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02/11/2018

Desta minha atracção pelo trash TV

O meu TLC, aquele canal onde desopilo a cabeça, era - e continua a ser, benza-o Deus - já suficientemente "mau" - e, por sê-lo, já era só excelente. Por essa razão, servia-me à medida para o efeito pretendido: espremer a borbulha, o quisto sebáceo do dia-a-dia, esquecer a parte chata de viver, consciencializar que há vidas (muito!) piores do que as nossas, os espectadores daquela coisa. Ora são os gordos que passam de gordíssimos a quase atletas, mas depois têm que recortar as peles que ficam penduradas e passam o cabo das tormentas sem boa esperança para recuperar daquilo tudo, ora são aqueles casais que se meteram num laboratório para se reproduzirem e algo correu mal (ou extremamente bem), e, como coelhos, deram à luz cinco ou seis pessoas, ora são aqueles desgraçados que sofrem de afectações malucas, e depois vem a descobrir-se que o cirurgião se lhes esqueceu de um objecto dentro da barriga, ou foram mordidos por um bicho que só existe nos Samouco, mas que, lá está, ninguém os mandou lá ir, e não ter as vacinas em dia. 
Porém, a SIC estreou algo de verdadeiramente extraordinário, que não me permite a mim parar de ver, assim como acontece quando vemos um furúnculo nojento, que sabemos que nos vai provocar a náusea de cada vez que o olharmos, mas não conseguimos parar de o mirar: o 'Casados à primeira vista'. 
Alguém me explica aqueles casais, um a um? 
Ainda não percebi umas quantas coisas, de entre as quais o que é que aconteceu ao cabelo do Dave; Porquê o match entre um surfista de Cascais, todo spé-thio, e uma Eliane desta vida; As pessoas casam mesmo umas com as outras, ou é tudo a brincar?; Caso negativo, quão desesperado para arranjar quem lhe esfregue os pés, ou lhe aqueça não sei o quê tem que estar um primata para embarcar numa barca daquelas?; Por que é que até os “especialistas” falam Português como se tivessem tirado a 4.ª classe na escola rural à noite? (“Teve dúvidas da pessoa que tem à frente?”. Isto estava escrito num dos cartões distribuídos a um dos casais em “lua-de-mel”); Por que é que todos, sem excepção, proferem frases como “Eles não nos conseguem convencer”, se a acção não está no verbo ‘conseguir’?; Aquilo é tudo a fingir, não é? Depois vão todos para as suas casinhas estar com as suas familinhas, pois é?; Por que é que eu tenho uma estranha sensação de déjà vu, cada vez que olho para todas aquelas caras? Já entraram nalguma novela?; Quem é que está mais maluca, no meio disto tudo? (Eu, queres ver?)

19/10/2018

Eu também estou a perder o colégio!

Mas, lá está, não sou a verdadeira, a genuína blogger, e, por isso, não posso opinar quando se trata de cenas que quero vender à viva força por me pagarem para isso. Aliás, não acho justo que não me paguem, porque era menina e moça para corrigir os textos dos meus patrocinadores, sponsores, patrões da banha da cobra, ou simplesmente a quem me pagasse para publicar cenas, de ponta a ponta, com meu implacável lápis azul. Se calhar por isso, ninguém me paga para escrever, ainda menos me dá brindes para publicar. Esta isenção, parecendo que não, está a sair-me do corpo, literalmente: não só não me dão creminhos para manter a cútis como se tivesse menos várias décadas, como também assisto diariamente à perda do meu colégio. (Colégio, não vás!) 
Colagénio? Hah, isso perdem as pessoas. Uma aspirante a influencer que se preze perde colégio, sei lá. Chiu.

12/09/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 58

Atravancado que está o espaço dos supermercados com as vendas para o regresso às aulas, naquela que é a época pré-Natal destas superfícies, deparo-me com coisas assim:


Isto é giro, especialmente tendo em conta que a média nacional, ao nível do Português dos portugueses, ao fim e ao cabo de doze anos de escolaridade (doze dos dezassete que têm de vida, mais de 70% dela!), está em 11 valores na escala de 20. É certo que se uns obtiveram 12 (oh, extravagância!), outros obtiveram 9. É assim que funciona a estatística. Ou seja, para uns terem 18, outros tantos tiveram que ter 3. 
E depois, vem o pessoal da venda de material escolar — onde se incluem livros, manuais, enfim, papéis cheios de letras — incentivar à compra, e, quem sabe se também (na loucura), ao estudo, através desta linguagem periférica, na convicção de que só esta os nossos miúdos são capazes de perceber, e, naquela psicologia de pacotilha lá dos marketings, "só assim conseguimos chegar-lhes".

[Vá lá, eu sei que "bué" já entrou no nosso dicionário há muitos anos, embora devesse considerar-se um estrangeirismo — origem Angola ou São Tomé —, mas e quanto ao resto? Mano, cena, brutal, fixe...?]
[Ó pá, fónix!]

01/09/2018

Barreira linguística # 3

Estou na loja dos cafés que se autodenomina boutique, numa daquelas esperas que hão-de contar como tempos mortos (oh, ironia) para me darem créditos de santidade aquando do juízo final, quando entra a família típica e claramente portuguesa, falando uns tons acima do necessário para se ouvirem uns aos outros — a menos que todos sofressem de surdez —, em Francês,
(há um denominador comum, ou não há? Pai, mãe, três filhos, todos hipernutridos, cabelos escuros, chinelos, calções, varizes, queijo de Nisa nos calcanhares, óculos de sol na cabeça, t-shirts do Ronaldo 100% fibra, e por aí afora)
obrigando o funcionário — que claramente não pescava uma palavra de Francês — a falar com eles em Inglês, um Inglês de escola, minimamente capaz de vender cafés.
E eram uns a falar um Inglês de improviso, contra outro a responder no tal Inglês — que há-de ter sido condição aquando da admissão ao balcão —, todos construindo a custo uma pequena e ainda mais inútil Torre de Babel, qual muro, quando podiam permanecer pacificamente na base, falando a língua comum (em) que todos (se) entenderiam. 
(São estes os mesmos que carregam a mala de bacalhau e vertem uma gota de cada vez que lhes soa o faduncho ao tímpano, pois são?)


26/04/2018

Barreira linguística # 2

Vamos supor que entras para comprar um rímel à prova de água com a escova curva, e te deparas com uma vendedora que quer que compres uma máscara, que pode não ser à prova de água, com a escova plana.

Entro e peço, por favor,
- Um rímel à prova de água.
Chama a colega, chefe de loja/ mais habilitada/ mais capacitada para me vender o que eu não quero comprar/ tudo junto.
- Máscara de pestanas. — Corrige a altíssima — Queira acompanhar-me ao expositor.
E lá vou, tic-tic-tic, até à grande placa negra, onde se expõem tintas e truques para nos enganar (e podermos iludir-nos de que enganamos o próximo, seja lá ele chegado ou distante) em relação à passagem do tempo, ou àquilo que nunca tivemos (boas cores, pestanas longas, pele de pêssego, olhar profundo, profundamente enigmático). 
- É esta a nossa máscara waterproof. — Anuncia (corrigindo um anglicismo, mas usando um estrangeirismo inútil), enquanto me apresenta a solicitada escova empapada em tinta negra.
- Eu queria com a escova curva. Tem algum assim?
- Não, só este. — E eis que começa a quebrar-se-lhe a curta paciência, o que percebo pelo ligeiro baixar de braços. Ainda assim, insiste:
- Mas esta escova é muito boa, proporciona o alongamento da pestana. 
Quando se trata de estética, tudo passa a ser conjugado no singular: o pêlo, a pestana, o pé, a mão, a raiz, a cutícula. Quanto aos restantes, acho que não, mas, se apenas tivéssemos um pêlo ou uma pestana, imagino que nenhuma de nós se daria a trabalhos de arrancar, ou pintar, alongar, enrolar. 
- Mas eu queria curva, nada como uma curva para me enrolar as pestanas. — Teimo.
- E tem mesmo que ser à prova de água? — Muda ela de estratégia.
- Tem. 
- É que temos aqui uma máscara com a escova curva, mas não é à prova de água.
- Mas eu quero à prova de água.
Não quero explicar-lhe que vivo o drama puramente feminino da touca horrível + fato-de-banho assustador, e preciso imperiosamente de levar pestanas que se vejam para dentro de água.
Negócio não feito, não desfeito.


21/04/2018

💗 Bumba


Se quereis perceber um pouco mais do meu ponto de vista, eu estou TODA! um pouco ao minuto 01:00, até ao minuto 01:50.
Execrável, tits.

20/04/2018

Na blogosfera como na vida # 3

A estupefacção. 
Ou então, apenas, 
Quando não tens nada para dizer ao mundo, encriptas e eis um post.


07/03/2018

Poetry in motion

Sabes, ou suspeitas, que o fim do mundo poderá estar levemente próximo, quando, em pleno metropolitano de Lisboa, aquela voz off da senhora, que outrora proclamava
Esteja especialmento atento à entrada e à saída do comboio
e, anos volvidos desta saga intraduzível, o corrigiu para especialmente atento,
mas que, actualmente, avisa, no seu melhor Inglês,
Pay special attention when entering or exiting the twain [Mark or Shania, that don´t impress me much?]
no actual momento (que eu tenha dado por isso desde a passada segunda-feira), declama.
Ora, e declama o quê?
O que mais, senão poesia, pois que a declamação só a ela lhe é intrínseca?
Temos o metro da cidade a jorrar Camões e Pessoa aos altifalantes. Aquele susto, quando imaginamos que nos vão anunciar mais uma avaria/ incidente com passageiro/ perturbações na linha (amarela, azul, às riscas).
Quando não ela, um ele.
Ainda hoje, nem de propósito, já dentro do tal comboio, veio A Voz dizer que tínhamos todos que sair uma estação antes, devido a avaria beca-beca-beca. Vá que não estava a chover, e deu para chegar mais ou menos inteira e totalmente seca ao meu destino.
Senhores passageiros, e lá veio o resto do recado. Ora, eu, que sou fóbica dos aviões, procurei logo o raio da máscara de oxigénio, o colete salva-vidas e o para-quedas. Nem sei como é que não me lembrei de me pôr em posição fetal. Afinal, era só para me dizer que tinha que dar à sola mais um quilómetro nesta vida, mal sabe ele que de salto alto. A ver se me bufou aos ouvidos Alma minha gentil, naquele momento. É o bufas.


01/02/2018

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar ao supermercado # 53

No altifalante:
Estimado cliente, aproveite hoje a embalagem de quinhentas e cinquenta gramas, a [#&%*¨<,  blaaaagh, esqueci-me do preço anunciado; deu-se-me aquele bloqueio das sinapses, a partir do qual já não tomo conta de recado nenhum].
O que é que o altifalante disse, mesmo?
Tanta grama, pá.
O que me encanita é que esta cena das gramas é tão vulgar, tanta gente erudita e elevada culturalmente e diferenciada intelectualmente e o catano diz, que usar a porra do masculino na porra dos gramas é que parece anormal. Chego a ser olhada de lado (e de frente, de trás não sei por razões óbvias) a propósito deste assunto, quando utilizo o masculino. 
Também dizem as quilas? Pus duas quilas? 
________________________
Também estou triste, se calhar por isso é que estou intolerante para com o próximo, mesmo que sob a forma de altifalante: voltámos a ser 99. E a passagem de dois para três dígitos não é nada pacífica, quanto mais de três para dois.
Adeus. Tenho ali um cantinho mesmo bom para a baba e a posição fetal. Pode ser que perca duas gramas e já ganho o dia. Desde que não ponha nenhuma quila...

25/01/2018

As coisas que eu vou desencantar ao baú... # 12

Desenhado em 16.02.2011, através de um programa, Bitstrips, que já não existe. (Portanto, escusais de ir a correr tentar fazer lindinhos com ele à pala de minhas super inestimáveis dicas, que, quanto a este, capute.) (Mas vá, que eu não sou assim tão pérfida. Se desejais assim com tanto ardor brincar à bonecada online, instalai este, que deve ir dar ao mesmo. Eu não experimentei.)

Hã? Foi só mudar-lhe o nick e ficou como novo, e actualíssimo.
Já na altura, vejam bem ao tempo que isto foi, usava e abusava de parênteses rectos. 

Então, vamos lá a aprender alguma coisa hoje, a ver se nos entendemos quanto aos rectos e quanto aos curvos, em se tratando de parênteses, aqueles que nunca caem na lama. Ou não deveriam.


05/01/2018

Há determinadas lojas [físicas] que não percebo como é que têm arcaboiço para se manterem de pé

Se não, vejamos: a pessoa humana corre três ou quatro clássicas na busca de mais um par de botins, para aqueles dias em que não lhe apetecem saltos tão altos, nem tão baixos, nem os botins bordeaux, nem as botas de cano alto — as pretas ou as castanhas —, nem nada, e sim para poder calçá-los com saias e vestidos sem parecer uma gaja de Chelas, que o melhor mesmo era podermos andar descalcinhas e como eu compreendo a gaja do téne, a gaja da sabrina, a gaja do sapato Dr. Scholl*. Numa delas, que não vou dizer qual é, mas posso adiantar que é aquela do nome com um urso a quem tooooda a gente chama cerveja, encontra dois pares razoavelmente catitas, mas ambos sem par, ou seja, poderia trazer uma de cada, não fora correr o risco de parecer mais maluca do que já não é. Noutra delas, encontra online um par mesmo-mesmo-aquilo, que está descontinuado. Arre égua para este adjectivo, em se referindo a trapos e seus complementos. 
Ao cabo de mais umas quantas pesquisas — o meu disco rígido deve estar hirto de tanta loja e muito mais cheio do que o meu roupeiro — e buscas, eis que lhe surge o par ideal, não para a vida, não para a dança, não para a borga, mas para o exigente pezinho (ou para a exigente cabecinha, cada um interpretará). 
Ah, saldos, ah, que só há 35 e do 39 para cima, ah, que só há o que está exposto. 
Ah. Que só há para a dama pé de cabra e para a patuda em geral. Caneco, não se pode ser vulgar em lado nenhum, nem no tamanho do pé?
Já no lar, nem ao trabalho tive que me dar, de ligar a computa: foi mesmo através de Ai-fostes. 
1. Ir ao site;
2. Procurar pelo número da referência;
3. Escolher tamanho;
4. Adicionar ao cesto;
5. Confirmar compra;
6. Escolher método de pagamento;
7. Guardar referência, entidade e quantia.
Sete cliques. Só precisava de ter polegar para lá chegar.
(Claro que depois, como a minha vida tem que ser este filme exótico, ainda tive que ligar para o banco que me assiste o netbanking, e falar com uma operadora que, para além de não me ter resolvido o assunto, ainda fez a fineza de me arranhar os ouvidos quando eu protestei com a dificuldade que estava a ser proceder a um simples pagamento por MB, com "o banco não implanta essas medidas", e depois referindo-se à "empresa para a qual pretendo efectuar o meu pagamento" — palavras minhas —, chamando-lhe "Bresca".) (Ai, desculpem, não queria dizer o nome da loja. Bershka*, aquela a quem também há quem chame Bérssssca.)

*NMPPI

Só as démarches que uma senhora passa para chegar a isto

15/12/2017

Barreira linguística # 2

As comissionistas da Calzedonia* deixaram de ser comissionistas, ou então entraram em modo TMAC [acrónimo de tômadefecar, em gíria]. A pessoa entra e há uma que deseja bom dia num tom mais elevado do que as outras, pelo que julga percepcionar que é aquela a tal, a que mais necessita da comissão, a mais disponível, o forcado da cara, vá lá a albardar o dono à vontade do burro. Dirige-se-lhe, mas dá com ela a conversar com a colega, uma daquelas conversas que parecem não ter fim à vista. Faz um meia-volta-volver e ela corre atrás. Porque a incontinência verbal ainda a acomete de onde em onde, diz-lhe, "Ah, pensei que queria continuar a conversar com a sua colega", mas, entretanto, faz-lhe saber que pretende umas calças azuis exactamente iguais às pretas que traz vestidas. Ela vai buscar umas pretas, exactamente iguais às pretas que a pessoa traz vestidas. O ser humano, então, esclarece que não, que quer iguais, efectivamente, mas azuis. Ela vai buscar umas de ganga, exactamente iguais às pretas que a pessoa traz vestidas. O ser vivo, então, explana que, de facto, a ganga é azul [em sendo blue jeans, mas também não entra nessas explicações em estrangeiro], mas que não, que quer iguais, só que azuis. Ah, que não há, nem nunca houve. Mas sim, que a pessoa já as teve na mão. Que talvez, mas há muito tempo. Que não, então se foi em Outubro. Ah, que devem ser umas que têm ali, que não têm nada a ver, mas que são parecidas com essas. Ah, oi?, que me arrumou com essa frase, não percebi nada do que me disse, muito bom dia e passe bem. 

* Ninguém me paga para me calar

13/10/2017

LB, aquela pessoa que devia ser proibida de se aproximar de um televisor

Palavra que estava para aqui sossegadinha a jogar um jogo no meu Ai-fostes, porque adoro viver no limite e não me conformo de não fornicar a bateria do coiso em menos de um pum, ou de um fósforo, o que for mais rápido.
Por razões que não me assistem, aquilo da televisão estava no canal que dava o espectáculo dos bovinos. Tenho medo destas exibições, tanto porque acho que vai acontecer uma desgraça no minuto seguinte, como porque me encho de peninhas do touro, do cavalo, do cavaleiro, de todos os forcados, desde o cara ao rabejador, passando pelos ajudas, ai, quem me acode? Ainda por cima, nesta corrida vai pegar o filho da minha prima, não sei como é que o coração dela aguenta, se fosse com o meu, amarrava o rapaz à perna da cama e dava-lhe duas nalgadas, chiu com a violência doméstica, só quem é mãe é que sabe, e maior violência é a besta contra os meninos, nem quero pensar, eu nem com calmantes me acalmavam.
Então, um senhor explicava uma parte histórica da corrida à portuguesa, e resolveu usar a expressão “na luta contra os tuberculosos”. Já eu ria, dos nervos, já eu perguntava a uma das queridas o que é que ela achava que o senhor queria dizer, já ela me respondia “Ele queria dizer ‘a luta contra os tubérculos’”, e eu, que sou uma fácil e ela é tão assertiva naquele humor ultrafino, olhem, ainda me ri mais, mas continuo a afirmar que também sou extremamente nervosa, sobretudo quando me maltratam a língua.
Ainda não refeita, praticamente rarefeita, eis que vem outro e fala no “panorama taurino”, e então era ver-me desfeita no gargalhedo, só a imagem mental já é muito boa.
Vou mas é pjê uó-uó, como eu dizia quando era pequenina e nunca devia ter deixado de ser.
Também não quero ver a pega do primo, a ver se não me esqueço de lhe dar duas nalgadas e de o amarrar ao pé da cama, da próxima vez que o vir.

20/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 3

Corrige-me constantemente a conjunção e para o verbo ser, no presente do indicativo, terceira pessoa do singular. As minhas frases passam a ter outro sabor, outra cor, outra luz, outro som. Por exemplo, se escrever "O amarelo e o azul", ele corrige para "O amarelo é o azul". É bonito, em termos gráficos, para além de me fazer passar por analfabeta.

[Ontem ainda ma fez mais graciosa: em resposta a um comentário cá do buraco, substituiu cada vez menos por cada vês menos. É isso, não vejo nada antes de enviar/publicar.]

(Lágrimas de sangre.)

14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]

07/05/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 2


De manhã, Corrida do Dia da Mãe. É claro que fui caminhar, por todas as razões que me são inerentes, e ainda mais pela de que tenho um pé todo desmontado, não tivesse abusado da dança (ou ela de mim), de maneira que fui, literalmente, coxear quatro quilómetros, mas cheia da corage. Levei exactamente o mesmo tempo que uma das minhas bonecas a correr dez quilómetros: uma hora e quatro minutos.
Eu gosto é da festarola, vou para me divertir, porque sou uma divertidaça-estupendaça, caturreira.

 
(Ô xenti, fiquei pelando por um sambinha...) 

Como sou demasiado etérea para algumas coisas, consegui perder-me no percurso, e tive que voltar atrás uns metros para me meter pelo intrincado caminho que levava até à meta. Lá chegada, encontrei um grupo de rapazes que pertenciam ao movimento Abraço Gratuito. (Espero que não sejam parentes dos do Abraço à Borla, organização que suponho que desapareceu, quem sabe se por, um dia, um deles se me ter dirigido com um cartaz onde estava escrito ABRAÇO HÁ BORLA e eu lhe ter gritado "Ahhh, tens um erro ortográfico no cartaz!", escapulindo-me dos braços dele.) Hoje foi diferente, nada parecia errado, por isso demos um abraço, jovem desconhecido e eu, e ele desejou-me um dia feliz, com aquele sotaque do norte que metade das minhas costelas reconhecem e vibram, canudo.

 

03/05/2017

Preguiça

Eu dada a esforços, dos quais não vejo resultados, e a essa falta que é falha, atribuo a preguiça que me tomou hoje de assalto desde os dedos até aos outros dedos, isto se só contar com a moleza muscular, porque daquela outra, do pescoço para cima, que responda a mente, essa que está sem resposta capaz. 
Ela, senhora na meia-idade — aquela de ter para ter juízo —, magra, recta, alta, longa, ali mesmo ao meu lado, acompanhada de PT, rapaz musculado como se impõe, impondo-lhe exercícios vários e variados, não fosse ela enjoar de uns, podendo então desenjoar, variando, para outros. Ela, numa pseudo-obediência lânguida, lembrando a preguiça, precisamente: aquele bicho pausado e inteligente o suficiente para enganar um dos seus principais caçadores, o jaguar. Ele, estritamente profissional, mantendo o nível, a consistência e a forma, persistindo sem desviar o assunto que levava ambos ali: o treino dela. 
Eu não quero emagrecer.
Quando eu tinha dezoito anos, pesava quarenta e cinco quilos.
Os rapazes, hoje em dia, já não gostam das skinnies, apreciam mais uma mulher com formas.
Hoje tenho uma reunião, e tenho que estar no meu melhor.
Eu entreti-me...
Pronto, já não ouvi mais nada. Reconheço que o arrazoado de pedidos de holofotes, as demonstrações de autoestima e a feira de vaidades podem ter-me anestesiado um pouco para aquele embate final, mas declaro em minha defesa que não esperava, assim como nunca espero que, da mesma boca de onde saiu a palavra reunião com tamanha frequência, tenha brotado aquela conjugação do verbo entreter: fez-me cair, mais uma vez nesta vida, o anjo da ilusão aos pés, aos trambolhões, desfeito em cacos. 

25/04/2017

Errar é desumano

Isto vem um bocado a propósito do post de ontem.
Perco a conta ao número de erros, enganos, lapsos, gralhas e artoadas no Português que vejo e ouço todos os dias. E é muito raro corrigir ou chamar a atenção, sobretudo se estiver em público. Reservo-me aqui para o blog, para a cobardia do anonimato que é um nick.
E logo eu, que tenho a PDM com a minha língua tão amada (não me refiro ao órgão), e que também erro? Incrível, também me engano. Também escrevo e digo coisas que só me dão vontade de me açoitar. (Tenho intimidade comigo para isso, nem sequer preencherei os requisitos do crime de violência doméstica.) Ainda outro dia, neste post, escrevi dizimação maciça em vez de dizimação massiva. Mea culpa, sei perfeitamente que maciço é uma qualidade de alguns materiais (e não, não fui ver à nettinha, porque, errrr... sei.) Também não foi preciso que alguém me mandasse mail a avisar do erro, ou pusesse num comentário. Simplesmente, como veio, o erro foi. Horas depois, deu-me aquele vaipe — ahhhhh! —, e corrigi, em pleno semáforo vermelho.
Diz que errar é humano. É. Fico, assim, muito mais descansada.
Mas persistir no mesmo erro é que já não é. É qualquer coisa de irracional, no sentido em que não existe um processo de raciocínio entre um engano e outro. É quase, regressando placidamente ao meu exemplo, como na violência doméstica: à primeira és vítima, à segunda já és cúmplice. Quando cometo pela segunda vez o mesmo erro, posso ser apenas uma pobre vítima cúmplice da minha própria estupidez.
Assim como errar sistematicamente, também não é nada humano. Lembra os bois, incapazes de entrar no curral, incapazes de largar as traves, embora elas até os aleijem de cada vez que lhes marram. 
Vem tudo isto também a propósito de gente que se engana e pede uma explicação, que lhe é dada totalmente de graça, sem smileys assim :) ou assim :P, sem qualquer espécie de emoção nas palavras, já para não entrar "ruído" no recado, e ainda se amofina que os outros são todos uns arrogantes e que julgam que sabem tudo e que nunca erraram, e o genitalinho a sete. 
Gostava de saber como é que estas pessoas um dia sequer conseguiram lidar com professores, há muitos anos, quando andaram na escola (andaram?). Também lhes chamaram arrogantes de cada vez que lhes foi dada uma explicação — aí já não totalmente de graça — sobre onde é que estava o seu engano e qual a melhor forma de o sanar?
Deve ter sido. Assim, de facto, ninguém aprende coisa nenhuma.
Ámen, porra.