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04/03/2018

Lady Bird

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 8)

Não sei o que me deu no ginete este ano, que vi montanhas sem vales de filmes nomeados para receberem a estatueta com a figura do Sr. Oscar. 
Que dinheiro mais mal empregue. Estou a brincar, não paguei nada para o ver, pois que ainda não estreou em Portugal e, a horas da distribuição dos prémios, já não estreia antes deles. Saquei-o da nettinha, portanto, a única coisa que posso pagar por tê-lo visto é uma pena de prisão por pirataria informática, que chique!
O filme está nomeado, de entre outros a que ninguém liga (melhor director, hahaha), para os prémios de melhor actriz principal e melhor secundária. Vai spoil: o papel principal é o de uma miúda chata, em plena crise da adolescência, e o secundário é o de uma mãe chata de uma adolescente chata, um papelote tão simples que até eu o conseguiria interpretar. E também está nomeado para melhor filme. Hahaha.

[Tragam-me mas é as fatiotas e as perucas da passadeira vermelha, que isso é que merece Oscars em barda.] 

25/02/2018

I, Tonya

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 7)

Ide ver.
Just do it*.
(Pessoalmente, não tenho qualquer memória dos factos relatados no filme. You know, I was too much occupied having babies.)
Sala cheia, minha criança era a mais nova (coincidentemente, da mesma idade que a protagonista), depois uma mulher à nossa frente, logo a seguir eu própria. Dá para imaginar a brancura do panorama até à tela, já que ficámos na última fila? Alguém saberá explicar-me o fenómeno?
(Ainda assim, e por que não?) ide. Já disse?

*NMPPI, nem é pub encapotada

21/02/2018

A temática da pipoca

ou

De como ser civilizadamente incivilizado

Em relação à pipoca, mesmo ninguém tendo perguntado qual é a minha sensibilidade, acordei hoje com uma imperiosa e irreprimível ânsia de explicá-la, para que não restem dúvidas. 
A pessoa é, como todo o Humano, condicionável, embora não chegue aos pés às patitas do canito de Pavlov. Derivados que vai ao cinema, ainda está metida na bichona para comprar bilhetes, e já as glândulas lhe gritam "Ó pchhht, ó! Não te esqueças da pipocada!". Tanto que, portanto, quando alcança a caixa de pagamento, já nem se lembra de qual o filme que pretende visionar, nem tão pouco o horário dele, mas sabe que quer um pacotinho, um pacote ou um pacotão das doces ou das salgadas.
(Não existe frase nenhuma na língua portuguesa que fique chique com a palavra "pacote" à mistura, daí que ainda meti ali à pressão o diminutivo e o aumentativo, a ver se disfarçava, mas nem sei se não piorei. Siga.)

O verdadeiro e real problema da coexistência pipocas/ sala de cinema começa desde logo: o próprio pacote (mau) está preparado para fazer de nós equilibristas, cujo desafio é flutuar sobre o soalho, entrar na estreita porta, subir a escadaria do anfiteatro, na penumbra (ou já às escuras, para os mais destemidos), acertar com uma fila de cadeiras cuja letra está (temporariamente?) invisível, passar por dois ou três cidadãos que já se encontravam sentados sem tropeçar em nenhum deles, e sentar-se no lugar certo, que tem o número — onde? onde? — nas costas das cadeiras da fila em frente (!), tudo isto sem deixar cair uma única pipoca. Para os mais arrojados, o nível acima é passar toda esta agrura sem-comer-nenhuma-pipoca-pelo-caminho. Isto, sob pena de, ao deixar cair uma delas, sermos sujeitos ao olhar da total rejeição do povo em geral. E nada de tentar apanhar essa que caiu, pois potenciareis a cascata de metade do pacote (errr) em direcção ao solo, que é o que acontece desde que aquele senhor descobriu que os corpos têm atracção para lá.

Caso estejamos num cinema NOS, e a seguir àquele spot que nos ordena que deixemos a sala limpa — numa altura em que o nosso calçado já contactou com uma cama de milho estalado, profundamente soldado às nossas solas, e que fará as delícias dos insectos quando dali sairmos —, prossegue então a saga da pessoa que se quer civilizada, porém gulosa (e, como já vimos, condicionada), que é a de morfar uma embalagem (agora fui linda) de pipocas inteira sem um único com o mínimo ruído possível. Então, truques: 
1. Esperar pelos momentos em que o som está mais elevado, designadamente o do tal anúncio da NOS, emitido, conforme sabeis, em níveis decibélicos para lá de bélicos. Esse é o momento perfeito para, exactamente, meter pazadas de pipocas boca adentro, todas em simultâneo, prevenindo, assim, todos os momentos posteriores, em que é menos provável que consigamos fazê-lo (assumindo desde já que não estou sozinha neste flagelo);
2. Aproveitar os momentos musicais, de estrondos, de exterior (motas, carros, aviões, comboios, vale tudo, mesmo até tirar olhos) e gritos, para roer ruidosamente mais umas quantas. Atenção aos momentos de choradeira na tela, que ficam muito mal se acompanhados do rrr-rrr-rrr típico do processo ruminante. Já se a choradeira se der na plateia, é fartar, vilanagem, até mesmo porque os homens fazem sempre o favor de se assoarem (ruidozíssimamente) nessas alturas;
3. Tirar proveito dos breves instantes em que o povo tosse, o povo se engasga, o povo gargalha, o povo faz ruídos indistintos. Tudo se aproveita para mais uma pipoquinha na goela;
4. Chupar as pipocas como se fossem rebuçadinhos duros, duros. Não dá jeito? É verdade, mas tem a vantagem de o processo de ingestão de cada uma delas se tornar tão moroso que: a) É uma poupança; b) É uma dieta;
5. Assumir o intervalo como o momento áureo para tirar a barriga de misérias.
Se todos os anteriores falharem, e a fome enegrecer a níveis catastróficos, é sermos criativos, e provocarmos, nós próprios, o momento musical, o estrondo, o grito, o ataque de tosse, a sufocação, a choradeira, o assoar estrepitoso. Nos entrementes, é ruminar mais umas quantas das ditas.

Julgo ser meu dever ainda chamar aqui a atenção para o flagelo que é o som do esgatanhar das unhas no fundo do pacote (ai), que chega a ser mais enfartante do miocárdio do que o mastigar do milhinho em pufes. Digo isto porque ainda me ando a tratar de uma vez em que coincidi ao lado de uma mulher que passou exactamente toda a sessão — eu repito, TODA a sessão — a raspar nos fundilhos lá do pacote (hohoho) dela, coisa para fazer inveja a qualquer gato enfiado na sua própria caixa de areia. Desconheço se a escavação lhe trouxe a descoberta de algum tesouro, mas a mim deixou-me a comprimidos para os meus nervos até hoje. O que fazer, na circunstância de o nosso pacote (tão doce) chegar ao fim e ainda lá termos umas quantas pipocas? Olhem, esperem por chegar a casa, a ver se poupam o resto dos mortais a essa condição, evitando, assim, que faleçam. Geralmente, o que fica para o fim são bolas de milho não estalado, que vos partem os dentes, e é muito bem feita se isso acontecer, caso persistam em esgaravatar nas profundezas da embalagem (☺).

Mais um pormenor, de somais importância: os pacotes (é a última, juro) de pipocas têm uma espécie de fundo falso, que se desmancha se tentardes fazer do paralelepípedo um cilindro. (Sei isto, porque já tentei, e correu extremamente mal.) Não dá para brincar às formas geométricas com aquilo enquanto cheio, sob pena de despejardes todo o conteúdo rumo aos vossos próprios pés. Solução? Andar sempre com uma pá e uma vassoura na mala. Eu, pessoalmente, não ando, mas o pincel do blush também dá.
Estou farta de escrever, desculpem lá a extensão desta prelecção.

19/02/2018

15:17 Destino Paris

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 6)

Conclusões:
1. Não há rapazes maus. É transversal ao "mundo civilizado" a desadequação das escolas em face das diferenciações do humano;
2. Mães solteiras não são menos capazes do que mães casadas. Só envelhecem mais cedo;
3. A carreira militar ainda faz dos homens, homens;
4. O mais giro de um trio, quando são todos miúdos, não é necessariamente o mais giro dos três em adultos;
5. Roma é belíssima;
6. Deve ser uma granda moca viajar no TGV; 
7. Há cenas nos filmes que, de tão inúteis que são, caso fossem retiradas, não só os encurtavam um bom quarto de hora/ meia-hora — o aparecimento das duas personagens femininas (Lea e Lisa) tem exactamente zero contribuição para a narrativa, e, à parte equilibrar (?) um tudo-nada os dois géneros no elenco, e, eventualmente, compor o ramalhete com duas mulheres bonitas, não serve para mais nada. (Dá que pensar que Mr. Eastwood terá feito alguma(s) cedência(s) para que aquelas duas entradas ocorressem) —, como também ganhavam em ritmo, lógica, anti-dispersão do espectador (então se for de um tipo como o meu, que até uma legenda mal colocada provoca o bloqueio), interesse, história com pés e cabeça (e não cheia de longos braços), etecetera;
8. Há terroristas com um azar dos genitais (felizmente);
9. Viajar, hoje em dia, é perigoso — Isto, no sentido estrito, de efectuar uma viagem, aquela deslocação do ponto A ao ponto B. Nunca sabemos quando nos tocará. Não devemos, ainda assim, deixar de viajar, tal como não podemos fechar-nos em casa para evitar sermos atropelados só porque lá não passam carros;
10. Quero ir a Roma, ainda este ano. È bellissima, já disse?


15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

12/02/2018

The Post

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 5)

Check.

Tom Hanks cada vez melhor. I mean, em todos os aspectos. Fica-lhe bem a pele bronzeada (e quando está com a sua cor natural), fica-lhe bem o grisalho, fica-lhe bem o corte à anos 70, fica-lhe bem la panza (deve ter metido uma almofada, apesar dos evidentes quilos que "pôs" para este papel), fica-lhe bem a camisa arregaçada, ficam-lhe bem as rugas.
Meryl Streep confirma que continua a ser a melhor actriz do Mundo. Já vi filmes com ela (lembro-me de "Um grito na escuridão") que eram uma pastilha enfiada num empadão de batata mole, e que, só por ela, era possível visionar sem ter um ataque de bruxismo.
As notícias são, de facto, o primeiro rascunho da História, como diz o (sempre presente) marido morto da protagonista: the first rough draft of history. A História, não a história, já que history e story não são uma e a mesma coisa. 

Conclusão: gostei.

05/02/2018

Call me by your name

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 4)

Amei. Muito, muito. 
É daqueles filmes que cada um adora pelos seus motivos: uns pela história, outros pela beleza da imagem, outros pela música (uma banda sonora de gritos), outros por tudo junto, se calhar outros nem sabem bem porquê. Eu, simplesmente, entrei no cenário, naquele Verão de 1983, naquela casa incrível, naquele aborrecimento versus euforia que é ser-se adolescente no Verão, naquela luz que existe para além das nossas questões e das nossas dúvidas. Bom, eu vivia claramente nas calmas num sítio daqueles. Não só a casa, mas toda a zona envolvente, e com aquele pessoal que ora fala Inglês americano, ora fala Francês, ora fala Italiano (que são para aí, para além do Português e do Portuñol, as únicas três línguas que eu entendo e falo qualquer coisa que se ouça). E os dois protagonistas, tão giros! Pronto, não queria nada com eles (vamos pôr assim as coisas), mas uma pessoa gosta de lavar as vistas sem ser com essas micelares que as bloggers dizem para as outras pessoas usarem.
Muito, muito boa, a recriação da época: as pulseiras da amizade, os relógios electrónicos Casio, as calças de ganga que se chamam actualmente mom fit — pudera! —, os ténis One Star, os cabelos escadeados e encaracolados, o pessoal a fumar constantemente, tudo, rigorosamente tudo, a bater certo, ao contrário do que é costume neste tipo de evocações de determinados períodos, em que se faz uma grande confusão entre os anos 80 e 90. 
Itália é bellissima, tenho mesmo que lá ir.
Não digo mais nada, senão ainda sou acusada. 


Não sabia qual das músicas é que havia de escolher, vai esta. É tudo bom.

23/01/2018

Três cartazes à beira da estrada

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 3)

Por acaso, não venho para aqui contar o filme. Felizmente, sou daquelas pessoas que não sabem contar filmes. Assim, livro quem comigo priva de altas secas (ou há dúvidas quanto ao aborrecimento de ferro que são os relatos de filmes/férias/nascimentos/doenças?) (Hah, já cá faltava a irreverente a abanar isto tudo logo pelas 9 e picos da madrugada.) (Toca a descolar dos leitos, mandriagem!)

Essencialmente, venho falar do papel da Mildred Hayes, ou da exímia representação da actriz Frances McDormand. Muito pouco conhecida do pequeno público que é o nosso, imagino que o mesmo se passa nos Estados Unidos, pois, por pesquisa pouco exaustiva, basicamente se encontra este enorme talento no filme 'Fargo', dos idos 1996. 
Esta gigantíssima mulher tem sessenta anos, não fez uma única plástica (ou, se fez, foi "corrigida", maquilhada, para este filme), aguenta duas horas de exposição solar sem maquilhagem (ou, lá está, tão bem maquilhada que parece não estar), e esse "pormenor" é o que transmite em pleno o drama, a raiva, a revolta, a luta, e depois o quase apaziguamento, a conformação, a aceitação das coisas como elas são. 
Provavelmente, a partir de agora vê-la-emos mais vezes, nos próximos dois, quatro anos. Tal como aconteceu com Octavia Spencer, a partir de "As serviçais". Vimo-la depois em "Elementos secretos", podemos vê-la agora numa m. de ficção científica, "A forma da água", que, a avaliar pelo trailer, só se aproveita mesmo a presença dela (e também a música que se ouve no início do trailer, que, ou muito me engano, ou é Glenn Miller). Embora muito mais nova do que Frances McDormand, terá, provavelmente, um tipo físico — chamemos-lhe assim — que não se adapta a muitos papeis, e isso, como sabemos, é demolidor em Hollywood. 


Isto não é um conselho, é uma ordem: ide ver. 
(Ah, se tendes filhas, preparai o estômago + coração.) (Isto foi spoiler?)

06/01/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 11

Hoje venho insurgir-me.
Cada vez que vou a um cinema NOS, para além de ser brindada com três ou quatro trailers — pequena tortura que chega a ser boa, pois fico com mais alguns filmes na lista "obrigatório" ou então na lista "não esquecer de não ver" —, mas aos quais não consigo fugir, uma vez que tenho vergonha (respeito ao próximo) e medo (posso ter a certeza que o chão que está à minha frente é plano, que ela é anulada por aquela outra certeza de que no próximo passo vou tropeçar/ meter o pé em falso num degrau/ cair num fosso estreito e fundo até ao centro da Terra, qual Alice, "Adeus, Dinah!") de entrar às escuras, sou igualmente agraciada com esta coisa:


Eu tenho medo. 
Primeiros: não percebo por que é que elevam o som a níveis de decibéis capazes de estoirar com os miolos da pobre assistência. 
Segundos: não percebo por que é que me tratam por tu no anúncio, se não andámos juntos na escola, não temos a mesma idade, nem somos todos bloggers. Enfim, se não nos conhecemos de lado nenhum.
Terceiros, quartos, quintos e tudo o resto: porquê o rugir de leão do dinossauro, que come e morde tudo? E as ordens, imperativas, aos gritos, de comportamentos elementares? "Desliga o telemóvel e mantém o silêncio!"; "É proibido filmar e fotografar!"; "Mantém a sala limpa!"; "Respeita as normas dos cinemas NOS!" [ou não antes as normas básicas de civismo?]; "Podes comprar o teu bilhete nos kiosks (?), na app.m.ticket (?), em cinemas.nos.pt (...), ou na tua box (?)".
[Por acaso, esta versão que encontrei no youtube ainda acrescenta "I'll be back!". Vá que nunca me apercebi disto ao vivo, lá na sala. Pois, porque ainda não estava bem clara a ameaça exterminatória].
Depois sai um helicóptero (militar?) a voar, o homem grita-me "Bom filme!", e eu fico capaz de começar a chorar alto, a chamar pela minha mãe, "Mamã, tenho medo, quero ir para casa!", mas incapaz de prestar atenção aos primeiros cinco minutos do filme, tal é a aceleração que me leva o músculo. A sério.

29/12/2017

(O meu problema, no fundo, é que sabia que, um dia, ia esquecer-me de pôr título num post)

(hoje foi o dia)

O meu problema é ver a realidade não como ela é, mas como ela deveria ser. Por isso, a imperfeição sobressai. Como um nariz no meio de uma cara.

Hercule Poirot, in Um crime no Expresso do Oriente.
(As palavras não foram rigorosamente estas, mas sinto que se trata de um mal do qual eu também sofro amiúde.)


Check. Vale muito o bilhete.

04/12/2017

Coco

(se acharem que é spoiler, é não lerem # 2)

É porem um filme da Disney (Pixar, neste caso) em cartaz, e lá me têm. Tenho aprendido mais com filmes supostamente infantis do que com aqueles que são destinados a adultos (não esses, canudo!). Nunca mais vou crescer, e nem sei se quero. (Lá está outra dúvida com que me debato estóica e diariamente.)
Captei a mensagem principal — que a verdadeira morte se dá quando nos esquecemos dos nossos mortos, ou quando formos esquecidos pelos nossos vivos —, mas não a secundária (se é que ela existe, mas eu, lá está, ando sempre à procura da segunda e da terceira leitura de todas as coisas). Ia na expectativa de encontrar um filme algo metafísico, que me explicasse o que existe para lá do fim, apesar de não ter grandes crenças pessoais acerca do assunto, e alguma quase certeza de que a morte é isso mesmo: pois, se é para as plantas e para os animais, quem somos nós (?) — outra dúvida das boas — para considerarmos que connosco será diferente?
Afinal, não. Parece que existe uma morte após a morte, para além de nos encontrarmos todos — em esqueleto, com peruca e roupa, pois que há-de ser importante aquecer os ossos (sem corrente sanguínea, atente-se) e esconder as partes pudendas, que, em rigor, já não existem — num lugar entre o sinistro e o festivaleiro, com a idade com que fenecemos, ou seja, onde é possível encontrarem-se um pai jovem e uma filha muito velha. Se já a ideia de ir para o Céu me aterroriza levemente, esta de ir parar a um lugar onde todos somos só ossos, sem chicha nem peles [o mal que hão-de ficar os meus cabelos em cima deste esqueleto lindíssimo] [eh, pá, 'pera lá, pára tudo! Nunca mais terei que me preocupar com o que como? Hummm...], mas também onde desaparecerei (dolorosamente, diga-se) ao fim de algum tempo, assim que cá na Terrinha se esqueçam de mim — o que poderá demorar o tempo de um fósforo —, também não sei se me agrada. O melhor é continuar a ser como sempre fui, pode ser que a sorte me faça a vontade, e o Hades também há-des.

(De qualquer forma, vale muito a pena. Lá quanto a tratar-se de um filme de Natal, maiores dúvidas se me agigantam, mas isso também posso ser eu, cartesiana duvidosa.)

06/11/2017

A Minha Paixão

Fui ver ‘A Paixão de Van Gogh’. 
É só para saberem.

Não faço link para o trailer, porque recomendo vivamente a quem ainda não viu o filme que faça como eu fiz: não vi nada, fui “às cegas”, e a surpresa foi muito maior e melhor. [Pronto. Agora tudo a googlar ‘a paixao de van gogh trailer’.]
Também vos digo que não vão se:
1. Sois epilépticos (a sério);
2. Não gostais de desenhos animados;
3. O Movimento Impressionista vos impressiona;
4. Não considerais cinema tudo o que saia da comédia romântica norte-americana;
5. Preferis comer pipocas de microondas. (Por acaso, não comi. E tive a sorte de assistir numa sala civilizada.)

13/02/2017

100 sombras

Já não se pode ir ao cinema sem se levar com a pastilha do trailer das sombras do Sr. Grey. Diz que estreia amanhã, a propósito do dia dos namorados (?). 
Vamos já aqui acertar dois ou três parâmetros, que é para que não hajam confusões: eu não li a trilogia das sombras. E não lo fi-lo por três ordens de razões, cuja ordem é absolutamente arbitrária:
1. Não faço viagens de metro suficientes para ler um livro desses, quanto mais três;
2. Não tenho uma daquelas capinhas floridas, que servem para tapar a capa do livro que se vai a ler, muito concentrada, entre Arroios e o Martim Moniz, numa de não-tens-nada-a-ver-com-isso, ou eu-sou-bem-comportada-mas-preciso-de-saber-do-que-se-fala-lá-no-escritório;
3. Não sou suficientemente mentirosa para ter lido e vir para aqui dizer que não li — o mais certo era desbroncar-me, ou eu não me conheça;
4. A actividade sexual dos outros interessa-me, basicamente, zero.
Afinal foram quatro.
Vi o primeiro filme, já em casa — porque pagar e deslocar-me para ver o que se anunciava, também me pareceu desperdício a vários níveis —, e aquilo foi o tédio. Também já me havia entediado até ao bocejo com o Nove semanas e meia, e era muito mais nova do que sou hoje (assim como era ontem) (assim como era a Kim Basinger), por isso acho que a idade não perdoa, sim, mas emplastros em forma de filme. 
O trailer das Cinquenta sombras mais negras anuncia mais cenas de sexo à maluca, tudo muito consentido, em que a frágil Anastasia mantém o ar frágil (ó pá, coitadinha, lembra-me a Sophie Marceau quando tinha 16 anos, no La Boom, não consigo desligar o impulso de ter peninha dela), entre orgasmos no elevador, contra a parede, e até tira as cuecas no restaurante (porque ele manda). Ui, que maluquinha. Que atrevida. (Espero que a moda não pegue. Deixem-nos andar de elevador sossegados, e tomar uma refeição sem interferências ao nível sensorial.)
Mas, como nem tudo pode ser mau, a música que acompanha o trailer é o melhor que ele tem. O original é Beyoncé, e heh. Esta é cantada por (simplesmente) Miguel, mas não houve modo de encontrar apenas a música sem o trailer, portanto aqui fica. Desculpem. 

05/02/2017

Fui ao cinema e vi dois filmes na mesma sala # 2

Elementos secretos
O título diz zero acerca do filme. Parece coisa de polícia (por associação de ideias com "Ficheiros secretos"), ou tudo menos o que verdadeiramente é: o melhor filme (excluindo os de animação infantil, incomparáveis com cinema para pessoas crescidas) que vi nas últimas décadas, que até já são algumas. O título original, Hidden Figures, faz-lhe melhor justiça, embora não possa ser traduzido à letra: figuras escondidas, nem tanto, Pessoas Invisíveis seria o título certo. Se este filme não ganhar os Oscars todos (guarda-roupa incluído!), eu própria me encarregarei pessoalmente de despedir a Academia em peso. É tão, mas tão bom, aborda tantos temas que me tocam tão profundamente, que posso revê-lo metida numa tina de gelo em pleno Inverno, que me aquecerá o coração na mesma. São duas horas e sete minutos de vale a pena, sem bocejos. (Aquelas três. E o Kevin Costner.) (Vá, agora calo-me, porque a partir de agora já é spoiler.)



Mas, antes do filme
Uma daquelas pastilhas rijas e dispensáveis, um filmeco de publicidade que se conta nestes quatro actos:
1 - A menina, com cerca de 12 anos, acorda num quarto branco, lindo e luminoso, onde apenas consta um colchão no chão. É o pai, simpático e carinhoso, que a vai acordar, dizendo, "Querida, o pequeno-almoço está pronto", ao que a bruta petiza responde, ainda a esfregar os olhos e sem se levantar da cama, "Pai, já tinhas uma mesa, não?". E o parvo querido come e cala;
(Violência doméstica, meus caros, pode ser praticada pelos filhos em relação aos pais, e tem uma vertente psicológica nunca subestimável.)
2 - A malcriada chega à mesa de pequeno-almoço que o palerma lhe preparou e exclama: "Torradas? Ó pai, mas a mãe faz-me sempre panquecas!". E o tonto faz um sorriso triste, em vez de lhe retribuir a patada com outra patada;
(Violência gera violência, ah pois é. Mas uma resposta assertiva no momento exacto trava muita mais violência do que se possa imaginar.)
3 - O bom do parvo está a fazer panquecas com material Pingo Doce;
(Pode ser um síndrome de Estocolmo, aquele de que sofre o senhor.)
4 - O bondoso vai novamente acordar a cavala, anunciando que já pode acordar, e que tem ali as panquecas à espera. Ela acerca-se da mesa, começa a comer uma panqueca em silêncio (ao menos não fala de boca cheia...), diante do olhar comovido e expectante do homenzinho, que, não aguentando mais a ansiedade, pergunta: "O que é que foi? Não estão boas, as panquecas?".
(Nesta altura, a assistência e eu contamos com algo do género, à laia de resposta: "Não, gosto mais das da mãe. Faz-me torresmos.")
Mas diz a arrependida, cabisbaixa: "Ó pai, tenho uma coisa para te confessar". 
(E nós Ai meu Deus, é agora que levas uma chapada, desembucha lá isso.)
"É que a mãe nunca me fez panquecas".
(E a nossa ambivalência a chiar Ai as cabras, tal mãe tal filha, pobre homem.)
"Eu sabia, filha", diz-lhe assim o ternurento, com uma festinha na tola. 
E a conclusão Pingo Doce: "Pingo Doce, a fazer das mesas portuguesas mesas mais felizes", ou qualquer regurgitação do género. 
~
Apneia, senhores, apneia, era o que se sentia na sala inteira quando acabou este filminho de terror.
Tanto que me fica por dizer.
Tanta pomba assassinada.

31/01/2017

la la sleep

Hoje venho, na senda da vertente pura e extraordinariamente intelectual deste modesto espaço de alta elevação cultural, falar-vos de um filme que, efectivamente, não vi. E, como tal, não vou spoilar, ou, pelo menos quase nada.
(A quem já tomou o tamanho ao texto com um breve olhar medidor, é isso mesmo: não me vou alongar por aí afora, já que — repito — não vi o filme. Ou melhor, muito melhor, não o vi todo.)
La la la, la, la, la...
Não haverá mais doida, mais fã, mais incondicional do que eu quando se trata de menino Ryan Gosling. Gosto dele, que quereis? Lá se é bom actor, acho que sim, mas isso é secundário, tendo em conta que ele é sempre o principal. É o sorriso, é a voz, são aqueles olhinhos desiguais, é ele de camisa, é ele de calças de fato, é ele...
Desta vez, aparece ao piano.
(... é ele ao piano.)
E aparece outra vez (a sério, povo de Holly, o que pretendeis com a insistência em juntar estes dois?) com a Ema Stone, que é tão gira e está tão estranha — enormemente magra, vítima de recente botox-disaster. Parvas de Hollywood, vá lá, parem de estragar essa maravilha que a Natureza vos deu.
Talvez ainda não tivessem decorrido trinta minutos da fita e já eu dormia a sono solto, embalada pela trama — cuja sinopse não cheguei a conhecer —, incapaz de resistir a Morfeu, um pouco desiludida, senão de morte, pelo menos de sono quase eterno, após ter constatado que meu Ryanzinho, apesar das quatro horas diárias de ensaios, por não sei quantos dias seguidos, não aprendeu a dançar, e também não canta nada de por aí além. É a tal história que conto (e canto) a mim mesma, cada vez que cometo uma pequena falha na minha vida: Não se pode ser bom em tudo.
(Talvez reveja a película um destes dias, Ryan merece uma segunda oportunidade. Já vi tanta porcaria com ele, esta pode ser apenas mais uma. Lindo de sua Linda.)

06/10/2016

Fui ao cinema e vi dois filmes na mesma sala

A rapariga do comboio.
Mais um que ide ver, ide. Não vou contar a história, porque não está na minha génese. Só adianto que tive uma surpresa com o final, não com o culpado na trama (que estava na cara, nem sequer esse mérito tenho), mas com o desfecho propriamente dito de uma das personagens. Havia perguntado a quem já tinha lido o livro se a rapariga estava morta ou não, e a quem perguntei deu-me a resposta errada.
O que venho contar é o segundo filme a que assisti, extremamente nervosa. Se já o da tela era um thriller, o da plateia foi um mix de surrealismo, ultra-realismo, hiper-realismo e irrealismo. Nunca mais, em toda a minha vida, me apanham num cinema do Colombo. Registo, assino e ponho a data. Não houve uma única gaja naquela sala que não me irritasse. 
Suponhamos que me sentei, já ao som da caixa de pipocas da de trás, ruído denunciado pelo arranhar da unha de gel nos fundilhos da cartolina.
[Segurei-me com a certeza de que nenhum pacote de pipocas é eterno, na exacta proporção da minha paciência.]
À minha direita, sentou-se um casal de meia idade, profunda e sinceramente convencido de que estava em casa: ela relatou-lhe o filme de fio a pavio, para além de ter expressado as suas inadiáveis e interessantíssimas opiniões acerca de todas as cenas, atitudes e mesmo sentimentos das personagens.
[Segurei-me com a certeza de que, caso a mandasse calar, estalaria ali, digamos, uma contenda verbal, a qual me faria perder parte do filme — e aquele é dos que não se deve perder pitada.]
À minha frente, em diagonal, três adolescentes riam às gargalhadas nas cenas mais secas. E também diziam disparates do género "Agora dava-lhe com a garrafa na tromba, que era um regalo".
[Segurei-me com a certeza de que já fui mais ou menos assim, parva e nova, e fiz a cabeça em água a muita gente boa e profundamente intelectual como eu sou agora.]
Mesmo à minha frente, um casal que não conseguiu lugar na fila de trás, não tem casa e também não tem noção: ambos passados dos trinta, não é que foram para os meles para o cinema?
[Segurei-me com a certeza de que quem ficaria a perder seriam eles.]
A que estava atrás de mim, atendeu o telemóvel depois de vários piriris, e disse, alto e bom som, "Estou no cinema".
[Segurei-me com a certeza de que mais vale uma senhora calada do que um telemóvel contra a tela.]
Ao intervalo, já nós íamos no 5-0 com desvantagem para a equipa visitante — eu —, deu-se o reforço das doses de pipocas, pelo que passei a segunda parte basicamente a ouvir ruminar. Tudo elas. Pode ser que fiquem (mais) gordas.
[Segurei-me com a certeza de que estar no campo, ao pé das vaquinhas, é mais perigoso e cheira um niquinho pior. — E sim, havia gente descalça na sala. E sim, ainda faz calor, há quem não pague a conta da água e está cientificamente provado que os sapatos de imitação — muito vegan! — cheiram mal para cornos.]
Mas adorei o filme, e recomendo, não sei se já disse.

02/10/2016

Fui ao cinema, mayday

O cinema engorda-me. Tenho que evitar a mera aproximação do recinto, pois que minhas papilas desatam a salivar derivados às pipocas. Não sei como é que faço aquilo, mas estou ao balcão, aquando da compra dos bilhetes, e já estou a dizer pi-po-cas sem que o meu cérebro tenha processado o grito NÃO!. Depois peço pequeno, como se o tamanho do pecado o diminuísse em consequências, e não devesse vergastar-me imediatamente, em alternativa à ingestão da comida de galinha, ou colocar-me um cilício enquanto assisto ao filme.
Também tenho um problema por resolver com as apresentações dos filmes — que, somadas com a publicidade, vão a meia-hora do tempo que permanecemos sentados na sala —, porque me apetece ver todos. "A rapariga do comboio" está na calha, "Ajuste de contas" idem. Passo "O inferno de Dante", porque hoje de manhã já o vivi no ginásio, e chega de esquizofrenias: era um homenzinho com cabelo à fornique-se, ou à genital masculino, todo tatuado pescoço abaixo, do lado direito um rosto de Nossa Senhora em tamanho quase real, do esquerdo ele próprio, e num dos braços um Cristo. Cristo!
Fui ver "Sully", com o Tom Hanks, que anda a especializar-se em comandantes traumatizados, mas muito bem especializado. O filme é excelente. Ide ver, por vossas saudinhas [não me esqueci do assento no U, não]. A mim, além da habitual segunda leitura que faço de tudo e de mais alguma coisa — neste caso, a hipocrisia norte-americana para com os seus heróis —, ainda me serviu de catarse para um dos meus maiores medos, pelo menos dos reconhecidos internacionalmente: um acidente com um avião, ou pode lá haver melhor terapia de choque para uma aerodromofóbica? Também já papei todos os episódios de "Mayday, desastres aéreos", e mais os outros que o National Geographic dá. Sei tudo o que se deve fazer, em todas as ocasiões de pânico, a bordo de um avião (tipo gritar e proferir lugares comuns como "Eu não quero morrer!"). 
Por falar nisso, nota negativa para a tradução e legendagem, que nem uma única vez utilizou o verbo amarar. O original to land foi sempre traduzido para aterrar e landing para aterragem. Ora, cá a malta tem amarar e amaragem para as "aterragens" no mar — ou no rio, como era o caso. Só não temos "arriar", (não confundir com arrear — a giga, ou a poia, por exemplos), que nos perdoem os americanos a riqueza da língua, contra a pobreza espiritual.


06/07/2016

Dory

(se acharem que é spoiler, é não lerem)

Dory, essa personagem da Pixar que, de entre todas as produções Disney, angaria o maior número de fãs em todo o mundo.
(Eu, pessoalmente, também amo de paixão a Yzma do Pacha e o Imperador. Adoro aquela magreza ossuda e aquele tom possidónio da figura.)
A Dory é o fundo do meu portátil azul; a Dory é azul; a Dory é maravilhosa a conviver com a sua falta de memória; a Dory é o único peixe, num oceano inteiro, que tem memória de peixe. Isso faz dela um ser diferente e estranho, num mundo em que todos deveriam ser, precisamente, como ela  a regra, não a excepção.
Curiosamente, todas as personagens de À procura de Dory têm características peculiares, que as diferenciam dos demais, mesmo daqueles que pertencem ao seu grupo. Sem o pretender ser, o filme é também (e, essencialmente, pelo que vi) um filme sobre diferenças, singularidades, traços distintivos, mas que, num mundo ideal, pelo qual (pelo menos alguns de nós) lutamos diariamente, não são limitadores. Basta olhar para a personagem principal do primeiro filme desta sequela, Nemo, para se perceber que ele próprio é portador de uma diferença  que em nada o restringe, tanto assim que tal pormenor nem é mencionado, nem sequer tido em conta na atitude dele ou dos outros para com ele.
A Dory tem um problema na memória recente, uma forma de amnésia permanente desde o nascimento; também Hank, o polvo, tem sete tentáculos, por amputação de um deles; Destiny, o tubarão-baleia, cuja principal característica é possuir uma extraordinária visão, é míope; Bailey, a baleia beluga, perdeu as suas capacidades de ecolocalização; Becky (amei a Becky! Senhores da Pixar, já a trabalhar o número 3 da série com a Becky como personagem principal!), a fêmea de mergulhão, é zarolha.
Se para mais não servir, por se tratar de um filme com algumas cenas obscuras e demasiadas mudanças de ritmo (algumas cenas entram mesmo em excesso de velocidade), À procura de Dory serve como uma luva para nos mostrar que diferenças todos temos, e demonstrar que é possível viver com elas uma vida inteiramente feliz.

08/02/2016

Joy — haja alegria, haja...

Fui ver um filme. Como sempre, fui ao engano. Convenço-me de uma coisa, e depois torna-se muito difícil, o momento em que descubro que, afinal, aquilo não é o que parece.
No entanto, gostei. Não percebi partes, mas gostei.
O título enganou-me. Péssima para nomes e para tudo o que seja decorar pormenores de somenos, andei a anunciar aos ventos que ia ver um filme chamado "Happy". Também, pode ter sido por esse lado que me escapou a essência da questão. Afinal, era "Joy". Confundi felicidade com alegria, sou tão poliglota. Quando percebi isso, não perdi a fé na Humanidade, nem em mim, e preparei-me para ver um filme sobre a alegria. Tipo uma comédia romântica, ou assim. Ia ver Jennifer Larence e Bradley Cooper, aos quais acrescia el monstro sagrado Robert De Niro, portanto, estava bem entregue, e não à bicharada. 
Preparei-me tão bem para a sessão, que cheguei com uma hora de avanço, porque, lá está: também não sou boa para decorar horários. Assim, vi-me na contingência de me enfiar dentro de um balde tamanho médio de pipocas, porque esperar faz-me ficar ansiosa, nem sei como é que me aguentei nove meses dentro da barriga da minha mãe. E como é que aguentei nove vezes quatro.
Quando percebi que Joy era o nome da protagonista, fiquei chateada, mas não me levantei dali. As pipocas e as pálpebras já me pesavam, que eu também não sou boa a ir ao cinema à noite.
Mas aguentei-me. 
Não percebi como é que uma pessoa tem uma ideia brilhante em cima de um acidente totalmente estúpido — a sério que alguém, algum dia, pegou numa esfregona para limpar estilhaços de vidros e vinho tinto, e depois torceu a esfregona com as mãos? Eu, quando tenho um acidente estúpido, a coisa mais inteligente que me ocorre é 112, nem que seja um paper cut.
Também não percebi por que é que, na América de 1990, ainda ninguém sabia que é possível desatarrachar a esfregona do cabo e metê-la na máquina.
Não percebi, igualmente, como é que, na América de 1990, ninguém usava o balde da esfregona, esse ícone da espremedura da água pejada de bactérias.
Não percebi ainda como é que a Joy — que não faz nenhuma justiça ao nome, passa 90 % do tempo chateada-angustiada-triste-zangada-aluada — dá a volta à questão da patente.
E não percebi por que é que passei duas horas e 4 minutos a ver um filme cuja personagem principal é, na realidade, A Esfregona. 
Porém, faça-se justiça: Jennifer Lawrence, sempre ok. Meio esgazeada, mas isso é dela. Um dia cresce e pára de achar piada a tropeçar nas escadas e cenas. O Bradley, giro e ponto, embora neste filme pudesse estar outro qualquer no papel dele. Quanto a Don De Niro, mesmo num papelote, continuo a ser fãfãfã. Quem tem um sogro daqueles (refiro-me ao genro dele), tem tudo.
Fui muito spoiler?
Olha, não tivessem lido. Também não sou muito boa para disclaimers.