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18/10/2018

Eu tenho problemas com tudo # 36

Comprámos uma cama de duas pessoas há menos de três meses e ontem à noite escavacámo-la toda.

Pois é, isto, contado assim, esguicha logo duas ilações: a cama é material fraco; vocês são dois gandas malucos/gordos/desastrados.
Nada disso. Tivemos o cuidado de ir adquiri-la em qualquer lugar que não fosse na loja do sueco. Demasiada má experiência anterior — la madre de las cosas —, e contra o empirismo não há argumento. Fomos a uma semi-conceituada marca de móveis, tudo muito design, art nouveau, art deco, art por todo o lado, qualidade que se equipare ao preço, pois que não são nada meigos na hora do vamo-ver.
Cama excelente. Mesmo. Linda, azul, não demasiado rococó, que eu sofro de alergias em relação a cabeceiras de camas de casal. Noventa e nove vírgula nove por cento, são só pirosas. 
Ontem tínhamos uma comemoração para fazer, uma coisa íntima. (Soa mal? Era um aniversário cá do lar.) A dado momento, devemos ter coincidido quatro em cima do colchão, mas não houve nenhuma interacção que justificasse o crac do pé da cama e seu consequente desabamento lateral.
(Portanto, esta noite dormi sobre um dicionário da língua portuguesa, o que pode ter pontos positivos na minha alfabetização.) (Posso atestar sobre a rijeza de um dicionário daqueles, coisa muito mais fiável do que uns meros pés de madeira lá da loja do outro.) (Vai-se a ver e está encontrada a solução para os quatro pés da cama, que os outros três deverão ter qualidade análoga.) (Eu sabia que hoje ia escrever algures a palavra "análoga".)
Hoje, aí pelas dez da madrugada, já eu me entrosara pelo estabelecimento adentro, discurso bem treinado, para não dar azo:
- Bom dia. Eu comprei aqui, há três meses, uma cama de casal, e ontem à noite, um dos pés partiu-se.
[Momento em que duas caras se abrem, olhos, bocas, até narizes, em sinal de espanto/desconfiança/choque, e em que sentes que, seja o que for que digas a seguir, vai soar estranho/falso/inútil.]
- E, convenhamos, não houve um impacto, uma sobrecarga, enfim, motivo algum para que, de repente...
Olhem, mais valia ter inventado uma história qualquer, que pareceria mais verdadeira do que a inverosimilhança da verdade.
Só malucos, éramos seis, em cima da cama. Estávamos no entusiasmo de umas festividades cá nossas, e aquilo, lá no meio dos solavancos, esborrachou um pé, e só não caímos todos porque nos agarrámos uns aos outros.

Vamos ver como é que se portam no apoio pós-venda. Só em função disso é que digo o nome da loja da cama, que a mim também ninguém me paga para me calar. 


15/10/2018

Manual de como se ser um mau vendedor em alguns passos

Vou com a finalidade de fazer meu um vestido, que encontro logo num dos primeiros expositores. Existe em vários números — 46 incluído (boa tenda de campismo, não fora a intempérie que se faz sentir no momento presente) —, mas autodetermino-me que o 38 é demasiado grande e largo para a minha silhueta, verifico que o que está na boneca é o 34, e convenhamos (para além do que a boneca é uma boneca, e tem medidas surrealistas, avaliadas por alto em altura de 1,85 metros para, se fosse de carne e osso como as pessoas não bonecas como a pessoa, uns 45 quilos mal pesados), portanto, quero o 36 para me vestir. Ora, é precisamente o que não está à venda. Dirijo-me à única criatura viva que se encontra dentro do grande armazém, temerária de ouvir a resposta só há o que está exposto, mas recebo, ao invés, O sistema diz que ainda há dois 36 em loja. A senhora dirija-se a uma das minhas colegas e pergunte onde é que eles estão. Eu bem me dirigi, mas, como as colegas do rapaz não existiam, rodei o calcanhar e a baiana e ala que se faz tarde, fiquem lá com os vestidos 36 todos para vós, e fazei-lhes bom proveito, que eu cá deixei agora de gostar deles e lembrei-me que tenho um tacho ao lume e passe bem.
~
Vou com a finalidade de fazer de uma amiga um pequeno (porque a minha amizade e o meu coração são enormes, mas o meu porta-moedas até parece que encolhe) frasco de perfume, mas a que me atende esclarece-me que se tratava de uma edição limitada e, portanto, ao atingir o tal limite, já não existe. Sim, eu tenho uma pontaria tal que, se mandasse uma lança, acertaria em África com toda a certeza. Resolvo então correr a loja, em busca de algo parecido, que a faça igualmente feliz. É então que o ser vivo tem a luminosa de, do nada, me bombardear — quase literalmente — com um produto novo, uma maravilha de perfume para a casa, que se liga a uma aplicação no telemóvel, e também ao wi-fi de casa, que eu posso controlar remotamente, ligar quando estiver a chegar a casa, desligar a partir do Samouco, em lá estando (claro que isto é exemplo meu), toda uma festa aromática de controlo remoto, em que sou eu que mando nos momentos em que a casa cheira bem ou não. À concreta pergunta, Quanto é que isso custa?, vai ela e diz assim: Neste momento, em preço promocional, são 129 euros. [Eh, pá, eu tenho cara de parva, só pode. Ou de rica.] Foi quando soltei a varina que jaz amordaçada e amarrada nos confins mais recônditos do meu basfond e lhe respondi: Está a gozar, ou quê? Então eu entro aqui para comprar um perfume para uma amiga e você desata a tentar impingir-me um perfume para a minha casa que custa cento e trinta euros? (Arredondei, eu sei. Mas a situação exigia-o.) Lá tive que rodar tudo outra vez, calcanhares, baiana, pescoço, foi tudo, e ala, inshallah não me aborreçam mais com peditórios destes.

Porta-moedas - 2; Vendedores não empenhados - 0.

23/09/2018

Chafé = chá de café*

Deu-se que fui tirar um mísero café, a troco de cinquenta cêntimos sem troco, da máquina dispensadora, mas, ao invés disso, ela dispensou-me um copo de água quente um bocado suja, tipo um chafé chalado, e eu queria mesmo era uma bica daquela bica.
Então, rarefeita, contrafeita e quase desfeita, dirigi-me a penas apenas ao balcão, copo de mijaroca na mão, já com a resposta que ia receber preparada: "Nós não somos responsáveis pela máquina".
- Nós não somos responsáveis pela máquina. — Disse-me ela assim para mim. 
Foi quando comecei a argumentar que não podia ficar sem café (não podia, efectivamente) e sem dinheiro. Evitei aquele outro chavão, não é pelo dinheiro, é pelo princípio (porque, na verdade, também era pelo dinheiro, porque eu não sou só pelintra, sou também sovina), e tratei os meus cinquenta cêntimos como se fossem cinquenta euros, a ver se dava a entender à pessoa que a grande questão se prendia mais com a necessidade de injectar o líquido no sistema sanguíneo do que pela pobreza franciscana em que me ia deixar tamanha perda. Ela sossegou-me, garantiu-me que o técnico ia lá todos os dias e que, no dia seguinte, me restituiria a moeda. 
(Lá fui pular sem cafeína, e depois admiro-me que não rendo o que gostaria no ginásio.)
Não fui no dia seguinte, mas para aí dois dias depois. Directa ao tal balcão, quis saber da minha moeda. Diz-me ela que ainda não era possível dar-ma de volta, que eu aguardasse mais uns dias, e foi aí que só não perdi a cabeça porque as vértebras não o permitiram. No entanto, apesar da revolta interior que ameaçava libertar a besta que também me habita, questionei, quase em falsete:
- Então quando é que isso é possível? O técnico não vem todos os dias? Era só tirar a moeda da máquina e restituir as indevidas. Ou não?
- Não, porque a situação é reportada e ainda vai à central. De lá é que dão o ok para as restituições. 

(Senti-me morrer um nico, como everytime we say goodbye.)


* não fui eu que inventei, créditos para um grupo com quem trabalhei, num local onde era recorrente fazermos chafé. (Acho que por engano.)

21/09/2018

Foi tão blogger da minha parte # 9

Por mais anos que me passem sobre o lombo, nunca vou aceitar a lei das prioridades na sua plenitude de cada vez que sou confrontada com as ciganas [ai, Jesus, que coisa tão racista de se afirmar no blog!] [Olhem, não, quanto muito, etnista] e as gajas da Musgueira/ outro bairro assim desses [vá, agora elitista, ou estilista, ou lá o que é], que já vão para as repartições munidas de criança ruidosa, nem sempre de colo, nem sempre com menos de três anos, elas de auriculares na tola, telemóvel de última geração, o que quer que isso seja, chicla na boca, zero pachorra para a criança, e isto não é uma generalização, foi coisa que estes que o forno há-de cremar viu ainda hoje. Ainda apanhas, cumótro dia, disse uma para o petiz, de modo audível para o resto do povo, ou porque o volume da música (?) não lhe permitia sequer ouvir o que dizia. A sério que me pergunto o que é que estas pessoas vão fazer manhãs inteiras para as Finanças, a não ser fazer-me desacreditar na Humanidade.
Ao cabo de uma pequena tormenta de meia-hora de guinchos de uns e chinfineira de ameaças de outras (crime público, bitches!), fui atendida por um senhor que me tratou por Linda. (Queres ver que este sabe do blog? Estive para lhe sugerir uma parceria e tudo: ele limpava-me os impostos e eu dizia bem das Finanças dia sim dia não.)

19/09/2018

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 5

Vá, que eu preciso de desabafar. Vão lá buscar os mochinhos, rodeiem-me e escutem-me, ou deixem-me.
Saí de casa com meia-hora de antecedência relativamente à hora de começo da aula de dança, para percorrer um percurso que não são mais do que dez minutos, mesmo tendo em conta os semáforos, as passadeiras, os xoninhas e etecetera. Subestimei a hora de ponta de Lisboa, subestimei que há uma casta de super-xoninhas que deixa o carro ir abaixo quando abre o verde, subestimei o quão difícil é encontrar lugar para parquear Rosinha, subestimei que preciso de cinco minutos só para me equipar, e até à paisana fui: um vestido que já deve ter sido mais largo, porque dantes me servia e agora está justo quase até ao sufoco, e uma sandalete de salto alto, que eu também não faço por menos. 
Digamos que, quando passei à porta do ginásio, faltavam quinze minutos para a aula, e de lugar para estacionar, nem sombra. Nem ao sol, na verdade. Afastei-me, assim, cerca de duzentos metros, e estacionei num parque daqueles que não só estão munidos de coluna de pagamento da EMEL, como também possuem um chão aos favos de mel em cimento, que consegue ser, simultaneamente, uma m. para os pneus e outra para os pés. Aconteceu, é claro, que a coluna de pagamento do parque ficava a, pelo menos, dez metros de onde eu me encontrava, mas o remédio era só um, como nas Finanças: pagar e não bufar. Perdi, portanto, a conta ao número de vezes que torci os pés nos favos de mel, até alcançar o pagamento do parque, e depois repeti a proeza no regresso, para pôr o raio do selo no carro. Palavra que equacionei usar a aplicação, ou então arriscar a multa, que me ficaria seguramente mais barata do que se tivesse fracturado um osso, que não fracturei. Neste meio tempo, já só faltavam dez minutos para a aula, eu estava a duzentos metros de salto alto da porta do ginásio, e o vestido, encharcado pelos meus nervos, havia-se-me colado à derme de tal modo que ponderei seriamente levá-lo para a aula, calçando apenas os ténis. Apressei o passo e cheguei quatro minutos antes do início da aula. O arrancar do vestido de mim foi algo doloroso, já que exigiu um momento em que, em asfixia, e em claustrofobia, tive que me contorcer toda lá dentro, arriscando a luxação dos dois ombros e dos dois cotovelos, para além da cervical e de todas as vértebras. Fui acabar de me vestir dentro da aula, já que foi lá que me calcei. (E sim, atravessei o ginásio a correr, descalça, como a outra.) (Não tem importância, eles estão habituados.)
É óbvio que não dancei nada de jeito. 


01/09/2018

Barreira linguística # 3

Estou na loja dos cafés que se autodenomina boutique, numa daquelas esperas que hão-de contar como tempos mortos (oh, ironia) para me darem créditos de santidade aquando do juízo final, quando entra a família típica e claramente portuguesa, falando uns tons acima do necessário para se ouvirem uns aos outros — a menos que todos sofressem de surdez —, em Francês,
(há um denominador comum, ou não há? Pai, mãe, três filhos, todos hipernutridos, cabelos escuros, chinelos, calções, varizes, queijo de Nisa nos calcanhares, óculos de sol na cabeça, t-shirts do Ronaldo 100% fibra, e por aí afora)
obrigando o funcionário — que claramente não pescava uma palavra de Francês — a falar com eles em Inglês, um Inglês de escola, minimamente capaz de vender cafés.
E eram uns a falar um Inglês de improviso, contra outro a responder no tal Inglês — que há-de ter sido condição aquando da admissão ao balcão —, todos construindo a custo uma pequena e ainda mais inútil Torre de Babel, qual muro, quando podiam permanecer pacificamente na base, falando a língua comum (em) que todos (se) entenderiam. 
(São estes os mesmos que carregam a mala de bacalhau e vertem uma gota de cada vez que lhes soa o faduncho ao tímpano, pois são?)


11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


29/07/2018

Nunca voltes a uma praia onde já armaste, pelo menos, três barrracas

Logo à chegada, a da recepção do hotel diz-nos de chofre que não aceita, como documento identificativo, a carta de condução de uma das minhas crianças. Já estou a rodar a baiana e os olhos, explicando-lhe que qualquer documento que contenha a fotografia e o nome completo de um cidadão, serve como comprovativo da sua existência, só que ela arruma-me com o argumento de que são ordens do SEF, e é então que me apercebo de que não estamos a falar a mesma língua e ou ela julga que está a entabular conversação com um jerico. Ou um jumento. (Existe uma vaga possibilidade de aqui a humana dar ares de estrangeira. Marrocos, Tânger, por aí.)
Depois vamos jantar a um local óptimo, quanto mais não seja porque é consensual: uma pizaria. O espaço tem cinquenta por cento das mesas ocupadas, mas já não tem menus para todas as mesas, logo, logicamente, é-nos pedido que aguardemos por uma mísera lista, para os cinco que estamos à mesa. Aguardamos, assim como aguardamos uns pelos outros, assim como aguardamos que nos venham registar os pedidos, assim como aguardamos pela comida propriamente dita. Apercebo-me então que a mesa ao lado, composta por três pessoas que chegaram depois de nós, está servida, já todos mastigam, só lhes falta mesmo o arroto-mestre. Chamo um dos que cirandam pela sala, afirmo apenas que quero perceber a lógica deles, e, num passe de mágica que ainda leva mais cinco minutos a operar, põem-me o repasto debaixo do nariz.
Dois dias depois, chega o meu rapaz, necessário fazer novo check-in, vai a mesma alimária do cartão de cidadão e diz que ele não pode entrar no hotel porque ainda é menor. Parece que se trata de um “adults only”, conceito muito hilariante se aplicado a um rapaz com dezassete anos e onze meses, se nos abstrairmos do facto de a estadia estar paga desde o primeiro dia (metade em Fevereiro, ainda ele era muito menor!), e de as datas de nascimento dos hóspedes nunca serem questionadas até àquele momento. [Vá que não me falou no SEF outra vez, quiçá por já conhecer as (minhas) ventas da total rejeição.] Respondi-lhe apenas que muito bem, que se ele não entrava, então saíamos todos, e devolviam-nos o valor da estadia desde o início. E foi assim que aceitaram a entrada da minha criança num hotel para adultos only. A esta senhora atribuí secretamente a mais alta categoria, com louvor e distinção, só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.
Mas ele há coisas boas, no meio disto tudo: a praia é excelente e o vento suporta-se. E também soube da existência de um restaurante vegetariano que pretendo visitar, nas redondezas, e que responde pelo nome de “Vegetarianus”, valha-lhe o abençoado (em casos como este) Acordo Ortográfico, que era o circunflexo não ter caído e tínhamos ali um bonito serviço, não sei se literalmente.
(Vá, tudo a googlar onde é que eu me encontro a banhos. Pessoas, eu sou uma agulha num palheiro. Uma gota no oceano.)

29/03/2018

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 4

Ai-fostes veio parar-me às mãos guarnecido com uma aplicação assaz atractiva, quanto mais não seja por ter, no seu ícone, un petit coeur. Responde ela pelo nome de "saúde" e é a que — de entre outras valências que não explorei — nos mede a distância diária que percorremos a pé ou a correr (como se corrêssemos com recurso a outra zona do corpo que não fossem os pés). A mesma aplicação peca, a meu ver, pela incapacidade intrínseca que lhe é inata, de nos contar os passos em situações de não deslocação, ou seja, quando maior é o esforço, que é no ginásio: elíptica, passadeira, jump, body pump, aeróbica, etecetera. Pode uma pessoa estar a finar-se de exaustão cardio-gluteal durante uma ou duas horas, que a aplicação do coraçãozinho lhe atribui muito menos passos (na verdade, igual a zero) do que se for bater pernas para o shopping no mesmo espaço de tempo.
[No entanto, existem casos como o meu em que me parece justo que assim seja: a marcha fora do ginásio é cumprida (e comprida) de saltos altos, pelo que até deveria valer o dobro, como aquelas campanhas em África.]
Depreendo, não obstante, que Ai-fostes contabiliza a passada de forma relativamente aleatória. Por exemplos: anteontem, ao longo de um dia inteiro, contou-me 3941 passos para 2,6 km. Ontem, eram ainda umas escassas 16:49 da tarde, já ele me havia contabilizado os mesmíssimos quilómetros, mas com 4447 passos. Ou seja, percorri a mesma distância, dando mais 506 passos (e sim, recorri à calculadora, porque este desgaste pedonal acaba por me afectar o cérebro).





Conclusões:
1. Há dias em que dou passos de gueixa;
2. Há dias em que dou passos de elefante/ gazela;
3. A contabilização é muito mais aleatória do que eu imagino. Tipo o boletim metereológico;
4. É possível enganar a aplicação (que funciona por GPS), bastando, para tanto, que nos desloquemos de um lado para o outro, nem que seja do sofá para o frigorífico, do frigorífico para a despensa e da despensa para o sofá, sempre no enfardanço. Ou então, era a pessoa praticar o ballet e dar uns bons jetés por dia, que aquilo contava dez passos por cada jeté);
5. Nós não estamos sós


07/03/2018

Poetry in motion

Sabes, ou suspeitas, que o fim do mundo poderá estar levemente próximo, quando, em pleno metropolitano de Lisboa, aquela voz off da senhora, que outrora proclamava
Esteja especialmento atento à entrada e à saída do comboio
e, anos volvidos desta saga intraduzível, o corrigiu para especialmente atento,
mas que, actualmente, avisa, no seu melhor Inglês,
Pay special attention when entering or exiting the twain [Mark or Shania, that don´t impress me much?]
no actual momento (que eu tenha dado por isso desde a passada segunda-feira), declama.
Ora, e declama o quê?
O que mais, senão poesia, pois que a declamação só a ela lhe é intrínseca?
Temos o metro da cidade a jorrar Camões e Pessoa aos altifalantes. Aquele susto, quando imaginamos que nos vão anunciar mais uma avaria/ incidente com passageiro/ perturbações na linha (amarela, azul, às riscas).
Quando não ela, um ele.
Ainda hoje, nem de propósito, já dentro do tal comboio, veio A Voz dizer que tínhamos todos que sair uma estação antes, devido a avaria beca-beca-beca. Vá que não estava a chover, e deu para chegar mais ou menos inteira e totalmente seca ao meu destino.
Senhores passageiros, e lá veio o resto do recado. Ora, eu, que sou fóbica dos aviões, procurei logo o raio da máscara de oxigénio, o colete salva-vidas e o para-quedas. Nem sei como é que não me lembrei de me pôr em posição fetal. Afinal, era só para me dizer que tinha que dar à sola mais um quilómetro nesta vida, mal sabe ele que de salto alto. A ver se me bufou aos ouvidos Alma minha gentil, naquele momento. É o bufas.


23/02/2018

Mondo cane

Estava eu muito descansada da minha vida na farmácia, dando graças aos céus que não estava de serviço o senhor dos bigodes que me diz que fique mais um pouco cada vez que lá vou — e eu tenho medo; continuo a achar que as pessoas crescidas são demasiado esquisitas, brlá-brlá-brlá —, mas lamentando não estar igualmente aquela senhora simpática que me conhece pelo nome, que me avia num instantinho enquanto me pergunta tudo e mais alguma coisa sobre a minha vida, e o desafio é pagar antes que ela chegue à quinta pergunta, ou ganhe intimidades maiores do que as de me vender cenas para a tensão arterial — hey, dude, I didn't ask for a psychiatrist! — e entra um cão. O cão era loiro, pêlo médio, porte médio. E depois entrou uma mulher que, coincidentemente (?), era loira, cabelo curto, à cão, porte médio. Eu até achei giro o facto de parecerem parentes, o que não constitui novidade nenhuma, bastando, para se confirmar esta teoria, consultar a nettinha. Desconheço se se trata de uma causa — uns já escolhem os outros por semelhança — ou consequência — a convivência no mesmo espaço, ao fim de uns tempos, parece que provoca isso. (Deve ser por esse motivo que cá no lar somos todos iguais. Só que não.)
Ora, o cão vinha sem trela. Percorreu todas as estantes e todos os recantos da farmácia, mas nem piou (o que seria verdadeiramente extraordinário), nem bufou (que eu desse pelo facto). 
Quando ambos saíram (porque também existe uma lei de Murphy qualquer que diz que eu até posso ter chegado primeiro, mas que me vai calhar na sorte magana a funcionária mais lesa), entendi questionar assim:
- Os cães já podem entrar nas farmácias? — Isto, porque tenho fases do dia em que gosto de fazer perguntas retóricas/ básicas/ ignorantes, e aquela era uma delas. 
- ... [Hesitação]
- É que nunca vi...
- Na nossa farmácia, podem. Nós somos amigos dos animais. 
[Pôxa, também eu. E das plantas. E das pedras. Mas não é por isso que entro com um menir às costas farmácia adentro.]
- Ah, está bem. A ASAE aqui não passa.
E vai de girar os saltos porta fora, que o ambiente já estava a ficar um nico sobrecarregado com tanta idiossincrasia. E saí um bocado meditabunda, até me lembrei do pensativo cigarro do Zé Maria E. Q., ora Eça.
Acho que já se disse tudo sobre a coexistência de cães, gatos, lacraus e baratas (por que não, essa agora? Se a minha baratinha quiser ir comigo ao restaurante visitar as amigas, quero ver quem tem peitos para nos contrariar o intento!), por isso não me apetece dizer mais nada, que este coiso também já vai longo e eu tenho que ir almoçar, que já se fazem horas. Levo a minha Cuca comigo, com as suas sete saias de veludo. Fica mesmo bonita. 
E ai de quem. 


21/02/2018

A temática da pipoca

ou

De como ser civilizadamente incivilizado

Em relação à pipoca, mesmo ninguém tendo perguntado qual é a minha sensibilidade, acordei hoje com uma imperiosa e irreprimível ânsia de explicá-la, para que não restem dúvidas. 
A pessoa é, como todo o Humano, condicionável, embora não chegue aos pés às patitas do canito de Pavlov. Derivados que vai ao cinema, ainda está metida na bichona para comprar bilhetes, e já as glândulas lhe gritam "Ó pchhht, ó! Não te esqueças da pipocada!". Tanto que, portanto, quando alcança a caixa de pagamento, já nem se lembra de qual o filme que pretende visionar, nem tão pouco o horário dele, mas sabe que quer um pacotinho, um pacote ou um pacotão das doces ou das salgadas.
(Não existe frase nenhuma na língua portuguesa que fique chique com a palavra "pacote" à mistura, daí que ainda meti ali à pressão o diminutivo e o aumentativo, a ver se disfarçava, mas nem sei se não piorei. Siga.)

O verdadeiro e real problema da coexistência pipocas/ sala de cinema começa desde logo: o próprio pacote (mau) está preparado para fazer de nós equilibristas, cujo desafio é flutuar sobre o soalho, entrar na estreita porta, subir a escadaria do anfiteatro, na penumbra (ou já às escuras, para os mais destemidos), acertar com uma fila de cadeiras cuja letra está (temporariamente?) invisível, passar por dois ou três cidadãos que já se encontravam sentados sem tropeçar em nenhum deles, e sentar-se no lugar certo, que tem o número — onde? onde? — nas costas das cadeiras da fila em frente (!), tudo isto sem deixar cair uma única pipoca. Para os mais arrojados, o nível acima é passar toda esta agrura sem-comer-nenhuma-pipoca-pelo-caminho. Isto, sob pena de, ao deixar cair uma delas, sermos sujeitos ao olhar da total rejeição do povo em geral. E nada de tentar apanhar essa que caiu, pois potenciareis a cascata de metade do pacote (errr) em direcção ao solo, que é o que acontece desde que aquele senhor descobriu que os corpos têm atracção para lá.

Caso estejamos num cinema NOS, e a seguir àquele spot que nos ordena que deixemos a sala limpa — numa altura em que o nosso calçado já contactou com uma cama de milho estalado, profundamente soldado às nossas solas, e que fará as delícias dos insectos quando dali sairmos —, prossegue então a saga da pessoa que se quer civilizada, porém gulosa (e, como já vimos, condicionada), que é a de morfar uma embalagem (agora fui linda) de pipocas inteira sem um único com o mínimo ruído possível. Então, truques: 
1. Esperar pelos momentos em que o som está mais elevado, designadamente o do tal anúncio da NOS, emitido, conforme sabeis, em níveis decibélicos para lá de bélicos. Esse é o momento perfeito para, exactamente, meter pazadas de pipocas boca adentro, todas em simultâneo, prevenindo, assim, todos os momentos posteriores, em que é menos provável que consigamos fazê-lo (assumindo desde já que não estou sozinha neste flagelo);
2. Aproveitar os momentos musicais, de estrondos, de exterior (motas, carros, aviões, comboios, vale tudo, mesmo até tirar olhos) e gritos, para roer ruidosamente mais umas quantas. Atenção aos momentos de choradeira na tela, que ficam muito mal se acompanhados do rrr-rrr-rrr típico do processo ruminante. Já se a choradeira se der na plateia, é fartar, vilanagem, até mesmo porque os homens fazem sempre o favor de se assoarem (ruidozíssimamente) nessas alturas;
3. Tirar proveito dos breves instantes em que o povo tosse, o povo se engasga, o povo gargalha, o povo faz ruídos indistintos. Tudo se aproveita para mais uma pipoquinha na goela;
4. Chupar as pipocas como se fossem rebuçadinhos duros, duros. Não dá jeito? É verdade, mas tem a vantagem de o processo de ingestão de cada uma delas se tornar tão moroso que: a) É uma poupança; b) É uma dieta;
5. Assumir o intervalo como o momento áureo para tirar a barriga de misérias.
Se todos os anteriores falharem, e a fome enegrecer a níveis catastróficos, é sermos criativos, e provocarmos, nós próprios, o momento musical, o estrondo, o grito, o ataque de tosse, a sufocação, a choradeira, o assoar estrepitoso. Nos entrementes, é ruminar mais umas quantas das ditas.

Julgo ser meu dever ainda chamar aqui a atenção para o flagelo que é o som do esgatanhar das unhas no fundo do pacote (ai), que chega a ser mais enfartante do miocárdio do que o mastigar do milhinho em pufes. Digo isto porque ainda me ando a tratar de uma vez em que coincidi ao lado de uma mulher que passou exactamente toda a sessão — eu repito, TODA a sessão — a raspar nos fundilhos lá do pacote (hohoho) dela, coisa para fazer inveja a qualquer gato enfiado na sua própria caixa de areia. Desconheço se a escavação lhe trouxe a descoberta de algum tesouro, mas a mim deixou-me a comprimidos para os meus nervos até hoje. O que fazer, na circunstância de o nosso pacote (tão doce) chegar ao fim e ainda lá termos umas quantas pipocas? Olhem, esperem por chegar a casa, a ver se poupam o resto dos mortais a essa condição, evitando, assim, que faleçam. Geralmente, o que fica para o fim são bolas de milho não estalado, que vos partem os dentes, e é muito bem feita se isso acontecer, caso persistam em esgaravatar nas profundezas da embalagem (☺).

Mais um pormenor, de somais importância: os pacotes (é a última, juro) de pipocas têm uma espécie de fundo falso, que se desmancha se tentardes fazer do paralelepípedo um cilindro. (Sei isto, porque já tentei, e correu extremamente mal.) Não dá para brincar às formas geométricas com aquilo enquanto cheio, sob pena de despejardes todo o conteúdo rumo aos vossos próprios pés. Solução? Andar sempre com uma pá e uma vassoura na mala. Eu, pessoalmente, não ando, mas o pincel do blush também dá.
Estou farta de escrever, desculpem lá a extensão desta prelecção.

15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

30/01/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua # 60

Então, o CRF.
O Rock in Rio não é o RIR? O Cascais Rock Fest passa a CRF, porque eu assim o entendo.
Tudo se processou no salão preto e prata do Casino do Estoril. E, por isso, primeiro drama existencial clássico numa genuína blogger: o que calçar? É que uma pessoa não vai para o PP calçada de qualquer maneira. 
(O que vestir, estava semi-determinado: não repetir o erro que cometi aquando da primeira vez que atravessei as portas daquele salão, em que ia toda vestida de preto. E prata. Juro. Tenho pics, para jamais esquecer. Ia ficando camuflada naquela ambiência, tipo os soldados no mato, mas em bom.)
Equacionei o téni fashionerer, que iria permitir-me dançar e pular sem desarticular os joelhos nem desancar os dedos dos pés, mas temi-me que me barrassem a entrada [porque o "segurança" médio destes locais não distingue um téni Pepe Jeans* de uma sabrina da Primark* (4 euros), nem de um salto agulha com compensação de 5 centímetros da Seaside*, e é capaz de deixar entrar a Sheila Soraia e barrar a porta à pessoa humana, que fica a discutir direitos, liberdades e garantias do cidadão de um Estado de Direito), resolvi-me pelo botim de salto médio, que foi o que ia sendo a minha desgraça. Posso afirmar com alguma segurança e margem de erro igual a quase nada que antes de a primeira banda actuar, já os meus dois pés, espremidos num torno, gritavam "pára, pára, eu chibo tudo!", o que, desde logo, faz considerar a hipótese de que algo vai correr mal, ou sequer correr, assim haja alguma situação de emergência.
Bom, não interessa. Eu sofro de minudências.
Julgo ainda, ou muito me engano, que sou a única pessoa do Planeta que tem vertigens no chão do Casino do Estoril. Aquele reflexo do tecto no ladrilho brilhante, é coisa para me pôr a gemer "Ai, vou cair. Ai, que caio". O truque é olhar para a frente e defecar para a possibilidade de haver por ali um degrau. Ou uma escadaria. Sem patamar de segurança.


Já lá dentro, apercebi-me de que, afinal, o téni (qualquer téni) tinha entrada livre, assim como o xanato, bem como a soca. Na sexta-feira, a plateia era constituída, maioritariamente, por idosos na minha faixa, dois terços de homens para o restante de mulheres. Até onde a vista alcançava, as cabeças eram brancas (ou cinzentas), ombreando com carecas, num grafismo harmonioso bonito de se ver.
Foi, portanto, um festival para os pais das crianças que frequentam os summer fests desta vida. E foi o primeiro, que há-de ser, se alguma lógica ditarem estas coisas, aquele que aprende com os próprios erros, para não os repetir nos seguintes: faltavam assentos. Havia demasiada gente sentada no chão, o que pode significar que, para o ano, se calhar já punham umas cadeiras lá pelo meio. Poltronas. Chaise longues. (A malta — e falo por eles — já não tem 20 anos.)
Não falei da música, pois não? Também não pode ser agora, que isto já vai longo, e eu, para variar, perdi-me no tema. Até mais, dudes.

* NMPPI nem para me calar

02/12/2017

- Olá, Cesário Azul!

- Olá, troca-tintas!

Fui ao ginásio, e depois à bomba, e consegui demorar por lá quase tanto tempo como aquele que durou uma aula flash, que uma pessoa entra, sofre duramente durante minutos e, quando acha que já não aguenta mais, aquilo acaba. 
- Bomba 6, x de gasóleo evologic. 
- Gasolina?
- Não, gasóleo.
Paguei e apostei comigo mesma que a mangueira do gasóleo não ia dar pinga.
Ganhei a aposta e voltei atrás. Não devo ter demorado um minuto entre ter saído do posto de abastecimento e ter ali regressado. 
- Eu disse-lhe gasóleo.
- Gasolina?
Mau. Rosinha tem aquele ar chique, é alimentado a filet mignon, mas parece que não pode ser a gasóleo. 
- Gasóleo.
Felizmente, esta pessoa não é gasolineira. Ter-me-ia enchido o depósito de gasolina. Iria igualmente passar um bocado de seu sábado laboral a aspirá-lo logo de seguida, ou quando Rosinha tivesse um stroke, metros adiante. 
Suponho que é a mesma que escreve os avisos daquele posto.


27/11/2017

Qu'é feito?

Heh, sei lá. Ando outra vez sem vontade de me espremer aqui.
Estive num aniversário, de mais um que perfez meio século e lhe deu para comemorar o (per)feito. Foi muito agradável (ou formidável, como diremos na próxima década), especialmente porque não tive que pagar a minha refeição no final do repasto e também porque ninguém me transmitiu um iban para que eu desse uma achega. Consegui estar uma noite inteira sem cometer gaffes, se não contarmos com a insistência do olhar de um senhor, que me arruinou, ou confirmou a estatística, pois topou-me a tentar resvalar as framboesas do espumante do copo para a boca, sem sucesso; topou-me a retirar as framboesas com os dedos; topou-me a meter na boca uma garfada de bacalhau espiritual a ferver, com consequente choradeira; topou-me a desacertar o chantilly do bolo de anos [enfim, vá lá que não serviram Cornettos] [enfim, vá lá que não me engasguei]; Era ter tirado a mira da minha direcção e já íamos todos felizes para casa. Entretanto, parece que, afinal, Diana não me esqueceu, e voltou à carga, desta vez com mais telefonemas. Passei Ai-fostes à que estava ao meu lado, disse-lhe "Atende tu. Diz que a senhora embaixadora agora não pode, está a fazer cocó", e ela atendeu, no meio do cagaçal, "Residência da senhora embaixadora?". Diana não alinhou, e desapareceu até agora. Talvez não seja bem assim, já que bloqueei o número da dita pita.
Entretanto, fiz puré de castanhas. Não sei se é só comigo, mas este ano já comprei castanhas por três vezes, e está tudo uma porcaria. Por isso, desisti e passei a comprar já descascadas e congeladas. As do Continente* ("Castanhas de Trás-os-Montes") são deliciosas.
Para o puré, devem ter:
- Castanhas;
- Água;
- Sal grosso/flor dele;
- Alecrim/cravinho/tomilho, etecetera. Ou nada;
- Uma varinha mágica que funcione (a minha faleceu antes de completar um ano de idade e depois de moer o puré)/ Um passe-vite que faça justiça ao nome, o que não é o caso do meu, coitado/ Um garfo para desfazer as castanhas no final da cozedura;
- Natas/ leite.
Modo de preparação:
É cozerem as castanhas na água, com o sal e o que houverem escolhido para temperar, e, no fim, moer aquilo tudo e juntar leite, até ter uma consistência que se aproxime da de um puré, e se afaste da de cimento.


* NMPPI

12/11/2017

Quem é que guarda o guarda?

Hoje ia lá nos meus pensamentos, conduzindo Rosinha por esta cidade azul afora, quando, à entrada de uma rotunda, após abertura do sinal verde, ouço uma sirene, paro, e me passa a mota de um senhor PSP do Trânsito, feito parvo a sorrir-se para mim, tipo a achar-se, por me ter feito parar quando eu ia na minha mão, tipo a gozar o prato de ter, basicamente, usado da sinalização de emergência por não estar para ficar parado no semáforo vermelho, como lhe competia, a alargar ainda mais o cu gordo.
Fiquei revoltada. 
Sei perfeitamente que não se deve tomar o todo pela parte, e que o todo é igual à soma das partes, e que, as duas máximas juntas não formam um axioma em si mesmo considerado, tendo em conta que uma é que é, ela sim, um axioma, sendo que a outra é apenas uma regra de convívio social, ou coisa assim. [Não sei por que é que escrevi este parágrafo.]
Mas acontece que ainda há menos de quarenta e oito horas, noite escura das seis da tarde, indo eu, indo eu, a caminho de sei lá eu, sabendo que havia de virar à esquerda ali pela Defensores de Chaves em direcção à República, mas errando cabal ou tangencialmente na transversal para o fazer, eis que me apercebo de estar a praticar a contramão, no momento em que visiono os faróis brancos de uma comunidade automóvel apontados na minha direcção, e, simultaneamente, um sinal de proibido, também a apontar para mim. Nesse mesmo segundo, surgiu-me do céu, caído aos trambolhões, o quê? Nada menos do que um polícia! Hã? Sou ou não sou a maior vacuda do pedaço? Mijinha fora do penico, zás, Senhor Lei logo ali a dar por ela (por mim, no fundo). Conformada com a possibilidade de levar uma multa das boas para casa, deitei-lhe para cima aquele sorriso com mil significados — de entre os quais já-fiz-merda-e-sei-o —, e não é que o agente autoritário se transformou subitamente em polícia sinaleiro [oh, pá, tenho tantas saudades...], se prostrou no centro do cruzamento, mandou parar o trânsito de um lado, depois do outro, só para a menina fazer a manobra e voltar para a sua mão? 
Portanto, cada um faz o que quer. Com prejuízo ou benefício da pessoa humana. 


06/11/2017

A Minha Paixão

Fui ver ‘A Paixão de Van Gogh’. 
É só para saberem.

Não faço link para o trailer, porque recomendo vivamente a quem ainda não viu o filme que faça como eu fiz: não vi nada, fui “às cegas”, e a surpresa foi muito maior e melhor. [Pronto. Agora tudo a googlar ‘a paixao de van gogh trailer’.]
Também vos digo que não vão se:
1. Sois epilépticos (a sério);
2. Não gostais de desenhos animados;
3. O Movimento Impressionista vos impressiona;
4. Não considerais cinema tudo o que saia da comédia romântica norte-americana;
5. Preferis comer pipocas de microondas. (Por acaso, não comi. E tive a sorte de assistir numa sala civilizada.)