Mostrar mensagens com a etiqueta férias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta férias. Mostrar todas as mensagens

11/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 2

Quis publicar uma imagem ilustrativa [alerta redundância] do meu post anterior. Porém, Ai-fostes, acometido de uma má net, derivados de estar demasiado próximo do mar [se esse conceito existisse], não mo permitiu. O quartel-general onde estava instalado o router do pólo onde me acampei era demasiado longe [e cem metros pode ser um conceito interpretável como demasiado longe] para que me deslocasse, metesse pic condicente e voltasse para a boa barraca, pelo que só hoje, regressada e ressabiada, com cara de fim de férias, aqui a publico.
Sem filtros, como tudo em mim.
Já não se trata de uma tentativa de meter nojo, pois que até a mim mesma, ao contemplá-la, agora, a esta distância [duzentos e oitenta e cinco quilómetros, vírgula — após vírgula simbólica — três, pode considerar-se demasiado longe] e sob este prisma (pesadíssimo), a imagem mete nojo, e inveja, e drama, e já saudades, e só coisas feias — não fora ela tão linda.


Diz que Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe. O povo é quem mais ordenha. 
E amanhã é outro dia, lá dizia a outra dos ventos. 
Adeus, que agora vou ali pôr-me em posição fetal e encher-me de baba até me passar a fase da raiva.
[A ver se agora alguém aqui vem desejar-me "Boas não-férias".]


20/08/2015

Também tive os meus pontos altos, estas férias # 4

As pessoas já não vivem, mas filmam e tiram fotografias. Não é que estejam mortas, conseguiram foi um patamar intermédio entre viver e morrer, que é o da captação de imagens. Enquanto o fazem, não podem dizer que estão a viver — logo, não estão vivas —, mas também não estão propriamente mortas, porque os mortos não filmam e, até prova em contrário, não fotografam. 

A praia imolou-se, no último dia de férias.
[Gosto desta frase para título de livro. Sei que nunca escreverei nenhum, mas já tenho uma boa dezena de títulos escritos.]

Não sei lá como, deflagrou um incêndio, a uns bons quinhentos metros de onde eu me encontrava, se não estendida na areia, pelo menos lá pousada. Foi quando o povo se ergueu, e eu, em atitude igualmente povina, fi-lo também. E fiquei a assistir ao incêndio, enquanto assistia também à profusão de telemóveis e máquinas fotográficas que logo se apontavam, aprontando-se para o disparo e para a fita. Grande parte da multidão sumiu-se lá para mais perto do fogo, não para se queimarem mais do que o sol já estava a fazer pelas suas peles, mas, exactamente, para tirarem grandes planos do pequeno evento. Eu fiquei para trás, mas não me quis ficar atrás, e tirei um único retrato, com a desculpa mental de que era para vocês. Não fui lá para perto, porque sou egoísta, preguiçosa, desinteressada pelas trivialidades da vida, mas, essencialmente, para poder viver o incêndio.



Reportagem da TVI24, e apneia para o momento em que é proferida a frase Estas chamas são bem ilustrativas do fogo que ardeu. Luís Vaz não diria melhor.

19/08/2015

Também tive os meus pontos altos, estas férias # 3

Ou, se preferirem, 

Eu sou aquela pessoa que nunca, em circunstância alguma, deves levar a passear à rua #



Children's Men.
Tipo Bibi. Tipo padre Frederico. Tipo ignorância cómica. Não, trágica.

16/08/2015

Também tive os meus pontos altos, estas férias

Naquele dia em que rebentei com um vidro de dez quilos, estava a pintar o cabelo. Eu sei que podia poupar-me a estes enxovalhos, e a vocês à sordidez de algumas horas da minha existência, mas é que é para que possam acompanhar o contexto, e também para que a cena seja mais real do que a realidade ultra-realista que é a minha. Bem sei que estava entrosada em esquema diário de praia, mas houve ali um dia de periclitância emocional, em que me olhei a um espelho maldito, que me deu a entender a inadiável pintura pilosa. Havia de ter escavacado o espelho e não o vidro, mas, por superstição (sete anos é muito ano e eu já não vou para nova), ou por falta de pontaria, dei em ir-me ao vidro, até parecia a outra gaja do Frozen, a estilhaçar tudo o que toca, como se tivesse alguma serventia congelar os ambientes sem ser com uma piada estúpida, mais conhecida por pedrada no charco.
Ora mal, chegara o momento de tirar a tinta da cabeça, pelo que me acerquei da banheira, dei um puxão no vidro protector anti-salpicos que, pelos vistos, não era à prova de bala, e ele se descolou da calha. Fiquei, assim, um pouco parva, a segurar um peso daqueles, de braços para cima e mãos molhadas. Estava mesmo a pedir que o amandasse com os porcos, e até foi o que acabou acontecendo: não fiz das fraquezas forças, aparentemente. O vidrão despencou-se, deu com os cornos no rebordo da banheira, e desfez-se para aí nuns três mil e quarenta cacos, que, por sua vez, choveram para dentro da banheira e para o chão, onde se encontravam, vá-se lá perceber porquê, os meus pés — bem assentes na Terra (vulgo, no azulejo), como quase nunca. A chuva não bate assim: três ou quatro nicos de vidro rasparam, cortando, num dos meus pés, e um deles espetou-se ligeiramente. Já vão perceber por que é que foi ligeiramente. No fundo, não foi profundamente.
Mas, lá está: a vida é esta sucessão alucinogénica de coisos, e não havia tempo a perder. Eu tinha a tinta por retirar. Como não conheço as consequências de ficar tempo a mais com o corante na pinha, também não quis arriscar ficar hiper-tingida. De pé a sangrar, mas de pé, corri em passos Dama Pé de Cabra para a outra casa-de-banho. Na corrida, chutei o vidro mal enterrado nas carnes (ainda bem que Jorge Mendes não assistiu a este bocadinho do episódio). E, fora da banheira, como faço sempre que lavo o cabelo, desatei a passar a cabeça por água.
Não sei se ainda aí estão. Hã?
Portanto, cabeça para baixo, a lavar o cabelo, pé a sangrar, e sem saber exactamente até que ponto não teria que ir fazer pedicure para o Hospital de Faro.
Este foi o momento em que me engasguei com a minha própria saliva.
E em que pensei: "O que vale é que eu sou uma senhora. É que só falta mesmo..."
O quê? O que é que eu pensei que só faltava mesmo acontecer-me, naquela situação?


15/08/2015

Diário de fora de bordo # 9


Imagem 1 palmada da nettinha, imagem 2 palmada da vida real

Para o ano, há mais, se Deus quiser. E, em não querendo, pode ser que haja na mesma.


13/08/2015

Hoje deu-se o momento histórico em que, finalmente, comi uma bola de maracujá

Amanhã conto pormenores, sórdidos e tudo.
E é um facto, facilmente comprovável: tinha apenas uma camada de verniz transparente nas unhas.
Mas soube-me que nem ginjas. A maracujá.

Diário de fora de bordo # 8

A alegria de viver, assim como a simpatia, são sintomas de uma maleita, que se chama felicidade, e é contagiosa, porque se pode partilhar e até injectar. A minha mãe sempre me contou que me levava no carrinho e eu ia a agitar os braços para tudo o que passava por mim, e terminava com este exemplo, até aos ramos das árvores. Assim fez o bebé, de uns três anitos, que me acenou hoje na fila do supermercado, com o bracinho direito, e eu, de frente para ele, acenei-lhe com o esquerdo. Era inglês, e não falava uma palavra de português, mas entrámos num entendimento imediato e qualquer coisa de exclusivo, porque é bem verdade que as pessoas, às vezes, ficam sozinhas umas com as outras no mundo, mesmo que seja só por um minuto, que foi quanto durou o nosso minuto. Quando viu que o meu braço que agitava era o do "espelho" dele, agitou o outro, e eu fiz o mesmo. Disse-lhe, "Agora os dois", num português claro, e ambos agitámos os braços todos ao mesmo tempo, ele numa gargalhada dobrada e desdobrada, eu numa festa. Esqueço-me com demasiada frequência de quem sou, de onde estou, mas nunca de para onde quero ir. E adoro desmoronar Torres de Babel.
~
Hoje instalei-me num colmo da praia. Sabe-me bem a cama, a sombra sem ameaça de o chapéu fazer take off a qualquer momento, mesmo sem ok da torre, a vizinhança de calções pela perna e de corpos não graffitados. Elas passam grande parte do dia a experimentar todas as dezenas de biquínis que trazem os brasileiros ambulantes, as crianças chamam-se Bernardo Maria e Maria Maria. Compreendo francamente melhor estes acordes, mas há uma altura, sem excepção, em qualquer ponto específico da tarde, que ainda não consegui definir qual é, a não ser que é algures antes de o sol se pôr naquele risco azul, traçado pelo criador em dia de inspiração divina, em que tenho que pôr os headphones, porque já nem o mar espreguiçando-se na areia consegue fazer-me dançar.
She's only happy when she's dancing.

12/08/2015

Diário de fora de bordo # 7

Sinto que madrugo o meu dia, e agarro-me ao ferro, aquele objecto em alumínio e plástico que, de ferro, já só tem o nome. Não quero que vão engomadinhos para a praia, mas também não numa rodilha. Ao fim de sete dias, perco a conta às t-shirts e aos polos. Pergunto-me como é que as outras pessoas se arranjam: usam a roupa amachucada? Não a lavam? Trazem roupa para todos os dias (coisa que eu conseguirei fazer no dia em que traga um atrelado atrelado (haha, parece que me enganei, mas é que não) ao camião? Vai tudo para a lavandaria? Trazem mil criadas atrás?
Cada um tem o seu TOC, este é o meu TOC-TOC, não me toque.
~
Comprei um caderno para evitar andar com a bolsa da praia cheia de papelinhos. Já abria o fecho e voavam para o chão, obrigando-me a explicações indesejadas, após exclamação Ai os meus papelinhos!
Diz na capa “Sebenta”, mas não me lembra nada, que eu já não sou desse tempo. Reduzi um manual de 1200 páginas para 150 manuscritas, sem espinhas, sem sebo, quais sebenta, quais carapuça, carapau.

~
Devia alugar um colmo — por falar nisso, o acordo de ocupação de um espaço temporário e que não tem uma existência permanente e fixa ao longo do ano, é aluguer ou é arrendamento? Nem eu, que não os alugo, sei —, e, numa atitude muito mais blogger da minha parte, vir para aqui falar no meu colmo, o mar como horizonte, o que tenho, igualmente. Depois acordo, estou a passar a ferro e lembro-me que esta vida são dois dias e as férias só dez. No entanto, na zona de chapéus de sol, incomodam-me o ressonar do vizinho, as borbulhas das costas do filho do vizinho, o cabelo mal pintado da mulher do vizinho. Tenho o que mereço.
~
O mar está de um azul que desconheço. Caem-me três pingas de água nos braços e na cara. Só me falta chorar, para haver água por todos os lados. Mas também, nem tanto ao mar.
~
- Á bólhinhá dji márácujá é qui neim Somersby, é fruto da sua imaginação.
- Já percebi isso.
- Mais teim dji lhimão.
- Já não acredito, estou a perder a inocência.
Não me quer vender bolas de Berlim, o meu Maracujá. Terá receios, que nem eu, de me ver gorda. E eu tenho receios, que nem ele, de o ver rico.
~
Vou ao bar às 5 da tarde, armada em britânica do Brasil, e encontro-o superlotado com uma multidão de rapaziada homogénea, que precisa de ver e de ser vista. Elas são todas parecidas. Eles são todos clones: depilados, tatuados, bronzeados, híper-musculados, com penteados surreais, cap de pala virada para trás, olhar de conquistador barato. Bebo um café e deslizo de volta para junto da vizinhança de chapéu, pedindo aos céus uma ilha. Um ilhéu. Ah, não preciso, é verdade: a mulher é uma ilha.

---

Já tinha acabado meu postinho, fui lavar o cabelo, fora da banheira, como sempre. Consegui, não sei como, partir o vidro da banheira, que me caiu aos pés em mil cacos (até acho que eram mais do que mil), e sofri quatro pequenos golpes, um em cada mão, um no pé e outro na perna, que sangraram abundantemente, não valem um caracol, mas que estou a tentar rentabilizar em níveis de vitimização. Não fui dar sangue em Julho, o cosmos cobra-me gota a gota.
Tenho o que mereço.
(Já disse?)

11/08/2015

Diário de fora de bordo # 6

Ou
Das minhas incoerências

Assim como, assumidamente, compro guloseimas de que mais ninguém gosta, para que não acabem as minhas, vou às compras e esqueço-me completamente de comprar a fruta de que gosto, e venho carregada com quilos de fruta para os outros. Pêras e maçãs, não é o meu forte. Digo, a quem me sugere que coma uma pêra à sobremesa, que não gosto de pêras. Mas agarro numa pêra e como-a até aos caroços, sem um protesto. Isto lembra-me uma pequena rechonchuda, que hoje é uma mulher, a comer uma pêra inteirinha, dada pela minha mão, enquanto dizia, do alto dos seus três anos, Não gosto de pêia.
~
Isto é quase um clássico: os arrendamentos de Verão são de casas que têm máquinas avariadas. Acho mesmo que os senhorios compram máquinas que não funcionam, e equipam assim as cozinhas. Levo as toalhas de praia à lavandaria self service. Estão dois funcionários exaustos, pela quantidade de toalhas e lençóis que os aldeamentos ali despejam nesta altura do ano. Entra uma senhora inglesa, ou irlandesa, whatever. Quer o serviço rápido e barato que não existe, nem no relógio nem na tabela. Sobrancelhas coladas à raiz do cabelo, pálpebras esticadas ao seu limite máximo, os finos lábios da arrogância. Anda por ali uma mosca, das que se colam à cara. Aterra na cara dela, e com ela sai, toda cheia de enxofre.
- Esta senhora vem sempre assim, mal humorada. Vê-nos cheios de trabalho e ainda se vai embora toda enxofrada.
- Não. Enxofrada, não. Com a mosca.
~
O supermercado é, definitivamente, o lugar onde nunca, em circunstância alguma, me deves levar.
Estou na fila para pagar um cesto cheio até cá acima e mais além. Tenho apenas à minha frente o tapete rolante cheio das compras etílicas de um jovem provindo da Europa do norte. Tudo muito civilizado. Mas esta paz tinha que ser perturbada por uma azeda, que tinha apenas um artigo para registar, reclamou a abertura de uma caixa e, quando isso aconteceu, achou-se no direito de ser imediatamente atendida, ignorando a minha presença. Ora, eu não gosto que me ignorem. Odeiem-me, mas não me façam isto, sobretudo no supermercado. Aquilo que ali estava era uma líder, que queria mandar no mundo, designadamente no meu. Digamos que nos travámos de razões, porque ela decidiu começar a falar alto acerca de civismo e repetiu a frase Nós não somos todos iguais, o que me enervou. Vi-me obrigada a mandá-la calar-se. Ando tão civilizada. Isto, noutros tempos, era a barraca abaixo. Agora já só abana.
~
A casa onde estou instalada tem uma parede roxa. Nela, está exposto aquilo que o dono da casa deve considerar um quadro.
O meu blog era roxo, quando o abri.


~
Sonhei que tinha morto um homem. Capaz, eu, de, com unhas e dentes, arrancar um homem às garras, e vou sonhar que matei um.
Também tenho sofrido horrores com o síndrome das pernas inquietas. Acordo de noite a pedalar.
~
É uma cobardia entrar neste mar. A temperatura dele não provoca um único arrepio.
~
Passa um vendedor de bolas de Berlim, que também vende coca-colas, e diz "Coquinha fria".
~
Devo andar a alucinar. As férias não são só coisas boas.
Mas eu estou a gostar.
Também gosto de alucinar, para variar.

10/08/2015

Diário de fora de bordo # 5

Nuvens, vento e chuva, e mesmo uma pequena tempestade de areia, que durou dez segundos e nos tolheu de panos pela cara, tão sauditas, partiram para parte incerta — pela 125 azul, quem sabe. Avisto, a perder de vista, bandeiras, que podiam ser daquele verde do mar, entre o azul onde começa e o quase castanho da rebentação, onde acaba. Paralisaram, as bandeiras, adormecidas, por hoje, cansadas do hasteio e do desfraldamento diários e estivais.
Toda a gente lê na praia, menos eu, que só quero escrever. Encho papelinhos e papeis, que terei que passar a limpo mais logo, ao computador, e se eu embirro com portáteis. Só o teclado já é uma prova de nervos. Adiante, estou de férias.
O mar está tão parado quanto as bandeiras. E, por isso, ainda mais salgado, lágrimas de Portugal. Saio de lá com as pestanas esbranquiçadas. As toalhas de praia chegaram àquele ponto em que, se as puser de pé, fazem biombo. Ou para-vento.
É preciso ter sorte com os vizinhos, e isso é válido para todas as relações que envolvam partilha de espaços. Espetar o chapéu num alvo qualquer, e depois verificar que acertámos na pontuação máxima do péssimo, é como meter uma lança em África, mas ao contrário. Um continente tão grande, e parece que fazemos tudo para que no calhe o vizinho barulhento, o que fuma cigarrilhas, o dos miúdos malcriados, ou o malcriado, himself, que diz um palavrão palavra-sim, palavra-não, como as portas de Olhão. Eu também digo palavrões, com a diferença que não os imponho a ninguém. Digo-os sozinha, de sozinha que fico. Não poluo os ouvidos alheios. Mesmo no blog: quem me lê, sabe que os escrevo, pois sim, mas merda é um galicismo, e não conta, genitais. De resto, que se fornique.
- Isso páréci mintchira. Hoji á fábrica num tchinha dji márácujá. Amanhã já teim, cum cerrteza.
- Eu já percebi que vai mandar fazê-las, só para mim.
E rimo-nos, porque o amanhã já teim significa uma promessa de que amanhã ainda cá estamos. E lá vai ele, a sambar, os olhos metidos nuns óculos de sol espelhados — de lentes azuis, claro.


09/08/2015

Diário de fora de bordo # 4

Os dias correm amenos. O tempo oscila entre sol, aguaceiros e chuva, como a desta manhã. Não sei se é isso que determina os humores, mas é, certamente, um descanso para a pele. Ainda assim, persisto no factor 50. Sou morena, mas não acredito que o mal maior só acontece aos outros, e não vou para nova. Subtraio e somo tudo isto e dá 50.
~
Somo também as variáveis Algarve, sábado, Verão, Agosto, supermercado e dá portinhas do inferno, onde só entra quem quer. No entanto, hei-de voltar. Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar vontade de partir para outro lugar. Vou continuar a procurar a minha história, o meu lugar.
~
Pudesse eu escolher o meu nome próprio e hoje escolheria Maria da Saudade. Sei que não vivo em função, mas tenho-as sempre. Vou para um lado, tenho saudades do outro. Um bocado estou bem onde não estou. Só um bocado, porque estou perfeitamente bem, aqui e agora.
~
Bólhinha dji Bérrlim, tem dji lhimão, alfárrôba, ámêndoa e seim crêmi!

É ele e vem aí. Ainda não o tinha visto este ano. Não quero mostrar a felicidade que sinto em revê-lo — porque estamos vivos, porque temos saúde para dar e vender, porque ficámos unidos por uma private joke. Mas eu sou uma senhora, a praia tem milhares de pessoas, ele vai passar por mim, não me reconhecerá, e a ordem continuará intacta.
- Êssi ano já tem dji márácujá!
Acocorado diante de mim, mil dentinhos brancos, o samba no olhar, o mar eterno no tom.
- Olá. Não me diga isso, que eu fiquei a aguar pela bola de maracujá durante um ano. Foram saudades a mais, não se faz. Um ano de saudades é tempo a mais.
- Ágora já tem, pódji crê.
- Então, dê-me uma.
- Hoji num tem, mais pódji crê qui amanhã já tem.
- Amanhã espero por si, e logo vemos se é verdade o que me está a dizer agora.
Dois mil dentes, os dele e os meus, fica a promessa de dias sem fim, a pedir pela bola de Berlim que não existe e, no entanto, está no cesto dele e na minha gula.
~

- Gelado azul? Por que é que tu só comes coisas esquisitas?
- Porque gosto de azul e os olhos também comem. Porque, assim, ninguém quer o meu gelado, e posso comê-lo em paz.
É assim com os iogurtes. Os meus são "os azedos".
É assim com os sumos. Os meus são "os incríveis".
Uso truques para que não me devorem as minhas guloseimas. Escolho as improváveis, as insuportáveis, as que ninguém quer. Só assim sei que abro o frigorífico e as encontro, intactas.
Pode ser que mais ninguém goste de bolinha de maracujá.




08/08/2015

Diário de fora de bordo # 3

Estou na fila para pagar o secador de cabelo, que nunca uso, e do qual fujo como o diabo da cruz, mas também reconheço utilidade, numa terra cujos dias são quentes, mas as noites são húmidas, ao ponto de o cabelo não secar nem à força de promessas ao santo, por forte que ele seja. À minha frente, a proceder ao pagamento, uma senhora muito idosa, a debitar um número de contribuinte. A acompanhá-la, uma outra, a entrar não tarda no meio século, e uma menina, talvez com seis anos, aflita para fazer chichi. Pelo que percebo, já teria pedido que a levassem à casa-de-banho, mas recebeu, naquele momento, mais uma vez, por parte da mãe e da avó, as respectivas respostas: "Olhe, tem que esperar por chegar a casa", e "A menina, agora, vai portar-se bem". A criança deitou uma mão, chapada, ao entre-pernas, parecia mesmo uma parra. Depois deitou a outra, disse, num gemido, "Estou tão aflitinha", e assim ficou, de pernas abertas e as duas mãos a segurar a zona genital. Como o suplício não acabasse, começou a rodopiar sobre si mesma, e rodou, rodou, contei eu nove vezes, enquanto a mãe lhe sussurrava qualquer coisa que a fez parar e, então, adentraram juntas na loja, enquanto a senhora mais velha titubeava, pela enésima vez, o número fiscal sabe-se lá de que cápsula, em que galáxia. Fiquei a vê-la afastar-se, a trocar os pés um com o outro, sem saber muito bem se da vontade de fazer chichi, ou das tonturas provocadas pelo seu próprio carrossel. De qualquer forma, não se dirigiram para a casa-de-banho, e isso lembrou-me que ser filha de uma mãe daquela idade não é a mesma coisa que ser filha de uma mãe da idade das outras mães. Ainda por cima, sendo a única filha. Nem quero imaginar o que teria sido a minha infância sem uma irmã praticamente da mesma idade. A irreverência e a tomada de uma atitude também se aprendem, quanto mais não seja em conjunto. A mim, aquela situação não ocorreria jamais, não só porque a minha mãe era mais atenta e mais humana, como também porque nós não a deixaríamos chegar tão longe. Muito soquete molhei eu, quando a espera ultrapassou todos os limites. Existe uma linha de fronteira entre o conceito de educação rigorosa (que também me levaria longe, longe...), e direitos básicos de qualquer ser humano — inconfundíveis com meros caprichos —, que não pode nem deve ser pisada nem ultrapassada por ninguém.

07/08/2015

Diário de fora de bordo # 2

Sttau Monteiro não inventou nada.
Jorge Amado talvez. Não vi lá capitães.



Céu encoberto todo o dia, só faltava mesmo chover, apesar da canícula. E choveu mesmo. Sempre refrescou, embora também tenha feito debandar metade da passarada.

Já não é a primeira vez que estou na praia no momento em que começa a chover. Também já assisti a uma trovoada mesmo em cima do mar. E a uma praga de mosquitos. E a mini-tornados. Mas o fenómeno mais bonito e que gerou a reacção mais curiosa, assisti há uns três ou quatro anos, em São João da Caparica, à passagem de três golfinhos, num dia de praia cheia, em que a multidão se levantou da areia em peso, apontou na mesma direcção, e, em coro, fez um longo Oooooooooh. 



06/08/2015

Diário de fora de bordo

Noto menos tatuagens, menos celulite, menos edemas linfáticos e menos obesidade do que nas praias limítrofes à capital. Chego a imaginar que tudo isso se perdeu na A 2.

Ficámos instalados num sítio onde cabemos todos e mais algum. Por isso, trouxemo-lo também, neste caso personificado na bela Inês. Parece que é mesmo verdade que antes mais um do que menos um. E que onde cabem seis, cabem sete. O coração dos pais é elástico, assim como as casas na praia. Junto mais água ao feijão, que é como quem diz, compro mais uma lata de feijão e comemos sete à mesa como quem come o repasto mais requintado — que é.

Pelo menos, desta vez, não fomos recebidos por uma careta desconfiada, na entrega das chaves da sua alegre casinha, tão modesta quanto não eu. O ar carrancudo dos senhorios temporários chega a ser enternecedor. Recebem o pagamento à cabeça, e fazem a cabeçorra de quem duvida se seremos gentes de confiança. Como se isso nos impedisse de agarrar as chaves e mandar vir os quarenta ladrões, abre-te Sésamo, cessa-me o castigo, tão Doces que elas eram. Desta vez, ditou-nos a sorte, ou as coincidências que a vida não tem, um senhorio gentil e cheio de salamaleques. Salamalek, estamos mais perto de Marrocos.

A Inês faz um bolo de chocolate que nos põe a todos em prantos e vale de lágrimas, a pedir por mais, indiferentes à linha (e à tesoura e à agulha, de que precisaríamos, caso continuássemos a este ritmo). O rapaz diz, de duas em duas frases, "Eu só quero o bolo da Inês". Metafórico, ou não fosse ele filho de quem é. Ainda bem que não se chama Pedro.

03/08/2015

Lista das mil porrinhas (actualizada)

As férias são tão cansativas. Estou exausta só da preparação. E ainda não fiz uma única mala. 
De roupa e cosmética, já desisti de fazer listas. Houve tempo em que tinha que fazer, por ser eu quem fazia a mala de seis pessoas. Leram bem. Na verdade, fazia seis malas. Por, às vezes, me descontrair da lista, é que aconteciam percalços como aquele de deixar em casa todas as camisolas de um deles. Sou até hoje famosa pela frase Estão as meninas, está tudo, resposta à pergunta Está tudo? E vrrrum, rumo ao Algarve, o saco dos biberons no chão da garagem. Ainda hoje é jargão, à saída para férias, mesmo depois do surgimento do infante, Estão as meninas, está tudo.
Por isso, agora faço listas de porrinhas, porque não me esqueço da roupa, com certeza — mas também não vou para nenhuma ilha deserta, posso comprar o que me faltar no meu destino (embora, convenhamos, numa ilha deserta não me fizessem falta os meus glamoures todos da Primark* e das boutiques da fancaria onde me abasteço, feliz pela grande oportunidade única, que agarro como uma agarrada) —, mas, das mil porrinhas, não estou livre de me esquecer. E a lista delas já vai em alguns itens:

* Comprimidos — é verdade. Sou hipertensa, já disse? Isto de ser blogger está a dar cabo de mim, raparaparaparaparaparapará.
* Carregador do telemóvel — deve haver mais trezentos telemóveis com entrada semelhante à do meu nesta casa, mas eu acho que devo levar mais um. Pode acontecer descarregarem-se todos ao mesmo tempo. Ou os outros 299 desaparecerem no meio da desarrumação, logo ao primeiro dia. Assim, estou segura.
* Cabo de dados — ando sempre a tirar fotinhas para vos mostrar. Tenho que as passar para aqui de alguma maneira. Chico-smart recusa-se. E eu não insisto, não vá ele amuar.
* Pela-batatas — é uma ceninha tipo Gilette, mas para tirar a casca a legumes e frutas. Eu não vivo sem aquilo. As minhas cenouras ficam lindas, deliciosas e quase inteiras, só que sem a pele. Depiladinhas à brasileira. Palavra que até lhes falo com sutáki quando estou a depilá-las.
* Kit de costura — a mim, é em férias, ou longe de casa, que me saltam os botões todos. Deve ser do stress ferial. 
* Alfinetes de dama — a mim, é em férias, ou longe de casa, que os decotes me parecem estupidamente pronunciados.
* Sacos de rede para lavar meias e sutiãs — porque sou peniquenta e não se fala mais nisso. Nesta casa, os sutiãs multiplicam-se. Até se dão à lata de fazer o amor e, consequentemente, terem bebés
* T-shirt que é a minha toalha do cabelo — aprendi esta com a Filipa e nunca mais mudei de hábitos. A minha, é uma t-shirt de homem, que comprei na Primark (mau, já me estou a repetir), para aí por 3 euros, tamanho XXL (e não, não sou cabeçuda, tenho é o cabelo comprido). Quem diz homem, diz mulherona.
* Máquina depiladora com carregador e todas as cabeças — porque eu descubro pêlos até na vizinha de colmo, e faço um esforço titânico para não a atacar de pinça, por isso é de bom tom levar a minha máquina, para o que der e vier. Não me devo ter feito entender, mas há piores, apiors (ou up your ass).
* Talheres com cabo de plástico — é que eu sou alérgica. Ao fim de três dias fora de casa, sou menina para ter as mãos numa chaga, boas para meter num par de luvas de boxe e socar-me a mim mesma, de raiva pelo esquecimento. (Thanks, Agridoce, como diriam os americanos.)

Também devia levar molas da roupa, que as casas de férias devem mastigá-las: a experiência diz-me que chego lá e há cinco molas para seis toalhas de praia. Isso e cabides. Acho que conheço todas as lojas de chinês do país, à custa da falta de cabides com que sou brindada à chegada. Se pensar bem, o ideal é levar também tachos e panelas: as casas de veraneio têm tipo uma panela de dez litros e uma frigideira de 10 centímetros de diâmetro. Isso e muitas colheres de pau com nhanha na ponta. E facas. Estas casas costumam ter a faca peixeira e uma faquinha tipo canivete, que deve ser para barrar manteiga no Pólo Norte. E copos. Não sei o que raio passa nas cabeças dos donos das casas arrendadas para férias, que enchem um armário de copos de pé alto, oferta das cervejas, para uma inocente como eu beber um copito de água. Se pensar bem, devia levar a minha cama e a minha almofada. Ah, é verdade, por falar nisso: a ver se acrescento *Almofada aos meus itens (chiu).

Quando me lembrar de mais alguma porrinha, venho cá dizer. A minha lista pode ser de uma utilidade extrema. 

* ninguém me paga para isto, era o que faltava. Pelintra, mas não tanto.


07/07/2015

Maracujá

Vi-o outro dia, no Jornal das 9, quase famoso de chegar à televisão, o meu Maracujá.
Vende ele bolas de Berlim na praia da Rocha Baixinha, e disse ao repórter que, este ano, a grande novidade que leva no cesto são as bolas de amêndoa. Não sei se essas bolas existem mesmo, se são só para atrair freguesia, se sabem a maracujá ou só a chocolate.
Não usa o pregão booolinhas!, como todos, a lembrar tempos que já ninguém lembra, nem eu me lembro, mas sei de tanto ouvir falar, que eram os da fava rica e da bela sardinha. Antes grita bólhinhá dji chocolátchi, bólhinhá dji máçã, bólhinhá dji pêssigo, naquele sotaque carioquíssimo. Calhou de um dia passar por mim e ter gritado bólhinhá dji márácujá, que me deixou a salivar por aquilo e à espera dele na volta do pôr do sol, ou que viesse noutro dia, mas que sem bólhinhá dji márácujá eu não queria passar o resto das minhas férias, nem o resto dos meus dias.
Voltou passado um dia, alardeando bólhinhás de tudo e mais um par de frutas, nenhuma dji márácujá, mas, aguada de véspera, descrente na pouca sorte, chamei por ele e pedi-lhe, disfarçando a súplica, uma bola de maracujá. E ele riu-se, com mil dentes, todos branquinhos, alinhados numa enfiada certa, e explicou-me que não tinha, nem nunca tinha tido, bolinhas de maracujá, e que as anunciava só para atrair freguesia. Cá estava eu, atraída, freguesa, aguada e desiludida. Nessa tarde, comi uma de chocolate, que me soube a chocolate e desalento, mas não me soube a maracujá, por mais elogios que se rasgassem em redor dela.
Nos dias seguintes, e até acabarem as férias, via-o surgir, carioquíssimo, apregoando bólhinhás, e, quando passava por mim, anunciava, a rir, márácujá!, mostrando a enfiada certa de dentes branquinhos, a contrastar com a cor de chocolate dele —, mas não mais comi bolinhas com esse recheio, nem com outro qualquer, que não fosse o maracujá da minha imaginação. 
Passei, então, a referir-me a ele como Maracujá.
Quando voltei para Lisboa, soube por uns amigos que ainda ficaram, que perguntou por mim, a sinhóra do márácujá. A Senhora do Maracujá. 
E não mais apregoou bólhinhás dji márácujá naquele Verão.