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04/01/2026

Estroboscópica

Às vezes calha ficarmos lado-a-lado nas aulas de alongamentos. Não sei o nome dela e imagino que não saberá o meu. A primeira vez que lhe dirigi a palavra foi para lhe perguntar se tinha tido um desastre de carro, tantas eram as mesuras do instrutor com ela, tantas eram as partes do corpo que não conseguia mexer. Disse-me que não, entre o espantado e o aterrorizado, mas que tinha tido uma ruptura de mõinnnn mõinnnn e um deslocamento da mõinnn, sei lá, não percebi nada, tal era a descrição de mazelas, e eu essas coisas não fixo. Quando começam com o rádio, os ilíacos, os cruzados, algo em mim voa para o País das Maravilhas e as orelhas são as primeiras a dar à sola para longe.

- Aquelas luzes estroboscópicas são muito perigosas — disse-me um destes dias, quando esperávamos a hora da aula. Achei por bem ficar calada, um bocadinho atónita e com a cabecita de lado, como fazem as galinhas diante de quase tudo. Esperei que o que dissesse a seguir me esclarecesse, e assim foi, ou quase:

- Aquelas luzes que estão na sala e que giram, sabes?

- Sei. — Saiu-me a peta, por saber que daí a minutos ia conhecer as tais luzes, que, ao que tudo (especialmente ela) indica, estão há anos na sala, mas eu nunca as vi.

- Os meus dois filhos são autistas, mas sobredotados, eu casei-me com um autista, qualquer um deles, se viesse aqui, tinha uma crise. Também me sinto mal quando olho para aquelas luzes, e há uma rapariga aqui do ginásio que chegou ao ponto de ter que sair da sala. Já me fartei de pedir para desligarem as luzes, mas não desligaram. 

Depois entrámos na sala e, enquanto durou a aula, não tirei os olhos das estroboscópicas, a ver o que é que acontecia. Nada, absolutamente nada. A minha companheira, ao contrário, mesmo sem pôr os olhos nas luzes, cumpriu toda a aula com a habitual expressão de mártir do Caravaggio. 


23/12/2025

[Pensamentos intrusivos]

Vou à farmácia todas as semanas. Tomo tantos comprimidos que as caixas se revezam a chegar ao fim.

Desta vez, apetece-me não só manter em dia as doses que tem que ser, mas também comprar um creme maravilhoso para as pálpebras. Sim, as pálpebras. Uma mulher compra cenas para as pestanas, para as sobrancelhas, para as orelhas e o dedo médio do pé. Gastar uma pipa de massa com as pálpebras é só mais uma desculpa para sermos a encarnação do senhor dom diabo. 

Entro e apercebo-me que, desta vez, e ao contrário do que é costume, também se encontra a dona do estabelecimento. Peço o creme a Jorge, o gigante, que, de cabeça baixa, me pergunta: “Para as pálpebras?”, “Sim, Jorge, não tente compreender.” Ele avisa-me que só à tarde, a dona da casa sofre um espasmo e entra em transe e em monólogo — provavelmente, com medo que eu desista da compra —, as mãos a tremer muito, a voz embargada, como eu ficaria ao fim de cinco cafés seguidos: “Mas também tem este aqui da Marti Derm, que é muito bom [conheço a marca, é tudo excelente menos o creme de noite, que cheira a esfregão e o raio do pote nunca mais acaba], e está com quinze por cento de desconto, sessenta menos quinze por cento [seis vezes três, dezoito. Tira dezoito a sessenta], mas não vamos cansar a cabeça, faço aqui na calculadora [burra, quarenta e dois], pois, bem me disse que fazia de cabeça, eu já não sou capaz, mas olhe, também temos aqui um kit, tem um frasco para de dia e outro para de noite, isto tem uma bolinha de metal na ponta e sente-se logo a frescura mal toca na pele [será chato dizer-lhe que, se puser a bolinha de metal num frasco com m. às colheres, sente à mesma a frescura?], e depois tenho aqui um outro, que só põe aqui [o dedo espetado na zona da olheira, um papo engelhado], mas só aqui, não põe aqui [na zona interior do olho], nem aqui [na zona superior do olho], só mesmo aqui [porquê, ó senhora? Fico invisual? Enruga-me mais? É um desperdício? Morre uma foca bebé? Morro eu, de catatonia por te ouvir?].

- Jorge, eu volto à tarde. Deixo o creme pago, para não me demorar outra vez.

Acho que amadureci. Os meus pensamentos nem sempre passam de intrusivos a verbalizações.


04/12/2025

Ao sétimo dia, Deus descansou

Fui à missa de sétimo dia da mãe da minha amiga maior — embora seja pequeníssima —, e mais antiga — ela com dez anos, eu quase, quase a fazê-los —, já um pouco menos triste e desolada do que na semana anterior. 

Começou logo mal: tínhamos — ela e respectiva família, uma outra amiga (amiga de amiga, óbvio que logo ficámos amigas), uma estabanada que anda no mesmo ginásio do que eu — as primeiras dez aulas de dança, fê-las de calças de bombazine castanhas, cabelo num quico espetado derivados do ondulado cerrado do cabelo, que venho a saber pertencer ao mesmo local de trabalho da minha quase-irmã, e eu — ficado no banco da frente, como próximos da falecida. Quando o padre apareceu, nós, que éramos seis mulheres (e um homem) naquela fileira, proferimos um "Oooh!" em uníssono, tal e qual fôramos o coro da igreja, simplesmente porque o padre era giro que dói. Ele começou a rezar, assim com um ar blasé, julgo que não prestámos grande atenção ao ritual, mas até aí tudo bem. 

Veio o momento da comunhão, ao qual não comparecemos, pois já estávamos todas em pecado e nenhuma de nós recentemente confessada (e ainda bem para o padre, coitado, horas e horas de prosa em monólogo). Desde o Senhor Covid, mudaram alguns costumes na missa: o padre já não mete a hóstia na boca dos fiéis, e sim nas mãos postas em concha. Percebo o alívio dos padres nessa mudança, que deviam lavar as mãos com criolina no fim da eucaristia, e assim já só precisam de lixívia. Também mudou aquela parte do beijinho, que era uma nojeira, em criança deixavam-me as bochechas a escorrer baba e eu, tão educadinha, em vez de me limpar ao ombro do casaco, permitia aquele abuso de menor. Agora é um abracinho, mas não há cá esfrega-esfrega, é mais o abraço de lado, à americana. Os comungantes puseram-se em filinha-pirilau, todos a receber a hóstia nas duas mãos, até que veio uma jovem magrinha que se ajoelhou e recebeu o sacramento na boca. Uns passos adiante, vem outro jovem, vagamente abastecido de chichas, atira com os dois joelhos para o chão, pondo a língua de fora. A língua dele só era comparável a um bife da vazia, uma coisa enorme e larguíssima. Quase posso jurar que o padre se sobressaltou com tamanho naco de carne, capaz de matar a fome a uma família numerosa. Nesse momento, perguntei à do lado: "O que é aquilo?", e estoirámos as duas numa risada tão boa que acho que estamos perdoadas de pecados vários até à sétima geração. O mesmo não pensará a senhora que ia e vinha de tirar e guardar as hóstias, pois prostrou-se diante de nós, a anca toda para um dos lados, a mastigar a hóstia como se fosse um cowboy a mascar tabaco. Não a tememos. No fundo, e apesar de não abençoadas com o santo pão, talvez fôssemos das almas mais puras que ali se encontravam. 

Talvez.


07/10/2025

A pagadora de promessas

Findas que estavam umas mini-férias (na verdade, são todas mini, até as que duram meses, se é que isso existe) com a minha primogénita, escapadela que damos desde há quatro anos, fomos proceder ao check-out. Pedimos cartões para o comboio de acesso à praia e um lugar no estacionamento mais perto do cais, para que pudéssemos gozar mais meio dia de praia. Já tínhamos estacionado quando a criança me lembrou que eu deixara o almoço no apartamento. Por uma vez, não queríamos demorar no processo de ir a um dos restaurantes dali, pois tínhamos o tempo contado para fazer a viagem ainda de dia. Eu ai, que me esqueci no frigorífico, ela, ai, não faz mal, eu vou lá. Palmilhou dali até à recepção (muitos metros), da recepção ao apartamento (mais muitos metros), do apartamento à recepção (ainda mais muitos metros), da recepção até mim (tanto metro percorrido por causa da cabeça de ervilha da progenitora).

Íamos nós até um bocadinho lampeiras por aí afora no comboio, quando eu olho para o escancarado saco dela e vejo o cartão a resvalar, ou melhor, a derramar como água para a areia que envolve a zona dos carris. Ainda estava toldada por aquela sensação de estar em dívida para com minha petiza. Pus-me então em pé e gritei: “Motorista!”, que era para o homem puxar do freio. Repeti e ele nada. Hei-de experimentar “comandante”, ou “vossa altiveza” quando lá voltar. Achei prudente não me atirar do comboio abaixo, não fosse aquilo agarrar-me pelos pés e cortar-me as unhas para lá do sabugo, ou assim. E a máquina avançava, avançava. Lembrei-me então que, pelo meio do caminho, aí a uns setecentos metros da partida, ela teria que parar, para dar passagem à do sentido contrário. E parou. E eu pulei do comboio e descalcei as chanatas. Então, desatei a correr pelo cimento e pedras com bolinhas até ao sítio onde poderia estar o cartão. Não estava, mas vislumbrei um varredor de areia ao fundo, corri para ele, estanhado, mil dentes — ou mil falhas? — “Ah, é você?”, a querer conversa parva, só lhe disse: “Saudinha” e zás, de volta. O meu vestido de flores e folhos, um jardim em movimento, os meus cabelos ondulados cheios de vida, palavra que nunca me custou tão pouco correr mais mil e trezentos metros. Sentia-me etérea e potente, capaz de todos os meus impossíveis. Provavelmente, alguém viu apenas uma idosa desvairada, descalça num pavimento inacreditável, eventualmente a ter um surto em bom. Eu vi o mar, mergulhei por necessidade animal e garanto que, se nesse dia não me nasceram guelras, então também já não vão nascer nunca.


27/05/2025

O que interessa é participar?

Blhag, não. O que interessa é ganhar; ou então, ficar numa posição que não envergonhe as gerações vindouras. Ai, "Os últimos são os primeiros". São nada. Os últimos a entrar num elevador estreito como os do meu prédio, são os primeiros a sair, senão ninguém sai. 

Só balelas.

Aqui há bastantes semanas, nem me quero lembrar, fui enfiar-me numa corrida à noite, para percorrer um milhão de centímetros. Não treinei grande coisa, por preguiça, falta de vontade e ânimo e por achar inútil. Cada um sabe de si. [Hoje estou inquinadinha de ditados populares.] Foi ainda no tempo das monções que este país sofreu, pelo que os três primeiros quilómetros foram feitos à chuva. Nada de especial, não fora estar um frio de ananases, mas a pessoa humana ia resguardada com uma camisolinha por baixo da camisola da competição, fora a manga que uso às vezes para que o braço não se transforme numa pata de elefante. Nem dei por ter parado de chover, pois já suava as estopinhas e outros paninhos ordinários. Mas ia determinada a não parar nem para beber água, de tal modo que até levava um cantil de dois litros às costas — e ainda hoje ponho a possibilidade de terem sido aqueles dois quilos a mais a prejudicar o meu resultado —, para não ter sequer que abrandar. É claro que, ao primeiro quilómetro, já pensava coisas ao melhor estilo vernáculo (é um estilo!), mais ou menos: "por que piiii me vim meter nesta m.?". Não me doía nada, nem os pés [agora encravam-se-me as unhas, a quimioterapia ainda circula alegremente. E também devo estar um nico radioactiva], nem os joelhos [que nunca doem, mas é uma queixa vulgar do povo], nem os pulmões, nem o burro. Mas doía-me, sobretudo, a alma, muito em particular quando me vi sozinha, de noite, numa cidade cujos contornos mal conheço, a tentar correr, e nem pelotão à frente, nem atrás, com a possibilidade (que teria sido superiormente inteligente) de me atirar para o chão e chamar os meus bombeiros, que me levassem para a barraca e me dessem miminhos, como já aconteceu. Ao invés, havia uma força estúpida que me ordenava: "Continua, bruta!". Devia estar no sexto quilómetro, a solidão iniciara-se há minutos, quando me aparece uma anja alada e me diz: "Vamos embora, juntas até ao fim!". Explicou-me que faz tracking e que, nessa modalidade, ninguém fica para trás. O último é sempre acompanhado pelo "vassoura". Então, começou a varrer-me na direcção da meta, os piores quatro quilómetros que já corri na vida. Dores, agora sim. Dores nas plantas dos pés, a queimar, dores nas ancas, dores nas mãos, a inchar como salsichas frescas, dores nas costas, dores na cauda equina, dores, dores, dores, e estrada, estrada, estrada. Não sei quantas vezes morri. Ia acompanhada da minha bruxa fada e dois polícias de mota, com muitas luzes azuis, ou eu já as multiplicava, tamanho e tão penoso era o calvário. Aproveitei e contei a história da minha vida à Vassoura, porque já estava a correr há mais de uma hora e estava aborrecida de estar calada. Pedi a um dos agentes que me deixasse acabar a corrida sentada na garupa do motociclo dele, e ele riu-se de nervos. Tudo me ocorreu, mas tudo corri e cheguei, atravessando a meta de braços vitoriosos (ainda não sei como consegui erguê-los naquele momento). Uma multidão esperava por mim para a ovação, um dos polícias tirou o capacete e disse-me que queria dar-me um abraço. Assim que o fez, segredou-me ao ouvido que nunca viu um exemplo de resiliência como o meu. Cada um dá-lhe o nome que lhe quer dar, eu acho que sou só teimosa como uma mula.


24/02/2025

Dez dias, três borboteiras

Precisava com urgência para anteontem de uma borboteira, e então mandei vir daquela megastore da China (já sei as vossas opiniões, as quais partilho, porém também me farta pagar a multiplicar por dez pela mesma m. que posso pagar a dividir por dez), 

(aliás, aprendam comigo, que eu, injustamente, não duro para sempre: também havia mandado vir da mesma mega um par de sapatos de dança, depois recebi um mail a confirmar o envio, depois recebi outro a anunciar que o meu pagamento tinha um defeito qualquer, refiz a encomenda, acrescentei três itens à minha vontade, um dos quais os sapatos de dança e, antes de pagar, lembrei-me que a primeira encomenda já vinha a caminho, fechei a aplicação sem ter pago a segunda, e não pensei mais nisso, até ao dia em que me chegaram a casa os cinco artigos, dois pares de sapatos de dança incluídos. São tão extremamente confortáveis que só me apetece dormir com eles, e custaram doze paus — um par, porque o outro, conforme já disse, me saiu de graça e ofereci logo à que fala tanto, a ver se ela se calava. Não calou.)

porque até havia uma no lar, mas não a encontrei na balbúrdia da minha casa nem no caos de uma das arrecadações, pelo que presumo que deu o peido mestre e foi com a vara. Chegou-me uma coisa que fazia o barulho de borboteira, praticamente não tinha depósito para borbotos e era recarregável como um telemóvel, algo de inalcançavelmente evoluído. Vai que só tinha cerca de cinco minutos de autonomia, o que nem chega para a manga de um pullover, e depois era preciso esperar talvez doze horas para que a máquina se autonomizasse de novo. Como não sei falar mandarim, fui em demanda por outra. 

Chego à loja da catedral, onde normalmente sou bem servida pois fujo a sete ou oito pés da que começa por Wor e acaba em ten (nunca comprei lá nada que não viesse avariado, ou não avariasse no espaço de uma semana), acerco-me de uma funcionária cujos olhos dispararam na minha direcção um "odeio-te" muito claro, vá-se lá perceber porquê (havia de ter-lhe perguntado por uma rebarbadora para o buço, mas nunca me lembro destas piadas no momento certo), e digo: 

- Boa tarde. Ando à procura de uma borboteira.

- Boa tarde. Hã? Borboteira? — E era ver o nariz dela, ou lá o que era aquilo, alçar-se todo para cima, os dentes de cima, ou lá o que eram aquilos, todos à mostra, a chispar. Lembrou-me aquelas hienas do Rei Leão, mas eu estava em missão, não queria perder o foco. — A senhora quer dizer 'uma máquina para tirar borbotos?' [Oh, pá, está aqui uma sumidade linguística a perder-se a vender tralha eléctrica, agora percebo a revolta.] [Que nome sugeriria sua sumidade para uma máquina que só serve mesmo para tirar borbotos? "Depilaborbotos"? "Saca-bolas da lã"?] 

- Sim.

Mostrou-me duas ou três marcas, modelos todos iguais, pequenas e frágeis como eu já tive uma, que arrancam um borboto de cada vez e não os trinta mil de que cada pullover de cônjuge já padecia, além do que mordem que se fartam, à pincher, e fazem buracos na lã.

- Muito obrigada, quero daquelas grandes que parecem um ferro de engomar. Lá terei que ir à Wor ten.

E fui. Muito bem atendida, desta vez era um homem, que entendeu a palavra "borboteira", me fez a encomenda para a fábrica/ armazém e prometeu que a teria daí a três dias. Assim aconteceu, máquina maravilha, limpou duas ou três camisolas e, ao terceiro dia, descansou. Eternamente. Confirmada a minha teoria pela enésima vez, devolvi-a e recebi a quantia que despendera por ela. 

Meti-me numa loja de rua que vende quase tudo o que é eléctrico, pedi por uma borboteira, o senhor percebeu a palavra e simplesmente vendeu-me uma máquina decente, que já limpou o que faltava limpar e está ali para as curvas que as lãs também têm. 

Moral da história: nenhuma. Foram três borboteiras em dez dias. Nada má, esta média, como sempre, em mim. 


02/01/2025

Dormi, corri, lagartei

Passei o reveillon numa festa do maior luxo e abundância, entre peles verdadeiras de marta e arminho, perfumes daqueles que nunca mais nos saem do nariz, nem que o arranquemos, penteados armados com duas embalagens de cola laca, bâtons de tons histriónicos, gargalhadas falsas e champanhe Moët & Chandon a escorrer pelas goelas delas e deles, ou delos, ou lá como é que agora temos que dizer, senão ainda nos açoitam, ai de mim se digo que sou heterossexual, apontam-me logo a unha gigante (como é que limpam o rabo com aquelas garras?) em guinchos de "binária!", dizia eu, eram cigarrilhas, música que nunca ouvi, à meia-noite silvos de foguetes e de gente inebriada com o espelho e...

Ah, era eu de pijama e robe, aquilo tinha sido um delírio ou um pesadelo acordada, tirem-me de ambientes desses, eu bebi uma garrafa quase inteira de Champômix e fiquei logo viciada, garanto que vou tornar-me dependente daquilo, como se fosse verdade que tem mesmo maçã. Ao passar do ano, chamada via whatsapp dos filhos todos, uns longe, outros perto, mas todos fora da minha asa, gargalhadas autênticas e votos bons, de coisas doces. 

Meia-noite e trinta, a bela adormece, para só acordar ao meio-dia e meia, já do dia 1. Sento-me na cama e digo a cônjuge que vou correr. Era o prometido para o primeiro dia do ano, mas não àquela hora. Indiferente, a cidade dorme como eu até há pouco. E lá vamos, ele mais veloz, eu a meditar por que raio me meto nestas aventuras logo assim que raia o dia para mim. 

Mas corri. Estava a terminar os seis quilómetros para os quais me determinara, quando vejo, a atravessar o caminho de todos os grandes atletas como eu, uma corda muito bonita. Parei (boa desculpa) e observei. Pensei: "Oh, uma cobrinha tão comprida, mas tão magrinha!". Uma vez que a minha prioridade não era alimentá-la, mas sim salvar-lhe a vida — em claro risco, devido à velocidade a que se deslocava e à quantidade de humanos que ali passavam —, pelo que agarrei num pauzinho, a ver se ela enrolava ali a cabeça e depois eu poderia atirá-la para as relvas, ou assim. Mal lhe toco com o pau, a coisa começa a desfazer-se como um Lego mole, em pedaços de três centímetros. Só assim percebi que se tratava de uma comunidade, pelos meus cálculos com sessenta e tal elementos — não tinha menos de dois metros de comprimento — e resolvi ir-me embora, a Natureza que seguisse o seu curso e eu o meu percurso. 

Só mais tarde fui informada, de forma informal, que se tratava de uma fileira de lagartas do pinheiro, relativamente perigosas. Ainda bem que me pus à fresca. Não quero apanhar mais porras. E estava demasiado preocupada com o facto de ter dormido mais de metade do ano, até àquela hora. 


15/11/2024

L’enfer

Existe qualquer elemento na estação de Correios da área da minha residência — pode ser o ar que lá se respira, misto de cartão, electricidade e cabelos —, que me transforma num monstro. É raríssima a vez que lá vou, não por vergonha da cena anterior, mas por saber que me vou irritar, abrir as goelas e partir a loiça toda (não literalmente, já que ali praticamente nada é de porcelana). (Há uma mulher assim no Continente, mas essa é maluca.)

Um destes dias, quis o Cão que eu tivesse ido lá deixar um envelope do meu microscópico negócio on-line. Entrei, entreguei, paguei e sumi-me. Nem parecia eu. Passada uma semana, a destinatária avisou-me que a pequena encomenda ainda não chegara. Pedi-lhe que esperássemos mais uma semana, e assim fizemos. O pacote (olarilolé, olarilolé, bailar assim sabe tão bem) não chegou, cá me meti na chanata e ala para a estação. Lá chegada, verifico que tenho cerca de vinte pessoas à frente e aquele odor a Correios tomou conta do meu nariz, das minhas unhas, dos meus dentes, dos meus cotovelos, mãos e pés. Chega uma chica, pergunta a Paula, aquela funcionária com quem já me alterquei milhares de biliões de vezes, se pode fazer só uma perguntinha, e fica lá. Ao cabo de cinco minutos, avisei a que estava ao meu lado, já divertidíssima com os meus comentários, que ia largar a bomboca, para depois ficar a ver o circo a arder. Perguntei então de que tamanho era a pergunta da freguesa, tão demorada, que me respondeu que tinha ali hora marcada. Ia falecendo a rir com a resposta absurda da criatura, mas o resto do povo ficou a pontos de linchar a mulher, que nem oportunidade de argumentar com ela me deu. Cambada de chatos, nunca dizem nada, tem sempre que ser aqui a pioneira que toma as rédeas de tudo (eu nessa casa, tudo eu). 

A funcionária que me atendeu disse que eu podia escrever uma queixa no portal lá deles. 

Para me responderem o mesmo que a senhora me está a dizer?

Sim.

Ah, penso que vou declinar.

Hoje a que me fez a encomenda comunicou-me que a recebeu, vinte e três dias depois da expedição. Esteve sem saber da chave da caixa do correio uma semana e meia (ou terão sido duas e meia?). Apetece-me fazer agressivo uso das minhas unhas, dos meus dentes, dos meus cotovelos, mãos e pés.


28/10/2024

Voo picado, aterragem sem espinhas

Como em outros semestres de há alguns anos para cá, lá me pus nas tamanquinhas (eufemismo de ténis), a caminho da Corrida Sempre Mulher. Há duas por ano: uma começa e acaba nos Restauradores, a outra é no Parque das Nações. Ambas têm o comprimento de quinhentos mil centímetros. Isto, dito assim, faz-me sentir uma iron woman, que é, no fundo, o que sou. Posso já não ter uma saúde de ferro, mas continuo a ter uns nervos de aço. Steel woman, eu. 

Tinha treinado numa das passadeiras do ginásio, mas não havia passado dos dois mil metros, e quase à custa de dopping. Não sei quem inventou as passadeiras, mas estimo que tropece naquela coisa e se enfie no rolamento, para sair qual folha de papel na próxima volta. (Lá estou eu a ver desenhos animados a mais). Quanto a mim, saía de lá suada que nem um reco, com ganas de cuspir o segundo pulmão, visto que o primeiro já mastigara e engolira. Convenci-me e conformei-me que não ia conseguir cumprir tanto milímetro que a prova exigia, mas consegui. Este post não é sobre a corrida, é sobre toda uma preparação física — da qual já falei — psicológica, [Vai, mulher, tu dá-lhe. Interessa é estares lá e não tropeçares] e emocional. Já uma vez falei aqui do estado sinuoso em que se encontram os passeios do Parque das Nações, por conta das raízes das árvores e da falta de vontade, com a desculpa do dinheiro, nhé-nhé-nhé, de os municípios se entenderem e arranjarem aquele pedi-paper de Dakar. Passaram vinte e seis anos sobre a construção, imaginando que ao fim de seis anos as raízes rebentaram com o cimento, façam lá as contas, que eu não estou capaz. Pois, está tudo na mesma. 

Mas eu ainda não ia preocupada com a crueldade do piso, pois ia apenas a dirigir-me ao ponto de partida. Calcorreava, então, a passadeira de ripas que tem as colunas que suportam os mastros das bandeiras não sei de onde, quando meu téni se encaixou na perfeição numa das imperfeições de uma ripa qualquer, tropecei olimpicamente, senti que houve ali um milionésimo centésimo de segundo em que os meus dois pés estiveram no ar em simultâneo [I believe I can fly], tudo num ralenti muito rápido, olhei para a frente e avistei de muito perto um dos postes e, pelos meus cálculos, apercebi-me de que ia marrar de frente com ele, ainda meditei [O que é que lhe dou? A testa, o nariz ou os dentes? A testa, assim como assim já cá cantam duas costuras, feitas no espaço de seis meses, de quando era uma petiza distraída], mas subitamente decidi que ia fazer do inimigo meu amiguinho, estendi os dois braços e zás, abracei-o com toda a comoção que o momento exigia. Fiquei de pé, agarrada ao poste, impecável, sem uma dor, sem uma unha lascada. Pensei em fazer uma dancinha do varão ali mesmo, mas estava apressada, tenho zero forças nos braços e, em bom rigor, sei lá eu fazer essas excentricidades.

Tenho quase a certeza de que esta grande vitória na luta entre mim e a gravidade contribuiu em muito para a pequena glória de ter ultrapassado a meta em vários minutos, mais ou menos os mesmos que fazia antes de ter adoecido. Está tudo na cabeça? Sim, e nas pernas, ide lá plantar anonas, que aquilo custa um nico. 

 

12/03/2024

Botei

o voto na urna. Não foi fácil. Pelo caminho, cerca de seiscentos metros, ainda ia, já não como em tempos — a fazer undolitá — a votar mentalmente por exclusão de partes “Neste não, naquele nem pensar, no coiso era o que faltava”. Como sempre, fiquei na sala exclusiva das Marias, de Maria Eduarda a Maria Viviana. Tinha tido um cuidado desmesurado a escolher a hora para ir exercer os meus direitos, que os tenho, minha senhora, para não encontrar as caridosas do “Estás bem?”, a enterrarem os olhos nos meus, uns ares tão sérios que julgo que vão ralhar-me já, já, eu naquela, “Estou, estou bastante bem, que eu saiba”, elas logo a amolecer o olhar, “Isso é que é preciso, espírito positivo”, como quem diz, “Coitada, diz que está bem, é deixá-la viver na ilusão de que não é a primeira de nós todos a morrer”, sabem lá elas se dali a cinco minutos não vem uma betoneira desgovernada que as mistura com o cimento. Escolhi tão afincadamente a hora, que as encontrei todas, mas consegui tornar-me invisível à mais empenhada, que quis um dia tomar café comigo no pós-tratamentos e esteve todo o tempo a chorar porque havia saído recentemente de uma peritonite. 

À minha frente encontrei dezanove Marias até à curva que dava acesso à sala. Chegou a minha vez, o rapaz que presidia aquela mesa ia adormecendo a ler o meu nome (já estou habituada) e deu-me aquela folha gigantesca, onde constavam partidos dos quais nunca tinha ouvido falar, como o fálico (?) “Ergue-te!”, ou bíblico, sabe Deus (“Levanta-te e anda!”), para além de mais um ou dois, agora não sei precisar quantos desconhecia. Quase todos, vá.

Já no meu cantinho, pronta para exercer, reparo que não há ali caneta ao meu dispor. Procuro na mala, sei que é raro ter uma caneta (trauma com uma que se me rebentou dentro da mala, não quero lembrar-me; o mesmo para os pacotes de açúcar; e as saquetas de molho de soja), mas desta vez lá estava uma, triste, só e abandonada, gelada, gelada. Nos entrementes, ouvia-se o meu murmúrio, “Não há aqui caneta? Uma pessoa puxa pelo cordelinho e não vem nada na ponta. Se não tivesse uma na mala, a esta hora não votava”. Fui à mesa entregar o meu papelinho e comuniquei: “No meu cantinho não havia caneta. Senti um convite, mais, um incitamento, ao voto em branco”. Rimo-nos todos muito e depois voltei para casa, com o meu dever (não me enganei, não) cumprido.


20/12/2023

Ainda existem mulheres honestas

Quem nunca? Eu já. Uma vez riscara meu boi na garagem, numa primeira septingentésima sexagésima terceira vez em que fiz a manobra e até já a executaria de olhos fechados, mas parece que a p. da parede nesse dia avançou em continência e boi foi raspar-se nela. 

Desta feita, encontrava-me na subida de uma rampa e tinha à frente cerca de três automóveis, todos com intenção de seguir em frente — visto que não tinham o pisca para a esquerda (única alternativa para além da de andar adiante) —, sendo que eu queria ir para a esquerda e eles não me desempatavam o caminho. Até onde a vista alcançava (quase nada, pois a curva à esquerda me tapava a visibilidade para o que de lá vinha), não havia carro nenhum em andamento na faixa oposta, vai de arriscar (haha, muito bem aplicado) a sorte (que, como é do conhecimento mundial, é olimpicamente ínfima) e arranco para a esquerda com toda a convicção e força que o acelerador me permitia, logo assim dei por desfeito o ponto de embraiagem. De repente, senti um abanão para os lados e ouvi o inconfundível ruído. Porém, ainda tive dois décimos de segundo para equacionar se não estaria a ser protagonista de um tremor de terra. Assim que percebi que dera com as portas direitas na chapa do carro que estivera à minha frente e que as paralelas e tangentes não são o meu forte, só mesmo as secantes, avancei um nico para não estorvar nem inquietar os que estavam lá para trás, saí de Rosinha já a pensar acordo amigável - seguro - documentos do carro - meus documentos - assunção da porra da culpa (sem usar o cilício, também não devia ser caso para tanto) - vamos a isto, que não há-de doer. Da viatura acometida, sai uma senhora a rir, e eu Ai tu queres ver que me saiu uma pior que eu? Tento acalmá-la? Dou-lhe um estalo para acabar com o histerismo? Chamo o 112 com uma jaula? Peço ali aos rapazes do hospital que vão buscar um dardo cheio de sonífero? Melhor não, a sorte vira-se sempre contra mim, vai na volta e o outro saía-me uma espécie de Tell sem pontaria, vinha de lá armado com a besta e eu ainda apanhava com a seta na testa como o do anúncio do "Fica quieto", "Ups". Estava eu perdida e sozinha nestes pensamentos, quando ela optou por explicar o gargalhedo, não fosse eu colapsar: "Minha senhora, já é a segunda vez que isto me acontece hoje". Convém confessar que eram apenas 10:30 da madrugada. Respondi-lhe: "Vá para casa, por favor, e só saia de lá amanhã". 

O lado esquerdo do carro dela estava todo riscado e amassado. Deitei dramaticamente as mãos à cabeça e perguntei: "Eu fiz isto tudo?". Honesta, podia ter aproveitado, "Não, isso já é de outras". Fui verificar o meu lado direito e havia riscas, sim senhor, mas nada de chocante, até se for fazer iguais do outro lado, parece que é um modelo diferente da marca. 

Concluímos que não havia nada a declarar, quais acordo amigável, quais quê, quase demos duas beijinhas e adeus e Boas Festas. Cada uma foi à sua vida, que a mulher tem mais com que perder tempo, quanto mais quando são duas. 

Homens? Era não ter avançado do local onde havia raspado, empandeirar o trânsito local e depois da cidade toda, era o acordo, era o telemóvel, era a identificação, era o telefonema para a companhia de seguros e para o amigo mecânico, era o croquis do sinistro, tudo muito sinistro. 


04/12/2023

Parque de estacionamento - 1; Linda Blue - 0

A pessoa até já vai nervosa quando se acerca de um parque de estacionamento. Tinha mais uma consulta das centenas que já tive, esta para verificar se o braço está mais gordo do que o outro ou não. Vivo um bocado aterrorizada com a ideia, porque, caso se verifique, vou deixar de saber que número visto. Nada é impossível comigo: tive um pé maior do que o outro durante anos a fio, agora o maior encolheu e passei a calçar o número abaixo [já vi desculpas melhores para renovar o calçado todo], ou seja, todos os sapatos me chinelam, e isso provoca umas dores que ninguém supõe, uma vez que tenho que fazer imensa força com os dedos para que não me caia um sapato nalguma escada rolante, venha um príncipe atrás de mim e tenha que lhe aventar com o outro para correr mais agilmente.

A facilidade com que me perco nos assuntos. Pareço o tio das Derry Girls. 

Aproximei-me do parque, esperei pacientemente a minha vez (porque tinha tempo, pois aquela lesmice só dá vontade de uma pessoa perder o amor ao carro e empurrar os caracóis todos para dentro do parque), depois chegou o cruel momento em que tive que abrir o vidro e esticar o braço ao máximo e, mais uma vez, faltava-me cerca de um Danoninho para chegar ao botão da Via Verde. Veio imediatamente um cavalheiro muito solícito, e, sem eu lhe pedir nada, espeta o dedo em "retirar ticket", enquanto eu digo "Via Verde, por favor". O bilhete saiu mesmo, mas a teimosa até ganhou braço, qual Senhora Incrível, e pumba no botão verde. A cancelinha abriu, eu acenei gudebai ao senhor, ele de bilhete no ar, "O que é que eu faço a isto?", "Deite fora, que eu saio com a Via Verde". Estacionei Rosinha de forma a revelar o meu TOC — carro direito e com as exactas distâncias entre os extremos do dito e o tamanho do lugar —, saí um bocado contrariada porque o pavimento era daquele cheio de hexagoninhos, que qualquer humano que tenha calçado uns saltos altos joga ali um bocado à roleta russa, "a ver se o raio do salto não se mete nos buracos desta m.", mas avancei. Ao passar pela casota onde se esconde um senhor que já está irascível às nove da manhã, deu-me cá aquela dúvida "e se...?", sabem? Lá fui gritar para o acrílico que nos separava: "Bla, bla, bla, um senhor tirou um bilhete, bla, bla", e ele estende-me um cartãozito, "É este, minha senhora. A senhora não saía do parque com a Via Verde, porque tem prioridade a primeira escolha". Olha que bem pensado, existe sempre a possibilidade de alguém se pôr a tocar piano com os botões daquela coisa. Lá lhe agradeci e fui-me, na direcção da entrada do parque quando, de repente, vejo uma barra enorme na direcção da minha cabeça e só tenho tempo de dar um salto para o lado e dizer "Ai!". Sinceramente, em que mundo estamos? A ver se alguém me avisou. Se calhar, queriam ver o que é que acontece quando uma pessoa leva com a trave na mona. Eu também apreciava visionar os carros deles a levarem com aquilo no tejadilho. Será que tem uma lâmina, qual guilhotina? Fiquei a pensar nisso, seria coisa para me deixar para ali rachadinha nos meio. Mas não, como cheguei à consulta com as duas metades agarradas, tive a grata notícia de que os braços continuam da mesma absurda grossura. Ordens da médica: "Dance, dance, dance". Pelo menos, não me disse "Faça flexões, pranchas e burpees", senão também não me apanhava lá outra vez. 


15/11/2023

O universo também não ajuda nada

Fui a uma palestra sobre alimentação de senhoras que tiveram cancro da mama, no âmbito de um programa em que me inseriram. Deixei Rosinha, minha canoa, num parque ao ar livre, porém debaixo de uma passagem superior. Lá chegada, sentei-me, observei as restantes pré-palestradas, todas significativamente mais velhas do que eu, menos uma, que é a que tem o ondulado mais bonito de todas. A primeira vez que a vi, perguntei-lhe se era consequência dos tratamentos (o cabelo renasce com outra textura e, às vezes, outra cor. O meu veio encaracolado e branco, vá-se lá explicar esta última). Ela respondeu-me que sempre o teve assim, e eu anunciei-lhe, como se ela soubesse o truque: “Eu quero igualzinho”. Nas outras, vi muitos edemas, muito peso a mais (por falar nisso, as minhas calças 38 deixaram todas de me servir, comprei umas 40, agora caem-me), muita grisalha, muito sobretudo num dia não tão frio que justificasse. A palestra foi dada por uma nutricionista magra (aleluia!) e, basicamente, era a explicação da roda dos alimentos: o que podemos ingerir, o que não podemos e em que quantidades. Tirei imensos apontamentos, a minha letra foi diminuindo de tamanho até quase chegar a invisível. Tenho a motricidade fina toda lixada. Saí muito esclarecida e pouco convicta de que me vou meter naquela prisão redonda só para ter mais alguns anos de vida. Engordei para aí uns três quilos nestes dois anos,  provavelmente derivados dos tratamentos e da pastilhagem diária, mas não vou amandar-me a um poço a propósito. Danço cinco vezes por semana, é essa a minha roda.

Mas não era a isto que eu vinha. Chego ao parque de estacionamento, coloco o bilhete lá naquela coisinha óptica e diz a máquina: “bilhete inválido”. Entretanto, formava-se uma bichinha atrás de mim, tudo muito solidário, “Ai, agora como é que a senhora sai daqui?”, “A senhora venha atrás do meu e, quando a cancela abrir, passamos juntos” (eu já a ver-me finada, degolada por uma cancela de parque de estacionamento), “A senhora peça ajuda”, já eu ligara para cônjuge, “O que é que queres que eu faça? Vem para casa e amanhã vais aí buscá-lo” (a ver se não me esqueço de o retirar dos contactos de emergência), já eu premia com todas as forças de meu indicador o botão de SOS da máquina e nada, o homem devia estar a dormir lá dentro, já eu ligava para os dois números de assistência, um não atendia, o outro dizia que só funcionavam num raio de um horário que, obviamente, não incluía o meu. Tentei outra vez na porra óptica, “bilhete inválido”, Cristo, que merdas tão grandes que só a mim sucedem. Carreguei então de novo no botão de SOS e lá hei-de ter acordado o humano, “O senhor desculpe…”, “Ó minha senhora, eu estou a trabalhar” [ninguém diria, há dez minutos, se calhar tinhas ido fazer cocó enquanto eu me espremia aqui dos nervos]. Mas foi útil. Fez-me ler o bilhete todo, hora de entrada, número de código, nome do parque. “A senhora está no parque errado”, ah, eureka, fico-lhe muito agradecida e até estimo que a sua inoportuna evacuação tenha decorrido pelo melhor. Mas a sério, fiquei desconfiada que mudaram os parques de lugar só para medirem a minha capacidade de sair de uma situação.

Quanto a mim, não sei se estou pior ou só mais velha.

12/09/2023

O já velho e eterno problema de fazer uma mala condigna

Vamos aceitar sem cerimónias que não sei fazer malas. Desta vez, despejei a gaveta das cuecas para dentro da dita, levei o dobro dos biquínis para os dias que ia ficar, levei apenas uns calções e uns ténis, um vestido para cada dia e umas calças caso chovesse, apenas uma parte de cima de pijama e seis de baixo e zupa com ela. Resultado: voltei com dezenas de cuecas limpas, usei todos os biquínis porque me dava ao luxo de fazer pausa de almoço, passei o tempo a lavar os calções de treino no bidé do quarto pois frequentei o ginásio até ao estoiro (dois quilómetros de cada vez na passadeira transformavam-me numa torneira de suor, o que vale é que não cheiro. A retirada de gânglios não tem só coisas más e a outra axila solidariza-se e também não cheira), usei as calças porque choveu mesmo, e tive que improvisar pijamas com t-shirts giríssimas que tenho. 
Este ano fiz férias no sul da nossa Espanha, escapando airosamente ao sul daquele Portugal seboso e chineleiro, que adora fazer filas para tudo, até para o pão que o diabo amassou. Do lado de lá, sessenta por cento dos hóspedes eram portugueses, o que também não é só vantagens. Queres perceber onde está um português, nem que seja na China? É o homenzinho que tropeça. É o que desconhece em absoluto a noção de espaço vital e fala alto e escuta tudo o que dizes. É o que come três pães ao pequeno-almoço, ou então ovos mexidos com um estrelado (saw it) e fatias de pão com bacon. Eu comi todos os dias um Donut, ora pequenino, ora grande, ora médio. Bem feita que me venha parar tudo ao donut pneu. 
No geral, a Península Ibérica é uma fartazana de varizes e celulite, e não é só nas mulheres. Mas as criaturas estão tranquilas com aquilo, quem sou eu para me ralar?
No geral, apreciei assaz as férias. Fiz muita praia, num mar que até permitia nadar, muita piscina, apanhei muito sol e a minha pele não berrou que só tem um ano de radioterapia, o meu cabelo não ficou com aquela cor de cocker spaniel (muito protector, muito chapéu), dormi e comi em excesso mas não pus um grama (devo ser muito criteriosa ou tenho uma balança burra), não bebi senão água e cerveja sem álcool. É por estas e por outras que julgo que um dia me canonizam, nem que seja à força.
No regresso, porque perdemos uma hora para fazer dez quilómetros derivados a um acidente (um carro foi parar ao talude, desconheço como é que se faz semelhante manobra) e tínhamos, ao todo, para almoço, quatro barrinhas de cenoura, dois Actimel* (ou Actimeis, como diz o povo), um pacote de batatas fritas com sabor a ketchup e um chocolate branco, para além de um pequeno saco de ração para gatinhos, porque nos tomámos de amores por uma gata com uns dois meses, que baptizei de Mira. Repartimos aquilo tudo, prescindindo da ração, mais porque ficámos empanturramos com a mistura anterior, e foi o nosso almoço, já não havia cá tempo para paragens. Não percebo como é que o meu aparelho digestivo não me manda à merda. 

* NMPPI

23/08/2023

Sutiãs chineses

A loja do chinês do meu bairro já pertenceu a vários donos — tanto quanto me lembro, os primeiros foram o casal Zhu e Jy —, e, de há uns bons anos para cá, está à frente do negócio um outro casal, de quem desconheço os nomes, porque não os oiço conversar. Ele percebe e fala um Português cheio de LL, mas corrente. (Fico sempre a pensar o que será da vida de um chinês que não consegue dizer os LL, como Feuisberto Uorenço Uauande. Em vez de “Não estlague”, se calhar diz “não estuague”.) Já ela, é uma verdadeira desgraça, tanto a entender como a falar. Mas ri muito, com os olhos em linha, o seu carrapito e o metro e meio de altura, acha divertido tudo o que eu digo. Há-de ser porque não entende. Encontra-me na rua, eu digo “Bom dia” e é vê-la toda grisada.

Vou lá muito, à loja deles. Têm sempre mil merdinhas que, se não fazem falta, passam imediatamente a fazer. Outro dia, andava eu a deambular pelo espaço comercial asiático quando me deparei com os sutiãs da minha vida: sem aros, sem copas, sem elásticos, sem costuras. Vi os tamanhos e, dos que havia, só me servia o preto. Vai de preto nas meninas, que bem precisam de ser bem tratadas.

Gostámos tanto da peça de lingerie, que vai de comprar as duas outras cores básicas: bege e branco. Entro na loja, faço sinal à chinesa que venha comigo e ela hi-hi-hi, lá me acompanha até ao recanto das intimidades. Pergunto pelas cores, ela hi-hi-hi, apercebo-me de que não há o meu tamanho, aproveito para perguntar se dá para tirar as duas almofadas, e ela, como não percebe um boi, apesar de eu ter gesticulado, grita, enquanto simula com as duas mãos dois enormes peitos: “Glande!”. E mais dez hi-hi-his, os ombros encolhidos até lhe desaparecer o pescoço, um toque solidário no meu braço e eu: “Gostaria ao máximo de não ter que discutir sutiãs com o seu marido, mas apercebo-me de que tal é impossível”. O que a doida riu.

Foi só chegar ao balcão, dizer o que queria e, passados dias, já lá, e depois cá cantavam os ditos suportes. O homem não se riu vez nenhuma, mas, em compensação, também não chorou.

11/03/2023

111

E, subitamente, a mulher estendeu-se ao comprido na enorme sala de espera das análises clínicas. Eu ia a achar que era o meu dia de sorte: conseguira sair a tempo de fazer as compras todas, ir nas calmas até ao hospital, arranjar o último lugar para o carro no parque — e, simultaneamente, o melhor —, chegar com vinte minutos de avanço em relação à minha hora marcada, mas, mesmo assim, a senhora das senhas permitir-me a retirada de uma (já me conhece de mais de um ano de senhas, ora de cabeleira, ora de cabelo curtinho), faltava apenas um número para a minha vez, e deu-se ali o desmaio. Talvez setenta pessoas na sala, as cabeças todas viradas, nenhum corpo se mexeu, a não ser os de dois homens, que se acocoraram a dar pequenos abanões na jovem inanimada. Pronto, pensei, my turn. Afastei os dois com os braços, disse-lhes que a virassem de barriga para cima, eles imóveis, então puxei-a eu e pus-lhe as duas pernas para o alto, o que a fez reagir imediatamente, pois começou a pestanejar. Sou tão boa.

A enfermeira que, entretanto, chegara, fazia perguntas à rapariga, vi chegar a minha vez — senha 111, isto deve ter um significado qualquer — e tive que solicitar à profissional que segurasse ela nos pés da pessoa desacordada, ou quase acordada, enfim. 

Setenta pessoas. Um desmaio. É só para que saibam o número de humanos que vos acudirão numa aflição: uma, vírgula quatro por cento. O que me angustia é que esta percentagem também se me aplica e, quando eu desacordar em algum lado, não vou estar lá para me socorrer. Pode ser que esteja outra parecida.


09/03/2023

Fibra sintética

Entrámos juntas na dependência do banco para tratar de um assunto dela, e todos os meus sentidos foram atacados por um intenso cheiro a suor, que me pôs imediatamente de sobreaviso de que não vinha de lá um bom momento. A nós, dirigiu-se um funcionário de fato e gravata de retrosaria de bairro, recheado de carnes profusas e inocultáveis, cara redonda e sorriso inexplicável. Delicada, como sempre, ela desejou bom dia e disse: “Precisava de um documento…”, mas ele não a deixou completar a frase: “Precisava ou precisa?”, o que me levou rapidamente a concluir tratar-se de alguém que serviu às mesas — nada contra, mas a velha piada do “queria” denuncia tanta coisa, e não há como explicar a estas pessoas que “eu quero” não é só o presente do indicativo, mas também o imperativo, a ordem, o comando, e é só por delicadeza que os clientes dizem “eu queria [se fosse possível; se me fizesse o favor]”, para além da falta de educação que é corrigir o Português a um cliente. Adorava assistir a um diálogo entre esta figurinha e uma mulher do bairro. Nestes pensamentos, fiquei impávida e serena, com o monstro a roer-me as entranhas e a indomável vontade de lhe espetar um murro no meio dos olhos, pois é esse o único instinto que me domina quando me maltratam um filho. Afinal, a criatura não sabia como atender a minha criança e recambiou-nos para um colega, educado e bonito, que emitiu o tal documento, enquanto o carnudo falava muito alto ao telefone com uma freguesa, num tom de intimidade inadmissível, com subentendidos e gargalhadinhas, um outro colega tratava um senhor de idade por “você” (Chelas, estás aí?) e uma emproada, de saia e casaco azuis escuros, collants e sapatos azuis escuros, toda ela num full look enjoativo, permanente recente e um tacão excessivamente sonoro e fininho (quem é que ainda usa salto agulha, ainda por cima meio salto, com esta calçada portuguesa lisboeta?), toda ela cheia de si, e veio dizer um segredinho ao que nos estava a atender e afastou-se com um risinho parvo a estremecer-lhe o fato de fibra. 

(Só a mim não me saem empregos destes.)

Saí empedernida e exangue. Demasiada fibra sintética em tão pouco espaço e tempo.


22/11/2022

Qualquer dia metem-me uma camisa de forças

Foi a segunda consulta com o dentista dos olhos bonitos desde que acabei os tratamentos. Isto, para explicar por que é que fui lá duas vezes no espaço de um mês e meio: havia-me queixado de que um dos dentes de baixo estava a sair do lugar onde os ferros que ele me pôs o tinham colocado e ele disse-me que me ia pôr um bracket. Por acaso, estudei a questão no Google, a ver se percebia como é que se prende um único bracket e não tirei conclusão nenhuma, pois tal possibilidade nem sequer existe. Mas siga.

(Eu sou aquela pessoa que tirou o aparelho semanas antes de começar uma pandemia a nível mundial e se viu obrigada a usar máscara.)

O dentista tinha-me pedido que levasse todos os aparelhos de contenção que tivesse em casa, e eu assim fiz: levei os três que parti (e ele desistiu de me fazer o quarto, ao contrário de cônjuge noutro sector) e o do branqueamento, todos muito aconchegados numa caixa bonita e cor-de-rosa que alguém no hospital se viu obrigado a oferecer-me em tempos, quando estive internada com covid e me deitaram o aparelho para o lixo. Após pé de vento (meu) e buscas intermináveis (delas) no lixo do pequeno-almoço de um piso inteiro, sei lá se misturado com fraldas, lá apareceu o meu aparelho, que eu só sei que era mesmo o meu porque me servia. Entretanto, fora desinfectado, a acreditar no que disse a responsável que mo devolveu. Mas siga.

Ia aqui a vítima de todos os improváveis muito bem a caminhar no passeio, cai-lhe a m. da caixa para o chão, abre-se e espalham-se todos os aparelhos na calçada portuguesa. Que contratempo, andar ali de rabo para o ar a pescar transparências de plástico, uma em cada ponta do passeio. Isto que sirva de exemplo aos donos dos cães: por piedade, apanhem sempre os dejectos dos vossos bichos, porque pode vir uma idosa e deixar cair a placa em cima de um.

Chegada à cadeira do dentista, ele pede a Sónia “Compósito” (que mais não é do que Supercola-3, passe a publicidade) e desata a espalhar cola em cinco dentes de baixo. Dos meus, entenda-se. Nisto, toca o telefone e ele faz o que nunca fez: vai para a sala ao lado atender. (Passarinh@ nov@?) Senti tanta liberdade que resolvi fechar a boca, não ia ficar ali feita boneca insuflável à espera que ele voltasse. Foi o horror: o “compósito” colou-se-me aos dentes de cima, por dentro, e à língua. Além disso, sabe a quê? Supercola, gasolina, benzovac? Sei que, no pânico, clamei por Sónia, só assim a mexer os lábios, que imediatamente me socorreu, qual bombeiro, de aspirador e jacto em punho, e me aspirou, enquanto ejectava água, os dentes e a língua. Quando o dentista regressou à sala, estava eu de língua de fora e Sónia (que, como sabem, tem o desejo inconfesso de me assassinar através da aspiração das minhas amígdalas) de aspirador em punho a aspirar-ma. 

(Acho que, sem querer, criei uma nova dieta. Vou registar a patente.)

Saí de lá com os cinco brackets e pedi elásticos cor-de-rosa: laço rosa, de Outubro rosa.


23/11/2021

Eu, tu, ele, nós

Hoje encontrei-me num desconhecido. Era eu, noutro corpo. Estava parada diante do dispensador de senhas daquela loja parafarmácia, perfumaria, óptica, cosmética, estética, dietética e ortopédica, tudo a um tempo, tentando em vão perceber qual a senha mais indicada para uma pobre mortal que apenas pretende adquirir um lápis para pintar os olhos — e, assim, obter um olhar entre o enigmático e o ó-pá-deixem-me —, e, uma vez que nenhuma das várias possibilidades que a máquina me apresentava se afigurava a correcta (saúde, estética, óptica, outra qualquer tipo banha da cobra e prioritários), ali me pus um bocadinho da minha vida a decidir, quando ele se acercou e perguntou se podia ajudar-me. “Sabe, estou aqui confusa, porque só quero um lápis para os olhos e nenhuma destas senhas serve para a minha necessidade.” Um ondular lateral da cabeça, ombros e anca, “Escolha uma qualquer, isso vai tudo dar ao mesmo” — devia referir-se ao balcão, onde ninguém verifica o papelinho que levamos na mão —, e eu logo a pensar, “Este era eu, se fosse homem”. Acompanhou-me, então, até ao expositor dos lápis, onde, após aturada busca com recurso a uma fotografia que eu levava comigo para facilitar o achado (sou uma pessoa absolutamente incapaz de decorar nomes de frascos, bisnagas e caixas, só não vou à farmácia com os recortezinhos dos medicamentos porque existem telemóveis), encontrámos o almejado. Reparei nessa altura que, em vez de anunciar que se aguenta agarrado ao olho por dezoito horas, este agora diz que são vinte. “Pergunto-me quem é que quer ter os olhos pintados durante vinte horas.”, “Quem só dorme quatro.” Era eu, não tenho dúvidas. O Criador também pode ter fases de crise de criatividade, passe o pleonasmo.


16/11/2021

Bonita, bonita, era que este dom me servisse para alguma coisa

Estou necessitada de um golpe de sorte. A minha estabilidade, o meu equilíbrio e até a minha felicidade dependem, neste momento, de uma resposta que está para me ser dada nos próximos dias. Ando numa pilha de nervos, num credo, num ai Jesus de dar gosto ao diabo. Não fora ser uma senhora e não fazer essas coisas, e já estaria desintegrada em estrume daquele altamente fertilizante, pardonnez-moi o grafismo e a gráfica desta singela e escatológica imagem.

Hah. 

Sempre fiz apostas comigo mesma, desde que me lembro de existir como gente. Sei que não sou a única, o que me conforta, pois, embora isso signifique que não sou nenhuma pérola irrepetível, dá-me também a ilusão de não ser uma bela aberração. Lembro-me, por exemplo, da Dolly do Hello, que pediu um sinal ao falecido para que lhe desse a anuência quanto ao casamento com o Horácio. Percebem o raciocínio?

Assim, estava eu na fila única do hipermercado, e, sem ter olhado para as caixas — isto é fundamental para se entender o contexto —, apostei assim: “Se eu for chamada para a caixa 21, é sinal de que a notícia que aguardo será boa”. [As caixas são para aí trinta e cinco.] Eu gosto do vinte e um por egocentrismo e superstição, nasci num dos doze do ano, e deixem-me. Deu-se então a minha chegada ao primeiro lugar da fila, e, ao olhar para a 21, verifiquei que a operadora ainda estava a receber o pagamento de uma pessoa e havia uma outra à espera de ser atendida, com as compras já no tapete. Arrependida, um pouco zangada comigo mesma, quase furiosa — porque tanto acredito nas minhas perguntas como nas respostas que o cosmos me dá —, ainda pensei em desfazer a aposta, “agora não vale”, à pita da escola, “não vale salvar todos” no jogo das escondidas. (De resto, nunca percebi essa cena de salvar todos, uma batota como outra qualquer.) Estava eu mergulhada nestes pensamentos, prestes a afogar-me neles, quando o altifalante chama: “Caixa número vinte e um”.

(Foi uma alegria tão grande que paguei a despesa de um rim que lá deixo praticamente todos os dias sem um pestanejar de rímel, toda eu risos e simpatias para a funcionária. Não presto para nada.)

Desculpem, mas isto não é altamente científico?