baixinho
ó Ana, ó Ana, senhora minha mãe vou já.
no outro extremo um homem lia um livro sobre OVNIs, já há semanas que o vejo agarrado àquilo, suspeito que não passa da mesma página, que pode ser a única que está impressa em todo o livro, o homem estuda com afinco enquanto me faz sentir a mim um extraterrestre.
continuo a arranjar as mãos tão amadas, que me ficam lindas nas minhas, intuo que no tempo que dura aquele bocado a minha mãe é a pessoa mais lúcida daquele espaço todo, embora me repita
és tão linda,
e, quando esse tempo acaba, verifico que as minhas mãos envelheceram enquanto ele durou, mas deixei-lhe as dela pequenas e frescas como as de uma criança. Primaveris. 


11/01/2017

aromamor

Calhou-lhe entrar num local que lhe trouxe aos sentidos, à lembrança, ao coração, o aroma da casa da avó que a vida lhe levou tinha ela onze anos. Simultaneamente, por uma daquelas coincidências que acontecem quase nunca, sentiu no ar, exalando talvez de outra senhora, o mesmíssimo perfume usado pela avó.
Acerco-me dele, inalando-lhe o perfil, sentado à secretária, decalcado da imagem do meu pai diante do estirador, e sussurro, penso alto, ou calo quase sempre, Henriquinho, até no cheiro és o meu pai.
No cheiro dos que nos são nossos, há um denominador comum, que se nos entranha sentidos afora, olfacto adentro, respiração feita na memória íntima do odor amado. Pode ser o que nos faz reconhecer como pertença, assim como acontece com os outros animais. É também o que nos acirra as saudades, e o que as mata. O olfacto e as memórias que lhe são inerentes, tanto aguçam como suavizam a falta que as pessoas, as coisas e os lugares nos fazem.
Pergunto-me quantas vezes não percorro as minhas léguas apenas em busca do cheiro da minha mãe. Há uns dias, como naquele último, em que não o encontro logo, nem ela mo reconhece a mim. Depois, à despedida, porque é sempre à despedida, consigo sentir e cheira-me, de forma absoluta, intrínseca, definida e definitiva, a mãe.

29/11/2016

stay

Não somos nós que não os deixamos ir. São eles que não nos deixam ficar.
Cada um que se nos vai, leva um bocado de nós — verdade como punhos, cerrados e dolorosos, de murros desferidos no coração.
Chega também um dia em que, todos juntos, já levaram a nossa maior parte. E depois o todo. 
A falta que nos fazem, fazendo-a fazer-se maior cada vez que a sentimos, é maior a cada falta.
Muitas são as vezes em que me lembro de um momento específico da minha vida: grávida de seis ou quase sete meses, chorando inconsolada por um motivo fútil que me desconsolara, vi surgir o meu pai com um chocolate na mão, os olhos enormes cintilando, para me tirar de um desgosto sem jeito, como se eu fosse a mesma de sempre. Morreu-me quatro dias depois, eu deixei de ser a mesma de sempre e foi isto que guardei.

08/10/2016

Síndrome de abstinência

do café de todos os dias; do sol que se vai embora sem dizer adeus; dos cigarros que não fumo; do meu pai; de mãe; dos meus ausentes, que tardam em voltar desde o primeiro dia em que foram; dos meus presentes, no medo que se ausentem; da minha titi, que está em tudo o que me sai das mãos, quando sai bem feito; dos cheiros da minha infância; da minha Mel, que nem quando estou totalmente só se vem aninhar a mim; de mim mesma, quando não tinha o vício instalado, a corroer-me as entranhas de falta e falha e saudades.
[Devia ter a abstinência estampada no rosto, como qualquer dependente.]

07/06/2016

A volta uterina

O dia amanheceu naquela paz única que antecede as ondas mais altas, claro e transparente, mas eu vi-o, ou antevi-o, rubro. Procurando a fotossíntese, vesti-me de encarnado. Apercebi-me hoje de que estamos em Junho, e Junho é-me amargo até ao último dia. É bom, no entanto, que tenha passado uma semana, sem que me tenha doído como antes. Já vão anos a mais sobre os meus Junhos, e pesam-me os Junhos todos que sobre mim carrego. Pode ser que, por razões de desesperada autodefesa, este ano lhe tenha anulado uma semana. Quem sabe se, nos próximos milénios, se lhe eclipsam as quatro.
Calhou-me na volta ir à Avenida Guerra Junqueiro, e ditava-me a lógica que subisse a Alameda, depois seguisse em frente pelo Técnico e apanhasse as Avenidas Novas, atravessando a República, continuasse pela 5 de Outubro, Álvaro Pais, Eixo Norte-Sul. Era essa a lógica cerebral, mas estamos em Junho e foi a volta uterina que me deixei dar: Avenida de Roma, onde fui concebida, Avenida dos Estados Unidos, onde foi concebida a minha irmã, Avenida das Forças Armadas, onde foi a nossa casa. Ainda lá está, apesar de ser Junho, a janela daquele que foi o nosso quarto. 

25/04/2016

Pela liberdade

Não sei se foi pelo avô que correram as duas, hoje. Quero acreditar que sim, tal como acreditei que foi pela avó que correu uma delas há duas semanas. 
Dois pássaros livres, já nascidos em liberdade, cujas asas, quando sentem presas, basta sacudirem para que possam retomar o voo pela imensidão de azul que a vida tem para lhes dar. Nem isso falhou hoje: um dia azul, a comemorar a liberdade que lhes foi berço e lhes será sempre companheira.  
Conquistaram uns a libertação, para oferecerem a outros a Liberdade — talhada, a régua e esquadro, a escopo e martelo, a medo e coragem, a reticências e certezas, pelo avô delas — e por tantos pais de tantos filhos, por tantos avós de tantos netos —, também, e muito em particular, para elas: ainda que só imaginadas fossem, ainda que nem germinadas estivessem. 


23/04/2016

Hoje não escrevo

Quero só este mar de volta.

agradecimentos pelo envio da foto a quem sabe que os merece

16/04/2016

Avós

Lembro-me de ter ouvido à minha mãe que teve um colega, na faculdade, um senhor mais velho, talvez uns dez anos, que havia iniciado o curso mais tarde na sua vida, e que lhe chamava a ela avozinha. Não porque tivesse aparência de mais idade do que a que tinha — vinte e tais , mas por ser assim tão pequenina, tão certinha, tão formal, tão ajuizada. Segundo ele (e já naquele tempo, acrescento eu), só uma avozinha seria assim. 

Os irmãos, que distam dela poucos pares de anos, chamam-lhe a avó  por ser assim tão pequenina, tão direitinha, tão rigorosa, tão cultivada. Sendo a mais velha de todos, a ela poderia caber o papel da "mamã dos outros", mas não foi esse que lhe destinaram: é a avozinha.
E eu vejo a minha mãe, tantas e tantas vezes.

~

O meu pai sentava-se ao estirador, onde pousavam papeis e mais papeis, alinhados, uma máquina de calcular, um portátil a preto e branco, uma caneta na mão, ou um lápis, e ali navegava já, no mar dos números lá dele, mesmo sem internet, que ainda não tinha chegado a este pontinho do globo. De vez em quando, assobiava uma música inteira, e então sabíamos que os cálculos lhe estavam a correr bem.

Vou dar com ele sentado, concentrado, agarrado aos exercícios de Matemática. Visto assim, faz-me lembrar uma estampa que existia lá em casa, feita de papel de lustro recortado por um caricaturista cheio de arte, representando o meu pai de perfil, sentado ao estirador. 
De repente, por um motivo que eu intimamente sei qual é, ouço-o começar a assobiar uma música, por entre o mar dos números lá dele.

14/04/2016

contador de beijos

Os dias alusivos sugam-me a alma. Ao fim do dia, fiz um cômputo dos beijos recebidos, e restou um quase nada. 
Hoje, ao acordar, depois de matutar em sonhos sobre o assunto, contei uns tantos, uns poucos: houve dois a um médico, a quem pago, e outros dois a uma mulher que me cheirou a álcool de todos os poros e dos olhos afora.
Ainda não tinha concluído a minha contabilidade de quatro beijos num dia inteiro, estava o dia quase a acabar, quando ele me disse,
Toma lá um beijo, para não dizeres que passaste o dia do beijo sem beijos. 
E foi um beijo muito abraçado, com todos os nossos braços, todo carregado de promessas de amor eterno, aquelas em que uma pessoa acredita mesmo, porque são feitas e depois assinadas no silêncio — sem declarações faladas nem escritas, sem selo branco, nem lavradas. E, às vezes, sem testemunhas.
Sei hoje o que faria se voltasse atrás no tempo: sei que não mudaria coisa alguma do que fiz, porque até os erros me fizeram falta, para construir esta construção desconstruída que me habituei a habitar. Mas sei também que mudaria muito daquilo que não fiz, e que esse muito seriam tudo beijos que deixei de dar — beijos abraçados incluídos —, que guardei para mim, por egoísmo ou inoportunidade. Alguns teriam sido dados a quem já não poderá recebê-los, a não ser desta forma torta, pela movimentação do ar que as saudades provocam. Outros, porque tiveram o seu tempo próprio que, por não respeitado, perderam cor, sabor e razão de viver — os beijos têm, como qualquer dádiva preciosa, um tempo certo, um minuto exacto, um segundo único, para serem dados.
Assim como toda a contabilidade, a minha é igualmente rigorosa e justa: se deixei uns tantos beijos por dar, também houve uns quantos — muitos — que me ficaram por receber.

Passei o dia a tautear mentalmente Save your kisses for me, que já cantava muito antes de aprender as primeiras palavras em inglês. E que, durante muito tempo, ouvi o meu pai cantar.

31/03/2016

31 de Março

Hoje quis vê-la, procurá-la vestida de branco, como nem no dia em que se foram e se souberam um do outro, encontrar-lhe um sinal de não ter desaprendido de cor a cor, de olhos lindos, do mar da Figueira — nem verde, nem azul. 
Talvez me aninhasse nela e lhe perguntasse que dia é hoje. 
Depois fecharia os olhos e sonharia com a resposta, clara e cantada, 31 de Março, o dia em que o teu pai e eu casámos, na Figueira da Foz. 
Não fui, hoje. Atrasando-me, desisto de me antecipar: daqui a quarenta anos, serei eu, ali. Falta muito pouco.
E o mar da Figueira estará lá sempre.

~