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18/09/2018

Crocheiras?

Lagartando ao sol qual centopeia de apenas dois pés, apercebo-me, nas minhas estreitas proximidades, de um grupo de senhoras de já longa existência, maillots a condizer com as idades — grossos, padrões indiferentes e indefiníveis, um número ou dois acima do que lhes corresponde (para não ficarem justos ao corpo, ele próprio forrado a uma pele maior, bem maior do que os ossos que a sustentam) (naquela etapa da vida em que parecem trazer vestido um macacão de pele humana muito maior do que o corpo) —, sentadas em cadeiras desdobráveis que os igualmente descaídos e rugosos — porém, muito menos viçosos — maridos carregaram e carregarão, todas conversando animadamente, ou melhor, três escutando o discurso da quarta, que, sem trégua ou tomada de fôlego, prossegue, intrépida, enfática.
Então, penso,
Onde é que andam as senhoras do croché?
Dantes, as senhoras daquela geração, invadiam, ornamentando, as praias, os transportes públicos, as salas de espera, tic-tic-tic, com seus tricôs no Inverno, seus crochés no Verão. No horizonte oposto ao da linha que traça o mar, eram uma componente fundamental na paisagem do areal, ao longo de toda a costa, irmanando em importância com a bola Nivea, o banheiro, a senhora dos bolos (toda vestida de branco, mala de madeira branca à cabeça) e a rapaziada de chapéu de palha e baldes coloridos onde eu me confundia.
O que é que lhes fizeram? Deixaram-nas envelhecer mais e substituíram-nas por estas? São as mesmas, mas desistiram do croché? Estas estão só a fingir que não fazem croché, mas fazem-no às escondidas? Ou estão, efectivamente, a "fazer renda", e eu é que não estou a perceber? Ou estão ali, elas e a sua "falha", para me lembrar que não falta muito para ser eu própria a pegar nas linhas e na agulha de barba e, à frente de toda a gente, por insondáveis artes mágicas, articulando umas na outra, fazer aparecer uma toalha de chá?
Pode ser que já ninguém tome chá, quando esse dia chegar.



22/01/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 12

Que vejo um saco de papelão, cheio de coisas lá dentro, despejado no meio da estrada (sim, pois, ainda agora...), um saco do Mc com seu respectivo lixo, e, ao longe, no relance da corrida do carro, me parece um cão? Até completo o filme: um pequeno labrador bege, enrolado e morto, apenas uma criança? E sofro ali uns instantes. 
Que vejo um trapo preto caído na berma e me parece um gatinho pequenino, enrolado e morto, também ele apenas uma criança? E dá-me um frio na barriga, uma pancada na cabeça.
Que vejo um trapo, um desperdício daqueles da mecânica automóvel, à beira-passeio, e me parece um cão, um gato, não sei como não uma ovelha, ou 'ma velha, mas não, pois talvez seja pequeno demais para isso? E é o susto, o calafrio.
Que vejo um saco de plástico com um conteúdo qualquer (lixo orgânico? Roupa suja? Um tricot inacabado? Uma feze?) atirado para junto de um vidrão (expliquez-moi cette bêtise), e acho logo que pode estar um animal morto lá dentro? E viro a cara, para evitar prolongar o nefando momento.
Que vejo qualquer molho de penas amontoadas num recanto da sarjeta, e tento adivinhar se foi em tempos idos, porém recentes, o canário, o periquito, o bico-de-lacre, o papagaio de alguém, evadido das grades e correntes que o detinham, e cuja breve liberdade se transformou num voo picado com aterragem esmagadoramente infeliz? E "ai-não-quero-olhar!".
Que vejo um pombo assassinado asfalto afora, ainda uma asa no ar, tamanha foi a traulitada, e, ainda assim, também me condoo?
Que vejo um rato esmagado [percebe-se que é um rato derivados da cauda, que fica sempre inteiriça] algures no passeio (esta cidade é uma verdadeira metrópole, há um nico de tudo) e penso "ai-coi-ta-di-nho"?
Que vejo, vá, qualquer manchinha na estrada, e já acho que vou assistir a uma imagem traumática, que me perdurará por tempos infindos até me esquecer de mim e de tudo, mas daquilo não?

[Lisboa é uma cidade tão suja. Isto sim, dói-me dizer, mas é tão verdade.]

18/12/2017

Um pensamento natalício por dia, drivados da época # 2

Hoje venho com vontade de passar por mentirosa.
Mentira, estou só a preparar terreno, por saber de antemão que será este o meu rótulo quando acabar de contar um eloquente momento da minha ainda tão breve existência.
Ora bem. Nas minhas mãos faleceu a varinha mágica cá do lar. Nem de propósito, já vamos ver porquê. 
Como era máquina para ter menos de um aninho de idade, entendi mandá-la de volta à loja, acompanhada da prova da respectiva compra. Porém, não sabia eu onde se encontrava essa. Foi quando me lembrei da caixa dos talões de multibanco, que religiosa e piamente guardo, sendo relíquia para pesar, assim por alto e a olhómetro, cerca de quatrocentos e oitenta e seis gramas, mais grama, menos grama. São, se não milhares, pelo menos muitas centenas de papelotes daqueles. Perfeita e profundamente ao acaso, meto a mão na caixa (o palheiro) e zás (a agulha). Isso mesmo que estou a dar a entender. Só o (Senhor Doutor) Euromilhões é que não me sai na rifa. 
Foi o milagre de Natal.
Portanto, e em suma, e quanto a mim, está despachado por este ano o tal milagre. Queimei as possibilidades todas, tanto que até nem vou jogar mais, por não ter hipótese de me sair. (Mentira, esta sim.)

[Eu era menina para meter aquele mágico que fez desaparecer um Boeing, o Copperfield, num chinelo. I mean, literally. Metia o gajo numa Havaiana. Debaixo daquela coisa do meio, onde se (quem o tem) raspa o fungo.]


17/12/2017

Um pensamento natalício por dia, drivados da época

Isto já foi anteontem, mas ainda está válido. Ontem tive outro, mas tem que ficar para post posterior, que é como quem diz outras núpcias (ou segundas núpcias?). Se tiver mais algum hoje, venho aqui fazer o reZisto, como diria Amélia, aquela pessoa que nunca resistiu a dizer reZisto, no lugar que competia por direito a registo
Fui-me ao shopping evocativa de uma autêntica Mãe Natal: levava vestida a minha gabardina vermelha. Imbuíra em mim o espírito, logo pelas dez da madrugada.
No regresso, resolvi carregar para casa não só as compras daquele dia, como também as dos anteriores. Começava a ter pesadelos que me assaltavam a mala de Rosinha, e só a chatice de ter que repetir a caça à tralha, ou o deslavamento de meter um postalinho em cada sapatinho, com uns dizeres eloquentes, "Desculpa este ano, mas fui roubada e a tua prenda (caríssima!) foi na leva".
Não contei os sacos, até porque fui metendo uns dentro de outros, mas andavam pela boa dezena. E não era só o volume que me carregava a cruz nas cruzes, era mesmo o peso somado de tanta ceninha.
Então, pensei:
Não passa de hoje que vou dizer às crianças que o Pai Natal não existe. 
...
Estou farta disto, ele com a fama e eu com o desproveito. 
...
Quais crianças?
Bom, enfim, aos miúdos.
...
Aos meus pequenos adultos. 
...
Mas eles já não acreditam. 
...
Não interessa, é hoje.

12/06/2017

Adenda ao post anterior

Esqueci-me destes dois personagens:

Por que é que aquele deita a língua de fora cada vez que levanta os alteres? Já não lhe basta ter uma barba gigantesca para que pareça que a vai lamber, cada vez que faz o esforço. Parece um boneco de molas, tipo aqueles frades. 
[Por acaso, foi bonito: levantava os alteres, deitava a língua de fora; baixava os alteres, metia a língua para dentro.]
Coitada daquela miúda, tem o braço cheio de varizes grossas. Ou está sujo de tinta azul? Ai, espera, é uma tatuagem. A Vénus de Botticelli. (Tudo a ver com o cabelo preto e liso dela.) Podia tatuar a de Milo no outro braço. Haha, boa piada, a Vénus de Milo num braço.
[Este ser humano que ora digita merece o Hades. Não, que não há-des.]

11/06/2017

Esforço mental

Naquela passadeira está uma grávida, a caminhar. Vai ter uma menina. 
[Tenho sempre a mania que é uma menina que está dentro das barrigas. No meu caso, só falhei uma vez em quatro.]
Como é que ela aguenta a peruca no ginásio? Aquilo quase nem dá para fazer rabo-de-cavalo...
[É um fenómeno no qual tenho vindo a reparar: as mulheres negras usam perucas de cabelo liso — geralmente, preto —, que hão-de ser suportáveis em muitas ocasiões, mas, no ginásio, a fazer esforços, e com o calor que tem estado...?]
O médico mandou estas duas exercitarem-se, e elas vêm juntas, já exaustas antes de começarem, para não desistirem antes da primeira vez. 
[O "mal" nem está tanto na postura com que chegam. O semblante de quem já atravessou o corredor da morte é assim qualquer coisa de tirar o fôlego a quem já o está a perder de cansaço.]
Socorro, vai rebentar a variz àquele senhor!
[Se já me custa perceber que as mulheres aguentem as pernas com varizes — mas o espírito de sacrifício, próprio do género, pode explicar alguma coisa —, num homem não entendo de todo. Pois, se eles gemem à mínima dor, que se torna insuportável e excruciante em menos de um pum, que direi de varizes? Ah, o medo da operação, é verdade. Podem morrer da anestesia, e cenas.]
Olha que miúda tão gira, e corre tão bem. Não sendo magra, tem um corpo tão bonito. 
[Miúda mesmo, uns vinte anos de idade. (Conforme sabeis, eu não chamo miúda a mulheres dos trinta para cima. Cá preconceitos.) Haja exemplos de pessoas que, não tendo o esqueleto todo à vista, são bonitas, harmoniosas e manifestamente saudáveis.]
Aquele musculado-depilado-bronzeado não pára de olhar em volta, porque precisa de ser visto.
[Este tipo de prototipo deixa-me nervosa. E falam alto, e fazem a comunidade saber que ontem não foram à praia, e hoje também ainda não, dando a entender que estão em síndrome de abstinência da manutenção do seu ar plástico.]
Coitado do jovem, tem a t-shirt tão suada e ainda agora começou. Terá problemas de sudação? Serão as hormonas? Digo-lhe daquilo do botox? 
[Claro que não digo nada. São as hormonas. E eu não sou mãe dele.]
Olha, aquela deu em chicotear o chão com um par de cordas pesadíssimas. Não pode com uma corda pelo rabo, quanto mais içá-las. Sou tão má. 
[Às vezes, os PTs arranjam exercícios tão inúteis quanto parvos. A mim ninguém me põe de gatas nem a dar pulinhos ridículos, quanto mais a agarrar duas cordas da grossura de uma jibóia e sovar com elas o pavimento. Mas isto, cada uma sabe de si.]

Imagino o que pensam de mim, em compensação. 
O que é aquilo?

17/03/2017

Objectivo Biquíni 2017 - Dia 1

Levantei-me toda podre, derivados da rinite, depois de ter tomado o pequeno-almoço na cama, como acontece há vai para mais de duas décadas, e sim, como sempre me disse a minha mãe (e é só nas mães que eu acredito), nasci com o rabo virado para a lua: uma lua muito cheia, de uma banal segunda-feira à hora de almoço, mas, ainda assim, eficaz a este ponto.
O meu primeiro pensamento do dia espelha-se aqui:


O sacana, em vez de me dizer o habitual, "És tu, minha princesa, fora as outras Brancas de Neve todas que para aí há", pôs-se com metáforas que me fizeram lembrar aquele macaco (que, pelos vistos, é o que conhece o verdadeiro segredo da elegância, seja lá ela de que espécie for).
Tossi as tripas e os brônquios por solidariedade, ergui-me a duras penas, e trabalhei durante duas horas mal contadas, ao cabo das quais tive vontade de comer. Bebi um café e parti para o ginásio.
Malhei em modo auto-punição, cheguei ao balneário e assoei-me, o que fiz de forma de tal forma ruidosa, que tive que interromper a meio, pois já estava a ser vítima de olhares oblíquos das nuas todas, que precisam de um silêncio sepulcral para decidirem se vestem primeiro as cuecas ou o soutien. 
Tenho fome. Vou almoçar.
A partir de hoje, só como gelo e bebo água, até ficar qual cão escanzelado e leishmanioso, que a minha família tenha orgulho de passear na praia. 

16/03/2017

Pensamento escatológico do dia # 22

Estava para aqui a assoar-me, assolada que ainda estou da minha estimada rinite, produzindo um estrondoso ruído, ou, mais concretamente, um estrépito histriónico, e, assim, transpondo um considerável peso do nariz para o bocado de papel higiénico que me valeu, e foi quando me lembrei do aspirador nasal, aquela maravilhosa técnica de sucção do dejecto nasal, passe a redundância (ou é um pleonasmo?), inventada para que nenhuma mamã deixe de saber que o amor pelo rebento nunca rebenta, é incondicional, ilimitado e indecente. Pois que poucas serão aquelas que, ao procederem à aspiração das fossas de suas criações, não lhes tenha chegado à boca uma amostra da dita secreção, tamanho o empenho e a determinação que lhe dedicaram. 
E, no fundo, lembrei-me de perguntar se é chato pedir a alguém de confiança que me dê uma chupadela convicta na outra ponta do cabo, só para me aliviar deste excremento que, em épocas como a actual, nos ataca até ao cerebelo. Falo por mim.


27/02/2017

Na blogosfera como na vida # 2

Parecendo que não, tudo isto está relacionado com o Carnaval. 
Estava ontem a meditar sobre um mantra daqueles meus, com ar e cheiro [lá mais para a frente, já vamos perceber por que é que hoje o verbo cheirar me é tão pouco caro] de pita corada, 


e, nem de propósito, hoje decidi mascarar-me. De jovem inconsciente e avariada dos chifres. Bem, não foi bem, mas tinha umas cenas para fazer que implicavam algum endurance da minha parte, e vai daí e calcei aquele téni que faz de mim a jovem mais jovem mais ganda-maluca da minha cabeça. 
Depois pisei cocozinho de cãozinho. 
Na verdade, pisei uma bosta de vaca, saída do orifício de um boi cão a sério. Um tarolo tipo um toro, não sei se estão a visionar. Daqueles que a pessoa pisa e se colam à sola, fazendo-nos uma ternurenta companhia por mais três ou quatro passos, até nos apercebermos de que algo esponjoso em nós se cola ao passeio, na mesma medida em que nos provoca um suave coxear. Tipo pastilha elástica xxl, não consigo ser mais específica nem mais gráfica. Lamento. 
Não posso dizer que tive um pensamento escatológico, porque sou sempre a mesma pelintra desaustinada, e ocorreu-me logo que pisar a defecação é sinal de dinheiro. (Também possuo uma alergia brandamente furiosa a esta palavra, mas, de vez em quando, tem que ser. Já bati na boca.) (Com pouca força.) (E tirei os anéis.) Até fiquei contente, no fundo, apesar de ter tido que limpar com um palito aquelas reentrâncias todas da sola do téni. E andado a esfregá-lo na relva e nas poças de água que encontrei pelo meu caminho. (Vá, mas não sou assim tão boa, que bem roguei uma ou duas pragas aos donos dos cães, e à fraca mão sem ferro do nosso policiamento.)
Apesar de tudo, fiquei a cheirar mal dos pés. Daquele pé, pelo menos.
No entanto, retirei uma grande lição, que há-de ter sido dimanada lá pelo cosmos: nunca saias do salto. 


08/11/2016

Pensamento escatológico do dia # 21

Por acaso, ando há dias a pensar na chatice que é um gajo ter que limpar o cu.
Um contorcionismo desumano, uma despesa absurda em papel higiénico, já para não falar da cara de cagão que se faz quando se percorrem os corredores do supermercado com a palete na mão.
Feliz era o Homem primitivo, que zás e siga, arriada que ficava a coisa. Depois havia de se esfregar numas relvas ou numas folhas, ou ia a uma poça de água tratar do assunto. Também não deve ser por acaso que, mesmo no final da defecação, nos acontece aquele mini-chichizinho, que mais não é senão a ancestral solução para a higiene do lá de trás.
Andava eu taciturna por estes pensamentos, quando veio parar aqui ao lar um prospecto. 
Por acaso, a capa deixou-me triste e revoltada,


tanto que até comentei, em desabafo:
- Até para venderem penicos têm que pôr uma gaja nua?
Havia alguma necessidade de a senhora estar malcriadamente de costas, exibindo sua zona sacra sem pudor? Havia. Foi precipitado da minha parte. É claro que faz sentido. É lá que tudo assenta. E não se trata de um penico qualquer. 
Abri então a caixa de Pandora que encerrava o que veio a verificar-se uma revelação epifânica.



Fiquei particularmente tocada com a existência de jacto de senhora e jacto standard (numa de "se não és mulher, és pessoa"), com a gravação das minhas configurações pessoais (donde, poderei sentar-me sempre com a confiança e a certeza de ser reconhecida pelo vaso), com a luz de presença (que jamais me permitirá enganar-me no alvo e ir sentar-me na banheira ou no lavatório, quando aflitinha a meio da noite), e com o secador pós duche das partes pudendas (para que não sintamos aquele desconforto da roupa molhada ali assim).

Vou já encomendar meia-dúzia, que é o que nós somos, e assim não há filas para a privada, nem lutas corpo-a-corpo para decidir de quem é a vez.

01/08/2016

No limiar

Apercebo-me da quantidade de médicos, enfermeiros e restante pessoal da UCI e do INEM, que fumam. Quem convive diariamente, e em constância, com o limiar entre a vida e a morte, ainda que sejam dos outros, provavelmente não estima uma nem teme a outra da mesma forma que o faz quem não conhece essa fronteira.

29/07/2016

Pensamento escatológico do dia # 20

Sem tempo para melhor do que isto: alguém me consegue explicar a nova moda juvenil, que é começar todas as frases por "caga"?

- Caga, isso é bué louco.
- Caga, tive a melhor nota.
- Caga, vou à praia.

OK, suponhamos que até defeco. E então?
Acreditem que o "caga" é o novo "Eh pá".
Um dia, será promovido a nome de gelado. Fica a dica.



10/05/2016

Pensamento escatológico do dia # 19

Blogger, seu maroto... 
O que me vale é a minha tripa santa.
Hei-de propôr a canonização da bichinha. 

Anotação 

22/04/2016

Pensamento escatológico do dia # 18

Hoje acordei e lembrei-me que existem pessoas que defecam no local de trabalho (e em qualquer penico, em geral), como se estivessem em casa, e que isso pode ter sido o que demoveu o povo de alinhar nas minhas ideias para resolver aquele estado de emergência. (Mas também, tenho sonhos tão estranhos, que acordar e pensar logo em cocó não é nada de alarmante em mim. Outro dia sonhei que toda a gente — e cães e gatos — andava de chucha na boca, pela rua, exceptuando eu. E aquilo provocava-me uma certa inferioridade.)
Fomos avisados ontem de que hoje não teríamos água no edifício até ao meio-dia. Estávamos trinta na sala, e cada um panicou à sua maneira. 
Eu acho que fui talhada para acorrer a um cataclismo — salvo seja — como voluntária. Daquelas que, no rescaldo, são coroadas Miss Salvação da Lavoura, com faixa, ceptro e tudo. Sugeri que fizéssemos chichi à mesma, todos em cima uns dos outros (os chichis, claro). Um franzino gemeu: "Eu não quero ser o último!". Realmente, pensei eu. Então opinei que o melhor era cada um levar uma garrafa de água, para poder despejar no final da micção. Ninguém se riu, mas também não era para se rirem. Nos momentos de grande crise, o pessoal tem uma enorme falta de todos os sentidos, de humor e prático incluídos. 
Hoje lá fui e, como tenho a mania que sou selvagem, emborquei uma garrafada de chá, logo a seguir ao café. Cheguei às 11 da manhã e já tinha urina até às têmporas. No fundo, aquilo deu-me calor, já que, de seguida, amandei-me a uma garrafa de água. 
A água (canalizada) voltou perto das 13 horas, e eu só não estava capaz de fazer chichi pelos furos dos brincos porque pratiquei um pequeno assalto a uma cabine da casa-de-banho, destrancando a porta trancada, e aliviando litradas. Assistindo não ao milagre, mas sim ao fenómeno da multiplicação: 1 café + 1/2 litro de chá + 300 ml de água = 1 decalitro de água + ureia + ácido úrico + outras substâncias, em estado puro e quase duro.


09/04/2016

Pensamento escatológico do dia # 17

Ainda sobre a minha cândida mania de juntar duas expressões populares e fazer nascer uma só: nem sempre, afinal, dessa união sai algo de viável.
Meter o pé na argola 
e
Mijar fora do penico
equivalem-se, em intenção, ou mais ou menos. 
Então, saiu-me, direitinho, boca fora,

Não pode pôr o pé fora do penico, que fica logo tudo a saber.

Parei o raciocínio, e algo me tocou os sininhos ao ouvido de que pés e penico não faziam sentido juntos, no momento em que se me formou a imagem mental de alguém, com os dois pés, juntinhos, dentro de um penico, muito bem comportada. E suja.

10/12/2015

Quem tem olho/

Pensamento escatológico do dia # 16

9:00 horas.
Ela entra e acho que deseja bom dia. Assim, a seco. Mas eu não me importo. Para além de ter dezoito anos de hábito disto, sou uma pessoa apreciadora das diferenças de carácter entre os humanos e não tenho que ser a educadora de infância do povo todo. Já me basta ser a mãe.
Então, respondo, como sempre:
- Bom dia, Sandra.
E faço uma pausa, curtíssima, até questionar — por genuíno interesse, mas, sobretudo — e hipocritamente — porque, se não o fizer, ela amua por mais cinco dias. E eu, repito, já me basta ser a mãe do povo todo. O papel de madrasta assenta-me que nem uma luva de boxe apertada:
- Então, está melhor?
- Heh... — responde ela, com um encolher de ombros — já está menos dorido.
E eu quedo-me, muda. 
Menos dorido.
O quê?
Quero muito perguntar — por genuíno interesse, mas, sobretudo, porque as explicações medico-patológicas dela são verdadeiramente hilariantes —, mas trava-me a discrição, a falta de paciência para descrições desconexas extra-longas, as imagens mentais que me assaltam, desarmada, à mão armada, e acho que também o peso dos dezoito anos a que a aturo (e ela a mim). Então não querem lá ver que também devo ser um bocado mãe desta?

09/12/2015

Ela fala tanto # 4 /

Pensamento escatológico do dia # 15


Hoje despertei ao som, à luz e à imagem (gráfica, passe o pleonasmo) do conteúdo gástrico e intestinal dela.

03/12/2015

Pensamento escatológico do dia # 14

São imagens que a pessoa enfrenta, ainda antes das 9 da manhã.
Isto foi um cagadócio aventado às malvas. Com amor. 

12/11/2015

Apercebo-me da existência de um padrão...

Só soube hoje. Por isso, para mim, a notícia está actualíssima: o Vaticano fez um calendário com os padres mais bonitos (desconheço o termo de comparação achado e quais os critérios adoptados para a selecção, mas deve ser aquela cena da beleza consensual, ou com-sensual, que a pessoa não sabe). Já foi em 2012, mas o que é que isso interessa? Os rapazes não hão-de ter amadurecido assim tanto em três anos. E devem continuar a vestir as saias lá em casa. 


São giros, chiu. Eu gosto mais dos mais despenteados, mas isso sou eu, que também tenho uma alergia ao pente. Portanto, Setembro e Dezembro. O de Junho é giro, mas lembra-me demasiado o actor Robert Sean Leonard (parece que não, mas eu sou um poço de cultura, oh captain, my captain, oh House, my Doc.)

Isto lembrou-me aqueles malucos de Setúbal, que, mudando o que há a mudar, são pessoas do mesmo género. De resto, ambos os calendários têm a intenção benemérita de heteroajuda, ou muito me engano. Tipo aquilo dos escuteiros e dos escoteiros (que eu nunca sei a quais é que estou a comprar o calendário).


Estava, plácida e muito santa, nestes pensamentos, observando o calendário dos padres, lembrando-me do dos bombeiros, quando disse assim para com o meu fecho éclair: 
Hummm, vejo ali um padrão...
Fiz uma pausa, não cofiei o meu bigode porque não o encontrei, não fumei um pensativo cigarro porque já deixei há muitos anos (de pensar também), não ajeitei o monóculo porque um é pouco, e, retomando a minha própria linha de pensamento, discorri:
... e nenhum bombeirão...


26/10/2015

Pensamentos que me germinam na caixa, porém nunca me chegam à boca # 10

Sob o dilúvio, transpondo as trevas, faróis vermelhos pela frente (ok, são luzes traseiras, mas carambas, isto é linguagem poética, são eufemismos, genitais!), e atravessando os mares recentemente desabados do firmamento, surge, desiluminado e frágil, o boi de Linda e, lá dentro, sua esbelta figura, cujos negros olhos penetram a negritude da noite, e, tétrica, melancólica e soturna, cogita:

Mas porra, isto não é já desperdício de energias e reservas naturais? Anda uma pessoa a fechar as torneiras o mais que pode, arriscando-se a abrir os pulsos e a encher os dedos de deformidades, e vocês aí em cima nessa farra mijadeira? Haja decência!

(Eu sabia que chegaria o dia em que escreveria um post a falar de minha pessoa na terceira.)