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04/01/2026

Estroboscópica

Às vezes calha ficarmos lado-a-lado nas aulas de alongamentos. Não sei o nome dela e imagino que não saberá o meu. A primeira vez que lhe dirigi a palavra foi para lhe perguntar se tinha tido um desastre de carro, tantas eram as mesuras do instrutor com ela, tantas eram as partes do corpo que não conseguia mexer. Disse-me que não, entre o espantado e o aterrorizado, mas que tinha tido uma ruptura de mõinnnn mõinnnn e um deslocamento da mõinnn, sei lá, não percebi nada, tal era a descrição de mazelas, e eu essas coisas não fixo. Quando começam com o rádio, os ilíacos, os cruzados, algo em mim voa para o País das Maravilhas e as orelhas são as primeiras a dar à sola para longe.

- Aquelas luzes estroboscópicas são muito perigosas — disse-me um destes dias, quando esperávamos a hora da aula. Achei por bem ficar calada, um bocadinho atónita e com a cabecita de lado, como fazem as galinhas diante de quase tudo. Esperei que o que dissesse a seguir me esclarecesse, e assim foi, ou quase:

- Aquelas luzes que estão na sala e que giram, sabes?

- Sei. — Saiu-me a peta, por saber que daí a minutos ia conhecer as tais luzes, que, ao que tudo (especialmente ela) indica, estão há anos na sala, mas eu nunca as vi.

- Os meus dois filhos são autistas, mas sobredotados, eu casei-me com um autista, qualquer um deles, se viesse aqui, tinha uma crise. Também me sinto mal quando olho para aquelas luzes, e há uma rapariga aqui do ginásio que chegou ao ponto de ter que sair da sala. Já me fartei de pedir para desligarem as luzes, mas não desligaram. 

Depois entrámos na sala e, enquanto durou a aula, não tirei os olhos das estroboscópicas, a ver o que é que acontecia. Nada, absolutamente nada. A minha companheira, ao contrário, mesmo sem pôr os olhos nas luzes, cumpriu toda a aula com a habitual expressão de mártir do Caravaggio. 


30/09/2025

Remada alta

Agora meti-me noutras actividades no ginásio, não porque me tenha fartado de dançar, mas por não ter outro remédio: uma das instrutoras engravidou, outro envelheceu. Ela ainda pulou e saltou até aos quatro meses, depois ganhou juízo. Ele começou a fazer coreografias só com os braços, para isso sento-me numa cadeira em casa, exercito-me assim e não pago nada. Claro que não desisti da dança, mas fiquei confinada a um dia por semana e eu queria mais um bocadinho, se não se importam. A piscina está fora de cogitação, porque, embora tenha o fato-de-banho mais bonito do planeta e uma touca estupendaça especial cabelos compridos, só a parafernália que uma pessoa carrega para essas aulas, já me cansa a beleza. 

Comecei então a fazer Aeróbica, onde, apesar de ser a pior aluna da sala, o instrutor acredita imenso em mim, acha que tenho potencial. Mas eu, ao fim de duas piruetas, já não sei para que lado é oeste, quanto mais onde está o espelho. E ele dá-me coragem e incentivo para continuar, mas acho que, interiormente, está a divertir-se à doida. 

Continuei com o meu Stretching e experimentei algo que dá pelo nome de Dumbbels, que mais não é do que uma tortura macaca que já pratiquei noutro ginásio sob a designação de Body Pump. Aquilo, a pessoa entra já nervosa porque sabe que vai sofrer. O instrutor (já fiz com quatro diferentes) diz que “vamos trabalhar todos os grupos musculares”. Ahahahahaha. Vamos triturar tudo o que não seja osso nem banha e, de caminho, somos voluntariamente sujeitos a todo o tipo de sofrência. Parece a tropa. Alteres, remada alta, agora nove repetições, agora outras nove, agora fica lá em cima, faz flexões em dois-dois, três-um, agacha e fica, insiste oito lá em baixo, agora mais oito, vamos aos lunges, põe um pé à frente e outro atrás e desce até tocar com o joelho no chão, insiste e pára lá em baixo, agora vamos só aos abdominais e está feito, em dois-dois, em cruzado com a perna esticada sem bater no chão. Camelo. Apetece-me assassinar o instrutor daquele dia, mas depois vem uma sensação tão, excuse my potuguese, porra, gosto desta porrada, que volto.