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09/04/2019

Encontrei o Zezinho!

Mr. Google, após aturar-me pesquisas por “boneco de chiar bebé borracha vintage” e outras mais ou menos perversas deste género, desistiu de devolver-me caraças assustadoras e Vitinhos vários, para me ofertar a imagem do verdadeiro Zezinho, exemplar não único dos nossos zezinhos.




08/04/2019

Já não bastava o coice que me autoinflingi nos quartos traseiros

Estava aqui a degustar um iogurte simples com açúcar e uma banana - das poucas iguarias que são permitidas a uma pessoa nas minhas circunstâncias -, após ter almoçado um puré de cenouras composto apenas por cenouras e duas colheres de arroz branco composto apenas por arroz branco, quando me pus a pensar nos zezinhos. 
Os zezinhos foram dois bonecos de borracha que a minha irmã e eu tivemos, oferecidos por alguém, talvez a mãe do primo Zeca, e que, isso sim, é certo, por serem muito parecidos com ele, foram ambos baptizados com esse nome, sem maiores buscas por originalidades ou diferenciações. Os nossos zezinhos eram iguaizinhos um ao outro, apenas diferindo nas cores do cabelo - o da minha irmã era loiro, o meu era ruivo - e do debrum do almofadão, um azul, o outro verde. De resto, estavam ambos deitados de lado, com a cabeça pousada no almofadão debruado, um dedo (creio que do pé) na boca (o que muito me aborrecia, pois não conseguia pôr chucha nenhuma ao meu) e a fralda branca a tapar as partes pudendas, mas que, apesar dela e sob ela, se presumia a presença e prova de um sexo masculino. Enfim, nós demos por garantido que os zezinhos eram dois meninos e, se não havíamos perdido tempo a encontrar-lhes nomes que os diferenciassem, menos ainda nos preocupámos com o género dos bonecos. E, já que eram integralmente de borracha, almofada incluída, entendemos por bem fazer deles nossos brinquedos de banho, que, na época, era comunitário, quantas vezes não com a cadela também, já que a alternativa que apresentávamos era a de não nos lavarmos de todo. Ora, os zezinhos tinham um pipo atrás das almofadas, que era por onde entrava água, que depois saía de esguicho. Conforme é sabido comummente, nada mais fantástico para uma criança metida numa banheira do que um boneco que esguiche. É claro que, à força de tanto entrar e sair água dos corpos dos zezinhos, um dia mais tarde encheram-se de bolor e foi-lhes o fim. Acho que se desfizeram, a borracha tem esse grande sentido de oportunidade. 
Assim estou eu há três dias, a esguichar por cima e por baixo tudo o que ingiro, seja água ou outra coisa qualquer mais sólida (mesmo que seja gelo, portanto), e só não apresento uma imagem mais gráfica de todo este cenário porque, parecendo que não, ainda sou uma senhora, e ele há limites. No entanto, um pensamento ilumina-me as horas mais negras: "É desta que fico magra". 
Vá lá a ver se não me encho de bolor e não me desfaço em pó.

22/02/2019

o amor também pode ser de barro

Recebi da delicadeza das suas mãos, pelo Natal, a melhor de todas as prendas, a mais preciosa de toda uma já longa vida, vindo mesmo suplantar todas as bonecas, todos os jogos, todas as roupas mais ansiadas: o presépio da casa dos meus pais, que tanto e sempre amei. Um presépio em três peças, um São José e uma Nossa Senhora ajoelhados, ele num transe amoroso, com uma das mãos levantada quase ao nível da cara, ela em contemplação materna de um Menino Jesus gordinho e cabeludo, adormecido numas confortáveis palhas de granito. Por imperdoável ignorância minha, por serem as três peças tão pesadas, por estarem pintadas pelo artista que as assinou com uma tinta granitada, assumi sem pensar que o agora meu presépio era feito de granito, e não de barro, como efectivamente é. 
Porque as saudades matam, porque todos os dias nos morrem os pais, foi por necessidade, egoísmo ou pura vaidade, que mantive o presépio em cima de um móvel desde o Natal, com a intenção de assim ficar todo o ano. Mas a gata mais jovem, mais pesada, mais irrequieta, fez resvalar a Nossa Senhora pelo móvel até ao chão, onde o manto se fez em três bocados e mil cacos. 
De nada adiantaram as minhas lágrimas, choradas julguei eu que às escondidas — porque o pudor, o orgulho, a vergonha e, principalmente, a necessidade de encasulamento me tomam inteira nestas horas —, sufocada por dúvidas, se era melhor colar, se era melhor arranjar um bom restaurador, e ausências várias, se me saberia bem um abraço, mesmo que só um braço por cima do ombro, umas cócegas para me fazer rasgar um sorriso imperfeito, uns beijos nos olhos, cheios de borrões negros. Foi quando ele surgiu com aqueles olhos grandes de amor, retirou a peça da caixa onde eu a deixara e se sumiu assim, qual anjo, voltando pouco depois, com ela colada, as fissuras à mostra, os recantos um pouco desencontrados. E isso, mesmo sem abraço,  sem cócegas, sem beijos nos olhos, fez-me rasgar o tal sorriso imperfeito, e perceber que, se o amor não puder ser de granito, pode muito bem ser de barro, que é tão igualmente indestrutível. 

19/11/2017

imperfeita transposição

Enquanto crianças, temos dificuldade em perceber algumas frases que nos dizem os adultos, às vezes a mãe, normalmente a mãe. A minha teve sempre uma linguagem muito metafórica, muito poética, e com ela aprendi quase tudo o que se relaciona com o coração. Até uma certa idade, não entendia capazmente tudo o que me dizia, mas sei que fixava como máxima, retinha como lei, guardava como tesouro, nem imaginando que, mais tarde — tão mais tarde quanto agora, tantos anos volvidos —, iria perceber todo o alcance daquilo que, naquele momento, me parecia quase enigmático. 
Assim foi com o desabafo "Tomara que todas as vossas dores passassem para mim". Era um espanto, era uma magia extraordinária, porém injusta, que imaginava ser possível, e se revelava impossível, aquela que a minha mãe desejava para as dores das filhas. 
Percebi muitos anos mais tarde, quando tive os meus próprios filhos, e os vi magoados, doridos, inferiorizados, perdidos. Percebi, de forma cruel e, nesses momentos sim, liminarmente injusta, a impossibilidade de operar essa transposição, a de tomar para mim tudo o que os amachucava e adoecia. Restou-me, nessas horas, a mera e pequeníssima tarefa de os apaziguar, de os defender, de os tratar — e, às vezes, nem isso, pois não era das minhas mãos sem dom que poderia sair o "milagre". 
Agora queria transpor para mim uma dor dessas grandes, que nos tomam a vida de súbito, de alguém a quem quero tão bem. Porque sei o quanto ela dói, porque sei passar por ela, porque tenho uma cicatriz igual à ferida que se abriu agora naquele coração de quem tanto amo. E, no entanto, o único "milagre" que pode sair das minhas mãos, é, mais uma vez, o de apaziguar.
Tomara que a tua dor passasse para mim, querida gandi