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13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


24/07/2018

Tranca nova, hã?

Estava eu muito descansada da minha vida a viver noutro lar que não o meu, derivados da obra, quando venho a tomar conhecimento de que o meu vizinho de baixo me havia estoirado com a fechadura da porta da entrada. O senhor é surdo, dependente de aparelho auditivo, surdo ao ponto de eu poder dar uns bons brados em resposta às minhas vozes, que o homem não se nem me chateia. No entanto, não sei se por isso, ou só por aquilo, já por duas ou três vezes que se engana na porta e bate na minha - na verdade, dá-lhe grandes tareias, pois, assim como não ouve, entende que as outras pessoas... -, ou então mete a chave na fechadura e tenta assaltar-me (pois que outra razão pode assistir-lhe, para querer entrar à força na casa de outrem?).
Desta vez, a tentativa foi mais longe, ou mais fundo, e o vizinho meteu a chave dele na fechadura que é a minha, com a diferença porém de que já não conseguiu retirá-la, ou seja, seria um crime sob a forma tentada, que poderia ser perfeito, não fora ter-se demonstrado que esse conceito não existe: o vizinho teve mesmo que denunciar-se, se é que queria reaver a chave lá do lar dele.
Chamada aquela empresa de chaves que detém na sua designação dois nomes de localidades, assim veio o necessário arrombamento tecnico-científico da fechadura, como também o orçamento para uma nova. Porém, e dado que até as fechaduras progrediram em vinte e cinco anos de trancas, as pessoas quiseram uma xpto, daquelas à prova de melgas - em sentidos estrito e lato - e tudo. 
Desconheço se o vizinho volta a enganar-se na porta, mas certinho é que vai pensar duas ou três vezes antes de lhe meter a chave, pois desta vez, só para não ser a boazinha do costume, pu-lo a pagar o que estragou, que é como manda a lei e o ditado popular.
E viveremos bem trancafiados para sempre.

20/05/2018

The girl next door # 16

Íamos pela rua que é nossa, de mãos dadas como amigas que somos tão, amizade esta nascida há pouco, mas já de cimento e pedra e cal. 
Agora ela vai-se embora, num regresso sem vontade mas necessário, ficará um oceano a separar-nos (como se existissem oceanos capazes de um impossível desses). Deve ser por isso que nos abraçamos à chegada e à despedida, mesmo que vamos só ali ao café, para ela chorar das dores que o amor lhe trouxe — e a que eu chamo Teoria do Sapato Apertado, uma das muitas que inventei nesta vida —, mas também, convenhamos, é para isso que as amigas vizinhas servem. Digo eu.
Cruzamo-nos então com outra vizinha, que me olha, me estranha, e, quando a cumprimento de "Olá, estás boa?", confessa que, à distância, não estava a conhecer-me. Expliquei que esta era eu ao natural, sem maquilhagem, uma osga verde de cabelo espetado, por contraponto com aquela Bratz girl a que todos estão mal habituados, porque tinha vindo da praia há pouco e ainda só houvera tempo para o banho e-e. Pergunta-me, a propósito de praia: "Estavas chateada?", e era eu agora a surpreendida, "Não, porquê?". Explicou então que, um dia, lhe dei o melhor conselho que já recebeu na vida: "Estás chateada? Vai para a praia. Chateaste-te com o teu marido? Vai para a praia. Os miúdos estão insuportáveis? Vai para a praia. Tens a cozinha desarrumada? Vai para a praia." 
De facto, devo ser uma pessoa bastante previsível. E translúcida. Mas, convenhamos, sou também um poço de sabedoria da treta, que, no fundo (desse poço), é a que mais falta faz às pessoas humanas. Sou uma opinion maker, uma verdadeira influencer. Estou no trilho certo para me transmutar na genuína blogger. Mas sei que ainda sou apenas uma crisálida.
(Tenho que começar a dar consultas, para começar.) (E a cobrá-las à bruta.)

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)

22/02/2018

The girl next door # 14

Enquanto, por um lado, tenho vizinhos passados da marmita (não quero sequer imaginar o que acontece dentro do móvel da cozinha onde as guardam), e que desde o dia das bruxas — seja lá o que isso for — até ao dia dos namorados — seja lá o que isso for —, passando em brancas nuvens o Carnaval — idem —, comemoram tudo, em tudo me fazendo lembrar aquele anúncio do aniversário do coelho da Joana,


por outro lado, tenho vizinhos que me odeiam. Mas, quando digo odeiam, é mesmo o verbo levado ao pé da letra, é aquele sentimento tão próximo do amor quanto pode sê-lo, ao ponto de haver a preocupação de manifestá-lo, de fazer tudo para que o outro (eu) dê por isso, de se fazer notar. (Só falta fazer flick-flack encarpado à retaguarda com triplo mortal quando me vê.) Penso mesmo que o homem — trata-se de um homem (do mais feio e desinteressante e mal cheiroso que existe — o que já deu para sentir no confinadinho espaço do elevador, das poucas vezes que lá coincidimos —, mas diz que o coração lá tem razões que a razão desconhece), tudo faz para que eu perceba o quanto me detesta. Mas isto há anos. Há muitos anos. Mais de vinte, são muitíssimos. Não sei lá que soberana ofensa fiz a sua majestade, que desde ter feito marcha-atrás a uma velocidade de corrida mais louca do mundo quando viu que eu ia a atravessar na.passadeira | com.uma.criança | ao.colo, até se dar ao trabalho de mandar os dois elevadores para o mais longe possível do rés-do-chão quando vê que eu vou a entrar no prédio (só possível se passar os dias à janela, a ver se me vê surgir. Cão), até bater com a porta quando coincidimos na entrada do prédio, ele há de tudo um pouco naquela rica panóplia de merdinhas ofensivas. A mim o assunto também já me anda a começar a moer, maneiras que tenho vindo a desistir de todo o refinamento e sofisticação que me são característicos. A última vez que nos encontrámos à saída do edifício, lá ia o sarnento à minha frente, olhou para trás quando ouviu (a senhora d) os meus passos, confirmou que era eu, saiu e largou a porta, porque lá na favela onde foi educado nem portas haveria, quanto mais a cortesia de segurá-las, e há que garantir que os parentes lhe continuem a chafurdar na lama, com consequentes quedas constantes. Dessa vez, fartinha destes números de circo, precipitei-me para a porta, qual super-heroína, e dei-lhe aquele encontrão estrondoso, antes que ela se fechasse delicadamente sozinha. Cansei de ser sexy boa.

Mas também tenho vizinhas assim,

É facto: trata-se de uma embalagem aberta. Não
fui a tempo de fotografá-la fechada antes de ser
acometida pelo irreprimível desejo de a esvaziar

que sabem que eu gosto de amendoins como o macaco gosta de banana, e cujo marido vai ao Brasil e lhe pedem que esconda na mala mais um pacote deles, cá para a primata. E, não contente, envergonhada por dar "só assim um pacote de amendoins", ainda me fazem uma bolsinha, com as próprias mãos, para os "transportar". 


E não sabe ela que eu tenho um blog. 
Em suma: 
1. Para quê parcerias, se tenho brindes desta qualidade emocional, nos quais acredito piamente, e até consumo?
2. A genuína blogger esconde-se onde e quando menos se espera;
3. Com amigas assim, não preciso de inimigos. 

21/01/2018

Hoje percebi a acepção estrita de vergonha alheia

À frente de Rosinha, um carro branco, a circular a uma velocidade normalíssima — uns 30 km/h — para a rua que era, estreita, cheia de passadeiras e de pessoas, com uma única faixa de rodagem ocupada por carros parados em segunda fila. Por isso, era previsível que tivéssemos que parar uns metros adiante, esperando que não viesse nenhum no sentido contrário, para podermos ultrapassá-los. Mas, ainda antes, uma passadeira de peões, onde iniciavam o atravessamento um senhor com alguma idade e um jovem pai com uma criança ao colo. O condutor do carro branco aproximou-se da passadeira quando as três pessoas já se encontravam a meio dela, e simplesmente (?) contornou os peões pela esquerda da faixa, entrando em contra-mão, para poder continuar a marcha. Ficaram os dois adultos parados, não sei se estarrecidos, mas certamente estáticos, a olhar para o carro, que seguiu. 
E seguiu à minha frente. Ultrapassou, na mesma calma velocidade, os carros parados em segunda fila, e parou no semáforo vermelho, logo adiante. 
E eu a fritar raivas contra quem acabava de fazer tal coisa. Vi-lhe no retrovisor os óculos e parte de um rosto feminino, que tanto podia ter 30 como 50 anos, ou mesmo mais. Ao menos que fosse uma anciã, distraída e sem reflexos, daquelas com que nos cruzamos todos os dias e até nos benzemos só de pensar.
O sinal verde abriu e ela não avançou. Fiz o que nunca faço, que foi apitar-lhe. (Normalmente, dou-lhes luzes até os encandear de nervos.) E fiz aquele gesto de impaciência, os dois braços no ar. 
Então, ela fez-me adeusinho com a mão direita e ainda fiquei mais irritada. Praguejei, com a solidária condescendência de Rosinha, que "Tinhas tanta pressa lá atrás, que só faltou passares por cima das pessoas, e agora adormeces no semáforo. Cabra." [Eu sou assim, esta lady no volante.] Seguiu, contornou à direita, depois à esquerda, depois à direita, e entrou na minha rua. Estacionou, e caíram-me as bolinhas dos olhos ao chão, quando me apercebi que era a minha vizinha dos tabuleiros
Fiquei tão envergonhada por ela.
Parei o carro uns metros adiante, não esperei que esperasse por mim, abri o porta-bagagens e fiquei a fazer tempo, fingindo que remexia em coisas invisíveis. Não quis encontrá-la naquele momento, pois conheço o tamanho da minha boca e a distância a que ela está do coração. E não havia nada de simpático que conseguisse dizer-lhe naquele momento. Mas juro pela minha saudinha que não foi por temer que se acabassem os tabuleiros. 
Que vergonha a minha. Que incivilidade a dela. E moramos nós sob o mesmo tecto.


01/11/2017

Foi assim que aconteceu

Era quase hora de jantar, e já o arraial estava montado sob mim. Gritos de terror e agonia, gargalhadas malévolas, urros de pânico prédio acima. Uma das minhas crescidas crianças, que nunca usa o elevador, passou-lhe à porta e só não se assustou porque é valente, porque fui eu que fiz, porque acha piada ao Halloween. Contou-me, divertida, que Agora, a vizinha tem a morte à porta, e aquilo tem um sensor de movimento, que uma pessoa passa e aquilo mexe-se, levanta os braços e grita. Então, fui lá, porque também não quero morrer parva, passe o pleonasmo: para crer como São Tomé, para dançar com a Morte, para ver com os próprios que um dia o forno há-de cremar, já que estamos a falar nisso. Primeiro de longe, depois de perto, acerquei-me a medo — um medo que provinha, não do pobre boneco, mas sim da paupérrima humana que se escondia atrás daquela porta —, assomei-me, cheguei-me, espreitei-o, remirei-o, e ele quedo e mudo, como morto, lá está.


Já ia escadas acima quando as luzes do patamar se desligaram, e deu-se a coincidência de a gravação da Morte se accionar, motivo pelo qual ela, afinal com uma voz terrivelmente masculina, largou numa gargalhada que devia ser horripilante — a mesmíssima que Vincent Price deu no clip de Michael Jackson, Thriller —, há-de ter mostrado as axilinhas lá no meio do breu, bradou "Happy Halloween!" para quem a quis ouvir (o que não era o meu caso), e digamos que era eu ter para aí menos sessenta anos do que tenho efectivamente, e isto servia-me que nem uma luva para trauma de infância e, quem sabe, para justificar montes de merdinhas que, de onde em onde, me assistem. Ao invés, fiquei assaz agastada, pelo que cumpri (ao menos uma vez na vida) a promessa que havia feito, e chamei a polícia. 
A única mágoa que me ficou deste assunto todo foi não ter ficado para ver os senhores agentes a chegarem à porta da louca, por ter tido que sair para jantar. Resta-me o consolo de que, ao telefone, depois de me ter identificado pormenorizadamente, disse apenas que A senhora tem um boneco muito ruidoso à porta de casa, e, assim, posso imaginar a cara dos homens quando se depararam com Senhora Dona Morte, a rir e a guinchar. Quando voltei, imperava a paz no prédio, um silêncio quase sepulcral, e, do boneco, nem fumo. O que foi pena, por outro lado, pois umas voltinhas no elevador haviam de arejar e desempoeirar a criatura, e assim já não pôde ser. 

30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


16/10/2017

The girl next door # 13

Depois admiro-me que me riscam o carro. 
A sério, esgotei a paciência para gente parva. Não sei se é o Mundo que está contra mim ou se sou eu que estou contra o Mundo.
No andar abaixo do meu mora uma louca. Já falei dela aqui. E aqui. E, pelos vistos, também aqui
(Se calhar, ando a falar demasiado nela.)

Recebi isto:


E este ano ela leva com isto:


Pronto, é só. 
(Havemos de ter desenvolvimentos.)

23/09/2017

Por qué no te...

Encontro-a no supermercado. Está mais magra, mais bonita, a mesma chata de sempre. Sei que casou com o viúvo da melhor amiga e, de dote, levou os dois filhos com ela, adoptando os dois dele, já tudo gente graúda. Juntaram os meus e os teus, já não irão a tempo de fazer nascer os nossos, mas isso é lá com eles. A soma de dois mais dois só interessa aqui por conta da falta de noção e da incapacidade de retribuição da minha simpatia. Desperdiço-me com certas pessoas, porque adoro sofrer. É uma drenagem, uma purga, uma desinfestação. 
Só me falta encostar os dois cotovelos ao guiador do carrinho, e a anca à fruta, porque sei que vem de lá um bocado da minha vida que facilmente deitarei fora quando contabilizar o que interessa, mas que apresentarei no Juízo Final como um momento daqueles que me faz merecer o céu para onde não quero ir. Mentalmente, ofereço pela saúde dos meus filhos, ponho o sorriso número três, que é o de plástico, e ouço. Ela fala ininterruptamente, é daquelas pessoas que falam para se ouvir e, rigorosamente, não ouvem ninguém. Refiro-me a escutar, não apenas a utilizar o sentido da audição. Tenho dela a pior das impressões nesse aspecto, por já ter passado momentos de verdadeiro ferro e suplício por conta da sua incessante verborreia, versus minha falta de tempo/paciência/está-a-chover/tenho-uma-criança-aos-gritos. Mas é minha conhecida, vizinha de bairro, filhos na mesma escola há muitos anos, não há volta a dar-lhe — nem a ela nem a mim, que não sei fugir nem ser mal educada. Há uns anos, numa festa de final de ano — que, já por si, são ocasiões que proporcionam ambientes que, esses sim, criam em nós vontades irreprimíveis de evasão (física, não mental) —, foi esta pessoa "salvar-me" (palavra dela) da seca que a directora da escola me estava a pregar, tendo eu até ficado agradecida no momento, para, logo de seguida, me pregar ela uma seca maior ainda — e, seca por seca, mais valia ter ficado só pela primeira, não se estragavam duas casas, ou lá o que é.
Pergunta-me pelos filhos, para não ouvir a resposta que balbucio, perdida nos lábios, que bem, que esta semana tivemos uma grande vitória profissional de uma delas. Pergunto pelos dela, responde-me a respeito dos filhos dele como se fossem dela, parece-me entre o comovente e o demagógico, entre o carinhoso e o absurdo, e, como fico, mais uma vez, sem palavras, digo qualquer coisa que pode parecer uma inconveniência, ou então uma simpatia: "Agora já sabes o que é ter quatro". Como se fosse comparável a adopção de dois adultos, a juntar a outros dois, com a criação de quatro crianças desde o nascimento. Mas isto, ela ouviu e, mesmo assim, sem perder a proa nem a pompa, reduziu a minha, pelos vistos, péssima comparação, empolando os grandes trabalhos a que está condenada com tanta gente, respondendo "Ah, mas eu tenho quatro, e tenho duas casas, não é como tu, que só tens uma casa para governar". 


21/09/2017

The girl next door # 12

Desta vez, o mesmo tabuleiro que já visitou a minha casa uma vez, veio cheio de uvas pretas. Existe uma possibilidade de serem a minha fruta favorita [e, como sou uma líder nata e inata, uma opinion maker, uma it (old) girl, é capaz de me aparecer já aqui uma multidão a dizer que "também a minha", mas é que não: ninguém gosta de uvas pretas como eu, eu quero ser única, irrepetível e ímpar nas minhas coisinhas]. Vá-se lá perceber como é que a vizinha adivinhou, ou então ele há mesmo coincidências, e, com a firme intenção de agradecer, eis que — apesar de querer ser aquelas coisas todas que disse agora, sou também altamente previsível — o devolvo com as mesmas bolachas da outra vez, só que com outro formato. 


Lembrei-me que a vizinha tem cães, e achei a ideia gira. Não sei se são dois cães ou duas cadelas, ou uma cadela e um cão, ou tudo junto, ou nada disso, mas considerei que aquela cena do azul e rosa também se podia aplicar aos animais, e só não quero é ferir susceptibilidades. 
(Se não gostar, pode sempre atirar-lhes os ossos. Literalmente.)

14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]

09/07/2017

The Devil next door

E é precisamente ela, que é enfermeira, casada com um médico (of course), e que moram no último andar do prédio, que responde na reunião de condomínio à pertinente observação do cônjuge da pessoa, de que uma cadeira de rodas não cabe no nosso elevador, coisa comum de parte comum, que, se as pessoas precisam de subir e descer com uma cadeira de rodas, o melhor é mandarem instalar uma cadeira elevatória mecânica, daquelas que sobem as escadas com a pessoa lá sentada
E eu, que sou uma pessoa má, e a vejo mais velha, mais perra e mais marreca todos os dias, fiquei secretamente a pensar cá para com o meu fecho éclair que pode ser que não lhe tarde o dia em que tenha que subir e descer sentada numa coisa dessas, escadas acima e escadas abaixo, para e desde o sexto andar em que mora, até ao rés-do-chão. E, quem sabe, com sorte, a mecânica da coisa se engana ou avaria e atinge velocidades supersónicas com ela lá sentada. Na descida, que dá mais pica. 

07/07/2017

The girl next door # 10

Com vizinhas destas, quem precisa de amigas?
Sou ou não sou tão fofis? Apetece-me dar-me beijinhos e tudo.


A quase famosa devolução do tabuleiro.
(São só quatro bolachas porque eles são só quatro lá em casa, e a pessoa preserva a linha dos outros e a sua própria carteira.)

04/07/2017

The girl next door # 9



Acordo pela manhãzinha, ainda alta madrugada, assaltada à mão armada por dúvidas. Descartes era um menino, perto disto. 
Assim como tenho vizinhos que me riscam um carro novo — embora o facto de ser novo seja aqui totalmente irrelevante —, tenho também outros que me dão comida. (Às tantas, tenho um ar enfezadinho e nem me apercebo disso.)
Outro dia veio cá uma vizinha bater à minha porta para me entregar um tabuleiro destes frutos. Estava bastante mais cheio, mas o povo cá do casebre tem comido, de modos que já só apresento uma amostra. 
Encontro-me agora num impasse, chegada que é a hora de devolver o tabuleiro, uma vez que já passaram uns dias sobre a oferta: quero agradecer-lhe, mas não sei construir a frase. Não sei ao certo se isto são ameixas amarelas, abrunhos, rainhas-cláudias ou magnórios. Quero dizer assim: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te os [poing], que eram deliciosos". 
Estou a pensar em várias soluções, mas nenhuma me parece perfeita:
1. Digo uma frase em que não se perceba bem a parte do nome do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te os ameibrunhrainhagnórios, que eram deliciosos";
2. Digo uma frase em que não diga o nome do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro e quero agradecer-te aquelas frutas, que eram deliciosas";
3. Digo uma frase em que nem sequer falo do fruto: "Ester, venho devolver-te o tabuleiro";
4. Digo uma frase em que atiro com um daqueles nomes ao calhas e o pior que pode acontecer é ela corrigir. Ou então ignorar;
5. Meto-me no Google;
6. Meto-me nas tamanquinhas e vou à mercearia chamar pelos conhecimentos do senhor Joaquim;
7. Meto-me nas tamanquinhas e vou à mercearia comprar quantidade igual dos mesmos frutos e vou oferecer à vizinha;
8. Não devolvo o tabuleiro;
9. Mando-lhe o tabuleiro pelo correio, uma vez que sei a morada dela;
10. Faço uma compota com os frutos e vou oferecer à vizinha, como prova da minha gratidão, dizendo: "Ester, venho devolver-te a gentileza, por isso fiz compota com os ameibrunhrainhagnórios que me ofereceste, aqui a tens". 

05/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 14

Ou tu?
Onze da noite, tocam-me à campainha e vou atender. Do outro lado da porta, visiono, através do óculo, a vizinha de cima, aflitinha. 
(Por cima mora um casal sem filhos, com idades próximas da minha. Ele é um desportista ferrenho, joga ténis e tem muita vaidade na sua aparência. [No entanto, enche-me a varanda de beatas.] Quando vem de jogar, raquete na mão e calções curtos e vincados, todo ele é salamaleques e meneios, primorosamente educado, dando passagem, partilhando o elevador, desejando boa tarde com precisão cirúrgica. Sempre que o vejo passar naquele preparo, atraso o passo e, subitamente, interesso-me pelas árvores, pelos cães, por qualquer coisa no tablier. Ela é uma figura apagada, há-de ter sido bonita, de olhos claros, magra e grisalha, descuidada e triste. Uma vez por outra, ouvem-se gritos lá em cima. Só ele grita. Também se ouvem saltos altos a bater no soalho, mas ela não usa saltos. Há qualquer coisa de Norman Bates dentro da minha cabeça — ou em cima? — que me inquieta um niquinho.)
Abro a porta e diz-me ela que tem um gatinho à porta de casa, que não sabe de quem é, que já lhe deu de comer, mas ele não se cala e andam, ela e o marido, desesperados a bater a todas as portas do prédio (que são nada menos do que trinta e sete), a ver se encontram o dono. 
Eu só olho para trás, chamo Molly!, a tonta não me aparece e lá vou escadas acima, O gato é uma gata. É branca?; Sim, branquinha; Mas tem malhas castanhas?; Sim, manchinhas. [Tudo em inhos, pequenininhos, tanto sufixinho para uma gorda daquelas que parece uma leoa atravessada de pantera branca. Vá, eu não disse isto.]
E lá vou dar com a fugitiva, que me foge casa adentro do Norman vizinho, e eu atrás dela, Bates Motel adentro. Aparentemente, ele já tem montada uma comissão de inquérito com staff e comités de investigação: está ao telemóvel, ouço-o dizer Ah, bom, parece que encontrámos o dono [mas esta gente tem algum problema com os géneros?] do gato [aloha!], vou desligar para poder falar com o dono [hey, man, subsiste alguma dúvida para além da minha saia?], já te ligo. 
Pego na fugitiva, entre o envergonhada quando ouço Ela está aqui há, pelo menos, meia-hora (e faço mentalmente as contas para hora e meia), o aliviada por ela estar bem, o ciumenta por ela estar tão bem e o frustrada porque ela é uma peste e bem podia ir viver para outro lar, que isto de ter arranhões novos todas as semanas (e já foi todos os dias) também enfraquece o sistema imunitário (e o amor). Era a brincar, esta última. Nós odiamo-nos, mas eu encho-a de beijos de cada vez que ela não está a ferrar-me o dente. 


19/03/2017

The girl next door # 8

Perdi a conta a há quantos anos mora ela aqui no megatério onde eu também. Talvez uns três, contra os meus três e mais vinte sobre os dela. Vejo-a passar, quase diariamente, a passear o caniche que teve o infortúnio de ter nascido com uma raça caricata, mas que defeca abundantemente o pouco relvado que nos envolve a todos, e que ela, por qualquer motivo que me escapa, não consegue limpar. Sozinha, passada da meia-idade, gorda, as mãos ocupadas com um pouco de nada: a trela e o cigarro. Muitas vezes me questionei por que diabos me olhava com antipatia, me recusava o cumprimento de boa tarde, me virava a cara. Na minha imensa modéstia, imaginava que eram lá coisas de gaja, cenas malucas de mulher sozinha, que até queria, mas já perdeu a esperança numa família, em filhos, num corpo que nunca teve. 
Percebi ontem, quando ela me bateu à porta, munida de dois "homens" — um esquizofrénico que nunca abriu o bico por se encontrar numa fase catatónica, e outro que era igual a ela, porém careca —, para me confrontar, com péssimos modos, com o facto de eu ter o meu carro pretensamente mal estacionado na garagem do prédio. Expliquei-lhes que tinha o carro dentro dos recortes, mas a fúria dos dois era tanta que estavam cegos e, pelos vistos, também surdos: o careca apontava o dedito no ar, o catatónico cada vez mais hirto, ela gritava coisas como "Qualquer dia dou uma mocada no seu carro e estou-me a cagar", e eu esclarecia-a de que tinha acabado de cometer um crime de ameaças, e com testemunhas, por força de eu ter pelo menos três filhos maiores de idade. Entretanto, surgiu uma mulher escanzelada e eles já eram quatro — e nós apenas dois, numa clara desproporção —, a gritar que a irmã estava no seu direito, e que iam chamar a polícia e que iam dar parte e que nós havíamos de pagar bem caro o estado em que o carro da irmã se encontra e téu-téu-téu, que a irmã é uma pessoa muito civilizada, mas que isto já é demais.
E agora questiono-me se os problemas de cada um, como são estas cenas malucas de mulher sozinha, que até queria, mas já perdeu a esperança numa família, em filhos, e num corpo que nunca teve, não podem ser o detonador de um ódio dirigido a um alvo certo, cuja bomba pode explodir a todo o momento, sob um argumento qualquer, com consequências mais ou menos imprevisíveis. E de quantos ódios desta natureza não seremos todos objecto, sem sabermos, sem termos contribuído em nada para isso, a não ser pela nossa mera existência, que será coisa que — vá lá, minha senhora... —, não conseguimos controlar, a menos que façamos a vontade ao doido e nos matemos. 
Mas isto já sou eu a extrapolar, e a tentar perceber, na minha imensa modéstia, os componentes químicos do cérebro da minha vizinha.

02/03/2016

vizinho — do lat. 'vicinus', que significa «residente próximo»

Não sei o que foi, nem como foi. 
Vi os carros das sirenes, à porta da casa com telhado comum, que partilhámos as duas e todos os vizinhos do prédio. Veio o médico e veio a polícia, e a polícia só vem quando o caso é de dor que pode esperar, porque se tem e já não se sente. 
Ninguém me contou que foi de tristeza, que era intuível na solidão, na juventude desvanecida, no corpo magrinho, sem filhos nem amor, e no andar inseguro: o trabalho perto de casa, ia a pé ante pé de passos infirmes e ligeiros, o olhar no andar, cada pé pedindo desculpas ao outro e ao mundo por pisar, a cada passo um pedido ao mundo para não ser pisada. Cabelo claro, voz fina, bom dia..., logo os olhos em fuga e o peso do deserto dos afectos a arrastar-se no seu encalce, no desígnio de a esmagar.
Não sei como foi, nem o que foi. Ninguém me contou se a chamou ou se foi chamada, sei que vieram os carros das sirenes e parece que a levaram, mas tenho para mim que saiu, ligeira e leve — e voou, enfim livre —, sem amarras. 
(Devia ter-lhe dado a mão, e não dei.)

29/10/2015

The girl next door # 5

Na minha caixa do correio aparecem coisas. Por exemplo, aparecem folhas de plátano, daquelas secas, de Outono, todo o ano. Excluindo a minha casa, posso concluir que existe um, dos restantes 36 fogos (sem chama), onde mora alguém que precisa de me dar um recado qualquer, o qual eu sou completamente incapaz de interpretar — Folhas. Plátano. Secas. — Baralha-me a parte do plátano. Quanto ao resto, até posso tentar perceber. Folha-se para ti também, vizinho.
A última novidade, em termos de mail físico, foi este recadinho da vizinha do 1.º C, cognome com o qual, aliás, se assina. E que começa por Bom dia a todos. Que querido.


Diz-me o instinto, e este faro que raramente me engana e jamais tem dúvidas, que se trata:
1. De uma mamã extremosa — a persistência nos diminutivos denuncia-a: amiguinhos; saquinho; docinho;
2. De alguém que desconhece a anedota do barbeiro e do docinho;
3. De uma pessoa que não adoptou o Acordo — não pode ser tudo mau. Cá cinco, vizinha;
4. No entanto, de alguém que, não tendo adoptado o Acordo, adoptou uma tradição, e fez uma adopção plena — trick or treat? (A ver se não se enganam. Treta ou traque); 
5. De alguém que não sabe que os vizinhos não possuem portas de entrada em casa, no plural, e sim uma única porta cada um;
6. De alguém que pretende promover sorrisos. Digo-lhe que já me promoveu a mim, na criança que me habita a espaços?

Então fui investigar. Eu sou daquelas que crê que las brujas, pero que... e não as quero perto da minha porta, nem que ela esteja cravejadinha de sal grosso e bem varrida. Pela calada da noite, evitando o elevador, desci as escadas e acerquei-me da porta da vizinha do 1.º C. 
E foi isto:


E é isto, o que ela tem, pregado na porta.
Digam-me: posso dormir descansada por mais duas noites, ou devo mudar de prédio?
Bato-lhe à porta e tento o diálogo?
Deixo um caixote de tricks, seja lá o que isso for, do lado de fora da (minha) porta já hoje?
O que a experiência me dita, e que aconteceu nos últimos anos, é que eu compro os doces e não me aparecem diabinhos. Se não compro, tenho a porta num desassossego toda a noite. Foi assim nos últimos oito anos, ano sim, ano não. Nos anos em que não apareceu nenhum miúdo embruxado, fiquei com os doces, e, só para não se estragarem, que até é pecado, foram anos de engorda. 
Prefiro que venham. 
Venham a nós as bruxinhas. 
(Eu dou-lhes os tricks.)