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06/09/2018

Outra vez os excrementos

Esta noite tive pesadelos — o que me acontece com uma frequência assustadora [buuuuu!], embora sofra da felicidade de praticamente nunca me lembrar do que sonho, daí que não viva assustada, e que o meu coração vá aguentando, melhor ou pior —, por isso posso falar sobre o que me apetecer, designadamente acerca de moncos. Ou melhor, a bela história de um monco meu.
(Sonhei que me morria a gata que é doida. A que é mais doida das duas. Morria bebé, esmagada como um pombo que vi ontem no asfalto, parecia que pertencia ao alcatrão. Depois toquei-lhe com as pontas dos dedos no coração e ela insuflou e mexeu-se. Mas eu tinha um passarinho ao colo, embrulhado num lenço de pano para não ter frio, e ele morreu asfixiado.)
(Freud talvez não soubesse, os manuais de interpretação ainda menos, mas eu sei muito bem o que quer dizer cada troço do meu pesadelo.)
Eu sou uma pessoa que nunca se assoa e raramente se constipa. Quando sim, só me constipo de uma narina, sofro de constipações unilaterais, ou assimétricas. Pode ser por isso que fabrico moncos em quantidades subaproveitadas, mais valia montar uma fábrica de isqueiros, que pedra não faltaria.
Ou então, podia montar um atelier de bijutaria alternativa. Colares com três voltas ao pescoço, e cenas.
Ontem, ao deitar, extraí um deles. Já me enroscava no sono, não me apeteceu levantar-me, pousei-o na mesa de cabeceira e a minha cabeça na almofada. (Vá que não troquei.)
Hoje de manhã, a que fala tanto pegou no pequeno rochedo, pousou-o delicadamente na palma da mão e perguntou: "O que é isto?".
E eu, qual criança mentirosa, estremunhada com a recente confusão com os meus bichos mortos, vou de responder: "É uma pedra. Tinha-a no sapato, não quis metê-la na louça do pequeno-almoço porque depois ia para os canos, e então pu-la aí, para me desfazer dela quando fosse para a rua."
Adorei a cara dela, hoje.


05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

03/07/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 16

A parva meteu-se dentro de um saco de plástico, que foi roubar ao esquecimento de alguém que usou o último rolo de papel higiénico. Parecia que estava dentro de uma bolha. Por mais que remirasse o saco, não vi por onde entrava o ar, embora ela permanecesse tranquila lá dentro. Aparentemente, a zona da abertura havia ficado toda debaixo do corpo da bicha. Depois percebi que havia um pequeno buraco na parte superior do saco, por onde ela veio a enfiar a cabeça. Pareceu-me que não conseguia sair sem ajuda, pelo que dei um puxãozinho na ponta do saco, e ela saiu como se de um parto natural se tratasse (ela, o nascituro em ritual de passagem para recém-nascido; o saco, a mãe dela; eu, a parteira. Calham-me sempre os papeis chatos, ainda bem que não fui para teatro, era capaz de ter que fazer de Quasimodo). Pôs-se, então, em posição de sentinela ao saco, seu novo território sagrado e inviolável. Mas, em vez de me agradecer esta oitava vida que lhe proporcionei, ronronando-me, roçando-se-me, ou sendo um gato normal (ignorando-me), brindou-me com uma unhada na perna, pois há-de ter pensado (?) que eu lho ia roubar. [Queres ver que para me meter lá dentro também?]

Embora ninguém me pague para isto, urge uma explicação acerca do papel higiénico acima ilustrado. Trata-se de Pampilar Compact, a última das maravilhas inventada para o efeito, pois cada rolo consegue a gigantesca proeza de durar umas valentes vinte e quatro horas numa casa de seis pessoas com intestinos e bexigas normais.


02/05/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 15

Notícias da minha gata:
Está a odiar aquilo a que a vet chama "o cone". Na verdade, trata-se de um abat-jour, que, efectivamente, lui abat son jour: a criatura anda deprimida e revoltada nas horas, com os dias. Passa grande parte do tempo a lavar aquilo, fazendo com que ele rode a toda a volta da cabeça, continuando a lamber, num processo muito semelhante ao de uma máquina de lavar roupa. Em compensação, não consegue lavar mais nenhuma parte do corpo, a não ser o fundilho da barriga, quase no entrepernasatas, que foi depilada ao estilo Hollywood. Na verdade, é bastante útil que não consiga alcançar com a língua mais nada, a não ser o interior do abat-jour, uma vez que, cada vez que lhe dou o antibiótico e ela cospe uma parte, essa cuspidela fica ali alojada, e lá se repete o esquema de "ligar a máquina", e, assim, o antibiótico fica tomado até à última gota. Teimosa sou eu, que insisto em dar-lho à boca, quando podia perfeitamente dispará-lo para a aba, e depois ela tomava-o voluntariamente, no tal esquema de fazer andar a roda com a língua.
Por outro lado, neste momento não está muito limpa — mas também não muito suja, uma vez que é um gato de casa —, sobretudo na zona do focinho, que está cheia daquele doce horrível do remédio. Os bigodes estão uma lástima de pegajosos e parece querer a todo o momento transformar-se numa rastacat, em tudo menos na atitude. Mas também não lhe vou mandar fazer o buço, já bem bastou a depilação total da barriga. O abat-jour é preso ao pescoço com uma fita de gaze, que ela ontem, de tanto rodopiá-lo, conseguiu desfazer (e tem as unhas cortadas, imagine-se se não) e, pasme-se, arrancá-lo. Vi-me então na contingência de ter que lhe pôr uma fita que encontrei na caixa da costura, very fashionerer, mas ela achou zero piada e ainda ficou mais amuada com o Mundo. Mas que parece Miss Scarlett, isso ninguém se atreva a negar.


Cada vez que vai à veterinária para mudar o penso, rosna desalmadamente, no que parece um rugido feroz. É o que me lembra que tenho em casa um parente de leão, cuja única diferença será mesmo só essa: não ruge. (E é isso que faz dela um felino felídeo.) Mas é capaz de pôr o staff todo a dar uma ajudinha para que não se dê ali uma tragédia, em que a única sobrevivente seja, precisamente, a fulana. 
À conclusão:
1. Ela já me odiava qb;
2. Sou eu que lhe dou o antibiótico;
3. Sou eu que lhe dou o anti-inflamatório;
4. Sou eu que lhe ponho o laço a segurar o chapéu;
5. Fizeram-lhe a depilação, as unhas e o buço está nojento (segundo os parâmetros dela, que por mim está óptimo), o que ela atribui a mim (sinto-o no olhar dela).
Odeia-me sem qb, e para todo o sempre.

28/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranha é a tua relação com o teu gato?

Veio para casa com cinco semanas, cresceu e passou a ter cios, como qualquer gata adulta.
Já não se aguentavam os miares, os gritos, os roçanços num candeeiro que caía constantemente (e era sempre aquele, que até tem outro igual, mas era aquele e só aquele), os encarranchamentos, e ultimamente, uma ou outra marcações de território. Além da agressividade, que talvez até fosse piorar com o passar do tempo, além dos desassossegos a aumentar de frequência: os cios, que vieram tão tarde (a dias de fazer um ano), passaram a uma cadência de semana sim, semana não.
Irremediavelmente, dona Pequena Molly foi a esterilizar. 
Foi estranho enquanto durou a ausência dela em casa: abrir a porta e não me sair a jacto o bicho, sentar-me ao computador e não a ter a morder-me a mão esquerda (a do rato), o próprio rato, a tentar apanhar o cursor com a pata, a deitar-se em cima do teclado. Foi estranho poder abrir o roupeiro, uma gaveta, a minha mala, sem que ela surgisse do ar e se enfiasse lá dentro. Foi estranho não tê-la a atormentar-me os passos, a esconder-se para me apanhar na curva, a pregar-me sustos por tudo, a não me deixar estar sem ser em permanente estado de alerta. Podia ter sido um dia de alívio, mas não foi.
Depois fui buscá-la.
Fui encontrá-la com um vestido cor-de-laranja, baralhada e furiosa, e, por baixo, uma fralda. Pedi à veterinária que lha tirasse (péssima experiência quando foi da Mel), e ela entendeu tirar-lhe também o vestido, por lhe estar largo (muito fit, a minha gata). Teve que ser amarrada com uma toalha, foi necessária a força de duas pessoas. Mesmo meio anestesiada, a minha fera não se deu por vencida. Mas os gritos, que passaram largamente a definição de rosnados, não me saem da cabeça até agora. 
Veio para casa com um funil, e agora tenho-a aqui, prostrada e infeliz. Parece um objecto. 
E estou cheia de pena dela, e desejando que volte a trepar à minha mesa e que venha embirrar comigo outra vez. Já não sei viver sem ser em permanente estado de alerta.
No fundo, desejo que a operação não lhe modifique muito o feitio. 


05/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 14

Ou tu?
Onze da noite, tocam-me à campainha e vou atender. Do outro lado da porta, visiono, através do óculo, a vizinha de cima, aflitinha. 
(Por cima mora um casal sem filhos, com idades próximas da minha. Ele é um desportista ferrenho, joga ténis e tem muita vaidade na sua aparência. [No entanto, enche-me a varanda de beatas.] Quando vem de jogar, raquete na mão e calções curtos e vincados, todo ele é salamaleques e meneios, primorosamente educado, dando passagem, partilhando o elevador, desejando boa tarde com precisão cirúrgica. Sempre que o vejo passar naquele preparo, atraso o passo e, subitamente, interesso-me pelas árvores, pelos cães, por qualquer coisa no tablier. Ela é uma figura apagada, há-de ter sido bonita, de olhos claros, magra e grisalha, descuidada e triste. Uma vez por outra, ouvem-se gritos lá em cima. Só ele grita. Também se ouvem saltos altos a bater no soalho, mas ela não usa saltos. Há qualquer coisa de Norman Bates dentro da minha cabeça — ou em cima? — que me inquieta um niquinho.)
Abro a porta e diz-me ela que tem um gatinho à porta de casa, que não sabe de quem é, que já lhe deu de comer, mas ele não se cala e andam, ela e o marido, desesperados a bater a todas as portas do prédio (que são nada menos do que trinta e sete), a ver se encontram o dono. 
Eu só olho para trás, chamo Molly!, a tonta não me aparece e lá vou escadas acima, O gato é uma gata. É branca?; Sim, branquinha; Mas tem malhas castanhas?; Sim, manchinhas. [Tudo em inhos, pequenininhos, tanto sufixinho para uma gorda daquelas que parece uma leoa atravessada de pantera branca. Vá, eu não disse isto.]
E lá vou dar com a fugitiva, que me foge casa adentro do Norman vizinho, e eu atrás dela, Bates Motel adentro. Aparentemente, ele já tem montada uma comissão de inquérito com staff e comités de investigação: está ao telemóvel, ouço-o dizer Ah, bom, parece que encontrámos o dono [mas esta gente tem algum problema com os géneros?] do gato [aloha!], vou desligar para poder falar com o dono [hey, man, subsiste alguma dúvida para além da minha saia?], já te ligo. 
Pego na fugitiva, entre o envergonhada quando ouço Ela está aqui há, pelo menos, meia-hora (e faço mentalmente as contas para hora e meia), o aliviada por ela estar bem, o ciumenta por ela estar tão bem e o frustrada porque ela é uma peste e bem podia ir viver para outro lar, que isto de ter arranhões novos todas as semanas (e já foi todos os dias) também enfraquece o sistema imunitário (e o amor). Era a brincar, esta última. Nós odiamo-nos, mas eu encho-a de beijos de cada vez que ela não está a ferrar-me o dente. 


24/01/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 13

Gravura da criação (inspiração) de uma das minhas crias,
em parceria com outra menina igualmente habilidosa (elaboração), e Gráfica

Deitada junto ao retrato das três gatas da casa, tapando com o corpo a imagem das outras duas. 

18/12/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 12

E a escassos seis dias de completar um ano de idade, eis que dona Pequena Molly tem o seu primeiro cio. [Sim, este diabo da Tasmânia é um bebé-Natal. Ou bebé-pré-Natal, já que é de 23.] Levou, por isso, o dobro do tempo das outras gatas a perceber como é que aquilo se fazia. Chegámos a pensar que nossA Molly, afinal, era um Molly, mas também não lhe encontrávamos vestígios de cio de macho (pese embora não os conheçamos), nem de mais nada que nos indicasse haver ali macheza. Depois pensámos que a pobrezinha teria vindo ao mundo sem útero, o que, passe o egoísmo, seria uma grande poupança para todos, ela incluída. Pelo contrário, há poucos dias começou a largar daqueles miados mais longos, que gritam "Gaaaaaato!", fomos-lhe dando uns toques no lombo, para a ensinar a escarranchar-se, "Estás a ver, Molly? É assim que tens que fazer", e ela, ao fim de uma semana de treinos, lá percebeu o método.

Também me questiono quão estranha é a dona de um gato, assim numa escala de zero a dez, que, cada vez que a bicha tem um ataque de miares, passa por ela e pergunta:

02/11/2016

Numa escala de zero a dez, qu\ao estranho ]e o teu gato_ / 11

Ou tu_

Foi numa bela manh\a de trabalho intenso, em que, depois de fazer uma breve pausa para respirar daquela apneia, e ao regressar [as teclas, verifiquei que meu bom teclado desobedecia aos comandos de minha dedilha;\ao, qual mula birrenta sem d]o nem piedade de meu fervor laboral. 
No Word, tudo bem, no mail e no blog tudo mal. Caracteres e s]imbolos, acentos e tra;os, tudo trocado. 
Vi?me e desejei?me ardentemente, recorri a ajuda, e ent\ao percebi )sozinha n\ao chegava l]a( que havia mudado o teclado para estrangeiro da Am]erica. Coisas que s]o o diab]olico daquele candidato poderia explicar, mas que n\ao lhe quis perguntar, n\ao fosse acusar?me de ass]edio. Havia, segundo explica;\ao encontrada, carregado em duas teclas )control?shift( ao mesmo tempo, o que me condicionava toda a pouca literacia com que fui dotada [a nascen;a. 

Dona Molly, com apenas uma patinha, fez-me uma alteração no teclado, que encontrou solução aqui

22/08/2016

A doce liberdade

De abrir a porta de casa e não sair uma gata disparada escada abaixo, escada acima.
De poder ter janelas abertas sem medo de que uma das bichas saia em voo picado.
De poder andar às arrecuas sem olhar, com a certeza de que não se vai pisar uma cauda e, como brinde, quem sabe, receber uma dentada. (Sim, também utilizo a marcha-atrás sem retrovisor.)
De deixar o fio do carregador ligado à ficha, sem ter a preocupação de que uma felina vai roer a ponta onde passa, precisamente, a corrente. (Sim, sou tão incivilizada quanto isto, e sim, pago balúrdios de luz.)
De deixar a casa às escuras quando se sai à noite, sem achar que as coitadinhas vão andar a marrar com as paredes.
De não ser relevante se faz sol ou se vai chover, porque não vai uma chanfrada desatar a subir às paredes.
De poder usar o secador do cabelo sem que surja um animal assustado com o barulho, porém doido para lutar contra o fio.
De deixar o ferro a arrefecer no chão, sem receio de que haja um focinho/bigodes queimados no minuto seguinte.
De meter a roupa na máquina e poder ir buscar uma peça esquecida, deixando a porta da máquina aberta.
De abrir armários e gavetas à vontade e mantê-los abertos pelo tempo que for preciso, sabendo que não vai aparecer do nada um bicho que se instala num canto e já não sai de lá até acabar a sesta, umas dez horas depois. 
De deixar a sanita com o tampo aberto, sem pensar que, três segundos depois, uma gata se enfia inteira lá dentro. (Sim, a minha casa possui sanita.)

O amargo que foi a primeira viagem sem a Mel, que viajava fora da gateira, à janela, a ver a paisagem, ou a dormir num colo. 
O amargo que ainda é ter toda esta doce liberdade.

29/06/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 7

Não é um gato escaldado. Mas não tem medo de água fria. 
Deita-se no bidé, tapa o ralo com o rabo e a cauda, e fica a refrescar-se, às vezes até ter um terço do corpo molhado. Depois bebe água, directamente da torneira, e sai em derrapagem e slalom (contra tudo). 

(E sim, temos bidé, aquela invenção française do plus chic que há, et honi soit qui mal y pense.)

05/06/2016

Ainda tenho arranhões

Veio outra gata cá para casa há quatro meses, mas os meus arranhões já contam seis. Neste momento, tenho um, extenso e profundo, no braço direito, e outro nas costas da mão direita. Parecem ferimentos de autodefesa, aqueles com que fica quem é atacado à faca, e pode ser que sejam. Ela não suporta ver-me fazer a cama, ou arrumar roupa. Detesta unhas encarnadas, e ataca-me as mãos e os braços. Cada arranhão que me desfere, crava-me a sangue na memória a falta da Mel, faz-me uma risca vermelha, a eito, em cujo rasgão se lê a palavra saudade. De alguma maneira, este animal adivinha-me a incapacidade para esquecer e arrumar o assunto do outro, vingando-se, com raiva e incompreensão, pelo afecto ainda incumprido, ainda inconstruído. 
Passaram seis meses, metade de um ano, e eu ainda tenho o coração todo arranhado.

28/04/2016

Treinando a gata para blogger

Este meu blog preocupa-me de veras. [E não, não é um erro ortográfico, que é lá isso? É um neologismo dos meus.]
Precisa urgentemente de fofices. Por conseguinte, cá vai uma injecção. 
Estava estacionada no teu, Isa. Pode ter sido isso que pôs a gata naqueles nervos. You rock.


06/04/2016

Encarem isto como uma fábula

Era uma vez uma pessoa.
Um dia, resolveu adoptar uma gatinha bebé, muito fofinha, tanto ao toque como ao olhar. E também cheirava bem, a sabonete, o que não é nada costume num gato. 
(O primeiro dono era bombeiro, e deve ter-lhe dado com uma ampulheta de Lux florzinhas antes de a entregar, como os ciganos engraxam as pilecas para as venderem como alazões.)
Ela miava como um bebé — um gato bebé, entenda-se —, e esse factor operou a conquista do quarto de cinco sentidos na pessoa. Portanto, ficou derrotada e feliz com a adopção.
Passados os primeiros três dias em casa, que dizem que são os que levam os gatos a adaptar-se, a gatinha fofinha içou as garras e os dentes e nunca mais parou de lhes dar uso no acto de rasgar: roupas, atoalhados, papel, caixas, e, suprema maravilha, a pele. Todas as peles da casa da pessoa, mas, muito em particular, a sua, dela, pessoa. 

Bom, deixemo-nos de rodeios, que isto de falar de mim na terceira pessoa também cansa e eu não sou o Papa: a gata é uma fera, odeia-me e ataca-me todo o dia. Todo o dia. Só não me ataca de noite, porque me enclausuro no quarto, qual freira na sua cela, em retiro espiritual (sendo que o meu é estritamente físico). Mesmo assim, pela manhã (não sinto nada a vontade de cantar), mal sente a porta abrir-se, entra em velocidade de rocket e são décimos de segundo até me aterrar na cabeça e tentar comer-me a pequena quantidade de miolos, ainda moles da sona.
Tenho chagas. Vou a qualquer local onde tenha que me despir — e a minha vida é feita desse veste e despe, pareço mesmo a parva da Barbie: drenagem linfática, cirurgião vascular, depilação, ginásio... está bom, ou querem mais? —, e toda eu sou arranhões, nas pernas, nos pés, nos braços, nas mãos. Tenho sempre que dizer, com uma cara muito compungida: Tenho uma gatinha nova... Todos os dias, ao passar minha coloniazinha pós-banho, tenho um novo ardor, faço um novo shhh, dou um novo saltinho. E depois, a tipa rasga-me os collants, já agora. Os que mais me custou ver rasgados foram uns que tinha acabado de estrear. Estavam lindos, e faziam-me linda. E ela zás, com aquelas unhas, a invejosa.
Entro em casa, tenho que me descalçar imediatamente, porque o bicho vê nos saltos altos um inimigo. Vê nas unhas encarnadas um inimigo. Vê nos cabelos ondulados um inimigo. Vê no meu telemóvel um inimigo (meu querido chico, solidarizo-me contigo).
Em resumo, agora a minha vida processa-se fechada no meu quarto. Estou numa espécie de prisão domiciliária, mas reduzida a uma única dependência. Estou em prisão celular. 

Soluções?
1. Dou-lhe com o borrifador?
2. Dou-lhe no lombo?
3. Dou-lhe liberdade incondicional?
4. Devolvo-a?
5. Trato as chagas e abstenho-me, estóica?
6. Tiro partido das feridas e passo a gostar, embebendo-as em muito álcool?
7. Vendo a minha história ao CM?
8. Vou ao Patriarcado dizer que sou santa e meter os papeis para a minha canonização?
9. Tomo calmantes?
10. Dou-lhe laxantes?
11. Dou-lhe calmantes e tomo laxantes?
12. Corto-lhe as unhas? (Já cortei. Ia ficando sem braços.)
13. Faço uma queixa na Judiciária por violência doméstica?
14. Levo-a a passear ao Jardim Zoológico?
15. Dou-lhe a conhecer o Canil Municipal?
16. Mudo de casa e não a levo?
...
17. Alguém?

20/03/2016

Ah, a doce liberdade de escrever ao domingo

É o que me apetecer. Melhor ainda, só ao sábado: poucas visitas, a pessoa estende-se ao comprido, esbornega-se em disparates, espraia-se à parva. Parece Carnaval, ninguém leva a mal.

Agora tenho uma gata com défice de atenção. Não que eu não lhe dê atenção suficiente, ou que haja alguma falha, em termos de horas, da nossa parte. A falha é dela. Tectónica.
Tem 12 semanas de vida, e ainda não conseguiu perceber que:
1. A própria cauda lhe pertence — e roda, e roda, e deita-se, e dobra-se, num afã para a apanhar, que dá gosto ver. Quando a apanha, morde-a. E continua sem perceber que aquele enguiço lhe pertence;
2. A própria sombra lhe pertence — e ataca-a, e atira-se, e salta no ar, e arqueia-se, e eriça-se, e assanha-se. A sombra mexe-se tanto como ela, que não consegue nem caçá-la, nem ser mais rápida do que ela, como o Lucky Luke. E são horas nisto, quando cai a noite na cidade, e a luz artificial banha cá o lar;
3. A própria imagem no espelho lhe pertence — e observa, mira, levanta a pata, toca com a pata no espelho, vai à volta, sai do quarto, para tentar perceber onde raios se esconde o outro gato, depois volta e irrita-se logo, porque, que diabo, está ali um gato que não sabe brincar, e, por isso, merece ser atacado. E isso corre-lhe sempre mal;
4. A Mia não é opção, lá do alto dos seus 7 anos de idade, e com um volume três vezes superior ao dela, para brincar às garraiadas académicas;
5. Eu não sou um poste de arranhação — e fico histérica, e bufo e grito e perco a noção, sobretudo quando, como hoje, com uns collants acabadinhos de estrear de novo, ela lhes enfiou as garras e ficaram com uma bonita janela aberta, de par em par, com vista sobre a cidade;
6. Os meus livros da mesa-de-cabeceira não são pranchas de surf/skimming/snowboard — vem de lá disparada, salta em cima de uma ponta do livro, derrapa até à outra ponta, fá-lo entrar em desequilíbrio, e vai tudo — o livro, toda a pilha de livros que está por baixo e ela — parar ao chão. Tem uma predilecção especial por este, que é grande.


A bicha deve ser poetisa. Ou escritora universal. Heterónima, ou assim.

11/03/2016

Gata baby suicida


Assim tenho eu uma gata em casa.
Às onze semanas de vida, ainda não sossegou. Vive connosco há seis. Quarenta e dois dias, e a farra continua.
Em vinte e quatro horas,
1. Ainda mal o dia raiara, atirou-se para dentro de uma sanita — quero dizer, atirou-se mesmo, nem sequer se apoiou no rebordo, simplesmente disparou lá para dentro —, e ficou, a quatro patas, todas abertas, assim como uma raia, se as raias tivessem patas, o bandulho mergulhado nas águas sanitárias, não fétidas porque, naquele preciso momento, estava a louça impregnada de detergente, precisamente;
2. Mais pela tardinha, e porque devia estar aborrecida da vida sem esbórnia que lhe é proporcionada, achou que fazer da sala uma arena era a melhor opção para combater o tédio. Julgo que pretendeu recriar uma cena tauromáquica, ou, de forma cristã e literalmente original, um circo romano. Talvez por semelhança cromática, ou vá-se lá perceber por que outro motivo, entendeu que a Mia fazia tranquilamente o papel de toura e ela própria — por que não? —, de forcada. E deu-se a pega de caras. Eu vi (e quase ouvi aquela melodia
) quando a pequena gata entrou porta dentro, ladeou a grande (era o quê? Uma pega de cernelha?), depois rodeou-a (era o quê? A decidir-se pelo papel do rabejador?), e, finalmente, foi-se a ela a todo o gás, frente-a-frente, consumando, desta forma, a pega de caras. Ooooooolé!


É claro que a outra lhe deu um sopapo, só com uma pata, com aquela sobranceria de que só um gato é capaz. E ela ficou deitada, de lado, o rabo num pompom, a rosnar (imagine-se um forcado, acabadinho de levar sopa de corno, encolhido nas areias da arena — pois é, palavras irmãs — assim estava ela);
3. Mais à noitinha, ouço o grito (pensava eu que) inconfundível de um gato a ser pisado. Fui ver. E não era o ovário. A tipa tinha-se enfiado numa prateleira, onde em tempos coube, e não conseguia desenfiar-se.

Também tem coisas muito ternurentas, escatologicamente falando. Não sei se por claustrofobia, ou por exibicionismo, não conseguiu adaptar-se à porta da caixa de areia, pelo que a retirámos. Assim, só não faz as suas necessidades a céu aberto porque a caixa ainda tem tampa, e nós ainda não vivemos ao ar livre. No entanto, trata-se de uma criança. E também de um gato: quando defeca, escava, escava, escava, com uma intensidade tal que, um destes dias, vai parar ao andar de baixo (e lá se me vão os chocolates e o champanhe no Ano Novo que o vizinho oferece). Escava, sobretudo, no canto errado, deixando as caganitas à superfície (fica giro, parecem os relvados de Lisboa, mas com areia. Ou a praia da Cruz Quebrada). Naquelas mesmas 24 horas, Dona Molly conseguiu o pleno, no momento em que fez saltar um cagalhoto porta fora, e depois andou a brincar com ele, qual bolinha, até ser apanhada, vá que não com a boca na botija, mas seguramente com o cocozinho a rolar sob as patitas.
Então não é uma ternura?


06/03/2016

Diário de um domingo que podia ser de sol

Aquilo do Não há sábado sem sol nem domingo sem futebol
O jogo já foi — golo comemorado com emoção estupidamente contida por me encontrar em público —, e o sol anda a jogar às escondidas. Ou à cabra cega. Ainda cai por um precipício, como se dizia quando eu era miúda (e nós acreditávamos que Lisboa tinha precipícios em cada curva).
Com quatro fêmeas de cabelo comprido e duas de pêlo que lhes cobre o corpo todo, sendo que a que vagamente aspira (mais a ser princesa do que com o aspirador propriamente dito) a faltar há uma semana, encontro nos precipícios da minha casa, digo, a cada curva, um novelinho de cabelos com pêlo de gato. Este é um fenómeno que acontece mais quando o tempo está seco e frio, e agora parece que se juntaram os oito factores: se fizer uma bola com todos os molhinhos que já apanhei do chão, consigo extrair de lá uma peruca de cabelo natural, em três tons de castanho e um vermelho, ou então o equivalente a um gato novo, mesclado de preto, branco e bege. 
A gata mais nova tem uma hora da cabra, que vai das 7 às 10 da manhã, rigorosamente. Ataca-me os braços com tal fúria, que hoje até lhe ouvi os dentes a rasgarem-me a pele. Parecia um x-acto a rasgar um naco de carneiro, para fazer umas botas carneiras. O que lhe vale a ela é que tem os olhos azuis, senão já a tinha metido à estrada e fosse lá morder a pata que a pôs. 
(E depois teria que ir atrás dos olhos azuis dela até ao inferno, é melhor estar quieta, sofrer e abster-me, sustine et abstine, lá diziam os outros.)
De qualquer maneira, ela irrita-se mais comigo nos dias em que a Mel me faz mais falta. E eu com ela.
Vou para o ginásio, onde não há gatos, e onde o mundo seria absolutamente perfeito, se não fosse a existência do senhor da mercearia, que ainda ontem esteve para levar com uma toalha não encharcada em suor na testa, tamanho foi o descaramento com que parou de fingir que treinava, para ficar numa contemplação, no mínimo confrangedora, enquanto eu dava forte e feio na abdutora. 


23/02/2016

O gato da Tasmânia

Nesta altura das nossas vidas, creio que posso concluir sem grande margem de erro, mas com algum grau de certeza, que adoptámos, não uma gatinha, mas o diabo da Tasmânia. 

A criatura dá-lhe o trotil, a filoxera e o vaipe, corre, salta, trepa, cai, bate com a cabeça, persegue a própria cauda afanosamente, esconde-se de tocaia e dispara a jacto, como um míssil, para (nos) atacar, arranha, esgatanha, morde, atira-se, já de boca aberta, aos móveis, às roupas, às nossas pernas, às mãos, a tudo. Numa simples regra de três simples, está para o tamanho da Mia assim como um gato adulto está para um puma, mas, mesmo assim, teve o atrevimento de bufar à outra e de lhe levantar a pata no ar — o que lhe valeu uma sapatada da Mia, e dez segundos de papo para o ar, após voo picado, que foi um regalo para a vista, mas que não lhe serviu de emenda: o objectivo da figurinha é brincar, alcançar, morder, ou sei lá o quê fazer com a cauda da Mia. 
Isto é muito trágico. 
Eu tenho inúmeros arranhões, desde o peito dos pés até às mãos, passando pelas pernas, que ela entende serem postes de arranhação. Ontem estava a passar o meu creminho pernas abaixo e acima, quando reparei que estava a passar creme encarnado, como que encarnado pelo diabo (que chalaça tão boa, quem sabe não estou já afectada dos nervos?). Só depois é que percebi que estava a espalhar uma amálgama de creme mais sangue, que brotava alegremente de mais um arranhão dos dela. Mais tarde, percebi que tinha os collants colados (pleonasmo bilingue, hoje estou imparável) à perna, mas essa cola mais não era do que sangue do meu sangue. Quando os despi, à noite, parecia uma mártir da pátria, toda eu era chagas encarnadas que escorriam para os pés, como os rios correm para o mar.
Entretanto, cortei-lhe as unhas. O rapaz segurou-a, enquanto eu procedi à manicure (ou paticure, pois). Ele ficou com uma rede de arranhões nas duas mãos. 
Isto, só para terem uma ideia do que temos passado.
Não sei o que fazer.
Devolvo-a ao senhor que me chamava Maria Laranja?
Levo-a ao zoo e dou-a a conhecer aos primos?
Peço um sossega-leão à vet?
Compro mais Bepanthene?
Ofereço-lhe um mapa mundi, agrafo-lho ao lombo, e abro-lhe a porta de casa? (Nem preciso de lhe meter um foguete, que ela já o traz incorporado.)
Meto-a numa zona onde há muitos gatos de rua, a liderar aquilo tudo, porque ali está uma líder?
Compro material de dominação de leões e inauguro um número de circo com ela, quanto mais não seja para tirar algum provento disto tudo?
Arranjo-lhe um psicanalista/encantador de gatos/hipnotizador, e faço dela bibelot de psiché? (Ai, que giro, psicanalista-psiché. Eu hoje rebentei a escala, a tola e a bolha.)

O problema é que depois olho para ela, vejo o que ela realmente é — um gatinho bebé, de olhos azuis e ar manso —, e decido, pela enésima vez, adoptá-la.
Parva.





17/02/2016

Dia das minhas gatas

Hoje estava a observar o comportamento hiperactivo da Molly, a tentar lembrar-me se a Mel ou a Mia eram assim, a ver se percebia se aquilo se deve apenas ao facto de ser um bebé, ou se tenho em casa uma pequena terrorista, que a tudo trepa, em todos os cantos se mete, em tudo morde, de tudo se pendura para saltar (e depois fica presa por uma unha negra, metaforicamente falando, ou seja, por uma garra branca). Dizia, então, que noto a tristeza numa das minhas bonecas — para quem a Mel era tudo, a quem a Mel considerava tudo —, pelo facto de a Molly não se assemelhar em nada à Mel — o que, para mim, é um enorme alívio: não as queria parecidas, nem mesmo fisicamente. Procurei uma gata que não fosse preta (mau feitio), preta e branca (já tenho uma), castanha e preta (não sei explicar), branca (muitas vezes, são surdos, e, com uma gata agressiva em casa, não me pareceu boa ideia meter cá uma gata surda) ou amarela (iria sempre ver a Mel). 
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Lembro-me das discussões, no quarto da maternidade, acerca das semelhanças do bebé com os parentes, É a cara do pai, Parece-se com a mãe, Acho que dá ares à tia, Lembra muito o seu pai — e de a minha titi ter ouvido aquilo tudo, calada, e ter dado a sua opinião, que foi de todas a mais sensata, quem sabe se não por ser ela o elemento mais idoso do grupo: Não se parece com ninguém, parece-se com ela mesma.
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A Molly é a Molly, não é mais nenhum gato. E eu quero-a assim. Independentemente de poder vir a deixar de ter olhos azuis, de acalmar este ânimo infantil (ou não), de ser mais uma territorial como é a Mia, não a quero diferente. Por mais saudades que tenha da Mel, por mais falta que ela me faça, quero que a Molly não se pareça com nenhuma outra gata — mas que se pareça com ela mesma.