Enganou-se, o carteiro. Muita mania tem ele de vir tocar à minha porta. E não toca sempre duas vezes - é uma, à bruta, e assim pretende invadir o recesso de meu lar.
Eu também tenho problemas com carteiros e entregadores em geral. Felizmente, hoje não tinha o meu robe de proxeneta vestido quando o homem aqui me apareceu.
Tenho a meu favor a desculpa de que estava à espera de um livro. Sai-me um pacote molinho, mas a pessoa nem pensa. Está na gula, aquele pecado capital que pratica todos os dias, com todas as coisas visíveis e nem as invisíveis se safam. De resto, nenhum dos outros seis pratico com afinco, uns porque não posso (dizei-me como é que uma pessoa que aufere um niquelinho sem jeito nenhum pode ser avara), outros porque não quero (olha eu de invejosa, que bonito. Ou irada), outros ainda porque desconsidero (soberba e luxúria? Só se for soberba luxúria, que menos do que isso são piners e a pessoa não se desmerece assim).
Perdi-me de gula, eu, hoje. O pacote, vindo da China (o livro que espero vem de Portugal, mas posso ter tido uma momentânea confusão geográfica, drivados à idade), trazia lá dentro esta grande querida, que caiu directamente dentro do meu coração.
E, embora o saco tenha lá escrito o verdadeiro destinatário, a mim está-me a custar a ideia de ter que devolvê-lo ao carteiro, ou ter que ir entregar a minha Gira Pomba (já lhe dei nome e tudo, mê môri) à porta de quem pagou para a possuir.
Pronto, escusam de dizer. Já sei que:
1 - Tenho que ir, e vou. Tudo menos a avareza. E a luxúria;
2 - Podia ter centrado melhor o focinho da Gira na foto 2, mas who cares? (que eu também falo estrangeiro do Brasil);
3 - O verniz é L'Oréal (ninguém me paga para isto), n.º 304;
4 - As minhas paredes são azuis.
