Coincidência — ou sei lá se talvez não — é ouvir no mesmo dia, com meia-hora de diferença, em dois locais totalmente distintos da cidade, mas exactamente pelo mesmo motivo, a expressão 'bola prá frente'.
Tratada e assinada a papelada necessária por motivo da morte da minha mãe, estou a levantar-me da cadeira onde me havia sentado, quando o funcionário que acabou de me atender me aconselha: Bola prá frente.
Deixo-o para trás e vou ao cemitério. Preciso de tratar de mais uma questão burocrática, que não é urgente, não fora a urgência de desapertar o coração, indo ver os meus pais.
À saída, cruzo-me com algumas pessoas que ali ficaram a conversar, depois de terem ido deixar alguém, que não sei quem nem porquê, mas imagino. Avalio o tamanho do grupo, as idades, a ausência de lágrimas, o despojamento, e sei, ou ponho-me a adivinhar, que terá sido uma pessoa de muita idade, ou tão doente que a morte lhe sobreveio à vida como um alívio seu e dos seus. Não faço julgamentos, who am I to judge? Não sei para o que estou guardada, e, na verdade, também não quero saber. É quando ouço um dos elementos do grupo dizer para outro, eventualmente mais enlutado, mais próximo do falecido: "Agora é bola prá frente". Há algo que me tranquiliza quando percebo que não me vou cruzar com alguém que esteja a chorar. O meu primeiro impulso é sempre socialmente inaceitável, e, por isso, prefiro seguir caminho para a vidinha, deixando a morte — e uma considerável parte da minha vida — para trás. A bola, essa, é prá frente, dizem eles na sua imensa sabedoria futebolística. Seja qual for o tamanho da perda e a dimensão do desgosto.


