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19/10/2018

Ela fala tanto # 26

E estava tão feliz com o grande feito de ter perdido (ou ganho?) alguns, vários, demasiados minutos do seu expediente a colar selos numa caderneta, 


que eu calei, se calei, mais uma e outra vez, a vontade de lhe perguntar se considera que não tem, efectivamente, mais nada para fazer (tanto pó acumulado, tanta tralha desarrumada, tanta pomba assassinada), mas o que é certo, indesmentível e real, é que lá fui à gigantesca superfície, também eu toda feliz e contente, trocar a caderneta por um pirex que não me faz falta nenhuma (mas é grátes, canudo!) e que não tenho onde arrumar (ainda acaba em floreira/fruteira/penico chique), e do qual não vou desenvolver o custo efectivo, porque já o fiz aqui, e eu sou pouco dada a repetir assuntos... acho.


27/09/2018

Ela fala tanto # 25

Depois do "bué", veio o "ya", e, desde hoje, o "tchau, beijinhos". 
É certo que se pode dizer que quase coabitamos, pois ela labora no lar que é meu há praticamente vinte e um anos. Se até a própria lei considera esta relação laboral uma relação com especificidades próprias, quem sou eu para querer estabelecer ditames rígidos empregador - trabalhador com uma pessoa que me entra portas adentro diariamente e até "viu nascer" metade dos meus filhos?
Mas é que me questiono se um destes dias não chegaremos ao cumprimento de "Hey", que usava aquela personagem maravilhosa, Nick Moore da série Family Ties ("Quem sai aos seus"), dos idos 80's do século transacto.


E depois, mais adiante um pouco, passaremos para o cumprimento dos punhos fechados, e seremos migas e manas para sempre.

06/04/2018

Ela fala tanto # 24

No entanto, ou tem breves bloqueios, ou serei eu que não alcanço raciocínios tão intrincados, esdrúxulos, direi mesmo abstrôncios.
Ouve um estrondo no quarto das miúdas, vai calmamente saber do que se trata. Vê uma delas com uma das portas do roupeiro na mão, que acabou de descarrilar do trilho que é a calha. Coisa para dois metros e tanto de altura, algo como oito ou dez quilos de peso. 
- Ah, pensava que tinhas caído.
E assim disse, melhor fez: saiu do quarto e foi à atarefada e inadiável vida dela.
Pergunto-me assim: então e se ela tivesse caído? E respondo-me assado: provavelmente, diria: “Ah,  pensava que a porta do armário tinha caído”. E lá ia, à atarefada e inadiável vida dela.
Só não me pergunto o tamanho da puta que ela havia de armar se a porta lhe descarrilasse nas mãos, ou se desse uma queda na minha casa. Logo baixa, quais agora?
(Se calhar, se fosse comigo, defecava no assunto. Em se tratando de uma das pessoas que eu gerei, é que temos a burra nas couves, que parece que tudo muda de figura. E de cores.)

28/02/2018

Ela fala tanto # 23

Entra e traz atrás dela o excesso de ruídos que lhe é característico, quiçá se por temer passar despercebida (como se isso fosse possível; como se isso fosse fundamental): bate os saltos das botas ainda no patamar dos elevadores, bate a porta, só não bate continência (lá iremos?), acelera o passo com a desculpa do guarda-chuva molhado até à casa-de-banho, tosse, deseja bom dia, dá conta de que está a chover — para o caso de eu ainda não ter percebido, não só pelo espalhafato com o guarda-chuva, como também porque existe a possibilidade, ínfima que seja, de eu viver num casulo e, no limite e na loucura, não ter internet —, ainda não despiu o casaco e já me está a perguntar o que é o almoço (são 9 da madrugada, genitais, eu ainda nem pintalguei o rosto de cores saudáveis e já me estão a sobrecarregar com particularidades?). Balbucio-lhe uma possibilidade, legumes à Braz. Ainda antes de vestir a bata, dispara:
- Por falar nisso [segura-te, LB, vem lá rajada], tenho uma dor nesta orelha que não lhe passa pela cabeça. 
- [Silêncio.] [Nunca poderá passar-me pela cabeça o que seja uma dor na orelha de quem quer que seja, que não seja algo equivalente à de Mr. Van Gogh.]
- É mesmo aqui no bolbo, cada vez que lá toco até amarinho pelas paredes. [Acima?]
- [Eu preciso de silêncio.]
- Isto foi outro dia, magoei-me com um brinco e agora dói-me. 
- Rasgou?
- Não, foi o brinco que se prendeu no furo. O brinco tem aquela parte para se meter no furo, mas não foi essa parte, foi a outra, meteu-se para lá, depois torceu, não sei como, vi-me aflita para o tirar, já na altura me doeu imenso, agora dói-me cada vez que toco lá. E é que não passa, raio do brinco, não sei como é que me fez aquilo, ainda por cima é da ourivesaria, nem é daqueles ordinários, e... [beca-beca-beca-dores-agonia-não-aguento-dói-dói-beca-beca]...
- [Tanta FDF que singra por este país afora]...


09/01/2018

Ela fala tanto # 22

Outras vezes, sou eu que falo tanto.
Não sei ter animais. Perco a conta às vezes que vou verificar se as gatas estão a respirar, perante aquela letargia que me assusta e me deixa doente.

- Não quero ter mais passarinhos presos em gaiolas. Quando estes dois acabarem, acaba-se a gaiola. O meu problema é que os passarinhos nunca me morrem no mesmo dia. Depois fica ali um sozinho, viuvinho, eu encho-me de penas, e lá mando vir outro. Depois morre o outro, fica mais um sozinho, e andamos nisto há anos. Agora olho para eles, vejo que um é muito mais velho do que o outro, tem mais peninhas brancas na cabeça e nas costas, é capaz de morrer primeiro. E fica o outro sozinho, e eu isso não vou aguentar. 

Ela ouviu-me atentamente, os olhos fixos sem sombra de crítica nem pestanejar de pasmo, e disse:
- Eu posso levar o passarinho que ficar sozinho para um senhor que mora ao pé de mim e faz criação, que ele tem uma gaiola enorme com muitos. 

Minha Bianca é uma cougar: é ela a mais velha no casal. Pode ser por isso que nunca tiveram filhos juntos. Mas nas noites de Inverno vou sempre vê-los encostados um ao outro, no mesmo poleiro, a fazerem-se volumosos para se aquecerem e para darem calor ao outro. Não suporto a ideia da viuvez do meu Bernardo. Sofro por antecipação, aliás como com tudo. Prefiro despedir-me dele em vida, imaginando que vai ter uma vida melhor do que a da solidão da gaiola, que há-de ficar ainda mais fria sem a Bianca, ainda que seja Verão, pois mesmo no Verão se aquecem encostados no mesmo poleiro. Aninham-se, na melhor acepção do termo, já de si tão bom. O meu Bernardo aprenderá a piar em galinhês, deixará de ser um biquinho-de-lacre chique, mas que tão baixo preço a pagar é esse, diante da alternativa que é a tristeza da casa vazia?

02/01/2018

Ela fala tanto # 21

Lembram-se daquilo dos cravas e dos pedinchas? Foi há bocado.

Sexta-feira, último dia útil — como se inúteis fossem os outros — do ano, dia em que lhe entreguei o ordenado + passe [que pago por inteiro há anos, embora ela tenha outro trabalho], tudo em notas, porque parece que a transferência demora mais do que é suportável, mas quero lá saber.
Havia dormido cá no lar um rapaz das amizades das minhas grandes crianças, que, chegado a desoras e por já não haver barco que o levasse a casa, antes de se encostar para se refazer da noitada, retirou as lentes de contacto dos respectivos olhos e colocou cada uma em sua chávena de café, a boiar no líquido próprio. 
Resumindo: ela chegou de manhã e deitou as lentes fora. Fui à óptica mais próxima, comprei uma caixa delas e deixei lá 22 pacas. Quando cheguei a casa, madame já se sumira, um providencial minuto antes da hora, não fosse cruzar-se com as minhas ventas da total rejeição. Assim, não me desejou bom ano, nem me deu a mim oportunidade para o fazer. 
Hoje, à queima-roupa, minutos depois de entrar: 
- Nem sabe o que é que me aconteceu na sexta-feira. Passei o fim de ano e o fim-de-semana todo a pensar nisso. 
- ...
- Então não perdi parte do dinheiro que estava no envelope?
- O ordenado?
- Sim, mas só uma parte. Depositei x [e disse-me o valor total do ordenado] e pus de parte o dinheiro para carregar o passe, mas, quando fui para o carregar, já não tinha o envelope na mala. Depois fui encontrar o envelope no meu caminho, já todo rasgado e sem dinheiro. 
- Quanto é que era?
- Vinte e cinco euros.
[Como se eu não soubesse que o passe dela ME custa € 36,20 de trinta em trinta dias.]
- Olhe, foi o karma, que isso foi quase exactamente o que eu deixei na óptica para pagar as lentes que a Sandra deitou fora.

(Antigamente, há muitos anos, havia uma otária em mim que responderia: "Ah, coitada, tome lá outros 25 e não se fala mais nisso".)
(A otária morreu.)

08/12/2017

Ela fala tanto # 20

À procura de camisolas quentes — conceito que, depois de revirado o gavetão da cómoda, concluo que desconheço —, dado o degelo dos últimos dias, apercebo-me que tenho cerca de (não contados, este é um número aproximado, pelo que tanto podem ser mais como menos) dez casacos de malha pretos, ora de decote em V, ora de decote redondo, ora com um folho na ponta da gola, ora com uma transparência de lado, ora com um laço a fechar o cimo da abotoadura. Dez, para aí. Quanto a camisolas quentes — lã, gola alta, enfim, que não deixem passar o frio pelos recantos —, umas três. 
Dá-se que também sou um nico faladeira, mais porque penso alto do que porque precise de comunicar ao Mundo estas coisas, e aconteceu ter comentado com ela — que ciranda constantemente ao meu redor — a seguinte realidade: "Não sei para que preciso de dez casacos de malha pretos. Se o Mundo acabar amanhã a casacos pretos, tenho a minha sobrevivência garantida".
No dia seguinte, mostra-me ela uns botins vermelhos que as irmãs lhe ofereceram pelos anos. "Muito giras", limitei-me e contive-me. 
- Por falar nisso [só eu sei o quanto temo as frases dela começadas por "por falar nisso"], outro dia [fora no dia anterior] estava-me a dizer que tem dez casacos de malha pretos, já viu como está este meu casaco de malha vermelho? Tão velho que estou capaz de o deitar para o lixo. Estou mesmo a precisar de um novo. 
...
...
...
Isto assassina-me o espírito natalício. 
Uma m. de um casaco de malha, de qualquer cor, custa uma m. de seis euros. (Na Primark*, pelo menos.)
É não me pedirem, e têm de mim um rim, um olho, um pulmão, a minha medula, o meu sangue para lá do impossível. 
É pedirem-me desta maneira deslavada, e têm de mim um coice, porque isto é para lá do indecente. 
Vou comprar-lhe um casaco de malha verde, que é para aprender a não ser pedinchas. 

* NMPPI

03/12/2017

And that awkward moment # 43

em que trocas o destinatário de um sms, e acertas em cheio em quem não deves?
(É sempre, não é?)
Desde que tenho Ai-fostes que me tornei exímia na troca de destinatários de sms. Tenho criado confusões giras, desde avisar alguém que não me espera que já cheguei, a mandar beijinhos para a Sephora, ele tem-me ocorrido um nico de tudo. Aquilo fica lá com o campo da última mensagem aberto, aqui o ser humano não se dá ao trabalho de verificar de quem se trata, vai de dialogar com quem mandou a última comunicação escrita via telemóvel. Pelo menos, sou educada.
A pessoa tem uma filha fora de casa, a gozar um fim-de-semana prolongado. Quer saber notícias e manda-lhe aquilo assim: "Então tu, boneca?". A bendita mensagem vai parar à que fala tanto e me visita, a soldo, todos os dias úteis. Depois dá-se a circunstância de esta mesma pessoa estar dentro de um elevador, pelo que Ai-fostes se recusa a enviar o desmentido da salganhada a tempo. Então, recebi aquela resposta, que vou guardar carinhosamente.

A msg nao deve ser para mim

Portanto, sobejaram-lhe dúvidas. 
(Vá lá que não aconteceu ter escrito "Amanhã trabalhas, boneca?")
(Vai-se a ver e, quem sabe, nesse caso, responderia: "Mas há dúvidas, boneca?". Sem dúvidas.)




13/11/2017

Ela fala tanto # 19

E ainda me surpreende, ao fim de vinte anos de relação.

Conta-me do marido, recentemente desempregado. História cheia de cabelos e rabos presos, que, quando questiono para clarificar/ ajudar/ tentar resolver, esquiva-se para outros mil assuntos que estão sempre mal presos na manga e saem como cerejas. Que a filha também não encontra trabalho, que passa os dias em casa, que nem as tarefas domésticas mais básicas cumpre. (Isto, dito por outros termos, que envolvem uma taça de cereais no chão da sala um dia inteiro.) É tudo em cima das costas dela, exclui deste fardo o filho, que é a melhor coisa que lhe aconteceu na vida (isto, dito por outras palavras, que é um miúdo que não chateia, está lá na vida dele), apesar, digo eu, de já ter perdido dois anos do percurso escolar. 
- Outro dia estava cansada, telefona-me a minha Tatiana a pedir para lhe comprar um gel para refrescar os pés. 
Eu pensei que ela estava revoltada porque, numa casa em que vivem quatro e só entra um ordenado pouco mais do que mínimo, um gel para refrescar os pés deveria ser, talvez, a última das prioridades. 
- Eu ainda lhe disse, Ó Tatiana, eu estou cansada.
Eu pensei que ela disse à sua Tatiana que estava cansada para se esquivar, reforçando a evidência da impossibilidade de lhe comprar um gel para refrescar os pés.
- Ainda por cima, levei que tempos a encontrar o gel, que havia lá uma data deles, todos iguais, e ela queria um especial. 
Eu não pensei. Morri.
- Ela precisa daquilo, porque os ténis lhe aquecem muito os pés, e aquilo é tudo ténis de 70 euros o par.
Já nem precisava deste golpe de misericórdia. Mas olhem, ressuscitei e posso ter sido acometida de um bocadinho de Tourette, porque saiu-me isto assim:
- Eu só gostava de saber o que é que passa pela cabeça de uma pessoa que não trabalha nem estuda, não faz nada o dia inteiro, tem o pai desempregado, e telefona à mãe, que é a única pessoa que sustenta a casa, a pedir um gel para refrescar os pés. 

Fica a questão. 

21/08/2017

Ela fala tanto # 18

e faz tão pouco. É o que parece.
Agora encontra-se de férias, quem sabe a banhos. 
Eu entretenho as minhas horas não vagas a fazer máquinas de roupa diárias várias, um tambor com capacidade para sete quilos, vinte e um metros de corda sempre cheios, dezenas de molas, mais de metade para dobrar directamente, a restante para passar a ferro. Entre o lava-estende-recolhe-separa-dobra, esvaem-se-me as forças para passar, sobretudo camisas e lençóis de (cinco) cama(s). [Por sorte, dois de nós dormimos na mesma; se não, seriam seis.] Socorro(!)-me da mesma empresa de engomadoria que me vale nestas horas difíceis, e que me vende um pacote de sessenta peças por um balúrdio, mas eu estou capaz de dar um rim para me livrar daquele cesto, quanto mais uns míseros milhares de cêntimos. Arrebanho o mais urgente (quase tudo), rapidamente somo cinquenta peças e sigo para a empresa salvadora, a uns metros de casa. Pouso o pesadíssimo em cima do balcão e toda eu sou água desmicelar, vulgo sudação. E desabafo o que, efectivamente, me vai na alma:
- A roupa é o maior stress de qualquer dona de casa. Entre o lava, estende, recolhe, separa, dobra e passa, há um processo que nos desgasta e derrota. Estou tão cansada que, agora que aqui cheguei, a única coisa que era capaz de me dar alguma paz, era passar essa roupa toda a ferro. — Porque, não sei se já aqui disse alguma vez, para mim, passar a ferro é uma terapia ocupacional, um rage turn off, uma entrada em zen. Porém, não posso ter mais nada para fazer, e isso é coisa que quase nunca acontece.
Ainda me parece que ela faz tão pouco?
Olhem, eu não lhe dou o seu devido valor.
E ninguém me dá a mim o meu. 

10/07/2017

Ela fala tanto # 17

O mal de fazer o que quer que seja antes de injectar cafeína para a veia dá nisto: cortei umas calças de ganga a níveis inadmissíveis para poder frequentar a rua sem que cerca de 67,3% da população — sendo que, desses, 97,6% são mulheres —, fique em modo catatónico a olhar para os meus tornozelos, naqueles precisos segundos em que nos cruzamos uns com os outros. 
Tinha as calças já vestidas e achei-as extremamente compridas. Montei a máquina de costura, medi as calças sem as tirar, e vá que não tentei metê-las à máquina ainda vestidas. A minha medição deu 64 centímetros de comprimento para cada calça (uma vez que a descafeína não me retirou a lógica de fazer as duas do mesmo tamanho). Cortei, cosi a bainha de modo a ficar com a costura amarela da ganga na ponta, e vesti-as. Constatei, horrorizada, que tinham ficado com uns admiráveis quatro centímetros acima do osso do tornozelo, o que me levou a uma rápida matemática, ou então a uma epifania: isto quer dizer que, dos meus 168 centímetros, 68 (x 2) são pernas. (E não, não meço um metro do gancho à cabeça, não posso esquecer-me que tenho pés.)

~

Voltei da rua com outras calças iguais, cometi o disparate de lhe contar que fui à Primark* pedir que me lessem a etiqueta das calças, para poder comprar umas iguais, e que a funcionária me esclareceu que as calças eram da Bershka*, número 36. (Estou sempre no sítio errado à hora errada, o que faz de mim uma séria candidata ao acontecimento estúpido.)
(Não, isto não foi tudo para dizer que visto o 36 de calças, pois nem é bem verdade. São calças com tanto elastano que até aquela Margarida as vestiria sem dificuldades.)

~

A minha Tatiana está magríssima, perdeu dez quilos, passou de 64 para 56 quilos.


[Pensava que só tinhas chumbado a Português.]
Outro dia também quis vestir umas calças 36, mas não conseguiu, porque não lhe serviam, teve que pedir o número acima.
[Pensava que ela estava magríssima. Devo ter percebido mal.]
É que ela tem o rabo maior do que o meu.


[Espera. Pára tudo. Vamos começar a medir rabos. O teu é gigante. O da tua Tatiana é maior do que o teu. Eu enfiei o meu numas 36, cheias de elastano, é verdade, da Bershka**. A tua Tatiana enfiou o dela numas 38 e tu, por conseguinte, dizes-me agora que vestes o...
...
...
... 36?]


[Se não chegaste a chumbar a Matemática, chumbo-te eu agora.]
[E a Lógica também vais chumbada. Adeus.]


* NMPPI
** Um dia ainda dedico um post à FDP do nome desta loja, à p. da grafia dele e às diversas formas como pode ser pronunciado. 

03/07/2017

Ela fala tanto # 16

Durante o fim-de-semana trocámos miminhos através de sms, cadeia despoletada por mim, pois que me surgiu a dúvida sobre o seu mapa de férias, e digamos que preciso de me organizar: também terei as minhas, preciso de limpezas grandes de Verão, cá o lar vai para obras em breve, e etecetera. Ora, não lhe disse nada disto, mas ela sabe que, chegado o bom tempo, é também tempo bom para lavar, arejar, limpar e arrumar. Fiquei a saber que [oh!] as férias de madame La Sandra começam no próximo [tão próximo!] dia 17. Vá que paniquei, mas também, e mais uma vez, não disse nada. Ainda estarei em Lisboa mais duas semanas, enquanto ela descansa, e isto faça chuva ou faça sol, tenha ou não que, também eu, trabalhar. 
Hoje apareceu-me com as pontas do cabelo pintadas de verde [vá lá...] e a coxear. Parecendo que não, ambas as coisas têm a sua correlação, quanto mais não seja pelo grau de irritação que conseguem provocar-me, logo a uma segunda-feira de manhã, que é, como sabem, o pior horário da semana (ex aequo com o final da tarde de domingo). [Qualquer dia, tatua-se.] [Se é que não se tatuou já, mas não está à minha vista.] [Qualquer dia, tatuo-me eu.] [Puxa, será que umas estrelinhas no interior do pulso, à artista de Hollywood, ficariam muito Zona J?]
Mais uma vez, não disse nada. Resolvi ignorar tanto o verde como a coxa. As clubites e a chantagem emocional também andam ex aequo entre si para me atirar para os pináculos da irritabilidade. 
Cansada da minha indiferença — que creio que interpretará como burrice da boa —, fez que encontrou uma ceninha invisível no chão, para poder baixar-se e apanhá-la de lá à minha frente. Apoiando uma mão na parede, semi curvou-se para, com a outra mão, apanhar do chão ótever. E gemeu. E eu muda. Até que lhe saiu tudo:
- Tenho aqui uma dor, mal me posso mexer, dói-me tudo até cá acima [rolling eyes], isto foi ontem, a tirar o carrinho das compras do carro, dei um jeito às costas, que fiquei assim parada na rua [e exemplificou], parecia uma velha, até disse à minha irmã, "Ai, ó Tânia, já não consigo sair desta posição" [mas parece que conseguiu], a ver se hoje vou à SAP tomar uma daquelas injecções que tratam tudo e amanhã já devo estar um bocadinho melhor.
Depois fui para o supermercado, trouxe o equivalente a vinte quilos de compras [true-true, só em leite foram 16 litros], e é óbvio que alombei com tudo até à cozinha, não fosse ela ter que tomar duas injecções em vez de uma só, lá na SAP. 

[E sim, baixa-me a fascizóide quando me lembro que ela vai laurear a pevide no dia 17, mas não lhe faltará o ordenado por inteiro, nem o subsídio, enquanto aqui a pessoa humana fica a substituí-la a custo zero.]
[Spinning eyes. Ou melhor, este — :(]

08/06/2017

Ela fala tanto # 15

E outras vezes tão pouco.
O que fazer a uma pessoa que trabalha na tua casa há dezanove anos, que já viu nascer — não literalmente — dois dos teus filhos, que é (quase) mais um elemento da tua extensa família, e que amua? 
Se já não é a Miss Simpatia, e anda de carona fechada na rua — queixando-se que os vizinhos não lhe dão boa tarde, pois pudera, se os meus vizinhos são praticamente todos mal educados, diante daquele semblante, até eu, que pareço uma candidata à Câmara, preferiria virar a cara para o outro lado —, a facilidade com que amua, e assim fica por dias seguidos, é coisa para me fazer sentir não a mais na minha casa, mas com ganas de a pôr a menos a ela. 
Por exemplo, hoje: disse-lhe que não passasse a ferro uma t-shirt que tenho, decote em barco, que o ferro fez com que ficasse decote em navio porta-aviões, um autêntico desassossego, cai a manga, cai o decote, cai nas costas, cai tudo, e só não revela nada de importante porque, ou só alargou no decote ou é muito estúpida (refiro-me à t-shirt). Já ficou de cara torta, porque dizer-lhe que o ferro deu cabo de uma t-shirt é o mesmo — para ela — que dizer-lhe que fez de propósito para me dar cabo dela, por maldade, inveja, ou sei lá o quê, de uma porcaria da Zara* que me custou 5 euros. 

Imagem obviamente gamada
Eu digo: Estas blusas — porque tenho mais duas semelhantes — não podem ser passadas a ferro, menos ainda com ele tão alto. Esta já está com o decote alargado a um ponto que não posso voltar a usá-la. Ou então, isto deve-se à qualidade Zara. 
E ela ouve: Estragaste-me esta blusa, que foi caríssima, porque, de maldade, ligaste o ferro no máximo, só para eu não voltar a usá-la, logo esta, que é a minha preferida e me fica tão bem.
É que só pode. Ainda, parva, lhe dei a dica da falta de qualidade da roupa da Zara — quando disse qualidade Zara, era uma ironia! — para a desculpar de uma culpa que ela, obviamente, tem — canso-me de lhe dizer que não use o ferro no máximo para tudo —, e ainda a tenho de bezerra durante os próximos dias — que, no caso presente, serão só dois, a contar com hoje: outro dia avisou-me que, para a semana, vai de férias durante uma semana inteira, e eu caí para o chão — não literalmente, também —, indecisa entre o pânico e o alívio. Devia ter amuado, era o que era.

* ninguém me paga para me calar

22/05/2017

Ela fala tanto # 14

Aparece-me mais tarde, esbaforida e sonora, necessitada de desabafar como um balão cheio de hélio preso por um fio, e desata. Confirma que chumbou no exame de Código da Estrada, que foi fazer juntamente com a filha e o cunhado, que já conduz há anos sem carta e lá foi pela quarta vez. [E eu que sei, e eu que sei, cruzo-me com eles todos os dias...]. A filha muito nervosa, ai, Tatiana, tu acalma-te, mas ela a ter um ataque de ansiedade, o ar a faltar-lhe [porra, pá, só eu não tenho ataques chiques, à frente de toda a gente], e eu, inconveniente, depois de me ter dito que a filha também chumbou, pergunto se estava nervosa antes ou depois do exame, pois que antes, não se conseguia acalmar, ai, ó Tatiana, tem calma, filha, e ela lá se acalmou quando começou o exame. 
- Acho que o que me tramou foi aquela da cedência de passagem numa rotunda.
E dou comigo a pensar, "Olha o azar, chumbar por uma. Mas a fasquia tem que ser posta em algum lado, se não fosse na quarta errada, era na quinta, e haveria sempre quem chumbasse". 
- Errei cinco, e a minha Tatiana também.


[O cunhado passou, conseguiu errar apenas em três questões.]

16/02/2017

Ela fala tanto # 13

Faz a minha cama, enquanto profere uma frase com a palavra menino oito vezes (sei porque contei), anaforando alegremente. Qualquer coisa como: 

Agora a minha Tatiana não está a trabalhar [agora...] e fica a tomar conta do menino, só que o menino, mal me vê, quando eu chego, só quer o meu colo, e eu não posso andar com o menino ao colo enquanto faço o jantar, tenho que dizer à minha Tatiana 'Pega lá tu no menino, que eu tenho que fazer o jantar', e ela também é muito ciumenta com o menino, porque foi a ela que a minha irmã disse para tomar conta do menino, só que o menino fica muito chato ao fim do dia, e não a quer a ela, o menino só me quer a mim. 

[Jesus.]
(Menino Jesus.)
(Um dia vou perceber esta necessidade que o povo tem de chamar menino e menina às suas crianças. Eu devo ser uma bruta, tratei sempre os meus, os teus, os dele, os nossos, os vossos e os deles pelo nome próprio. Ou então, o rapaz, a rapariga, o miúdo, a miúda, a criança. Ai, que agressivo para com o menino e a menina.)

Um par de horas mais tarde, disse-me assim:
- Então há bocado, estávamos tão distraídas à conversa [but wait...], que nem vi que não lhe fiz a cama de lavado. Depois tive que desmanchar tudo e pôr os outros lençóis. 
[Eu distraio-a. À conversa.]


21/01/2017

Ela fala tanto # 12

[Ia vivendo # 2]


Diz-me, à chegada, entabulando um dos nossos mono-diálogos, em que ela fala e a minha cabeça responde, antes de pousar os sacos e a mala e o casaco e os mil dling-dling que anunciam a sua chegada ainda nem a porta do elevador se abriu:
- Ontem dei uma pancada com este dedo, que ficou todo negro...
- ...

- ... está aqui todo negro. É este.
[Não consigo ver o dedo negro. Vejo o dedo, mas não vejo o negro. Continuo a acreditar que não tenho dioptrias; continuo a acreditar que não sou sugestionável; continuo a acreditar que sou positivista científica em relação a quase tudo; continuo a crer nessa filosofia e também na de São Tomé.]
- ...
- ... aqui. 
[E eu, nada.]
- Foi cá uma coquinada.
- ...
[Um destes dias responde-me "ya", a uma pergunta que lhe faça cuja resposta seja positiva.]
- Ia partindo o dedo.
Ia vivendo. Por pouco não viveu. Por um triz não teve um acidente. Por uma unha negra, literalmente. 
- Hum.
Neste murmúrio, contive todas as questões que me assaltavam no momento:
1. Colaboro e digo: "Negríssimo, coitada!"?
2. Devia meter baixa;
3. Quer que accione o seguro?
4. Vá para casa, sinto que devo dar-lhe o dia;
5. Talvez redução de tarefas? Afinal hoje é sexta-feira.
6. Ou casual friday?
7. O que não puder fazer, faço eu.
8. Quer miminhos?
9. Não sou enfermeira, mas posso improvisar um curativo.
10. Massagem com anti-inflamatório?

Sei que sou má. Sei que o Hades me aguarda. Já mandei para lá uma garrafa de whisky e está tudo combinado. Não tenho paciência para chamadas de atenção. Tenho quatro filhos. Quatro. Tenho muita pena de não ter mais, mas não me apetece adoptar uma mulher de 42 anos. Um assim pequenino é que era.



16/01/2017

Ela fala tanto # 11

O namoro começou há menos de duas semanas e já se deu o casamento. Ou o divórcio, conforme a posição em que as pessoas se queiram colocar, pois que, no fundo, vai dar ao mesmo. 
Disse-me, num belo dia de sol deste Inverno azul, que "A minha secadora morreu para a vida" (sic). Não liguei a importância que o tema de conversa poderia vir a ter nas nossas vidas, já que ela encadeia os assuntos uns nos outros, e pula, como de nenúfar em nenúfar, até atingir a margem, que é quando eu, exausta, viro costas e sigo (calada, que é para não dar azo). Chega mesmo a começar um assunto novo com a frase "Por falar nisso". (Antes essa que o conclusivo "portanto", que tanto de bengala serve a tantos.) (Mas continuando.) (Ela é faladora, eu sou prolixa.) (Também sói dizer-se pró-lixa, em vos aprouvendo.) 
No dia seguinte, mal assim encarou comigo, repetiu "A minha secadora morreu para a vida". Respondi-lhe, candida e funestamente, que já me anunciara a morte da máquina no dia anterior, porque eu sou parva, mas nem tanto, e percebi à primeira que era de olho na minha secadora que ela andava. Digamos que se deu conta que eu não a uso vai para dois anos, por detestar o cheiro com que a roupa de lá sai, tão-só. Mas eu sou ou não sou livre de ter a minha cozinha atravancada com um mono inútil, se for essa a minha vontade? (Até podia querer fazer daquilo armário de sapatos ou casota para as gatas, ou não?) Pelos vistos, não. 
Acontece que na minha casa se comem iogurtes a um ritmo que nem um bebé ao biberon, e, por esse motivo, nós fabricamo-los cá no lar. Sentimos, por isso, a necessidade de uma segunda iogurteira, já que aquela que temos não estava a dar vazão ao consumo dos ditos. 
(Estão a acompanhar, ou já se perderam? É que eu já.)
Bom.
Também acontece que ela frequenta um hipermercado que eu não frequento, por motivos geográficos, ou lá o que é, que tinha a iogurteira que as pessoas queriam. Então, pedi-lhe que me comprasse por lá uma e, por acasíssimo no mesmo dia, disse-lhe que lhe dava a máquina secadora de roupa. 
Veio buscá-la ontem, e trouxe hoje a iogurteira. Fiz-lhe a pergunta retórica (pensei eu), "Quanto é que custou a iogurteira?".
...
...
...
E ouvi a resposta intrincada...
...
...
...
"Tenho ali o papelinho, já lhe digo".


30/09/2016

Ela fala tanto # 10

Era eu, plácida, no recesso do lar onde habito, e ela adentrara minhas portas há coisa de cerca de minutos atrás. 
Não sei a que, nem a de quem propósito, porque se me escapam sempre os intróitos dela, os preâmbulos e, mais adiante, os epílogos, mas raramente os enredos, desata ela a desfiar este rosário:
- Ela é mulher para ter sessenta, ou sessentas e tais, e ainda se veste como se tivesse menos vinte anos.
Depois deve ter-se lembrado que ela própria tem menos vinte anos, veste-se como se tivesse menos vinte anos do que tem (e aparenta mais dez), sentiu que descarrilara, e afinou, desacertada: 
- A mulher veste-se como se tivesse vinte anos!
(Afinal não sou só eu que, quando quero emendar a mão, entalo a outra.)
Enquanto isto, mirava-me eu ao espelho, pronta para voar pela porta por onde ela aterrara, e fotografava-me. 
- Mas será que as pessoas não têm noção? Não veem que já não se podem vestir assim?
Não se podem vestir assim, pensava o meu pensamento preconceituoso. Não podem vestir-se assim. 
Foi quando eu, que me visto como se tivesse menos vinte anos para aí desde os vinte anos, imbuída de régias reflexões, verti em silêncio, Por que no te callas? —, ainda acrescentando, aos gritos mentais — ¡coña!


(Trata-se da mesma pessoa que distribui a minha roupa para o quarto das minhas filhas.)

[Post ilustrado sob o inquestionável incentivo de Big Palmier.]

(Sandalete cinzenta, já agora.)


03/06/2016

Carraças, caraças, que raça!

Veio dizer-me, de olhos escancarados, que já encontrou duas carraças cá em casa.
Caraças. Carraças? Que raça a da mulher.
Diz que, uma, num dos ténis do rapaz, a outra atrás do sofá da sala.
O rapaz leva os ténis, todos os dias, para a escola, e não está quando ela está. Ela não arreda um sofá, assim como não arreda um depósito da roupa suja, assim como não arreda uma taça das gatas: tudo são móveis, imóveis, inarredáveis, fixos por parafusos que só ela vê, ao chão.
Além disso, duvido que ela saiba o que é uma carraça. Ela diz que sabe, porque já teve cães que as tinham. Isso ilumina-me um pouco a ignorância, e sossego a apreensão, com a desculpa interior de que, se calhar, quem traz as carraças é ela. Na verdade, ainda tem cães, num quintal lá no sítio onde mora, que servem a caça do senhor com quem se deita à noite.
À cautela, desparasitámos as gatas. Temo pelos passarinhos. Panico por nós.
Ponho a possibilidade de ela ter visto mesmo duas carraças, e de ter mais uma ou mais dez em casa, trazidas sabe-se lá por quem e como. Mas, com filhas que salvam gatinhos em perigo e a morar numa zona da cidade com tantas zonas de relvado, só com muita sorte é que não tenho mais animais em casa. Eu própria apareci imune à toxoplasmose e à rubéola, sem nunca ter havido memória de ter tido uma ou outra. Sou mesmo capaz de vos poupar às minhas sagas com o lombriguedo. E eu era uma menina da cidade. Assim estava classificada, pelo menos.
Deito as mãos atrás das orelhas e sinto logo uma coisa. Ah, afinal não é uma carraça, é uma merdinha. Antes assim. Inspecciono as orelhas que apanho à mão, que são bastantes. Contudo, sei que o bicho não se agarra só aí, embora também. Lembro-me de um episódio do Dr. House em que a rapariga tinha uma na virilha. Já ia quase morta para a sala de cirurgia, quando ele lha tirou, no elevador, com uma pinça cirúrgica. Eu não quero nada desses filmes cá em casa, especialmente porque o Dr. House não viria tirar-me a carraça da orelha, quanto mais.
Esta noite sonhei com carraças. Nunca me chove prata de noite, mas lá carraças, c'um caraças. Tinha carraças a acarraçarem-me as paredes de casa. Eram às dezenas, e isso não foi agradável. O nosso cérebro nunca pára, e, às vezes, isso, por si só, é um entrave na nossa vida.
Caraças para a mulher e mais a PDM. Começo a suspeitar que, também ela, usa metáforas e eufemismos, e que, no momento em que me disse que tinha encontrado uma carraça agarrada ao sapato do rapaz e outra atrás do sofá, estava mas era a ver-se ao espelho. 

16/05/2016

Ela fala tanto # 9

[Ia vivendo]

Ia perdendo o autocarro.
Ia tendo que vir a pé, o elevador parecia que não queria andar [ou a desgraça de se trabalhar num segundo andar].
Ia ficando presa no elevador.
Ia-me queimando.
Agora ia caindo.
Ia tropeçando.
Ia batendo ali naquela (es)quina.
Ia-me entalando aqui.
Ia-me picando nos garfos.
Ia partindo a cabeça no armário [que ela própria deixou aberto, com uma cabeçada que ia dando].
Ia-me cortando naquele copo [partido por ela].
Ia escorregando ali [em chão que ela acabou de molhar].
Ia-me molhando toda.
Ia estragando a roupa com o detergente [os abrasivos que ela não usa].
Ia-me saltando a unha por estar sem luvas [idem].
Ia rasgando a bata toda [decida lá o que é que quer estragar primeiro!].
(And the very best)
Ia-me matando [quando acha que podia ter caído — mas não caiu].

(Pergunto-me o que dirá ao senhor com quem vive, naquelas alturas de maior intimidade.)