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18/01/2024

Macaquinhos, cada um tem os seus

Chego perto dos elevadores e ela já lá está. Acaba de abrir-se o que chamou e tem à frente, encara perifericamente comigo — creio que o pescoço não mexe — e salta para o lado, para a porta do outro elevador, em cujo botão toca freneticamente, mas que, obviamente, não vem, visto que está o outro ali mesmo, à espera que alguém se digne entrar. Digno-me eu, com um suspiro inaudível (?), e sigo. Batalha esta inglória, visto que uma e outra íamos para o segundo andar. Confesso que nem ponderei ir pelas escadas, vinha de uma aula violenta de dança e carregada de tralha. Ela, por sua vez, carregada de fantasmas, que devem pesar toneladas: casaco comprido, botas altas, gorro até aos olhos, luvas. Faz-me lembrar uma criatura que viajava diariamente comigo no metro, há cerca de dez anos. E, de repente, apercebo-me que é exactamente a mesma pessoa. É filha da mulher do saco do El Corte Inglès, anciã que habita este caixote há tantos anos como eu e, desde que o marido morreu e o filho — que morava portas com portas com os pais, e cuja mulher me odiava por estar permanentemente grávida, como se eu lhe tivesse furtado a fertilidade e o mundo fosse injusto e Deus não tivesse uma justiça distributiva — se foi, levando a mulher e o São Bernardo que tinham enjaulado num T2, nunca mais tendo dado as caras nem mais parte nenhuma do corpo, que a mulher do saco passou a usá-lo como uma mala cara de estimação. Depois de várias conjecturas mórbidas que fiz acerca do conteúdo do saco, um dia apanhei-a distraída na paragem do autocarro e fui vasculhar. Decepção: eram só jornais. Ainda tive relações de cordialidade com a pessoa até ao dia em que ela chamou parvo ao meu filho — andava ele de skate debaixo da janela dela e a filha, aquela calmeirona para mais de trintas (ou oitentas?) queria dormir a sesta —, que nunca mais me viu a dentadura à mostra.

Portanto, a filha é assim desde muito antes do covid: deve ter a panca dos ácaros, das bactérias, dos vírus, do diabo a quatro patas. Anda por aí muita gripe A e também a outra sem direito a letra, tudo tosse, tudo funga, tudo se desfaz em ranho e eu, por uma vez, passo sambando na cara das inimigas. Também tenho meus macaquinhos no sótão, mas até acho que estou coberta de razões. Quando a outra pulou para o elevador do lado, pensei, hipocondriacamente: “Será que esta já sabe e, como é avariada da marmita, julga que isto se pega?”. Mas depois sosseguei a vítima que há em mim, com “Hah, ela faz isto com toda a gente. Eu, tal como os outros, temos a carraça, a lepra, o dengue, o E. Coli e a malária, tudo junto.”

É que nem imagina que eu tenho mais motivos para me proteger dela do que ela de mim.

01/09/2022

The girl next door # 18

Por razões que desconheço em absoluto, que tanto podem prender-se com uma extrema empatia para com o outro (ser humano) — aspirando a que, se todas as pessoas fossem como eu, ninguém andaria com a blusa do avesso na rua —, um TOC de não poder ver nada fora do lugar, ou simplesmente porque tenho a mania que sou estupendaça, outro dia corri a avisar uma vizinha de que ela trazia as cuecas à mostra.

Vinha eu com meu Pacheco — comprei um carrinho para me alombar com as compras, tipo velhas no mercado, e assim lhe chamei, em homenagem à grande Hermínia Silva e seu guitarrista —, quando vislumbro, ao fundo da rua, a minha vizinha de baixo, senhora para os seus setenta e picos e de carnes abastada, que, após despejar várias garrafas de vinho no vidrão, se preparava para entrar num carro daqueles que têm uma etiqueta TVDE. Subitamente, ela move-se, exibe-me a traseira e vejo-lhe, não o traseiro, convenhamos, mas a cueca, com a saia toda ali entalada. Quem nunca? Só quem não usa saias, uma percentagem quase irrisória da população mundial. Basta um chichi à pressa, há um repuxar mais desajeitado das pregas-laregas do vestido-larido, e lá se vai para a rua, enfrentando o(s) desconhecido(s) de pernas até ao quadril e cuecas à vela. 

Foi uma sensação de quase pânico, a que me tomou, mas, como sempre nessas, agi imediatamente. Dava para bombeira. Ou paramédica (paranóica, mas sim). Ou super-heroína, drug free. Desato então a correr na direcção da vizinha, Pacheco a reboque, quando me lembro que não sei o nome dela (apesar de vivermos sob o mesmo tecto vai para trinta anos), então foi mesmo de “Ó vizinha! Ó vizinha!”, como naqueles bairros, e ela a meter-se no carro e a fechar a porta. “Queres ver que vou morrer na praia?”, pensava meu músculo cardíaco todo acelerado. Felizmente, e porque existe um pequeno compasso de espera entre a pessoa entrar no carro e o motorista arrancar, alcancei-o, bati desesperadamente no vidro, a vizinha abriu a porta e disse-lhe: “Tem a saia presa nas cuecas”. “Estou indecente?”, respondeu ela, num risinho de nervos. “Está.” Estive mesmo para lhe recomendar passar a andar sem cuecas, a ver se estas coisas não voltam a acontecer-lhe.


01/07/2022

O António e os dedos no rabo

Sim, se calhar estas coisas acontecem a toda a gente, mas dá-se que não o creio. É por esse motivo que necessito de desabafá-las por escrito, como se, ao fazê-lo, elas se me descolassem da mente, ou, pelo menos, perdessem a força estrondosa com que me atormentam.

Era eu a chegar à bicha (blhá) da estação de serviço, e reconheci-o logo, de costas: careca, envergando o tipo de calças que usa sempre — skinny jeans, o homem já passou dos sessenta e aquilo ainda lhe aumenta mais o perímetro da cintura e lhe diminui o volume do traseiro a níveis praticamente inexistentes —, camisa desportiva entalada por dentro das calças, todo um menear de anca enquanto se queixava do aumento do preço dos combustíveis. Quando se apercebeu de que era eu que estava atrás dele, perguntou-me como é que eu estava, deu-me dois beijinhos extremamente perfumados e eu respondi a verdade: "Agora estou melhor". "Ah, do quê?", "Cancro.", "Aaaah, de quem?", "Meu.", e ele de nariz franzido, óculos a subirem para o intervalo das sobrancelhas, olhos exageradamente escancarados, boca a tomar aquele formato da das influencers quando se fotografam em selfie, "Aaaah, não fazia ideia!", lá veio a retórica das amigas que tiveram, milhares de amigas que tiveram e estão óptimas, olha que maravilha, ter um cancro é o prelúdio de ficar óptima, imagino o que ficarei, se óptima já eu era. 

Estava nestes pensamentos etéreos — não esquecer que o cenário era uma bomba de gasolina —, quando ele larga de lá, depois de me dizer que o Paulo é como um filho para mim, sendo que eu sei que o Paulo e ele vivem maritalmente: 

- Eu faço o exame da próstata todos os anos. Os meus amigos recusam-se, dizem que ninguém lhes mete os dedos no rabo, ou então aquele aparelho, mas eu não. 

E eu a pensar que sorte a dele, amigas pós-cancro óptimas, amigos pré-cancro com medo dos dedos no rabo, agora finalmente concluo que isto de ser mulher é um privilégio muito maior do que eu pensava, talvez me pirasse daqui neste preciso momento, antes que ele seja um nico mais gráfico. 


01/11/2021

Leve cruz

Somos vizinhas há para lá de duas décadas, ela é dessas que fazem falta, que dá revistas cor-de-rosa quando acaba de as “ler” — se é que chega a pôr-lhes os olhos em cima —, mas agora anda a morar numa ilha, desde que o vírus veio e o casamento começou a desmoronar-se, levou o homem com ela, como se não arranjasse melhor do que um careca esquálido e choninhas, que, disse-me ela certa vez, andava embeiçado por uma “fulana” que vivia três prédios adiante, nem para trair foi capaz de ir longe, mas o amor tem destas porcarias, e quem sou eu, que sou só vizinha, para avaliar o que se passava entre quatro paredes e um tecto e agora rodeados de oceano por todos os lados, a céu descoberto?

Nunca lhe conheci mãe, pai sim, zeloso e dedicado ao único irmão, deficiente grave de uma maleita que não sei identificar, atrasos e incapacidades a todos os níveis, só não é deslocado numa cadeira de rodas por, acredito fervorosamente, teimosia de pai e irmã. Vi-o passar outro dia, naquela espécie de andar de pernas arrastadas, apoiado, de um lado, no pai — que nunca vi envelhecer —, do outro numa das filhas dela, ambos carregando, a pequeníssimos passos, o corpo a cada dia mais deformado e sofrido, como uma cruz que, por motivos que quem, como eu, assiste só da bancada, não compreende o quanto, muito mais do que lhes pesar, os faz felizes. Não por esse motivo, mas por todos os outros, nada mais me veio à cabeça, que não fosse, “Que sorte que tu tens, Ester, que ainda tens o teu pai”.


17/10/2021

A vizinha lá do fundo

é — ou foi — actriz das telenovelas, designadamente aquela dos morangos sem chantilly, pormenor do qual muito me confrange lembrar, uma vez que, quando se mudou para o caixote com telhado comum que passou a partilhar com a gente, deslocou-se propositadamente à minha porta com o intuito de se apresentar, e era ela de olhos esbugalhados e eu sem perceber o motivo de tanto escancaranço, tendo compreendido mais tarde que a explicação era apenas que aqui a xanxa não sabia quem era a vedeta. Não pude — nem posso agora — explicar-lhe que não assisto a semelhantes enredos radiotelevisivos, pois despendo as minhas horas livres com outro telelixo, uns furos abaixo daquele que a vizinha protagonizou. Também não guardo mágoa desse episódio, já que ela se fartou de me mentir, por exemplo quando disse ser mãe de três, quando afinal é de apenas dois (o terceiro é do companheiro e saiu de outra barriga, ou seja, matematicamente, a pessoa estava a considerar os meus, os teus e os nossos, dado que um dos dela também não saiu daquele peny com o qual coabita), claramente a tentar medir pilas comigo, só porque eu sou mãe de quatro (chiu, respeito).

Acontece que esta mamã de todos deixa sacos de cinquenta litros cheios de fraldas de cocó — que eu presumo pertencerem ao mais novo, com coisa de três anos e cerca de um metro e trinta e quatro de altura — na conduta do lixo, que fica exactamente junto à porta cá do lar, algo longínqua da dela, já que habita nos fundilhos do patamar. Portanto, a enorme cria defeca, imagino que tarolos olímpicos, ela guarda aquilo uns dias dentro de casa, e depois vem despejar sacos cheios de calhaus putrefeitos à minha porta. 

Ora, vamos lá a ver: a conduta destina-se apenas a lixo reciclável. Todo o restante deve ser metido cano abaixo, lá naquela portinhola fedorenta. Então, a vizinha, de duas, uma: ou considera a possibilidade de as fraldas do seu pimpolhão serem recicladas (para adubo de plantações de cápsulas de café), ou teme que os sacos entupam a conduta comum. A mim, deixa-me de mãos e pés atados, não me restando alternativa senão enfiar eu mesma cada saco cano abaixo, se não quiser ter meu lar a feder a ETAR. Porque devolvê-los para a porta dela seria a solução para este imbróglio, só que, lá está, eu sou uma senhora, não faço essas coisas. Mais depressa lhe deixo um bacio à porta, a ver se incentivo o desfralde à criança. Que já virá tarde, ainda assim.


28/09/2021

Relação de causa-efeito?

Creio que vai sair-me um volátil, porém guinchado, desabafo.

A miúda do andar de cima continua a gritar. Está aos berros desde o início da pandemia. Passou do ano e meio de vida para os três anos, sempre aos guinchos. Gostaria de saber se são as crianças-covid, chamemos-lhes assim — então não há as crianças-galinha e as crianças-lobo? —, que são mais irascíveis do que as de gerações anteriores, ou se sou eu que estou mais intolerante. Desde a praia, ao campo, à montanha, à cidade, à aldeia, para onde quer que me volte, há uma criança aos brados, ou aos silvos,  atingindo agudos insuportáveis ao fino tímpano da comum mortal. Já considerei mesmo se não será antes a minha cabeça que fabrica estes ruídos, só para me irritar a mim. 

Mas não era isto que vinha hoje partilhar. Até comecei bem, contudo a pluma leva-me por caminhos. 

A criança do andar de cima. 

Julgo, não percebendo grande coisa de materiais de construção, menos ainda de Física, que, sendo a água boa condutora do som, as casas de banho, sejam na Buraca ou na Lapa, são “excelentes” locais para — em querendo, e daí as aspas, ou mesmo que não —conhecer um pouco da vida íntima dos vizinhos.

A miúda do andar acima do meu. E o pai da miúda.

Há largos meses que começo os meus dias brindada pelo chinfrim que fazem as cordas vocais da filha e o intestino grosso do pai. Pronto, já disse, agora não posso desdizer. 

Resta-me saber, já que os dois ruídos me entram paredes — chão com tecto — adentro enquanto me maquilho, se existe uma relação de causa-efeito entre o silvo da filha e o flato do pai. Qual provoca qual?, é a enorme questão. A filha desvaria quando o pai se deslarga, ou o homem tem um acesso flatulento quando a criança guincha? Eventualmente, nunca saberei. Ou se, simplesmente, se trata de mera coincidência, por simbiose biológica?

Pergunto-me amiúde, mas (ainda) não me respondo, em que estado estarão os nervos daquela mãe. Imagine-se, se eu, que só moro umas quantas vigas + pladures abaixo, sinto que corro o risco de errar o risco e enfiar o lápis de olhos num olho, que direi dela? Será menos arriscado se não se maquilhar, concluo. 



22/06/2020

The girl next door # 17

Cá na barraca de betão armado, que alberga trinta e sete casas e não menos que setenta almas despenadas, tudo normal. O de baixo chega a casa e despe-se na varanda, à qual tem acesso, julgo que apenas por dentro da casa dele. Seja o que for que traz agarrado à roupa, vindo da rua, fica ali a arejar e o vento leva, como lá no "E tudo o". O de cima continua a vender saúde, apesar da miudinha que grita dias inteiros, envelhecendo-lhe a mulher dia após dia. Grisalha, despenteada, enrugada, disse-me outro dia, do fundilho dos fundos olhos azuis, que saiu todos os dias, mesmo durante a quarentena, para não ficar louca. Entretanto, parece-me novamente grávida. Sendo assim, desejo-lhe uma criança com uma caixa de velocidades torácica menos potente do que a que esta tem.
No andar de cima mora há pouco tempo um casal de rapazes. Um deles assusta-se com uma facilidade assustadora. Outro dia ouvi miados aos brados fora da minha porta, confirmei que tinha a gata dentro de casa e fui verificar o que se passava. Estava uma gata nas escadas entre o meu andar e o deles, subi os degraus que me distanciavam da bicha, mas ela deu em dar corda às garras e marinhou por ali acima à minha frente. A porta do apartamento deles estava aberta, o assustadiço assomou-se e a gata deu um pulo vertical daqueles mesmo à gato, escarranchou-se-lhe nos ombros, ele gritou "Ai, valha-me Deus", mas não sei se teve sorte, que o animal continuou em voo, desta vez picado, porta dentro. Percebi então a que casa pertencia a gata: à das três doidas - mãe e duas filhas - que moram ao fundo do hall dos elevadores. O sentido de orientação dos gatos permite-lhes saber qual a porta das seis de cada andar é a sua, mas não conseguem raciocinar que subiram ou desceram um lance ou dois.  Lá veio a filha que também arrasta os pés mas ao menos não resfolega buscar o bicho e fim.
Creio que, se Deus chegou a valer ao rapaz naquele momento, não valeu com certeza dias mais tarde, pois, enclausurado no elevador, tomou-se de pânico e destruiu a máquina por completo, de modo que só o arranjo do dito ascensor ascende a cinco mil euros, passe o pleonasmo. E agora andamos os cerca de setenta escadas abaixo e escadas acima, quando perdemos o elevador sobejante e a paciência para esperar por ele. Parece que se discute agora quem paga o arranjo. Cá por mim, pode ficar como está, faz parte do meu novo normal: menos umas aulas de step a que me deslocarei e mais uma poupança para o gordo do condomínio.
A velhota que tem porta em frente do elevador, viúva há vinte anos, substituiu o saco do El Corte Inglès com que andava desde que o marido morreu - e que me sugeria mil e tantas possibilidades quanto ao seu conteúdo, até que um dia a apanhei desprevenida na paragem do autocarro, fui espreitar e eram apenas... jornais -, por vários sacos transparentes com que forra as mãos para sair à rua. Depois deixa sacos caídos nas escadas, nem imagina o patim que aquilo é se alguém lhe põe um pé em cima. Também não a tenho em grande conta mental, pois aqui há uns anos acercou-se da janela e chamou parvo ao meu filho porque ele andava de skate na rua e a filha dela (uma calmeirona, já na altura com trinta e tal anos, e que nem sequer morava aqui) precisava de descansar, em plena tarde.
De resto, tudo normal, já disse?


13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


24/07/2018

Tranca nova, hã?

Estava eu muito descansada da minha vida a viver noutro lar que não o meu, derivados da obra, quando venho a tomar conhecimento de que o meu vizinho de baixo me havia estoirado com a fechadura da porta da entrada. O senhor é surdo, dependente de aparelho auditivo, surdo ao ponto de eu poder dar uns bons brados em resposta às minhas vozes, que o homem não se nem me chateia. No entanto, não sei se por isso, ou só por aquilo, já por duas ou três vezes que se engana na porta e bate na minha - na verdade, dá-lhe grandes tareias, pois, assim como não ouve, entende que as outras pessoas... -, ou então mete a chave na fechadura e tenta assaltar-me (pois que outra razão pode assistir-lhe, para querer entrar à força na casa de outrem?).
Desta vez, a tentativa foi mais longe, ou mais fundo, e o vizinho meteu a chave dele na fechadura que é a minha, com a diferença porém de que já não conseguiu retirá-la, ou seja, seria um crime sob a forma tentada, que poderia ser perfeito, não fora ter-se demonstrado que esse conceito não existe: o vizinho teve mesmo que denunciar-se, se é que queria reaver a chave lá do lar dele.
Chamada aquela empresa de chaves que detém na sua designação dois nomes de localidades, assim veio o necessário arrombamento tecnico-científico da fechadura, como também o orçamento para uma nova. Porém, e dado que até as fechaduras progrediram em vinte e cinco anos de trancas, as pessoas quiseram uma xpto, daquelas à prova de melgas - em sentidos estrito e lato - e tudo. 
Desconheço se o vizinho volta a enganar-se na porta, mas certinho é que vai pensar duas ou três vezes antes de lhe meter a chave, pois desta vez, só para não ser a boazinha do costume, pu-lo a pagar o que estragou, que é como manda a lei e o ditado popular.
E viveremos bem trancafiados para sempre.

20/05/2018

The girl next door # 16

Íamos pela rua que é nossa, de mãos dadas como amigas que somos tão, amizade esta nascida há pouco, mas já de cimento e pedra e cal. 
Agora ela vai-se embora, num regresso sem vontade mas necessário, ficará um oceano a separar-nos (como se existissem oceanos capazes de um impossível desses). Deve ser por isso que nos abraçamos à chegada e à despedida, mesmo que vamos só ali ao café, para ela chorar das dores que o amor lhe trouxe — e a que eu chamo Teoria do Sapato Apertado, uma das muitas que inventei nesta vida —, mas também, convenhamos, é para isso que as amigas vizinhas servem. Digo eu.
Cruzamo-nos então com outra vizinha, que me olha, me estranha, e, quando a cumprimento de "Olá, estás boa?", confessa que, à distância, não estava a conhecer-me. Expliquei que esta era eu ao natural, sem maquilhagem, uma osga verde de cabelo espetado, por contraponto com aquela Bratz girl a que todos estão mal habituados, porque tinha vindo da praia há pouco e ainda só houvera tempo para o banho e-e. Pergunta-me, a propósito de praia: "Estavas chateada?", e era eu agora a surpreendida, "Não, porquê?". Explicou então que, um dia, lhe dei o melhor conselho que já recebeu na vida: "Estás chateada? Vai para a praia. Chateaste-te com o teu marido? Vai para a praia. Os miúdos estão insuportáveis? Vai para a praia. Tens a cozinha desarrumada? Vai para a praia." 
De facto, devo ser uma pessoa bastante previsível. E translúcida. Mas, convenhamos, sou também um poço de sabedoria da treta, que, no fundo (desse poço), é a que mais falta faz às pessoas humanas. Sou uma opinion maker, uma verdadeira influencer. Estou no trilho certo para me transmutar na genuína blogger. Mas sei que ainda sou apenas uma crisálida.
(Tenho que começar a dar consultas, para começar.) (E a cobrá-las à bruta.)

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)

22/02/2018

The girl next door # 14

Enquanto, por um lado, tenho vizinhos passados da marmita (não quero sequer imaginar o que acontece dentro do móvel da cozinha onde as guardam), e que desde o dia das bruxas — seja lá o que isso for — até ao dia dos namorados — seja lá o que isso for —, passando em brancas nuvens o Carnaval — idem —, comemoram tudo, em tudo me fazendo lembrar aquele anúncio do aniversário do coelho da Joana,


por outro lado, tenho vizinhos que me odeiam. Mas, quando digo odeiam, é mesmo o verbo levado ao pé da letra, é aquele sentimento tão próximo do amor quanto pode sê-lo, ao ponto de haver a preocupação de manifestá-lo, de fazer tudo para que o outro (eu) dê por isso, de se fazer notar. (Só falta fazer flick-flack encarpado à retaguarda com triplo mortal quando me vê.) Penso mesmo que o homem — trata-se de um homem (do mais feio e desinteressante e mal cheiroso que existe — o que já deu para sentir no confinadinho espaço do elevador, das poucas vezes que lá coincidimos —, mas diz que o coração lá tem razões que a razão desconhece), tudo faz para que eu perceba o quanto me detesta. Mas isto há anos. Há muitos anos. Mais de vinte, são muitíssimos. Não sei lá que soberana ofensa fiz a sua majestade, que desde ter feito marcha-atrás a uma velocidade de corrida mais louca do mundo quando viu que eu ia a atravessar na.passadeira | com.uma.criança | ao.colo, até se dar ao trabalho de mandar os dois elevadores para o mais longe possível do rés-do-chão quando vê que eu vou a entrar no prédio (só possível se passar os dias à janela, a ver se me vê surgir. Cão), até bater com a porta quando coincidimos na entrada do prédio, ele há de tudo um pouco naquela rica panóplia de merdinhas ofensivas. A mim o assunto também já me anda a começar a moer, maneiras que tenho vindo a desistir de todo o refinamento e sofisticação que me são característicos. A última vez que nos encontrámos à saída do edifício, lá ia o sarnento à minha frente, olhou para trás quando ouviu (a senhora d) os meus passos, confirmou que era eu, saiu e largou a porta, porque lá na favela onde foi educado nem portas haveria, quanto mais a cortesia de segurá-las, e há que garantir que os parentes lhe continuem a chafurdar na lama, com consequentes quedas constantes. Dessa vez, fartinha destes números de circo, precipitei-me para a porta, qual super-heroína, e dei-lhe aquele encontrão estrondoso, antes que ela se fechasse delicadamente sozinha. Cansei de ser sexy boa.

Mas também tenho vizinhas assim,

É facto: trata-se de uma embalagem aberta. Não
fui a tempo de fotografá-la fechada antes de ser
acometida pelo irreprimível desejo de a esvaziar

que sabem que eu gosto de amendoins como o macaco gosta de banana, e cujo marido vai ao Brasil e lhe pedem que esconda na mala mais um pacote deles, cá para a primata. E, não contente, envergonhada por dar "só assim um pacote de amendoins", ainda me fazem uma bolsinha, com as próprias mãos, para os "transportar". 


E não sabe ela que eu tenho um blog. 
Em suma: 
1. Para quê parcerias, se tenho brindes desta qualidade emocional, nos quais acredito piamente, e até consumo?
2. A genuína blogger esconde-se onde e quando menos se espera;
3. Com amigas assim, não preciso de inimigos. 

21/01/2018

Hoje percebi a acepção estrita de vergonha alheia

À frente de Rosinha, um carro branco, a circular a uma velocidade normalíssima — uns 30 km/h — para a rua que era, estreita, cheia de passadeiras e de pessoas, com uma única faixa de rodagem ocupada por carros parados em segunda fila. Por isso, era previsível que tivéssemos que parar uns metros adiante, esperando que não viesse nenhum no sentido contrário, para podermos ultrapassá-los. Mas, ainda antes, uma passadeira de peões, onde iniciavam o atravessamento um senhor com alguma idade e um jovem pai com uma criança ao colo. O condutor do carro branco aproximou-se da passadeira quando as três pessoas já se encontravam a meio dela, e simplesmente (?) contornou os peões pela esquerda da faixa, entrando em contra-mão, para poder continuar a marcha. Ficaram os dois adultos parados, não sei se estarrecidos, mas certamente estáticos, a olhar para o carro, que seguiu. 
E seguiu à minha frente. Ultrapassou, na mesma calma velocidade, os carros parados em segunda fila, e parou no semáforo vermelho, logo adiante. 
E eu a fritar raivas contra quem acabava de fazer tal coisa. Vi-lhe no retrovisor os óculos e parte de um rosto feminino, que tanto podia ter 30 como 50 anos, ou mesmo mais. Ao menos que fosse uma anciã, distraída e sem reflexos, daquelas com que nos cruzamos todos os dias e até nos benzemos só de pensar.
O sinal verde abriu e ela não avançou. Fiz o que nunca faço, que foi apitar-lhe. (Normalmente, dou-lhes luzes até os encandear de nervos.) E fiz aquele gesto de impaciência, os dois braços no ar. 
Então, ela fez-me adeusinho com a mão direita e ainda fiquei mais irritada. Praguejei, com a solidária condescendência de Rosinha, que "Tinhas tanta pressa lá atrás, que só faltou passares por cima das pessoas, e agora adormeces no semáforo. Cabra." [Eu sou assim, esta lady no volante.] Seguiu, contornou à direita, depois à esquerda, depois à direita, e entrou na minha rua. Estacionou, e caíram-me as bolinhas dos olhos ao chão, quando me apercebi que era a minha vizinha dos tabuleiros. 
Fiquei tão envergonhada por ela.
Parei o carro uns metros adiante, não esperei que esperasse por mim, abri o porta-bagagens e fiquei a fazer tempo, fingindo que remexia em coisas invisíveis. Não quis encontrá-la naquele momento, pois conheço o tamanho da minha boca e a distância a que ela está do coração. E não havia nada de simpático que conseguisse dizer-lhe naquele momento. Mas juro pela minha saudinha que não foi por temer que se acabassem os tabuleiros. 
Que vergonha a minha. Que incivilidade a dela. E moramos nós sob o mesmo tecto.


01/11/2017

Foi assim que aconteceu

Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia. 
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser. 

30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


16/10/2017

The girl next door # 13

Depois admiro-me que me riscam o carro. 
A sério, esgotei a paciência para gente parva. Não sei se é o Mundo que está contra mim ou se sou eu que estou contra o Mundo.
No andar abaixo do meu mora uma louca. Já falei dela aqui. E aqui. E, pelos vistos, também aqui. 
(Se calhar, ando a falar demasiado nela.)

Recebi isto:


E este ano ela leva com isto:


Pronto, é só. 
(Havemos de ter desenvolvimentos.)

23/09/2017

Por qué no te...

Encontro-a no supermercado. Está mais magra, mais bonita, a mesma chata de sempre. Sei que casou com o viúvo da melhor amiga e, de dote, levou os dois filhos com ela, adoptando os dois dele, já tudo gente graúda. Juntaram os meus e os teus, já não irão a tempo de fazer nascer os nossos, mas isso é lá com eles. A soma de dois mais dois só interessa aqui por conta da falta de noção e da incapacidade de retribuição da minha simpatia. Desperdiço-me com certas pessoas, porque adoro sofrer. É uma drenagem, uma purga, uma desinfestação. 
Só me falta encostar os dois cotovelos ao guiador do carrinho, e a anca à fruta, porque sei que vem de lá um bocado da minha vida que facilmente deitarei fora quando contabilizar o que interessa, mas que apresentarei no Juízo Final como um momento daqueles que me faz merecer o céu para onde não quero ir. Mentalmente, ofereço pela saúde dos meus filhos, ponho o sorriso número três, que é o de plástico, e ouço. Ela fala ininterruptamente, é daquelas pessoas que falam para se ouvir e, rigorosamente, não ouvem ninguém. Refiro-me a escutar, não apenas a utilizar o sentido da audição. Tenho dela a pior das impressões nesse aspecto, por já ter passado momentos de verdadeiro ferro e suplício por conta da sua incessante verborreia, versus minha falta de tempo/paciência/está-a-chover/tenho-uma-criança-aos-gritos. Mas é minha conhecida, vizinha de bairro, filhos na mesma escola há muitos anos, não há volta a dar-lhe — nem a ela nem a mim, que não sei fugir nem ser mal educada. Há uns anos, numa festa de final de ano — que, já por si, são ocasiões que proporcionam ambientes que, esses sim, criam em nós vontades irreprimíveis de evasão (física, não mental) —, foi esta pessoa "salvar-me" (palavra dela) da seca que a directora da escola me estava a pregar, tendo eu até ficado agradecida no momento, para, logo de seguida, me pregar ela uma seca maior ainda — e, seca por seca, mais valia ter ficado só pela primeira, não se estragavam duas casas, ou lá o que é.
Pergunta-me pelos filhos, para não ouvir a resposta que balbucio, perdida nos lábios, que bem, que esta semana tivemos uma grande vitória profissional de uma delas. Pergunto pelos dela, responde-me a respeito dos filhos dele como se fossem dela, parece-me entre o comovente e o demagógico, entre o carinhoso e o absurdo, e, como fico, mais uma vez, sem palavras, digo qualquer coisa que pode parecer uma inconveniência, ou então uma simpatia: "Agora já sabes o que é ter quatro". Como se fosse comparável a adopção de dois adultos, a juntar a outros dois, com a criação de quatro crianças desde o nascimento. Mas isto, ela ouviu e, mesmo assim, sem perder a proa nem a pompa, reduziu a minha, pelos vistos, péssima comparação, empolando os grandes trabalhos a que está condenada com tanta gente, respondendo "Ah, mas eu tenho quatro, e tenho duas casas, não é como tu, que só tens uma casa para governar". 


21/09/2017

The girl next door # 12

Desta vez, o mesmo tabuleiro que já visitou a minha casa uma vez, veio cheio de uvas pretas. Existe uma possibilidade de serem a minha fruta favorita [e, como sou uma líder nata e inata, uma opinion maker, uma it (old) girl, é capaz de me aparecer já aqui uma multidão a dizer que "também a minha", mas é que não: ninguém gosta de uvas pretas como eu, eu quero ser única, irrepetível e ímpar nas minhas coisinhas]. Vá-se lá perceber como é que a vizinha adivinhou, ou então ele há mesmo coincidências, e, com a firme intenção de agradecer, eis que — apesar de querer ser aquelas coisas todas que disse agora, sou também altamente previsível — o devolvo com as mesmas bolachas da outra vez, só que com outro formato. 


Lembrei-me que a vizinha tem cães, e achei a ideia gira. Não sei se são dois cães ou duas cadelas, ou uma cadela e um cão, ou tudo junto, ou nada disso, mas considerei que aquela cena do azul e rosa também se podia aplicar aos animais, e só não quero é ferir susceptibilidades. 
(Se não gostar, pode sempre atirar-lhes os ossos. Literalmente.)

14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]

09/07/2017

The Devil next door

E é precisamente ela, que é enfermeira, casada com um médico (of course), e que moram no último andar do prédio, que responde na reunião de condomínio à pertinente observação do cônjuge da pessoa, de que uma cadeira de rodas não cabe no nosso elevador, coisa comum de parte comum, que, se as pessoas precisam de subir e descer com uma cadeira de rodas, o melhor é mandarem instalar uma cadeira elevatória mecânica, daquelas que sobem as escadas com a pessoa lá sentada. 
E eu, que sou uma pessoa má, e a vejo mais velha, mais perra e mais marreca todos os dias, fiquei secretamente a pensar cá para com o meu fecho éclair que pode ser que não lhe tarde o dia em que tenha que subir e descer sentada numa coisa dessas, escadas acima e escadas abaixo, para e desde o sexto andar em que mora, até ao rés-do-chão. E, quem sabe, com sorte, a mecânica da coisa se engana ou avaria e atinge velocidades supersónicas com ela lá sentada. Na descida, que dá mais pica.