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06/09/2018

Outra vez os excrementos

Esta noite tive pesadelos — o que me acontece com uma frequência assustadora [buuuuu!], embora sofra da felicidade de praticamente nunca me lembrar do que sonho, daí que não viva assustada, e que o meu coração vá aguentando, melhor ou pior —, por isso posso falar sobre o que me apetecer, designadamente acerca de moncos. Ou melhor, a bela história de um monco meu.
(Sonhei que me morria a gata que é doida. A que é mais doida das duas. Morria bebé, esmagada como um pombo que vi ontem no asfalto, parecia que pertencia ao alcatrão. Depois toquei-lhe com as pontas dos dedos no coração e ela insuflou e mexeu-se. Mas eu tinha um passarinho ao colo, embrulhado num lenço de pano para não ter frio, e ele morreu asfixiado.)
(Freud talvez não soubesse, os manuais de interpretação ainda menos, mas eu sei muito bem o que quer dizer cada troço do meu pesadelo.)
Eu sou uma pessoa que nunca se assoa e raramente se constipa. Quando sim, só me constipo de uma narina, sofro de constipações unilaterais, ou assimétricas. Pode ser por isso que fabrico moncos em quantidades subaproveitadas, mais valia montar uma fábrica de isqueiros, que pedra não faltaria.
Ou então, podia montar um atelier de bijutaria alternativa. Colares com três voltas ao pescoço, e cenas.
Ontem, ao deitar, extraí um deles. Já me enroscava no sono, não me apeteceu levantar-me, pousei-o na mesa de cabeceira e a minha cabeça na almofada. (Vá que não troquei.)
Hoje de manhã, a que fala tanto pegou no pequeno rochedo, pousou-o delicadamente na palma da mão e perguntou: "O que é isto?".
E eu, qual criança mentirosa, estremunhada com a recente confusão com os meus bichos mortos, vou de responder: "É uma pedra. Tinha-a no sapato, não quis metê-la na louça do pequeno-almoço porque depois ia para os canos, e então pu-la aí, para me desfazer dela quando fosse para a rua."
Adorei a cara dela, hoje.


17/04/2018

Notícias de Bernardo, o meu passarinho

Com a morte de Bianca, minha bico-de-lacre, perpetrada pelas minhas que se quiseram ternas e se fizeram cruéis e desajeitadas mãos, adveio também a viuvez de Bernardo e a minha viuvez de passarinhos em casa.
Havíamos combinado há um tempo que só saberia definir se fosse procurar no tempo, que, uma vez sozinho um dos passarinhos, ela viria buscar o outro, levando-o para outra gaiola — e como me faz sentir ainda mais cruel e desajeitada do que as minhas mãos esta palavra — maior, mais solarenga, com mais companhias. Assim fez, um dia depois de ter tido eu que sepultar a fêmea com as tais mãos, de carrascas a coveiras. Ele chilreava como nunca desde que a solidão havia tomado conta da gaiola, num requiem de desgosto e procura, e então, num gesto que simulou quase perfeitamente a abnegação que não sentia, e mal dissimulava a verdade da minha cobardia em assistir ao sofrimento dele, que passou a ser nosso, deixei-o ir, dorida e aliviada.
Sei-o agora feliz, aninhado nas noites no mesmo poleiro que outra fêmea igualmente desagasalhada de macho.
A minha casa está mais vazia por estes dias. Tal como acontece no coração das pessoas, assim ficam as casas quando nelas se cala o canto de passarinhos.



12/04/2018

da conformação diante da morte

Fiz o que fiz sempre, da mesma forma suave e macia: tirei o passarinho da gaiola, após várias fugas de grade em grade, com a intenção de lhe cortar as unhas. Nos bicos de lacre, as garras compridas podem significar a morte, pois fazem com que fiquem presos no poleiro, numa grade, no comedouro, às vezes durante a noite, e, incapazes de se libertarem, ali ficam até morrerem. Segurei-a — era a fêmea — cuidadosamente, e ela fez o que fez sempre: primeiro debateu-se ligeiramente, depois deixou-se ficar, à espera que a minha manobra terminasse. Cortei uma unha, senti-lhe a tranquilidade no pequeníssimo corpinho, e foi quando cortei a da outra pata que lhe veio a morte, muda e queda na palma da minha mão. Fui eu que a matei, e isso mata-me também a mim. Tirei-lhe a vida num lapso de décimo de segundo em que a terei apertado um pouco demais. 
Não me perdoo agora ter-me conformado imediatamente com a morte dela. Não tentei sequer  uma massagem cardíaca, simplesmente pousei-a, em prantos inúteis, em cima da bancada da cozinha. Sou dada a momentos em que não podia ser mais estúpida, e é esse irremediável que me torna assim, conformada. 
Recebi palavras de conforto e um abraço precisado, e depois saí sozinha de casa, com ela metida numa caixa bonita, que me deu a Maria, minha grande criança sensível, sensibilizada. Corri o bairro em busca de um local bonito e sossegado, onde fosse pouco provável a passagem de cães. Mas apenas encontrei árvores feias, as mesmas que se põem lindas nesta Primavera que tarda, e zonas escuras. Chovia para lá de mim, quando abri um buraco fora do céu e a entreguei à Terra, depositando-a na terra, numa paz de dar dó.


09/01/2018

Ela fala tanto # 22

Outras vezes, sou eu que falo tanto.
Não sei ter animais. Perco a conta às vezes que vou verificar se as gatas estão a respirar, perante aquela letargia que me assusta e me deixa doente.

- Não quero ter mais passarinhos presos em gaiolas. Quando estes dois acabarem, acaba-se a gaiola. O meu problema é que os passarinhos nunca me morrem no mesmo dia. Depois fica ali um sozinho, viuvinho, eu encho-me de penas, e lá mando vir outro. Depois morre o outro, fica mais um sozinho, e andamos nisto há anos. Agora olho para eles, vejo que um é muito mais velho do que o outro, tem mais peninhas brancas na cabeça e nas costas, é capaz de morrer primeiro. E fica o outro sozinho, e eu isso não vou aguentar. 

Ela ouviu-me atentamente, os olhos fixos sem sombra de crítica nem pestanejar de pasmo, e disse:
- Eu posso levar o passarinho que ficar sozinho para um senhor que mora ao pé de mim e faz criação, que ele tem uma gaiola enorme com muitos. 

Minha Bianca é uma cougar: é ela a mais velha no casal. Pode ser por isso que nunca tiveram filhos juntos. Mas nas noites de Inverno vou sempre vê-los encostados um ao outro, no mesmo poleiro, a fazerem-se volumosos para se aquecerem e para darem calor ao outro. Não suporto a ideia da viuvez do meu Bernardo. Sofro por antecipação, aliás como com tudo. Prefiro despedir-me dele em vida, imaginando que vai ter uma vida melhor do que a da solidão da gaiola, que há-de ficar ainda mais fria sem a Bianca, ainda que seja Verão, pois mesmo no Verão se aquecem encostados no mesmo poleiro. Aninham-se, na melhor acepção do termo, já de si tão bom. O meu Bernardo aprenderá a piar em galinhês, deixará de ser um biquinho-de-lacre chique, mas que tão baixo preço a pagar é esse, diante da alternativa que é a tristeza da casa vazia?