Sinceramente, às vezes — nem sempre, mas já aconteceram para aí umas duas vezes na minha vida — equaciono a hipótese de ser (eu própria) um ser transcendente, um ente iluminado, uma unidade genial, Alguém. Tipo do Além, percebem? Uma Única.
(Sempre ouvi o meu pai dizer que, se eu não existisse, tinha que ser inventada. Nesse tempo, já eu existia, portanto. Inventada por ele, na parte melhor que tenho.)
É que me sucedem ocorrências levadas da breca, aquela que há-de ser aparentada com o Diabo.
Então: vou a chegar a casa de uma amiga, que se me lamenta de ter o pc crashado. (Por acaso, ela usou outro termo qualquer, mas este é mais evoluído e dá, simultaneamente, a ilusão a quem está a seguir este episódio, de que eu domino a linguagem. Acho que disse "brecou".) No mesmo instante, pegou nele ao colo e exibiu, desolada, um portátil aberto, em cujo ecrã (sim, eu sou daquelas pessoas que não hesitam ao escrever a palavra ecrã. Escuso de escrever monitor) cinzento, apenas aparecia uma pequena frase, no canto superior esquerdo, a dizer blá-blá-blá-definições-blá-blá. E pergunta-me ela assim para mim: "Percebes alguma coisa de computadores?". Vou eu e digo a verdade nua e crua: "Nada.", no exactíssimo momento em que, assim pensei, melhor fiz ["Experimenta control-alt-delete, que dá para tudo"], só que fiz ainda melhor do que o melhor: movida sabe-se lá por que forças divino-diabólicas, a minha manita esquerda colocou dois dos deditos em Ctrl e em Alt, enquanto o da direita, ao invés de no Delete, foi aterrar de emergência no Enter.
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E, subitamente, ele não se moveu, sequer explodiu. Fez-se foi luz. O animal, comatoso há um bom par de horas (o que, conforme sabeis, corresponde, em anos de vida humana, a cerca de quatro e três meses), ressuscitou-se todo sem um esperneio, sem um ai-que-me-dá, sem um ronco, só me dando tempo a confirmar, balbuciosa, "Mas eu não percebo nada disto", "Mas eu não sei o que fiz", "Mas eu enganei-me, porque ia carregar em delete, a ver se, ao menos, o desligava", "Mas é o milagre de Natali!", tudo muito cheio de mas-mas, perante a incredulidade dela, um pouco misturada e retorcida com aquela admiração que fazem as outras pessoas quando diante de um génio.
E eu sem lamparina.
