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05/11/2025

... vieste tu, feiticeira, inundar-me de vida...

[Gosto tanto desta melodia, que roubei um bocadinho para ficar com este título.]


Sempre tive a sensação de morar aqui neste planeta só por acaso, que bem podia ter ido parar a outro de outra cor, mas o diabo que me carregou perdeu as forças e lá vim eu em espirais muito horizontais e verticais parar ao azul. Ora nem mais, e, por isso, com a certeza de que nada é por acaso, todas as datas a coincidirem com outras datas anteriores e importantes (conheço uma multidão de gente que faz anos no mesmo dia que eu, a começar por dois tios gémeos — um do outro, não de mim — a quem, aos trinta e três anos, brindei com a minha aparição. Foi em Lisboa, calma.)

Existem coisas e acontecimentos na minha vida que já sei de antemão que vão acontecer, não por ter dons de bruxa (tomara eu!), mas porque sei medir a febre às coisas. Se entrar numa sala cheia de gente, sou capaz de perceber que energias é que ali se propagam. Se acabar de conhecer uma pessoa, sei logo quem ela é hoje e quem vai ser no meu futuro, em o tendo. É a linguagem verbal, os olhos, os tiques, os movimentos do corpo. E depois, uma série de factores externos, como a possibilidade, ou não, de a reencontrar. 

Não acredito que acabei de escrever isto. 

Mas existem "coisas" que mais não são do que os sinais que a vida nos dá. Ou sabemos lê-los, ou não. 

Esta noite choveram gatos e cães, como dizem os ingleses. Raios e coriscos, Capitão Haddock. Canivetes ou picaretas, como diz o povo. Chuva e trovões, coisa para lavar de vez a atmosfera. Graças ao nosso bom Deus, todos estes fenómenos se dão de noite, porque, de dia, tínhamos muita histérica aos berros, Acudam, que eu não sei nadar!, ou Deixem-me morrer, salvem o meu miau. Fala-se de três e meia da manhã, eu dei por isso às quatro e quarenta e quatro, não houve força anímica para ir ver o espectáculo de Ano Novo antecipado, nem procurar as gatas, virei a franga e toca a continuar, que a noite já não era uma criança. Por estas e por outras, só acordei às dez da madrugada, e tinha no telemóvel a mensagem de uma das crianças a dar-me conta da chegada de uma encomenda e respectivo pin. Respondi-lhe: "O homem vai apanhar-me no banho". Sou tão rápida a lavar-me, não sei se me esqueço de partes, se sou mesmo muito pequenina com um metro e sessenta e oito, ou se já tenho uma prática tão grande, que aquilo é zupa, zupa, zupa e está feito. Resolvi, então, arriscar. Estou a meio do banho, triiiim, a campainha lá de baixo, que nos dá para aí cinco segundos para responder, caso contrário dá-nos como ausentes. Corri descalça e molhada pelo soalho de carvalho (:P) afora, escorreguei contra duas ou três paredes, mas ainda consegui chegar a tempo. Era a carteira, sou uma tipa cheia de sorte. Se fosse um entregador homem, estaria num pequeno sarilho, pois não tinha tempo para vestir um vestido. Equacionei uma tanga — não literalmente —, voltava a vestir o pijama e metia só a cabeça de fora, dizendo que estava com uma gripe assassina e gemendo o código. Assim, atendi-a de lençol à volta do corpo, dizendo: "Que sorte a sua, apanhou-me mesmo a meio do banho". A seca murmurou "Hum", ainda achei que poderia assustá-la com a história da gripe, ou subia a parada para ébola, mas desisti, dado o meu aspecto de bruxa. Só queria fechar a porta e assim fiz. 

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


30/09/2025

Remada alta

Agora meti-me noutras actividades no ginásio, não porque me tenha fartado de dançar, mas por não ter outro remédio: uma das instrutoras engravidou, outro envelheceu. Ela ainda pulou e saltou até aos quatro meses, depois ganhou juízo. Ele começou a fazer coreografias só com os braços, para isso sento-me numa cadeira em casa, exercito-me assim e não pago nada. Claro que não desisti da dança, mas fiquei confinada a um dia por semana e eu queria mais um bocadinho, se não se importam. A piscina está fora de cogitação, porque, embora tenha o fato-de-banho mais bonito do planeta e uma touca estupendaça especial cabelos compridos, só a parafernália que uma pessoa carrega para essas aulas, já me cansa a beleza. 

Comecei então a fazer Aeróbica, onde, apesar de ser a pior aluna da sala, o instrutor acredita imenso em mim, acha que tenho potencial. Mas eu, ao fim de duas piruetas, já não sei para que lado é oeste, quanto mais onde está o espelho. E ele dá-me coragem e incentivo para continuar, mas acho que, interiormente, está a divertir-se à doida. 

Continuei com o meu Stretching e experimentei algo que dá pelo nome de Dumbbels, que mais não é do que uma tortura macaca que já pratiquei noutro ginásio sob a designação de Body Pump. Aquilo, a pessoa entra já nervosa porque sabe que vai sofrer. O instrutor (já fiz com quatro diferentes) diz que “vamos trabalhar todos os grupos musculares”. Ahahahahaha. Vamos triturar tudo o que não seja osso nem banha e, de caminho, somos voluntariamente sujeitos a todo o tipo de sofrência. Parece a tropa. Alteres, remada alta, agora nove repetições, agora outras nove, agora fica lá em cima, faz flexões em dois-dois, três-um, agacha e fica, insiste oito lá em baixo, agora mais oito, vamos aos lunges, põe um pé à frente e outro atrás e desce até tocar com o joelho no chão, insiste e pára lá em baixo, agora vamos só aos abdominais e está feito, em dois-dois, em cruzado com a perna esticada sem bater no chão. Camelo. Apetece-me assassinar o instrutor daquele dia, mas depois vem uma sensação tão, excuse my potuguese, porra, gosto desta porrada, que volto.


27/11/2023

Valor sentimental

Ora aqui está uma expressão da qual não gosto, mas uso. 

Estou desde sexta-feira a passar tormentas sem boa-esperança, pois perdi a minha pulseira mais querida, e de que dependia quase toda a minha alegria e o meu esplendor estético. Sobretudo, porque me foi dada por uma das minhas crianças, há não sei quantos anos, tantos que são. 

Sei que a perdi entre a manhã e as cinco da tarde da passada sexta-feira. (Não sei se já aqui disse, mas todas as minhas sextas-feiras são 13.) Quando punha o relógio, era impossível não notar a falta da pulseira, que dormia comigo, tomava banho comigo, tomou todos os banhos de mar comigo, só não fez alguns exames e tratamentos incompatíveis com ela. Assim que me apercebi que não a tinha, para além da tontura e vontade de me amandar pela janela, desatei rapidamente a fazer um rewind do dia todo. Fora de casa, supermercado e duas vezes papelaria. Liguei para ambos, nada. Mesmo assim, fiz o caminho até à papelaria pela escuridão das noites antecipadas e voltei na desolação que já me enchia o peito. Procurei nas mangas do casaco, nos bolsos, na roupa toda que tinha vestida, fui ao carro, que tem uma zona que é Nárnia, as coisas caem para lá e nunca mais aparecem, desviei banco do condutor, liguei a lanterna, fui ao porta-bagagens, fui ao fundo do poço (esta é exagero, ainda bem que não tenho um poço, senão já andava a descer as escadas de fato de mergulhador e óculos e tubo e garrafa de oxigénio). Procurei nos lugares mais inóspitos do lar: frigorífico, congelador, gaveta dos talheres, gaveta dos utensílios, área da máquina que diz que cozinha por a gente, bolso do avental, tudo à minúcia, pois tinha estado a cozinhar de manhã e à tarde (na tola esperança de não ter trabalhos ao fim-de-semana), por baixo de todos os armários que não são rentes ao chão (tenho uma gata que é gatuna e esconde tudo por baixo de tudo), dentro da minha cama (desfizi-a, sim. E sei perfeitamente que se diz desfi-la, mas perdi várias capacidades por causa disto), sacudi almofadas, edredon e coberta, às tantas já me sacudia toda e então fui dançar para desenervar. Sábado de manhã estava desvairada a dizer aquela frase estúpida: "A esperança é a última a morrer", quando isso até me lembra uma mulher que eu conheço e se chama Esperança. Tem uns pêlos no nariz que é de não prestar atenção nenhuma ao que ela diz. Depois da dança de sábado, pedi a cônjuge que me deixasse no supermercado (a frota estava em situação precária, um sem bateria, outro emprestado a uma das crianças), pois queria encontrá-la, nem que fosse esmagadinha por pneus, era minha, homéssa! Quem por lá passou no sábado perto da hora do almoço, era ver uma idosa de lanterna em punho, leggings e saia curta de dança, anorak de capuz, a revistar todos os lugares - por baixo dos carros incluído - e zonas adjacentes, com um ar tão suspeito que até um segurança se me acercou, mas não tinha tempo para conversa fiada e fui-me para o supermercado. Corri os corredores todos, varri à mão salsa e coentros e frango e bifes e tofu e seitan e laranjas - aquela rede que as envolve parece feita para pescar pulseiras - e tomate pelado e gelados e queijo mozzarella, num inacreditável desvario, sem carrinho nem cesto, a remexer em artigos (aparentemente) de forma aleatória, devem ter um filme meu lindo de se ver. Fui ao balcão do apoio ao cliente, e sim, precisava de apoio, precisava urgentemente que alguém me desse um ombro, enquanto eu gritava "Ai, minha rica pulseira!", tirei a senha e sequei enquanto um casal de idosos mandava embrulhar quatro brinquedos gigantes e eu lhes rezava pela pele. Chegou a minha vez, foram ver ao dossier e depois a uma caixa, e nada. Voltei para casa a pé, num desconsolo que só eu é que posso avaliar. 

Como tenho cinquenta por cento de possibilidades de a minha pulseira estar em casa, só ainda não levantei móveis, mas de resto, afirmo aqui sem vergonha que me tornei um perdigueiro. De repente, lembro-me de um sítio onde poderá ter caído (gaveta das meias, gaveta da roupa interior, sete gavetões e em todos os roupeiros), e lá vou eu farejar mais um recanto. 

Caso a tenha perdido na rua, estimo que a pessoa que a encontrou a perca também e tropece no tapete da entrada de casa, parta os dentes da frente e ainda lhe dê uma copiosa diarreia, daquelas que não se seguram na rua e é necessário fralda. E lhe dê a sarna. E uma incontrolável camada de piolhos. 

Se fosse eu, entregaria a pulseira nos perdidos e achados? Claro que não. Fazia o que faço sempre: ia lá e deixava o meu telemóvel sem descrever o que tinha encontrado. Só "pulseira", com a advertência de que entregaria a quem me desse a melhor descrição. Então não encontrei já um pc? Não encontrei já uma carteira cheia de documentos (vazia de dinheiro, óbvio)? Não encontrei já uma enorme quantia em dinheiro dentro de um envelope (e também encontrei logo a pessoa que o tinha perdido, que não me viu apanhá-lo do chão, era mesmo a dona, descreveu quanto era e tudo)? Preciso lá agora das coisas alheias? Para isso, ia roubar, não andava cá nesta penúria de trabalhos freelancer (que me matam e esfolam viva por uma merreca), e tempo para textos destes, que têm um interesse equivalente ao da reprodução das ervas daninhas.

É o valor sentimental. A própria criança que ma ofereceu, disse: "Deixa lá isso, é só um item. Já me deste uma ideia para o Natal". Não é só um item, era mais um dos meus pés de laranja lima, filha adorada minha.


 

12/09/2023

O já velho e eterno problema de fazer uma mala condigna

Vamos aceitar sem cerimónias que não sei fazer malas. Desta vez, despejei a gaveta das cuecas para dentro da dita, levei o dobro dos biquínis para os dias que ia ficar, levei apenas uns calções e uns ténis, um vestido para cada dia e umas calças caso chovesse, apenas uma parte de cima de pijama e seis de baixo e zupa com ela. Resultado: voltei com dezenas de cuecas limpas, usei todos os biquínis porque me dava ao luxo de fazer pausa de almoço, passei o tempo a lavar os calções de treino no bidé do quarto pois frequentei o ginásio até ao estoiro (dois quilómetros de cada vez na passadeira transformavam-me numa torneira de suor, o que vale é que não cheiro. A retirada de gânglios não tem só coisas más e a outra axila solidariza-se e também não cheira), usei as calças porque choveu mesmo, e tive que improvisar pijamas com t-shirts giríssimas que tenho. 
Este ano fiz férias no sul da nossa Espanha, escapando airosamente ao sul daquele Portugal seboso e chineleiro, que adora fazer filas para tudo, até para o pão que o diabo amassou. Do lado de lá, sessenta por cento dos hóspedes eram portugueses, o que também não é só vantagens. Queres perceber onde está um português, nem que seja na China? É o homenzinho que tropeça. É o que desconhece em absoluto a noção de espaço vital e fala alto e escuta tudo o que dizes. É o que come três pães ao pequeno-almoço, ou então ovos mexidos com um estrelado (saw it) e fatias de pão com bacon. Eu comi todos os dias um Donut, ora pequenino, ora grande, ora médio. Bem feita que me venha parar tudo ao donut pneu. 
No geral, a Península Ibérica é uma fartazana de varizes e celulite, e não é só nas mulheres. Mas as criaturas estão tranquilas com aquilo, quem sou eu para me ralar?
No geral, apreciei assaz as férias. Fiz muita praia, num mar que até permitia nadar, muita piscina, apanhei muito sol e a minha pele não berrou que só tem um ano de radioterapia, o meu cabelo não ficou com aquela cor de cocker spaniel (muito protector, muito chapéu), dormi e comi em excesso mas não pus um grama (devo ser muito criteriosa ou tenho uma balança burra), não bebi senão água e cerveja sem álcool. É por estas e por outras que julgo que um dia me canonizam, nem que seja à força.
No regresso, porque perdemos uma hora para fazer dez quilómetros derivados a um acidente (um carro foi parar ao talude, desconheço como é que se faz semelhante manobra) e tínhamos, ao todo, para almoço, quatro barrinhas de cenoura, dois Actimel* (ou Actimeis, como diz o povo), um pacote de batatas fritas com sabor a ketchup e um chocolate branco, para além de um pequeno saco de ração para gatinhos, porque nos tomámos de amores por uma gata com uns dois meses, que baptizei de Mira. Repartimos aquilo tudo, prescindindo da ração, mais porque ficámos empanturramos com a mistura anterior, e foi o nosso almoço, já não havia cá tempo para paragens. Não percebo como é que o meu aparelho digestivo não me manda à merda. 

* NMPPI

25/05/2023

Os meus tops tiveram um bebé!

Não sei se se lembram de, há uns anos muito largos e compridos, os meus sutiãs terem tido um bebé. Sei que não se lembram, ingratos. Mas eu lembro-me, não só pelo milagre da multiplicação que isso significou, como também por nunca ter conseguido explicar-me semelhante fenómeno. 

Pois, repetiu-se. 

Isto é “muito eu”: quando compro básicos, até posso comprar também verde ou vermelho, mas o preto e o branco é certinho que me acompanham até ao lar. (Posso ter sido zebra noutra encarnação.) Vai daí, há uns anos — não sei agora quantos, e fazer contas parece-me que não quero —, comprei dois tops, um branco e um preto, tamanho M. Uma das crianças passava os dias e as horas a pedir-mos emprestados, pelo que lá fui à loja no intuito de carregar com mais dois, desta feita tamanho S. Recentemente, tipo ontem, apercebi-me de que tinha os dois tops brancos na minha gaveta, pensei “Ah, ela fala tanto…”, procurei a etiqueta para entregar à petiz o dela e… eram os dois M. Fui encontrar o S dela na corda, portanto não me enganei quando lhos adquiri.

Quero explicar isto e não encontro meio. Nunca consegui fazê-lo em relação aos sutiãs. 

A ver se tal magia se dá com os biquínis, é o dás! Pago-os todos a sangrar, a suar e a lacrimejar…


16/11/2022

Dia de sorte

Bati todos os meus recordes de frequência de locais públicos temidos (como aquela ministra) numa só manhã: dois centros de saúde e uma repartição de Finanças em menos de duas horas. 

Tudo começou nos anais, há meses, quando uma senhora enfermeira me avisou de que era conveniente pedir um atestado com vista à isenção de pagamento de taxas moderadoras. Já possuía um papel desse género, ainda argumentei que já fui dador de sangue, mas que não, que qualquer dia teria que pagar os tratamentos e essa ameaça pôs-me nas tamanquinhas e pés a caminho para o centro de saúde da área da minha residência, que era não me lembrar onde fica e juraria que era em Santiago do Chile, a avaliar pelas instalações do barraco que se arroga como tal. Lá me esclareceram que não era ali, que era acolari, mas que mandasse um mail para lá, que agilisava assim o procedimento. A bem mandada do costume assim fez, e vai que recebe uma resposta a solicitar uma data de papelada a comprovar que eu sou eu e que a doença é minha. Aparentemente, existem humanos que, para não pagarem cinco tostões por uma consulta e para estarem eternamente “de baixa”, forjam doenças. Reencarnem-me numa macaca, dá licença? Enfim, depois de ter enviado tudo o que me pediam, recebi como resposta que teria que comparecer a uma junta médica, a ser marcada a seu (deles) tempo.

Passaram-se largos meses, recebi a marcação e ontem compareci. Fui extraordinariamente pontual, e, talvez por isso, fui chamada cerca de quatro minutos depois de ter entrado. Tive a nítida sensação de que tinha entrado num tribunal com um colectivo de juizes, só que vestidos de branco: três médicas idosas, todas de óculos, todas de sobrolho levantado, até que me sentei na cadeira do réu/ arguido/ testemunha e todas desanuviaram os semblantes em simultâneo assim que eu disse “bom dia” e sorri. Perguntaram se levava relatórios e eu saco do meu dossier A4 com lombada alta e digo que sim, “Está aqui tudo, por ordem cronológica”. As três em uníssono e sincronia gestual, “Deixe estar, não é preciso, traga-os daqui a cinco anos quando fizer a reavaliação”. 

Foram menos minutos de junta do que de espera. Dali saí com um atestado de incapacidade para aturar fretes e duas cópias: uma para o centro de saúde de Santiago do Chile e outra para a respectiva repartição de Finanças. No tal barracão demorei talvez meia hora, pois tinha vinte pessoas antes de mim, mas as duas dos guichês aviavam à velocidade de um pum. Só tive tempo de entabular conversações com uma senhora que me disse que nasceu em 1940 e que lhe doía muito um ombro. Tive vontade de lhe dizer: “Peça uma mamografia à médica para anteontem”, mas refreei a PDM de ser mãe do Mundo ou paranóica de serviço, que, conforme se sabe, equivalem ao mesmo. E pronto, fui para as Finanças, a calcular quantas famílias da etnia lá estariam dentro e se não seria melhor ir noutro dia. Devia ser o meu dia de sorte, pois fui atendida como se fosse a rainha de Inglaterra (enquanto viva) e mimada até à moleza (“A senhora nunca se ponha na fila quando aqui vier, a senhora é prioritária”), até pensei que estavam a confundir-me com a Gisele Bündchen.

Senti-me com sorte, como naquelas pesquisas online, passei numa papelaria, ia jogar no Euromilhões, já tinha as moedas na mão, mas depois vi que havia cromos do Mundial e torrei-as todas, porque tenho mais necessidade de fazer uma pessoa feliz do que de ganhar a fortuna que, provavelmente, arruinaria o resto da minha vida.


20/08/2022

Travão de mão, travão de pé, travão de dedo

A frota do lar, se contabilizadas todas as viaturas de que já fomos alegres proprietários, tem variado alguma coisa em termos de tamanho, em função do número de elementos que compõem la famiglia. Quando começámos, éramos dois e um Y10, que ainda aguentou uma petiza — embora muito mal, já que a cadeirinha não cumpria o efeito de concha em caso de embate ou travagem brusca, tão curta era a distância entre os bancos da frente e os de trás (parecia um avião, sim. Ou o Coliseu dos Recreios) —, mas já não aguentou duas, e, assim, fomos indo ao mercado automóvel de cada vez que esta barriga se enchia de vida. No último, ricos em sonhos filhos e pobres em ouro, tivemos que enveredar pela via da segunda mão no volante, que é como quem diz, dos usados. E, assim, tivemos a primeira de três monovolumes de sete lugares (o sétimo era conhecido por “o lugar da sogra”, que ficava à porta e era, idealmente, para ser usado sem cinto de segurança em percursos com curvas muito apertadas. Calma, não estava destinado à minha mãe). A última que tivemos, aqui designada por “o camião”, resolveu falecer o ano passado, assim do nada, a meio do nada, ou seja, de uma autoestrada. 

Sejamos francos: já nunca andamos os seis no mesmo carro em simultâneo, pelo que o arranjo do camião — que ficava mais dispendioso do que o valor de mercado dele — era mais um capricho (bastante meu) do que uma necessidade. E, assim, entrou para o parque automóvel desta barraca o primeiro carro com travão de dedo.

Enquanto condutora do camião, não posso dizer que tenha tido grandes dificuldades em utilizar o travão de pé: o carro destravava-se com uma alavanca mais ou menos escondida, como a do combustível, e travava-se com aquele quarto pedal à esquerda, que nos exige um alongamento ao nível da correspondente perna, mas que é um stretching que só faz bem. No entanto, tal sistema não só é perigoso por ser tão fácil destravar o carro — e ele há crianças muito irrequietas e imaginativas —, como também é impossível a qualquer passageiro travar o carro no caso de o condutor (inadvertidamente…) o deixar destravado. Por acaso, nós fomos muito mais neuróticos com os filhos do que os meus pais foram connosco: iam tomar um café à Pastelaria Roma, enquanto nós ficávamos as duas a apitar até endoidecermos um quarteirão inteiro.

A mais recente aquisição automóvel tem, como já disse e nunca é demais repetir, travão de dedo: carrega-se num botão e trava, carrega-se outra vez no botão e destrava. Se a possibilidade de os passageiros poderem travar o carro está resolvida, a de as crianças o destravarem não está. Nem para elas, nem para humanas como eu. Aquilo ora acende uma luz quando trava, ora apaga a luz não sei quando. E é que nunca me lembrei de ir verificar ao painel se aquele P estava aceso. Parava o carro, carregava no botão, dava assim uns abanões para a frente e para trás e era desta forma que achava que sabia se o boi estava manso ou não. Outro dia abanei-me no banco e ele não se moveu. No entanto, deixei-o destravado. Vá que foi num plano sem inclinação. A partir desse dia, nunca mais lhe toquei, não vá ele dar uma de touro mecânico. Tenho minha Rosinha e somos muito felizes a gente as duas.

Conclusão: que prejuízo e que espaço ocupava a velha trave do travão de mão para andarem com invenções destas? Já só falta inventarem o travão de testa, se é que me faço entender. Vou fundar um movimento qualquer, #naoabrimosmaodotravaodepuxarparacimaeparabaixo.



08/11/2021

Leave me breathless

Já aqui me insurgi, não contra, mas a propósito do despropósito que constituem as campanhas daquele hipermercado que responde por um nome começado por Conti e terminado por nente, e que nem foi capaz de adaptar o nome ao estaminé quando se instalou nas nossas ilhas.
Cá vai mais uma, que, como sempre, não passa de um exercício de matemática simples, tipo quarta classe, como se dizia no meu tempo.
Agora são facas. Diz que são de cortar a respiração, o que é credível pelo aspecto dos retratos: as naifas são perfeitas para talhar uma jugular, quiçá uma boa carótida.


Uma delas, por ter o mimoso nome de santoku, há-de estar destinada ao golpe na veia femural. (Pareço uma cirurgiã — ou uma talhante — a falar, mas é que fui estudar.)
(Esta m. está a centrar-me o texto, derivados às imagens, mas defequei. Sei muito bem que, se for à html, posso alterar, mas não vou.)


Mas o que me traz aqui, efectivamente, são aqueles cálculos esdrúxulos a que sinto que tudo isto me compele. Então, imaginemos que eu quero uma faca multiusos, como outro dia me apeteceu: junto vinte selos, sendo que cada um corresponde a vinte paus de compras, logo, a minha faca custa-me quatrocentas mocas, em não me falhando a calculadora (nhé, fiz de cabeça, sou um crânio). E depois, vou à caixa trocar os selos pela faca, e passam-me um recibo de quarenta e quatro e noventa e nove dele — que há-de ser o valor de mercado da coisa —, mas a zeros.


Ou seja, o cutelo custou-me quatrocentos, ou quarenta e quatro e noventa e nove, ou zero? 
Agora que pus isto assim, nestes termos, já não consigo dormir sem uma resposta. Às vezes (raramente!), mais valia estar calada.


20/10/2021

A libertação da máscara

A mim, está a correr-me extremamente mal. Abaixo a via respiratória ao léu, viva o véu! (Quem rima sem querer…)

Estou a transformar-me num homem. É só queixas, chiliques e espasmos. Hoje acordei com febre. O termómetro apontava 37,4º, o que, para mim, significa um grau acima do normal, ou seja, dez décimos. (Ou dez décimas, como diz o pessoal das gramas.) Tenho uma tosse cava e funda, daquelas de cuspir os brônquios nos próximos cinco segundos, algo parecido com dor de cabeça (que, longe vá, é coisa que não sei o que é há anos) e ranho, embora discreto. Claro que o meu primeiro pensamento foi dedicado ao covid, aquele vírus, apesar de os sintomas que tive quando o tive terem sido outros. Tomei antipirético, tomei xarope, e depois fiz o teste, a hiperventilar de medo. A sério, vou arrastar-me outra vez para o hospital? De novo TACs, análises, gasimetrias, o oxigénio, o oxímetro!, mas, sobretudo, e em primeiro lugar, aquele auxiliar com vinte e poucos anos que me dizia que eu podia estar à vontade à frente dele porque estava “farto de ver corpos nus”? Gostei de saber, sobretudo apreciei que o petiz dissesse uma coisa destas a uma mulher com idade para ser mãe dele, vestida com um pijama de cadeia feminina e com cara e cabelo de atropelada por um camião cisterna. E será desta que entro para as estatísticas que rebatem todas as certezas científicas? Socorro, não quero morrer, pelo menos não agora, pelo menos não assim! Ai, Lurdes, Lurdinhas!

Deu negativo, não estou grávido. 



19/10/2021

Gostaria muito de ser diferente, e não esta troca-o-passo que sou

Um bocadinho também troca-tintas, mas isso agora não é para aqui chamado.
Tudo começou porque tinha o cartão de entrada no ginásio no porta-luvas de Rosinha e não me lembrei de o meter no saco quando saí do carro. Estava a uns bons cento e cinquenta metros do recinto, saltos altos, eu toda proa a abanar a popa até lá. Só à porta me apercebi da falta do cartão, pedi à entrada um de empréstimo, lá o jovem foi imediato na prestação, mas também naquilo que entendi como uma praticamente óbvia ameaça, elucidando-me de que iria ficar “penalizada” por não sei quanto tempo, impossibilitada de marcar aulas, atirada para a valeta dos utentes de segunda categoria, só faltou dizer-me que teria que ser praxada na sala de treino, encher flexões com um gorilão suado e tatuado às cavalitas até suspirar os pulmões para um tapete. Eu ai que não gosto de ameaças, sei inclusive que configuram um crime p.p. no Código dos Cães (assim conhecido porque todas as normas começam pela palavra “quem”), olho para o relógio e restam-me uns impossíveis (sobretudo com aquelas tamancas calçadas) doze minutos para chegar ao carro e voltar. Acometida por uma luminária, calço meus ténis (ou sapatilhas, chiu), arranco o vestido mesmo à super-herói, dou graças ao Senhor por já ir equipada por baixo, isto tudo a um tempo, fecho o cacifo com o cartão do ginásio e dou corda aos sapatos, que é como quem diz, saí e voltei como se tivesse tomado aquela bebida do boi encarnado: velocíssima. No regresso, de tal qualidade fora o sprint, ainda me sobravam quatro minutos até a aula começar, que aloquei mentalmente para ir fazer um bom chichi, encher a garrafa de água e ir aquecer os tornozelos e as nalgas para a sala. 
Entreguei o cartão ao balcão, e foi aqui que me forniquei. Não sei o que é que me passou pelo presunto, mas achei, com certeza, que o cacifo ia adivinhar que o meu cartão era o correcto para o abrir, apesar de o ter fechado com um outro. E é claro que não abriu. 
Lá corri de volta à portaria, pedi que me devolvessem o cartão emprestado, mas a azeda que estava de plantão naquele momento mostrou-me onde o tinha posto: numa caixa cheia de cartões, todos iguaizinhos uns aos outros, como filhos da mesma mãe. Entrementes, o meu tempo, forças, paciência e nervos a esvairem-se-me poros afora.
E foi assim que fiz uma aula de dança apertadinha para fazer chichi, porém, e em compensação, sem uma gota de água para beber. 

(Como é que abri o cacifo? Fácil: com as pestanas. No fim da aula, fui ao balcão expor o assunto que ali me levava, e o rapaz que me atendeu deu-me uma chave-mestra. Coisa que a azeda não podia ter feito, está bem de ver. Porquê? Vamos lá todos sentar aqui no chão um bocadinho a meditar nas razões dela.)

04/10/2021

Novas medidas e medições

Matemática, não me falhes agora, também tu!
Fazíamos a nossa dança num lugar marcado no chão, que media três por três, nove quadrados. Eram dezoito lugares na sala.
Com a terceira fase do desconfinamento, reduziram-nos o espaço individual, disse a instrutora, para dois por dois. Eu, por acaso, estou farta de olhar para aquele quadradinho, e sinto que não é maior do que a minha fita métrica da costura: um metro e meio.
De qualquer modo, dois por dois é menos de metade de três por três, e desta aqui é que ninguém me arreda.
De qualquer modo ainda, se antes eram dezoito lugares e agora são trinta e seis, como é que passaram de três para dois metros?
Ainda de qualquer modo, se, efectivamente, os lugares passaram para um metro e meio por um metro e meio, temos agora, nada menos do que uma quarta parte do espaço que tínhamos antes. Qualquer dia, só conseguimos dançar slow, muito agarradinh@s. Nem uma boa lambada.
Talvez deva antes voltar para os bancos da escolinha, ora com licença.


18/08/2021

Sorrir e acenar

Aqui o ser vivo a acercar-se do edifício do ginásio — voltei a dançar, após pausa de quase um mês. Zero entusiasmo, pareço sinto-me sou uma esfregona —, e surge, na direcção oposta, alguém pertencente ao sexo masculino, de calças de fato de treino, t-shirt, chinelos de praia e capacete de protecção. Virou o dito na minha direcção e acenou entusiasticamente. E digamos que devolvi o cumprimento — após olhar à volta e verificar que não se encontrava por ali mais nenhuma alma viva para quem o esbracejar se dirigia —, embora desconhecesse profundamente de quem se tratava.

E isto acontece-me recorrentemente: alguém me acena/ deseja “bom dia” na rua. E retribuo. Tudo isto, porquê?

1. Porque temo que seja alguém que eu conheça e passe por mal educada/ distraída/ chalupa;

2. Porque temo que seja alguém que está a confundir-me com outro alguém, e que esse outro alguém passe por mal educada/ distraída/ chalupa;

3. Porque temo que seja alguém que está convencido de que eu sou uma estrela de cinema e, antes que venha pedir-me um autógrafo, já vou acenando um adeusinho;

4. Porque temo que seja efectivamente alguém que não me conhece, mas que se convença que eu sou convencida, perante a ausência de resposta gestual da minha parte;

5. Porque temo que seja algum serial killer que esteja apenas a efectuar a primeira abordagem pré-homicídio, e que, se eu for simpaticazinha, até me poupe o coiro;

6. Porque temo que seja alguém que vem pedir-me dinheiro emprestado e tenha que responder-lhe um clássico muito meu: “Não posso, também estou a precisar”;

7. Porque temo que seja alguém que vem pedir-me indicações de trânsito, quando eu nem o nome da perpendicular à minha rua sei, e estou no mesmo lar há vinte e oito anos;

8. Porque temo que seja algum tarado que venha oferecer-se para me fornecer três segundos de felicidade pura;

9. Porque temo que seja alguém que pense que eu posso oferecer-lhe três segundos de felicidade pura, a troco de dinheiro;

10. Porque temo que seja um chato que quer vender-me a banha da cobra/ a própria mãe/ o Mosteiro dos Jerónimos/ cogumelos alucinogénicos e eu não tenha como dizer que não porque estou num dia de acéfala.

Por acaso, uma boa parte destes temores todos não são bem verdade. Mas dez itens compõem melhor o ramalhete.

Adeusinho (com aceno).



29/04/2019

Dumbo

(Se acharem que é spoiler, é não lerem # 12)

(Assim se afere a quantidade de assuntos que sinto ter para tratar aqui no buraco ultimamente. Venho dar notícia - nem sequer spoilar - de que vi um filme infantil. Há mais de quatro semanas, ou por aí. Sei que ainda não tinha desmanchado o rabo.)

É que não é spoiler. Não venho cá fazer a sinopse, sob pena de afectar vossas excelsas sinapses. (Gostei de encafuar na mesma frase as palavras sinopse e sinapses, apesar de algo forçado.) (Também gostei de ter conseguido usar a palavra excelsas.) 
Venho cá mesmo só dar esta opinião muito pessoal: o mais extraordinário no Dumbo, não é o facto de ser um elefante que voa, e sim o de ter olhos azuis. Nada que não se tivesse visto já no boneco da Disney, mas que parece absolutamente fantástico quando transposto para um elefante "a sério". Lá voar, ainda vá que não vá, agora, olhos azuis num elefante!?
De resto, o filme é muito bonito. Podeis ir ver, à confiança. E levar crianças, se vos aprouver.

22/04/2019

Fardos de palhinhas

Foi giro, ter recebido, em plena festa regional, uma "palhinha ecológica". O Mundo preocupa-se com o flagelo do plástico, designadamente dos sacos de compras, cotonetes e palhinhas que, não num futuro próximo, mas num presente actual, poluem os oceanos, comprometendo a sobrevivência das espécies - e, convenhamos, a humana por arrastão.
A dita palhinha mais não é do que um tubo feito de uma guloseima com sabor a morango, que, na realidade, não poderá ser usada mais do que uma vez. Gaba-se de não transferir o sabor para a bebida, e imagino o que será beber água por ali: acredito que a água me saberá a água - apesar de inodora, incolor e, principalmente, insípida -, mas a palhinha que a transporta em direcção à minha boca me saberá a morango, ou outro gosto qualquer que lhe tenham injectado na fábrica de doces. Eu, por mim, confesso que comi a minha palhinha sem a ter experimentado numa bebida, por isso esta opinião vale o que vale: zero.
Então, solução para a palhinha reutilizável? 
A madeira ou o bambu não parecem ser. Sendo, como são, materiais naturais, são igualmente mais atreitos a fungos, e ponha o dedo no ar quem quer um fungo ao nível gengival, com todas as consequências que daí possam advir para a dentuça. 
Para quem não possa viver sem palhinha e lhe faça toda a diferença beber sem ela (designadamente as crianças e alguns adultos imaturos ou apenas desconfiados da higiene dos copos), tenho para mim que a solução está no alumínio (material cuja reutilização é infinita, para além de permitir a sua higiene a altas temperaturas), ou no cabo de uma caneta Bic. 
(Um dia, que não estará muito longe daqui, vamos todos parecer o tontinho da aldeia, sendo que o próprio terá um comportamento socialmente irrepreensível, por contraposição.)
Já agora, as palhinhas só se chamam assim porque quando eu era pequenina antigamente, nos primórdios, aquando da sua invenção, eram feitas... de palha! Se regressássemos a esses belos tempos, o problema das palhinhas desapareceria no acto, pois bastaria a cada restaurante/bar possuir um jerico nas traseiras, que ele tomaria conta dos fardos, ao fim do dia. Agora a sério: palhinhas de palha. Não são poluentes, são biodegradáveis, e, ainda que, por absurdo, vão parar aos oceanos, haverá um qualquer peixe-burro que aprecie aquilo. Isto, admitindo que não se desfazem e integram o ecossistema, passando a fazer parte da composição da areia. 
Isto hoje foi de génio.

21/04/2019

Diz que não há duas sem três

E isso é algo que pode gerar controvérsia e preocupação em meu âmago.
No espaço de uma semana, dei uma queda que por pouco não me fracturou o cóccix e tive uma gastroenterite. Sei agora que, pelo menos a primeira, me desalinhou os chakras, pois a pancada foi no primeiro deles e realmente sinto em mim todo o desequilíbrio que isso provocou. Senão, vejamos: ontem besuntei-me com condicionador capilar, julgando estar a fazê-lo com hidratante corporal. Pois, hoje foi a vez de me lavar com champô. Tudo por culpa e conta de embalagens iguais.
Pergunto-me o que pensará toda a minha - eventual, porém - pilosidade corporal que sobreviveu a depilações mais ou menos radicais. No mínimo estará... confusa...?
O que se segue?
Um inadvertido flic-flac à rectaguarda com dupla pirueta e triplo mortal encarpado (com óbvia e expectável aterragem forçada em decúbito dorsal)?
Uma lavagem dentária com supercola 3?


20/04/2019

Não mudes nunca (nem conseguirás)

É o que me digo com frequência amiudada quando me contemplo ao espelho.
Praticamente seis anos após o episódio do óleo de duche que besuntei como óleo pós banho, do qual ainda guardo memória (essa capacidade tão pouco selectiva que só retém tralha, lixo e supérfluos), e a minha pele também haveria de guardar (pois esteve a isto assim - um naco de nico - de fritar ao sol da cidade), hoje foi o dia em que espalhei por toda a cútis condicionador do cabelo (que acho que serve para o condicionar, seja lá o que isso seja, Pavlov explicaria), ao invés de hidratante corporal.
Desta feita, tenho como desculpa que os frascos são iguais e eu, para não variar sequer em ré menor, não li os rótulos. 

Nem tinha porquê, uma vez que, não usando condicionador, desconheço o trajecto que o dito fez até se alojar no meu nécessaire de fim de semana. Um ser humano quer reduzir o volume na mala, atira-se aos frascos que traz dos locais onde se hospeda por vezes, e dá nisto. O que é certo, é que ali apareceu e eu, após cobrir praticamente toda a pele corporal com aquilo, e verificar que estava a ficar toda branca, não estranhei. Há cremes muito esquisitos. Já uma vez comprei um protector solar que era azul. As minhas crianças pareciam strumpfs quando eu terminava a tarefa. Hoje só me questionei quando resolvi passar o mesmo creme na cara e verifiquei a minha assaz semelhança com Pierrette, a chorona.

08/04/2019

Já não bastava o coice que me autoinflingi nos quartos traseiros

Estava aqui a degustar um iogurte simples com açúcar e uma banana - das poucas iguarias que são permitidas a uma pessoa nas minhas circunstâncias -, após ter almoçado um puré de cenouras composto apenas por cenouras e duas colheres de arroz branco composto apenas por arroz branco, quando me pus a pensar nos zezinhos. 
Os zezinhos foram dois bonecos de borracha que a minha irmã e eu tivemos, oferecidos por alguém, talvez a mãe do primo Zeca, e que, isso sim, é certo, por serem muito parecidos com ele, foram ambos baptizados com esse nome, sem maiores buscas por originalidades ou diferenciações. Os nossos zezinhos eram iguaizinhos um ao outro, apenas diferindo nas cores do cabelo - o da minha irmã era loiro, o meu era ruivo - e do debrum do almofadão, um azul, o outro verde. De resto, estavam ambos deitados de lado, com a cabeça pousada no almofadão debruado, um dedo (creio que do pé) na boca (o que muito me aborrecia, pois não conseguia pôr chucha nenhuma ao meu) e a fralda branca a tapar as partes pudendas, mas que, apesar dela e sob ela, se presumia a presença e prova de um sexo masculino. Enfim, nós demos por garantido que os zezinhos eram dois meninos e, se não havíamos perdido tempo a encontrar-lhes nomes que os diferenciassem, menos ainda nos preocupámos com o género dos bonecos. E, já que eram integralmente de borracha, almofada incluída, entendemos por bem fazer deles nossos brinquedos de banho, que, na época, era comunitário, quantas vezes não com a cadela também, já que a alternativa que apresentávamos era a de não nos lavarmos de todo. Ora, os zezinhos tinham um pipo atrás das almofadas, que era por onde entrava água, que depois saía de esguicho. Conforme é sabido comummente, nada mais fantástico para uma criança metida numa banheira do que um boneco que esguiche. É claro que, à força de tanto entrar e sair água dos corpos dos zezinhos, um dia mais tarde encheram-se de bolor e foi-lhes o fim. Acho que se desfizeram, a borracha tem esse grande sentido de oportunidade. 
Assim estou eu há três dias, a esguichar por cima e por baixo tudo o que ingiro, seja água ou outra coisa qualquer mais sólida (mesmo que seja gelo, portanto), e só não apresento uma imagem mais gráfica de todo este cenário porque, parecendo que não, ainda sou uma senhora, e ele há limites. No entanto, um pensamento ilumina-me as horas mais negras: "É desta que fico magra". 
Vá lá a ver se não me encho de bolor e não me desfaço em pó.

31/03/2019

< 40'

Foi o meu resultado de hoje na Corrida Sempre Mulher. Não interessa se faltavam dois segundos, ou dois minutos, ou mesmo dez, a verdade é que o relógio ainda não tinha dado os 40 minutos desde o início da prova. 
É que hoje corri todo o percurso, com excepção de trinta metros na Fontes Pereira de Melo (depois de ter subido a Av. Liberdade inteira) e trinta segundos para beber água, já no regresso. 
Tenho a certeza de que nunca corri tanto, em tão pouco tempo, em toda a minha vida. Nem quando jogava à apanhada ou ao toca-e-foge (na verdade, cansava-me, distraía-me, não me lembro de esgotar muito tempo nem forças só a correr), nem mesmo quando a professora de Educação Física, no liceu, nos punha a correr "o quadrado" (espécie de castigo corporal de avaliação, creio que inventado por ela, a ser aplicado no primeiro dia de aulas de cada ano lectivo), que consistia em dois quilómetros à volta de um dos campos de jogos, mas que eu aldrabei de todas as formas possíveis e inimaginadas.
Mas hoje até me apeteceu ir buscar uma medalha, ou um troféu daqueles que, não sei porquê, só mandam fazer três. Ao menos uma menção honrosa para senhoras de idade que se superam e superam mais umas dezenas de mulheres mais novas, mais magras, mais treinadas, ou tudo isso junto? Nada. Uma barra de cereais - que, obviamente, já marchou - e uma garrafa de água, e vai-te. 
Ilações retiradas desta corrida e a reter:
1. Com todos os defeitos que possa ter (início da prova numa subida, mas, lá está, final numa descida), continuo a preferir este percurso ao da Expo;
2. A avenida da Liberdade nunca mais acaba. É mesmo mais comprida a subir do que a descer, só pode;
3. A avenida Fontes Pereira de Melo nunca mais acaba;
4. A avenida da República nunca mais acaba, mas vá que o percurso da prova a corta ao meio;
5. Atingir o Marquês de Pombal e achar-se que "agora começa a Fontes Pereira de Melo" é uma doce ilusão, pois a rotunda nunca mais acaba;
6. Atingir a rotunda do Saldanha e achar-se que "agora começa a avenida da República", é uma doce ilusão, pois a rotunda nunca mais acaba;
7. Quando se desce a avenida da Liberdade e, ao quarto quilómetro, se vê a meta ao fundo, é uma doce ilusão, pois a meta está longíssimo e a avenida, basicamente, nunca mais acaba, já disse?;
8. Indumentária ideal: a que levei hoje - calças que não caiam pelas pernas abaixo, t-shirt justa (optei pelo tamanho 12 anos, pois, aquando do levantamento do kit - na véspera, ou seja, ontem -, já não havia XS, que eu não vestiria, nem S, e o M permite o baloiçar de tudo à vista de todos, logo, compromete-me a performance, tamanha é a preocupação/vergonha), sutiã de alta sustentação (há uns excelentes no Decathlon*, € 3,50), cuecas tanto faz, qualquer coisa para a cabeça se estiver sol (um bandana serve, eu não aceitei o boné da corrida, porque fazia publicidade a um fiambre e eu tenho uma imagem a defender), o mínimo de pesos possível (já basta o próprio);
9. Não ir para a borga na véspera (tipo ontem, mas era um jantar de aniversário ao qual não podia mesmo faltar);
10. Negociar com a organização o adiamento por uma hora do início da corrida, de cada vez que haja mudança de hora para Verão (se é que esta saga vai mesmo continuar). Menos uma hora de sono, para quem se deitou tarde, é meio caminho andado para que (se) corra mal. And still... Sou a maior, pazinhos, esta vitória sobre mim mesma já ninguém me tira! 

(Agora, para ser e vir a sentir-me uma blogger a sério, acho que já só me falta fazer daqueles micro clipes, que acabam a parecer longas metragens, com todas as ofertas que recebo em casa, integralmente filmados com a mão direita e em que a esquerda tem que abrir caixas e desdobrar roupa sozinha, numa ginástica entre o trágico e o cómico. Já ando a treinar, calma, apesar de, não sei porquê, ainda não ter recebido ofertas nenhumas.)



*NMPPI


25/01/2019

Pensas que já viste tudo na vida e que já podes morrer descansada quanto a bizarrias

quando vês entrar uma senhora no metro com um penso higiénico na testa. Um penso de noite. Com abas. E não, não colocado na horizontal, era na vertical, mesmo. Metade do penso à mostra, a outra metade escondida dentro de uma boina, a segurar aquilo (desconheço se utilizou a parte da cola para aderir à pele da testa), as abas para os lados. Não sei se era maluca, porque ia acompanhada e tinha um ar absolutamente normal. Ou talvez ande apenas adiantada nas datas. Também pode ser simplesmente uma pessoa magoada na testa, que não encontrou melhor absorvente sanguíneo do que um penso enorme. Dos maiores. Não sei como não se lembrou de um daqueles da incontinência.
Efectivamente, tinha diante de mim uma mulher que pensa. E pensa com a cabeça. [Adoro as minhas piadas fáceis.]
É claro que não fotografei, pois ponderei a possibilidade de se tratar de alguém avariado da marmita, e eu ainda tenho algum amor à pele.
Eu sei, se não há pics é porque não aconteceu. Também me ocorreu. Fiquei ali sentadinha no meu lugar, num micro-transe, o coração em pulinhos, a congeminar como é que havia de conseguir o retrato para vós, mas depois lá me acalmei e achei melhor não arriscar a vida por um chouriço mal amanhado. Desculpem, mas prefiro passar por mentirosa. Dói menos.
Agarrem-se à máxima de que se está na net é porque é verdade. 
Mesmo.

LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam37

23/01/2019

Pisca-pisca

Agora inventou-se - ou eu só dei por isso há pouco - uma nova modalidade de diálogo entre condutores. Depois da buzinadela prolongada (vai-te fornicar), dos dois toques de buzina (com significados vários, desde olá a podes passar) (nós, condutores, atuamo-nos, isto é, tratamo-nos por tu), dos gestos manuais vários, para fora da janela e dentro do carro (incluindo aquele de agradecimento com a manita no retrovisor, que eu muito uso), dos máximos intermitentes para avisar os condutores da contra-mão que existe uma operação STOP na estrada (esta exclusivamente portuguesa, somos grandes) (conheci em tempos uma pessoa que fazia máximos sem que houvesse operação STOP nenhuma, de cada vez que achava que os condutores do sentido contrário iam demasiado depressa, e depois divertia-se a vê-los abrandar), e outros dos quais não me lembro ou desconheço, surge agora o sinal de quatro piscas em manifestação de agradecimento ao condutor de trás, nomeadamente quando forneceu passagem numa entrada de via rápida ou autoestrada, por exemplo. 
Eu acho bonito.
Sou constantemente brindada com os piscas do da frente, porque sou extremamente altruísta, e estou sempre a dar passagem a todo o tractor e a toda a trotinete que se me atravessa no caminho. Tenho pena das pessoas. Mas depois fico preocupada, porque há quem se esqueça de desligar os piscas (true-true), e lá vou eu feita stalker a perseguir o agradecido com sinais de luzes e a fazer aquele gesto beca-beca, sabem?

LB's challenge rumo aos 3000 chouriços em 6 anos
#jasofaltam39