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17/10/2018

Agora nunca mais morria uma mãe

Desde a perda da minha, do núcleo estreito que são as minhas relações sociais, já saíram desta vida outras quatro mães. 
As mães deveriam adquirir imortalidade efectiva — não essa, a da memória, totalmente metafórica — no momento do nascimento dos filhos. Isto seria uma espécie de garante, se não do aumento, pelo menos da preservação numérica da população mundial. Depois eram livres de entregar a sua imortalidade aos filhos, assim que o achassem conveniente e necessário. O Mundo seria muito melhor, e tudo seria mais justo e harmonioso. A cada filho, uma imortalidade renovada, uma possibilidade nova de abnegação. Não creio na existência de mães que não o fizessem sem pestanejar, assim a vida dos seus filhos corresse perigo. Caso contrário, à mais ínfima hesitação, merecido seria que a sua mortalidade fosse restabelecida, no imediato momento em que a dúvida as acometesse.

Quão cravejado de erros está este raciocínio, pois se fosse possível a uma mãe fazer a entrega da sua imortalidade a um filho doente, então regressaria à sua condição de simples mortal, e, consequentemente, voltaria a poder acontecer a nada simples morte de uma mãe.

Custou-me mais do que os outros, este último adeus que fui dar a uma mãe. Na verdade, ia acompanhar uma filha minha, que, por sua vez, ia acompanhar a amiga, filha daquela mãe a quem íamos dizer não vás. Ou melhor, não vais. Para sempre ficarás, mãe desta filha ainda demasiado incapaz de não te ter aqui. (Não sei se existe uma idade para se ficar sem mãe.)
Sei que a vi chorar nos degraus, e depois junto do corpo da mãe. Os meus olhos picavam quando tivemos que desenlaçar o abraço em que ela, enorme e muito magrinha, por momentos pequenina, me soluçou no ombro. Pedi-lhe apenas que me deixasse dar-lhe um beijinho, e assim fiz, acariciando-lhe o cabelo louro de seda. Retraí o instinto, que me impelia a dizer-lhe que, quando precisasse de mãe, lhe podia dar um bocadinho, daqueles tantos que ainda tenho, e me sobram nas mãos, nos bolsos, no regaço, no colo, nos dois ombros — mesmo que inundados de soluços e lágrimas —, nos ouvidos, nas noites de insónia e medo, e, em geral, no coração. Calei o impulso, envergonhada da minha própria soberba, lembrando a velha máxima mãe há só uma, e saí do local, investida da minha simples condição de simples mortal.

24/09/2018

Bola prá frente

Coincidência — ou sei lá se talvez não — é ouvir no mesmo dia, com meia-hora de diferença, em dois locais totalmente distintos da cidade, mas exactamente pelo mesmo motivo, a expressão 'bola prá frente'.
Tratada e assinada a papelada necessária por motivo da morte da minha mãe, estou a levantar-me da cadeira onde me havia sentado, quando o funcionário que acabou de me atender me aconselha: Bola prá frente.
Deixo-o para trás e vou ao cemitério. Preciso de tratar de mais uma questão burocrática, que não é urgente, não fora a urgência de desapertar o coração, indo ver os meus pais.
À saída, cruzo-me com algumas pessoas que ali ficaram a conversar, depois de terem ido deixar alguém, que não sei quem nem porquê, mas imagino. Avalio o tamanho do grupo, as idades, a ausência de lágrimas, o despojamento, e sei, ou ponho-me a adivinhar, que terá sido uma pessoa de muita idade, ou tão doente que a morte lhe sobreveio à vida como um alívio seu e dos seus. Não faço julgamentos, who am I to judge? Não sei para o que estou guardada, e, na verdade, também não quero saber. É quando ouço um dos elementos do grupo dizer para outro, eventualmente mais enlutado, mais próximo do falecido: "Agora é bola prá frente". Há algo que me tranquiliza quando percebo que não me vou cruzar com alguém que esteja a chorar. O meu primeiro impulso é sempre socialmente inaceitável, e, por isso, prefiro seguir caminho para a vidinha, deixando a morte — e uma considerável parte da minha vida — para trás. A bola, essa, é prá frente, dizem eles na sua imensa sabedoria futebolística. Seja qual for o tamanho da perda e a dimensão do desgosto.



09/09/2018

~

Talvez ao longo de uma longa vida, todas as pessoas se desdobrem em várias; talvez só assim entenda e aceite que perdi todas as minhas mães — e foram tantas — de uma vez, numa orfandade multiplicada por inúmeras, que nem sei por qual hei-de começar a chorar primeiro. Eu própria fui todas elas enquanto filha, primeiro acabada de chegar, depois criança, mais tarde adolescente, a seguir eu própria mãe, fazendo da minha mãe, mãe, mulher, a senhora que foi sempre, e depois avó. Faltam-me todas, mas, paradoxal e egoistamente, falta-me mais do que todas a última, falta-me precisamente a que já não estava, dependente — ou mais independente do que nunca — e ausente, entregue, e tão mais minha. Do que nos sobrou nos últimos anos, daquele ténue vestiginho de mãe, é o que me faz verdadeiramente uma falta esmagadora. Se pudesse fazê-la regressar, quem sabe não optaria por recuperar — paradoxal e egoistamente — a minha última mãe.

12/08/2018

Dancei, mãe

Hoje acordei infeliz e dancei, mãe. Não dançava há dois meses. Não era capaz de me mexer ao som da música, as pernas tristes, a anca infeliz, já para não falar dos braços, um desalento de dar dó. Estava à espera do dia em que acordasse contente e tivesse vontade de dançar, mas o dia não veio e hoje fui assim mesmo. 
(Não para me alegrar, não para espantar a tristeza - como se ela permitisse uma coisa dessas -, mas para lhe dar largas e deixá-la voar comigo.)
(Ela é volátil.)
Tenho sonhado consigo, mãe. A mana sonhou todas as noites desde que nos vimos pela última vez
(que saibamos)
agora sou eu que sonho. Revezamo-nos a cuidar de si, outra e mais outra vez. 
Quando tomei duche, havia manchas de sabonete em forma de coração aos meus pés. 
(Muitas gotas de água, também. Nem todas saíam do chuveiro, pelo que me pareceu.)
Não sei interpretar estes sinais que a vida me dá 
(são sinais ou eu estou maluca?)
mas acho que era outra vez Alguém a dizer-me que estivesse descansada, que sossegasse o coração
(esta pedra)
que a mãe está bem.
E que eu pare de sonhar, também.

07/08/2018

sangue do meu sangue, que não é sangue de barata

Esteve uns dias numa casa de praia com os amigos, uma dessas casas que são óptimas, longe dos pais, longíssimo da praia, perto da diversão e da liberdade total. E são baratas, mesmo até porque, invariavelmente, têm baratas. 
Então, a contar-me que passou por eles um desses bichos, que causou o apocalipse, o caos, o pânico dentro da casa infestada. Ele, chamado a intervir — uma vez que não reagiu de forma tão enfática à presença do animal —, simplesmente pôs a barata fora de casa, com um único chuto para longe, expulsa do lar por indecente, má figura, ou apenas salvação. 
- Não a matei, pu-la fora.
- Fizeste bem, poupaste-lhe a vida. Foi ser feliz para outro lado.
(Já não era capaz de tirar a vida a nada desde que fui mãe, agora que perdi a minha piorei. Não sei ensinar nada de útil nesse campo.) (Aliás, julgo que conheço todos os truques de salvamento e poupança de vida de qualquer tipo de animal.) (Sim, apago a luz e acendo a de fora para fazer sair uma mosca.) (E um mosquito também.)
Os olhos dele — enormes e meus —, nos meus, suspensos naquele breve instante, como também os meus ficam, flutuando entre um raciocínio lógico e uma emoção inesperada.
- Mas não foi para não a matar que a pus fora. 
(Claro, filho.)
- Só não me apeteceu matá-la. 
(Claro, filho.)
(E eu sei tão bem o que é a vida quando se está a dias de fazer dezoito anos.)


19/07/2018

podia ser (a) minha mãe

Saímos da padaria, ela à minha frente, uma muleta num braço, um pequeno saco, com um pãozinho lá dentro, na mão do outro. Pretendeu descer os dois degraus que a separavam do passeio, apoiou o braço que levava o saquinho num murete logo ali ao lado, pôs o pé da muleta no primeiro degrau e o saco caiu ao chão. Desviei dois passos do meu caminho que havia de ser feito com duas pernas saudáveis até um carro confortável, e segurei-lhe o braço sem muleta, dizendo Vamos descer juntas, pois que sempre me deixou desconfortável o verbo ajudar. Assim fizemos, alcançámos o passeio em segurança, entreguei-lhe o saco que, nem quero imaginar, seria o jantar dela, até que ela disse, Que Deus lhe dê tudo o que a senhora desejar, e eu debati-me entre duas verdades íntimas e, se calhar por isso, dolorosas, Já deu -, pensamento posto nos meus filhos -, Já tirou também -, pensamento posto nos meus pais. É esta a lei da vida, dizem, e eu aceito, quem sou eu para contestar leis, ainda mais se forem dessa tal vida? Fiz o pequeno percurso até ao carro de cabeça baixa, envergonhada de mim, dos meus pensamentos, da minha heresia ou da minha descrença. Ela seguiu, desapareceu logo, talvez se tenha refundido com a calçada ou com o ar, posso tê-la sonhado, quem sabe não ando a delirar de saudades, se ela podia ser minha mãe.

09/07/2018

orfandade

Esperava a minha vez na venda da fruta quando ela chegou com uma menina pequena pela mão. Somos vizinhas de rua há muitos anos, ambas temos quatro filhos e é tudo o que nos assemelha. Ela tem o cuidado de se demarcar pela distância e pela incapacidade de sorrir. Coloca a voz em modo snob, anasalado, arrastado nas primeiras vogais de cada palavra e um tom acima do necessário.
Olhou-me de cabeça baixa, os olhos pequenos em alvo disparando setas, por cima dos óculos, a testa numa persiana, e "Olá", seco. "Bom dia, Paula, está boa? Que bonita que é a sua Maria". Sem resposta, dirigiu-se à criança: "Espera, Maria, que somos já a seguir. A avó não te pega ao colo porque tem dói-dói". E eu para ali, cheia de contradições na cabeça, de entre as quais que não, que ela e a neta não eram as próximas a serem atendidas.
O funcionário da mercearia perguntou então quem estava a seguir, ela disse "Sou eu", e eu esclareci-a: "Não, Paula, não é a Paula que está a seguir, sou eu. Acontece que eu dou a vez à minha vizinha, tendo em conta...", eu num sorriso, derretida de parva que sou com uma criança, ela cheia de pedras no olhar, "Olhe, não é por ser sua vizinha, é porque as crianças têm prioridade", e lá se aviou, demorada e arrogante, enquanto as cinco pessoas que ali estavam à espera abriam bocas e olhos de espanto mudo e incapaz, e eu, toda órfã, engolia uma enxurrada de lágrimas feitas de brita pontiaguda, Mãe, mãe, mãe.

07/07/2018

Tantas vezes nos despedimos


mas nunca dissemos adeus. Nem daquela última vez, em que lhe senti o cheiro a mãe na pele branca e lisa, e me encolhi nessa certeza. Morria-se há tanto, desvanecendo-se, esfumando-se, dissipando-se suavemente. Não me morreu. Tenho-a nas árvores, tenho-a nas flores, tenho-a nos cheiros e nas cores do ar, tenho-a nos pássaros, tenho-a em todos os tons do Alentejo, tenho-a comigo nos fados, Pomba branca, pomba branca, já perdi o teu voar, tenho-a no meu reflexo, tenho-a toda dentro do coração - pequenina, e enorme.


30/05/2018

Duas linhas paralelas que se encontrarão no infinito

Era uma vez um homem que, pouco depois dos quarenta, sofreu um acidente muito grave, que o atirou para uma cama de hospital, num coma que parecia não ter fim. A mulher, médica, persistiu na ligação de todas as máquinas que lhe suportaram a vida durante quarenta dias, contra todas as perspectivas, contra a vontade de todos os colegas que observavam o marido, contra a lógica científica. Uma familiar, em visita, ouviu o seguinte comentário de um para outro: "Mas o que é que ela quer mais? O homem está morto!". E, dessa mesma "morte", um dia o homem "ressuscitou" e ainda sobreviveu mais vinte anos, sem sequelas, fazendo felizes mulher e filhas, e mãe e irmãos, e cunhados e sobrinhos, e sendo feliz, também ele. A tal morte, quando veio, não adveio em consequência do acidente.
~
Era uma vez uma senhora, passados que haviam sido os noventa anos, frágil como um passarinho, que caiu doente com uma doença que de nenhum cuidado seria, não fora o factor idade, o factor debilidade física, o factor indiferença pelo mundo. Contra todas as perspectivas, contra a opinião de médicos, de ombros encolhidos e a palavra "idade" a cada suspiro, contra a lógica científica a que o pequeno corpo recusou obedecer, a senhora recuperou e, apesar de (não há melhor metáfora, daí o pleonasmo) frágil como um passarinho, saiu do hospital para viver ninguém sabe quanto mais. 
~
Estas são as histórias do meu pai e da minha mãe, assim ordenadas por uma mera opção cronológica. 
Esta é a minha opinião sobre a eutanásia. Baseia-se apenas em — dirão alguns, pobre — experiência pessoal. Nem sequer tem influência religiosa — com aquela base "o que Deus deu, só Deus pode tirar", pois que, contra-argumentando comigo própria, também por uma lógica estritamente científica, se fui eu que dei vida aos meus filhos, também só eu... É que não. 
Não sou fundamentalista em relação a coisa nenhuma. Mas não consigo estruturar ideias inteligentes e forma(ta)das quando o assunto é amor.


23/03/2018

os caminhos do afecto

Já era a ela que ia visitar, perdidas que ficaram na estrada todas as esperanças de um regresso. Tornou-se um facto consumado, o de me ter tornado irreconhecível, embora não me reconheça qualquer mudança. Pelo menos, nenhuma que me pudesse ter valido a indiferença e o distanciamento, vindos de quem tão próxima que mais não poderíamos ser. 
Mas votava-me ela também àquele desapego de que só um gato é capaz, e não foi uma nem duas vezes, devido a isso, que fiquei lá sem chão, no mármore de Estremoz bonito e frio que é aquele. Bem a chamei, muito a espiei, tantas vezes a agarrei e encostei a mim, com cuidado para não a apertar, evitando que me escapasse, procurando assim tê-la mais uns segundos, aproveitando a temperatura e a maciez, abusando-lhe da mansidão, até que se fartasse de mim outra vez. 
Tinha, assim, um motivo para continuar a ir, fazendo da estrada o caminho para o afago, o apego, o afecto. Foi isso que me fez entrar e ir directamente da porta à procura dela. Fui encontrá-la no cesto, adormecida, ausente, alheada. 
Antes que o chão me fugisse outra vez, recebi os braços que há muitos séculos me embalaram, beijos que acreditei que me foram dados a mim, e a voz sussurrada que tantos fados me cantou, "Querida, querida". 
À saída levava comigo uma alegria trespassada por só saber porquê, mas não por quê, ali voltarei sempre.


19/03/2018

o odor do amor

Houve aquele momento em que ele pediu que, de olhos fechados, nos lembrássemos das três mais remotas recordações da nossa infância. Não preciso de fechar os olhos para saber que todas as que trago guardadas em mim há mais tempo estão ligadas ao olfacto: tenho comigo o cheiro da minha mãe, da sua pele branca e lisa, orvalhada de um perfume desaparecido há muitos anos, dando-me que pensar se esse não terá sido também o ponto da sua partida. Conservo intacto o cheiro do meu pai, dos abraços com braços pequeninos e de cabeça encostada às pernas dele, ao abdómen, mais tarde ao coração, e a passagem neles da certeza de que tudo estava bem e de estar num abrigo que jamais me faltaria. Ficaram-me outros tantos odores só meus, do mar da Costa, dos pinheiros carregados de resina, da lareira no Alentejo, das azeitonas nos alguidares de barro, dos tarros de cortiça, da casa da minha avó no Porto, dos móveis passados a óleo de cedro da minha Titi, das sardinheiras da sua varanda, dos lápis de cera e dos pincéis na escola, das sardinhas na Feira, e do vento, que nunca mais cheirou da mesma maneira. Todos são irrepetíveis mas eternos, se calhar por serem meus, apesar de eu já não ser aquela mesma. 
E os olhos do meu pai. Havia também neles um odor de desvelo e entrega, que era o odor do amor.
Calhou ser Dia do Pai e ele fazer aquela pergunta, logo hoje, dia em que ele próprio comemora o seu primeiro Dia como Pai.
Calhou ter feito uma longa pausa, quando chegou a minha vez. Assim que a voz me voltou, falei-lhe das incontáveis vezes em que parti a cabeça, do primeiro dia de jardim de infância e da quantidade de bonecas que tinha para cuidar.


08/02/2018

uma varanda, duas janelas

Umas vezes porque calha, outras porque tem que ser, em todas elas porque o coração assim mo dita, passo pela casa dos meus pais, nos percursos vários que a vida me destina. É uma passagem breve, porque apressada, porque de carro, porque é assim que tem que ser. Morávamos numa avenida larga, com muito trânsito, que hoje talvez tenha dobrado, mas já não estamos ali. A varanda e as duas janelas, sempre presentes, passam-me pelos olhos, que as percorrem. Elas ali ficam, intactas, porém já não à nossa espera. Certamente, sabem que não voltaremos. Naqueles dois segundos que desvio o olhar para lá, sinto-as reconhecerem-me, e acenarem-me adeus, um adeus de olá, tão minhas que me são. Ontem à noite, a luz do quarto dos meus pais estava acesa. 
Não sei por que não subi, não meti a chave à porta e não me aninhei de saudades, ontem.
Também não sei se deixarei um dia saudades do som dos meus beijos.


31/01/2018

Amor em Celsius

Todas as noites, antes mesmo de me deitar, percorro a casa e vou dar beijos de boa noite a todos os meus quatro. Longe vai o tempo em que aconchegava lençóis, contava uma história — eu às meninas, o pai ao rapaz, alternadamente —, voltava a entalar os lençóis debaixo dos colchões, dava beijinhos, uma última atenção, "Dás-me mais um beijinho?"; "Cheiras tão bem..."; "Amanhã levas-me à escola?"; "Tens frio?", apagava a luz (deixava uma de presença, nessa época) e saía, se não cem por cento tranquila, por não ser da minha natureza, pelo menos apaziguada, num misto de cansaço e amor, que é aquela combinação implosiva que nos dá alento enquanto os filhos são pequenos. 
Uma vez, estava à porta do quarto das três, não havia nada que me indicasse que havia qualquer coisa de anormal, estavam todas deitadas há umas horas, apenas a penumbra azul da fraca luz, e recordo-me de me sussurrar, Vai lá. E aconteceu — coincidência ou não — uma delas estar com febre.
Lembro-me de a minha mãe nos beijar na testa com alguma frequência, de sentir o mimo mas também a demora, e, uma vez ou outra, após esse beijo, constatar: "Tu estás com febre". 
(Às mães incorpora-se-lhes um termómetro nos lábios quando os filhos nascem, faz parte do kit.)
Os beijos de boa noite que dou aos meus são sempre no cabelo. Porque têm cheiros diferenciados, que eu distinguiria entre si e entre milhares, porque (ainda) me cheira a crianças, porque não peço em troca, basta-me dar, e o cabelo é o local ideal para a oferenda sem retribuição.
Dei-lhe o beijo no cabelo, disse Dorme bem, meu amor, e fiquei parada na hesitação. 
Vai lá.
Usei o termómetro da boca de mãe, "Tu estás com febre". 
Que não sei, que talvez, que pode ser que não. Usa o outro, então. 
38,1º.

19/11/2017

imperfeita transposição

Enquanto crianças, temos dificuldade em perceber algumas frases que nos dizem os adultos, às vezes a mãe, normalmente a mãe. A minha teve sempre uma linguagem muito metafórica, muito poética, e com ela aprendi quase tudo o que se relaciona com o coração. Até uma certa idade, não entendia capazmente tudo o que me dizia, mas sei que fixava como máxima, retinha como lei, guardava como tesouro, nem imaginando que, mais tarde — tão mais tarde quanto agora, tantos anos volvidos —, iria perceber todo o alcance daquilo que, naquele momento, me parecia quase enigmático. 
Assim foi com o desabafo "Tomara que todas as vossas dores passassem para mim". Era um espanto, era uma magia extraordinária, porém injusta, que imaginava ser possível, e se revelava impossível, aquela que a minha mãe desejava para as dores das filhas. 
Percebi muitos anos mais tarde, quando tive os meus próprios filhos, e os vi magoados, doridos, inferiorizados, perdidos. Percebi, de forma cruel e, nesses momentos sim, liminarmente injusta, a impossibilidade de operar essa transposição, a de tomar para mim tudo o que os amachucava e adoecia. Restou-me, nessas horas, a mera e pequeníssima tarefa de os apaziguar, de os defender, de os tratar — e, às vezes, nem isso, pois não era das minhas mãos sem dom que poderia sair o "milagre". 
Agora queria transpor para mim uma dor dessas grandes, que nos tomam a vida de súbito, de alguém a quem quero tão bem. Porque sei o quanto ela dói, porque sei passar por ela, porque tenho uma cicatriz igual à ferida que se abriu agora naquele coração de quem tanto amo. E, no entanto, o único "milagre" que pode sair das minhas mãos, é, mais uma vez, o de apaziguar.
Tomara que a tua dor passasse para mim, querida gandi

13/10/2017

Hoje vi a minha Titi

Estava a televisão ligada na missa de Fátima, ela pôs-se de pé, as mãozinhas pequeninas, muito juntas, numa fé e numa certeza inabaláveis por eternas, a cabecinha branca levemente inclinada, os olhos atrás de óculos grossos e pesados, de onde em onde fechados, fervorosos, e juro que pequei porque a invejei, e juro que pequei porque matei saudades da minha Titi, quando na verdade estava a matar saudades da minha mãe, mas a Titi também foi minha mãe, e queria só ter um bocadinho, mesmo que pequenino, daquela fé, que me fizesse acreditar que um dia ainda vou voltar ao colo dela, já que da barriga não lhe saí, minha Titi, minha Titi.


18/09/2017

procura

Já lá não encontras nada, não é?
E ela fez que sim com a cabeça, os olhos vivos subitamente opacos da tristeza da perda. Que não, que não ia à missa por alma, nunca mais foi capaz de encontrar a amiga, que lhe está nas outras coisas todas da memória e do coração, mas não ali.
Também eu, procuro naquele lugar o que não encontro, mas vou sempre. 
Talvez se procurasse melhor, talvez se fosse mais vezes, ou talvez se desistisse, não saísse, como saio, com a renovada certeza de que acabou. Não localizo onde, nem quando, nem como, sei apenas que um dia — ou terá sido aos poucos, em vários dias —, perdi, e essa perda acompanha-me e leva-me lá uma e outra vez, e assim será enquanto continuar, mesmo sabendo, muito antes de ali entrar, o que não vou encontrar.
Também aquele pequeno animal, também ela, faz parte da minha procura. Vejo-a e sinto, por instantes, que reencontrei outra perda das minhas e que não recuperarei jamais. Ainda assim, pego-lhe, toco-lhe, sinto-lhe o calor do pequeno corpo, cheiro-a, quero-lhe ser próxima, desassossego-lhe o sono — sofregando por um amor que não voltará a ser. E, no entanto, mesmo sabendo que não, sei que está lá, e sei-o ali. Algures, eterno, também ele nas outras coisas todas da memória e do coração.




01/06/2017

Respeita a criança

Fui à Feira do Livro no Dia Mundial da Criança.
Ela levou-me, como se fosse minha mãe. Como não tem idade para ser, é minha filha. 
Cheguei ao recinto cheiinha de vontade de fazer chichi. Disse uma, disse duas, disse três, até que ela protestou, e com muita propriedade: "Que horror, mulher, pareces uma criança. E eu ainda nem comecei as colónias". (Porque ela é monitora de colónias de férias, de entre outras valências que tem, minha rica menina, e atura os filhos dos outros como ocupação sazonal remunerada.) 
Comprei três livros, como uma pessoa extremamente erudita, que vieram juntar-se a mais uns quantos da colecção Baby Blues. 
Consegui fazer chichi num contentor muito limpinho, e depois deu-me a fome. Havia muitas coisas para comer, que me lembraram a Feira Popular, que era a coisa que eu mais adorava [era o vinho, meu Deus, era o vinho], só que, em vez de cheirar a sardinhas, cheirava a hambúrgueres de vaca, iguais aos que a minha mãe fazia. (Isso e leite creme, eram as únicas coisas que a minha mãe sabia cozinhar, minha querida mamã.) Apeteceu-me um pacote de pipocas e escolhi um que tinha umas quantas coradas de cor-de-rosa, porque os olhos também comem. (E não engordam, ao que parece.) Entornei uma parte do pacote para o chão e para dentro da mala e fiquei tão desconsolada que a senhora me deu outro. Nunca vou saber usar carteira de senhora sem que me aconteçam mil desastres e esquecimentos com ela. Não sei como, nunca fui roubada.
Sentei-me muito direitinha numa cadeira, a ouvir umas senhoras a falar, enquanto me dava o vento pela venta sem pêlo e via as pessoas crescidas a passar, todas com um ar muito sério ou então curioso. 
Voou ao meu lado um balão azul, mas não o fui apanhar, porque me lembro muito bem do barulho que os balões fazem a rebentar e tenho medo. 
Que saudades da minha chupeta. Usei-a até entrar no liceu.

22/03/2017

eu acho que estive lá

estava uma mulher ao meu lado, segura pelo que foi a cintura — não presa nem amarrada — ao cadeirão onde estava sentada, para que não se levantasse dali e saísse a correr, como se isso fosse possível, dada a fragilidade das pernas e de toda ela. Repuxava as calças de malha para cima, expunha as meias de lã grossa e a magreza da velhice, e murmurava, os olhos pregados nos meus, 
ai meu pai, ai meu pai
e isto foi no dia a seguir ao Dia do Pai, ainda eu não tinha recuperado da falta do meu nesse e nos outros dias todos. 
Antónia, Antónia
e depois dirigiu ainda mais o olhar perdido para o meu, acertando-me em cheio,
ó Ana,
e eu, que sou parva, cantei-lhe baixinho
ó Ana, ó Ana, senhora minha mãe vou já.
no outro extremo um homem lia um livro sobre OVNIs, já há semanas que o vejo agarrado àquilo, suspeito que não passa da mesma página, que pode ser a única que está impressa em todo o livro, o homem estuda com afinco enquanto me faz sentir a mim um extraterrestre.
continuo a arranjar as mãos tão amadas, que me ficam lindas nas minhas, intuo que no tempo que dura aquele bocado a minha mãe é a pessoa mais lúcida daquele espaço todo, embora me repita
és tão linda,
e, quando esse tempo acaba, verifico que as minhas mãos envelheceram enquanto ele durou, mas deixei-lhe as dela pequenas e frescas como as de uma criança. Primaveris. 


08/03/2017

Às minhas mulheres

Têm-me passado tantas pela vida. E tantas têm ficado.
A minha mãe, berço pequenino da gigante que me fiz, desde cedo capaz de me caber no colo. Vejo-a frágil, tal como o cristal azul por que se perdia de amores, mas vejo também que jamais se estilhaçará no meu coração. São opacas as horas em que nos olhamos e não nos reconhecemos, são eternos os momentos em que nos sabemos intactas.
A minha avó Maria Antónia, que não conheci mas de quem tive saudades toda a vida, a quem aprendi a amar apesar e para além da enorme falta que sempre me fez. 
A minha avó Maria da Glória, gloriosa raiz do meu pai tão amado, dobrada em risos diante dos meus tricots. [Eu fazia "gravatas para o meu pai", em ponto de cadeia, com metros e metros de comprimento.]
A minha Titi, que me foi mãe e pai de todas as vezes em que já não havia lugar para mim, e que me ensinou toda a magia que pode sair das nossas mãos.
A minha irmã, companheira e cúmplice de brincadeiras e disparates e segredos e medos e lágrimas e, principalmente, de gargalhadas que ainda hoje choramos, de parvas que nos mantemos, quebradas, mas inteiras.
As minhas primas, as mais velhas pela sua inesgotável paciência, as outras por terem sido as minhas bandidas preferidas quando a idade não podia perdoar. [Um banho de lama até ao pescoço num terreno pantanoso já ninguém nos tira.]
As minhas amigas, que — desgraçadas — ainda me vão aturando, mas a quem só dou o meu melhor. (Pode ser isso que as faz gostar de mim.)
As minhas bloggers queridas, que estão cada vez maiores e mais bonitas.
Mas, sobretudo, as minhas três filhas, três mulherzinhas que (ainda hoje me pergunto como é que) fiz tão bem.


E, já agora, menção honrosa aos homens que nos sabem fazer mulheres todos os dias. 
E a mim, genitais. E a mim, que tive a felicidade de me terem calhado os dois xx (de ouro).


08/02/2017

há momentos em que simplesmente não fazes falta

Desde o dia em que nos tornamos mães, passamos a ser mães do Mundo inteiro.
Desde o dia em que nos tornamos filhas, passamos a ver mães no Mundo inteiro.
~
Custa-me baixar os braços, desistir e seguir em frente. Na realidade, sigo transversalmente, enviesada, torta e mais perdida. Teimar em manter as unhas que tanto amo de encarnado bonito, é uma batalha que já travava sozinha, contra a indiferença, feita impaciência, de ausência feita, e então decidi, com muitas (auto)ajudas — como em tantas decisões verdadeiramente importantes da minha vida —, deixá-las apenas limpas e cuidadas, de verniz de amor transparente. E se me doeu realizar que nunca mais verei as unhas da minha mãe de amor encarnado.
~
Subi a rua à procura de lugar para parar um pouco o carro, e, ao alto, vi-a deitada no asfalto, rodeada de gentes várias. Tinha chovido desalmadamente toda a manhã, mas a estrada já estava seca, e dei por isso graças não sei a quem. A miséria humana mede-se por pequenos pormenores, invisíveis lapsos de tempo, que podem fazer a diferença entre a desgraça total e um incidente sem importância. Antevi-lhe as pernas vestidas por umas calças de malha confortável, os pequenos pés calçados por botins de salto raso, e não foi difícil perceber que se tratava de uma senhora de idade. Parei e saí do carro, acerquei-me para prestar a ajuda que fosse necessária, mas apercebi-me quase imediatamente da inutilidade da minha presença: a senhora fora atropelada, já fora chamado o INEM, o condutor, aflito, estava presente, assim como duas funcionárias de uma associação de gerontologia, um rapaz tinha ido buscar um edredon para a tapar, e duas raparigas diziam palavras de conforto, como "Está tudo bem", e "Vai ficar tudo bem". A senhora queixava-se, a cabeça ainda estava pousada no asfalto, de onde escorria uma pequena quantidade de sangue; os óculos, redondos e de aros finos, haviam tombado e ficado a poucos centímetros da cara dela; o cabelo, de um ondulado muito bonito e muito branquinho, fazia um contraste absoluto com o pavimento. Parou-me o coração no instante em que a ouvi gemer,
Mamã...
Ao menos, tivesse ela dito "Ai, mãe", ou "Minha mãe do céu", e eu perceberia a evocação daquela outra mãe, numa hora de aflição dos aflitos. Mas disse, assustada e pequenina,
Mamã...
chamando por aquela que é só sua, também ela agora residente num reino longínquo e imaterial.
Reprimindo o impulso de responder àquela súplica, baixei os braços, desisti e segui em frente. Na realidade, segui transversalmente, enviesada, torta e mais perdida.