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03/10/2018

Carta à minha gata

Querida gata:

Escrevo-te esta carta sabendo que nunca a lerás, pela circunstância de seres analfabeta e, previsivelmente, assim permaneceres até todo o teu sempre. Mas preciso de dizer-te algumas coisas e dá-se, do meu lado, a contingência de não saber falar a tua língua, embora já vá entendendo a tua linguagem. Por esses dois motivos, espero que percebas, pelo menos, uma pequena parte do tanto que tenho para te dizer.
Não começo como deveria, perguntando-te como estás, por ser esta uma pergunta retórica, e por, cobardemente, não querer ouvir uma resposta vinda de ti. Eu bem sei como estás, se calhar melhor do que ninguém. Não é fácil envelhecer, nem tanto por vermos o nosso corpo a mudar - o que a ti, como gata, nada deve importar -, mas por nos sentirmos, a pouco e pouco - e uns dias mais do que outros -, a perder a vontade, o viço, o brilho, e, com ele, o brio.
Bem queria dizer-te, 'Nós por cá, todos bem', mas não consigo. Falo por mim, que não estou nada bem, desde que foste operada. Vejo-te mais magrinha, mais quieta, mais triste todos os dias. Não percebo como é que envelheceste tanto em  tão pouco tempo. Eras tão pequenina quando nos chegaste, e agora continuas pequenina, mas de outra maneira. Sabes, já assisti a esse "processo" em pessoas, mais recentemente na pessoa que me deu a vida e a luz, e continuo sem perceber como é que os dias passam mais cruelmente para uns do que para outros. Sei que sou tola e ridícula se te disser que já vi esse mesmo olhar perdido e desistido, mas vi, e reconheço-o a uma grande distância, precisamente por não me estar assim tão longínquo.
Como sabes, as idas ao veterinário têm sido repartidas pela família toda, já que somos tantos, e, assim, vamos aos dois e dois. De alguma maneira, não somos muito diferentes daquele casal cigano que, outro dia, na loja dos animais, se queixava que a sua tartaruga tinha uma coisa branca nos olhos e, diante da solução, que passava por lhe colocar um colírio todos os dias, a mulher gritou, "Aaaaaai, a tartaruga está cegaaaaaa!". Nós somos assim, vamos contigo e parecemos ciganos aflitos com a sua tartaruga. Ou pais recém brindados, ansiosos no pediatra.
Tirámos-te o vestidinho que te impedia de ser gato hoje de manhã, e receio - para além de todos os meus outros receios -, que tenha posto demasiadas esperanças nessa mudança. A outra tola, jovem e anafada, mal sentiu o cheiro dele (que é o teu), pôs-se a bufar. Haja paciência para quem já criou quatro pessoas, ainda ter que equilibrar forças, territórios e ciúmes entre gatos. Mas, para além de te ter visto ires comer as minhas flores - três vasos raquíticos no parapeito da janela da cozinha, que as flores não se dão comigo - e teres saltado para a janela do quarto das meninas - onde ficas a mirar os carros, as pessoas, os pássaros, não sei se por esta ordem -, não te vi fazer mais nada que me diga que estás a recuperar e que me sossegue o coração.
Quero que melhores, e rápido. Já te dei demasiados dias para começares a arrebitar. Isto não é só um desejo, não é mais uma ordem daquelas minhas ("Ai, ai, ai, não me comas as flores!"), é um imperativo categórico. Melhora primeiro, e eu depois explico-te o significado disto. Logo a seguir, podes voltar a ser brava e soberana, indiferente e não-me-chateiem. Eu deixo. E quero.
Recebe um abraço não muito apertado, para não magoar esses ossinhos todos. (Agora até parece que são mais do que eram antes.) E um beijo nessa barriguinha rapada.
Da tua, permite-me, mas algo de muito parecido com
(Segunda) "Mãe".


25/09/2018

Notícias da minha gata

Depois de ter sido operada na passada quinta-feira, a minha Mia voltou para casa com um vestido cor-de-laranja e um cone abat-jour chapéu sem copa, transparente. A vet achou por bem vestir-lhe o tamanho 1, já que Dona Mia é uma gata light e slim, e qualquer outro ficaria grande aos seus abundantes (em ossos e pêlo) 2,880 Kg. 
(Sim, é extremamente magra; e sim, foi esterilizada; e sim, é ansiosa e vomita com alguma frequência; e não, não tem mais nada, a não ser agora caroços nas maminhas que ainda não tirou, e já basta de sustos e medos.)
Deu-se que na primeira noite pós-operatória, a safadinha conseguiu tirar o vestidinho e arrancar o chapéu, tendo ficado com os pensos à mostra e à mão, meio caminho andado para arrancar tudo até à costura, e, quem sabe, a própria também. Repusemos-lhe tudo como antes, ela não voltou a tentar tirar, mas foi ficando cada vez mais inactiva, mais quieta, mais triste. Esteve exactamente quarenta e oito horas sem comer, sem beber (e Lisboa abafava), sem ir à areia. Até que, no sábado passado, de volta à vet, tirou os pensos, mudou de vestido (para o tamanho 0, que a vet costuma vestir a coelhos) para um cor-de-rosa com debrum cinzentinho (também havia azul, mas achei que a minha menina ficava muito mais fashionerer em rosinha), tirou o chapéu e, autorizada a comer guloseimas (Agora vale tudo, disse a vet, embora não tenha permitido chocolate, à minha pergunta. Então, não é tudo), comeu comida mole das latas, bebeu água e já foi à casa-de-banho dela. E a toma do antibiótico passou a ser uma guerra de nervos e garras entre humanos e felina. 
Tudo muito melhor, em suma. Mas quero, em muito breve, voltar a vê-la como ela é e sempre foi: tímida,  nervosa, soberana, sobranceira. Uma rainha com medo do trono. 


21/09/2018

Mihinha

A Mia, minha gata mais velha, foi operada ontem. No sábado demos com um caroço numa maminha, no domingo fez análises e ficou marcada a cirurgia para quatro dias depois. Tirou as maminhas todas de um lado, daqui a quatro ou cinco meses, já com dez anos, tira as do outro. 
A minha Mia nunca teve bom feitio, nunca foi o gato dócil que era a Mel, uma vez mordeu-me a ponto de me deixar uma cicatriz na perna, sempre odiou estranhos, nunca se enroscou nas visitas. Mas também não pediu para ir para a nossa casa, chegou-nos com três semanas, foi alimentada a biberon, tudo por um imperdoável capricho meu. E pode ter sido isso que fez dela desconfiada, insegura, ansiosa. 
(Adoro-a.)
E quebra-se-me o coração vê-la assim, ainda mais sabendo que vai acontecer de novo daqui a meses. 
Não sei como se mede o tamanho do amor que se tem a um animal, mas não deve haver uma régua, sequer uma balança fiel.




06/09/2018

Outra vez os excrementos

Esta noite tive pesadelos — o que me acontece com uma frequência assustadora [buuuuu!], embora sofra da felicidade de praticamente nunca me lembrar do que sonho, daí que não viva assustada, e que o meu coração vá aguentando, melhor ou pior —, por isso posso falar sobre o que me apetecer, designadamente acerca de moncos. Ou melhor, a bela história de um monco meu.
(Sonhei que me morria a gata que é doida. A que é mais doida das duas. Morria bebé, esmagada como um pombo que vi ontem no asfalto, parecia que pertencia ao alcatrão. Depois toquei-lhe com as pontas dos dedos no coração e ela insuflou e mexeu-se. Mas eu tinha um passarinho ao colo, embrulhado num lenço de pano para não ter frio, e ele morreu asfixiado.)
(Freud talvez não soubesse, os manuais de interpretação ainda menos, mas eu sei muito bem o que quer dizer cada troço do meu pesadelo.)
Eu sou uma pessoa que nunca se assoa e raramente se constipa. Quando sim, só me constipo de uma narina, sofro de constipações unilaterais, ou assimétricas. Pode ser por isso que fabrico moncos em quantidades subaproveitadas, mais valia montar uma fábrica de isqueiros, que pedra não faltaria.
Ou então, podia montar um atelier de bijutaria alternativa. Colares com três voltas ao pescoço, e cenas.
Ontem, ao deitar, extraí um deles. Já me enroscava no sono, não me apeteceu levantar-me, pousei-o na mesa de cabeceira e a minha cabeça na almofada. (Vá que não troquei.)
Hoje de manhã, a que fala tanto pegou no pequeno rochedo, pousou-o delicadamente na palma da mão e perguntou: "O que é isto?".
E eu, qual criança mentirosa, estremunhada com a recente confusão com os meus bichos mortos, vou de responder: "É uma pedra. Tinha-a no sapato, não quis metê-la na louça do pequeno-almoço porque depois ia para os canos, e então pu-la aí, para me desfazer dela quando fosse para a rua."
Adorei a cara dela, hoje.


05/06/2018

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 17

A nossa casa entrou em obras e, para tanto, tivemos que mudar para outra enquanto durar a intervenção, para além de ter sido necessário despejá-la completamente de móveis e tarecos e lixo. Não faço uma descrição do que foram os meus últimos dez, quinze, vinte dias, porque vos escrevo através de Ai-fostes (até o computa mudou de lar) e postar uma posta é muito mais lento e custoso e, lá está, NMPPI. No entanto, tudo isto me faz sentir a genuína blogger, a obrar a casa (e não na casa, calma, embora também, a seu tempo, pois que a pessoa é humana, ou animal, ou lá o que é). Só não estou a ver bem o que será o regresso, a remudança, o reinstalar. Mas quem viver, verá.
Vai daí, dali e daqui, transportámos as duas gatas connosco, apesar de ter chegado a desejar que os homens da mudança as encaixotassem também ou os da obra as aguentassem lá com eles, mas ambas as soluções me pareceram inviáveis, uma vez que, sendo ambas ferozes e territoriais, iriam destruir tudo à sua volta, em qualquer das hipóteses.
O grande problema é que elas se odeiam, ou, pelo menos, parece. Quando a Molly foi adoptada, tinha cinco semanas e a Mia já tinha sete anos e era, digamos, animosa e pouco receptiva à novidade de um gatinho hiperactivo. Assim, viveram separadas todo este tempo, porque a minha casa tem uma porta que divide o espaço em dois, metade da casa para cada uma e fez-se a coisa irmãmente, num feliz e mais ou menos pacato muro de Berlim. 
Sucede porém que a casa de recurso não tem essa valência, pelo que se deu a queda do muro em menos de nada: as gatas estão juntas, partilhando o mesmo espaço, e, ou porque lhes é estranho a ambas, ou porque efectivamente não se odeiam, ainda não brigaram uma única vez. A mais nova, agora com dois anos, bufa para a mais velha, de nove, cada vez que se encaram frente a frente. Isto, apesar da soberana indiferença da Mia, que só falta fazer rolling eyes. Mas dormem tranquilas no mesmo sofá, comem da mesma malga, aliviam-se na mesma areia. No fundo, cada macaco no seu galho, ou cada uma conhece bem o seu lugar.
Quando voltarmos os oito para casa, a porta de intersecção (separação) estará definitivamente escancarada. 

02/04/2018

Isto, por acaso, vem um nico a propósito da quaresma

Aquilo era um dia de sol, dos raros que têm sido nos últimos tempos.
À porta do prédio, agarrada ao vidro, vi uma borboleta pequena e pouco bonita. A pobre, como todas, não tinha capacidade para entender a barreira não natural e transparente — para ela, invisível, até — que a separava do sol. Com um papel que encontrei na mala, procurei arrastá-la até à porta aberta. Pousou na minha manga e, assim, levei-a até ao exterior. Partiu, voando, sem adeus nem obrigada. Também eu não lhe disse adeus, só com o olhar, o que não conta, e fiquei a tautear 'How to save a life'. Não tem nada a ver, didn't go wrong, didn't lose a friend, mas lembro-me sempre.
~
O homem tinha dito que, quando a gata emprenhasse, a doutora ia mandar tirar
Naquele dia, agarrei-a mais uma vez, como minha que não é, mas assim a sinto, quanto mais não seja só por um bocadinho. Chega-me essa migalha, e sabe-me por um pão inteiro. 
Disse a senhora que ela já está à espera
A doutora vai deixar ter?, era eu, sem acreditar que o homem confirmasse.
Ai, não vai, não, vai mandar tirar.
Ai, não vai, não, isso pensas tu. 
Telefonema para a doutora,
Desculpe, sinto-me uma pet lover ridícula, mas alguém é capaz de fazer semelhante crueldade àquela gatinha?
Pois que não, que fique descansada, é claro que não, ai, não vai, não, não vai mandar tirar.
How to save some lives.
~
Devia deixar de comer carne. Isto é uma hipocrisia como outra qualquer.
Mas e o que eu adoro a chuleta do boi, a perna do borrego, o leitão assado, as plumas do porco preto, o frangote no churrasco? Oh pá, preciso de ajuda! Algum Carnívoros Anónimos?



23/03/2018

os caminhos do afecto

Já era a ela que ia visitar, perdidas que ficaram na estrada todas as esperanças de um regresso. Tornou-se um facto consumado, o de me ter tornado irreconhecível, embora não me reconheça qualquer mudança. Pelo menos, nenhuma que me pudesse ter valido a indiferença e o distanciamento, vindos de quem tão próxima que mais não poderíamos ser. 
Mas votava-me ela também àquele desapego de que só um gato é capaz, e não foi uma nem duas vezes, devido a isso, que fiquei lá sem chão, no mármore de Estremoz bonito e frio que é aquele. Bem a chamei, muito a espiei, tantas vezes a agarrei e encostei a mim, com cuidado para não a apertar, evitando que me escapasse, procurando assim tê-la mais uns segundos, aproveitando a temperatura e a maciez, abusando-lhe da mansidão, até que se fartasse de mim outra vez. 
Tinha, assim, um motivo para continuar a ir, fazendo da estrada o caminho para o afago, o apego, o afecto. Foi isso que me fez entrar e ir directamente da porta à procura dela. Fui encontrá-la no cesto, adormecida, ausente, alheada. 
Antes que o chão me fugisse outra vez, recebi os braços que há muitos séculos me embalaram, beijos que acreditei que me foram dados a mim, e a voz sussurrada que tantos fados me cantou, "Querida, querida". 
À saída levava comigo uma alegria trespassada por só saber porquê, mas não por quê, ali voltarei sempre.


14/08/2017

The girl next door # 11

Isto também podia chamar-se And that awkward moment, mas foi tão micro que nem merece o título. Ou então, Eu tenho problemas com doidos, por tudo. Ou, em alternativa, As lágrimas amargas de Petra Von Kant, sei lá porquê.

Tenho-lhes aturado tudo, só porque moramos sob o mesmo tecto. Mais valia morarmos sobre.
No meu andar, porém atrás de outra porta, moram mãe (viúva) e duas filhas adultas. Sempre todas vestidas de negro, não falam, não respondem, sequer dialogam umas com as outras na rua, marcham, lentas e pastelonas, em fila indiana, não acendem as luzes do prédio, movem-se pela sombra, que não fazem, pois serão, elas próprias, sombras de si mesmas. Mas eu não desisto de entabular.
Coincidimos no hall dos elevadores, ela tinha a porta aberta e assomava-se de lá um gato. E disse eu assim:
- Ohhh, que bonita. É uma gata?
- Não, é um menino.


Ora, vamos lá a ver: não foi isso que eu perguntei. Não é que eu tenha alguma coisa contra chamar menino ou menina aos animais. Mas, quando perguntei se era uma gata, queria saber se era uma fêmea de gato. Mal comparando, esta numenclatura está para mim como a esposa está para a mulher. Quando ouço alguém falar-me da sua esposa [alerta parolo], também não lhe respondo a sua mulher, sob pena de ofender superiormente os pergaminhos do esposo. No fundo, albardo o burro à vontade do dono. Se eu perguntei É uma gata?, e ela me respondeu Não, é um menino, com a mesma legitimidade e razão de lógica poderia ter respondido Não, é uma vaca. Ou então, Não, é um boi.
Compreendem?
Eu também não. Principalmente porque depois faço associações mais ou menos (in)felizes.

José Eduardo Agualusa
[Eu sei que já postei esta história. Tende lá paciência, que eu também tenho que ter.]

03/07/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 16

A parva meteu-se dentro de um saco de plástico, que foi roubar ao esquecimento de alguém que usou o último rolo de papel higiénico. Parecia que estava dentro de uma bolha. Por mais que remirasse o saco, não vi por onde entrava o ar, embora ela permanecesse tranquila lá dentro. Aparentemente, a zona da abertura havia ficado toda debaixo do corpo da bicha. Depois percebi que havia um pequeno buraco na parte superior do saco, por onde ela veio a enfiar a cabeça. Pareceu-me que não conseguia sair sem ajuda, pelo que dei um puxãozinho na ponta do saco, e ela saiu como se de um parto natural se tratasse (ela, o nascituro em ritual de passagem para recém-nascido; o saco, a mãe dela; eu, a parteira. Calham-me sempre os papeis chatos, ainda bem que não fui para teatro, era capaz de ter que fazer de Quasimodo). Pôs-se, então, em posição de sentinela ao saco, seu novo território sagrado e inviolável. Mas, em vez de me agradecer esta oitava vida que lhe proporcionei, ronronando-me, roçando-se-me, ou sendo um gato normal (ignorando-me), brindou-me com uma unhada na perna, pois há-de ter pensado (?) que eu lho ia roubar. [Queres ver que para me meter lá dentro também?]

Embora ninguém me pague para isto, urge uma explicação acerca do papel higiénico acima ilustrado. Trata-se de Pampilar Compact, a última das maravilhas inventada para o efeito, pois cada rolo consegue a gigantesca proeza de durar umas valentes vinte e quatro horas numa casa de seis pessoas com intestinos e bexigas normais.


01/06/2017

Viciada em bebés # 3

Eram um macho e uma fêmea, tidos como irmãos de adopção por terem nascido em datas próximas. Eu, que sou toda Eça, antevi-lhes uma relação feliz e eterna, e em nada fraterna, mas isso sou eu, que ainda acredito. Ele corria, desenfreado, pela sala, escondendo-se nos cantos, de toda a gente — nomeadamente de mim, que o perseguia para o agarrar e mimar —, de si mesmo, da sua sombra e da própria cauda, numa atitude tão típica dos gatinhos. Ela, bastante mais pequena, apesar de ter nascido apenas três dias depois, dormia, desenfreada também, enrolada numa rodela, numa atitude tão típica dos gatos. Mesmo assim, quieta, a contrastar obviamente com o irmão/futuro namorado, era uma lufadinha de ar fresco em todo o enorme espaço, tão pequenina. Exigiu-me o meu egoísmo que a pegasse com as mãos, nos braços, para sentir o corpinho junto da minha cara, nem que, para isso, tivesse que a acordar. Raptei-a um pouco do ninho que formara entre as ancas de uma senhora e de outra, aconchegada de almofadas, calor e afecto, e senti-lhe o tamanho, o peso sem peso, um montinho de pequenos ossos, pêlo, garras e bandulho de bebé. Inspirei-a e devolvi-a ao sono e ao berço, consolada.



02/05/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 15

Notícias da minha gata:
Está a odiar aquilo a que a vet chama "o cone". Na verdade, trata-se de um abat-jour, que, efectivamente, lui abat son jour: a criatura anda deprimida e revoltada nas horas, com os dias. Passa grande parte do tempo a lavar aquilo, fazendo com que ele rode a toda a volta da cabeça, continuando a lamber, num processo muito semelhante ao de uma máquina de lavar roupa. Em compensação, não consegue lavar mais nenhuma parte do corpo, a não ser o fundilho da barriga, quase no entrepernasatas, que foi depilada ao estilo Hollywood. Na verdade, é bastante útil que não consiga alcançar com a língua mais nada, a não ser o interior do abat-jour, uma vez que, cada vez que lhe dou o antibiótico e ela cospe uma parte, essa cuspidela fica ali alojada, e lá se repete o esquema de "ligar a máquina", e, assim, o antibiótico fica tomado até à última gota. Teimosa sou eu, que insisto em dar-lho à boca, quando podia perfeitamente dispará-lo para a aba, e depois ela tomava-o voluntariamente, no tal esquema de fazer andar a roda com a língua.
Por outro lado, neste momento não está muito limpa — mas também não muito suja, uma vez que é um gato de casa —, sobretudo na zona do focinho, que está cheia daquele doce horrível do remédio. Os bigodes estão uma lástima de pegajosos e parece querer a todo o momento transformar-se numa rastacat, em tudo menos na atitude. Mas também não lhe vou mandar fazer o buço, já bem bastou a depilação total da barriga. O abat-jour é preso ao pescoço com uma fita de gaze, que ela ontem, de tanto rodopiá-lo, conseguiu desfazer (e tem as unhas cortadas, imagine-se se não) e, pasme-se, arrancá-lo. Vi-me então na contingência de ter que lhe pôr uma fita que encontrei na caixa da costura, very fashionerer, mas ela achou zero piada e ainda ficou mais amuada com o Mundo. Mas que parece Miss Scarlett, isso ninguém se atreva a negar.


Cada vez que vai à veterinária para mudar o penso, rosna desalmadamente, no que parece um rugido feroz. É o que me lembra que tenho em casa um parente de leão, cuja única diferença será mesmo só essa: não ruge. (E é isso que faz dela um felino felídeo.) Mas é capaz de pôr o staff todo a dar uma ajudinha para que não se dê ali uma tragédia, em que a única sobrevivente seja, precisamente, a fulana. 
À conclusão:
1. Ela já me odiava qb;
2. Sou eu que lhe dou o antibiótico;
3. Sou eu que lhe dou o anti-inflamatório;
4. Sou eu que lhe ponho o laço a segurar o chapéu;
5. Fizeram-lhe a depilação, as unhas e o buço está nojento (segundo os parâmetros dela, que por mim está óptimo), o que ela atribui a mim (sinto-o no olhar dela).
Odeia-me sem qb, e para todo o sempre.

28/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranha é a tua relação com o teu gato?

Veio para casa com cinco semanas, cresceu e passou a ter cios, como qualquer gata adulta.
Já não se aguentavam os miares, os gritos, os roçanços num candeeiro que caía constantemente (e era sempre aquele, que até tem outro igual, mas era aquele e só aquele), os encarranchamentos, e ultimamente, uma ou outra marcações de território. Além da agressividade, que talvez até fosse piorar com o passar do tempo, além dos desassossegos a aumentar de frequência: os cios, que vieram tão tarde (a dias de fazer um ano), passaram a uma cadência de semana sim, semana não.
Irremediavelmente, dona Pequena Molly foi a esterilizar. 
Foi estranho enquanto durou a ausência dela em casa: abrir a porta e não me sair a jacto o bicho, sentar-me ao computador e não a ter a morder-me a mão esquerda (a do rato), o próprio rato, a tentar apanhar o cursor com a pata, a deitar-se em cima do teclado. Foi estranho poder abrir o roupeiro, uma gaveta, a minha mala, sem que ela surgisse do ar e se enfiasse lá dentro. Foi estranho não tê-la a atormentar-me os passos, a esconder-se para me apanhar na curva, a pregar-me sustos por tudo, a não me deixar estar sem ser em permanente estado de alerta. Podia ter sido um dia de alívio, mas não foi.
Depois fui buscá-la.
Fui encontrá-la com um vestido cor-de-laranja, baralhada e furiosa, e, por baixo, uma fralda. Pedi à veterinária que lha tirasse (péssima experiência quando foi da Mel), e ela entendeu tirar-lhe também o vestido, por lhe estar largo (muito fit, a minha gata). Teve que ser amarrada com uma toalha, foi necessária a força de duas pessoas. Mesmo meio anestesiada, a minha fera não se deu por vencida. Mas os gritos, que passaram largamente a definição de rosnados, não me saem da cabeça até agora. 
Veio para casa com um funil, e agora tenho-a aqui, prostrada e infeliz. Parece um objecto. 
E estou cheia de pena dela, e desejando que volte a trepar à minha mesa e que venha embirrar comigo outra vez. Já não sei viver sem ser em permanente estado de alerta.
No fundo, desejo que a operação não lhe modifique muito o feitio. 


05/04/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 14

Ou tu?
Onze da noite, tocam-me à campainha e vou atender. Do outro lado da porta, visiono, através do óculo, a vizinha de cima, aflitinha. 
(Por cima mora um casal sem filhos, com idades próximas da minha. Ele é um desportista ferrenho, joga ténis e tem muita vaidade na sua aparência. [No entanto, enche-me a varanda de beatas.] Quando vem de jogar, raquete na mão e calções curtos e vincados, todo ele é salamaleques e meneios, primorosamente educado, dando passagem, partilhando o elevador, desejando boa tarde com precisão cirúrgica. Sempre que o vejo passar naquele preparo, atraso o passo e, subitamente, interesso-me pelas árvores, pelos cães, por qualquer coisa no tablier. Ela é uma figura apagada, há-de ter sido bonita, de olhos claros, magra e grisalha, descuidada e triste. Uma vez por outra, ouvem-se gritos lá em cima. Só ele grita. Também se ouvem saltos altos a bater no soalho, mas ela não usa saltos. Há qualquer coisa de Norman Bates dentro da minha cabeça — ou em cima? — que me inquieta um niquinho.)
Abro a porta e diz-me ela que tem um gatinho à porta de casa, que não sabe de quem é, que já lhe deu de comer, mas ele não se cala e andam, ela e o marido, desesperados a bater a todas as portas do prédio (que são nada menos do que trinta e sete), a ver se encontram o dono. 
Eu só olho para trás, chamo Molly!, a tonta não me aparece e lá vou escadas acima, O gato é uma gata. É branca?; Sim, branquinha; Mas tem malhas castanhas?; Sim, manchinhas. [Tudo em inhos, pequenininhos, tanto sufixinho para uma gorda daquelas que parece uma leoa atravessada de pantera branca. Vá, eu não disse isto.]
E lá vou dar com a fugitiva, que me foge casa adentro do Norman vizinho, e eu atrás dela, Bates Motel adentro. Aparentemente, ele já tem montada uma comissão de inquérito com staff e comités de investigação: está ao telemóvel, ouço-o dizer Ah, bom, parece que encontrámos o dono [mas esta gente tem algum problema com os géneros?] do gato [aloha!], vou desligar para poder falar com o dono [hey, man, subsiste alguma dúvida para além da minha saia?], já te ligo. 
Pego na fugitiva, entre o envergonhada quando ouço Ela está aqui há, pelo menos, meia-hora (e faço mentalmente as contas para hora e meia), o aliviada por ela estar bem, o ciumenta por ela estar tão bem e o frustrada porque ela é uma peste e bem podia ir viver para outro lar, que isto de ter arranhões novos todas as semanas (e já foi todos os dias) também enfraquece o sistema imunitário (e o amor). Era a brincar, esta última. Nós odiamo-nos, mas eu encho-a de beijos de cada vez que ela não está a ferrar-me o dente. 


05/03/2017

Se não tivesse gatos, tinha cães

E tinha uma casa grande, na pradaria, para os ter.

 

(Parecendo que não) a propósito do oitavo aniversário da minha Mia. Está uma senhora. Oito anos.


24/01/2017

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 13

Gravura da criação (inspiração) de uma das minhas crias,
em parceria com outra menina igualmente habilidosa (elaboração), e Gráfica

Deitada junto ao retrato das três gatas da casa, tapando com o corpo a imagem das outras duas. 

05/01/2017

Coisas tão óbvias...


A ver se consigo situar-me.
Recebi este sms na passada segunda-feira, dia 2 de Janeiro.
(Já não tinha percebido o teor do de 7 de Junho, mas admiti-o como genérico.)
A Mel nasceu no dia 29 de Abril de 2011.
Morreu no dia 5 de Dezembro de 2015.
Nunca foi ao veterinário no Vasco da Gama, a não ser naquele dia, sábado, em que apareceu morta, pelas 8:30 da manhã. Quando saímos de casa ainda não eram 9 horas, e o veterinário dela só abria às 10. Procurámos por um que estivesse aberto àquela hora de um sábado e que pudesse recebê-la. É aqui que aparece o Vasco da Gama. Foi onde fomos confirmar o óbito (dúvidas houvesse...) e depositá-la para necrópsia. (Outra gata em casa, umas flores de proveniência desconhecida, a idade dela, demasiado jovem, vários foram os motivos para querermos o exame.) Não esteve lá mais do que dois dias, pois foi recolhida pela Faculdade de Veterinária na segunda-feira seguinte.
Obviamente, tratou-se de um engano. Apareceu no computador um(a) Mel, que também pode ser um cão ou um papagaio, e vai de mandar para o telemóvel que estava mais próximo.
Obviamente, há pessoas pouco cuidadosas.
Obviamente, é parvo mandar um sms de parabéns a um gato/cão/papagaio/ouriço-cacheiro.
Obviamente, é parvo saber estas datas todas tão bem.
Obviamente, é parvo escrever este post.
Obviamente, isto foi tudo uma tristeza.



18/12/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 12

E a escassos seis dias de completar um ano de idade, eis que dona Pequena Molly tem o seu primeiro cio. [Sim, este diabo da Tasmânia é um bebé-Natal. Ou bebé-pré-Natal, já que é de 23.] Levou, por isso, o dobro do tempo das outras gatas a perceber como é que aquilo se fazia. Chegámos a pensar que nossA Molly, afinal, era um Molly, mas também não lhe encontrávamos vestígios de cio de macho (pese embora não os conheçamos), nem de mais nada que nos indicasse haver ali macheza. Depois pensámos que a pobrezinha teria vindo ao mundo sem útero, o que, passe o egoísmo, seria uma grande poupança para todos, ela incluída. Pelo contrário, há poucos dias começou a largar daqueles miados mais longos, que gritam "Gaaaaaato!", fomos-lhe dando uns toques no lombo, para a ensinar a escarranchar-se, "Estás a ver, Molly? É assim que tens que fazer", e ela, ao fim de uma semana de treinos, lá percebeu o método.

Também me questiono quão estranha é a dona de um gato, assim numa escala de zero a dez, que, cada vez que a bicha tem um ataque de miares, passa por ela e pergunta:

30/11/2016

Pela primeira vez em toda a minha existência de já largas décadas e horizontes (agora expandidos!), posso afirmar que li um livro todinho em inglês

Nem uma palavra de português!
Oh, quanta gnose para a qual me encaminho, a largas e firmes passadas, como quem alcança o abismo bom (!?)...

Temo-me. Temo tanta erudição.

CATS vs HUMAN
ANOTHER DOSE OF CATNIP
YASMINE SUROVEC
Chiu.

02/11/2016

Numa escala de zero a dez, qu\ao estranho ]e o teu gato_ / 11

Ou tu_

Foi numa bela manh\a de trabalho intenso, em que, depois de fazer uma breve pausa para respirar daquela apneia, e ao regressar [as teclas, verifiquei que meu bom teclado desobedecia aos comandos de minha dedilha;\ao, qual mula birrenta sem d]o nem piedade de meu fervor laboral. 
No Word, tudo bem, no mail e no blog tudo mal. Caracteres e s]imbolos, acentos e tra;os, tudo trocado. 
Vi?me e desejei?me ardentemente, recorri a ajuda, e ent\ao percebi )sozinha n\ao chegava l]a( que havia mudado o teclado para estrangeiro da Am]erica. Coisas que s]o o diab]olico daquele candidato poderia explicar, mas que n\ao lhe quis perguntar, n\ao fosse acusar?me de ass]edio. Havia, segundo explica;\ao encontrada, carregado em duas teclas )control?shift( ao mesmo tempo, o que me condicionava toda a pouca literacia com que fui dotada [a nascen;a. 

Dona Molly, com apenas uma patinha, fez-me uma alteração no teclado, que encontrou solução aqui

20/09/2016

Numa escala de zero a dez, quão estranho é o teu gato? # 10

Ou tu?

A minha casa, como qualquer lar civilizado que se preze, tem bichos de prata, ou peixinhos-de-prata. Desde que temos gatas que eles diminuíram em quantidade, quer porque não são parvos e vão chatear para outras bandas, quer porque elas os comem. Nunca provei, mas imagino que sabem a peixe, a avaliar pelo nome e pela gula com que elas os tragam. A regra é aparecerem mais nas casas-de-banho e cozinha, provavelmente por preferirem azulejos, ou então zonas com humidade.
Vi passar um bicho de prata e Dona Molly andava por ali. 
Ah, esqueci-me de frisar que não mato bichos. Nem mesmo estes. Passo-lhes um papel por baixo do corpo e atiro-os pela janela. (São invertebrados, calma.) (Moro num segundo andar, mais calma.) (Tenho o cuidado de os atirar para um vaso, ou simplesmente deixo-os na varanda, mais calma ainda.) Quando não estou para ter esses trabalhos, assusto-os e obrigo-os a esconderem-se.
Não sei o que é que me ocorreu desta vez. Acho que quis testar os olhos (dos quais desconfio de uma séria miopia) da gata, e também a sua esperteza (da qual desconfio de uma séria miopia). Chamei, "Molly, olha o bicho!", e a fulana nem ó burro queres água. Insisti, "Molly, um bicho!", e pu-la diante dele. Ela viu-o, deu-lhe com a pata, ele iniciou a fuga, ela deu-lhe duas, ele deu-lhe gás, ela deu-lhe três, ele ó patas para que te quero, ela deu-lhe a quarta, de misericórdia, já eu pulsava de culpas, remorsos e arrependimento, que são todos praticamente sinónimos, e se resumem naquela dor espinhosa que nos atravessa a cabeça e o imaterial que é a alma. 
Ela comeu-o, não sei se semi-vivo, se é que isso existe, sobretudo depois de tão refinada sessão de tortura.

Nunca mais duvido das capacidades [de me fazer repensar as minhas prioridades] daquela gata.