Mostrar mensagens com a etiqueta Eu tenho problemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eu tenho problemas. Mostrar todas as mensagens

02/11/2018

Desta minha atracção pelo trash TV

O meu TLC, aquele canal onde desopilo a cabeça, era - e continua a ser, benza-o Deus - já suficientemente "mau" - e, por sê-lo, já era só excelente. Por essa razão, servia-me à medida para o efeito pretendido: espremer a borbulha, o quisto sebáceo do dia-a-dia, esquecer a parte chata de viver, consciencializar que há vidas (muito!) piores do que as nossas, os espectadores daquela coisa. Ora são os gordos que passam de gordíssimos a quase atletas, mas depois têm que recortar as peles que ficam penduradas e passam o cabo das tormentas sem boa esperança para recuperar daquilo tudo, ora são aqueles casais que se meteram num laboratório para se reproduzirem e algo correu mal (ou extremamente bem), e, como coelhos, deram à luz cinco ou seis pessoas, ora são aqueles desgraçados que sofrem de afectações malucas, e depois vem a descobrir-se que o cirurgião se lhes esqueceu de um objecto dentro da barriga, ou foram mordidos por um bicho que só existe nos Samouco, mas que, lá está, ninguém os mandou lá ir, e não ter as vacinas em dia. 
Porém, a SIC estreou algo de verdadeiramente extraordinário, que não me permite a mim parar de ver, assim como acontece quando vemos um furúnculo nojento, que sabemos que nos vai provocar a náusea de cada vez que o olharmos, mas não conseguimos parar de o mirar: o 'Casados à primeira vista'. 
Alguém me explica aqueles casais, um a um? 
Ainda não percebi umas quantas coisas, de entre as quais o que é que aconteceu ao cabelo do Dave; Porquê o match entre um surfista de Cascais, todo spé-thio, e uma Eliane desta vida; As pessoas casam mesmo umas com as outras, ou é tudo a brincar?; Caso negativo, quão desesperado para arranjar quem lhe esfregue os pés, ou lhe aqueça não sei o quê tem que estar um primata para embarcar numa barca daquelas?; Por que é que até os “especialistas” falam Português como se tivessem tirado a 4.ª classe na escola rural à noite? (“Teve dúvidas da pessoa que tem à frente?”. Isto estava escrito num dos cartões distribuídos a um dos casais em “lua-de-mel”); Por que é que todos, sem excepção, proferem frases como “Eles não nos conseguem convencer”, se a acção não está no verbo ‘conseguir’?; Aquilo é tudo a fingir, não é? Depois vão todos para as suas casinhas estar com as suas familinhas, pois é?; Por que é que eu tenho uma estranha sensação de déjà vu, cada vez que olho para todas aquelas caras? Já entraram nalguma novela?; Quem é que está mais maluca, no meio disto tudo? (Eu, queres ver?)

22/10/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 16

Que me dou ao trabalho de consultar o mapa das lojas nos shoppings desta vida, por me considerar incapaz de decorar o lugar de todas as lojas de todas as grandes superfícies, e, ainda assim, me desoriento?


Horrível. O coisinho diz "Você está aqui", e não consigo perceber onde estou (menos ainda quem sou eu, para onde vou, o que faço aqui, etecetera). Olho e reolho, miro e remiro os desenhos das lojas que me envolvem, estudo discreta, porém minuciosamente, a área envolvente (tanto no desenho como na realidade, aparentemente virtual, em que me encontro), e não atino onde exactamente estou eu. Suponhamos, e isto sem quaisquer intenções publicitárias, mas a mero título de exemplo, que vejo a Zara à esquerda na realidade, mas ela está à minha direita no mapa. Já experimentei pôr-me de costas para ele, precisamente para "colocar" a loja mais próxima do lado que acho que é o correcto, mas é que nem assim. Para já, deixei de ver o croquis, e só isso já me baralhou um nico. Logo a seguir, a loja "real" continuou no mesmo lugar, a do desenho também, e eu toda torta, perdendo a lateralidade, o ponto de referência, a direcção e as estribeiras. Já equacionei socorrer-me da aplicação do Google maps, mas tenho um medo que me pelo daquela senhora que começa quase todos os textos por "Seguir para oeste". Ora, como não possuo uma bússola incorporada, não sei para que lado é oeste, e, mesmo que me digam que a loja fica a jusante, só quero chegar à porra da perfumaria, que, eventualmente, estará a montante. Então, acho que só pode ser para trás, embora o boneco diga que é para a frente. Lá sigo o meu destino, que é perder-me, lá constato que me enganei no rumo que tomei, ou alguém fez de propósito para me enganar, lá volto para trás, ou para a frente, tudo depende do ponto de vista/de partida/cardeal, e aquela que procurava encontra-se exactamente no extremo oposto ao que dizia o mapa, ou me dizia a minha cabeça, ou não dizia em lado nenhum. Isto se, entretanto, enquanto eu percorria o corredor todo, não se tiver mudado de armas e bagagens para o outro lado. Ou simplesmente desaparecido, como outro dia com a Partyland. Puf, eclipse total do mapa. E do radar.

18/10/2018

Eu tenho problemas com tudo # 36

Comprámos uma cama de duas pessoas há menos de três meses e ontem à noite escavacámo-la toda.

Pois é, isto, contado assim, esguicha logo duas ilações: a cama é material fraco; vocês são dois gandas malucos/gordos/desastrados.
Nada disso. Tivemos o cuidado de ir adquiri-la em qualquer lugar que não fosse na loja do sueco. Demasiada má experiência anterior — la madre de las cosas —, e contra o empirismo não há argumento. Fomos a uma semi-conceituada marca de móveis, tudo muito design, art nouveau, art deco, art por todo o lado, qualidade que se equipare ao preço, pois que não são nada meigos na hora do vamo-ver.
Cama excelente. Mesmo. Linda, azul, não demasiado rococó, que eu sofro de alergias em relação a cabeceiras de camas de casal. Noventa e nove vírgula nove por cento, são só pirosas. 
Ontem tínhamos uma comemoração para fazer, uma coisa íntima. (Soa mal? Era um aniversário cá do lar.) A dado momento, devemos ter coincidido quatro em cima do colchão, mas não houve nenhuma interacção que justificasse o crac do pé da cama e seu consequente desabamento lateral.
(Portanto, esta noite dormi sobre um dicionário da língua portuguesa, o que pode ter pontos positivos na minha alfabetização.) (Posso atestar sobre a rijeza de um dicionário daqueles, coisa muito mais fiável do que uns meros pés de madeira lá da loja do outro.) (Vai-se a ver e está encontrada a solução para os quatro pés da cama, que os outros três deverão ter qualidade análoga.) (Eu sabia que hoje ia escrever algures a palavra "análoga".)
Hoje, aí pelas dez da madrugada, já eu me entrosara pelo estabelecimento adentro, discurso bem treinado, para não dar azo:
- Bom dia. Eu comprei aqui, há três meses, uma cama de casal, e ontem à noite, um dos pés partiu-se.
[Momento em que duas caras se abrem, olhos, bocas, até narizes, em sinal de espanto/desconfiança/choque, e em que sentes que, seja o que for que digas a seguir, vai soar estranho/falso/inútil.]
- E, convenhamos, não houve um impacto, uma sobrecarga, enfim, motivo algum para que, de repente...
Olhem, mais valia ter inventado uma história qualquer, que pareceria mais verdadeira do que a inverosimilhança da verdade.
Só malucos, éramos seis, em cima da cama. Estávamos no entusiasmo de umas festividades cá nossas, e aquilo, lá no meio dos solavancos, esborrachou um pé, e só não caímos todos porque nos agarrámos uns aos outros.

Vamos ver como é que se portam no apoio pós-venda. Só em função disso é que digo o nome da loja da cama, que a mim também ninguém me paga para me calar. 


15/10/2018

Manual de como se ser um mau vendedor em alguns passos

Vou com a finalidade de fazer meu um vestido, que encontro logo num dos primeiros expositores. Existe em vários números — 46 incluído (boa tenda de campismo, não fora a intempérie que se faz sentir no momento presente) —, mas autodetermino-me que o 38 é demasiado grande e largo para a minha silhueta, verifico que o que está na boneca é o 34, e convenhamos (para além do que a boneca é uma boneca, e tem medidas surrealistas, avaliadas por alto em altura de 1,85 metros para, se fosse de carne e osso como as pessoas não bonecas como a pessoa, uns 45 quilos mal pesados), portanto, quero o 36 para me vestir. Ora, é precisamente o que não está à venda. Dirijo-me à única criatura viva que se encontra dentro do grande armazém, temerária de ouvir a resposta só há o que está exposto, mas recebo, ao invés, O sistema diz que ainda há dois 36 em loja. A senhora dirija-se a uma das minhas colegas e pergunte onde é que eles estão. Eu bem me dirigi, mas, como as colegas do rapaz não existiam, rodei o calcanhar e a baiana e ala que se faz tarde, fiquem lá com os vestidos 36 todos para vós, e fazei-lhes bom proveito, que eu cá deixei agora de gostar deles e lembrei-me que tenho um tacho ao lume e passe bem.
~
Vou com a finalidade de fazer de uma amiga um pequeno (porque a minha amizade e o meu coração são enormes, mas o meu porta-moedas até parece que encolhe) frasco de perfume, mas a que me atende esclarece-me que se tratava de uma edição limitada e, portanto, ao atingir o tal limite, já não existe. Sim, eu tenho uma pontaria tal que, se mandasse uma lança, acertaria em África com toda a certeza. Resolvo então correr a loja, em busca de algo parecido, que a faça igualmente feliz. É então que o ser vivo tem a luminosa de, do nada, me bombardear — quase literalmente — com um produto novo, uma maravilha de perfume para a casa, que se liga a uma aplicação no telemóvel, e também ao wi-fi de casa, que eu posso controlar remotamente, ligar quando estiver a chegar a casa, desligar a partir do Samouco, em lá estando (claro que isto é exemplo meu), toda uma festa aromática de controlo remoto, em que sou eu que mando nos momentos em que a casa cheira bem ou não. À concreta pergunta, Quanto é que isso custa?, vai ela e diz assim: Neste momento, em preço promocional, são 129 euros. [Eh, pá, eu tenho cara de parva, só pode. Ou de rica.] Foi quando soltei a varina que jaz amordaçada e amarrada nos confins mais recônditos do meu basfond e lhe respondi: Está a gozar, ou quê? Então eu entro aqui para comprar um perfume para uma amiga e você desata a tentar impingir-me um perfume para a minha casa que custa cento e trinta euros? (Arredondei, eu sei. Mas a situação exigia-o.) Lá tive que rodar tudo outra vez, calcanhares, baiana, pescoço, foi tudo, e ala, inshallah não me aborreçam mais com peditórios destes.

Porta-moedas - 2; Vendedores não empenhados - 0.

04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

29/09/2018

As máquinas dispensadoras e eu

É sempre o mesmo imbróglio, cada vez que quero tirar um café das máquinas, designadamente por causa da quantidade de açúcar, que pretendo nula: esqueço-me de que devo começar por carregar no botão até desaparecerem as barrinhas todas, isto antes de escolher o que quero, antes de meter a moeda, antes de qualquer coisa. O ideal é já ir com o dedo espetado para o botão do açúcar mal cruzo a porta, senão aquilo entrega-me um xarope de café que, mesmo que não mexa com a palhinha plástica, sabe a rebuçado de açúcar com café e mais nada. Tipo aqueles cubos que se dão aos cavalos.
Mas, desta vez, foi diferente: quis uma barra energética com sabor a chocolate, uma dessas criações demoníacas que nos convencem (tits) que estamos a optar pelo bem, e nos farão magras como cadelas sarnentas e leishmaniosas, que é o que todas — mesmo as mesmo magras — queremos ser. Ninguém se iluda, que eu também já as perdi todas. 
Então, acerquei-me da dispensadora e reparei que a ranhura das moedas estava tapada com fita-cola, embora a das notas não. Ainda assim, escolhi a minha barra, digitei o número que lhe correspondia, e a máquina respondeu-me por escrito que devia inserir € 1,20, em quantia certa. Ora, como não conheço notas de um euro, muito menos de vinte cêntimos, considerei a possibilidade de haver ali qualquer confusão que não seria eu a deslindar, pelo que retirei a fita-cola e inseri uma moeda de um euro por ali adentro. Imediatamente, a máquina engoliu-me a moeda, só faltou ouvi-la mastigá-la e eructar no final. Já nem meti a de vinte cêntimos, não fosse engasgar-se e expectorar todas as que tivesse lá dentro. 
Lá tive que ir ao balcão reclamar do meu desaire, mas, desta vez, ao invés de "Nós não somos responsáveis pela máquina", ela disse-me "Eu sou nova aqui, não percebo nada daquelas máquinas, vou reportar". Portanto, acho que, logo a seguir, mal eu virei costas, inconformada e pobre — e também sem a minha barra —, reportou. 

26/09/2018

Eu tenho problemas com tudo # 35

Não sei muito bem como é que hei-de descrever este fenómeno que me ocorreu, para que não pareça 1. Um romance de Agatha Christie; 2. Que eu tenho demasiados momentinhos louros, apesar de; 3. Que existo na blogobola só para vos aborrecer.
Vamos supor que adquiri na farmácia uma garrafa de água. Sim, haveis lido bem, na farmácia. A assistente afirmou-me, convicta, de que ela fora alvo de um prémio, embora não soubesse se atribuído à garrafa, ou à própria água. Esclareceu-me, ainda, que se tratava de uma água enriquecida com sílica, e eu, que até a julgava um químico venenoso, mesmo assim, trouxe comigo a dita garrafa, pois que a amei desde o primeiro olhar, e ela até podia vir inquinada com estricnina, que eu a queria na mesma. 
NMPPI
(é óbvio que trouxe a blue)

Deu-se então que a enfiei no saco do ginásio, para a transportar comigo até lá. 
Quando a retirei do saco, a tampa era totalmente outra. E estava firmemente enroscada no gargalo da minha garrafa linda e blue. De súbito, provinda do saco, saltou-me a tampa — literalmente — original, aquela que eu me lembrava ser a respectiva. Porém, ninguém havia mexido no meu saco, eu sabia não ter trocado as tampas, não existia qualquer explicação para o facto. 
(Mas também, à mesma pessoa a quem nasceu um sutiã na gaveta da lingerie, tudo pode acontecer. Hoje, anos volvidos sobre o "assunto", a única explicação que encontro como possível, é eu ter, inadvertidamente — e, portanto, sem dolo —, gamado o soutien de alguma companheira de balneário. Ou então, ETs.)
Desenrosquei, então, a tampa que não pertencia à garrafa, e procurei enroscar a que lhe pertencia. Porém, esta última nem rosca tinha, pelo que não aconteceu. 
Bom, andei nisto cerca de dias: a tentar perceber como é que as tampas se trocaram dentro do saco sem a intervenção humana, e a tentar perceber como é que a tampa da garrafa tinha deixado de lhe servir. Até que tomei medidas drásticas e entendi que o melhor era arrancar a argola de plástico que jazia no gargalo, convicta de que era isso que não deixava enroscar a tampa certa na minha garrafa. Munida de faca, estou nas primeiras tentativas de fazer saltar a argola, quando me apercebo de um pingo de cola seca no interior da tampa "certa". Eureka, então existe a tampa que enrosca e a tampa que a forra por fora, que mais não é do que uma cápsula. 
À garrafa, nunca saltou a tampa, nem dentro, nem fora do saco. Já a mim, foi por um nico.

11/09/2018

Nada a declarar

a não ser que dava um braço para ter um camiseiro branco sem mangas que eu cá idealizei, e o outro braço dava-o para ter um vestido preto e outro branco, também sem mangas, que comprei nos idos de 2013, exactamente na mesma loja, com o mesmo feitio e do mesmo número, mas o preto deixou de me servir (encolheu!), e o branco está estafado. 
Colecção Primavera/Verão de 2013, Benetton*, tamanho M, alguém?
Já corri o mundo virtual e o real à procura e não encontro. Apenas me encontro num sumptuoso estado de nervos. É de cortar os pulsos. Pelos ombros. 

* é óbvio que NMPPI, chiça penico.


06/09/2018

Outra vez os excrementos

Esta noite tive pesadelos — o que me acontece com uma frequência assustadora [buuuuu!], embora sofra da felicidade de praticamente nunca me lembrar do que sonho, daí que não viva assustada, e que o meu coração vá aguentando, melhor ou pior —, por isso posso falar sobre o que me apetecer, designadamente acerca de moncos. Ou melhor, a bela história de um monco meu.
(Sonhei que me morria a gata que é doida. A que é mais doida das duas. Morria bebé, esmagada como um pombo que vi ontem no asfalto, parecia que pertencia ao alcatrão. Depois toquei-lhe com as pontas dos dedos no coração e ela insuflou e mexeu-se. Mas eu tinha um passarinho ao colo, embrulhado num lenço de pano para não ter frio, e ele morreu asfixiado.)
(Freud talvez não soubesse, os manuais de interpretação ainda menos, mas eu sei muito bem o que quer dizer cada troço do meu pesadelo.)
Eu sou uma pessoa que nunca se assoa e raramente se constipa. Quando sim, só me constipo de uma narina, sofro de constipações unilaterais, ou assimétricas. Pode ser por isso que fabrico moncos em quantidades subaproveitadas, mais valia montar uma fábrica de isqueiros, que pedra não faltaria.
Ou então, podia montar um atelier de bijutaria alternativa. Colares com três voltas ao pescoço, e cenas.
Ontem, ao deitar, extraí um deles. Já me enroscava no sono, não me apeteceu levantar-me, pousei-o na mesa de cabeceira e a minha cabeça na almofada. (Vá que não troquei.)
Hoje de manhã, a que fala tanto pegou no pequeno rochedo, pousou-o delicadamente na palma da mão e perguntou: "O que é isto?".
E eu, qual criança mentirosa, estremunhada com a recente confusão com os meus bichos mortos, vou de responder: "É uma pedra. Tinha-a no sapato, não quis metê-la na louça do pequeno-almoço porque depois ia para os canos, e então pu-la aí, para me desfazer dela quando fosse para a rua."
Adorei a cara dela, hoje.


05/09/2018

O elefante no meio da sala

Estava eu muito descansada, à-roda-à-roda-à-roda como uma ratazana, girando e rodopiando na aula de dança, quando, derivados ao aparelho e sua consequente maior salivação,
(porquê, não se pode falar sobre cuspo na blogobola? Quer dizer, as outras falam de piolhos, cacos de monco e puns de traque, e eu não posso falar de cuspigongos?)
que, meninos, aumenta exponencialmente quando se coloca o objecto estranho na boca, me salta um perdigoto tamanho xxl para o soalho da sala de bailarico, mas uma coisa gigantesca, daqueles que até fazem um arco no ar, se elevam acima da nossa cabeça, e aterram, estatelados e grandiosos, nem bem aos nossos pés, mas a uma distância suficiente para que, embora não possamos esborrachá-los, eles não nos saiam do campo de visão nem do Mundo, o que nos permite pressupor que todos aqueles que nos rodeiam o vêem, porém fazem a fineza de o ignorar, o que é, convenhamos, muito mais constrangedor do que se, efectivamente, não o avistassem. Um pouco a cena do elefante no meio da sala, que toda a gente vê, mas todos fingem que não. 
A própria coreografia que a humana tentava seguir no momento também não deu uma ajuda, pois não surgiu nenhum passo, por mais que me adiantasse, cruzasse ou saltasse, que calhasse pisar o perdigoto. É certo que poderia ter saído do esquema, saltado a pés juntos em cima da poça, mas sei lá se aquilo não dava em rebentar e lá ia eu pelos ares, cheia de saliva por mim acima. Além disso, tal atitude daria ainda mais nas vistas. Quem é que pula em cima do elefante? Pois. E ele ali, brilhante, exuberante, rechonchudo, só faltava içar um flyer a dizer "Mamã, estou aqui".
É claro que, até se evaporar completamente, se transformou numa pequena lagoa, depois num riacho, logo a seguir num oceano em modo tsunami. Só depois encolheu, e, quando fui para o pisar, com todos os cuidados para não escorregar - a ver se alguém lá meteu um daqueles avisos de piso molhado, é o metes! -, ele já se evaporara para não sei onde, quiçá para a atmosfera, ou para a minha pele, onde terá sido reabsorvido e reentrado no meu sistema linfático-nervoso e de hoje para amanhã se transformará na maior pérola de canto de boca que a História ilustrada da minha rua já viu.


04/09/2018

You can call me Mrs. Murphy

Era uma vez eu, freguesa da Worten, loja que emite todas as facturas/ recibos/ talões/ demais papeis com a designação de "electrodoméstico". Tanto posso lá comprar uma coisa para aparar as patilhas e as suíças, como pode ser um drone, que é tudo electrodoméstico e não se fala mais nisso. Está bem.
Deu-se que, na mesma época, mas seguramente há menos de dois anos, sou pessoa para ter adquirido uma torradeira, uma varinha mágica e um ferro de engomar, tudo ali no espaço de sei lá, mas pouco tempo. É que as coisas avariam muito na minha casa, não há OGE que aguente, quanto mais o doméstico.
Entretanto, a varinha avariou, procurei nas minhas papeladas a prova da compra, para activar a garantia, encontrei os três papeis e levei-os todos à loja, para que me decifrassem qual era do quê. Assim, para que não houvesse mais confusões, escrevi em cada papel a que correspondia o electrodoméstico. Se há coisa da qual me lembro nesta vida, é de ter escrito "torradeira" ao alto daquele que pertencia à dita. E vim feliz para casa, esclarecida, e com mais uma varinha debaixo do braço, qual fada, pois que não aguentava esperar pelo arranjo da outra sem operar as minhas magias.
Atalhando: agora avariou a torradeira. Não é que não torre, que é para isso que uma pessoa lhe paga. Mas a mola não prende o pão lá dentro, portanto, dá-se que é necessário ficar a segurar a alavanca até mais não.
Mas e o papel, hã? Pois, não está em lado nenhum, ou melhor, encontra-se naquele local para onde vão todas as coisas de que precisamos para ontem e hoje não aparecem, por voltas e reviravoltas que dêmos aos inóspitos onde não só poderiam, como também exerceriam um dever em estar, que é o parte incerta.
Passo seguinte: vou à loja com este irresolúvel, com sorte acho um prestável que procura "no sistema" [suspiros e bocejos], e, na loucura, ele até encontra, a torradeira fica lá para ser arranjada, e eu volto feliz para casa, esclarecida, e com mais uma torradeira debaixo do braço, qual padeira, pois que não aguento esperar pelo arranjo da outra sem torrefazer mais uma fornada de pão.

22/08/2018

Et Dieu créa le GPS

Breve História da Humanidade:
Deus criou a mulher, depois achou que ainda era possível complicar mais um nico, e criou os mapas. 
Não satisfeito com o caos sem borboletas, criou o GPS.
(Também breve teoria explicativa de como é possível sair de uma estrada nacional por duas vezes no espaço de cinco quilómetros, optando compulsivamente por caminhos por onde só cabras - monteses! - passam, apenas e tão só porque a bovina do GPS está com o período/ em dia não/ com vontade de se divertir/ é só estúpida/ riscar o que não interessa, ou então tudo.)

16/08/2018

Eu tenho problemas com tudo # 34

Logo eu, que sou este poço de abnegação e dádiva celestial, hoje venho para dizer mal de uma cena consensual. Ou, melhor dizendo, venho desabafar. Também não me sinto lá muito bem na minha pele - literalmente, já vamos ver porquê - em fazer isto, porque, enquanto a coisa correu bem, nunca teci grandes elogios ao produto, e agora que começou a resvalar para o divórcio, eis-me aqui pronta para a guerra de nervos. Mesmo à gaja. Mas acontece que eu sou uma blogger de renome, uma genuína influencer (influenzer, de criar autênticas febres, quase uma pirómana!), e era dizer coisas bonitas de um artigo qualquer e tínhamos a burra nas couves, o povo em revolta, as baionetas reviradas para a pessoa humana, tudo a achar que me vendera por dois tostões a uma marca, e é que não. 
Então, a Rituals do meu coração: há para aí uma década que me besunto diariamente com os cremes da Rituals, primeiro o da embalagem verde (não me peçam nomes, que para isso estou como para os das pessoas: sei o meu, e às vezes nem esse), depois o da cor-de-laranja, qualquer coisa do Buda, o que talvez explique esta pele de pêssego, ou melhor, de nectarina (dado que mandei incinerar os pêlos lá naquela clínica muito conhecida, que recomendo viva e entusiasticamente, mas também NMPPI). 
Demo-nos bem, o Buda e eu, juntos e felizes, até há coisa de dois ou três meses, quando a fábrica que mistura a mistela resolveu, sem me perguntar nada, mudar a fórmula da banha com que me barrava eu, tão alegre e fielmente, a cada vinte e quatro horas, a uma média de trezentas e sessenta e cinco vezes por ano (ou mais uma, nos bissextos), talvez uns quê? Trinta boiões por ano, ora fazei lá as contas, que eu não quero. Aconteceu que não só alteraram o cheiro (ainda mais alaranjado), como também a textura: era a pessoa a espalhar a pasta e a parecer que se ensaboava. Isso mesmo, a ficar branca. E, à medida que insistia no espalhanço, assim mais branca - ensaboada! - ficava. (Hão-de ter acrescentado pó-de-talco à coisa, desconsiderando que, se eu quisesse espalhar pó-de-talco por mim afora, comprava um frasquinho dele e zás.) (E também hão-de ter espremido para lá mais umas quantas laranjas, que, em querendo igualmente, era só ir à mercearia e zás.) 
Fui-me então à loja mais próxima, expus o meu problema com todos os pormenores sórdidos que ele envolve, e fui aconselhada pela funcionária a experimentar o óleo pós duche, "um óleo seco, com uma textura muito agradável, que não deixa a pele secar, mas também não fica engordurada, e mantém o cheirinho todo o dia".


E foi assim que passei a olear-me pós banho, com um óleo oleoso, dificílimo de bombar para a pele - a tampa de spray fica logo escorregadia, e depois quem é que consegue dar a segunda esguichadela? Anda para me cair o frasco aos pés, um frasco... de vidro! -, complicadíssimo de espalhar (faz ilhas!), com a agravante que é amarelado, portanto, fica a ver-se toda a zona que não levou óleo, e a que levou fica... amarela!
Eu tenho ou não tenho razão para dramatizar? Hã? 
Chiu.

11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


29/07/2018

Nunca voltes a uma praia onde já armaste, pelo menos, três barrracas

Logo à chegada, a da recepção do hotel diz-nos de chofre que não aceita, como documento identificativo, a carta de condução de uma das minhas crianças. Já estou a rodar a baiana e os olhos, explicando-lhe que qualquer documento que contenha a fotografia e o nome completo de um cidadão, serve como comprovativo da sua existência, só que ela arruma-me com o argumento de que são ordens do SEF, e é então que me apercebo de que não estamos a falar a mesma língua e ou ela julga que está a entabular conversação com um jerico. Ou um jumento. (Existe uma vaga possibilidade de aqui a humana dar ares de estrangeira. Marrocos, Tânger, por aí.)
Depois vamos jantar a um local óptimo, quanto mais não seja porque é consensual: uma pizaria. O espaço tem cinquenta por cento das mesas ocupadas, mas já não tem menus para todas as mesas, logo, logicamente, é-nos pedido que aguardemos por uma mísera lista, para os cinco que estamos à mesa. Aguardamos, assim como aguardamos uns pelos outros, assim como aguardamos que nos venham registar os pedidos, assim como aguardamos pela comida propriamente dita. Apercebo-me então que a mesa ao lado, composta por três pessoas que chegaram depois de nós, está servida, já todos mastigam, só lhes falta mesmo o arroto-mestre. Chamo um dos que cirandam pela sala, afirmo apenas que quero perceber a lógica deles, e, num passe de mágica que ainda leva mais cinco minutos a operar, põem-me o repasto debaixo do nariz.
Dois dias depois, chega o meu rapaz, necessário fazer novo check-in, vai a mesma alimária do cartão de cidadão e diz que ele não pode entrar no hotel porque ainda é menor. Parece que se trata de um “adults only”, conceito muito hilariante se aplicado a um rapaz com dezassete anos e onze meses, se nos abstrairmos do facto de a estadia estar paga desde o primeiro dia (metade em Fevereiro, ainda ele era muito menor!), e de as datas de nascimento dos hóspedes nunca serem questionadas até àquele momento. [Vá que não me falou no SEF outra vez, quiçá por já conhecer as (minhas) ventas da total rejeição.] Respondi-lhe apenas que muito bem, que se ele não entrava, então saíamos todos, e devolviam-nos o valor da estadia desde o início. E foi assim que aceitaram a entrada da minha criança num hotel para adultos only. A esta senhora atribuí secretamente a mais alta categoria, com louvor e distinção, só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.
Mas ele há coisas boas, no meio disto tudo: a praia é excelente e o vento suporta-se. E também soube da existência de um restaurante vegetariano que pretendo visitar, nas redondezas, e que responde pelo nome de “Vegetarianus”, valha-lhe o abençoado (em casos como este) Acordo Ortográfico, que era o circunflexo não ter caído e tínhamos ali um bonito serviço, não sei se literalmente.
(Vá, tudo a googlar onde é que eu me encontro a banhos. Pessoas, eu sou uma agulha num palheiro. Uma gota no oceano.)

27/07/2018

Nem para assassina dou

Por acaso, outro dia estava um bocado aparvalhada, ainda em arrumações pós-mudança-pós-obras, e quis ocupar o meu tempo, a minha cabeça e as minhas mãos, não necessariamente por esta ordem. Ainda tinha um mega-saco com a maior parte da minha roupa arrecadado na arrecadação, que fica a três pisos abaixo de meu lar, isto tanto de elevador como pelas escadas, conforme dê no ginete a quem desce e depois sobe, ou ao contrário. É certo que poderia ter esperado por ajuda, que a teria minutos ou horas mais tarde, só que me dei à demanda de carregar o sacão sozinha. Contudo, eu explico: diz que um teimoso nunca teima sozinho, porém a pessoa humana leva o ditado muito além do impensável: de onde em onde baixa-lhe a teimosa que a habita a espaços, todavia amiúde (a mesma que lhe dará direito a uma medalha de papelão quando for feita a contabilidade final das boas acções e dos esforços a que poupou os seus demais), e são momentos profundamente solitários aqueles que protagoniza em consequência. Portanto, decidi transportar toda a traparia que continha o dito saco, coisa para caberem duas pessoas adultas, nem sequer enroscadas, lá dentro. 
Lá chegada, apercebi-me de que o monstro pesava um mínimo de cinquenta quilos. Ó pá, se não eram cinquenta, eram, pelo menos, sessenta. Sim, fora o que já tinha em casa, fora sobretudos e sapataria, sei agora que possuo dezenas de quilos de vestimentas. Agarrei o boi pelos cornos, que é como quem diz, segurei-o pelas duas alças, e procurei içá-lo para o carrinho de supermercado que o condomínio possui para estes efeitos, mas é o eras, nem o icei, nem o carrinho ficou quieto à espera, pois que desandava de cada vez que lhe aproximava o colosso, assim como fazem os ímanes de pólos semelhantes. Ainda encostei a viatura a uma parede, daqui não sais e alombas com isto, quer queiras, quer não, mas é que não queria mesmo, e desandou de ladecos nesta que foi a minha última tentativa de soerguer a coisa para cima do coiso. Entretanto, encontrava-me esfalfada e sofrendo de sudação copiosa, mas desisti? Não. Fiz-lhe nova pega de caras e transportei-o até ao hall dos elevadores, que fica a cerca de sei lá, pareceram-me a mim quilómetros, mas talvez uns seis metros. Depois de o pousar no chão, tirei duas breves conclusões: 
1. Não vou conseguir levá-lo ao colinho até ao elevador, e depois de lá até ao meu quarto;
2. Se algum dia matasse alguém e tivesse que me desfazer do corpo, deslargava-o no meio da praça e ia pedir ajuda à polícia, que eu não tenho forças para isto.
E foi assim que o levei de arrasto até junto de meu roupeiro, onde morri.


26/07/2018

Com este tom de tez, ainda assim tenho momentinhos louros muito meus

Exausta de ouvir a pergunta "Tens MB Way?", e de, à negativa, receber em contra-resposta a incredulidade e a estupefacção (só comparáveis à reacção de uma amiga de amigos, quando um dia lhe disse que não tinha carta de condução - porque, efectivamente, na altura, ainda não a tinha arrancado -, e ela praticamente assobiou para o ar, mas quando, logo após, lhe disse que não tinha microondas, a mulher se ia lançando pela janela, tamanho o assombro que lhe provoquei), olhem, instalei essa coisa em Ai-fostes. Pelo menos, nas vezes seguintes em que me questionassem acerca da detenção do tal aplicativo que faz maravilhas e malabarismos bancários através do telefone, não seria vítima do mesmo bullying ao me chamarem infoexcluída, ou, se o quisesse evitar, não teria que omitir a verdade, faltando-lhe ou distorcendo-a, de mais a mais porque não saberia manter a tanga, que, conforme sabeis, é justa e curta, pelo que mais depressa se apanha quem a usa do que a um coxo.
O problema adveio a posteriori, no momento em que finalmente pude responder sem mentir com todos os dentes que tenho na boca - actualmente, e espero que para toda a eternidade, vinte e sete, pois que me foi surripiado um recentemente -, e levei como, se não resposta, pelo menos esclarecimento, o seguinte: "Sabes que podes levantar dinheiro no multibanco através do MB Way?". 


Foi mais a imagem mental, sabem? 
É que visionei mesmo as notinhas a saírem Ai-fostes afora, regurgitadas, paridas, irrompidas.
Foi um breve momentinho louro, já passou, Chiu.

23/07/2018

Santa Ana, cabeleireira # 2

E eis que é chegada a hora em que Santa Ana, a minha responsável capilar, comete, se não um pecado, pelo menos um engano, embora desculpável, sobre a minha cabeleira.
Pois então que, farta de andar em modo espanador-de-penas, que esta estação do ano, seja lá ela qual for, não favorece nem ajuda, desloquei-me ao local de trabalho de Santa e disse "Corte", parecia mesmo um realizador de cinema, mas em chique. No final da operação, ainda eu no recobro, e talvez por isso, não me apercebi da assimetria em que ficara a minha cabeça, ou seja, em números redondos, do facto de um dos lados ter ficado mais comprido do que o outro. 
(Logo eu, que só de entrar na Desigual*, nomeadamente na do Freeport - que é redonda!, será por isso? - fico imediatamente enjoada, quanto mais se usasse aquelas peças errr... desiguais? É que aquilo tudo me provoca o TOC da arrumação, a gana de pegar numa tesoura e acertar as pontas mais compridas às peças. Ah, e é tudo, basicamente, horrível.)
E agora ela foi de férias. 
Não, eu não vou lá ao salão reclamar do trabalho da minha Santa pelas costas dela. Para além de eu ser muito vertical, não esqueceis que ela tem a faca e o queijo na mão, designadamente a faca, e bastante perto da minha cabeça. 
As soluções que se me apresentam são outras:
1. Passo a andar com a cabeça de ladecos, para não se notar a diferença;
2. Uso um enrolador de cabelos só do lado maior, para compensar;
3. Ponho um estimulante de crescimento capilar só no lado mais curto;
4. Muno-me da tesoura especial corte de cabelos que possuo, e acerto eu, correndo o risco de acertar demais, depois ter que compensar do outro lado, e assim sucessiva e dramaticamente até ao apocalipse. Ou até ao eclipse, ou lá o que é. À elipse;
5. Defeco no assunto, espero que Santa me regresse de férias já com a cabeça fora de água, e tomo um calmante diário até lá. (É que, parecendo que não, elas não matam, mas moem, como diria a minha sogra.)


* ninguém me paga para me calar


20/07/2018

Eu tenho problemas com tudo # 33

Isto deu-se na Zara*. Mas podia ter-se dado em qualquer lugar do género, porque foi comigo, e eu atraio situações.
Vamos supor que o ser humano pretendia adquirir uma t-shirt branca. Tipo t-shirt, tipo branca, a coisa mais normal e vulgar que existe em termos de vestuário, ex aequo com o jean. Acerca-se do expositor das ditas, que, no entanto, apenas expõe números daqueles que ninguém usa, S e L e XL, capaz de também o XS. Aborda então uma funcionária, aleatoriamente, e questiona se por acaso há o M.
[Da Zara, honra lhe seja feita, desapareceu o irritante só-há-o-que-está-exposto. (Ou, como diria Jhi, feliz proprietária da loja do xnês, só-tem-o-à-mostla.) Agora sói usar-se um leitor de códigos de barras, que nos dá uma imediata resposta relativamente ao stock lá do bas-fond.]
Vai ela e põe aquela espécie de secador de cabelos na etiqueta da t-shirt (que eu havia tido o cuidado de escolher o L para amostra), diz que "há no armazém", e, antes de sumir para nunca mais voltar, dita: "É esperar aqui uns dez minutinhos", lá ao pé daquele spot que a loja agora tem, espécie de ponto de encontro onde as coisas do armazém vão ter com as pessoas que as solicitaram. Por acaso, achei dez minutos uma eternidade, porque eu sou aquela pessoa que tem sempre um tacho ao lume, mas lá me estaquei um nico, que não há-de ter ultrapassado os setenta segundos, findos os quais me pus a cirandar pela loja e a desgraçar mais a bolsa de valores. Bom, sei que esperei o quê? Talvez uns onze vinte minutos, ao cabo dos que me pus no encalço da desaparecida, para que me explicasse o estranho desaparecimento, por não aparecimento, da t-shirt e, de caminho, dela própria. Nada, nem de uma, nem da outra. Porém, eu estava decidida a sair dali com uma t-shirt branca. Acometida de uma epifania, resolvi pedir esclarecimentos a outra menina que ia ali a passar, ao que ela me respondeu, simplesmente, "A t-shirt está aqui há uns minutos", sacando-a, amachucada, de um dos separadores lá do spot destinado a sapatos, de cima de um par deles. Baixou-me por segundos o Tourette, respondi "Tinha que ter uma bola de cristal para adivinhar que você ia meter uma t-shirt toda enrolada no separador dos sapatos", rodando o calcanhar na direcção da caixa. 
Sim, eu sei que a atitude correcta seria deixar-lhe lá a t-shirt, mas caneco, eu queria mesmo uma t-shirt branca, já disse? E ela, não sendo comissionista, defecaria nas alturas na minha atitude correcta.

* Ninguém me paga para me calar

15/07/2018

Começo a suspeitar que a fada dos dentes não existe

Fui ao dentista dos olhos bonitos, desta vez para que ele me colocasse um aparelho, que era coisa que já queria fazer para aí desde os meus onze anos, ou seja, há várias décadas. Ainda bem que esperei, pois, nessa idade, o senhor deveria ter deslargado os cueiros há pouco, e eventualmente não estaria preparado para me aparelhar a dentuça.
Aterrei os quartos traseiros na cadeira lá dele, recostei-me naquele misto de excitação com ansiedade, e abri-lhe a boca. Vai ele, e esclarece-me que só me iria colocar o arame de baixo, já que os de cima não necessitam, mas que sim, que mo porá na mesma, assim os que a natureza me implantou e assentam no maxilar móvel estejam alinhados. Eu um pouco desanimada, acho que até amuei um nico, pois lembro-me de ter fechado a boca para desenhar um beicinho. Mas passou-me logo, quando ele me perguntou se estava psicologicamente preparada para arrancar um dente da frente, eu que ia preparada psicologicamente era para meter os açaimes de cima e de baixo, mas que sim, pois então, se se trata(va) de um dente inferior, arranca lá o que te aprouver, desde que daqui a uns meses tenha o sorriso mais Kolynos da minha rua, que é para isso que aqui estou. Picou-me então as gengivas até se fartar, viu-se e desejou-se para pôr o dente a abanar, e depois, de alicate em riste, fez sair o 41 (foi assim que lhe chamou), coitadinho, até tive pena dele, tão saudável que estava que a raiz era exactamente dois terços do total do marfim. Para que eu não ficasse desdentada e a fazer vento a cada S e a cada F, pôs-me porcelana no entremeio, de modos que nem assim consegui ficar ciciosa e sibilante. 
Já com o freio novo, fui-me embora. Mas lembrei-me, à saída, que me faltava (literalmente) o meu dente, e então voltei ao gabinete e pedi-lho, com a desculpa da fada dos dentes. Ofereceu-mo numa caixinha própria e tudo, apesar de não ser azul, mas eu também não me sentia em condições de regatear.
Começo a suspeitar que a fada não existe, pois ainda não deu mostras disso, e já lá vão duas noites com o dente debaixo da almofada a moer-me os ossos. Chateia-me muito e volto a pô-lo no lugar dele.