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24/10/2018

Vá, cosmos, diz lá o que é que queres dizer-me

Era uma vez eu, que, num gesto de profundo narcisismo e amor próprio, adquiri uma pequena medalha alegórica ao meu signo do zodíaco, que é, como não poderia deixar de ser, Escorpião. Lá no meio, muito bem colada, estava uma pedra azul, nem de propósito. Fora amor ao primeiro clique, voara para a loja na ânsia de a possuir, dera o coiro e o cabelo por ela (e mais me pedissem, que também teria dado), pendurei-a da carótida, colada à jugular, há dois meses, e nunca mais a despendurei. Passámos sessenta e tal dias a dormir juntas, a tomar banho juntas, a mergulhar no mar e na piscina juntas, a suar juntas, todo um romance que até enjoava. E, se calhar por isso mesmo, ou apesar disso, a pedra da medalha soltou-se e desapareceu sem deixar rasto.
Entristecida, porém munida do certificado de garantia, fui reclamar ao mercador que ma vendera. Que sim, que me punham pedra nova, porém talvez tivesse que a pagar, e beca-beca. Então está bem, eu ainda vou procurar a pedra, respondi sem convicção, pois que a dita tinha o exacto tamanho da cabeça de um alfinete e já havia desaparecido há quase vinte e quatro horas, tendo eu atravessado montanhas e vales nos entrementes. 
Chego a casa, ponho-me assim nos meus pensamentos, estática, de pé, "por onde é que vou começar?", olho para o chão e 
(oh, pá, ninguém vai acreditar...)
(que se lixe, arrisco.)
lá estava ela.

Pergunto-me-vos, então:
1. Essa cena da agulha num palheiro é para meninos, pois é?
2. Tenho uma vaca do genital? Muuuu.
3. Tenho olhos de lince?
4. A pedra tem o tamanho de uma rocha, eu é que vejo mal e não sei, afinal tropecei nela e estou para aqui com coisas?
5. A probabilidade de isto voltar a acontecer é para aí de uma num milhão, não? E convenhamos que não devo sequer ter um milhão de dias pela frente.
6. Será que isto invalida probabilidades quanto a ganhar o Euromilhões?
7. O ditado "Quem procura acha" não estará desactualizado, em se tratando de pessoas como eu?
8. Devia tornar-me mística? Medium? Cartomante? Investigadora criminal?
9. O facto de ser Escorpião tem alguma coisa a ver com isto?
10. O facto de a pedra ser azul determinou todo este desfecho?

04/10/2018

Sobressaltos - 1, Saltos - 0

A vida alinha-se, à medida que os dias passam. Quando algo não tem remédio, remediado está, lá diz o povo na sua imensa sabedoria. Quando tem, melhor ainda. É ir à farmácia e comprá-lo. Ou então, esperar que o tempo passe, o tal que tudo cura, qual curandeiro das almas, qual médico com diploma e tudo. 
A minha gata melhorou com a retirada do body/babygrow/vestidinho. Se calhar, não gosta de cor-de-rosa e o problema residiu sempre aí. Para a próxima, trago-lhe a vestimenta em azul, faz todo o sentido. (Penso na próxima e atravessa-se-me uma farpa de medo na garganta. Tenho que aprender a não antecipar os problemas. O que tiver que ser, será. Estou sempre a dizer isto aos meus filhos, e depois não aplico. Faz o que eu digo.) (Bolas, hoje estou - ainda mais - cheia de ditados populares.) (Sou tão povina.) Devia estar a morrer de alívio, mas ainda bem que não estou. A morte ficar-me-ia muito mal, nesta altura do filme. (Bom, passei para as alusões cinematográficas, isto vai de vento em popa.)
Toda esta retórica para vir aqui lamentar-me que há duas semanas que não salto. A professora de Jump foi-se, e deixou os armários cheios de botas kangoo para trás. Eu até já tinha as minhas favoritas, as número 21 (num registo algo narcisista, uma vez que é a data dos meus anos), tamanho S. (É verdade, esta lonjura de perna, todo este tamanhão de gente, sobretudo de salto alto, e um pé de Cinderela (OK, passei para as histórias da minha infância). 
Reclamei da falta das aulas, pretendi ir praticá-las para outro do mesmo ramo, mas diz a da portaria que não. Que não sabe se as aulas acabaram, que, se sim, ela saberia, que, se não, também não saberia, e eu saí dali com aquela minha cara de try-again-fail-better. Tenho cada vez maior dificuldade em perceber les autres, qui sont l'enfer. (Agora Jean-Paul, hã?) 
Solução para este problema? 
1. Sair daquele ginásio e ir para o que tem as aulas que eu quero. Fica fora de mão, mas esse é o meu middle name;
2. Comprar umas botas daquelas e ir pular para a minha rua. Já ninguém atesta pela minha sanidade, é só mais um ponto a esse favor;
3. Esperar - ou que as aulas regressem, ou que me passe a mania;
4. Desistir. Errrr...
5. Pular em casa, sem as botas. Ohhh...

Enquanto não soluciono a questão, fico-me pela recordação.
(Atrás das bolas e dos ovos estão pessoas.)

13/09/2018

Vergonha é roubar e não poder carregar

Andava eu já cheia de vergonha de entrar em Rosinha, minha canoa: a chuva da semana passada pô-la de um tom terra sobre azul, como se fora ouro sobre ela. Cheguei mesmo a dar uma volta ao largo da barca e só depois me meter dentro, à socapa, quando presumi que não estava ninguém a ver. Pelas ruas da cidade, conduzi-a sempre munida de meus óculos escuros, quase tão bem disfarçada de mim mesma como Greta Garbo de si própria. 
As diversas tentativas para que me lavassem o objecto andante resultaram em nada, "Ai, sióra, teim deiz carro na frentchi da sióra"; "Lá pelo meio djia e meio [dez da madrugada] istá pronto"; "Nóis não funcionamo com marcação, é na hora", pelo que mantive minha Rosinha aquele torrão até agora. Ou melhor, até há uma hora.
Ponderei vergonhas e concluí que maior era a de andar num carro tão sujo do que ser vista pelos vizinhos todos a limpá-lo. (Mesmo aqueles que me odeiam.) Então, equipei-me de luvas, borrifador de água, líquido para os vidros e trapos e fui-me a ela. Mas quais chinelos, quais mola na cabeça, que eu tenho uma imagem a defender: sandalinha de salto e cabelo ao vento que não havia. Fui dar com ela ao sol, esparramada e indiferente à sua própria sujidade. (Lazy.) Isto estavam cerca de 33 graus na cidade e ela abrasava dos metais. Mas nada me demoveu de, apesar da canícula, da figura de obsessive compulsive, louca ou pelintra e do esforço que me esperava, limpar a bicha de alto [tejadilho e tudo, pois] a baixo [bom, rodas não, vá lá] e de a ter deixado a luzir das purpurinas. 
Ou por estar demasiado calor e não haver uma alma viva na rua, ou por ter adquirido o dom da visão-turva-anti-quem-não-quero-ver (dá muito jeito!), a verdade é que não vi vizinho nenhum, nos entrementes.
Quando terminei, o sol mudara de posto e Rosinha estava linda, blue e à sombra.
E eu toda suja.


27/08/2018

Na senda de "Sou só eu?" # 15

Que não consigo desocupar a minha parcela da unidade hoteleira sem antes fazer uma ronda semi-obsessive-compulsive-cleaner, passando jacto no duche, retirando cabelos do lavatório, puxando várias vezes o autoclismo, dobrando toalhas de rosto, alinhando toalhas de banho, esticando a cama, retirando migalhas da mesa, do balcão da kitchenette, fechando o saco do lixo, compondo objectos móveis - o comando da televisão ao lado dela; o do ar condicionado perto dele; os candeeiros em simetria -, retirando nódoas, malhas e marcas de dedadas (serei apenas uma criminosa perfeita, pergunto-me e -vos?), e ainda ficando p. da minha vida porque não há por ali uma vassoura, uma esfregona, um spray ambientador, um esfregão, baldes e detergentes?
É nada um TOC, eu é que não quero que alguém vá a seguir limpar e pense assim: "Porca, badalhoca, suja, deslavada." Porque seria o que eu pensaria, no lugar desse alguém? Porque "nas costas dos outros vejo as minhas"? Porque sim?

25/06/2018

Dúvidas que me assaltam à mão armada, logo assim pelas 11 da madrugada

(Rimou e é verdade.) (Quem rima sem querer, é amado sem saber.) 

Quando falo e o resultado daquilo que procurei transmitir é igual a zero, tal poderá dever-se a um destes factores:
1. Não me diz entender;
2. O meu interlocutor não me ouviu;
3. Falei demasiado baixo/ educadamente/ numa linguagem excessivamente elaborada, metafórica, indirecta, estrangeira;
4. Tenho problemas de dicção (dos quais nunca me apercebi);
5. Estou rodeada de pessoas com défice auditivo;
6. Quando eu falo, ninguém baixa as orelhas;
7. O meu interlocutor não compreendeu o que eu disse;
8. Não repeti vezes suficientes (naquela de água mole);
9. Talvez tenha que insistir ad nauseum, assim como se faz com as crianças, cujo lema é "Ralha-me, mas não me ignores";
10. Um pouco de todas.

15/02/2018

€uros meus, má fortuna, amor desardente

Juro que, às vezes, julgo que fui congelada na época do escudo, e agora descongelaram-me, desactualizada. Um par de collants custar 12,95 erros (não, isto não é um erro) (ou seja, para mais de dois contos e quinhentos!) não é escandaloso? Então e três pares, para aproveitar uma "promoção", e a conta ultrapassar velozmente os seis contos de reis?
(É sinal que estamos vivos? Não, é sinal que continuamos — mesmo aqueles que já não se lembram do escudo — cerebralmente condicionados por preços irrealistas. Doze euros e noventa e cinco cêntimos tem todo o ar da graça de um conto e trezentos. Pois, mas é o dobro.)

Não sei se já ficou aqui suficientemente clara a evidente incompatibilidade que eu tenho com quase todas as vendedoras da loja lá onde compro as meias. Percebo o papel que assinaram e agora cumprem, acredito piamente (e ateiamente também) que terão uma comissão por cada par vendido, mas não consigo perdoar a falta de noção, a insistência, a rudeza com que encaram um simplório não. Antes ter mais cinco filhos e atravessar aquela fase em que o nosso não é nim e se deixa vencer até ao sim por cansaço e o deles é não-não-não.

[Esse grande filme que dá pelo nome de "O Rei Leão" — que, shame on me (qual quê, vergonha é roubar e não poder carregar), foi o filme que mais vezes visionei na vida (acreditem se quiserem, mas passou das quinhentas), e, se aspirar a morrer com níveis minimamente aceitáveis em termos intelectuais, vou ter que pegar num Padrinho qualquer, fechar-me numa sala durante um ano e meio e só assim ultrapassar o Disney, tudo isto para que da minha lápide não conste "Aqui jaz a maluca que viu 'O Rei Leão' foi para mais de quinhentas vezes" —, dizia eu, que começa exactamente por uma cena onde um leão mau (Scar, dos mais deliciosos vilões da Disney) diz a um ratinho: "Oh, a vida não é justa, pois não?". Nada justa — nunca atravessada pela espada da Justiça.]

Assim estou eu com a p. da paciência que já não tenho para o esquema possoajudar?-querounscollants-nãoqueraproveitarapromoção?
Não, não quero aproveitar a promoção. Primeiro, porque não é uma promoção, não é uma vantagem temporária que, com o decurso do tempo, desaparecerá. Está lá sempre, há anos. Segundo, porque fico perdida em raciocínios esdrúxulos. É por isso que travamos diálogos desta riqueza verbal:
- Não, quero mesmo só os collants.
- Assim, levava três pares e tinha 20% de desconto no terceiro par.
- Não percebi o seu raciocínio.
- Em vez dos 12,95 que lhe custa um par, leva três por 31,08.
- Sim, mas isso não são 20% sobre o terceiro par, e sim 20% sobre os três pares, o que é mais vantajoso do que aquilo que me disse.
- ... [olhos para o tecto] Pois, fica um pouquinho menos do que se levasse os três pares sem desconto...
- E um muitinho mais do que se levar só os collants que lhe pedi quando aqui entrei.
Quer dizer, parece que querem fazer da pessoa humana a antipática de serviço, a incapaz de perceber uma conta tão simples, a forreta do collant, a pobre que só pode comprar um par de collants de cada vez. Então, e se fosse? Será que se esquecem que, no limite, um ser continua a deter a grandessíssima liberdade de não comprar nenhum par? Pôxa, pá, eu sou a Charlie do collant!
Fica a questão, premente.

30/10/2017

Na senda de "Sou só eu?" # 10

Que já ando a ficar nervosa com a m. do Halloween? 
Estive no Dolce Vita Tejo anteontem (dia 28 de Outubro), na demanda pelo botim que me aprazeria ter no pé, e eram actividades "lúdicas" em todos os recantos da enorme superfície: eram adultos a pintar caras infantis, eram abóboras, eram morcegos e eram teias de aranha por todo o lado, eram miúdos de capa preta a correr e a saltar desenfreados em quase todas as direcções, era a PDL. (Espera, já não nos bastavam cá os das tunas e os das praxes).
Ontem (dia 29 de Outubro) jantei num local público, onde cirandavam duas miuditas com as ditas capas, mais caras pintadas com teias de aranha, mais cornos vermelhos nas cabeças, mais guinchos a condizer com a palhaçada. 
Quatro dias antes da data marcada (?) para o acontecimento (???), e é isto. O Carnaval são três, e a vida são dois. 
Mas está tudo doido, ou sou só eu?
(Isto, vindo de uma pessoa cuja vizinha está há duas semanas neste registo. Quem sabe não estou apenas inquinada.)

A varanda

A porta de casa


29/10/2017

Agora já sou uma blogger a sério # 4

Fui para praticar run walk run, mas limitei-me ao walk, dado que a multidão era compacta e os caminhos demasiado estreitos e sinuosos. Não lembra ao menino traçar um percurso que inclui degraus, pedras soltas, raízes de árvores que levantam o piso, estacas de madeira, etecetera. É uma vergonha que uma zona como a do Parque das Nações, excelente para caminhadas e corridas, esteja desleixada àquele ponto. Eu vi uma senhora cair, já que estamos a falar nisso. E sim, tropeçou na calçada, elevada pelas raízes. Isto não quer dizer que considere o percurso da Avenida da Liberdade melhor do que este, mas quer dizer que este é só péssimo, não sei se já disse.
Ainda assim, foi muito bom. Melhorei o meu tempo, embora desconheça como é que ainda levei mais de uma hora. (Suspeita-me que são as outras que não me deixam passar, e estragam-me os tempos.)


Tenho que treinar mais, está visto. A ver se, da próxima, chego aos 59 minutos. 

Pontos altos do evento:
1. A aparição do Tony Carreira, aquele mito da plagiação, que eu, sinceramente, ainda não percebi quem é que ele tanto plagia. Não conheço uma única melodia dele, e, eventualmente, nenhuma de nenhuma das vítimas dele. Fez um playback mediano, imitando-se a si mesmo, foi medianamente aplaudido, saiu como entrou: médio;
2. A cruel dificuldade em pronunciar os LL de um apresentador, que insistiu por três vezes em chamar ao palco um senhor de nome Luís Lopes. Acredito que não fui a única que me lembrei de Felisberto Lalande, aquele boneco delicioso do Herman José;
3. Um polícia, sabem? Um daqueles senhores da PSP, que estava a meio do percurso a sorrir para as fêmeas todas, e que mereceu apupos, piropos e gritinhos vários. Só criminosas;
4. Este sol. O mini-bronze que foi possível imprimir na pele, quase em Novembro. Este azul;
5. (but not least) A recolha de cento e dezassete mil e não sei quantos euros para pesquisa/ tratamento/ prevenção/ combate do mal, que é cancro — tem esse nome — e ainda mata.  

Já o disse aqui uma vez, e repito: não me chocaria que o lema da campanha fosse "Quem tem mamas, tem medo". 
A sério. Ainda agora estou para perceber o ar de falta-me-a-pachorra de algumas pessoas, à passagem das participantes da Corrida. Mulheres incluídas, claro.

29/09/2017

All my loving

Não sei se foi ontem ou se foi anteontem, que ouvi na rádio, mas também não sei em qual (acho que foi na Radar, que ocupa 90% do tempo que eu ouço rádio), em que perguntaram não sei a quem importante — mas lá está: não fixo nada do principal, mas retenho o acessório —, qual a música dos Beatles preferida dele. Ainda suspendi a respiração enquanto a resposta não chegava, porque — com os outros, não sei, comigo é assim — achamos sempre que hélas!, há uma alma gémea nossa algures, em cada uma das nossas pequenas opções, mas rapidamente veio a infirmação de que, desta vez, pelo menos, não era aquele Bobby (?) quem tinha um gosto igual ao meu, mas também a confirmação de que gostos não se discutem, nem o musical, por conseguinte.
Ele escolheu She loves you
Eu escolhi, há muitos anos, All my loving.


Então e tu?

11/08/2017

Ai-fostes também não me tem em grande conta # 2

Quis publicar uma imagem ilustrativa [alerta redundância] do meu post anterior. Porém, Ai-fostes, acometido de uma má net, derivados de estar demasiado próximo do mar [se esse conceito existisse], não mo permitiu. O quartel-general onde estava instalado o router do pólo onde me acampei era demasiado longe [e cem metros pode ser um conceito interpretável como demasiado longe] para que me deslocasse, metesse pic condicente e voltasse para a boa barraca, pelo que só hoje, regressada e ressabiada, com cara de fim de férias, aqui a publico.
Sem filtros, como tudo em mim.
Já não se trata de uma tentativa de meter nojo, pois que até a mim mesma, ao contemplá-la, agora, a esta distância [duzentos e oitenta e cinco quilómetros, vírgula — após vírgula simbólica — três, pode considerar-se demasiado longe] e sob este prisma (pesadíssimo), a imagem mete nojo, e inveja, e drama, e já saudades, e só coisas feias — não fora ela tão linda.


Diz que Não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe. O povo é quem mais ordenha. 
E amanhã é outro dia, lá dizia a outra dos ventos. 
Adeus, que agora vou ali pôr-me em posição fetal e encher-me de baba até me passar a fase da raiva.
[A ver se agora alguém aqui vem desejar-me "Boas não-férias".]


03/08/2017

Laser para melhor lazer

Um altar a quem inventou a depilação a laser. Sinto necessidade de beijar pés, só por conta desta liberdade proporcionada não sei por quem. (Vá, e se eu não vou googlar, façam-me a fineza de também não o fazerem por mim.)
Nunca como agora me senti um homem, e está a ser bom: é vestir os trajes de banho e ala que se faz tarde para o charco, livre de preocupações menores (ou nem tanto) com pilosidades indesejadas. Longe vão os tempos de cavernícula, em que, à porta de casa ou já no areal, se me atravessava um pêlo no olhar - qual cisco, quase me fazendo chorar -, e isso era assunto bastante para dobrar as tormentas por horas, enquanto durasse a permanência, já que um único pêlo, esquecido/ignorado pela lâmina/máquina/pinça/cera, tresmalhado do grupo a que pertencia, escapado à morte a que condenara os irmãozinhos, era coisa para me arrasar os nervos e o dia de veraneio. Quanto mais vários pêlos. Um tufo. So-cor-ro, nem me quero lembrar. E depois, aquela sombra do pelinho nascituro, a saga do pêlo encravado, a frequência com que era preciso dedicar-me à transformação de mãe Eva em Gisele Bündchen, toda essa contratempice acabou, graças ao Senhor Laser.
No entanto, e por acaso, isto sem qualquer base científica - como tudo o que profiro para aqui -, acho que a depilação a laser só foi inventada no momento em que os homens começaram a arrancar os pêlos deles. Foi certamente em homenagem (não mulheragem, vêem?) a eles que surgiu o ditado 'A necessidade faz o engenho'. Isto que disse agora e o que vou dizer a seguir, enquadra-se no meu sector machista, ou sei lá se apenas controverso: nós, mulheres, somos dotadas de um espírito de sacrifício e abnegação, que nos levaria a suportar mais não sei quantos séculos de tortura depilatória, até, na melhor das hipóteses libertárias, criarmos um no shave qualquer e regressarmos à peluda origem. Aliás, não fora os homens terem começado a viver sozinhos e a sentir necessidade de preparar as suas refeições, e o micro-ondas estaria por inventar, e nós estaríamos de barrigas coladas a um fogão (a carvão.) (A pedras friccionadas.) Ou agarradas a um tanque de roupa. Ou a bater claras em castelo com um garfo. Tudo por causa do tal espírito.


27/04/2017

Quando fazes aos outros o que não gostas que te façam a ti

Coincidimos na aula de dança, coincidimos depois no balneário, coincidimos finalmente na saída do ginásio. Como uma sombra, assim mesmo, muito maior do que eu, ela esteve sempre quatro passos atrás de mim, coincidências que acontecem, como numa coreografia bem ensaiada. Tínhamos recebido a novidade de uma aula especial, extra-plano, com o triplo da duração das costumeiras, e ambas queríamos fazer a inscrição para o evento. Ela, enorme, possante, chegou ao balcão os tais quatro passos depois de mim, pelo que fui atendida em primeiro lugar. Disse ao que ia, que queria inscrever-me na aula especial. Ela encostou-se no outro extremo do balcão, à espera que chegasse a sua vez, atenta, porém impaciente. Enquanto era atendida, vi num relance que toda a linguagem corporal dela denunciava pouco tempo/paciência/vontade de esperar. Pareceu-me cansada e atribuí a cara fechada a isso mesmo.
A funcionária perguntou-me se queria a t-shirt alusiva ao dia e eu ai que sim. Perguntou-me de que tamanho, e eu "XS, então não se vê logo?", mas ela não percebeu a ironia e disse-me que não tinham XS, com as sobrancelhas elevadas ao nível da raiz do cabelo.
Nesse momento, ela começou a borbulhar, aquele ponto da fervura que não tarda à ebulição. Fitava-me fixamente, contrariada e suspirante. Imagino que terá rolado mentalmente os olhos várias vezes.
- Então o S, pronto. Vai-me ficar largo, mas depois mando apertar à costureira.
(Isto era uma piada.)
Quase a ouvia bufar, a três metros de distância, enquanto me lançava olhares de enfado e pressa. A outra escrevia no computador sei lá o quê, que também não atava nem desatava com a inscrição nem com a t-shirt. 
- Tem aí alguma para eu ver o tamanho? — Quis eu acelerar o processo, abreviando a agonia da minha companheira de aula. E não esperei a resposta, fui para o expositor das t-shirts, para confirmar.
- Pode ser o S, sim.
Os olhos dela em alvo, ou melhor, eu em alvo, os olhos dela em mira, chispando. 
Finalmente, explodiu, e avisou:
- Vou-me embora, venho cá amanhã. — Na voz a raiva, no andar a fúria.
Não se costuma dizer que "Nas costas dos outros vejo as minhas"? Pois, foi exactamente o que me aconteceu. Pude ver-me ali, em tantas circunstâncias em que simplesmente desisto, porque está uma chata a fazer o Mundo perder tempo.
Não me posso esquecer de que vamos dançar juntas. (E de que ela é muito maior do que eu, já disse?)

07/03/2017

Parir é dor, criar é amor;

A César o que é de César

- Ditados # 19 e # 20

Estava ontem a passear pela blogobola, passei por um blog que também sigo (mas não persigo, como a nenhum) e mergulhei de cabeça — salvo seja — [não abram o link se não estiverem preparados, meus maricas] nestas fotografias tiradas em pré, durante, e imediatamente pós parto.
E insurgi-me.
Vêem-se mulheres a dar à luz dentro de água, no carro, nas escadas, de gatas, de cócoras, a fazer o arado e o pino [isto já não, mas eu tinha que exagerar], vêem-se as cabeças das crianças a saírem dos sítios mais incríveis de suas mães [tipo esse], vêem-se pais com a mão na barriga, a mão nas costas, a mão por todos os lados (ele há homens com várias mãos), vêem-se crianças pequenas a assistir ao parto (o que é uma péssima ideia, principalmente se der merda), vêem-se outras mulheres, manifestamente não parteiras, a colaborar no evento (a curiosa, a mãe da mãe, a companheira da mãe). São 59 fotografias, mais ou menos bem conseguidas, mais ou menos comoventes, mais ou menos mais-ou-menos e também mais e menos. De todas, apenas uma é uma fotografia de um parto por cesariana. 
Desculpem. Eu só queria perceber se o nascimento por cesariana não é um nascimento digno de registo e depois destaque. Se é preciso sofrer, respirar, hiperventilar e a seguir parir para se dar o processo completo de se pôr uma pessoa no mundo. Eu pus quatro, todas por cesariana. (Por isso é que não pus cinco ou seis, e não se tratou nunca de uma questão religiosa ou financeira, mas apenas um assunto de amor.) Não tive direito a contracções, a dores pré, a corpo suado, a cabelo empapado. Não houve pai na sala de cirurgia, por opção dele, mas também fui bem compensada por uma enorme equipa. (Nós, cesariadas, temos direito a quatro médicos — cirurgião, segundo cirurgião, anestesista e neonatologista — e duas enfermeiras — parteira e pediátrica. É muita gente.) Mas tive direito às mesmas (ou melhores) dores logo a seguir. E, sobretudo, tive aquele mesmo momento mágico, em que o relógio efectivamente pára, e todos os presentes fazem um silêncio berçal, até que alguém pergunta as horas, para registar. Tive direito à pele com pele, ao cheiro animal, às lágrimas roucas, aos risos de alívio e amor eterno.
Quatro pessoas. Respect, hã?



26/02/2017

A idade é um posto?

Já tive esta sensação tantas vezes que não pode ser só uma impressão minha, ou uma mania da perseguição, daquelas de que sofro amiúde com minudências e menoridades. Existe, está confirmado por mim mesma, através daquela cena hegeliana da tese, antítese e síntese: ora, disse-me esta última que sim, que existe uma casta de miudinhas que consideram que só elas podem (e devem!, acrescento eu aos berros) fazer ginástica, ou melhor, frequentar ginásios, pelo que, e em consequência, a espelunca daquele espaço (sempre claustrofóbico, fedorento e de paisagem inestética), lhes pertence no seu todo, até ao mais ínfimo cantinho, por consequência de uma qualquer escritura que assinaram naquele preciso momento em que decidiram mudar de estilo de vida, ou lá o que é que as move.
Senão, vejamos: 
1. Ele é toda uma atitude sempre que a pessoa se encontra, languidamente, a ocupar um tapete, uma máquina, um qualquer recanto lá do espaço do qual, como já vimos, são donas: colocam-se em posições tais, disparam olhares tamanhos, processam sussurrinhos entre si tão evidentes de que é aquele lugar específico que pretendem ocupar , que, não fora uma data de coisas, uma pessoa até se sentiria mal e trataria de lhes fazer a vontade se:
    a) Fosse insegura — oh, shit, I'm not;
    b) Não as topasse e não estivesse verdadeiramente a defecar-se para aquelas intenções tão óbvias;
    c) Não tivesse já tido a idade delas, coisa que não é recíproca e na qual, portanto, leva vantagem;
    d) Não pagasse a sua mensalidade;
    e) Considerasse a vaga hipótese de elas terem alguma razão — mas é que não.
2. Ele é toda uma série de momices ao nível da conquista do exíguo rectangulozinho que é o banco corrido do balneário, destinado a apoio, para sentar ou colocar o saco (ou, na loucura, ambos, sei lá). Vai de exemplo: a pessoa põe o saco. Logo surge uma incomodada que precisa daquele mesmo niquinho de madeira para ali colocar a sua escova do cabelo, ainda que todo o banco esteja livre;
3. Ele é a palhaçada de a pessoa abrir o seu cacifo e quase se meter inteira lá dentro para se vestir, e já ter a do lado a precisar que feche a porta do seu para que ela possa não só abrir o dela, como também ali montar escritório, procedendo a mil actividades, entre responder a duas mil mensagens, pôr/tirar vários totós do cabelo, passando pelo espalhar de não sei quantos cremes para não sei quantas zonas diferentes e específicas do corpo/cara/cabelo/mente, mas que cheiram todos, basicamente, a coco (não pus circunflexo nem acento agudo, por motivo de uma dúvida não gramatical que só eu sei);
4. Ele é nas aulas de grupo, aquela imperiosa necessidade de se colocarem na fila da frente assim que se apercebem que a pessoa já ali estava. Penso que são as mesmas que discutem o mesmo lugar nas aulas de matemática.
Tudo nelas, desde os rolling eyes mais ou menos disfarçados, à linguagem corporal, passando pela atitude, grita Minha senhora, ponha-se no seu lugar! (Vá para casa coser meias!) [Quem melhor do que uma mulher para ser machista com as outras mulheres?] E eu, olhem, ponho-me: no meu tapete, na minha máquina, no meu espaço, na minha fila da frente.


24/02/2017

Pagar e morrer, quanto mais tarde melhor - Ditado # 18

Toda a gente me faz propostas indecentes. 
(Também tenho uma propensão marginal para ser transformada, contra a minha vontade, pelo menos consciente, em confessor de tudo o que é vergonha e drama existencial mundial e mundano. Sou uma vítima de mim mesma, no fundo. Não tivesse eu esta cara de padre-psiquiatra-tonta-da-aldeia, e teria uma vida muito mais, se não fácil, pelo menos facilitada.)
Entro na casa de cafés da Nestlé*, ponho a máquina desfalecida em cima do balcão, que levo num saco de plástico, amarrado como uma trouxa — e com o qual atravessei o shopping todo, ah, se estivéssemos em Paris, mon amour, onde mora a civilização, não haveria força policial que não me interceptasse, mas aqui neste país à beira-mar plantado, mais concretamente nesta menina e moça à beira-mar estendida, é sempre esta desolação —, anuncio que a levo avariada e que pretendo a sua reparação. O funcionário pede-me autorização para fazer um pequeno diagnóstico à enferma, entro nos delírios do costume, com vontade de fazer perguntas absurdas [Mas vai doer? É preciso assinar alguma coisa? Vão dar-lhe contraste? Quando é que tenho o resultado?], mas calo-me, depois de anuir. Vem de lá ele de volta, com a minha pobre máquina inerte, um papel A4 em duplicado, um ar pesaroso, e pergunto, absurdamente: 
- Está mesmo avariada?
Responde-me com um silencioso abanar de cabeça, e respeito-lhe o silêncio, engolindo um litro de saliva pela mera perspectiva de ter que comprar uma nova (e já a preparar o discurso "Vou mas é para a Delta**, aqui não me apanham mais, que ando farta desta cena da boutique!"). Apresenta-me a papelada para eu assinar, mas antes faz-me saber que existem duas formas de pagar o tratamento: 
- Ou a senhora paga 19 euros quando vier levantar a máquina, ou adquire já duzentas cápsulas e não paga nada.
- Duzentas? Isso é quanto? 60 euros?
- 75.



Há-de ter sido diante da minha cara n.º 4 que ele se explicou:
- É que, assim, a senhora fica com um bem que, mais tarde, ou mais cedo, iria consumir.
- Iria. Mas pagar e morrer, quanto mais tarde, melhor.
Concluo que não dou para economista, uma vez que sou incapaz de fazer este tipo de poupanças. Mas isso pode dever-se à tal propensão marginal. 


* Ninguém me paga para me calar.
** NMPPI

22/01/2017

Nem oito nem oitenta

Ando há meses — daqui a pouco, anos, pois acho que já passa de um ano esta sitcom — com, ora oitenta, ora oitenta e um seguidores no blog. Entra um, fico com oitenta e um, passado pouco tempo sai um, fico com oitenta por mais umas semanas, até que apareça mais um. O record bati-o comigo mesma — autêntica sova em modo auto-flagelação — no dia em que se foi embora um e chegou outro, em menos de vinte e quatro horas. 
Ora, que importância tem isto? 
Ora, zero. (Ou oitenta, depende do lado em que as pessoas se coloquem em relação ao sol.)
[Se tivesse alguma, já teria comprado um daqueles pacotes — chiu, não há frase nenhuma onde a palavra pacote assente (errr...) bem — de seguidores, que se compram nos sites brasileiros e se fica logo com milhares de pessoas, mais ou menos humanas, aparentemente, a seguir o nosso blog.]
(Ai não era para dizer? E agora? Apago? Está bem,

)

Agora fora de brincadeiras, que eu hoje acordei séria: decidam lá isso, que esta do 80-81-80-81-80 já baralha as sinapses bloguerianas de uma pessoa. Estou a ponderar a hipótese de retirar de lá a Linda Porca em Alter Ego, a ver se fico com setenta e nove. Sempre é um número mais redondo. E ai do primeiro que chegue de novo só para ser o octogésimo e me calcinar a pipoca. 
Ora, grata pela atenção prestada a mais um destes meus (não) assuntos.


14/11/2016

Diálogos à sombra # 25

Estávamos a comer um copo de gelado cada uma. Naquele lugar, podem pedir-se os sabores que se quiser, e o copo é cheio até caber tudo o que nos vai na alma (gorda). Eu pedi limão e gengibre, caramelo e amendoim, tiramisu, dióspiro, pistachio, e reineta e canela. (A palete do de manga só chegou à montra frigorífica quando eu já estava a comer.)
Ela, comedida, com conta, peso (baixinho) e medida (pequena), pediu quatro sabores, tudo sorvetes por ser intolerante à lactose. Mesmo assim, sentiu-se pecar, enquanto eu saboreava os meus seis sabores, que, bem somados, eram nove, lamentava a falta do sétimo (ou décimo) e procurava não conspurcar toda a minha área envolvente. (Tenho uma incapacidade marginal para não sujar tudo à minha volta quando como gelado e a mera presença de um dispensador de guardanapos de papel faz com que rapidamente eu transforme a minha mesa numa aldeia da roupa branca.)

Foto daqui
- Eu merecia engordar. — Disse ela, num sorriso de regozijo.
- Já eu, não... — Respondi eu, contagiada.
Mas, lá está: cada um tem o que merece.

18/10/2016

Quando Deus fez uma panela, fez logo uma tampa para ela - Ditado # 17

Entrámos para almoçar, restaurante composto por três salas razoavelmente grandes, praticamente cheio. Normal, sendo domingo. Ainda assim, algumas mesas vazias. 
Calhou-nos um empregado que nos quis dar uma mesa específica, a mesinha do cantinho, é só um bocadinho, não demora nadinha, só lá estão uns senhores mesmo no finzinho. E nós de gesso, à espera de nos sentarmos, mas ele queria que fosse aquela a nossa mesinha. Quando, ao cabo de dez minutos, isso aconteceu, trouxe-nos a ementinha, onde constava um bacalhauzinho à casa, uns choquinhos que estão uma especialidade e umas costeletinhas que estão uma maravilha. Eu pedi polvo à lagareiro, polvinho. Meia dosezinha, chega para a senhora? Que sim, que sim. Então e pãozinho, vão desejar? 
Traga lá, e azeitoninhas. 
Então e um queijinho? 
Claro. [Clarinho!]
Nisto, põe à minha frente os quatro pratos que haviam de ser dispostos sobre a mesa, empilhados, sobre os quais os quatro talheres e os quatro guardanapos. E disse assim:
- Pode distribuir os talherzinhos?
Eu achei piada. E disse: 
- Não.

Não paro de pensar como é que hei-de fazer com que esta criatura encontre a dos pelinhos

[Também não paro de pensar como é que esta criatura designa a sua própria genitália.]

07/08/2016

promessas, horóscopos, previsões metereológicas, feelings

Leva-as o vento.
Acredita só quem quer.
À primeira, todos caem; à segunda, cai quem quer; à terceira, cai quem é parvo — lá diz o povo, que é quem mais orden(h)a. 


Ouço promessas, leio horóscopos e previsões metereológicas com a mesma exacta e finíssima desconfiança. Não terão passado cinco minutos, e já terei esquecido tudo o que ouvi e li. O meu ouvido, olhos, atenção e memória não envelheceram um único dia desde sempre, porque desde sempre foi assim: deslembro. Deve ter a ver com questões de crença. 
Também não sou uma pessoa de confiança para levar a sério — menos ainda a cabo — os feelings dos outros. Já os meus, sigo-os com uma fé peregrina e devota. Raramente me enganam, nunca me dão dúvidas.