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23/12/2025

[Pensamentos intrusivos]

Vou à farmácia todas as semanas. Tomo tantos comprimidos que as caixas se revezam a chegar ao fim.

Desta vez, apetece-me não só manter em dia as doses que tem que ser, mas também comprar um creme maravilhoso para as pálpebras. Sim, as pálpebras. Uma mulher compra cenas para as pestanas, para as sobrancelhas, para as orelhas e o dedo médio do pé. Gastar uma pipa de massa com as pálpebras é só mais uma desculpa para sermos a encarnação do senhor dom diabo. 

Entro e apercebo-me que, desta vez, e ao contrário do que é costume, também se encontra a dona do estabelecimento. Peço o creme a Jorge, o gigante, que, de cabeça baixa, me pergunta: “Para as pálpebras?”, “Sim, Jorge, não tente compreender.” Ele avisa-me que só à tarde, a dona da casa sofre um espasmo e entra em transe e em monólogo — provavelmente, com medo que eu desista da compra —, as mãos a tremer muito, a voz embargada, como eu ficaria ao fim de cinco cafés seguidos: “Mas também tem este aqui da Marti Derm, que é muito bom [conheço a marca, é tudo excelente menos o creme de noite, que cheira a esfregão e o raio do pote nunca mais acaba], e está com quinze por cento de desconto, sessenta menos quinze por cento [seis vezes três, dezoito. Tira dezoito a sessenta], mas não vamos cansar a cabeça, faço aqui na calculadora [burra, quarenta e dois], pois, bem me disse que fazia de cabeça, eu já não sou capaz, mas olhe, também temos aqui um kit, tem um frasco para de dia e outro para de noite, isto tem uma bolinha de metal na ponta e sente-se logo a frescura mal toca na pele [será chato dizer-lhe que, se puser a bolinha de metal num frasco com m. às colheres, sente à mesma a frescura?], e depois tenho aqui um outro, que só põe aqui [o dedo espetado na zona da olheira, um papo engelhado], mas só aqui, não põe aqui [na zona interior do olho], nem aqui [na zona superior do olho], só mesmo aqui [porquê, ó senhora? Fico invisual? Enruga-me mais? É um desperdício? Morre uma foca bebé? Morro eu, de catatonia por te ouvir?].

- Jorge, eu volto à tarde. Deixo o creme pago, para não me demorar outra vez.

Acho que amadureci. Os meus pensamentos nem sempre passam de intrusivos a verbalizações.


26/09/2024

Afinal ela fala tanto

O silêncio dela durou exactamente três meses e dez dias. Hoje, enquanto fazia duas malas — visto que vou correr o país de Norte a Sul no próximo domingo, rali que leva o tiro de partida amanhã (eu sei que não há tiros nos ralis, era uma metáfora) —, encontrei o anel que procurei durante uma infinidade de meses. Aquelas situações em que às tantas já procuramos onde é impossível estar — no armário dos medicamentos, debaixo de uma cómoda que tem poucos centímetros de altura entre o chão e o início da coisa (teve que ser com uma régua de um metro e meio, que, ainda que me espalmasse contra o chão, não conseguia ver para lá de onde o sol se põe), em cima do frigorífico, dentro das minhas narinas, na gaveta dos collants, eu sei lá, menina — e nada de anel. Tinha-a avisado que o anel ia aparecer, nem que eu tivesse que meter uma retroescavadora dentro do lar e arrebentar cu parquê e cus azulejos. Sacudiu os ombros, pois andava a amarrar o bode, e eu virei-me para o lado que durmo melhor. Claro que a culpa ia morrendo solteira, como sempre, e então, “Terá sido uma das gatas?”, que são quem tem as costas mais largas do lar, tipo Schwarzenegger.
Normalmente, quando ando à pesca de alguma coisa, primeiro vejo onde sei que ela estava, depois pego num objecto com o mesmo peso e tamanho, atiro ao chão e verifico a área que ele alcança. Se não encontro, parto para os locais improváveis e só depois os prováveis. A experiência diz-me que as distracções nos levam a deixar as coisas em lugares que nem o diabo acredita. Esgotei todos e nada de anel. Encontrei-o hoje, numa bolsinha onde já tinha procurado vinte vezes. Assim que lhe disse, a mulher desatou a língua há muito presa (pouco tempo para mim, o silêncio é-me tão caro que me arruino) e contou-me a história das unhas dos pés dela, que eu já sabia de trás para a frente. Apeteceu-me dizer: “Estava a gozar, o anel continua desaparecido. Mas também posso contar a história de um furúnculo que vi uma vez numa pessoa”. Chata.

12/03/2024

Botei

o voto na urna. Não foi fácil. Pelo caminho, cerca de seiscentos metros, ainda ia, já não como em tempos — a fazer undolitá — a votar mentalmente por exclusão de partes “Neste não, naquele nem pensar, no coiso era o que faltava”. Como sempre, fiquei na sala exclusiva das Marias, de Maria Eduarda a Maria Viviana. Tinha tido um cuidado desmesurado a escolher a hora para ir exercer os meus direitos, que os tenho, minha senhora, para não encontrar as caridosas do “Estás bem?”, a enterrarem os olhos nos meus, uns ares tão sérios que julgo que vão ralhar-me já, já, eu naquela, “Estou, estou bastante bem, que eu saiba”, elas logo a amolecer o olhar, “Isso é que é preciso, espírito positivo”, como quem diz, “Coitada, diz que está bem, é deixá-la viver na ilusão de que não é a primeira de nós todos a morrer”, sabem lá elas se dali a cinco minutos não vem uma betoneira desgovernada que as mistura com o cimento. Escolhi tão afincadamente a hora, que as encontrei todas, mas consegui tornar-me invisível à mais empenhada, que quis um dia tomar café comigo no pós-tratamentos e esteve todo o tempo a chorar porque havia saído recentemente de uma peritonite. 

À minha frente encontrei dezanove Marias até à curva que dava acesso à sala. Chegou a minha vez, o rapaz que presidia aquela mesa ia adormecendo a ler o meu nome (já estou habituada) e deu-me aquela folha gigantesca, onde constavam partidos dos quais nunca tinha ouvido falar, como o fálico (?) “Ergue-te!”, ou bíblico, sabe Deus (“Levanta-te e anda!”), para além de mais um ou dois, agora não sei precisar quantos desconhecia. Quase todos, vá.

Já no meu cantinho, pronta para exercer, reparo que não há ali caneta ao meu dispor. Procuro na mala, sei que é raro ter uma caneta (trauma com uma que se me rebentou dentro da mala, não quero lembrar-me; o mesmo para os pacotes de açúcar; e as saquetas de molho de soja), mas desta vez lá estava uma, triste, só e abandonada, gelada, gelada. Nos entrementes, ouvia-se o meu murmúrio, “Não há aqui caneta? Uma pessoa puxa pelo cordelinho e não vem nada na ponta. Se não tivesse uma na mala, a esta hora não votava”. Fui à mesa entregar o meu papelinho e comuniquei: “No meu cantinho não havia caneta. Senti um convite, mais, um incitamento, ao voto em branco”. Rimo-nos todos muito e depois voltei para casa, com o meu dever (não me enganei, não) cumprido.


19/03/2022

Bela adormecida

Cá manias, gosto de ir compostinha para os tratamentos de quimioterapia. Sei, pelo que vejo à minha volta, que o confortável e aceitável, logo, o normal, seria ir de leggings, camisolão e pantufas, gorro de lã ou absolutamente nada na cabeça, mas dá-se que eu não sou confortável, aceitável, e muito menos normal. Fui educada na premissa de que uma ida ao senhor doutor é para ser levada quase como uma cerimónia. Ainda que chegue ao ponto de estar toda postiça e, à noite e de manhã, rever a decadência a que os tratamentos me vão levando, não abdicarei da minha maquilhagem e de Natércia, para além de trapos bonitos. Não me lembro de ter comprado tanta roupa numa só estação como este ano. Às vezes até me sinto mais bonita do que antes de ter cancro. Ele há parvas para tudo.

Mudei de hospital e, consequentemente, de médico. A maior diferença que encontrei até agora foi a da papelada, que é de uma profusão assustadora. E entrega-se um papel em cada guichet, cada um com sua senha de espera — e não há prioridades, que prioritários somos todos —, mas isso leva-se de letra depois da primeira vez. De resto, só encontrei diferenças para melhor: pessoal de enfermagem muito mais dedicado (e em muito maior número), assim como pessoal auxiliar. A última vez que lá estive, pedi sopa e dois lanches e não houve cá mão na anca, “ó filha, o lanche é só às 5!”, para alguém que estava ali a largar o preço de um automóvel novo. (Um Dacia, pronto.)

Ao contrário do que eu sempre imaginei, nas salas de quimioterapia não existe tristeza, nem lágrimas, nem suspiros. Talvez o pessoal, com toda a sua dinâmica e sorrisos prontos, tenha a maior responsabilidade nisso. Mas conta alguma coisa estarmos todos “ao mesmo”, não haver a dúvida que lemos nos olhos dos outros na rua, “será que…?”, estarmos todos agarrados por aqueles tubinhos da esperança ou da certeza de que um dia destes não teremos que voltar ali.

Desta última vez que lá estive, posso ter carregado nas tintas e ido exageradamente bela. Pus-me em preto total, de calças, só com um apontamento de lenço de seda, oferecido por um dos meus genros, que tem um bom gosto avassalador (e estou à vontade para escrever o que quiser, porque nem ele nem a respectiva que dei à luz lêem isto. Também é giro, trabalhador e faz a minha criança feliz, que mais posso eu pedir à vida, a não ser saúde também para ele?). Mas queria estrear um sobretudo novo, cor-de-rosa, com o qual sonhava desde os tempos do “Cisne Negro” (Nathalie Portman) e que consegui na Vinted, praticamente oferecido.



Pode ter sido tanto arraso que deu aso à situação que aqui vinha descrever e que, por pouco, já me escapava. Tenho o polegar cansado.

Não sei se já disse aqui no buraco que, durante os meus tratamentos, só faço uma de duas coisas: ou durmo (noventa por cento do tempo), ou como (os restantes). Não sei o que é, mas tudo me dá sono. A maior parte das vezes, sou acordada por uma enfermeira, que me avisa que me vai dar uma injecção de anti-histamínicos, que me fará ter bastante sono. Imagine-se.

Desta vez, estava eu a deglutir talvez o primeiro lanchinho, aborda-me o senhor da cadeira ao lado (a minha, reclino-a logo até ficar na horizontal, não vá cair-me a cabeça para a frente e ainda sair de lá marreca do pescoço), com o seguinte diálogo:

- Então, a senhora tem passado bem?

- Muito bem, muito obrigada. E o senhor?

(Este nível de educação também não tem sido lá muito meu amigo ao longo da vida. Tudo seria muito mais fácil se, por vezes, me limitasse a uma gargalhada sarcástica ou a um “vá defecar à mata”.)

O homem, incrédulo:

- Não me está a conhecer, pois não?

Eu, sincera:

- Não.

O homem, desapontado:

- Ah, é que eu estava aqui a semana passada.

Eu a pensar, pela enésima vez nesta vida: “Isto, das três, uma: ou sou eu que tenho cara de profissional do sexo, ou sou tão bela que não é possível estar ao pé de mim sem que se inicie uma porra de uma conversa de ir às nalgas, ou então sou um mix de ambos”. Sim, também pode dar-se o caso de as pessoas estarem muito sozinhas e quererem um bocadinho de companhia, e mimimi. Não sou psicóloga, nem padrisa, nem tenho saco para diálogos mansinhos que começam assim para acabarem assado. Deixem-me, que eu ainda estou na fase da raiva e não há meio de chegar à da aceitação.

De todo o modo, cortei o canal ao senhor, porque adormeci.


28/07/2021

Chatos do nosso Portugal # 3

(Não sabia muito bem que título pôr a isto, então pus aquele. Mas pode ser outro qualquer, aceitam-se sugestões.)

As minhas idas àquela estação de Correios deviam ser filmadas (julgo que, por questões de segurança, efectivamente são, a questão é que eliminam os filmes — os meus filmes! — ao fim de pouco tempo, como se não se tivesse passado nada ali dentro). 

Entro, retiro a senha 146, e verifico que está a ser atendida a dona da senha 143, sendo que estão dois balcões a funcionar. Pacífico. Tenho quinze minutos para despender ali dentro, imagino ingenuamente que nem a tanto chegarei. Não posso esperar a minha vez na rua, pois está uma ventania de vários quilómetros por hora e estou com um vestido cuja saia roda como a da Rosa arredonda a saia.

A senhora da 143 — idosa e obesa — está a pagar, quando a funcionária lhe pergunta se quer uma Raspadinha. Diz que não, e, quando recebe o troco, deixa cair uma moeda de um cêntimo para o chão. Não é capaz de se baixar para a apanhar, nem acocorando, nem dobrando as costas, de maneira que se inclina para a frente e abre as pernas até ao limite, algo que considero no momento que tem boas hipóteses de evoluir para uma razoável cabeçada no solo. (Noutros tempos, a menina bem educada que me habita iria apanhar a moeda para a entregar à sua proprietária, mas é que nem me passou pelo juízo que alguém movesse uma palha por um cêntimo.) Apanha a moeda e, quando levanta a cabeça, está tão escarlate — hão-de os seis (ou talvez sete) litros ter-lhe ido todos para as orelhas — e perturbada, que penso que ainda vou assistir a uma filoxera. Mas afinal não. Não sei se do esforço, se da passagem sanguínea pelas ideias, se meramente exausta de ouvir a funcionária, muda de ideias e compra a Raspadinha. No entanto, não sabe raspar o coisinho da dita e pede ajuda à outra, que, entretanto, já lhe contou metade da história da vida dela (ou a história de metade da vida dela): que encontrou uma Raspadinha há uns dias, deitada para o chão da rua, mas que afinal tinha dez euros, e zzzzzzz. 

Eu, obviamente, já nervosa.

Nisto, entra uma terceira funcionária, de gelado Perna de Pau em punho, já meio mordido, e sem a máscara nos beiços. Ainda por cima, vinha a fazer piadas, acho que lascivas, sobre o facto de vir a chupar gelado, sorte dela que 1: o Perna de Pau era o vermelho, o original; 2: eu não ouvi o que a criatura disse. Mas lá pôr-se atrás do balcão a despachar serviço é que nicles, pois havia de estar na sagrada quinquagésima oitava pausa da tarde.

Nos entrementes, a do outro balcão atendeu duas pessoas, apesar de o número no visor se manter inalterado no 143, e vamos que eu assumi serem elas o 144 e o 145. Mal esta última saiu, avanço eu, visto que a do balcão ao lado continuava a raspar avidamente a Raspadinha da senhora obesa, enquanto lhe relatava a parte 2 da história da sua vida. E diz-me esta que havia de me atender, cheia de prosápia e soberba: "A senhora tem que aguardar a sua vez, que eu ainda não a chamei". 

Isto só para me situar a mim: mas que raio fiz eu à mulherzinha para que me tratasse assim à pedrada, só de olhar para mim? Magoei, ofendi, deprimi. 

É que esta coisa acontece-me com uma frequência tal, que começo a equacionar se não serei eu que pareço arrogante e elas sentem-se encolher derivados a isso. Estou ali, à espera da minha vez, faço o melhor que sei a minha poker face — com alguns discretos, imperceptíveis! suspiros e rolling eyes —, e depois, quando vou para ser atendida, pumba, batem-me.

Não me chamou a mim, assim como não chamou nenhuma das duas últimas pessoas que atendeu. Esta senhora é o 143, já atendeu o 144 e o 145, portanto, está na minha vez.

Furiosa, atendeu-me. Eu levei os cerca de noventa segundos da praxe — entre pagar e debitar o NIF — e movi-me dali para fora, não fossem as ventas bufar-me cinzas, ou destilar fel, ou borbulhar espuma, sei lá, para cima do vestido rodado.


16/04/2021

Profilaticamente isolada

Por razões não sei de que foro, que, exactamente por essa razão, não cabe aqui explicar — ficaria longo, ou então descabido, ou simplesmente não me apetece explicar (ah, a amarga liberdade, que gradualmente se vai perdendo por este deserto afora) —, encontro-me física e espiritualmente retirada da realidade (seja lá o que isso for nos dias que correm por estes dias) que é o mundo (oh) lá fora, ou seja, a rua. Assim, estou sem a matraca que me faz a lide doméstica, mal ou bem. Tenho, por esse motivo, aprendido algumas coisas, ou melhor, tenho relembrado que elas são como são, como afirma o povo quando não tem mais nada para dizer (bastas vezes), utilizando jargões que mais não são do que bengalas para o coxear do discurso desconexo. A saber: As minhas casas de banho têm sido lavadas com limpa-vidros, o que redescobri agora, já que já havia chegado a essa conclusão aquando da quarentena, nos idos 2020. Mal ela regressou ao trabalho, apliquei-lhe uma descasca de que não tinha memória nos últimos vinte e dois anos (entretanto, perfez vinte e três “de casa”, stricto sensu, as aspas aqui só vêm compor este ramalhete em jeito de rosário de amarguras), o que, aparente e realmente de nada me valeu, a não ser ter-lhe valido a ela um par de lágrimas (matematicamente, uma por cada olho, se tiver os dois sacos a funcionar em perfeito paralelo), que eu, halleluja!, não vi, mas recordo ter vagamente escutado umas fungadelas — que também podem ter derivado de alguma alergia (vai-se a ver, ao líquido para os vidros com que me higieniza as retretes, mas não os vidros, a avaliar pelo miserável e opaco estado a que mos deixa chegar), mas que eu, cruel, porém justa, olimpicamente ignorei. Quando a pessoa regressar, lá terei que repetir todos os blás da outra vez, ou, em alternativa, sujeitar-me ao diálogo que já antevejo, ou anteouço:

- A Sandra voltou a limpar as casas de banho com o líquido para os vidros. Diga-me porquê.

(Eu, sempre em busca do conhecimento; eu, antropóloga do serviço doméstico; eu, aplicando psicologia ao nível do uso de detergentes; eu, passada da marmita por dentro, mas por fora uma serena senhora, a evitar que me salte a mola e lhe solte os cães.)

Respostas possíveis:

- Aaaah...

- Eu já lhe tinha dito que precisava de um spray para as casas de banho, mas comprou-me um limpa-vidros e estou a usá-lo até ter o frasco vazio para poder meter lá a lixívia.

E é tudo por hoje.

Se me sinto mais leve? Não. Não tenho comido mais do que o costume, mas no próximo domingo não irei correr, e isso sim, pode fazer toda a diferença (mental). Tenho que voltar a dançar.

https://m.youtube.com/watch?v=N2oiBSL_D80

02/03/2021

And that awkward moment # 62

em que desperdiças uma boa piada com alguém que tem o sentido de humor de uma bigorna, ou talvez até um pouco menos? E ficas com aquela cara de quem não sabe bem se há-de rir-se do que acabou de dizer, ou se prefere fugir dali, não concretamente de vergonha, mas por incompreensão alheia.

Dá-se que ando de namoro a uma panela. Posso mesmo afirmar que até sonho com ela. É verdade, cada um é para o que nasce. Há quem sonhe com viagens e riquezas várias, eu apenas quero para mim uma Ultrapro da Tupperware*. Cara, a minha pequerrucha. Mesmo em promoção (100% do tempo), caríssima. Ela existe em três tamanhos e acho que ainda só não decidi qual dos três me faz mais falta (todos). Tenho ainda o problema estratégico de já não ter onde encafuar mais tachos. O armário da cozinha abarrota e não me parece solução pendurar as minhas sertãs de um gancho, como antigamente, que as cozinhas tinham paredes a perder de vista. Era eu já ter resolvido estas duas questiúnculas relacionadas com a Ultra e já vos dizia se não dava um rim e oito tostões para a ter.

Explicava eu as grandes vantagens da panela a pessoa do meu ciclo (mais concretamente, do meu perímetro, uma vez que é vizinha de bairro), de entre as quais a principal, que é uma pessoa poder meter as carnes dentro da dita, tapá-la com a tampa, metê-la no forno e sair de lá tudo assadinho, sem salpicos, sem esturricos, sem sequer ser necessário temperar muito - já que as chichas assam na sua própria gordura - forno limpo, jantar feito, mas há lá sonho mais maluco e atrevido para uma dona de casa que se preze? (Pareço uma revendedora da marca, mas não sou.) (Olha, ainda me faço, só para ter as minhas Ultrapros, e depois despeço-me.)

Então, disse-lhe: "Metes a perna lá para dentro e nem precisas de temperar".

Depois parei para raciocinar o que tinha acabado de dizer. 

"A perna do peru, não a tua."

E ela sem um sorriso. Sem uma reacção que não fosse apenas um: "Eu sei".

Pronto, concedo que esta não era o Everest das piadas, mas, por este andar, com uma plateia tão pouco entusiástica, vou acabar assim: seca e séria.

Chatos.

* NMPPI

13/10/2020

Chatos do nosso Portugal # 2

Prequela: a pessoa humana, actualmente, parte coisas. Ora porque se lhe escapam das manitas, ora porque deslizam nas superfícies onde as coloca, ora porque ganham perninhas e se amandam precipícios abaixo. Tem sido um manancial de prejuízos só à custa destas lindas e pequenas mãos de manteiga, que talvez a solução passe por uni-las e louva-a-Deus, ficar quietinha num canto, a meditar.

Então, desde que tirei o ortodôntico, já estraçalhei dois de contenção, os chamados goteiras, nocturnos, feitos de um acrílico (supõe-se que) resistente à mordida de um cão. Digo eu. Enfim, e isto não é uma ameaça, não quereis levar uma dentada aqui da delicada.

Com vista a fazer moldes para o terceiro plástico dentário, lá fui ao consultório do dentista dos olhos bonitos. Quem me atendeu foi Sónia, a mesma que, em tempos, e sem que eu jamais tivesse alcançado porquê, me quis assassinar por asfixia, com recurso ao aspirador de saliva. Desde que casou, está mais calma, ou, pelo menos, suspendeu por uns tempos as intenções homicidas que me dirigia. Quando entrei, sabia de antemão que o doutor não estaria presente, e que os moldes seriam feitos pela assistente. Muito bem. Esperei talvez cinco minutos na sala, após os quais Sónia me chamou, sentei-me lá na cadeira, ela pôs-me o babete e disse-me que bochechasse com “aquela solução”, durante trinta segundos (que ela não controlou - lá está, deve querer que eu morra -, mas eu sim: contei até sessenta a correr muito), que é água oxigenada. Também podia ser éter sulfúrico, que saberia sempre a chichi de guaxinim.

Vai ela, desata a conversar. Falou-me da virose que por aí anda, da sua anemia, dos seus ataques de pânico, da mãe, da vida. Isto, atrás de duas máscaras (bico de pato e cirúrgica), debaixo de duas toucas, e sob uma bata de plástico, cujas luvas descartáveis tapavam os punhos. Nem lhe olhei para os pés, não fosse estar descalça.

Ao cabo de vinte e cinco minutos de blás, o que é que eu pensei? O que qualquer pessoa magra, gira e normal pensaria: que aquilo era para “Os Apanhados”. Então, perguntei, estupefacta: “Afinal é o doutor que vai fazer os meus moldes?”, e ela, singela: “Não, sou eu. É que eu falo muito e gosto muito de falar consigo”. E levou cinco minutos a fazer os moldes, recorrendo a uma plasticina amarela com sabor a baunilha, que me colou uma forma de inox aos dentes e depois custou caro a descolar, estava mesmo a ver que ia passar o resto dos meus dias com aquilo agarrado à cara.

Vou passar a cobrar as consultas de psicoterapia que dou, desde que me conheço, completamente pro bono.



28/07/2020

Chatos do nosso Portugal #1

Grupos de whatsapp com mais de cinco almas, em que todos são tão interventivos, que uma pessoa minimamente equilibrada dos chifres, ao cabo de horas, já está a bloquear as notificações (o coiso pergunta se por um dia, uma semana ou um ano - é claro que não fui de modas), só para não ofender alguma virgem e não sair do grupo a jacto. Eu cá aguentei-me num grupo desses hoje durante sete horas, exactamente 134 mensagens. E eu não tenho notificações sonoras, o que faria se tivesse. Mas não tive forças para mais. Cedi.


15/06/2020

Stalker

Ando há semanas, senão meses, a ganhar dedos para inaugurar aqui neste micro-espaço uma nova rubrica e escrever sobre pessoas que perderam totalmente as noções das conveniências, do espaço vital de cada um, do verdadeiro significado do não, do ridículo, enfim, uma sem-nocite penosa.
Começava, talvez, pelos stalkers, e tenho aqui mesmo à mão, para me ajudar, a boa da wikiseca que, embora fale um Português da América do Sul, dá esta achega:

Stalking (também conhecido por perseguição persistenteé um termo inglês que designa uma forma de violência na qual o sujeito ou sujeitos ativos invadem repetidamente a esfera de privacidade da vítima, empregando táticas de perseguição e meios diversos, tais como ligações telefônicas, envio de mensagens pelo SMS ou por correio eletrônico, publicação de fatos ou boatos em sites da Internet (cyberstalking)[1]e depois vai por ali afora com exemplos que não interessam para aqui agora.

Como não percebi bem o termo erotomania, a não ser na sua etimologia, lá indaguei na mesma fonte:

Erotomania consiste na convicção delirante de uma pessoa que acredita que outra pessoa, geralmente de uma classe social mais elevada, está secretamente apaixonada por ela. A erotomania, também conhecida como síndrome de Clérambault, ganhou esse nome após um estudo publicado pelo psiquiatra francês Gaëtan Gatian de Clérambault (18721934) sobre o assunto (Les Psychoses Passionelles1921)[1].

(Que nós, pessoas com ar de malucas mas com cabeças minimamente sãs, estamos rodeados de loucos com ar de saudáveis, já não me restam quaisquer dúvidas.)
Penso - não sei, só ouvi dizer - que estas pessoas desconhecem o quão aborrecidas são e, mesmo que alguém lhes faça ver isso, estão de tal modo convencidas do contrário que não desistem, apenas insistem no seu comportamento perseguidor, ao invés de fazerem algo pelo bem da Humanidade, tipo irem tratar-se. Imagino que são pessoas que estão tão fora da realidade que acreditam que quando as suas mensagens chegam ao destino (vulgo, atingem o alvo), o destinatário (vítima) fica todo embevecido a lê-las. E nunca lhes ocorre o quanto maçam e irritam.
Pronto, e como vivemos num país de brandos costumes, muito haverá quem - porque não lhe toca na pele - desculpará o comportamento de um stalker porque “coitado, está apaixonado”. É precisamente essa desculpa que serve que nem uma luva a casos como este. Um dia sentem-se rejeitados e não aguentam. “Coitados.”