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08/10/2018

O sarilho do sarau

Por acaso, não é bem um sarau (mas compunha o título desta posta), não só porque eu já não tenho idade para isso, como também porque não. Mas será uma mega-aula, um espectáculo dentro da própria, uma coisa nunca vista — sei lá se não reportada em vídeo —, especialmente porque a pessoa humana vai estar presente, particularmente porque cá o ser vivo vai actuar, mormente porque não sabe a coreografia da música que lhe calhou na rifa, sobretudo porque nem sequer se lembra de qual a melodia em questão. Portanto, tenho cinco dias para 1. Descobrir qual é a música que acompanhará a queda em Cristo de uma grande dama; 2. Repuxar das pontas da memória pelo esquema de dança que irei protagonizar a) Ao lado da titcha [não vai correr bem]; b) Sozinha [wowowow, gentchi, vou criar a dança do piléqui!].
Em modo pré-traumático, apelei a uma companheira de bailaricos, que me esclareceu — ou não — que a dita partitura era esta:


(Fala de dores de cabeça, e cenas que não me assistem, mas também não estou em condições de negociar outra.)
Não estou muito crente, não só porque aquela que me atraiçoa constantemente não me diz que seja, como também porque, a ser, é das que tem uma das coreografias mais fáceis, e eu tinha na ideia de jerico que me tinha calhado uma muito infazível. (A titcha é uma cómica, quer divertir-se por conta da senhora...?)
Bom, à cautela, comprei uns calções novos e lindos para estrear na ocasião. As bailarinas não usam tutus novos para os espectáculos? E os futebolistas, não estreiam toilettes novas em cada jogo? Então, é a mesma coisa. Deixem-me.


04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

29/09/2018

As máquinas dispensadoras e eu

É sempre o mesmo imbróglio, cada vez que quero tirar um café das máquinas, designadamente por causa da quantidade de açúcar, que pretendo nula: esqueço-me de que devo começar por carregar no botão até desaparecerem as barrinhas todas, isto antes de escolher o que quero, antes de meter a moeda, antes de qualquer coisa. O ideal é já ir com o dedo espetado para o botão do açúcar mal cruzo a porta, senão aquilo entrega-me um xarope de café que, mesmo que não mexa com a palhinha plástica, sabe a rebuçado de açúcar com café e mais nada. Tipo aqueles cubos que se dão aos cavalos.
Mas, desta vez, foi diferente: quis uma barra energética com sabor a chocolate, uma dessas criações demoníacas que nos convencem (tits) que estamos a optar pelo bem, e nos farão magras como cadelas sarnentas e leishmaniosas, que é o que todas — mesmo as mesmo magras — queremos ser. Ninguém se iluda, que eu também já as perdi todas. 
Então, acerquei-me da dispensadora e reparei que a ranhura das moedas estava tapada com fita-cola, embora a das notas não. Ainda assim, escolhi a minha barra, digitei o número que lhe correspondia, e a máquina respondeu-me por escrito que devia inserir € 1,20, em quantia certa. Ora, como não conheço notas de um euro, muito menos de vinte cêntimos, considerei a possibilidade de haver ali qualquer confusão que não seria eu a deslindar, pelo que retirei a fita-cola e inseri uma moeda de um euro por ali adentro. Imediatamente, a máquina engoliu-me a moeda, só faltou ouvi-la mastigá-la e eructar no final. Já nem meti a de vinte cêntimos, não fosse engasgar-se e expectorar todas as que tivesse lá dentro. 
Lá tive que ir ao balcão reclamar do meu desaire, mas, desta vez, ao invés de "Nós não somos responsáveis pela máquina", ela disse-me "Eu sou nova aqui, não percebo nada daquelas máquinas, vou reportar". Portanto, acho que, logo a seguir, mal eu virei costas, inconformada e pobre — e também sem a minha barra —, reportou. 

23/09/2018

Chafé = chá de café*

Deu-se que fui tirar um mísero café, a troco de cinquenta cêntimos sem troco, da máquina dispensadora, mas, ao invés disso, ela dispensou-me um copo de água quente um bocado suja, tipo um chafé chalado, e eu queria mesmo era uma bica daquela bica.
Então, rarefeita, contrafeita e quase desfeita, dirigi-me a penas apenas ao balcão, copo de mijaroca na mão, já com a resposta que ia receber preparada: "Nós não somos responsáveis pela máquina".
- Nós não somos responsáveis pela máquina. — Disse-me ela assim para mim. 
Foi quando comecei a argumentar que não podia ficar sem café (não podia, efectivamente) e sem dinheiro. Evitei aquele outro chavão, não é pelo dinheiro, é pelo princípio (porque, na verdade, também era pelo dinheiro, porque eu não sou só pelintra, sou também sovina), e tratei os meus cinquenta cêntimos como se fossem cinquenta euros, a ver se dava a entender à pessoa que a grande questão se prendia mais com a necessidade de injectar o líquido no sistema sanguíneo do que pela pobreza franciscana em que me ia deixar tamanha perda. Ela sossegou-me, garantiu-me que o técnico ia lá todos os dias e que, no dia seguinte, me restituiria a moeda. 
(Lá fui pular sem cafeína, e depois admiro-me que não rendo o que gostaria no ginásio.)
Não fui no dia seguinte, mas para aí dois dias depois. Directa ao tal balcão, quis saber da minha moeda. Diz-me ela que ainda não era possível dar-ma de volta, que eu aguardasse mais uns dias, e foi aí que só não perdi a cabeça porque as vértebras não o permitiram. No entanto, apesar da revolta interior que ameaçava libertar a besta que também me habita, questionei, quase em falsete:
- Então quando é que isso é possível? O técnico não vem todos os dias? Era só tirar a moeda da máquina e restituir as indevidas. Ou não?
- Não, porque a situação é reportada e ainda vai à central. De lá é que dão o ok para as restituições. 

(Senti-me morrer um nico, como everytime we say goodbye.)


* não fui eu que inventei, créditos para um grupo com quem trabalhei, num local onde era recorrente fazermos chafé. (Acho que por engano.)

19/09/2018

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 5

Vá, que eu preciso de desabafar. Vão lá buscar os mochinhos, rodeiem-me e escutem-me, ou deixem-me.
Saí de casa com meia-hora de antecedência relativamente à hora de começo da aula de dança, para percorrer um percurso que não são mais do que dez minutos, mesmo tendo em conta os semáforos, as passadeiras, os xoninhas e etecetera. Subestimei a hora de ponta de Lisboa, subestimei que há uma casta de super-xoninhas que deixa o carro ir abaixo quando abre o verde, subestimei o quão difícil é encontrar lugar para parquear Rosinha, subestimei que preciso de cinco minutos só para me equipar, e até à paisana fui: um vestido que já deve ter sido mais largo, porque dantes me servia e agora está justo quase até ao sufoco, e uma sandalete de salto alto, que eu também não faço por menos. 
Digamos que, quando passei à porta do ginásio, faltavam quinze minutos para a aula, e de lugar para estacionar, nem sombra. Nem ao sol, na verdade. Afastei-me, assim, cerca de duzentos metros, e estacionei num parque daqueles que não só estão munidos de coluna de pagamento da EMEL, como também possuem um chão aos favos de mel em cimento, que consegue ser, simultaneamente, uma m. para os pneus e outra para os pés. Aconteceu, é claro, que a coluna de pagamento do parque ficava a, pelo menos, dez metros de onde eu me encontrava, mas o remédio era só um, como nas Finanças: pagar e não bufar. Perdi, portanto, a conta ao número de vezes que torci os pés nos favos de mel, até alcançar o pagamento do parque, e depois repeti a proeza no regresso, para pôr o raio do selo no carro. Palavra que equacionei usar a aplicação, ou então arriscar a multa, que me ficaria seguramente mais barata do que se tivesse fracturado um osso, que não fracturei. Neste meio tempo, já só faltavam dez minutos para a aula, eu estava a duzentos metros de salto alto da porta do ginásio, e o vestido, encharcado pelos meus nervos, havia-se-me colado à derme de tal modo que ponderei seriamente levá-lo para a aula, calçando apenas os ténis. Apressei o passo e cheguei quatro minutos antes do início da aula. O arrancar do vestido de mim foi algo doloroso, já que exigiu um momento em que, em asfixia, e em claustrofobia, tive que me contorcer toda lá dentro, arriscando a luxação dos dois ombros e dos dois cotovelos, para além da cervical e de todas as vértebras. Fui acabar de me vestir dentro da aula, já que foi lá que me calcei. (E sim, atravessei o ginásio a correr, descalça, como a outra.) (Não tem importância, eles estão habituados.)
É óbvio que não dancei nada de jeito. 


10/09/2018

Curtas (ou nem tanto) e grossas

Fui chamada para o "palco" numa aula de dança, para acompanhar a instrutora numa coreografia. Ora, eu sofro de professorite, um síndrome que eu própria inventei, e que se explica pelo exponencial enervamento quando na presença de um mestre. Assim como existe o síndrome da bata branca, deveria existir o síndrome do quadro de giz (ou da caneta de feltro, ou interactivo, o que é que isso interessa?)/ dos óculos na ponta do nariz/ da autoridade não parental/ sei lá do que mais. Deve ser pela dificuldade na sua definição que o síndrome não tem nome. Logo, não existe.
Se eu sou de uma timidez caricata nos momentos em que me sinto avaliada, que são todos os da minha vida, imagine-se o que será (foi!) diante de uma plateia inteira. Não correu mal, mas porra. 
[Perdendo uma seguidora em 4, 3, 2, 1...]

Nem de propósito, deparei-me com este aviso
num determinado Museu desta cidade
(sou tão blogger, vou a museus)
(acho chato contar que a que nos recebeu estava com os copos)

~

À saída de uma aula de Jump, encontrei o enfermeiro que me tira sangue quando o vou dar. Não me lembro do nome dele, mas sei que o sei. Paulo, Pedro, João, um apóstolo. Também pode ser Sanguessuga, hei-de sugerir-lhe. Ele ia fazer Step, e eu devia ter ficado a assistir, porque se é aquela animação a sugar sangue às pessoas, que direi de uma aula de Step com ele ao lado. Mas eu fujo delas como o diabo da cruz, demasiada coordenação para a minha lateralidade excessivamente bem definida.
Depois da primeira surpresa que se sofre quando se encontra alguém fora do seu cenário, Olá!; Olá, enfermeiro!; Eu conheço-a!; Eu também o conheço, do IPS!; Eu sou o enfermeiro!; Eu sou a que dá sangue,
seguiu-se um diálogo muito digno e muito técnico, especialmente tendo em conta a pequena multidão que ali se encontrava a escutá-lo:
- Fez lá aferese?
- Não, porque não posso, tenho quatro filhos. Só sangue. Olhe, vou lá para a semana.
- Boa. Adeus!
- Adeus, bom treino.
(Sou tão simpática.)
(E blogger.)

~

Como passar dados de Ai-fostes para o computa: esquece. Dava pano para um post daqueles que ninguém lê. Noutro dia.

~

Voltei a pintar o cabelo em casa. Cansei-me da seca de ir ao salão do bairro. E a qualquer outro. Levei horas, mas ficou tão bem pintado que ninguém diz que eu não nasci já assim, morena e gira, e não aquela loura de olhos azuis, enorme e tronchuda, que fez o terror no berçário. (Not, calma. Já nasci assim, mesmo, esta delicadeza de dar dores.) Até estou a ponderar abrir o meu próprio estabelecimento, comprar baldes desta tinta e pintar as minhas freguesas todas da mesma cor, vulgarizando (ainda mais) esta que a Natureza naturalmente me forneceu.



(Isto já está demasiado blogger. Acabou.)

05/09/2018

O elefante no meio da sala

Estava eu muito descansada, à-roda-à-roda-à-roda como uma ratazana, girando e rodopiando na aula de dança, quando, derivados ao aparelho e sua consequente maior salivação,
(porquê, não se pode falar sobre cuspo na blogobola? Quer dizer, as outras falam de piolhos, cacos de monco e puns de traque, e eu não posso falar de cuspigongos?)
que, meninos, aumenta exponencialmente quando se coloca o objecto estranho na boca, me salta um perdigoto tamanho xxl para o soalho da sala de bailarico, mas uma coisa gigantesca, daqueles que até fazem um arco no ar, se elevam acima da nossa cabeça, e aterram, estatelados e grandiosos, nem bem aos nossos pés, mas a uma distância suficiente para que, embora não possamos esborrachá-los, eles não nos saiam do campo de visão nem do Mundo, o que nos permite pressupor que todos aqueles que nos rodeiam o vêem, porém fazem a fineza de o ignorar, o que é, convenhamos, muito mais constrangedor do que se, efectivamente, não o avistassem. Um pouco a cena do elefante no meio da sala, que toda a gente vê, mas todos fingem que não. 
A própria coreografia que a humana tentava seguir no momento também não deu uma ajuda, pois não surgiu nenhum passo, por mais que me adiantasse, cruzasse ou saltasse, que calhasse pisar o perdigoto. É certo que poderia ter saído do esquema, saltado a pés juntos em cima da poça, mas sei lá se aquilo não dava em rebentar e lá ia eu pelos ares, cheia de saliva por mim acima. Além disso, tal atitude daria ainda mais nas vistas. Quem é que pula em cima do elefante? Pois. E ele ali, brilhante, exuberante, rechonchudo, só faltava içar um flyer a dizer "Mamã, estou aqui".
É claro que, até se evaporar completamente, se transformou numa pequena lagoa, depois num riacho, logo a seguir num oceano em modo tsunami. Só depois encolheu, e, quando fui para o pisar, com todos os cuidados para não escorregar - a ver se alguém lá meteu um daqueles avisos de piso molhado, é o metes! -, ele já se evaporara para não sei onde, quiçá para a atmosfera, ou para a minha pele, onde terá sido reabsorvido e reentrado no meu sistema linfático-nervoso e de hoje para amanhã se transformará na maior pérola de canto de boca que a História ilustrada da minha rua já viu.


23/06/2018

Cycling, uma experiência esmagadora

Na pendência do dia de ontem, fui-me a uma aula de cycling. 
Tudo isto, porque tenho a PDM que sou a mãe mais fixe do pedaço (constituído por meu lar), e não consigo dizer que não, incapacidade que detenho para aí desde que corrigi o vício, logo após ter aprendido a segunda palavra de todo o meu já extenso vocabulário. (A primeira foi "pai"; a segunda foi, exactamente, "não".)
À chegada, o instrutor perguntou aos cerca de quarenta da enorme sala, quem é que estava ali pela primeira vez. Só eu e outra levantámos o braço, mas, por alguma razão que não me assiste, ele só se acercou de mim para me dar explicações acerca do funcionamento da máquina (bicicleta — cujo nome é uma metáfora, já que não tem rodas — estática). (Há-de ter pensado, "Aquela senhora tem uma alta probabilidade de faleceri, deixa cá dar-lhe uma aula teórica, e assim isento-me já de responsabilidades".)
O ar condicionado estava avariado, o que, passe o pleonasmo, condicionou grandemente a minha performance. 
De resto, correu tudo mal. O selim é uma peça claramente congeminada pelo Cão, ou por um torturador profissional (que, como se sabe, são uma e a mesma pessoa), coisa para esmagar uma determinada zona do corpo da humana, a níveis olímpicos, tal e qual um esmagador de alhos. (Dei comigo a olhar para os meus companheiros de Volta e a temer pela masculinidade deles, se é que algum ainda a conserva.) Tanto que, nos momentos em que o instrutor mandava pedalar de pé, cá o ser era a primeira a elevar-se e a pedalar, ou sei lá a fazer o quê com as pernas e os pedais. 
Ao cabo de quarenta e cinco minutos de senta-esmaga-aumenta-a-intensidade-pedala-de-pé, e muitas gotas litradas de suor escorridas, a tormenta acabou e foi possível apear-me e até ser cínica e mentirosa, quando o mestre me ordenou/pediu/perguntou/afirmou, "Isto é para continuar", "Claro que sim", de cara deslavada e suada, e toma lá bacalhau.
Um dia, à chegada ao Purgatório, Alguém me perguntará: "E tu, filha, o que fizeste tu de bem?", "Ai, eu fiz cycling durante quarenta e cinco minutos para ser querida com uma filha". E certamente levarei dois merecidos pares de estalos, com a palma e as costas da mão, "Vai para o Diabo que te carregue, que isso é coisa para te fazer merecer o Inferno".
Vá que hoje não tenho dores. Devem estar reservadas para esse momento.

18/04/2018

Post interdito a machos # 8

(Porque só uma mulher pode entender todo o conteúdo que segue.)

Estávamos numa aula aquática, já havíamos sido sujeitos a todas as sevícias de que os monitores se haviam lembrado, e, nos últimos quinze minutos, ainda tiveram a peregrina de nos mandar sugerir fazer um jogo de futebol (polo, ou lá o que é). 
Já noutro post denunciei que a água da piscina nos dá cabo do verniz, seja ele gelinho ou quentinho manicure normal. Começo a suspeitar que lhe deitam gotas de tira-verniz, assim como desmaquilhantes vários, do dos olhos ao facial. Uma pessoa entra qual bailarina aquática — se descontarmos a touca do Demo e o fato-de-banho abaixo de péssimo —, e sai transfigurada em si mesma, com mais dez anos em cima das peles. É como mergulhar no Grande Tanque de Elixir da Eterna Velhice.
O jogo decorria na sua (a)normalidade, apesar de as duas equipas estarem claramente desequilibradas: uma delas — que, obviamente, não era aquela que me calhou — tinha dois homens, e não eram eles dois elementos quaisquer. Eram dois tubarões lá para os seus trinta e picos, com uns cabedais de meter respeitinho fora de água, quanto mais lá dentro. Acho que ganharam a partida, e só não tenho a certeza porque os instrutores, feitos treinadores-árbitros-fiscais-de-linha, boicotaram grande parte dos golos que a equipa adversária havia de ter marcado, desviando a baliza no último momento. 
Mas não é isso que interessa agora aqui. O que vim contar foi o grande momento que protagonizei, e que só não foi de puro fair play porque se deu com uma das minhas companheiras de equipa: lá no meio da confusão aquática, a bola do nosso lado, perto da baliza adversária, e, portanto, numa fase do jogo que requeria alguma atenção acrescida da minha parte, ouvi a senhora mais idosa que se encontrava em campo (capitã?) a gritar:
- Perdi uma unha!
É claro que nem me passou pela cabeça levar o aviso ao pé da letra (até porque se tratava de uma unha da mão), pois, naquele relance que dirigi à mão da senhora, percebi que se tratava de uma unha postiça. Acerquei-me dela, certifiquei-me da cor das restantes nove (um castanho-bordeaux, fácil de encontrar na transparência-azul da piscina) e, qual baywatch da unha tresmalhada, anunciei:
- Vou procurá-la, já lha entrego.
Ela sem acreditar, assim como eu. 
O que é facto é que a unha passou por mim a nadar, fazendo piruetas em direcção ao fundo da piscina, toda ela num parafuso bonito de se ver. Tentei apanhá-la, mas a libertária continuou no seu passo de natação sincronizada até ao chão. Pus-lhe um pé em cima, agarrei-a com os dedos (nós somos tão primatas...), levantei o pé e eis-la. A senhora quase chorou, interpretem como quiserem.
O jogo não havia parado, e terminou passados minutos, acho que empatado. 

29/03/2018

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 4

Ai-fostes veio parar-me às mãos guarnecido com uma aplicação assaz atractiva, quanto mais não seja por ter, no seu ícone, un petit coeur. Responde ela pelo nome de "saúde" e é a que — de entre outras valências que não explorei — nos mede a distância diária que percorremos a pé ou a correr (como se corrêssemos com recurso a outra zona do corpo que não fossem os pés). A mesma aplicação peca, a meu ver, pela incapacidade intrínseca que lhe é inata, de nos contar os passos em situações de não deslocação, ou seja, quando maior é o esforço, que é no ginásio: elíptica, passadeira, jump, body pump, aeróbica, etecetera. Pode uma pessoa estar a finar-se de exaustão cardio-gluteal durante uma ou duas horas, que a aplicação do coraçãozinho lhe atribui muito menos passos (na verdade, igual a zero) do que se for bater pernas para o shopping no mesmo espaço de tempo.
[No entanto, existem casos como o meu em que me parece justo que assim seja: a marcha fora do ginásio é cumprida (e comprida) de saltos altos, pelo que até deveria valer o dobro, como aquelas campanhas em África.]
Depreendo, não obstante, que Ai-fostes contabiliza a passada de forma relativamente aleatória. Por exemplos: anteontem, ao longo de um dia inteiro, contou-me 3941 passos para 2,6 km. Ontem, eram ainda umas escassas 16:49 da tarde, já ele me havia contabilizado os mesmíssimos quilómetros, mas com 4447 passos. Ou seja, percorri a mesma distância, dando mais 506 passos (e sim, recorri à calculadora, porque este desgaste pedonal acaba por me afectar o cérebro).





Conclusões:
1. Há dias em que dou passos de gueixa;
2. Há dias em que dou passos de elefante/ gazela;
3. A contabilização é muito mais aleatória do que eu imagino. Tipo o boletim metereológico;
4. É possível enganar a aplicação (que funciona por GPS), bastando, para tanto, que nos desloquemos de um lado para o outro, nem que seja do sofá para o frigorífico, do frigorífico para a despensa e da despensa para o sofá, sempre no enfardanço. Ou então, era a pessoa praticar o ballet e dar uns bons jetés por dia, que aquilo contava dez passos por cada jeté);
5. Nós não estamos sós


26/03/2018

Splash

Aqui há tempos, tipo ontem, acordei a sentir-me uma sereia [e não metade mulher, metade baleia — e não, a piada não é minha]. Atendendo a esse facto, e logo após puxada aula de dança, vai de me meter noutra aula, igualmente de dança, mas, desta feita, imersa — e só não submersa porque é suposto deixar as cabeças, minha e dos outros que lá estavam, fora do charco. 
É claro que, entre uma aula e outra, duchei-me. Se a ideia de ir boiar no suor alheio já me deixa apreensiva, que direi da contrária, e dá-se que sou humana de respeitar extremamente o próximo, sobretudo quando ele está efectivamente próximo. 
Enverguei então fato de banho próprio para a ocasião — horrível, como são todos os fatos de banho de natação —, chinelos —, minhas havaianas high heels — e touca, aquele penico que não fica bem a ninguém (de tal modo que não sei como é que o pessoal das praxes académicas ainda não se lembrou de substituir os penicos por toucas de natação), daí que seja impossível ficar-me bem a mim. Na verdade, levava duas toucas, uma em cima da outra, porque uma só não me segurava o cabelo e precisava da outra para segurar a primeira. Para além disso, fui um bocadinho maquilhada (coisa leve, um rimelzinho e um nico de base + anti-olheiras, pois que enfrentar a aula de chapinhanço com olheiras é que jamé-salomé), tendo em conta que não tencionava mergulhar (ou não era suposto, melhor dizendo). Esqueci-me, ou ignorei, a possibilidade da ocorrência de salpicos, derivados ao facto de existirem em todo o lado adultos imaturos e inconscientes, brlá-brlá-brlá.
Apesar de ser eu, acho que correu tudo muito bem. Pelo menos, acertei com a porta para a piscina, não escorreguei em lado nenhum, nem o fato de banho encolheu comigo lá dentro. Fora o facto de as duas toucas terem ameaçado, logo ao início das actividades, saltarem-me da cabeça (imagino que em simultâneo), e ter tido que pedir socorro à titcha, que, mal suspeitando que eu já tinha duas, me atirou mais uma (o que me há-de ter feito ficar parecida com Stewie Griffin, aquele bebé maléfico e macrocéfalo); fora ainda ter-me dirigido à única louca que frequenta aquelas aulas para fazer par comigo numa actividade a dois; descontando também ter saído da banheira com um dos olhos (ao menos que fossem os dois!) a borrar, qual guaxinim zarolho, de resto, acho que o cômputo foi assaz positivo.
Voltarei. (Ainda não sei se isto é uma promessa ou uma ameaça.)




16/03/2018

Jump!



Já tinha espreitado aquelas aulas, o povo todo com uma espécie de patins sem rodas, olha que giro, saltam que se fartam, de certeza que é fácil, ai que também quero. 
E eis-me. Primeira vez que vou, e não eis a instrutora, eis outro, que é doido varrido, e pode ter sido por isso. 
O meu tornozelo direito é mais frágil do que o irmãozinho gémeo (são dizigóticos), e, por isso, já fui munida de uma meia elástica a abraçar o menino, não fosse torcê-lo. A hipótese de engessar os dois, muitíssimo mais preventiva, não se me pôs, dado que as botas cumprem essa tarefa na perfeição: o pé fica ali agarrado e quieto, quase-quase como nos skis. [Nem me quero lembrar do quão detestei "esquiar" (aspas derivadas do facto de não ter esquiado efectivamente), o que faz de mim, vista por esse prisma, a eterna não-blogger, que chatice.]
Primeira barreira: calçar as botas. Há que fazê-lo sentado no chão, exactamente como se tivéssemos três anos de idade. Depois, cada uma tem duas presilhas, pelo que, se não me falha a matemática, temos que apertar quatro. Ora, basta que uma esteja relaxada e a aula já tenha começado, para que uma pessoa como a minha, não querendo chegar atrasada, porque nunca, vá mesmo assim, com uma das presilhas desapertada, e logo se vê se a bota sai a jacto na direcção de espero que não uma cabeça, nomeadamente a minha. Então, apesar dos avisos do instrutor, e como não me entendi muito bem com aquilo, só apertei três das quatro (75 %, não é mau), mas, efectivamente, não aconteceu nada de registo.
A ordem é pular-pular-pular. Cinquenta minutos a pular com umas botas que, se por um lado, têm molas e ajudam à impulsão, por outro pesam trezentos quilos (nunca experimentem ir nadar com aquilo calçado), e, (só) por isso, devem fazer um bem horrível ao coxedo. Se não, a qualquer coisa fazem de certeza (à mood, pelo menos).
Confesso que passei as fases 1. que-giro; 2. que-canseira (no final do aquecimento!); 3. penso-que-vou-cair; 4. acho-que-vou-descansar-um-bocadinho; 5. onde-é-que-me-vim-meter-? [fase mais prolongada no tempo]; 6. penso-que-faleço; 7. coitadinhos-dos-meus-filhos; 8. quero-a-minha-mãe-já!; 9. ah-oh!-está-quase-a-acabar; 10. tenho-que-cá-voltar.
Portanto, fora o facto de ter saído a sentir-me o Tigre do Winnie the Pooh (alegria incluída!), acho que correu (pulou) tudo bem. 

11/02/2018

A minha vida sobre um esférico

(Agora sei como se sente O Principezinho.)
Meti-me numa aula daquelas da bola suíça, achando eu que era para preguiçosos, senhoras de idade ou pessoal em recuperação, e, por isso, a fazia com uma perna às costas. Enganei-me redondamente, o que é literal neste contexto: a p. da bola não pára quieta (deve ser porque é redonda), não é tão leve como parece (só quando a vamos buscar lá à estante, porque ao fim de umas quantas vezes de a termos suspensa nos braços, e-sobe-e-desce com aquilo, parece um menir), tem uma capacidade marginal para se nos escapar de debaixo que é um miminho, e, se é fácil equilibrarmo-nos sentadas em cima dela (à laia de pufe), a seguir exercer os exercícios é que são elas. (Experimentem só levantar um pé, abrir os braços e rodar o tronco para o lado do pé no ar. Uh-uh-uh, hei-hei-hei!). Depois, ele há pessoas humanas, que a minha modéstia não me deixa dizer quem, que ainda as inventam, só para facilitar ainda mais a (que parece inevitável) queda: a aula faz-se com uma banda de borracha elástica, que é para agarrar entre mãos, esticar de braços abertos, e, assim, ganhar músculo não sei aonde, mas aquilo custa um nico. A titcha mandou deitar em cima da bola, rebolando-a no chão desde o rabo (nosso) até às omoplatas (também nossas), mas ocorreu que a pessoa ainda não tinha deslargado a banda, meteu-se uma ponta por baixo da bola, enquanto a outra se entalou entre a virilha e a parte de trás da pessoa, e, quanto mais rebolava, mais prendia a banda, não sei se estão a perceber o mecanismo e, simultaneamente, o enguiço. Estava a ver que me metia debaixo da bola, a rebolar pelo tapete afora, como nos desenhos animados, assim magrinha e espalmadinha como uma folha de papel. Ou que disparava a bola como um canhão, fazendo da banda uma fisga. A situação só acabou quando me pus de pé, como um homem, e me desembaracei o melhor que podia do material que me amarrava. Quando a voz de comando nos mandou deitar de barriga para baixo em cima do esférico, tive a certeza absoluta que não me importava de ficar naquela posição para o resto da vida: parece que se flutua, não se tem que preocupar com o abdominal definido, e, no fundo, é como ter uma roda em decúbito ventral, o que dá a sensação de poder levar-nos até ao fim do coiso. Não lhe dizia que não.
Conclusão: é bom, não é fácil, hei-de lá voltar num dia de melhor coordenação (se ele existir).


20/01/2018

A minha vocação (perdida) para porteira

Numa ombreira de grande afluência de mulheres como é a de um balneário, cruzam-se pessoas de todas as espécies e, quem sabe, com várias moods, que serão as do momento/dia/fase da vida/m. de feitio. Pessoalmente, prefiro balneários sem porta, como era o do outro ginásio que frequentava antes deste. Se algum arquitecto me estiver a ler, por favor, atente nisto: esqueça a porta do balneário. Ela é o pomo da discórdia para pessoas como eu. Quanto aos balneários masculinos, desconheço como se processa o encruzilhamento das personagens, mas imagino que é bastante mais eclético, até mesmo porque eles se mandam lá para as respectivas genitálias com uma frequência avassaladora, quando não verbalmente, com o gesto do olhar.
Vou, então, tentar elencar exaustivamente as diversas categorias, e logo me darão razão:
1. A que abre a porta para entrar, puxa-a o estrito necessário para passar o próprio corpo, entra e larga-a logo, porque a p. da porta lhe queima as mãos;
2. A que abre a porta para entrar, verifica pela visão periférica que tem alguém atrás (chatas como eu), mas, como alguém um dia lhe disse "Não és criada de ninguém", larga a porta mesmo a tempo de quem vem atrás levar com ela em cheio;
3. A que está atrás de ti, espera que tu abras a porta para entrares, tu segura-la para que ela entre, e nem a ponta do dedo usa para a segurar quando passa, fazendo com que fiques tu a segurá-la enquanto a princesa passa. E não agradece;
4. A que, quando abres a porta para entrar, vem a sair e tem o requinte de malvadez não só de não segurar a porta, como também de passar antes de ti. E não agradece;
5. A que, quando abres a porta para sair, entra de rompante, e, de repente, já vem em grupeta de duas ou três, e passam todas, aflitinhas e com pressa de chegar a horas à aula/ficar rapidamente fits e tonificadas/cagar;
6. A que, quando lhe seguras a porta, espera a sua vez, mas esquece-se de agradecer. Esta é menos grave, mas é parva na mesma;
7. A que, quando lhe seguras a porta, espera a sua vez, agradece, mas larga a porta em cima da desgraçada que vem logo a seguir, denunciando uma fraca capacidade de aprendizagem;
8. A que abre a porta, vê uma senhora de cabelos brancos a pretender sair/entrar e não lhe dá passagem (true-true);
9. A que espera que tu abras a porta, passa à tua frente e diz "Ai, desculpe". Terapia, já;
10. Tu, que abres a porta. E um dia a arrancas com os dentes, só da p. da enervadeira que a p. da porta te provoca.

14/01/2018

Quanto mais danço, mais comprometo o meu gosto musical

ou

Formação versus talento

Por acaso, essa coisa do gosto musical também tem muito que se lhe diga. É quase como tentarmos perceber por que é que alguém gosta de outro alguém, que é, basicamente, horrível. Deve haver um fenómeno, ao nível do tímpano, correspondente ao que acontece com a retina daqueles que amam o feio, o antipático, o desinteligente, o que acumula tudo no mesmo pacote [uuuhu].
Posto isto, eis-me chegada ao ponto de justificação para aquilo que me aconteceu outro dia, e ainda gostei. Isto, versus o que me aconteceu hoje, e não gostei. 
Cheguei à aula de dança e quem se encontrava à porta, a receber o povo bailarino, era um instrutor, e não a costumeira. Eu já tinha tido aulas de outras modalidades com ele, por isso já me tinha apercebido de que a figura não mede bem os alqueires todos, porém é excelente, tecnicamente falando. De qualquer maneira, este tipo de pessoas faz falta na minha vida, porque tudo o que é muito previsível e direitinho, acaba por me enjoar e lá vou eu para outras paragens.
Avisou logo que não tinha formação para aquilo e siga. Arquitectou um esquema simples — lado-lado-direita, lado-lado-esquerda, repete, mambo à direita, mambo à esquerda, repete, com volta atrás —, depois outro — ao lado direita, ao lado esquerda, repete, salta, quadrado rápido, quadrado lento, chassé direita, chassé esquerda, repete — depois mais outro, e depois colou-os uns aos outros e fez um mega-esquema com eles. Durante uma hora, com o mesmo esquema, dançámos tudo o que lhe veio à cabeça em termos musicais. Levanta o vestido também. Os peitos da cabritinha, sim. Sim. É verdade. Eu já dancei Os peitos da cabritinha, e ri-me durante, e não foi (exclusivamente) de nervos. Não sei se já posso morrer feliz.


...
E a aula foi excelente, ou, pelo menos, serviu para variar.
Hoje, outra substituição, mas desta vez por uma instrutora cheia de técnica, destreza e velocidade. Dessas que se largam a dançar lá no palquinho e nunca mais se lembram que têm uma classe de algumas dezenas de pessoas à frente, que é suposto acompanharem e não fazerem papel de mera plateia, com palminhas no fim e tudo. Aos três quartos de hora, aborreci-me e bailei porta fora. E muito aguentei eu.

15/11/2017

Espero que não haja câmaras de filmar naquela sala

Carrego carinhosamente comigo, há três dias, um torcicolo. Ainda assim, ao primeiro dia de dores escruciantes, meti-me numa aula de GAP. A parte do A deste feliz e bem engendrado acrónimo — abdominais — pode ter constituído dos momentos mais dolorosos de toda a minha passagem por este planeta azul. Tudo sem um ai, que eu posso ser portuguesa, mas ainda sou uma senhora. 
Felizmente, o volume da música estava muito alto, e a instrutora tinha um microfone agarrado à cabeça. 


05/11/2017

Cuidado com os acrónimos

Ora, se eu já estava moída da minha musculatura por ter ido quarta, e por ter ido sexta, o que é que fui lá fazer ontem? 
Quis experimentar uma modalidade, que dá pelo nome de GAP, meia horinha, pareceu-me coisa de bom tamanho, rápida e intensa. 
Mal sonhando que GAP é o acrónimo de glúteos, abdominais e pernas, hahaha. Ha. Ha. Ha.
O instrutor, daqueles magros cheios da genica, gritou ao microfone que puséssemos caneleiras, que havia de um e de dois quilos, "Eh, turma, tudo a pôr de dois quilos!", vai a esperta, não querendo ficar atrás não sei de quê, e leva as de dois quilos lá para o colchão. À cautela, porque o seguro morreu de velho e a providência ainda cá anda, levei também as de um quilo, dando a entender que ia pôr todas. Mas pus "só" um par: o de dois quilos, ya. 
Lembro-me das frases gritadas, "Turma, levanta a perna!", "Agora insiste, turma!", "Agora pequeninos, lá em cima!". Só faltou chamar-nos "Seus maricas". Lembro-me também de ter arrancado uma caneleira, porque (ainda) sentia a perna a arder em flamas até à cintura, e de ele ma ter recolocado à força. Depois puxou-me a perna para cima e, quando a largou, ela caiu, inanimada e desorientada.
Hoje acordei e falecera. Partes de mim — glúteos, abdominais e pernas, designadamente — feneceram talvez de noite. Não estou sequer capaz de subir para o passeio, quando atravesso a rua. Pondero andar só pela estrada. Desconheço todo o mecanismo envolvido no acto de subir escadas. E de descê-las. Uma simples ida à sanita, urinar, digamos, é tarefa que me recuso a cumprir. Não me interessa, prefiro rebentar.
Como se não bastasse, hoje fui meter-me a zumbar uma hora, e depois mais outra hora nos alongamentos. Não tenho um único músculo inteiro, nem sequer nos maxilares, drivados daquele esforço. Tenho torcicolos por todo o corpo. 
Hoje odiei toda a gente graciosa e elástica. 
Para a semana há mais (caneleiras de um quilo em cada chispe e já gozam).


03/11/2017

Nova noção de "treino"

Se a pessoa for ao supermercado de manhã e carregar para o carro oito quilos de compras, e depois carregar o mesmo peso do carro para casa; se for fazer uma prova de esforço à tarde; se for dançar durante uma hora à noite, pode considerar-se que treinou três vezes durante o dia?
Ou nenhuma?


23/10/2017

Mãozinha boa

Vinha de fato de natação vestido, chinelos de borracha, touca, e trazia um bebé embrulhado num lençol de banho, cuja ponta lhe cobria a cabeça. Pousou-o na bancada, constatei que era um menino e avaliei a idade para cinco meses. No momento em que a criança olhou para mim, abriu os olhos muito pretos, esticou o corpinho num espasmo de alegria e soltou um grito, ao qual respondi, "Olá!". A mãe perguntou-me, então: "Está muito frio aqui para eles, não acha?", ainda vestida com roupa molhada, saída de água destemperada, o corpo num arrepio, preocupada em aquecer o filho. Com receio de parecer o tipo de pessoa que mais me enervava quando tinha os meus pequeninos — os sentenciadores da verdade absoluta, os sabichões da pedo-puericultura, designadamente aqueles que nunca tiveram filhos —, mas levada por um impulso irreprimível, sugeri, "Veja as mãozinhas. Se estiverem quentes, ele não está com frio", mas, em vez disso, toquei eu na pequeníssima mão, que se agitava na minha direcção, afaguei-a breve e levemente, envergonhada pelo abuso, mas preenchida de vazios vários, comuniquei "Ele não tem frio, tem a mãozinha boa. Isto é tudo genica", pois ele continuava numa agitação, dobrando gargalhadinhas de bem-estar e alegria genuína, contagiosas — que me contaminaram no silêncio que me impus, arrumando a roupa suada da dança no saco. Disse adeus à mãe e adeus ao filho, deixei que a porta do balneário batesse nas minhas costas com estrondo, e voltei.


15/10/2017

Momentinho louro # 5

Acabei de dançar e preciso de um duche. Estou no balneário do ginásio novo, aquilo parece-me tudo um luxo perto do outro, onde estive — também a dançar — anteontem. [Não consigo decidir entre um e outro, aquela cena do coeur balance.] Tenho espaço, tenho ar, não preciso de esperar que alguém passe, ou pedir licença para passar. O duche é simplesmente excelente [tenho que fixar a marca, mas ainda não foi hoje. De qualquer maneira, NMPPI.]. Para accionar a água, carrega-se num botão redondo, e aquilo cai como uma chuvinha, só que quente e a pedido, não é como a outra chata, que faz tanta faltinha nas hortas. O gel de banho cheira a limão, e isso para mim é o bastante para gostar dele, que fácil que sou. Está dentro de um dispensador, que tem um botão quadrado, onde se carrega, e aquilo cai como uma nhanha perfumada. Portanto, o duche processa-se numa alternância carrega-no-botão-do-duche-carrega-no-botão-do-dispensador, um-sim-um-não. Só apetece ficar, e ficar, e ficar até derreter, ou até fartar da brincadeira com os botões. Lavo-me uma vez, não me apetece ir embora dali, nada me chama para fora, e tomo a resolução de me lavar segunda vez. (Aquilo é tudo à vara larga, tanto faz que gaste mais ou menos gel e água, pago o mesmo, e sempre compenso os que pagam ginásio e não vão lá.) E pode ser a ganância, ou a preguiça, que me condenam a este estado miserável de troca de mãos. 
...
Estou ensaboada, quero carregar no botão da água.
...
Acho eu que carrego, mas a água não brota.
...
Carrego segunda vez, e nada de água.
...
(É muito mau se confessar que ainda tive dois segundos da minha vida em que achei que tinha havido um corte de água, exclusivamente na minha cabine?)
...
...
A parede cheia de gel de banho.
(Chiu.)