23/09/2021

Com amigas assim, quem precisa de... (outras) amigas?

Enquanto me hospitalizaram e eu não tinha mais nada para fazer, a não ser, aparentemente, arranjar modos vários de não me darem alta, dei-me a um estudo antropológico das minhas amizades, através das mensagens SMS que recebia, nalguns casos bi-diariamente, noutros penta-diariamente, ou até ad-nauseum-diariamente, tendo chegado à conclusão que sim, talvez, quem sabe, é possível que seja verdade que atrais aquilo que és. (Enfim, isto não pode ser levado ao rigor rigoroso, caso contrário seríamos todas belíssimas, e não somos. Percebem?) Bom, em primeiro lugar, apercebi-me de que tenho muito mais amigas mulheres do que homens. Vá-se lá perceber porquê, os homens não costumam ser meus amiguinhos. Olhem, ide-vos encher de moscardos, já não vão aos meus anos.

Quase posso afirmar que saí do hospital com uma carrada de stress pós-traumático digna de ir directa para a Psiquiatria. As pessoas não têm consciência da profusão de mensagens (e não telefonemas porque cortei o canal logo pela raiz) que uma humana recebe quando internada, às quais não consegue dar vazão, só lhe restando uma de duas alternativas: ou responde, ou ignora. E acontece que grande parte das mensagens contém trinta perguntas, não se contentando o emissor, depois receptor, com um simples: "Estou melhor". É um "Já falaste com o médico?", "Já comeste?", "Já cagaste?", “O que é que surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A sério, pessoas? 

Não consigo, assim de cabeça(da), eleger a best friend forever of das minhas mensageiras, sem que me sinta mal-agradecida ou malévola. Ou injusta, pois a verdade é que tal nem é possível, já que houve duas que ficaram ex aequo na capacidade de serem, como dizer…? Um ferro. Uma mala. Uma sarna.

1. A amiga que todos os dias me mandou mensagem de como estás, à qual respondi, imaginem o que quiserem, pois, indiferentemente do que dissesse, contra-respondia: “É uma recuperação muito lenta”. Imagine-se que a minha resposta à primeira abordagem do dia era: “Estou excelente, aos pulos na cama, já ensaiei o triplo mortal encapado à retaguarda com dupla pirueta”, que sim, lá vinha a contra-resposta pré-fabricada. Um dia enviou-me um longo texto a relatar que ficou presa na varanda e teve que chamar quem passava na rua, mas quem se passou fui eu, e então não dei resposta. Esperava-me uma recuperação muito lenta, nomeadamente deste tipo de interacção;

2. A amiga que todos os dias quis saber notícias, e, tal como a outra, tinha uma contra-resposta-tipo: “O que é que disse o médico?”, porque, convenhamos, ninguém melhor do que o médico — que, por vezes, ainda nem tinha feito a ronda e, quando já, tinha estado comigo, na loucura (não nessa loucura), dez minutos por dia —, sabia como é que eu me sentia. Um dia, à laia de solidariedade na saúde e na doença, disse-me que o marido estava com uma prostatite, e eu, impossibilitada de esgrimir de igual para igual esta espécie de argumento, já que nasci sem próstata, não respondi.

Para elas — se me lessem, mas felizmente que não, pois esta revolta sem reviravolta mágoa há-de passar-me (a tal recuperação muito lenta?) —, mas especialmente para mim, vale o lema: “Se não tens nada de útil ou agradável para dizer, simplesmente mantém-te calado”.


22/09/2021

Às vezes, também eu vivo no limite

Rosinha, minha canoa, transmutou-se, por motivos não óbvios, mas vários, num carro partilhado do lar que acolhe estes ossos que agora aqui escrevem. Meu boi envelheceu drasticamente, talvez nem seja possível arranjar-lhe novo dono, encontrando-se apenas à espera que um meteorito venha dar-lhe paz, o que pode nunca vir a acontecer, pois está jazendo na garagem.

Depois, acontecem episódios destes: pessoa humana liga a ignição de Rosinha, toda lampeira que vai dar um giro, e lê o sinal de falta de combustível. Havia emprestado a viatura a uma das crianças durante a manhã, ou melhor, um dos consortes havia feito uso do bem comum. Quando aquele sinal se ilumina, costuma carregar lá no botão que avisa quantos quilómetros ainda pode percorrer sem ficar apeada de colete reflector vestido e ar compungido numa qualquer estrada da vida. Digamos que deu 0. Zero. Dava para, tipo, minha gente, zero. Zero mais zero, é igual a zero. Podia, em suma, ligar o motor e ficar dentro do carro estacionado, à espera que ele se desligasse naquilo a que os antigos chamavam o peido mestre. 

Raciocinando soluções, ir buscar um jerrican de gasóleo era qualquer coisa de impensável: as quatro bombas mais próximas, equidistantes, todas a mil e quinhentos metros: uma a direito, duas a subir, outra a descer. Três mil metros de saltos altos não me pareceu fazível, pelo que se está mesmo a ver qual das quatro escolhi: se tudo falhasse, era destravar Rosinha e weeeee, lá vai disto. Pois, porque empurrar a coisa, lá está, de saltos altos, nem falecida, quanto mais a vender saúde. 

Enfim, ar condicionado desligado, vidros abertos, um quilómetro e meio de rezas e algumas promessas — nomeadamente, “Apagas-te agora e nunca mais levas Evologic” —, transgressão muito bem efectuada com vista a atalhar caminho, lá levei Rosinha até à manjedoura com tranquilidade. Para ela, porque a pessoa condutora ia nuns nervos tais, que desconhece ainda hoje como é que não entrou em auto-combustão, agravada pela profusão, no local, de combustível, passe o pleonasmo.

Ainda não foi desta que estreei o colete (tamanho XXL, não acho normal. Terei que lhe fazer uns ajustes e personalizá-lo com um cinto, ou assim), nem tive que adoptar aquele semblante de vítima do infortúnio.


20/09/2021

RESPECT

Se acharem que é spoiler, é não lerem # 15

Hum, não sei o que diga. Moí os ossos ao meu povo para que algum deles me acompanhasse a ver esta fita. Quase tive que ameaçar deslargar o lar para todo o sempre, cortar os pulsos (de um deles, não os meus) ou fazer greve de fome até ficar igual à Claudia Schiffer, mas em morena e bela. Está bem que podia bem ter ido sozinha, porém deu-me a birra e queria levar pessoas. Consegui convencer, através de suborno, uma única que se prestou e lá foi comigo. E, no final das contas feitas, apanhámos uma pastilha de duas horas e meia sem intervalo [carinho e amor para o legislador que permitiu o regresso do balde de pipoca à sala, pelo que pude permanecer desmascarada durante todo o filme, a chafurdar-me naquilo], a ponto de praticamente ter-me visto na contingência de ter que lhe pedir desculpas e de a indemnizar, para confirmar a óbvia conclusão de que, para se ter algum sucesso — e (consequente?) queda retumbante ao fim de meia dúzia de anos — no showbiz, há que abraçar as drogas ou ser-se naturalmente um bom borracholas. Parece que o plateau não é para sóbrios.



19/09/2021

Disparidades

Convocada para estar presente numa reunião com o homem do gabinete sem janelas, que toda a gente da minha família (a qual, conforme é sabido, é algo numerosa) — menos eu — já conhecia, entro e a primeira coisa em que reparo — fora o facto de não haver janelas, não sei se já disse —, é que ele tem um braço mais curto do que o outro. Terminada a reunião, comento com quem me acompanhou que não sabia que o homem tinha uma assimetria nos braços, e vá que não fiquei muito espantada que a minha companhia não tivesse em tal reparado, pois que é distraída, pois também que o assunto que nos levava ali era de maior absorção para ela do que para mim. Chegada ao lar, faço uma alusão ao facto, e não é que os restantes elementos da prole — um dos quais jogou à bola durante anos com o referido — me garantem que nunca deram por nada? Pessoas, eu estou a falar de uma diferença de vários centímetros, tendo em conta que o braço esquerdo do homem está em permanente ângulo de noventa graus. Qualquer coisa de evidente, que salta e pula à vista desarmada. Porém, explicações para semelhante mistério, já equacionei N:

1. Vi mal. Estive com ele à frente cerca de meia hora, mas foram trinta minutos de ilusão de óptica/ delírio/ alucinação;

2. Ele estava com uma cãibra ao nível do cotovelo, perfeitamente indisfarçável;

3. O homem comprou um fato num saldo, made in Tiroliro, e o molde de um dos braços era totalmente diferente do outro;

4. O homem teve um pequeno AVC assim que me viu, que basicamente disfarçou como pôde, ou seja, mal;

5. O homem já nasceu assim e eu estou rodeada de distraídos.


17/09/2021

Inoculada = chipada?

Aqui há coisa de dias submeti-me À vacina. [Eu digo vacina com o primeiro A fechado. Estimo que quem diz vácina pondere muito bem como é que pronuncia quando, em vez do C, está um G.] Ia assim meio a medo que demorasse, não a entrada do líquido na chicha, mas entre o ir e o voltar, recobro incluído. Uma desilusão, nada para contar: militares desde a entrada até à saída, parecia que tinha entrado em, sei lá, Cuba, ou então num quartel-general, tudo muito musculado, só faltou baterem continência aqui à idosa, era da maneira em como lhes fazia o mesmo. Logo à chegada, um militar giro, grisalho e vestido de camuflado — olhem, podia ter que se esconder, assim de repente, na mata adjacente ao pavilhão, e ficava logo invisível, enquanto mulher-coragem dava o corpo às balas —, disse-me que não podia deixar-me entrar, mas hahahaha, era só uma piada. Lá dentro, o chão de acesso ao pavilhão muito torto, claro que perguntei ao senhor que ali estava se era para verificarem quem é que chegava ali sóbrio. Preenchido um questionário (Tem febre? Tem caspa? Doem-lhe os rinzes?) num sitinho tipo sala de actividades do jardim de infância, fui encaminhada para o espaço dos leprosos das pessoas que já tiveram covid e, por conseguinte, só merecem uma dose, logo chamada para uma espécie de gabinete, onde uma belíssima e simpatiquérrima militar me inoculou/ me salvou a vida, ou, nas cabeças mais torturadas, me injectou o chip para Alguém me controlar (calma, que eu sou tão interessante, que haverá neste mundo quem o queira fazer), ou, no limite, me transformar num jacaré. Olhe, pode antes ser aquele lagarto da Lacoste?
(Passei vinte e quatro horas com dores no braço e a sensação de estar outra vez covidada, mas depois passou tudo. Estou como nova, tipo botox.) (O FBI ainda não me contactou, não se percebe esta lentidão nas merdas.)

15/09/2021

Eu tenho problemas com médicos # 25

Naquela consulta na médica das miudezas, que uma pessoa mulher só reza para que passe rápido, ou, em alternativa, que o tecto tenha uma réplica das imagens da Capela Sistina, mas que também podia ser um filme da Disney, ou qualquer outra forma de fuga em frente, dizia-me a querida doutora, olhos postos no ecrã e sorriso nos lábios atrás da máscara, que tenho um útero limpo, liso, sem irregularidades nem pólipos nem quistos (só faltou chamar-lhe lindo e maravilhoso, mas eu percebi), muito bem operado por quatro vezes, sem cicatrizes nem aberturas, ou seja, oco, vazio, como se quer, e então, amolecida derivado a tantos elogios uterinos, e um bocado para fazer conversa de circunstância — já que o tecto, ainda por cima, era branco e liso (ninguém merece) —, perguntei:

- Nem pessoas?

- Como?

- Não tem nenhuma pessoa lá dentro?

Não que pudesse ser ou de tal suspeitasse, mas nada como confirmar pela opinião do mecânico que as vielas estão on top.


14/09/2021

O novo anormal

Vamos imaginar que uma pessoa humana se dirige a uma filial do “seu” banco, ou daquele onde deposita, senão as suas esperanças, pelo menos as suas parcas economias, com vista a deixar lá umas notas e, assim, reforçar a possibilidade de a instituição bancária lhe abafar uma módica quantia mensal justificada por, vá, despesas de manutenção, seja lá o que isso for. Então, entra, dirige-se a algo que antes foi um balcão de atendimento ao público, mas que se transformou, num passe de mágica — ou terá sido doble? —, na secretária de quatro pernas de alguém que está supinamente aborrecido com a vida no seu geral e com a entrada de uma freguesa no seu particular, deseja bom dia e confessa que pretende efectuar um depósito em numerário. Que não, que já não fazem semelhante operação, que agora é ali naquelas máquinas. Plantada a dita coitada diante das mesmas, verifica, um nico atónita, que se trata de duas colunas siamesas, sendo a da esquerda muito parecida com um vulgar multibanco e a da direita com um triturador de papel, mas em grande. Pondera em que ranhura há-de enfiar o cartão, que descobre na coluna esquerda, mas não arrisca. Há um botão touch a dizer qualquer coisa como “fazer como na aplicação”, toucha aí e não acontece nada. Depois mira a trituradora, equaciona enfiar ali as notas e seja o que Deus Nosso Senhor quiser, mas debate-se interiormente com a possibilidade de a massa lhe sair feita em esparguete por algum buraco invisível, e demove-se. 

Imaginemos que a cena ainda durou o quê? Vá, entre três e quatro minutos. Sem manual de instruções, sem que o funcionário desalapasse a peida da cadeira (Facebook oblige), sem qualquer orientação vinda do Além, ala que se faz tarde, mais vale meter o conteúdo dos bolsos no colchão, que ao menos a humana sabe como fazer e não lhe come comissão nenhuma. Como antigamente, acrescente-se.

11/09/2021

Onde andavas tu?

Em casa. Nesse tempo, eu era feita do material de uma bolha protectora. Tinha um bebé com um ano, que tinha acabado de almoçar e estava a deitá-lo para a sesta. Tinha uma menina com dois anos e meio, uma com quase cinco  — que tinha rachado os queixos dias antes e não parava de pular (ainda hoje, minha cabrinha Mimi) — e uma com quase sete. O mundo mudava lá fora, mas, não fora o telefonema de uma comadre das minhas, e não teria sabido de nada. Desconheço por quanto tempo mais duraria a minha ignorância, mas estou certa que, se soubesse o que sei hoje, nunca teria deixado rebentar a querida bolha.

(Curiosamente, o dia 11 de Setembro estava — e está — gravado no meu coração como a DPP de abertura e encerramento da minha maternidade.)


09/09/2021

Não lhe dês peixe

A história andou sempre à volta de um carreto no bolso, que o segurança do supermercado viu, sabe-se lá se à transparência, se tinha mesmo assistido à prática do furto, era para uma cana de pesca do homem já velhinho, não levava mais nada quando passou a linha de caixa sem pagar, nem um peixe, nem uma côdea, só mesmo o carreto, e então escutei o estrondo do silêncio na sala quando ele explicou que era para ver se conseguia pescar alguma coisinha para comer.


08/09/2021

Faça chuva ou faça sol

Primeiro, apenas uns pingos que diz que só molham os tolos, ia já a caminho do meu destino, estrada fora, bem sozinha, mas não para levar o lanche à minha avozinha, nem descalça para a fonte pela verdura, lá ia eu, e a água em gotas a cair-me na cabeça, nos braços e nas pernas à mostra, mas quem me mandou sair de vestido branco e leve como um véu, com um céu óbvio de chumbo? Cheguei bem borrifada, como antigamente se punha a roupa "boa para o ferro" — havia até uns frascos de plástico que diziam "Borrifador", não fosse uma pessoa pequena confundir aquilo com uma bisnaga de Carnaval —, aviei-me dos avios que ali me levavam, mas, à saída, já caía água a jorros lá de cima, sem sequer alguém avisar "água vai". O senhor que veio lá da terra das especiarias (que ainda não percebi se Índia ou Bangladesh, pois fala um Português enviesado que não responde às minhas dúvidas) emprestou-me um guarda-chuva que daria para guarda-sol, tamanho era o tamanho dele, e deste modo voltava para o lar quando descobri, debaixo de umas arcadas, uma mulher encharcada, feita pássaro apanhado na cheia, tiritando discretamente, e então meti-a debaixo do guarda-chuvasol e deixei-a no destino dela, não seca porque não há milagres, mas cheia de luz e festa por ter tido semelhante sorte, e percorri os poucos metros que me faltavam, eu sim inundada até aos ossos — parece que o chapéu encolheu entretanto, e o distanciamento social imposto só deu pano que chegasse para uma, que foi ela —, não sei se de água, não sei se de sol. 

06/09/2021

A mulher que podia ser minha mãe #3

quis calçar-me uns sapatinhos todos rotos e eu não deixei. Tinha acabado de chegar e vinha cheia de excesso de informação, como sempre, mas, naquele dia, eram gritos que saíam de toda ela: leggings de flores garridas, top rosa salmão e casaquinho rosa cerise em cima, brincos e óculos de sol de plástico vermelhos, e a máscara, isso é que eu não perdoo, a máscara bordeaux, cirúrgica, descartável. Expliquei que os sapatinhos, com que ela pretendia vestir as minhas sandálias para as proteger do vírus, tinham furos dos saltos dos sapatos de outra mulher, e que, por conseguinte, aquilo era uma falta de higiene. Ficou maluca, destravou a língua, argumentou que os lava com lixívia e álcool-gel, que os manda vir do estrangeiro, que, caso tivesse que dar um par a cada pessoa que ali entrasse, teria que acrescentar cinco euros à conta. Depois fiquei maluca eu, respondi-lhe que essa lavagem fica mais cara do que comprar pares novos, que se vendem no chinês de Alvalade, e que, para a próxima vez, levo um par comprado lá por mim.


04/09/2021

A mulher que podia ser minha mãe #2

pergunta-me, à chegada e à queima-roupa, se estou grávida. Fica imediatamente atarantada com a minha não sei se exagerada incredulidade, de tal forma que não respondo. Levo um vestido de corte império, que me faz napoleónica e bonapártica, mas também barriguda. Posso igualmente estar com os enchidos cheios, mas não será de ar daquele que sai intempestivamente (porque eu sou uma senhora e não faço essas coisas), ou, sendo, há-de sair integralmente por cima (discretamente, minhas mini-narinas afora, em ventinhos paralelos), se Deus quiser e o discurso de absurdas desculpas dela não continuar ao ritmo alucinante que já leva no embalo. Afirma agora  que estou mais magra, eu que a balança diz que não, e lembro-me que aquele mesmo vestido tem catorze anos e ainda cá mora. Nunca perguntes a uma gorda nem a uma multípara cujo filho mais novo tem vinte e um anos se está grávida. Efectivamente, nunca perguntes.



31/08/2021

A mulher que podia ser minha mãe

disse-me, do alto da sua sétima década, cabelo negro asa-de-corvo, que nunca perguntei se pintado, porque evito as retóricas e existem indelicadezas que ainda não cometo,

Como é que pensa que eu tenho este cabelo lindo e brilhante?

[Eu, que não pensei, ponho-me, agora sim, a cogitar que talvez vá dizer-me a marca da tinta, pode ser que me revele o nome do alquimista, quem sabe um truque caseiro, um ovo esmagado no cocuruto, um chá fervido — e logo arrefecido, digo eu — esfregado na raiz, pensamentos meus bailando bachata, enquanto ela sorve a minha expectativa.]

Porque tomo todos os dias ácido hialurónico pela boca.



27/08/2021

United Colors

Ando a sentir-me posta à margem, de lado, ou de parte, escolhei: está agendada uma actividade muito gira, lá nas aulas de dança que frequento — cada vez com menos gás (não metano) —, à qual não comparecerei, e porquê? Porque não quero. Só que sinto esta exclusão: todas muito excitadas, a pagarem um pequeno balúrdio por uma t-shirt que nunca voltarão a usar, eu de mona à banda, só à espera que o momento publicitário acabe o mais rapidamente possível — o instrutor reza sempre a mesma missa antes, a meio — no meio do nada — e no fim de cada aula, que vai ser muito giro, que nos outros anos foi muito bom, mas

mas que vamos sair de lá muito sujas, e isso, para mim, é o turn off, é o gatilho para acabar de vez com a minha vontade de festa. A actividade envolve tintas em pó, uma espécie de Color Run, mas a dançar, I am sorry mas perdi a pica só de me imaginar toda cagada de verde e amarelo a entrar em Rosinha, minha canoa, e depois a deixar um rasto colorido até à minha porta, fora o banho com palha de aço a que teria que me sujeitar ao fim de um dia de estafadeira a chacoalhar o quadril. Já não há cu.


26/08/2021

A mim dá-me revolta

fazer uma compra e ter que pagar a embalagem/ saco/ envelope (caso dos da farmácia), mesmo que de papel, ou melhor, na hipótese de os trazer comigo, ter que esse coisinho fazer parte da minha conta, "porque eles agora exigem". Por eles entenda-se a boa da ASAE.

Até parece que as embalagens não fizeram sempre parte do preço dos artigos. Só quem não faz compras regularmente é que não sabe que uma lata de salsichas custa menos do que um frasco cheio delas com o mesmo peso. E que, por exemplo, se a compra for de uma peça de roupa, a porra do saco já estava mais que incluída no preço da compra. Não será uma ingenuidade acharmos que o retalhista paga as embalagens que fornece, e não é sobre a cabeça do consumidor final que rebenta sempre a bomboka?

Ou seja, agora pagamos o saco duas vezes: uma, no preço do artigo, a outra sobre a conta final. Parecem os idos tempos em que eclodiu o IVA, e em que chegávamos ao balcão e nos acrescentavam o valor do imposto. E até sabíamos que esse valor já estava contemplado no preço final, só que o acrescentavam de novo aquando do pagamento. Ou seja, pagávamos (X + 23%) + 23%. 

Assim como agora pagamos (X — sendo que X = dobro do preço que o comerciante pagou ao fabricante — + 23% + € 0,5) + 23% + € 0,5. Uma merda cujo "valor" começou em 5, é vendida por 10 + 2,3 + 2,3 + 0,5 + 0,5, ou seja, por 15,6.

(Aquela indelével e insondável sensação de que este raciocínio pode estar inquinado.)

Gatunos.

Hoje comprei uma peça de roupa. A funcionária — que já estava azeda comigo desde que entrei na loja, oh, karma! — perguntou-me se era para oferta, disse-lhe que sim, então questionou se queria um saco,

Não, se tiver que o pagar. Qual é a alternativa que tenho?

Uma caixa. São 35 cêntimos.

E que alternativa tenho eu, se não quiser pagar a caixa?

Temos sacos por 25 cêntimos e sacos por 50 cêntimos.

E, caso não queira levar nenhum dos três, levo a camisa debaixo do braço?

[Sobrancelhas olimpicamente elevadas até à raiz do cabelo.]

Saí da loja com a caixa na mão. Como se a loja não tivesse todo o interesse em que eu andasse pelo shopping a pavonear a marca. Deviam pagar-me para isso, isso sim.

O senhor da farmácia contou-me que os sacos/ envelopes que distribuem pelos clientes com os medicamentos/ cremes/ chuchas e outros artigos de diversão, lhes são oferecidos, mas têm que, obrigatoriamente, por lei, cobrar um cêntimo por cada um. Por uma questão de princípio, saí de lá com a escova de dentes e as hormonas na mão, pois não cabiam na minúscula malinha que agora uso.

(Para combater o desperdício, dizem eles. Qual desperdício, se até a medida de proibir os sacos de plástico, que havia de ter entrado em vigor no dia 1 de Julho já ficou em stand by?)


24/08/2021

Runnin’ With the Devil

(Título só para chamar as freguesas. Já lereis porquê.)

Numa matemática muito de cabeça, não de, mas com vento — sobretudo neste Verão, que se tem revelado  ciclónico! —, algo ponta do lápis, se aqui a Obikwela albina correr mil metros por dia, todos os santos, ao fim de um mês terá corrido trinta — ou trinta e um, ou ainda vinte e oito, tudo dependendo de em que mês se encontra — quilómetros no final de cada mês, certo?

Isto vem a propósito de no domingo ter ido dar uma sprintada pelas vielas, becos, ruas e avenidas, ter levado uma hora para percorrer seis quilómetros e meio, e ter chegado com a língua nos pés, que só mesmo se me tivesse sido dada oportunidade de fazer uma birra daquelas de punhos e pés no chão, é que teria encontrado algum alívio. Se AC (antes do covid) já fazia sete quilómetros sem um esforço de registo, DC (deduz-se) chego ao terceiro quilómetro e já me custa um horror carregar os cornos. (E chiu, cansei da frase “É uma recuperação muito lenta”. Tenho uma amiga que, rigorosamente todos os dias, me enviou, enquanto internada na “enfermaria das sugar babies” — nome pelo qual, obviamente, os médicos denominavam a enfermaria onde se encontrava aqui a boneca — uma mensagem com essa sentença). Mas vá que um dia volte aos sete semanais: são cerca de vinte e oito/ trinta por mês. Mais vale ir todos os dias, então. E, se me cansar muito, corro quinhentos metros de manhã e quinhentos à tarde. Ou duzentos metros cinco vezes por dia. Ou cem metros dez vezes por dia.

(Está a ir bem, minha matemática?)

Vai haver um dia em que corro dez metros, cem vezes por dia. No lar. (Nem preciso de me equipar.)

22/08/2021

Air-podes

Não sei se alguém, algum dia, alguma vez, se debruçou sobre a anatomia dos airpods, aquelas duas pecinhas semelhantes a aparelhos auditivos com cauda, que a Apple (ler áple) criou, para gáudio não sei de quem. A principal questão daquilo é exactamente a sua configuração, ou probabilidade de adaptação a todas as conchas (fui estudar, sim) de orelhas do planeta: aquela rigidez, tanto ao nível da cabeça como do cabo (antena?) serve para todo e qualquer buraco auricular, sendo certo que inclusive a mesma pessoa chega a ter dois canais diferentes (guilty!)? Quanto aos outros, mantenho firme e hirta a minha ignorância, mas, quanto à minha pessoa, quanto a esta única que me pertence — euzinha —, cada orifício é um orifício, e as entradas das minhas orelhas, apesar de detentoras de uma beleza irracional, são subtilmente diferentes uma da outra: tudo o que é auricular tem melhor adaptação num lado do que no outro, e isto referindo-me àqueles ditos normais, que vêm munidos de uma esponjinha, ou então de uma borrachinha. Há sempre um que salta fora mais vezes do que o outro, e, ora, assumindo que as peças são iguais (ou "em espelho"), só pode ser o desenho das minhas orelhas que é desigual.

Ainda não falei sobre o preço dos airpods, pois não? Também não vou falar.

Digamos que entendi necessitar de um par deles e me calhou em caminho, em passeio pelo bairro, o estabelecimento comercial de um senhor vindo lá da terra das especiarias, e então, porque sou amiga do incentivo ao comércio local, e ele havia exposto na montra uns airpods iguaizinhos aos da Apple, tomei a decisão de entrar. Travámos um curto e ininteligível diálogo — o homem só fala Inglês, mas dá-se que não entende uma palavra do que se lhe responde. Ora, o meu Inglês é parco, mas porra, desde que não pontilhado de "porras", entende-se perfeitamente —, que terminou numa espécie de linguajar gestual da minha parte, e então lá carreguei comigo uns airpods completamente iguais aos originais, por cerca de um sexto do preço dos ditos.

E eu feliz.

E sim, também se confirma: um deles salta-me da orelha mais vezes do que o outro.

E não, o comportamento não é igual ao dos da marca. Mas o que é que isso interessa? O que é que interessa, realmente, que uma gaja me grite aos ouvidos “connected" cada vez que os ligo a Ai-fostes? E que me avise, dois tons acima do aceitável para pessoas educadas, “R off”, a cada cinco minutos de audição? Quer dizer, acho que é o que ela diz, pois, na verdade, o que se ouve é: "Arr off". E também piscam luzinhas em azul e em vermelho, ora um, ora o outro, num majestoso pisca-pisca de dar gosto ao olho.

Olhem, se não servirem para mais nada, são umas razoáveis cotonetes: sai de lá cera suficiente para fazer uma vela de baptizado, nem se percebe como. Capaz de ter encontrado ali um nicho.



18/08/2021

Sorrir e acenar

Aqui o ser vivo a acercar-se do edifício do ginásio — voltei a dançar, após pausa de quase um mês. Zero entusiasmo, pareço sinto-me sou uma esfregona —, e surge, na direcção oposta, alguém pertencente ao sexo masculino, de calças de fato de treino, t-shirt, chinelos de praia e capacete de protecção. Virou o dito na minha direcção e acenou entusiasticamente. E digamos que devolvi o cumprimento — após olhar à volta e verificar que não se encontrava por ali mais nenhuma alma viva para quem o esbracejar se dirigia —, embora desconhecesse profundamente de quem se tratava.

E isto acontece-me recorrentemente: alguém me acena/ deseja “bom dia” na rua. E retribuo. Tudo isto, porquê?

1. Porque temo que seja alguém que eu conheça e passe por mal educada/ distraída/ chalupa;

2. Porque temo que seja alguém que está a confundir-me com outro alguém, e que esse outro alguém passe por mal educada/ distraída/ chalupa;

3. Porque temo que seja alguém que está convencido de que eu sou uma estrela de cinema e, antes que venha pedir-me um autógrafo, já vou acenando um adeusinho;

4. Porque temo que seja efectivamente alguém que não me conhece, mas que se convença que eu sou convencida, perante a ausência de resposta gestual da minha parte;

5. Porque temo que seja algum serial killer que esteja apenas a efectuar a primeira abordagem pré-homicídio, e que, se eu for simpaticazinha, até me poupe o coiro;

6. Porque temo que seja alguém que vem pedir-me dinheiro emprestado e tenha que responder-lhe um clássico muito meu: “Não posso, também estou a precisar”;

7. Porque temo que seja alguém que vem pedir-me indicações de trânsito, quando eu nem o nome da perpendicular à minha rua sei, e estou no mesmo lar há vinte e oito anos;

8. Porque temo que seja algum tarado que venha oferecer-se para me fornecer três segundos de felicidade pura;

9. Porque temo que seja alguém que pense que eu posso oferecer-lhe três segundos de felicidade pura, a troco de dinheiro;

10. Porque temo que seja um chato que quer vender-me a banha da cobra/ a própria mãe/ o Mosteiro dos Jerónimos/ cogumelos alucinogénicos e eu não tenha como dizer que não porque estou num dia de acéfala.

Por acaso, uma boa parte destes temores todos não são bem verdade. Mas dez itens compõem melhor o ramalhete.

Adeusinho (com aceno).



15/08/2021

Está aí alguém?

Era só para fazer uma pergunta.

(Isto carece de contexto.)

Quando me foi retirado o aparelho da dentadura, ao fim de dezasseis meses de me ter sido colocado (dizem as vozes da teoria da conspiração, em uníssono com as minhas vozes interiores — que me gritam —, que eu não precisava dele. Precisava, riposto eu, quanto mais não fosse em termos psíquicos, que, nesta área das faneras, é o que mais tem relevância), foi-me feita moldadura para um outro, chamado De Contenção (do mais chique que há, De Almoronha e Menezes), para usar durante a noite, e não permitir que todo aquele trabalho ortodôntico voltasse atrás. Como se.

Para encurtar conversas, digamos que já parti três aparelhos de contenção, uma vez que hei-de possuir uma mordida de pitbull ou de, sei lá, crocodilo. O terceiro dos ditos até já foi feito com "um material mais resistente", afiançaram-me o dentista dos olhos bonitos e Sónia, a implacável aspiradora de amígdalas. Mais resistente, julgo que se referiam à dentada aqui da bruta, que, durante o sono, deve transformar-se no Raivoso e vai tudo a eito. Folgo em já não chupar no dedo (vá, e poupem-me a pensamentos pecaminosos e castrantes), caso contrário estaria amputada de ambos os polegarzinhos, ou, quiçá, de todos os dez desgraçados. Capaz de, a seguir, ter que ponderar iniciar a carnificina nos pés.

(Mais um parêntesis para revelar ao mundo que, aquando da minha hospitalização, uma bela manhã levaram-me a ortodôncia com o lixo do pequeno-almoço, pelo que me vi obrigada a armar a p. e a declarar que "o aparelho tem que aparecer porque eu paguei [não interessa] euros por ele, olhem, vasculhem no lixo", e não é que foi mesmo no lixo de todas as enfermarias que foram dar com o meu lindinho? Vá que não calhou ter sido no lixo das arrastadeiras. Ou tal não me foi revelado, para me evitarem mais picos de tensão.)

Não sei. Não percebo o que se passa entre mim e os De Contenção. Posso afiançar que o material que o dentista usa é de primeira qualidade, por uma questão de lógica. (Sei lá qual.) Reconheço que, pela manhã, me aflige tirar aquilo dos dentes, porque tenho medo de estragar as unhas, e então posso estar a fazer força no lado errado da coisa. Admito que a cena me enoja de tal maneira, que a mergulho em elixir durante horas, após escovagem exaustiva e meticulosa, o que pode ser corrosivo ou desgastante para o acrílico da peça. Ultimamente, acho-o esverdeado, mas acho que é derivados à cor do elixir. Ou será verdete?

A pergunta para Roquefort é: o que é que estou a fazer de tão errado no uso da pulaka?

Linda Blue, a caminho do quarto aparelho De Contenção. And counting byting. 




12/08/2021

And that awkward moment # 64

em que adquires um vestido numa loja online — silêncio. É lindo. Vai ficar-me épica, estúpida e estonteantemente a matar e vai fazer de mim a mulher mais enigmática do meu bairro da minha rua do meu prédio do mundo em que eu existo —, entras em negociações com quem está do lado de lá do ciberespaço acerca do tamanho, a saia do vestido é acima do joelho, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, também não queres tudo à vela que nem possas sentar-te à frente de pessoas em paz, qualquer centímetro conta em se tratando da altura de uma saia, sempre a dúvida existencial entre o S e o M, então envias as tuas medidas, e de lá profeciam-te o S, mas tu ai que não, veja lá se não fica demasiado curto, eu meço 1,68 metros do cucuruto até às plantas, e diz quem responde às tuas angústias:

Não fica demasiado curto, a modelo tem 1,64 m.

Quatro

centímetros

na altura

de uma saia.

...

Quarenta milímetros. 

...

Mandei vir o M.



11/08/2021

Esta praia tem ursos *


Imagina o que será estares na praia e aparecer lá um urso. Polar. Ao menos que fosse pardo. Ou panda, por Deus.

Já assisti, nesta longa e surpreendente vida que já vivi, a fenómenos vários, desde o dar à costa do cadáver de uma tartaruga gigante, até à passagem de três golfinhos, em que a parte melhor do inesperado “espectáculo” foi mesmo ver milhares de pessoas porem-se de pé, e, em uníssono, deslargarmos um “oooooh”, parecia um flash mob, ou uma cena do Sequim  d’Ouro. Também assisti uma vez ao desmaio de uma senhora que resolveu ir espreitar um corpo que tinha dado à costa após uma semana de desaparecimento. [Rolling eyes para ela, de cada vez que penso nisso.]

Agora, um urso, foi a primeira vez.

Assim desconfiada — não posso dizer que a medo —, já que o bicho se movia discretamente de vez em quando, primeiro a uma distância segura — não fosse encrençar comigo e sei lá —, assomei-me, e imagina, numa praia relativamente apinhada de gentes, então não é que o teddy dá em acenar-me? Foi o início de uma profícua, porém breve, amizade. Aproximei-me, confiançuda, e diz-me o animal assim: “Queres tirar uma fotografia comigo?”, eu ai é claro, vai de colocar-me diante dele, os dois de braços abertos, e clic.

A seguir, de forma dramaticamente inesperada, a nossa tenra amizade derivou para o campo do oportunismo, quando ele me diz assim: “Agora vai buscar um euro para me dares”.  Pronto. Mais uma relação sem futuro destruída. Eu a afastar-me, acenando adeusinho, ele, “um euro, um euro, um euro”, parecia o outro maluco.

* inspirado aqui.

09/08/2021

Um membro da família

A primeira vez que a vi, apercebi-me de que algo se passava — ou não — com as patas de trás, misturadas numa confusão inerte com a cauda. Depois confirmei, quando a vi deslocar-se com a força das patas dianteiras, arrastando as traseiras e a cauda como se de um trio de serpentes mortas se tratasse. 

De resto, tudo normal: rosnando quando se sente ameaçada — vão lá entender-se os critérios dos gatos —, miando quando a intenção é comunicar com humanos. 

Conheci-lhe a dona uma destas manhãs, que se acercou, atenta à minha atenção, e me contou a história do pouco que sabe que aconteceu, num Português fluente cheio de sotaque do Leste da nossa Europa: foi à terra dela para ser sujeita a uma cirurgia, a gata desapareceu durante uns dias e o marido foi encontrá-la quase morta, provavelmente atropelada. O veterinário queria eutanasiar, ela não permitiu. Revelou-me, olhos e boca de cantos a resvalarem para mais uma de outras lágrimas que já terá deixado cair, a opção, que percebi muito criticada: "Fica sendo o meu bebezinho de colo". E, afinal, nem tem sido bem assim, o animal desloca-se à mesma velocidade a que o faria se tivesse as quatro patas vivas. A convivência com os outros dois gatos da casa — uma criança vivaça e viçosa e um macho sobranceiro e soberano — é pacífica, não tem consciência da sua diferença, eventualmente não guarda memória do acidente, anulou a limitação por instinto e necessidade. Com toda a certeza, não vive de um passado que já não volta, nem se angustia com um futuro menos promissor. (A racionalidade pode ser o maior entrave para a felicidade.) É amada, está cuidada, o pelo brilha de saúde e até de alegria. Disse-lhe, "Ela é tão bonita", e agradeceu como se lhe tivesse elogiado uma filha. "É um membro da família". (Se é, só quem nunca amou um animal é que não entende o que disse esta mulher.)

É verdade que, quanto mais conheço as pessoas, mais gosto de animais. Não fui eu que inventei esta frase. Desta vez, também é verdade que, quanto mais conheço os animais, mais gosto das pessoas.




07/08/2021

Fim de tarde com o morto

Então, estou a chegar ao areal para cumprir o segundo turno do dia, e verifico que, no colmo destinado às pessoas com mobilidade reduzida, precisamente ao lado daquele que me calhou na rifa — e durante a manhã ocupado por três adultos e um bebé plus carrinho —, se encontra deitado um homem jovem, estático, tapado com uma toalha de praia, e com os óculos de sol colocados. Por constatação através de auto-análise e também por mo dizerem, sei que os meus raciocínios vão invariavelmente pelos caminhos mais abstrôncios, mas também tenho a declarar em minha defesa que — e repito — o senhor estava deitado à sombra do colmo destinado a pessoas com deficiência/ dificuldades várias. Por isso, o que é que eu pensei?

1. É paraplégico. [O homem não se mexia.]

2. É invisual. [Por causa dos óculos.]

3. É paraplégico e invisual. [Mas quem raio veio largar uma pessoa com este grau de deficiência à sombra de uma palhota com este calor?]

4. Está morto. 

5. Morreu agora mesmo?

6. Chamo o Salvadooooor, ou não merece a pena?

7. Morreu há horas e daqui a bocadinho cheira mal.

8. Chamo a Polícia Marítima ou deixo estar?

9. Trouxeram-no já morto e depositaram-no aqui.

10. Chamo a Polícia Judiciária?

Subitamente, ele moveu-se: um dedo de um dos pés denunciou-o vivo. Uma sereia cheia de pernas acercou-se dele e chamou-lhe “luz dos meus olhos”, oferecendo-lhe uma bola de Berlim e afagos vários, consolando-o de

ter sido

vacinado 

contra o vírus.

E estar dói-dói.

Reenfiei-me dentro do meu António, que há um ano carrego dentro do saco da praia — mais de um quilo de papel e penas —, e cuja leitura estou mesmo, mesmo a terminar (faltam umas penosas oitenta páginas, vá) — o que é bom, pois está a deprimir-me um nico, senão a tornar-me uma pessoa humana algo tétrica.

01/08/2021

Afinal, mudei de ideias: quero ir para o céu

Agosto, dia 1, no supermercado mais populoso de toda a zona Sul, depois de ter passado as passinhas da região onde me encontro — milhares de pessoas, corredores exíguos, desordem e desarrumação por todos os lados — para comprar meia dúzia de urgências (papel higiénico e pensos rápidos incluídos, que o pé aqui da princesa não se dá com areias grossas e já tem dói-dói), vejo um senhor que enfrentou a multidão de gentes de chinelos, besuntada e tatuada, “va avec maman!”, a massa humana rastejante e confusa, e até — last but not least — o vírus, para comprar…

… um pepino.

Um dia, quero ser assim. Até lá, sou apenas parte da tal massa — apesar de incomodada, deslocada, e até, que vergonha, com minúsculas lágrimas de raiva e pânico a encimar a máscara — de que tão longe me sinto.

30/07/2021

And that awkward moment # 63

em que, após ter feito a encomenda das lentes de contacto para as crias (que, em quatro, só uma saiu à mãezinha nojolhos, que coisa tão matematicamente — e economicamente também — mal distribuída), e porque as ditas demoravam a chegar ao lar, contactei o site, entabulei conversações com o responsável via telemóvel, que me explicou que uma das caixas (para astigmatismo) estava a atrasar a encomenda toda por motivos de ruptura de stock. Sugeriu-me, então, que aceitasse a substituição daquelas por outra marca, igualmente boas, eventualmente até de melhor qualidade, e eu ai que sim — após ter exposto o problema à criança — mande lá as outras. Impôs-se-me então a premente questão:

- Ó Sr. Fernando, por favor diga-me se há alguma coisa a pagar pela diferença de preço entre as novas lentes para astigmatismo e as que eu tinha encomendado.

- Ó Sra. D. [Linda], a senhora fique descansada com isso, não se preocupe, que estas que lhe enviei agora até são um bocadinho mais baratas do que as outras. 



28/07/2021

Chatos do nosso Portugal # 3

(Não sabia muito bem que título pôr a isto, então pus aquele. Mas pode ser outro qualquer, aceitam-se sugestões.)

As minhas idas àquela estação de Correios deviam ser filmadas (julgo que, por questões de segurança, efectivamente são, a questão é que eliminam os filmes — os meus filmes! — ao fim de pouco tempo, como se não se tivesse passado nada ali dentro). 

Entro, retiro a senha 146, e verifico que está a ser atendida a dona da senha 143, sendo que estão dois balcões a funcionar. Pacífico. Tenho quinze minutos para despender ali dentro, imagino ingenuamente que nem a tanto chegarei. Não posso esperar a minha vez na rua, pois está uma ventania de vários quilómetros por hora e estou com um vestido cuja saia roda como a da Rosa arredonda a saia.

A senhora da 143 — idosa e obesa — está a pagar, quando a funcionária lhe pergunta se quer uma Raspadinha. Diz que não, e, quando recebe o troco, deixa cair uma moeda de um cêntimo para o chão. Não é capaz de se baixar para a apanhar, nem acocorando, nem dobrando as costas, de maneira que se inclina para a frente e abre as pernas até ao limite, algo que considero no momento que tem boas hipóteses de evoluir para uma razoável cabeçada no solo. (Noutros tempos, a menina bem educada que me habita iria apanhar a moeda para a entregar à sua proprietária, mas é que nem me passou pelo juízo que alguém movesse uma palha por um cêntimo.) Apanha a moeda e, quando levanta a cabeça, está tão escarlate — hão-de os seis (ou talvez sete) litros ter-lhe ido todos para as orelhas — e perturbada, que penso que ainda vou assistir a uma filoxera. Mas afinal não. Não sei se do esforço, se da passagem sanguínea pelas ideias, se meramente exausta de ouvir a funcionária, muda de ideias e compra a Raspadinha. No entanto, não sabe raspar o coisinho da dita e pede ajuda à outra, que, entretanto, já lhe contou metade da história da vida dela (ou a história de metade da vida dela): que encontrou uma Raspadinha há uns dias, deitada para o chão da rua, mas que afinal tinha dez euros, e zzzzzzz. 

Eu, obviamente, já nervosa.

Nisto, entra uma terceira funcionária, de gelado Perna de Pau em punho, já meio mordido, e sem a máscara nos beiços. Ainda por cima, vinha a fazer piadas, acho que lascivas, sobre o facto de vir a chupar gelado, sorte dela que 1: o Perna de Pau era o vermelho, o original; 2: eu não ouvi o que a criatura disse. Mas lá pôr-se atrás do balcão a despachar serviço é que nicles, pois havia de estar na sagrada quinquagésima oitava pausa da tarde.

Nos entrementes, a do outro balcão atendeu duas pessoas, apesar de o número no visor se manter inalterado no 143, e vamos que eu assumi serem elas o 144 e o 145. Mal esta última saiu, avanço eu, visto que a do balcão ao lado continuava a raspar avidamente a Raspadinha da senhora obesa, enquanto lhe relatava a parte 2 da história da sua vida. E diz-me esta que havia de me atender, cheia de prosápia e soberba: "A senhora tem que aguardar a sua vez, que eu ainda não a chamei". 

Isto só para me situar a mim: mas que raio fiz eu à mulherzinha para que me tratasse assim à pedrada, só de olhar para mim? Magoei, ofendi, deprimi. 

É que esta coisa acontece-me com uma frequência tal, que começo a equacionar se não serei eu que pareço arrogante e elas sentem-se encolher derivados a isso. Estou ali, à espera da minha vez, faço o melhor que sei a minha poker face — com alguns discretos, imperceptíveis! suspiros e rolling eyes —, e depois, quando vou para ser atendida, pumba, batem-me.

Não me chamou a mim, assim como não chamou nenhuma das duas últimas pessoas que atendeu. Esta senhora é o 143, já atendeu o 144 e o 145, portanto, está na minha vez.

Furiosa, atendeu-me. Eu levei os cerca de noventa segundos da praxe — entre pagar e debitar o NIF — e movi-me dali para fora, não fossem as ventas bufar-me cinzas, ou destilar fel, ou borbulhar espuma, sei lá, para cima do vestido rodado.


26/07/2021

Bem Bom
Se acharem que é spoiler, é não lerem # 14

Estranha forma de vida, esta agora.

Fui ao cinema na véspera do início da quarentena, e fui também no primeiro dia após confinamentos vários. Calhou ir às mesmas salas — Cinema City — e, de ambas as vezes, estar só minha companheirinha e eu. Honestamente? Prefiro assim. Nada de cabeçudos à frente, irrequietos do coice nas minhas costas atrás, faladores, gente que não se lava, hiper-perfumados, roedores do milho estalado, namorados excitados e idosos ressonantes. (Acho que não me esqueci de ninguém.) Eu também como pipocas, está bem? Mas tenho o cuidado de morfar aquilo tudo (chamar "pequeno" ao pacote menor é meramente metafórico, não é?) antes de o filme começar (pub indesejada e trailers à martelada em barda!) ou durante as cenas mais ruidosas (entendam o que e como quiserem) do filme.

Dessas duas vezes que refiro, pudemos escolher se queríamos publicidade ou não (adivinhem), trailers ou não (foi sim. Eu queria comer o bidon de pipocas, apesar de estarmos só as duas), e ambas queríamos relaxar as quatro pernas nas costas das cadeiras defronte.

Desta vez, sala só não cheia derivados das contingências: fila sim, fila não, interditadas com fita fluorescente, não fosse a malta não a ver no escuro; nas filas sim, espaço de uma cadeira entre ocupadas e não ocupadas, a menos que se tratasse de pessoas do mesmo agregado/ grupo. Eu acho uma cadeira pouco, devia ser a fila toda para uma ou duas pessoas, no máximo. Não que sofra de receios covid, porque isso já era, mas porque, no fundo, sinto que agora é que a cena social está correcta: antes do vírus, andávamos cá todos a roçarmo-nos uns nos outros, e aos dois beijinhos uns aos outros, um exagero de contactos físicos que (espero que) acabou. Éramos apresentados a alguém que nunca mais íamos ver e logo dois beijos? Não admira que o vírus tenha singrado até sangrar.

Quanto ao filme propriamente dito, que é o que nos traz aqui hoje: Bem Bom. Mais nada. Pode não ser aquelas coisas em termos de luz, imagem, som — cinema português, é um estilo como outro qualquer —, mas consegue o que parece impossível, que é devolver-nos os e aos anos 80's — excelente reconstituição histórica — e, de uma vez por todas, desfazer o boato com a Laura Diogo. Já veio tarde, é certo, mas mais vale do que nunca. Coisa para ter detonado uma banda icónica, quatro carreiras e quase uma vida. 

Se eu não adorava as Doce — era muito miúda, queria ser assim, mas não bem assim quando crescesse —, pelo menos sabia (e sei) as letras das músicas quase todas. E lembro-me bem da prequela das Doce, que foram os Gemini, com duas delas (Fátima e Teresa) e dois dos produtores (Tozé Martinho e Mike Sergeant). Nessa altura, a pessoa humana era uma criança em idade escolar, mas cantava com alguma solenidade aquilo do prazer que uma criança nos deu. E não percebia, como ainda não percebo, a estrofe o acordar de tristeza ao ver as horas passar e o jantar frio na mesa. Alguém explica isto? Não é preciso, falecerei com a dúvida, mas muito obrigada na mesma. 

20/07/2021

Fui tomar um banho de loja

E comprei exactamente zero peças, ou seja, regressei sem banho. Suja.

Acontece que, no presente momento, tornou-se comum termos que esperar minutos preciosos à porta de cada loja de trapos. Imagine-se, para uma impaciente como aqui a pessoa humana, estar sete minutos numa fila e depois uns míseros dois lá dentro, o que não representa de suplício procurar algo para vestir de que, já não digo adore, mas, pelo menos, goste um nico. A própria espera, com relances para o interior do estabelecimento comercial, a confirmar que não vale a pena ficar para me sujeitar a mais uma desilusão, é o suficiente para que me demova de ir, antes mesmo de sair na demanda. Esta que relato foi, talvez, a terceira em que me autodeterminei a ir, não por considerar que já não tenho nada para vestir — típico de femedo —, mas sim porque sim — também típico. 

Queria um vestido, liso ou de flores, mas também podia ser às riscas, pintas, bolas, mas bolas, nada. Um vestido, para mim, ou é acima ou é abaixo do joelho, mas, em sendo comprido, tem que ser estreito, tal como a regra "se destapares em cima, tapa em baixo e vice-versa". Não concebo um vestido até aos pés e largo, pois isto não é o Médio Oriente, embora este ano pareça: os vestidos têm tanto pano, que eram capazes de, em havendo, servirem para levar para um festival de Verão, tipo para o relento. (Não vou explicar a piada.) E, no final da estação, era serem oferecidos à Força Aérea. (Idem.) Ou seja, e porque já cá ando há uns quantos Verões, ocorreu-me que aquelas barracas deixarão de se usar para o ano, e depois são capazes de entupir os contentores de roupa usada, pelo que não adquiri nenhum. Na verdade, também não aprecio a ideia de meter o corpo todo num espaço fechado e só deixar a cabeça de fora, ainda me perdia lá dentro, ou perdia a cabeça. 

Porém, verifiquei que também está muito na moda o extremo contraponto da burka — ou indumentária amish, se preferirem —, que é o micro-vestido, com decote panorâmico e mangas de balão de ar quente. Ou hélio? Por acaso, não experimentei amarfanhar nenhuma, mas acredito que apitem, caso desinsuflem. A graça toda desta moda é que os ditos vestidos são feitos em viscose, fibra, aquele tecido meio plastificado — penso que tudo em nome da armação da manga —, que, vocês não sei, mas eu, que sou moura, é vestir uma peça nesses materiais, e aí o quê?, o mais tardar, ao meio-dia, ninguém pode estar perto de mim, que me apodreci toda. 

E depois, este meu sentido (auto)crítico... Entre pensamentos de "este não, que me faz gorda", "este não, que me faz velha", "este não, que me faz parola", "este não, que me faz ridícula", "este não, que vou ficar A mulher de Chelas" (tudo culpa dos trapos, hã?), regressei ao lar, agastada e exangue.


29/06/2021

Ela fala tanto # 31

E não pode ver nada. Agora também quer ter tensão alta. Já não bastava a alergia aos metais. E as unhas encarnado-sangue. E ter posto ao filho o nome do meu. Fora o resto, que é tudo e mais alguma coisa.

Liga-me às 8:22 da madrugada, eu já na lufa-lufa, porém quase desacordada, Bom dia, desculpe, mas não me estou a sentir nada bem, passei toda a noite a vomitar [vá que, desta vez, sabe-se lá porquê, me poupou ao pormenor da diarreia], vou ao hospital ver o que é que tenho, Será covid?, pergunta aqui a parva, Acho que não, isto foram umas coxinhas de frango que eu comi no fim-de-semana e que me provocaram uma subida da tensão arterial, já é a quarta vez que isto me acontece [o animal selvagem que me habita a congeminar em ladainha: À primeira caem todos, à segunda cai quem quer, à terceira cai quem é parvo, à quarta cai... a Sandra! Comi pipocas ao almoço, comi pipocas ao jantar...], nem me consigo ter de pé, não tenho reacção no corpo [a tal descrição que ela faz para todas as suas maleitas e desaires, que vão da amigdalite até à cólica intestinal, passando pelas inúmeras quedas e pancadas que lhe acontecem. Não ter reacção no corpo significa exactamente o quê? Que faleceu? É que eu, na minha justa e correctíssima ignorância, desconhecia que é suposto o corpo ter reacção. Mas siga], agora estou na [nome de uma firma para a qual trabalha quando sai cá do lar, que fica a cem metros de distância] a beber um chá aqui com as minhas colegas [???] a ver se melhoro. 

Confesso que já não ouvi muito mais, porque tinha o cérebro a chiar camas de lavado, duas casas-de-banho, chegada e arrumação das compras do mês, almoço, máquina de roupa, recolher toda a que estendi ontem, estender a que lavar hoje, dobrar o que não seja para o ferro, compras, jantar. 

Portanto: minha madame passou mal todo o fim-de-semana derivados às coxas, mas ainda se arrastou até perto da minha casa, quase uma hora antes do horário de entrada (please, explain), isto tudo sem reacção no corpo. Se eu não sou uma cavala, que havia de lhe agradecer a intenção, mas não o fiz?

Moral da história: foi ao hospital, deram-lhe uma pica, mandaram-na para casa sem baixa, mas hoje ainda não pôde trabalhar, porque continuava muito zonza e com a cabeça a explodir. (Não vamos fazer a imagem mental, está bem?)

Em suma: mandei-a meter baixa. É para isso que lhe pago a Segurança Social e não há cá mais merdas. Sim, ponho com fervor a possibilidade de me ter tornado execrável. Foi do covid. Não, afinal não: foram vinte e três anos a levar com grupos, sempre à sexta e à segunda. Quando ela voltar, terei o meu corpo sem reacção. E a minha cara. E os meus ouvidos, para os intermináveis relatos que me faz de tudo o que lhe acontece na vida, e que me interessa, vamos lá a ver... zero, vírgula, zero, zero... zero.


02/06/2021

Afinal, a anti-social sou eu

Por mais que pense nisso — e confesso que o faço amiúde —, não consigo decidir qual das três foi a maior provação a que me vi sujeita durante a fase aguda do meu Covid: aquela cólica que me fez desmaiar de dor, ainda em casa; o tamponamento pós epistaxe, de que já aqui falei; uma das minhas três companheiras de enfermaria. E ando rés-vés para decidir por esta última. 

Nos primeiros quatro dias, fiquei por lá sozinha, eu e três camas vazias (e não, não sofro de solidões dessas, estava lindamente), que até parecia que estava num privado, ai tu queres ver que me enganei na porta e vim parar à Luz, socorro, accionem-me o seguro! Depois puseram uma senhora numa das camas, que era porreira, mas fazia videochamadas em toooodas as refeições e chamava ao vírus Covi. Quis explicar-lhe que COVID é um acrónimo para Coronavirus Disease, mas contive-me sempre. Estou a ficar bastante madura, eu, quando calha. Dois dias depois, instalaram mais duas: a humana de que falarei a seguir, e uma outra, que praticamente não falava, fazia telefonemas em surdina e dormia. Portanto, enfermaria cheia, ou melhor, super-cheia, já que a que me punha nervosa ocupava um espaço desmesurado, não só fisicamente falando, como também pela atitude da mulher. Ou seja, tive a oportunidade de conhecer uma pessoa que conseguia concentrar em apenas uma só — ela própria — tudo o que eu detesto num ser humano (embora tenha que admitir que ela me apanhou talvez nos piores quatro dias que ali passei, clinicamente falando, pelo que a minha visão (turva)/ paciência (zero)/ tolerância (outro zero)/ sentido crítico (cem) também podiam estar adulterados): entrou numa surpreendente e deslocada expansão de alegria, equipou-se com o pijama do hospital, deitou-se na cama e desatou a conversar, em profuso e compacto monólogo, com as outras três — de entre as quais, aqui a bruta — que ali estavam, todas mais ou menos obrigadas. 

Um - Esta pessoa começa toda e qualquer frase por "eu". Naquele caso, era "Eu sou..." e depois lá vinha um auto-elogio qualquer, do género uma força da natureza; muito activa; super-animada; incapaz de estar quieta. [E calada, acrescentaria eu, humildemente.];

Dois - Esta pessoa impinge a história da sua vida a perfeitos desconhecidos, quando esse é um assunto com zero interesse e pelo qual ninguém perguntou;

Três - Esta pessoa faz videochamadas. Numa enfermaria. Aos altos gritos. Para uma família que grita com ela. E faz ruídos enquanto grita (por exemplo, num momento, um dos filhos varria um chão de obra, coisa para se difundir em todo o espaço do lado de cá). Ou liga para as amigas, que estão na esplanada. Todas aos gritos. Ali às tantas, perguntei se aquilo era mesmo necessário, mas não obtive resposta;

Quatro - Esta pessoa — menina para os seus noventa quilos, apesar de, segundo ela, ser professora de Educação Física — disse aos médicos (por duas vezes, ouvi eu) que, desde que ali havia chegado, já estava farta de fazer ginástica. Óbvio que os médicos nem resposta deram, que imagem mental se faz de uma declaração deste tipo? O odre a fazer um mortal encarpado à retaguarda em direcção à minha cama, que era em frente? Eu sei, porque estive sempre acordada enquanto ela também esteve, que o máximo de ginástica que o panzer fez foi a rotação dos tornozelos, em breves sessenta segundos, sentada na caminha. 

Cinco - Esta pessoa obedece ao protótipo da que vai para casa/ trabalho/ vida em geral gabar-se que era a animação daquela enfermaria. Não. Helena. foste. responsável. pela. morte. de. vários. neurónios. meus. e. também. por. taquicardias. e. subidas. da. minha. tensão. arterial. e. da. febre. Assume. só.

No dia em que teve alta, e uma vez que a ambulância que a levava a casa se atrasou um pouco e logo fiz filmes de que ela poderia ficar mais um dia, congeminei assassiná-la. Mais umas horas com semelhante seca, seria, garantidamente, a morte de alguém ali dentro: a dela, que, ou saía pela porta, ou saía pela janela, ou a minha, de catatonia.



17/05/2021

Claro que tinha que fazer a coisa com algum estardalhaço

Já comecei este texto não sei quantas vezes, apaguei de todas elas, mas sinto que é importante divulgar o que aconteceu na minha vida no último mês. O vírus entrou-nos porta adentro, não sabemos se a ordem cronológica foi a do percurso do contágio: começou numa filha e correu a todos, menos a cônjuge, que foi, até ao fim, la pièce de résistance, de tal forma que foi "obrigado" a fazer um teste de imunidade (a Ciência quer perceber como é que alguém convive diariamente com uma chusma de infectados e passa por isso sem mácula), que resultou numa alta percentagem de imunidade, mais ou menos inexplicável: ou teve e não deu por nada (sendo que tinha feito N testes, todos negativos, nas últimas semanas, por contactos directos com infectados vários), ou não teve nem terá. 

Filha — vinte e dois anos — internada ao cabo de dias de febre e tosse, cuidados intensivos após três dias de internamento: oxigénio simples insuficiente, portanto, recurso a oxigénio por alto fluxo e, por prevenção, mais perto do ventilador, caso fosse necessário, o que, felizmente, não aconteceu. Foram três dias em que os nossos corações pararam. Não há visitas, há apenas um telefonema do médico de cada vez que há alguma novidade, as restantes vinte e três horas e cinquenta e nove minutos do dia, é esperar. Mas, calma, há um telefonema por dia — com videochamada — para todos os doentes da UCI que não estão em coma, o que, no caso, era só ela. E os outros não eram velhinhos, que ninguém se iluda. Estava, a título de exemplo, um homem, pai de uma filha bebé. Ao todo, a minha criança esteve internada nove dias.

Não a vi chegar a casa, porque teve alta  no dia em que fui ao hospital, por recomendação do Saúde 24, pensando que ia só ser vista e depois voltava: estava há cinco dias com febre, que não cedia a drogas nem a mezinhas, esparramada na cama e a desgastar-me só para ir fazer um chichi, ao ponto de ter a sensação de ter ido correr os meus sete quilómetros de domingo (só que sem suar), e não me pareceu que melhorasse nada. Afinal, fiquei por lá catorze dias. Sim, foram duas semanas de hospital. Não passei da enfermaria, mas passei as estopinhas, as passinhas do Algarve, o diabo a quatro. Talvez o caruncho derivados da idade explique muita coisa do que se passou naqueles dias, mas a verdade é que nunca nada estava bem. Nos primeiros dias, o tratamento anti-Covid não deu resultados aqui na flor, teve que ser mudada a medicação, e depois protagonizei um episódio épico de sangramento nasal, que me valeu o tratamento mais doloroso que algum dia sofri na vida (tamponamento, não queiram saber. Ter um nariz estreito só piora), depois era o coração aos pulos (pulsação de 130 logo de manhãzinha, quem é desvairada?), depois era o oxigénio que descompensava facilmente, todo um cenário "Se calhar, não é desta que morro, mas ó, se calhar até é". 

Já passou. Estou em casa há uma semana, já tão melhor do que nos primeiros dias que até já fui pintar a melena, já recomecei a trabalhar, mas tudo tão devagarinho que, se me dissessem que ter oitenta anos é isto, eu acreditava piamente. 

Mensagens a reter:

1. Não é porque és jovem que estás livre;

2. A porra da merda do vírus é algo de muito mais sério do que parece. Estimo que não me apareça pela frente um negacionista. Silenciá-lo-ei à dentada e à unhada.



16/04/2021

Profilaticamente isolada

Por razões não sei de que foro, que, exactamente por essa razão, não cabe aqui explicar — ficaria longo, ou então descabido, ou simplesmente não me apetece explicar (ah, a amarga liberdade, que gradualmente se vai perdendo por este deserto afora) —, encontro-me física e espiritualmente retirada da realidade (seja lá o que isso for nos dias que correm por estes dias) que é o mundo (oh) lá fora, ou seja, a rua. Assim, estou sem a matraca que me faz a lide doméstica, mal ou bem. Tenho, por esse motivo, aprendido algumas coisas, ou melhor, tenho relembrado que elas são como são, como afirma o povo quando não tem mais nada para dizer (bastas vezes), utilizando jargões que mais não são do que bengalas para o coxear do discurso desconexo. A saber: As minhas casas de banho têm sido lavadas com limpa-vidros, o que redescobri agora, já que já havia chegado a essa conclusão aquando da quarentena, nos idos 2020. Mal ela regressou ao trabalho, apliquei-lhe uma descasca de que não tinha memória nos últimos vinte e dois anos (entretanto, perfez vinte e três “de casa”, stricto sensu, as aspas aqui só vêm compor este ramalhete em jeito de rosário de amarguras), o que, aparente e realmente de nada me valeu, a não ser ter-lhe valido a ela um par de lágrimas (matematicamente, uma por cada olho, se tiver os dois sacos a funcionar em perfeito paralelo), que eu, halleluja!, não vi, mas recordo ter vagamente escutado umas fungadelas — que também podem ter derivado de alguma alergia (vai-se a ver, ao líquido para os vidros com que me higieniza as retretes, mas não os vidros, a avaliar pelo miserável e opaco estado a que mos deixa chegar), mas que eu, cruel, porém justa, olimpicamente ignorei. Quando a pessoa regressar, lá terei que repetir todos os blás da outra vez, ou, em alternativa, sujeitar-me ao diálogo que já antevejo, ou anteouço:

- A Sandra voltou a limpar as casas de banho com o líquido para os vidros. Diga-me porquê.

(Eu, sempre em busca do conhecimento; eu, antropóloga do serviço doméstico; eu, aplicando psicologia ao nível do uso de detergentes; eu, passada da marmita por dentro, mas por fora uma serena senhora, a evitar que me salte a mola e lhe solte os cães.)

Respostas possíveis:

- Aaaah...

- Eu já lhe tinha dito que precisava de um spray para as casas de banho, mas comprou-me um limpa-vidros e estou a usá-lo até ter o frasco vazio para poder meter lá a lixívia.

E é tudo por hoje.

Se me sinto mais leve? Não. Não tenho comido mais do que o costume, mas no próximo domingo não irei correr, e isso sim, pode fazer toda a diferença (mental). Tenho que voltar a dançar.

https://m.youtube.com/watch?v=N2oiBSL_D80

08/04/2021

8 anos

Se não me falha a matemática, já que me falhou a memória e, por conseguinte, a data, aqui o coiso completou ontem oito anos. Anda parado, é certo, mas, ainda assim, vale tudo, inclusivamente tirar olhos, nesta contagem crescente, que é como a daquelas relações à distância, em que tudo funciona bem talvez por isso mesmo, e os meses e anos se vão sucedendo e contabilizando em bodas e outras vitórias semelhantes. 

Daqui a dois anos menos um dia, portanto, perfazemos bodas de estanho. Por enquanto, limitamo-nos a entrar, mais ou menos gloriosamente, na primeira adolescência. 

Imagino que nos desejem mais oito destes. Eu ainda não sei se desejo tanta vida para isto.

[Muito obrigada na mesma a quem ainda aqui passa e fica e volta e torna. Sois valentes.]

05/04/2021

Hão-de chamar-me mentirosa a vários níveis. Pois que arrisco

Confinada e de ginásio fechado, desenvolvi as minhas corridas para patamares nunca antes vistos e ou alcançados. Detentora do melhor par de ténis de que há memória no meu cérebro - Nike Pegasus* cor-de-rosinha, e este último pormenor pode ser, de todos, o mais importante, pois que até a cor pode estar a contribuir para a minha actual aerodinâmica - e da calça elástica mais modeladora em que algum dia espremi os chispes - Tezenis* -, de metro a metro fui acrescentando, domingo após domingo, e eis que ontem perfiz os sete vírgula cento e noventa quilómetros. Sem grande esforço, sem maior cansaço do que aos cinco que constituíram a minha meta máxima nos últimos anos. É claro que, antes dos sete e depois dos cinco passei pelos seis. O segredo são os ténis do meu coração, as calças da minha vida e uma granda pastilha de magnésio no fim, uma vez que já não vou para nova e não tenho rigorosamente tempo para sofrer de dores a seguir e nos dias seguintes. Essencial ainda, um bom aquecimento e prolongados alongamentos, dois espectáculos que forneço semanalmente à vizinhança ali no espaço de cinquenta e cinco minutos. 

Tenho agora como meta os dez quilómetros de uma corrida que tem sido sistematicamente adiada à cause du virus.

Diz que o pessoal que pratica corridas se flatula alegremente, embora desconheça com que cadência, ou seja, de quantos em quantos metros lhes ocorre, ou se se trata de um sistema aleatório. É que - e também parece mentira - eu não. Não, não mesmo, nem uma vezinha para amostra, um criminho solitário quando não vai ninguém a passar, zero, neruscas de piripitibas. Começo e acabo a tarefa seca e limpa nesse campo, nem pela cabeça me passam os ares, quanto mais lá por baixo. Em compensação, arroto bastante, embora de forma não sonora, lamento. Ontem contei cinco, o que não chega sequer a um por quilómetro. Por mais que intervale entre o pequeno-almoço e o início da corrida, ali ao fim dos primeiros cem metros lá me vem a acidez, mas que pode ser derivadas de já ir irritada com os transeuntes domingueiros, que parecem todos vir ter comigo para me pedir uma informação, tamanha é a incapacidade que demonstram em desviar-se da minha rota. Depois dou ali mais quatro arrotitos e está a corrida terminada. 

Ou seja, funciono a gás, como todos os corredores de maratona, mas a mim saem-me pelo sótão e não pela cave, como diz o povo na sua imensa sabedoria. 


*NMPPI


01/04/2021

Uma acção de (desin)formação, se faz favor.

Andava eu há anos a gemer por uma máquina de secar a roupa, farta de consultar o oráculo da meteorologia, de estender roupa dentro de casa, nos radiadores, na varanda tapada com plásticos, fora as idas à lavandaria self-service com sacos de roupa molhada e depois a seca da espera pela secagem, e a despesa, e eu sei lá que mais ginásticas, cálculos matemáticos, previsões atmosféricas e outras maçadas que tais, até que cônjuge cedeu aos meus rogos e lá fomos à loja comprar a coisa.

Por uma questão de logística, aquela prima direita da lógica, optámos por uma máquina que lavasse e secasse, ocupando esta, com a dupla função, o espaço de uma só.

Escolhi-a criteriosamente, garanto que não olhei a despesa, informei-me capazmente sobre programas, modus operandi, capacidade, mil merdas. E mandei entregar em casa o computador hi-tec (aitéc) da lavagem da traparia, um monstro sagrado todo electrónico, cuba para oito quilos de roupa a lavar, cinco a secar, algo que andaria muito próximo das necessidades diárias desta gente que me habita o lar e veste e despe, todo o santo ano, entre duas e três mudas de roupa a cada sol a sol, parecem recém-nascidos, meus ricos meninos.

Instalada a dita, se pô-la a lavar-me as vestes não se revelou um mistério, já secar foi qualquer coisa de transcendente. A cada programa que experimentei iniciar, a bicha ficava ali a raciocinar um minuto, pesando a roupa com muito vagar, e depois sentenciava que ia demorar três horas. Ou então quatro. Atónita, muni-me do raio do manual, li-o todo na secção Português, mas, para além de uma tabelinha cheia de bolinhas, não consegui entender como é que é possível secar roupa na Sra. D. Máquina de Lavar e Secar de Almoronha e Menezes sem levar metade de um dia, ou seja, coisa que o Sol, aquele astro, faria num fósforo caso fosse Verão. Liguei então para o vendedor, que me deu uma explicação mais ou menos confusa acerca do funcionamento da geringonça, tendo-me deixado, lá está, ainda mais baralhada: que ela aponta quatro horas no início do programa, mas que, à medida que vai "sentindo" a roupa a ficar seca, acerta esse tempo, diminuindo-o. Detentora desta valiosíssima informação, pus a coisa a trabalhar, ela que ia levar três horas e meia, eu que está bem, botão do on, e levou-me três horas e meia, nem menos um segundo, a secar ao ponto de quase queimar a minha rica roupa. Saiu de lá tesa como um carapau, quentíssima, impraticável para o ferro. 

Finalmente, pus-me a caminho da loja, pedi formação sobre o imbróglio ao vendedor, o senhor sentou-se ao computador, óculos na ponta do nariz, todo franzido, demorou uma eternidade para abrir um PDF que foi buscar à nettinha, e que continha o bendito manual de instruções, mostrou-me a tabelinha das bolinhas de que sou possuidora em papel, confessou a sua incapacidade para percebê-la e prometeu-me um técnico da marca no lar para um destes dias. (Capaz de me aparecer no Verão.) Desolada, mas não desistente, abandonei. 

Ao menos, a querida monstra lava-me a roupa primorosamente. 



23/03/2021

Lá venho eu armar-me em boa

Lugar especial no lado mais ácido do meu coração para os ciclistas. E isto nem é como automobilista, que isso, só ainda não passei por cima de um - de modo completamente acidental, um que me surgiu pela frente do veículo, noite cerrada, porque - oh - havia passado um vermelho, isto sem reflectores de espécie nenhuma, e eu que instalasse uma bola de cristal em Rosinha e adivinhasse que Mr. Lance ia lançado ali, àquela hora - porque a Deus Nosso Senhor não lhe apeteceu naquele momento. (Suspeito que os indivíduos que, mal encaixam o selim lá na peideira, ficam automática e imediatamente imbuídos de uma imortalidade qualquer, pois ele é cruzamentos, ele é contra-mão, ele é rotundas, ele é sentidos proibidos, tudo a eito, sem uma hesitação, sem um "Olhe, vou passar", sem um esbracejar, um espernear, uma campainha, nada, é vê-los atentar contra a própria vida - e o nosso músculo cardíaco - como se a estrada, o passeio, a ciclovia, a relva, o cocó dos cães, o mundo! fosse só deles.)

Hoje venho protestar contra os ciclistas da ciclovia. E, por ciclistas, entenda-se tudo o que mexe a raba em cima de duas rodas, independentemente de ir artilhado com a farda toda - óculos, capacete, fatinho, meias, sapatinhos e mais não sei quantas mariquices -, ou apenas com aquele fato de treino, quiçá com que já dormiu algumas noites. 

Vamos lá a ver: eu sou suspeita para falar, e já devia ter começado por aí: uso, mais ou menos, a pista quando vou correr. Ando, assim, aos ziguezagues, pista-estrada-pista-passeio, pareço uma anaconda. E tudo porquê? Porque, de minuto a minuto, surge um dono-de-toda-a-pista, alardeando a sua propriedade, apitando com a buzininha, pedindo cólicença, ou nada dizendo, mas utilizando toda uma linguagem corporal assim parecida com a que os espantalhos usam para afastar os corvos. E aqui a corva, que não tem onde praticar o seu jogging (assim como não tem toda e qualquer pessoa, uma vez que a cidade está feita para essas balofas que vão dar ao pedal extremamente contrariadas de não estarem a enfardar bolachas na chaise longue e, por isso também, ficam supinamente aborrecidas quando vêem alguém a correr na p. da pista que é delas), tem que se encolher para a estrada, para o passeio, qualquer dia para as nuvens, só para esta espécie de ditadorzinhos da ciclovia passar.

Anteontem, por acaso, um ciclista exponencialmente ruivo, todo ele pestanas de cenoura, agradeceu o facto de eu ter atravessado na passadeira dos peões e ter logo guinado para o passeio, dando-lhe a via cicloveira toda para ele. Mas isto foi um num milhão. Por isso, arreganhei-lhe a taxa, em sinal de "de nada, olha agora".



10/03/2021

Inexplicavelmente, também me acontece

Em minha defesa, digo que todos nós - todos, sem excepção - temos momentinhos louros. Uns mais do que outros, mas ninguém escapa àqueles pedacinhos de vida em que o raciocínio bloqueia - a chamada "paragem de boneca" -, a lógica desfaz-se, a inteligência morre por um nico. 

Isto era eu a querer fazer dois bolos de iogurte na mesma ocasião. (A tal PDM ou mania das grandezas de que me queixava ontem relativamente à tacha que comprei, daquela marca.) A receita que tenho exige uma forma redonda com buraco ao meio ou uma forma de bolo inglês. Uma vez que tenho ambas, porém nenhuma a dobrar, decidi fazer um bolo em cada uma delas. Desabafei com uma das minhas crianças (chiu) que não gosto muito de usar a forma do bolo inglês, porque é feita de um metal que não me oferece confiança. Responde-me ela, tão simplesmente, que não sabe a diferença entre as duas formas. Eis então a minha explicação:

- Elas equivalem-se, são praticamente iguais, a única diferença é que a forma de bolo inglês não é redonda, é rectangular, e não tem o buraco ao meio, como a outra.



09/03/2021

Paneleirei-me

Foi ontem que chegou ao lar a minha Ultrapro

Ainda não sei nada sobre ela e suas capacidades ultraprofissionais porque não a experimentei. Estou demasiado enlevada pela coisa para a estrear assim, sem mais nem menos nem cerimónia. Então, lá continua no escorredor de loiça - já foi ao banhinho -, à espera que lhe arranje um lugar mais digno que não seja dentro do forno.

Afinal e a final, foi simples a escolha do tamanho. A minha revendedora da marca (não me apetece escrever o nome e repuxar da ponta das sinapses quantos PP tem, se a letra a seguir ao T é um U ou um W, e depois ainda ter que afiançar que ninguém me paga para isto) trouxe-me os dois tamanhos de entre os quais aqui a boneca estava indecisa - dois litros ou três litros e meio -, mas foi de caras, sem hesitações, "Quero a maior!", cheia da PDM e da mania das grandezas. Mas convenhamos: a de dois litros tem o tamanho e o formato de uma forma de bolo inglês pequeno (little british cake), ia obrigar-me a cozinhar às prestações um lombo, a comprar um peixe com a fita métrica na mão, a fazer um papo-seco de cada vez, tudo muito contado e pobrezinho. Mesmo assim, a minha menina é grandinha (não há maior), mas também não é nenhuma gruta, há-de dar para meter lá um frango que não seja do campo (citadino, portanto), e haverá um ou outro que precisará de um aconchego para ficar bem acamadinho lá dentro. Quanto à batata, como diz o povo, olhem, se calhar só assada na tampa (que também é assadeira, benza-a Deus), sob pena de se entranhar nos entrefolhos do galináceo, mo engasgar e ainda me estoirar com a Pro. Possivelmente, também não dará para um peru, um cabrito, um porco, uma vaca. Mas é a pessoa comprar várias panelas, esquartejar tudo muito bem esquartejadinho, e vai um naco em cada uma, não sei mais que alternativas apontar, isto se eu fosse revendedora era o que dizia às freguesas. Mas dá para um bom lombo, assim como para um lombinho. E dá para um peixe, desde que mais pequeno que um tubarão. E também para um pão que alimente uma família de gente ou um regimento de sapadores. 

Pronto, e é isto. Enquanto ela não me desiludir, temos uma relação feliz. Não se me apraz dizer mais nada.



04/03/2021

Um pouco de futurologia

Pergunto-me, com assinalável frequência, durante as minhas caminhadas a alombar com sacos de compras (de fruta e outros bens consumíveis, antes fosse de sapatos e saias), que nefandas consequências ao nível indumentário terá esta pandemia, logo assim ela termine, se é que ainda assistirei a tal dia - o que, caso assim não aconteça, até me dá um quentinho na alma, já que "o que está exposto" não me agrada de todo, e fico com uma sensação igual àquela que me atormenta de cada vez que entro (ou entrava, melhor dizendo) numa loja e me diz(iam) "só há o que está exposto" e eu queria era que fossem ao armazém rebuscar caixotes e charriots até encontrarem o meu pretendido por não gostar de nada do que estava na porra da loja. 
É que vi uma mulher na rua com um fato que nem percebi: em polar turco, meio brilho (se calhar não encontrou com brilho cegante), calças e casaco de fecho, cor beringela - esse indefinido indefinível -, punhos e tornozelos de malha canelada, e, a completar o ramalhete, um téni branco aleatório. (Também consideremos o facto de não existir calçado algum que não choque com aquela fatiota, já que ela própria se encarrega de o provocar.) Portanto, a pessoa ia de pijama ao banco. 
Tenho visto nas lojas online essa nova modalidade de toilettes que responde pela designação de "roupa confortável para estar em casa", um híbrido entre o pijama e o fato de treino, que facilmente resvala para a categoria de roupa-para-dormir-com-que-jamais-se-põe-os-pés-na-rua-nem-que-haja-um-incêndio-a-meio-da-noite-e-tenha-que-se-fugir-à-pressa. Não, nem debaixo de um sobretudo - o nome diz tudo, passe o pleonasmo: sobre tudo o que se veste na rua. 
Então lembrei-me das dramáticas consequências que teve a Expo 98 a esse mesmo nível, ao vir institucionalizar o calção no homem. Houve ali uns meses (e foram cinco, não doze como até agora) em que estava calor, a exposição era ao ar livre, numa zona de micro-clima, junto ao rio, e era aconselhável levar roupa leve, chapéu, água e sei lá se abanicos. A Expo terminou, mas deixou o presente envenenado do calção masculino pelas cidades fora, adoptado por novos e velhos e altos e baixos e gordos e magros. 
(Reflictam e repitam comigo: calções na cidade, só para jovens e ou senhores muito atléticos. Secos de fome. Esganados.) (Vou fundar um movimento "Nós não queremos ver barrigas a abanar, o que inclui as das pernas".)
Assim como Mary Quant inventou a mini-saia - e há-de ter dado pinotes no túmulo por ter arranjado modo de pôr à mostra, além de pernas que bem a aguentassem, paios e chispes -, a Expo inventou o calção do homem. E a pandemia inventou o pijama de rua.
My eyes. Nem com um garfo espetado neles vou conseguir desver. E sei que é o que me espera, de outrora (desde que começou a pandemia) em diante. E nem me adianta emigrar.


02/03/2021

And that awkward moment # 62

em que desperdiças uma boa piada com alguém que tem o sentido de humor de uma bigorna, ou talvez até um pouco menos? E ficas com aquela cara de quem não sabe bem se há-de rir-se do que acabou de dizer, ou se prefere fugir dali, não concretamente de vergonha, mas por incompreensão alheia.

Dá-se que ando de namoro a uma panela. Posso mesmo afirmar que até sonho com ela. É verdade, cada um é para o que nasce. Há quem sonhe com viagens e riquezas várias, eu apenas quero para mim uma Ultrapro da Tupperware*. Cara, a minha pequerrucha. Mesmo em promoção (100% do tempo), caríssima. Ela existe em três tamanhos e acho que ainda só não decidi qual dos três me faz mais falta (todos). Tenho ainda o problema estratégico de já não ter onde encafuar mais tachos. O armário da cozinha abarrota e não me parece solução pendurar as minhas sertãs de um gancho, como antigamente, que as cozinhas tinham paredes a perder de vista. Era eu já ter resolvido estas duas questiúnculas relacionadas com a Ultra e já vos dizia se não dava um rim e oito tostões para a ter.

Explicava eu as grandes vantagens da panela a pessoa do meu ciclo (mais concretamente, do meu perímetro, uma vez que é vizinha de bairro), de entre as quais a principal, que é uma pessoa poder meter as carnes dentro da dita, tapá-la com a tampa, metê-la no forno e sair de lá tudo assadinho, sem salpicos, sem esturricos, sem sequer ser necessário temperar muito - já que as chichas assam na sua própria gordura - forno limpo, jantar feito, mas há lá sonho mais maluco e atrevido para uma dona de casa que se preze? (Pareço uma revendedora da marca, mas não sou.) (Olha, ainda me faço, só para ter as minhas Ultrapros, e depois despeço-me.)

Então, disse-lhe: "Metes a perna lá para dentro e nem precisas de temperar".

Depois parei para raciocinar o que tinha acabado de dizer. 

"A perna do peru, não a tua."

E ela sem um sorriso. Sem uma reacção que não fosse apenas um: "Eu sei".

Pronto, concedo que esta não era o Everest das piadas, mas, por este andar, com uma plateia tão pouco entusiástica, vou acabar assim: seca e séria.

Chatos.

* NMPPI

23/02/2021

Ela fala tanto # 30

E, desde que veio lá da quarentena - e depois fez mais não sei quantas, à custa de um filho covidado, uma irmã covidada, o papagaio covidado, tudo e todos menos ela, mas que remédio senão aturar os diversos timings de recato e recolha ao lar -, mas, e sobretudo, após ter levado a desanda da vida laboral dela (porque, ó pá, passei-me de lavar, passar, esfregar e cozinhar e encontrar tufos de sujidade em tooodos os recantos cá do lar), agora está irónica. Diz-me merdas. Do género: pergunta-me por uma coisa qualquer, "Chegou a comprar a alface?"

Note-se que não me trata por nada, e trabalha na minha casa há vinte e três anos. Não sou "senhora dona", não sou "senhora doutora", não sou "senhora", não sou "ó tu". Deixei de ser "Olhe" porque lhe acabei com isso num dia de tempestade gástrica, e também tive que lhe cortar com o "você" (com o qual ela, respeitosamente, trata a mãe e tratava a avó) porque tudo tem os seus limites e aquilo arranhava-me os tímpanos. 

Vai que eu respondo: "Não sabia que era preciso comprar, a Sandra não me disse."

"Eu disse-lhe ontem, se calhar não ouviu ou esqueceu-se."

"Acho que nem uma coisa nem outra."

"Não faz mal."


Ou eu digo: "Ainda não pus a máquina a trabalhar porque estou à espera que a Sandra tire os lençóis das camas."

"Não faz mal."

Ou então: "Isto está tão desarrumado, nunca há tempo para arrumar."

"Não faz mal." - Porque talvez seja como os homens, lá terá aquela costela sobresselente e não entende indirectas subtis e delicadas, tens que lhe dizer "Arruma, pá, porra!". 

Não faz mal? Então e se eu a puser a andar, com a desculpa de que já não dá mais para aguentar esta relação, também me diz que não faz mal?


01/02/2021

Quando os teus sonhos se tornam realidade. Ou não, oh não.

Uma destas noites, deitei-me convencida de que já não tinha, na abarrotante gaveta dos collants, qualquer par cor de pele, ou melhor, da cor da minha pele, pois o conceito abrange todo um pantone, desde a alvura nórdica ao castanho africano, entenda-se. 

Fazem-me falta collants "transparentes", principalmente para os colocar debaixo das calças mais curtas, para que aquele bocadinho de pele que fica à mostra não ande ali à vela e não rape um frio dos ananases e, por consequência, não seja responsável pelo arrefecimento de todo o resto dos 95 % do meu corpo.

Os dois pares que tinha encontravam-se no processo vai e vem para e de lavar, de modo que, angustiada com a impossibilidade de, no dia seguinte, não ter meias para tapar os artelhos, até dormi mal. Sonhei que só tinha collants pretos para os tapar, e que, considerando a hipótese de ir à loja comprar da cor pretendida, logo tive que a desconsiderar, pois se encontrava encerrada, à espera de melhores dias. Tudo muito realista, portanto. 

Pela madrugada, que é quando afasto as pestanas superiores das inferiores pela primeira vez após escasso repouso, quantas vezes ainda nem o sol deu sinais, eis que me agarrei a Ai-fostes, abri a página da loja de collants, encomendei logo três pares, para que nunca me faltassem, paguei-os e, se não o corpo, pelo menos sosseguei o espírito. Porém, só até ao momento em que, ao abrir a dita gaveta no intuito de procurar alternativa aos da cor da minha pele (bege vulgar sul da Europa, nem alva nem castanha), me deparei com mais dois pares da pretendida cor, dobradinhos e limpinhos.

Conclusão, retirada de um ditado chinês: não sonhes nada aos dezoito, que aos trinta terás realizado. (Ai não é assim? Não se aplica? Aplica, sim senhora, mutatis mutandis.)