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15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

19/02/2017

Diálogos à sombra # 28

Tenciono ir ver a exposição do Tutankamon, e pergunto-lhe se também vem. Responde-me que está de calças de fato de treino e, por isso, não vai. Ao fundo, ouço a voz da bilingue:
- Mummies don't give a shit!
[O que é que a pessoa ouviu? Mummy don't give a shit.]
Sentindo-se moderna, pensa que, finalmente, os filhos a consideram uma descontraída, e, feliz, confirma:
- Pois não, hoje até estou de calças de ganga...


Vá que (ainda) ninguém me chamou múmia.

06/02/2017

Eu tenho problemas com médicos # 23

À boca de cena, pergunta o anestesista:
- Já alguma vez fez anestesia geral?
- Senhor doutor... quer por ordem alfabética, cronológica, arbitrária, ou qual?
[Aquela cara a que já me habituei, que diz tanto e quase nada, que-pena-podia-ser-tão-inteligente, sempre acompanhada por um sorriso (espasmo?), que pode significar surpresa, medo, divertimento, tuditudo. E um silêncio, à laia de resposta.]
- Está bem. Vou pela cronológica, que é o atalho mais fácil: aos seis, adenóides; aos dezanove, dentes do siso; aos vinte e sete, primeira de quatro cesarianas...
- As outras três foram com epidural?
[E a vontade parva de responder "Não, foram a frio, muáháháhá".]

roubei da né
Acabada a extensa lista, aproxima um nariz de borracha do meu e diz: "Isto é oxigénio, para respirar melhor."
Ainda está para chegar o dia em que terei tempo de responder: "Então não acabei de lhe revelar todo o meu extenso currículo em matéria de anestesias gerais? Eu já não caio nessa do oxigénio, essa máscara é a indução à anestesiiiiiaaaazzzzzzzzz".

Mais bonita do que ela mesma

- Olha aqui a tua filha no Facebook, num daqueles eventos profissionais em que participa.
- Não é ela...
- É ela, sim senhora, então não vês?
- Não. Ela é mais bonita.
- Olha lá bem.
- Ah, pois é. É ela. 
- ...
- Mesmo assim, ela é mais bonita.

25/01/2017

Diálogos à sombra # 27

Falávamos de mãe para mãe de adolescentes. Ela é negra não africana, ou, pelo menos, não por via das gerações menos remotas. Confessava-lhe que, às vezes, pergunto às minhas: "O que é que fizeste à minha bebé? Para onde é que ma levaste, tão gordinha, tão dependente de mim, tão cor-de-rosinha?". Fiz uma pequena pausa para respirar e perguntei-lhe: "Não diz o mesmo à sua?".
Olhámos uma para a outra, três segundos, caladas, logo nós, que mantemos um ritmo olímpico nas nossas conversas. Quebrei eu primeiro, a deixa não era minha, mas tinha sido eu a falar em cores.
- Pronto, OK. Eu digo "cor-de-rosinha", a Patrícia diz "castanhinha". Mas é igual.
E depois rimo-nos, iguais.

22/01/2017

Diálogos à sombra # 26

Nós, a vermos lojas. Aproveitamos a época de saldos para ver, mexer, experimentar, apreçar, apreciar, concluir que não cabemos em tamanho nenhum. Tudo gigantesco. Parece que só se vendem tendas militares e para-quedas e barracas da praia, o pano é um nunca acabar, dá para mangas e punhos, e colarinhos, e bainhas, e ainda sobra para um alongue da tenda. 
Vejo um casaco bonito, abotoado à frente, estreito, e que termina acima do joelho. Não consigo definir-lhe a cor, provavelmente porque é azul, e é de azul que eu gosto, mas confundo com várias outras. Então, peço-lhe:
- Diz-me, por favor, de que cor é este casaco.
- Azul. O que é que tu vês? Vais dizer amarelo, ou roxo, como já disseste de outras vezes?
- Roxo, sim. — Quase minto, pois também vejo qualquer coisa acinzentada. — Mas diz-me, não pode ser preto?
- Não, preto é o que tens vestido. Compara lá.
Comparo, sim. Vejo o contraste.
- Vais levá-lo?
- Não, não gosto muito da cor. 

14/11/2016

Diálogos à sombra # 25

Estávamos a comer um copo de gelado cada uma. Naquele lugar, podem pedir-se os sabores que se quiser, e o copo é cheio até caber tudo o que nos vai na alma (gorda). Eu pedi limão e gengibre, caramelo e amendoim, tiramisu, dióspiro, pistachio, e reineta e canela. (A palete do de manga só chegou à montra frigorífica quando eu já estava a comer.)
Ela, comedida, com conta, peso (baixinho) e medida (pequena), pediu quatro sabores, tudo sorvetes por ser intolerante à lactose. Mesmo assim, sentiu-se pecar, enquanto eu saboreava os meus seis sabores, que, bem somados, eram nove, lamentava a falta do sétimo (ou décimo) e procurava não conspurcar toda a minha área envolvente. (Tenho uma incapacidade marginal para não sujar tudo à minha volta quando como gelado e a mera presença de um dispensador de guardanapos de papel faz com que rapidamente eu transforme a minha mesa numa aldeia da roupa branca.)

Foto daqui
- Eu merecia engordar. — Disse ela, num sorriso de regozijo.
- Já eu, não... — Respondi eu, contagiada.
Mas, lá está: cada um tem o que merece.

27/08/2016

Diálogos

Estamos em viagem. Tenho uma garrafa de água na mão, leio o rótulo, onde estão escritas as palavras exactas do que quero dizer-lhe. Viro-me para trás, os nossos quatro olhos encontram-se aos pares, ficam só dois. Os meus dizem-lhe a frase do rótulo, mas entrego-lhe a garrafa e digo:
Já viste o que está aqui escrito?
Ele lê, em silêncio. Os olhos dele dizem-me
Eu sei
mas diz:
Estas garrafas têm uns rótulos muita giros.

Não vivemos num palácio.
Mas tu és o meu
principezinho
—————


26/08/2016

Pega-azul

Para trás, ficou um pequeno pinhal, paredes-meias com a traseira da casa onde ficámos. Para além do papagaio de um vizinho, que gritava "olá!" durante todo o dia e para todo um quarteirão, pousavam nos pinheiros uns pequenos pássaros, cantarolantes e irrequietos, que, por isso, não foi possível fotografar. Azuis, de um azul tão bonito, tive que fazer pesquisa para lhes saber o nome. Por "pássaro azul", ia dar, não só mas também, ao restaurante dos Olhos d'Água (como gosto deste nome, não sei por que não nasci num sítio com um nome assim), e a uma infinidade de pássaros exóticos e periquitos, mas não era nada daquilo que procurava. Depois de ter posto em Mr. Google "pássaro azul, cabeça preta, pescoço branco", lá me apareceu o que procurava: a pega-azul.

Imagem daqui
Fui dizer-lhe, toda satisfeita, que tinha encontrado o "nosso" pássaro. 
E ela, que tem o sentido de humor mais fino que eu conheço, respondeu:
- Blue-slut. 

05/08/2016

Diálogos à sombra # 24

- Está aí algum médico?
- Assim médico-médico, não está nenhum...
- Sim, foi o que eu perguntei: um médico a sério, tipo aqueles que tiram um curso de médicos numa faculdade de medicina.

26/06/2016

Quando o mundo avança sem dentes

Ela andou galinha: ainda faltavam dez dias para fazer dez meses quando começou a andar, e o primeiro dente só veio um mês depois.
Vai de Erasmus em Setembro, e os sisos nascem-lhe e magoam-na.
- Se calhar, tens que arrancar os sisos antes de ires embora.
- Sim, convém. Não vou andar lá com dores ou à procura de um dentista.
- Faz parte do teu destino: todos os teus grandes gritos de Ipiranga são dados contigo desdentada.

17/06/2016

Diálogos à sombra # 23

Apresento-me, à saída da aula de dança e posterior duche, com as pernas vermelhas.
Pergunta-me um, preocupado (a sério que isto do olho está a ser um sucesso em termos de miminhos):
- Estás bem?
- Exaurida.
- E escaldada?
- Como assim?
- Tens as pernas muito encarnadas.
- Irrigada.
- Irritada?
(Como sou temida, para além de mimada, desde que tenho este olho assim.)
- Irrigada. Sanguinamente irrigada. Sanguinariamente.
(Muáháháhá.)


15/06/2016

O silêncio é de ouro

É sempre na copa que se me acometem estes ataques. Tenho que repensar a mania do chá.
Passa por ali ele e diz que vai de táxi. Eu sorrio, acho que de nervos.
- Do que é que te estás a rir, é de eu ter dito que ia de táxi?
- Sim.
- Antes Uber?
- Sim. Os taxistas nem uma passadeira de peões respeitam. A mim, nem me veem.
- A mim, dão-me sempre passagem. — Diz ele, e eu, por mais uma vez, pondero a minha invisibilidade.
Então ela, que assistiu calada a este pequeno diálogo, arruma-me KO com a sua opinião:
- É da áurea.
Dá-se, então, o momento em que a minha jukebox cerebral dispara isto:


06/05/2016

Diálogos à sombra # 22

Entre os 14 e os 24, ninguém gosta de nada, nem de coisa nenhuma. Refiro-me ao paladar, que refina, ou regrossa, umas vezes porque odeiam tudo, outras vezes porque só gostam de [colocar aqui o nome de uma coisa qualquer, que tanto podem ser nuggets como grão de bico]. Eu só gostava de bife de vaca com batatas fritas e ovo a cavalo — do qual rapava a clara e deixava a gema para os porcos que não tínhamos — e, na loucura, arroz branco, que não havia cá essas mariqueiras do arroz integral, e basmati e thai. Aliás, qualquer desculpa para não comer pescada cozida com batatas igualmente, era  boa. E criei-me assim, cheia de ferro e colesterol, do bom e do mau, sou um pêro de saúde, povoei o (meu) mundo alegremente, não me dói nada, não tenho nada crónico, não chateio ninguém com ais, uis e miares. Miau.
Então, discutiam elas como é que foi possível já terem gostado tanto de [colocar aqui o nome de uma coisa qualquer, que tanto podem ser nuggets como grão de bico] e hoje em dia nem vê-lo, ao que ele respondeu que, actualmente, gosta de muito mais coisas do que quando era pequeno (não sei quais, aquilo era uma frieira), e então digo eu, que tenho sempre que dar a minha opinião, especialmente quando ninguém ma pede:
(Eu era famosa por acabar todas as perguntas dos testes com um parágrafo iniciado por "Na minha opinião...", ainda que a pergunta fosse a diferença entre imposto e taxa, ou em que é que consiste o dolo.)
- O paladar muda muito, ao longo da vida. Eu era um pisco, que não gostava de nada, e hoje gosto de tudo.
Ele, que não perde uma oportunidade para dizer que gosta de mim, e também para me provocar, em doses amorosamente equilibradas, respondeu:
- Quer dizer: eu hoje gosto de ti, amanhã posso não gostar...?
- Não, porque eu não sou comestível. Só mesmo por isso.
- ...
- E também gosto de ti. Sempre gostei, e vou gostar para sempre.

04/05/2016

Diálogos à sombra # 21

Todos os diálogos que travo com OV acabam, invariavelmente, num pesado e constrangedor silêncio  meu ou dele.

- Não percebo isto: agora, onde quer que vá, sou sempre o mais velho de todos os grupos.
- ...

~

- Eu sempre gostei de mulheres mais velhas, mas agora, se as quiser mais velhas, só se as for buscar ao lar...
- Tu não estás assim tãããããããooooo VELHO...
- ...

30/04/2016

Diálogos à sombra # 20

Especial Dia da Mãe

(Mas é que, um dia, eles crescem mesmo.)

Diz uma: O que é que queres para o Dia da Mãe? Hipótese A - Uma obra de arte [Porque sabe que eu sou fã número um das obras dela]; Hipótese B - Um Huskie; Hipótese C - Um piercing. Não sei aonde, mas um piercing.
[Mantenho um silêncio casto. Elas conhecem a minha opinião sobre piercings.]
Diz outra: Lá, no sítio de onde tu nasceste, para comemorar o Dia da Mãe. 
[No entanto, é a minha cabeça que funciona sempre em sentido inverso, de pura contramão, não a delas.]
Digo eu: Ela nasceu pela barriga.
Responde a outra: Ora, um piercing no umbigo...
Continua uma: Hipótese D - Pitéu à balda, uma caixa de sapatos só com pitéu do que tu gostas.
[Re-remeto-me ao casto silêncio. Não quero influenciar a escolha, diante de tão rico leque. E também gosto de surpresas.]
E ela recarrega: Oh, wait: uns sapatos pretos, iguaizinhos aos outros doze que já tens, todos iguaizinhos uns aos outros...?

[Posso não ser um génio, mas sou uma incompreendida, como qualquer génio.]

17/04/2016

Diálogos ao sol # 5

Saímos da Feira das Almas e caminhamos para o carro. 
Eu comento: Nossa Senhora do Resgate...?
Ela diz: Mais conhecida por FMI.


Depois vejo a ranhura das esmolas. Leio S. Jesus dos Perdidos.


S. Jesus dos Perdidos de Riso, penso, enquanto me rio, ainda da piada do FMI, feita parva (e resgatada). 
Vem-me então a veia poética, e lembro-me de uma frase que é citação de citação (MRP, aquele fenómeno, citou, de um amigo americano, ou coisa que a valha).

Perdidos estão aqueles que não têm razão para enlouquecer de amor


30/03/2016

mom jeans look

- Vou comprar umas mom jeans look.
- Eu não posso fazer isso.
- Pois não.

E não posso, por duas razões: primeira, porque as mom jeans look que se vendem agora são as que eu usei quando ainda não era mom; segunda, porque, se quisesse levar a expressão mom jeans look ao pé da letra, usando as "do tempo" da minha mãe, teria que ir a outros primórdios que nada têm a ver com este "novo" estilo.
Soubesse eu o que sei hoje, e teria guardado as minhas Levi's*, que tinham os bolsos de trás inclinados para fora, no sentido da ponta da anca, e as minhas Spencer & Jones*, que até uns suspensórios traziam, para ficarem ainda mais subidas na cintura. Aquilo era tão desconfortável. O elastano ainda estava numa fase primitiva, as calças elásticas eram caríssimas e, em idades em que a quantidade vence em números a qualidade em géneros, a opção ia sempre para a ganga rija, e uma pessoa aguentava forte e feio a ganga deslavada, forte e feia — que, na altura, era linda!, (assim, com exclamação e tudo), e até se trocavam receitas de como desgastar a cor ao azul da ganga (que heresia...), sem que o padrão passasse de azul liso a azul às malhas brancas, qual azul-bovino. 
Ou melhor, se calhar, nem teria guardado nenhumas delas, que aquilo era coisa para fazer garrote nos dois joelhos cada vez que uma pessoa se sentava (e eram muitas vezes, aos cinquenta minutos de cada vez, que era o que os psicólogos da época tinham determinado como a capacidade máxima de atenção a um assunto, embora depois tenham vindo outros psicólogos que disseram que na-não, afinal são quarenta e cinco, ou então noventa, à vontade do freguês, e então chamaram-lhes "blocos de tempo", ou "componentes da carga horária"), e também fazia mais garrotes ao longo de toda a calça, nomeadamente na cintura, e também aí onde estão a pensar, coitadinhas de nós, que não sei como aguentámos (estóicas!) tanto torno sem rebentarmos a bolha, ou lá como é que se diz agora. A ver se os rapazes se metiam nessas andanças, literalmente falando. Deve ser por isso que não existe o dad jeans look — eles andam sempre à vontade, e isso nunca mudou nem mudará.
Em suma, espero mesmo que estas mom jeans look que hoje se vendem sejam, se não mais bonitas, pelo menos mais confortáveis, e que não comprometam outra geração inteira, tanto ao nível vascular como coiso.



* estou aberta a negociações

25/03/2016

Diálogos à sombra # 19

O convívio comigo é sinuoso como uma dessas escarpas de onde podemos escorregar e partir os ossos todos, até ao metatarso, cá em baixo, na enseada. 
Saiu para um funeral, logo pela manhã, porque não é lá porque é sexta santa, ou feriado, ou porque não dá jeito, que as pessoas vão adiar morrer. Aliás, até é bastante consentâneo com o dia de hoje. Voltou horas mais tarde, e foi esse o momento em que eu resolvi travar um diálogo — travasse antes eu a língua, e o mundo viveria em paz.
- Então, o funeral, correu bem?
- Mas que pergunta é essa? Um funeral pode correr bem? E, já agora, pode correr mal?
- Pode. Corre bem, se corre tudo sem percalços. Corre mal, se alguém se larga a rir, se o caixão cai, se os herdeiros se pegam à bulha, se o morto, afinal, não está bem morto, eu sei lá... N hipóteses...
- Não, o meu cliente estava mesmo morto.
- Ai, o teu cliente morreu?
- Não, mas fomos ao funeral dele na mesma. 



17/03/2016

Diálogos à sombra # 18

- Joguei no euromilhões e posso estar rica sem saber. — Disse eu, exactamente o mesmo que digo, de todas as vezes que jogo e ainda não fui verificar os números. (Sou tão previsível.)
- Sabes que a probabilidade de te sair o euromilhões é inferior à probabilidade de te cair um raio em cima da cabeça?
- E sabes que a probabilidade de me cair um raio em cima da cabeça é inferior à de cair o avião onde eu vou, e, ainda assim, eu tenho medo? 
- Sei.
- Isso pode significar que acredito na ínfima probabilidade de me sair o euromilhões. 
- ...
- Ou seja, seguro, seguro, é uma pessoa meter-se num avião para ir à papelaria da esquina jogar no euromilhões. 

[Não fui de avião. Ainda não foi desta.]