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13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


28/08/2018

As voltinhas do Marão

Se nunca fizesteis a estrada entre Gestaçô e Mafômedes [sim, temos nomenclatura que nem Mr. Google, essa fera da estratosfera do pináculo do conhecimento conhece], não sabeis o que é A adrenalina. Quais Space Mountain Mission 2, quais bungee jumping, quais comboio fantasma da Feira Popular de mil novecentos e poucos. 
São só vinte e dois quilómetros. É só contornar a serra. 
É só penhasco de um lado e abismo do outro.
(Hipótese A: riscas o carro; Hipótese B: cais do barranco, tu e a viatura.)
Parece a ilha da Madeira, naquele belo e sinuoso percurso entre o Funchal e Câmara de Lobos, só que o dobro da extensão. 

Tipo isto. 
Diz que a imagem pode estar sujeita a direitos de autor
(Eu digo que o autor se despencou)

Mas de noite. Cerrada. E com subidas, sei lá, também não fui buscar o transferidor, mas para aí de uns 35 graus. Se passamos de uma altura de 443 metros para uma de 817, fazei vós as contas, que eu ainda estou muito nervosa.
E às curvas e contracurvas, algumas de 360º, a subir (uuhuuh, tão bom para quem enjoa), mesmo a dar a ideia de que estamos a voltar para trás, o que tomara, a partir de certa altura do percurso. Não há iguaria que justifique correr semelhante risco de vida. [Pronto, enfim, se a Mealhada fosse ali, fechava os olhos ao perigo — desde que não fosse ao volante — e lá ia na mesma.]
E depois, zero iluminação. O bote em primeira velocidade e ligados os máximos, o máximo!
O ser humano ia de passageiro. À ida, tinha o precipício à direita e a parede de rocha à esquerda. Morri de pânico, é certo. Não me lembro do que jantei lá na tasca. Acho que nem comi, diante da perspectiva do regresso. Sei que bebi um tinto do Douro, e isso pode ter contribuído para que, à vinda, tenha basicamente pensado "que se lixe o carro" perante o rochedo, e "heh, isto voa", considerada a possibilidade da queda na ravina.
Não caí, mas também não me apanham lá outra vez. [A menos, obviamente, que Pedro vá ali montar mais um Leitões.] Sequer gozei da vista que dizem maravilhosa sobre o Marão, derivados ao breu, mas, agora que penso nisso, ainda bem, pelo que me é dado observar nas imagens de Mr.: depois daquilo, e ver-me toda rodeada por rocha, não, muito obrigadinha, que para Heidi já basta a outra.


11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


04/05/2018

Murphy, deves-me mais uma!

Saio de Cascais e verifico que o conta do gasóleo de Rosinha me dá para 46 quilómetros. Sei que estou a 30 do meu destino, que é a distância entre uma boa parte do meu coração e a minha vida. Faço aquela viagem uma vez por semana — e não mais por impossibilidade absoluta —, assumo que 46 me dá para estacionar nas calmas e ainda ir à bomba mais próxima, assim haja vagar e tempo. É essa corrida contra ele, ou a minha inultrapassável preguiça que me levam a meter-me a caminho, matemática certa, imprevistos não ponderados. 
O conta vai baixando e ainda não cheguei à A 5, mas está tudo controlado, penso eu, logo insisto. Tomo a autoestrada feita de prata pelo sol do meio-dia, que me aquece Rosinha, e a mim por inteiro. Tenho o ar condicionado desligado e começo a sentir que não vai ser possível chegar a Lisboa com a temperatura a subir àquele ritmo. Penso,
Mais vale ficar sem gasóleo à chegada do que morrer de calor,
ligo o ar, que me bafeja um hálito quente demoníaco para a cara, mas não ponho a hipótese de parar em Oeiras, porque 
o gasóleo vai dar
E também,
Quanto mais depressa chegar, mais cedo acaba esta agonia,
e toca de acelerar Rosinha. Faixa da esquerda, pisca-pisca-pisca, numa ultrapassagem infindável. Mas o conta baixa a níveis que me fazem suspeitar da possibilidade de o combustível não esticar até à minha porta. Passo para a faixa do meio, para poupar nas rotações. O conta estabiliza, já passei Oeiras, tenho para 14 quilómetros e o optimismo regressa. Mantenho-me atrás de uma fileira de carros que persistem nos 80 km/h, e penso,
Mais vale ficar sem gasóleo do que morrer de tédio,
e sigo, de novo pela esquerda.
Estou a passar a última bomba, a mil e duzentos metros de casa, quando recebo um telefonema de trabalho. Isso distrai-me do conta, que já tinha baixado dos 10, largos metros antes. Quando acaba o telefonema, estou a quatrocentos metros de casa e tenho gasóleo para 3 quilómetros. Chego à minha rua com 2. Não encontro lugar para estacionar, dou uma volta ao quarteirão e, quando paro, tenho gasóleo para 1 quilómetro.
É o momento em que se me acabam as forças e entro em desespero, pois sei que não chego a bomba nenhuma com três gotas de combustível. Concluo que não sei viver no limite.
[Felizmente, tive filhos. E uma delas, valente, pegou em Rosinha e levou-a à bomba. Contou-me depois que nem teve que desligar o carro: assim que parou para abastecer, ele simplesmente "morreu".]

08/03/2018

Ser mulher

também é isto: a pessoa é fiel detentora de uma viatura automóvel, que responde pelo nome de Rosinha, minha canoa, que, por sua vez, possui uma coisa debaixo do banco do passageiro da frente, à qual não consegue atribuir um nome. Trata-se de uma espécie de caixa de metal, não sendo, no entanto, uma caixa, uma vez que não tem tampa. Porém, tem uma abertura, numa das faces, por onde tudo entra e fica. E, quando digo, tudo, quero significar, exactamente, tudo. Qualquer miudeza que caia da mão direita do condutor, ou de qualquer mão do passageiro-pendura, enfia-se pela lateral dos bancos, e eclipsa-se para lá. A dita abertura da dita coisa é bastante pequena, pelo que não permite a entrada de uma mão, e, quanto a dedos, estamos conversados, pois só entram ali dois ou três, impossibilitando-os de alcançarem o fundilho, transformando qualquer busca numa sessão de contorcionismo inútil. Já para lá refundi acessórios do cabelo, a chave de abertura do telemóvel, as costas do telemóvel — que recuperei com um palito de sushi, um torcicolo, três cãibras e um esgotamento nervoso —, dinheiro (sim, comprovei-o hoje, mas não sei afiançar a quantia certa), e só o Criador saberá o que mais. 
Então, aqui há dias, enfarpelada com um sobretudo alapado ao torso e todo abotoado à frente, e, num largo gesto, não de abnegação, como é meu apanágio, mas sim de impaciência — porque outra das características peculiares de Rosinha é a de que o cinto do passageiro fica a bater tac-tac-tac quando ele sai de Rosinha —, na tentativa, em pleno andamento, de esticar o referido cinto, hei-de tê-lo feito com tal convicção que, assim me estiquei para a direita em diagonal, assim me saiu a jacto um dos botões do casaco, mas isto com uma violência tal, que dei graças ao cosmos de não me ter acertado numa das vistas. Ao invés, disparou lá para o canto, entre a porta e o banco, e nunca mais o vi. 
Estou, aliás, convicta de que, debaixo daquele banco, está Nárnia. É toda uma outra dimensão, um verdadeiro universo paralelo. As coisas, simplesmente, incorporam de alguma forma alternativa, saem do radar, desintegram-se. 
Mayday.
Estou farta de procurar a m. do botão, e ele não aparece. Já fiz pesquisas dentro e fora do carro, já usei a lanterna, já tirei fotografias ao interior (tenebrosas, irreais e indecifráveis), já subornei o rapaz para que tentasse por sua conta, já só me faltou enfiar-me, eu própria, lá dentro e transformar-me numa ameba proteus. Ainda agora, fiz a enésima tentativa e, após um momento Carochinha, em que encontrei vinte cêntimos (será o botão, transmutado?) e mais três arranhões nos dedos, o coiso não apareceu. Deve estar, feito parvo, a rir-se de mim, lá com o mundo de cenas, de entre objectos e, quem sabe, animais, que já foram ali parar antes dele. 
E não, não adianta equacionar a solução do botão sobresselente, que esse deve existir, mas eu também o extraviei algures, para uma qualquer caixa lá do lar, onde repousam todos os botões extra que a roupa nos fornece, e deve estar cheia deles, pertencentes a peças que eu já nem sei quando e por que é que comprei. Ou então, juntou-se ao outro, e vivem agora, felizes para sempre, em Nárnia, metamorfoseados em unicórnios. 
Chiça.

19/02/2018

Se o meu carro falasse

A mim calhou-me na rifa — ou veio acoplada, mas que é intrínseca, disso não hajam dúvidas —, aquando da adopção plena de Rosinha, minha canoa, uma senhora que vinha dentro da caixinha do GPS, com a qual tenho uma relação de (podemos afirmá-lo) amor-ódio. Se, por um lado, fico nervosa quando ela abre o bico para chamar "Á-quinta" à A5, "Dois circular" à Segunda Circular, se conjuga o verbo percorrer desta forma: "percórra quinhentos metros" [vá lá que não tem que dizer a mesma frase em gramas], se me manda virar em sítios onde está alegremente plantado um sinal de proibido [deve ser parente de algum examinador da condução, ela], e se me ralha quando eu não obedeço, "recalcular a rota" [um miminho, não usar o gerúndio "recalculando", ou o presente do indicativo, mas na primeira pessoa, "recalculo"], por outro, estou a gostar muito dela, a usá-la sempre que preciso (que é quase sempre, dado conhecido que é, por empirismo, o meu inexistente sentido de orientação, mesmo até dentro do meu próprio bairro, e não vão sem resposta se achais que é exagero, pois só ao cabo de mais de uma década de viver na minha rua, que não terá mais de cinquenta metros de lonjura, achava eu dantes, é que descobri que há por ali mais um bocado, com outros cem metros, que também é da minha rua, muito me admira é que nunca me tenha perdido nela, em sentido estrito e não figurado). 
Em suma, gostava muito que a senhora do GPS, para além de se calar quando eu estou parada num semáforo vermelho (às vezes, tem mesmo que ser), também tivesse uma função, que era dizer-me "já está verde", naquele cagagésimo de segundo que dista entre abrir o semáforo e o fdp que está atrás apitar o cláxon lá dele. Isso é que era. 

02/02/2018

A meta dos 20.000

Rosinha fez ontem um ano de matriculado, embora só tenha chegado às minhas (delicadíssimas!) mãos no dia 8. Ao contrário do que era previsto e seria expectável (diz a ciência automobilística que uma viatura a diesel — adoro esta expressão. A diesel, cá beijinho — só é rentável desde que faça vinte mil quilómetros por ano), não atingiu a meta dos 20.000. Se os primeiros 10.000 foi fácil atingir (em menos de cinco meses), estes outros estão à distância de 1700, que, se quiser ver minha canoa a render, terei que fazer no espaço de seis dias. 
Já dei muitas voltas a um quarteirão hoje, em busca de um lugar para o estacionar. Passo-me. E passo fases:
1. A crédula: Vou procurar ali mesmo à porta, às vezes tenho uma sortezinha. É que não. Caso contrário, em vez de estar aqui a teclar tristemente, estaria a meter os paios no Pacífico, ou noutro charco qualquer;
2. A incrédula: Olha, aqui à porta não há. Nem na rua toda, até onde as vistas alcançam. Pois. E estão todos com ar de abandonados, irão criar daninhas junto aos pneus, pó de terra que tornará os vidros opacos e, nos pára-brisas já sem borrachas, vários anúncios deslavados de 'Compro o seu carro';
3. A destemida: Vou procurar ali na paralela;
4. A temida: Olha, também não há. Vou, talvez, para todas as perpendiculares, apesar de já estar a duzentos metros do meu destino e a desvairada do GPS não se calar que vai recalcular a p. da rota;
5. A zangada: Fo**-se, que nem um para amostra
6. A delirante: Olha ali! Ah, uma garagem... | Ali! Um lugar para deficientes... | Espera, ali está um! Oh, mas não consigo encolher o carro (chamo o mecânico, e peço-lhe que traga a motosserra?) | Calma. Isto vai. Está ali um... oh, não, é só meio lugar, o outro meio é passadeira. | Porra para estes gajos que não sabem estacionar com o pensamento posto no próximo!;
7. A desesperada: Vou atirar com isto para cima de um passeio e que se fornique. A multa é quanto, mesmo? Um par de botas? Dois biquínis? Isso em tofu e seitan equivale a quantas refeições? E em bagas de goji? [Eu sou uma genuína blogger, cá agora assumir que me pelo por um leitãozinho da Mealhada.]
8. A racional: Vou-me botar prantada ali à esquina, e espero que saia um carro do lugar que me pertence já por direito
9. A descarada: Espera aí... se aquele carro, cujo condutor até se encontra lá dentro, avançar dez centímetros, talvez o meu caiba atrás, junto àquele bocado de passeio sobrelotado de prevaricadores. Senhor! Ó senhor! Importa-se de chegar um niquinho à frente? Arre égua, que o meu fica com a rabeta toda de fora, mesmo com os, vá, oito centímetros que o indisposto avançou. Muito obrigada, afinal não dá, o carro é muito grande ou o lugar é muito pequeno, passe bem [PQP];
10. A sobredotada: Já não saio da esquina, mazé. Nunca fujas ao teu destino. Fico no cruzamento de duas, e espero que apareça alguém de chave na mão. Foram o quê? Dois minutos. 
Isto tudo para dizer que, apesar de todos estes pesares, ainda não atingi os 20.000. Tenho seis dias para lá chegar, já disse? Estou capaz de ir à Mealhada. Precisam de alguma boleia?


02/12/2017

- Olá, Cesário Azul!

- Olá, troca-tintas!

Fui ao ginásio, e depois à bomba, e consegui demorar por lá quase tanto tempo como aquele que durou uma aula flash, que uma pessoa entra, sofre duramente durante minutos e, quando acha que já não aguenta mais, aquilo acaba. 
- Bomba 6, x de gasóleo evologic. 
- Gasolina?
- Não, gasóleo.
Paguei e apostei comigo mesma que a mangueira do gasóleo não ia dar pinga.
Ganhei a aposta e voltei atrás. Não devo ter demorado um minuto entre ter saído do posto de abastecimento e ter ali regressado. 
- Eu disse-lhe gasóleo.
- Gasolina?
Mau. Rosinha tem aquele ar chique, é alimentado a filet mignon, mas parece que não pode ser a gasóleo. 
- Gasóleo.
Felizmente, esta pessoa não é gasolineira. Ter-me-ia enchido o depósito de gasolina. Iria igualmente passar um bocado de seu sábado laboral a aspirá-lo logo de seguida, ou quando Rosinha tivesse um stroke, metros adiante. 
Suponho que é a mesma que escreve os avisos daquele posto.


12/11/2017

Quem é que guarda o guarda?

Hoje ia lá nos meus pensamentos, conduzindo Rosinha por esta cidade azul afora, quando, à entrada de uma rotunda, após abertura do sinal verde, ouço uma sirene, paro, e me passa a mota de um senhor PSP do Trânsito, feito parvo a sorrir-se para mim, tipo a achar-se, por me ter feito parar quando eu ia na minha mão, tipo a gozar o prato de ter, basicamente, usado da sinalização de emergência por não estar para ficar parado no semáforo vermelho, como lhe competia, a alargar ainda mais o cu gordo.
Fiquei revoltada. 
Sei perfeitamente que não se deve tomar o todo pela parte, e que o todo é igual à soma das partes, e que, as duas máximas juntas não formam um axioma em si mesmo considerado, tendo em conta que uma é que é, ela sim, um axioma, sendo que a outra é apenas uma regra de convívio social, ou coisa assim. [Não sei por que é que escrevi este parágrafo.]
Mas acontece que ainda há menos de quarenta e oito horas, noite escura das seis da tarde, indo eu, indo eu, a caminho de sei lá eu, sabendo que havia de virar à esquerda ali pela Defensores de Chaves em direcção à República, mas errando cabal ou tangencialmente na transversal para o fazer, eis que me apercebo de estar a praticar a contramão, no momento em que visiono os faróis brancos de uma comunidade automóvel apontados na minha direcção, e, simultaneamente, um sinal de proibido, também a apontar para mim. Nesse mesmo segundo, surgiu-me do céu, caído aos trambolhões, o quê? Nada menos do que um polícia! Hã? Sou ou não sou a maior vacuda do pedaço? Mijinha fora do penico, zás, Senhor Lei logo ali a dar por ela (por mim, no fundo). Conformada com a possibilidade de levar uma multa das boas para casa, deitei-lhe para cima aquele sorriso com mil significados — de entre os quais já-fiz-merda-e-sei-o —, e não é que o agente autoritário se transformou subitamente em polícia sinaleiro [oh, pá, tenho tantas saudades...], se prostrou no centro do cruzamento, mandou parar o trânsito de um lado, depois do outro, só para a menina fazer a manobra e voltar para a sua mão? 
Portanto, cada um faz o que quer. Com prejuízo ou benefício da pessoa humana. 


10/11/2017

Eu tenho problemas com tudo # 29

Sei que entrei naquele parque de estacionamento ainda não eram 4:30 da tarde. 
Tirei o bilhete à entrada, não só porque não havia Via Verde, como também porque, ali, as duas primeiras horas são grátis, e estacionei Rosinha. Fui à minha vida e voltei. Entre tirar o bilhete e voltar ao carro não passaram mais do que quinze minutos. 
O bilhete não estava na mala, naquela bolsa específica onde sempre os ponho, já por causa das coisas. Não estava na outra bolsa. Não estava na do fecho. Não estava entalado no porta-moedas. Não estava misturado com os mil papeis e o lixo todo do interior da mala. Não estava no tablier. Não estava no chão do carro. Não estava no tecto do carro. Não estava neste Mundo. Como um anjo alado, fora-se. Sumira-se no ar.
No ar, também o meu suor. Passei, então, ao Plano B: despejar a mala. Porque tinha que ser na mala que o tinha posto. Vi bloco a bloco, agenda a agenda, papel com anos a papel com anos, e nada. Parei para respirar, saí do carro, tentei raciocinar as possibilidades várias para explicar aquele sumiço. E também as que se me apresentavam, caso não encontrasse o bendito: qual é a tarifa máxima diária — que é o "preço" do bilhete perdido, conforme sabeis —, tendo em conta duas horas grátis? Quis multiplicar zero por zero, para não piorar a minha situação, mas piorei. Sabia perfeitamente que: 
A. Encontrava o cartão;
B. Não encontrava o cartão:
    i) Pagava a tarifa máxima diária;
    ii) Fazia uso de eyelash power e o responsável lá se compadecia e abria a cancelinha;
  iii) O responsável era uma mulher, pagava a tarifa máxima e ainda era enclausurada numa catacumba qualquer, despojada de todos os meus bens e raciocínio lógico.
Meti-me corredores afora, a pé, até à entrada do parque, pensando na possibilidade de o ter deixado cair quando o retirei da coluna. Mas também não estava lá. 
De volta ao carro, despejei a mala pela terceira vez, procurei de novo, liguei a lanterna de Ai-fostes, procurei em todos os recantos possíveis e imaginários — esses mesmos, que proporcionam posições à pessoa de uma elegância digna de registo fotográfico —, mas o c. do bilhete não apareceu. 
Toda eu era suor, desânimo, raiva e vontade de chorar de abandono e frustração e tudo o que assiste a uma mulher nestas horas. (Ninguém nos dá o nosso devido valor.)
Desisti. Há sempre um momento, em todas as lutas, em que o guerreiro, por mais bravo que seja, baixa os braços. Se não há, devia haver. Eu baixei os meus ao fim de quinze minutos de enfardar pancada.
Arrastava-me, pesarosa, para o gabinete do segurança, quando vi um bilhete no chão, a uns cinco metros do meu carro. Hora de entrada, 16:24.
Se não era o meu, passou a ser. Naquele momento, perdera todo o civismo, e tinha como único objectivo de vida sair daquele parque. Se fosse outro o dono daquele bilhete, paciência, pusesse-se ele de rabo para o ar dentro do carro dele, e tratasse de encontrar outro bilhete, de outro avoado da vida. 
Depois até segui as setas que indicavam a saída, mas, quando alcancei a rampa para subir para o exterior, elas estavam desenhadas em contramão. Posso ter saído pela entrada, sim. Mas saí. 


07/07/2017

Eu tenho problemas com tudo # 26

Foi só a segunda vez, em toda a minha já não tarda extensa vida de condutora, que fui vítima de uma operação STOP, levada a cabo por um senhor agente autoritário.
(Também já nos aconteceu, embora não comigo ao volante, sermos mandados parar, para verificarem se não se tratava de transporte ilegal de jovens, porque estávamos na Zambujeira do Mar na altura do festival, mas lá explicámos que eram todos nossos e eles acreditaram.) (Ah, porque eram.) (E são.) (Meus amores.)
Manda parar o carro da frente, e eu mesmo a ver que me safava, que o senhor legal optava pelo um-sim-um-não, ou o um-dó-li-tá, e então eu era o "não" ou o "livre-está", mas é que não: manda-me parar a mim também. Assomou-se ao vidro de Rosinha e mandou o outro seguir. Pronto, já sabia. É tudo uma questão de Murphy. 
(Ainda hoje não percebo como é que o Bryan Adams não me chamou a mim ao palco do Rock in Rio — e já ando a remoer isto desde 2012 — para cantar com ele qualquer uma, até podia ser aquela do cavalo, e preferiu antes uma Vanessa, que se via a léguas que tinha umas olheiras de guaxinim, coisa que eu, pelo menos nessa noite, que me lembre, não tinha.)
Acerca-se-me de Rosinha e, antes mesmo de me solicitar os documentos e o seguro, bate-me continência. Isso, aquele gesto que os militares praticam, elevando o braço e dando com os quatro dedos oponíveis na testa (deles), batendo também com um pé no outro que, por sua vez, fica quieto no chão. É toda uma coreografia que deve requerer muito treino para que não aconteça, pelo menos, no momento em que se tem um Cornetto na mão que faz de pala. Por acaso, ponderei bater-lhe (continência) também, mas a verdade é que estava sentada, os dois pezinhos ainda nos pedais, e podia não sair um gesto perceptível como, lá está, uma continência. Assim, contive-me. 
Só isto, por ora.


12/06/2017

A minha pegada ecológica de hoje

Abri a porta de Rosinha, minha canoa, e entrou comigo lá dentro uma mosca. Conduzi-nos às três até Cascais, com o ar condicionado no máximo, drivados da canícula. Deixei Rosinha ao sol durante uma hora e meia e depois voltei, um pouco temerária daqueles estofos de poli-pele (ou peli-pole, ou poli-poli, ou peli-pele, já não me lembro bem dos termos utilizados no stander aquando da aquisição, mas lembro-me que me soou extremamente bem em Fevereiro). Aquilo é coisa para fritar numa polme as pernas quando nos sentamos nos assentos, caso não estejamos a usar calças. Lá dentro haviam de estar uns quarenta e cinco graus à sombra e a mosca saiu a jacto. Nem tive tempo de me despedir da minha companheira de viagem (Zica). Espero que se dê bem com as moscas de Cascais. Teria sido pior se tivesse entrado num avião e fosse parar a um país estrangeiro. Conformei-me com a ideia de que quem não quis regressar a Lisboa foi ela. 

(Por aqui se afere como vai a minha vida, cheia de interesse blogosférico.)
(Por aqui se afere como vai a minha vida blogosférica, cheia de interesse.)
(No entanto, consegui dizer que minha Rosinha tem ar condicionado, estofos naquilo da poli e até faz viagens na A5.)


27/03/2017

O primeiro beijo de Rosinha, minha canoa

Ia eu nervosa e não segura, titubeante e periclitante, pois que me dirigia a um local onde já fui infeliz.
Sabem aquela que diz a milenar sabedoria chinesa, "Nunca voltes a um local onde foste muito feliz"? É em parecido, mas ao contrário.
Também já lá passei horas boas, boas horas. Mas aquele parque de estacionamento tira-me do sério e não me põe no risonho, simplesmente evoca-me uma vez que ali recebi uma má notícia, sentei a criança no carro, coloquei-me diante do volante e desfiz-me a mim mesma num choro irreprimível e irrepreensível. Isto de ser mulher é uma tragédia em infinitos actos, que só quem passa por elas é que coiso.
Assim, abordei o mesmo parque, tantos anos volvidos, apesar de tantas vezes que ali estive entre uma e esta outra, mas algo pode ter-me toldado a vista, o livre pensamento e as sinapses. Avistei um lugar disponível, apontei a frente de Rosinha — eu, que estaciono sempre de rabeta, à velho, como me ensinaram na escola — e trás, deu-se o ósculo bem dado, beijo mal furtado, frutificado com uma amolgadela na frente esquerda de minha canoa, riscos suaves no desgraçado que ali estava ao lado. 
Chorei. Uma mulher não é de ferro, nem seus nervos, menos ainda de aço, ainda que inoxidável. Pode chorar, que não enferruja. A mulher pode. 
(Estou fadada para os prantos naquele sítio.)
Contactada a dona da vítima daquele suave toque com tão trágicas consequências, assinada a declaração amigável (ficámos legalmente amigas), dizia ela, feliz proprietária de um carro riscado, é certo, mas também de um mega-telemóvel, ensombrando chico-smart que se me falece todos os dias um pouco nas mãos, à custa das sevícias a que o sujeito, que Cá dentro tenho "o talho"; Eu estou sempre no talho; Tenho câmaras no talho, e vejo tudo o que lá se passa por aqui. (E apontava para a máquina poderosa, que me encolhia a mim e a chico, não bastando a nossa minha humilhação pelo estrago operado nas viaturas, ainda de maquilhagem denunciadora do desgosto.) O pináculo atingiu-se no momento em que me perguntou se podia tirar uma fotografia à declaração assinada, e me vi no achincalho de ter que dizer assim: Eu tiro, mas não vai perceber-se nada, esta câmara está aos tremeliques, o telemóvel anda a querer avariar, e vai ela e responde o seguinte: Deixe estar, que eu digitalizo com o telemóvel. Pois, não percebi por que é que queria que eu fotografasse uma cena que ela podia digitalizar. (E, se calhar, amandar para o talho, também.)
Estou capaz de me fazer vegetariana, vegan, herbívora, ruminante, fundamentalista da erva.
Uma pessoa farta-se de ser assim.

23/03/2017

Eu interajo com os peões

Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. Está também a alcançar a dita uma adolescente cabisbaixa, atitude corporal safoda-caguei, headphones na tola, claramente sem pretender ligar ao sinal vermelho diante de si. Naquela de sou-o-peão-que-se-impõe-e-se-agiganta-tu-paras-para-eu-passar-eu-sou-forte-e-eterna, bem se vê que não viu imagens de Tiananmen. Nem apito, nem nada, impeço-a só de avançar no momento exacto, faço-lhe um gesto "Acorda", e a bruta faz-me um pirete, atravessando mesmo no vermelho, depois de Rosinha passar. 
(Eu não abri o vidro; eu não apitei; eu não devolvi a fineza.)

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Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões daquelas em que o verde é simultâneo para o trânsito e para as pessoas, com aviso luminoso amarelo de passagem de peões. Estou, obviamente, parada, pois encontra-se um grupo de três ou quatro pessoas no passeio com manifesta intenção de atravessar. Passa um rapazola, diz para a petiza que o acompanha "Está verde", diz-me "Está verde...", com um encolher de ombros irónico, eu sorrio e respondo, com um encolher de ombros conformado, "Pois, já vi". E ele devolve-me o sorriso. 
(Simples, assim.)

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Estamos a alcançar, meu Rosinha e eu, uma passadeira de peões que se encontra com o sinal vermelho para eles, verde para nós dois. No passeio, com intenção de atravessar, um casalinho de crianças enamoradas entre si. Ela põe os dois pezinhos na estrada, ele chama-lhe a atenção, eu abrando e digo "Oi?". Ela sorri, envergonhada pela leve irreverência, e recua. 
(Se eu podia tê-los deixado passar? Podia, mas a minha função neste Mundo é a de educar as gentes. E as mães dos dois haviam de me agradecer ter-lhes dado o pequeno ensinamento que é: respeita os outros, se quiseres ser respeitado.)


20/02/2017

Eu meti a sexta

Foi há uma semana, mas conta na mesma. Era domingo e foi no eixo norte-sul. Talvez fossem umas 11, grosso modo, isto mais minuto, menos minuto. Rosinha pediu, Rosinha teve.
Nunca tinha metido a sexta velocidade. (Na verdade, nunca tinha conduzido um carro com sexta.)
Já está. 

(Nota mental: passar de sexta para quinta é como passar de quarta para terceira; e de segunda para primeira.)


09/02/2017

Rosinha (?) e eu

Ainda estamos a fazer-nos um ao outro, my new baby and I. Tenho que lhe arranjar alcunha a preceito e a contento. E contente. 
Meu barco.
(Ocorreu-me agora, não quer dizer que fique.)
Meu iate.
Rosinha, minha canoa.
Bluecar.
Bom, não interessa. Hoje não estou boa para baptizados.
Já passeámos tanto por esta cidade, Rosinha e eu.
É todo um mundo novo a abrir-se de par em par, como as portas.
Mas não é a isso que venho. Não é a dar conta do cheiro maravilhoso, no painel maravilhoso, do som maravilhoso do motor (também maravilhoso), e do quão xtpendaça (para não dizer maravilhosa) me sinto lá dentro. (I'm too sexy for my car, baby!) De manhã, nem sabia o que vestir, tamanha era a carga de nervos, só de me imaginar a sair lá de dentro mal enjorcada, pois bem já basta o que basta (o despenteio; a facilidade com que me engano no percurso a pé e tenho que arrepiar; o destrambelho; o mundo da lua em toda mim). Ao fim de experimentar três saias (vá que não umas em cima das outras) (vá que não foram sete), saí. Por acaso, esta que tenho vestida é a quarta do dia. Não sei se ainda visto mais alguma até me deitar.
Também não venho contar que o painel dizia 6,9, depois 6,8, depois 6,7 e a pessoa achou que era a autonomia do combustível. Assim achou, assim agiu, e colocou-se na bomba, mesmo sem saber onde é que fica o botão do depósito. (A autoconfiança é uma coisa muito linda.) Sai então da viatura, explora na porta, explora junto ao chão (do carro, tá?), explora sem resultados, pensa em abrir o manual de instruções (tudo menos perguntar a algum transeunte, uma mulher tem a sua dignidade), até que uma vozinha angelical lhe diz Olha ali, e, de facto, era ali: logo abaixo do volante, do lado esquerdo, capaz de a pessoa ter que se acocorar dentro do carro ou alçar o codril já cá fora dele para chegar a tão recôndito lugar.
Nem venho confessar que me assalta à mão armada a dúvida metódica: ponho Diesel normal ou Diesel 10? Espera, o bebé é bebé, precisa de filet mignon. Ai, mas se o estrago? 
(Eu sofro de um grave problema quando se me apresentam as hipóteses A e B. Marro para o meio.)
E que liguei ao comproprietário, a sentir-me superiormente iluminada quando fiz a pergunta:
- Ponho Diesel 10, não é? — Senti-me também um pouco taxista a dizer Diesel. (Carro a diesel é tão fogareiro.)
Eu tenho um carro a diesel. Chiu.
(A mulher pode.)
E também não venho cá dizer que li mal, que os 6,7 não eram indicação de autonomia do combustível, e sim do consumo naquele momento.
(Ainda tenho tanto que estudar.)
(Devia adoptar aquela velha máxima dos informáticos, RFM — mas sou um nico preguiçosa.)
Eu bem tentei, mas ainda não foi desta que consegui meter ali gasóleo.
Diesel.