Era uma vez eu, que, farta de gastar dinheiro na perfumaria, fui ao supermercado e experimentei não um, não dois, mas cinco rímeis diferentes em cima das minhas pestanas, já de si pintadas. Queria perceber qual era o melhor, e, não podendo pôr um, tirar e pôr outro a seguir, acumulei-os. Se, assim, não consegui fazer essa aferição, pelo menos fiquei com todas as pestanas carregadas de tinta preta, e dei-me então a oportunidade de escolher qual trazer para casa. Como não estava fácil escolher entre tantos, e todos tão bons, trouxe três, para usar alternada ou concomitantemente, consoante a mood do dia.
Isto foi um entróito, para criar algum suspense e salivação. Agora é que é o post a sério.
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Andei eu anos — décadas! — desta minha vida, convencida de que tinha olhos frágeis (designação que eu própria inventei), e que, por conseguinte, tinha que usar apenas rímeis (a tal máscara de pestanas) de qualidade, vulgo caríssimos, e não é que, farta de o enterrar todo naquela escova cheia de carvão em papas, decidi experimentar não um, mas cinco diferentes, e trouxe comigo três deles, marca supermercado, e não aconteceu nada, a não ser ter ficado com umas pestanas panorâmicas, qual traveca de Almada, qual pestana postiça, qual ó-eu? Nada de olhos a picar, nada de pestanas aos molhos como o alecrim, nada de choram os meus olhos.
Isto, de várias, uma:
1. Ou os meus olhos perderam a fragilidade e ganharam uma espécie de calo;
2. Ou a indústria da cosmética, ao nível do supermercado, melhorou bastante em termos qualitativos;
3. Ou existe aqui um factor psicológico, e a carteira é que manda, porque não é o corpo, é mesmo ela é que paga, e, por conseguinte, de tão mais barato, já nada me pica;
4. Ou eu andei a mentir a mim mesma estas décadas todas (perdi mesmo a memória — outra vantagem que só a idade dá — em relação à idade com que pintei as pestanas pela primeira vez);
5. Ou eu não tinha mais nada para fazer ao metal, para ir todos os meses (ou todos os quarenta dias, para ser mais rigorosa) à perfumaria empenhar os anéis para trazer a tinta preta;
6. Ou estou naquele período de lua-de-mel com os artigos, e daqui a três, quatro dias, estou a rosnar que me caíram as pestanas todas;
7. Ou comecei, finalmente, a ver mal, e vejo pestanas onde elas não existem;
8. Ou a minha vida é pautada por estas maiorências e ninguém me dá o meu devido valor;
9. Ou o assunto pestanas não é, efectivamente, um assunto que se transporte para aqui, e mais valia estar calada;
10. Ou quem cala consente.
[Pôxa, vi-me aflita para chegar às 10.]
É pedirem com jeitinho, e até digo as marcas. Mas posso adiantar que um deles é aquele que é branco de um lado e preto do outro. O branco usa-se primeiro, está bem?