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18/10/2018

Eu tenho problemas com tudo # 36

Comprámos uma cama de duas pessoas há menos de três meses e ontem à noite escavacámo-la toda.

Pois é, isto, contado assim, esguicha logo duas ilações: a cama é material fraco; vocês são dois gandas malucos/gordos/desastrados.
Nada disso. Tivemos o cuidado de ir adquiri-la em qualquer lugar que não fosse na loja do sueco. Demasiada má experiência anterior — la madre de las cosas —, e contra o empirismo não há argumento. Fomos a uma semi-conceituada marca de móveis, tudo muito design, art nouveau, art deco, art por todo o lado, qualidade que se equipare ao preço, pois que não são nada meigos na hora do vamo-ver.
Cama excelente. Mesmo. Linda, azul, não demasiado rococó, que eu sofro de alergias em relação a cabeceiras de camas de casal. Noventa e nove vírgula nove por cento, são só pirosas. 
Ontem tínhamos uma comemoração para fazer, uma coisa íntima. (Soa mal? Era um aniversário cá do lar.) A dado momento, devemos ter coincidido quatro em cima do colchão, mas não houve nenhuma interacção que justificasse o crac do pé da cama e seu consequente desabamento lateral.
(Portanto, esta noite dormi sobre um dicionário da língua portuguesa, o que pode ter pontos positivos na minha alfabetização.) (Posso atestar sobre a rijeza de um dicionário daqueles, coisa muito mais fiável do que uns meros pés de madeira lá da loja do outro.) (Vai-se a ver e está encontrada a solução para os quatro pés da cama, que os outros três deverão ter qualidade análoga.) (Eu sabia que hoje ia escrever algures a palavra "análoga".)
Hoje, aí pelas dez da madrugada, já eu me entrosara pelo estabelecimento adentro, discurso bem treinado, para não dar azo:
- Bom dia. Eu comprei aqui, há três meses, uma cama de casal, e ontem à noite, um dos pés partiu-se.
[Momento em que duas caras se abrem, olhos, bocas, até narizes, em sinal de espanto/desconfiança/choque, e em que sentes que, seja o que for que digas a seguir, vai soar estranho/falso/inútil.]
- E, convenhamos, não houve um impacto, uma sobrecarga, enfim, motivo algum para que, de repente...
Olhem, mais valia ter inventado uma história qualquer, que pareceria mais verdadeira do que a inverosimilhança da verdade.
Só malucos, éramos seis, em cima da cama. Estávamos no entusiasmo de umas festividades cá nossas, e aquilo, lá no meio dos solavancos, esborrachou um pé, e só não caímos todos porque nos agarrámos uns aos outros.

Vamos ver como é que se portam no apoio pós-venda. Só em função disso é que digo o nome da loja da cama, que a mim também ninguém me paga para me calar. 


23/09/2018

Chafé = chá de café*

Deu-se que fui tirar um mísero café, a troco de cinquenta cêntimos sem troco, da máquina dispensadora, mas, ao invés disso, ela dispensou-me um copo de água quente um bocado suja, tipo um chafé chalado, e eu queria mesmo era uma bica daquela bica.
Então, rarefeita, contrafeita e quase desfeita, dirigi-me a penas apenas ao balcão, copo de mijaroca na mão, já com a resposta que ia receber preparada: "Nós não somos responsáveis pela máquina".
- Nós não somos responsáveis pela máquina. — Disse-me ela assim para mim. 
Foi quando comecei a argumentar que não podia ficar sem café (não podia, efectivamente) e sem dinheiro. Evitei aquele outro chavão, não é pelo dinheiro, é pelo princípio (porque, na verdade, também era pelo dinheiro, porque eu não sou só pelintra, sou também sovina), e tratei os meus cinquenta cêntimos como se fossem cinquenta euros, a ver se dava a entender à pessoa que a grande questão se prendia mais com a necessidade de injectar o líquido no sistema sanguíneo do que pela pobreza franciscana em que me ia deixar tamanha perda. Ela sossegou-me, garantiu-me que o técnico ia lá todos os dias e que, no dia seguinte, me restituiria a moeda. 
(Lá fui pular sem cafeína, e depois admiro-me que não rendo o que gostaria no ginásio.)
Não fui no dia seguinte, mas para aí dois dias depois. Directa ao tal balcão, quis saber da minha moeda. Diz-me ela que ainda não era possível dar-ma de volta, que eu aguardasse mais uns dias, e foi aí que só não perdi a cabeça porque as vértebras não o permitiram. No entanto, apesar da revolta interior que ameaçava libertar a besta que também me habita, questionei, quase em falsete:
- Então quando é que isso é possível? O técnico não vem todos os dias? Era só tirar a moeda da máquina e restituir as indevidas. Ou não?
- Não, porque a situação é reportada e ainda vai à central. De lá é que dão o ok para as restituições. 

(Senti-me morrer um nico, como everytime we say goodbye.)


* não fui eu que inventei, créditos para um grupo com quem trabalhei, num local onde era recorrente fazermos chafé. (Acho que por engano.)

28/08/2018

As voltinhas do Marão

Se nunca fizesteis a estrada entre Gestaçô e Mafômedes [sim, temos nomenclatura que nem Mr. Google, essa fera da estratosfera do pináculo do conhecimento conhece], não sabeis o que é A adrenalina. Quais Space Mountain Mission 2, quais bungee jumping, quais comboio fantasma da Feira Popular de mil novecentos e poucos. 
São só vinte e dois quilómetros. É só contornar a serra. 
É só penhasco de um lado e abismo do outro.
(Hipótese A: riscas o carro; Hipótese B: cais do barranco, tu e a viatura.)
Parece a ilha da Madeira, naquele belo e sinuoso percurso entre o Funchal e Câmara de Lobos, só que o dobro da extensão. 

Tipo isto. 
Diz que a imagem pode estar sujeita a direitos de autor
(Eu digo que o autor se despencou)

Mas de noite. Cerrada. E com subidas, sei lá, também não fui buscar o transferidor, mas para aí de uns 35 graus. Se passamos de uma altura de 443 metros para uma de 817, fazei vós as contas, que eu ainda estou muito nervosa.
E às curvas e contracurvas, algumas de 360º, a subir (uuhuuh, tão bom para quem enjoa), mesmo a dar a ideia de que estamos a voltar para trás, o que tomara, a partir de certa altura do percurso. Não há iguaria que justifique correr semelhante risco de vida. [Pronto, enfim, se a Mealhada fosse ali, fechava os olhos ao perigo — desde que não fosse ao volante — e lá ia na mesma.]
E depois, zero iluminação. O bote em primeira velocidade e ligados os máximos, o máximo!
O ser humano ia de passageiro. À ida, tinha o precipício à direita e a parede de rocha à esquerda. Morri de pânico, é certo. Não me lembro do que jantei lá na tasca. Acho que nem comi, diante da perspectiva do regresso. Sei que bebi um tinto do Douro, e isso pode ter contribuído para que, à vinda, tenha basicamente pensado "que se lixe o carro" perante o rochedo, e "heh, isto voa", considerada a possibilidade da queda na ravina.
Não caí, mas também não me apanham lá outra vez. [A menos, obviamente, que Pedro vá ali montar mais um Leitões.] Sequer gozei da vista que dizem maravilhosa sobre o Marão, derivados ao breu, mas, agora que penso nisso, ainda bem, pelo que me é dado observar nas imagens de Mr.: depois daquilo, e ver-me toda rodeada por rocha, não, muito obrigadinha, que para Heidi já basta a outra.


15/08/2018

And that awkward moment # 50

em que envias um SMS à tua ex-senhoria — a proprietária da casa que ocupaste enquanto a tua sofreu (amargamente) obras —, pedindo-lhe que procure uma fronha das tuas, por lá esquecida (e que não é uma fronha qualquer, uma vez que tem dimensões especiais de almofadão), e, já agora, porque é tua, e porque a queres de volta, e ela te responde,

É uma fronha de casal ou de solteiro?

...
...
É então que se te abrem várias hipóteses, as quais nunca antes ponderaste:
Hipótese A: Ela não sabe o que é uma fronha;
Hipótese B: És tu que não sabes que existem almofadas de casal e de solteiro (e as de casal dão para duas cabeças?);
Hipótese C: Existe toda uma panóplia de tipos/tamanhos de almofadas, de entre as quais a de unidos de facto, assim como uma sub-panóplia, que compreende a de solteiro-empedernido e a de solteiro-galdério, que tu desconheces;
Hipótese D: O que significam as fronhas iguais, naqueles "jogos" de lençóis de casal?
Hipótese E: Ela leu mal a pergunta;
Hipótese F: Tu leste mal a resposta dela;
Hipótese G: Tudo o que é esquisito vem ter contigo e tu atrais aquilo que és (daí os malucos, daí os bêbados, daí os cães, daí os chatos);
Hipótese H: O melhor é comprares uma fronha nova e esqueceres que o Mundo é assim mesmo, cheio de cenas que não são a tua cena;
Hipótese I: A tua vida é pautada por coisas e dava um (mau) filme de David Lynch.

17/03/2018

Eu tenho problemas com médicos # 29

Agora supõe que vais para que te tirem um RX à boca. Meteste na cabeça — ainda não literalmente — que vais colocar um aparelho dentário invisível. (Daqueles que, tal como n' "O Rei vai nu", só os espertos conseguem ver. Vai na volta e nem eu própria.) Não que tenhas a dentadura a gritar por endireita (caso contrário, já há várias décadas os teus pais se teriam encarregado desse assunto), mas porque queres. E é a velha história de a-menina-quer, enfim, apesar de ainda andares nas démarches do orçamento. Com toda a probabilidade, vem de lá uma surpresa financeira que te fará pôr a cabeça no lugar, e os dentes aonde estão actualmente.
O dentista dos olhos bonitos é que receitou o RX, para poder fazer O Estudo. Antes disso, sujeitou-me a todas as sevícias de que se lembrou naquele dia: meteu-me na boca uma papa amarela e gosmenta, parecida com plasticina, que disse ele que sabia a baunilha. (Eu, pessoalmente, prefiro pistachio ou chocolate, mas achei chato dizer.) E mandou a pessoa morder aquilo, juntamente com duas espátulas de metal, vá lá que uma de cada vez. Quando já havia dejectos de plasticina amarela por todo o ser humano, desde os ombros até aos cabelos, mandou a assistente colocar-me um babete e a mim mandou-me lavar a boca lá naquela torneira que os dentistas têm. A mim tudo me anestesia (até mesmo um naco de plasticina), pelo que bochechei aquilo pelas paredes do lavatório afora, o que deve ter poupado alguma coisa ao trabalho da senhora das limpezas, na madrugada seguinte. De seguida, meteu-me uma coisa plástica nos dentes para manter a boca aberta e foi buscar uma máquina fotográfica daquelas potentíssimas, com uma lente gigante, e desatou a fotografar-me a boca naquele preparo. Ora, eu estava deitada, por isso temi que a objectiva se soltasse e me caísse nos dentes. Mas, afinal, não. Quando, finalmente, me deu autorização para me levantar dali, disse que me ia tirar uns quantos retratos (de frente, séria; de frente, a sorrir; e de lado, a olhar por cima do ombro). Tirei o babete e cedi. Dei o meu melhor, embora parecesse mesmo que estava na Judiciária, apesar de ele não ter querido fotografar-me de perfil. Ainda bem, porque nunca sei qual é o meu melhor. (São os dois tão bons, cada um à sua maneira.) 
Fui fazer o RX e aparece-me o técnico, personagem saída directamente de um livro de Charles Dickens: praticamente calvo, ainda com algum cabelo no topo, a ver-se a cabeça à transparência, mas de cabelo comprido. 


Homenzinho sisudo, cara de carnes chupadas, olhos sinistros. Pôs-me a cabeça entre umas traves, a boca a morder uma placa de plástico, e disse-me para fazer um sorriso forçado. Pensei que fosse uma brincadeira, porque um sorriso forçado já eu estava a fazer. De pânico, é certo, mas um sorriso na mesma. Afinal, era para mostrar os dentes para a máquina. Eu, por acaso, tenho bastante medo daquele momento em que as placas começam a andar à volta da nossa cabeça, porque sempre achei que um dia uma delas me vai decapitar, não sei porquê. Mas acho que não aconteceu nada disso, e depois fui para casa.

07/03/2018

Poetry in motion

Sabes, ou suspeitas, que o fim do mundo poderá estar levemente próximo, quando, em pleno metropolitano de Lisboa, aquela voz off da senhora, que outrora proclamava
Esteja especialmento atento à entrada e à saída do comboio
e, anos volvidos desta saga intraduzível, o corrigiu para especialmente atento,
mas que, actualmente, avisa, no seu melhor Inglês,
Pay special attention when entering or exiting the twain [Mark or Shania, that don´t impress me much?]
no actual momento (que eu tenha dado por isso desde a passada segunda-feira), declama.
Ora, e declama o quê?
O que mais, senão poesia, pois que a declamação só a ela lhe é intrínseca?
Temos o metro da cidade a jorrar Camões e Pessoa aos altifalantes. Aquele susto, quando imaginamos que nos vão anunciar mais uma avaria/ incidente com passageiro/ perturbações na linha (amarela, azul, às riscas).
Quando não ela, um ele.
Ainda hoje, nem de propósito, já dentro do tal comboio, veio A Voz dizer que tínhamos todos que sair uma estação antes, devido a avaria beca-beca-beca. Vá que não estava a chover, e deu para chegar mais ou menos inteira e totalmente seca ao meu destino.
Senhores passageiros, e lá veio o resto do recado. Ora, eu, que sou fóbica dos aviões, procurei logo o raio da máscara de oxigénio, o colete salva-vidas e o para-quedas. Nem sei como é que não me lembrei de me pôr em posição fetal. Afinal, era só para me dizer que tinha que dar à sola mais um quilómetro nesta vida, mal sabe ele que de salto alto. A ver se me bufou aos ouvidos Alma minha gentil, naquele momento. É o bufas.


27/02/2018

Espírito de missão, ou lá o que é isto

Tinha uma autoincumbida — porque a autodeterminação é uma coisa muito bonita — e comprida missão a cumprir, que era a de fazer uns pequenos bolos para oferecer a um grupo ao qual pertenço, sendo que, para tanto, teria também que providenciar pelo seu transporte (dos bolos, não do grupo), o que envolvia uma sinuosa e previsivelmente acidentada viagem de metro. 
(Eu sou aquela detestavelzinha que se mete nas merdas com a estrita e única intenção de depois poder queixar-se. Aviso já.)
(É que isto tinha tudo para correr mal, e até me palpitava a anteriori, por que é que insisti? Para haver uma  posteriori? Para ter ceninhas para contar? Chata da porra.)
Comecei por fazer, com a mesma receita, um mega-bolo lá para o lar, feito laboratório experimental, com vista a atingir uma amostra estatística: assim eles gostassem, assim o grupo gostaria. O bolo desmanchou-se, como já disse e não quero voltar a repetir, mas ficou tão saboroso e foi aspirado em tão poucas horas, que a interpretação dos meus dados me disse que sim, que era aquele o caminho. 
Fiz, então, pequenos e belos cocozinhos os bolos pequenos.

Hã? Só classe.
Tanta coisa para demonstrar o quão sou boa na cozinha,
vertente pastelaria e doçaria.
Receita aqui.

Seguidamente, enfrentei o problema do acondicionamento para transportar meus produtos no sinuoso percurso de quarenta minutos, que envolve uma parte a pé, outra nos trancos e barrancos do metro — com mudança de linha incluída —, mais outra parte que envolve a subida de uma rua cujo passeio é em formato de anedota (hahaha. Não ri, isto foi um espasmo). No entanto, arranjei uma caixa perfeita para aquele fim, grande e rígida, que meti dentro de um saco de compras dos grandes, para poder carregá-la mais facilmente (?).
(Nesta fase do processo, já eu estava arrependida de ter nascido.)
Saco ao ombro, toca de dar início à viagem, isto tudo de saltos altos, que eu cá, quando me meto nas missões, é para esfolar os dois joelhos até sangrar. 
Após ter atravessado ventos e marés, materializados sob a forma de escadas rolantes — nas de descida, há toda uma estratégia e uma arte de equilíbrio a considerar aquando da colocação do pezito no degrau certo, sobretudo quando se vai assim carregada —, escadas não rolantes (aquelas que ficam sempre paradas, sabem?), entrada no metro com um saco enorme (ou que, pelo menos, ia aumentando de tamanho à medida que o tempo decorria; e eu já a sentir-me um São Cristóvão) (vá que não me deu para sair no Martim Moniz), atravessamento das portas automáticas pelo lado do canal especial, mais escadas rolantes e escadas quietas (numa tradução livre, libertária e feliz, rolling stairs versus stone stairs), mais o tal passeio de piada (hahaha, outro espasmo), para chegar lá e...
oh...
... não haver encontro, por ausência do mestre.
(Não voltei para trás com a tralha toda atrás, não. Fiz beicinho e pedi que me guardassem os meus pequenos dejectos no frigorífico até uma próxima oportunidade. Até lá, transformar-se-ão efectivamente nas poias que parecem ser, mas paciência. A sorte protege os audazes. (E também os prevaricadores.) (E os lamechas.) (E os irónicos.) Enfim, não sei por que é que escrevi isto. Mas tinha ali este título metido nos rascunhos há que tempos, já não sei para que post, e tinha que acabar este de qualquer maneira.

14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

11/02/2018

A minha vida sobre um esférico

(Agora sei como se sente O Principezinho.)
Meti-me numa aula daquelas da bola suíça, achando eu que era para preguiçosos, senhoras de idade ou pessoal em recuperação, e, por isso, a fazia com uma perna às costas. Enganei-me redondamente, o que é literal neste contexto: a p. da bola não pára quieta (deve ser porque é redonda), não é tão leve como parece (só quando a vamos buscar lá à estante, porque ao fim de umas quantas vezes de a termos suspensa nos braços, e-sobe-e-desce com aquilo, parece um menir), tem uma capacidade marginal para se nos escapar de debaixo que é um miminho, e, se é fácil equilibrarmo-nos sentadas em cima dela (à laia de pufe), a seguir exercer os exercícios é que são elas. (Experimentem só levantar um pé, abrir os braços e rodar o tronco para o lado do pé no ar. Uh-uh-uh, hei-hei-hei!). Depois, ele há pessoas humanas, que a minha modéstia não me deixa dizer quem, que ainda as inventam, só para facilitar ainda mais a (que parece inevitável) queda: a aula faz-se com uma banda de borracha elástica, que é para agarrar entre mãos, esticar de braços abertos, e, assim, ganhar músculo não sei aonde, mas aquilo custa um nico. A titcha mandou deitar em cima da bola, rebolando-a no chão desde o rabo (nosso) até às omoplatas (também nossas), mas ocorreu que a pessoa ainda não tinha deslargado a banda, meteu-se uma ponta por baixo da bola, enquanto a outra se entalou entre a virilha e a parte de trás da pessoa, e, quanto mais rebolava, mais prendia a banda, não sei se estão a perceber o mecanismo e, simultaneamente, o enguiço. Estava a ver que me metia debaixo da bola, a rebolar pelo tapete afora, como nos desenhos animados, assim magrinha e espalmadinha como uma folha de papel. Ou que disparava a bola como um canhão, fazendo da banda uma fisga. A situação só acabou quando me pus de pé, como um homem, e me desembaracei o melhor que podia do material que me amarrava. Quando a voz de comando nos mandou deitar de barriga para baixo em cima do esférico, tive a certeza absoluta que não me importava de ficar naquela posição para o resto da vida: parece que se flutua, não se tem que preocupar com o abdominal definido, e, no fundo, é como ter uma roda em decúbito ventral, o que dá a sensação de poder levar-nos até ao fim do coiso. Não lhe dizia que não.
Conclusão: é bom, não é fácil, hei-de lá voltar num dia de melhor coordenação (se ele existir).


03/02/2018

Na vida também é assim

E aquela pessoa que faz um esforço titânico para te demonstrar que está chateada/ amuada/ ofendida/ triste/ aborrecida/ etecetera, contigo, e tu levas muito tempo (conceito que pode variar entre alguns minutos, dias, semanas e meses) a perceber? Há algo errado em toda a mise en scène, ou ela não se exprime muito bem, ou tu tens uma grandiosíssima e louvável incapacidade para interpretares sinais de um código Morse da morsa.
Até que um dia a coisa se dá, parece-te mesmo, ao início, depois parece-te definitivamente, depois adquires uma leve certeza, finalmente uma absoluta. E então questionas-te e respondes-te imediatamente que espera lá, mas quem devia estar chateada/ amuada/ ofendida/ triste/ aborrecida/ etecetera, nesta concreta situação, não era eu?




05/01/2018

Há determinadas lojas [físicas] que não percebo como é que têm arcaboiço para se manterem de pé

Se não, vejamos: a pessoa humana corre três ou quatro clássicas na busca de mais um par de botins, para aqueles dias em que não lhe apetecem saltos tão altos, nem tão baixos, nem os botins bordeaux, nem as botas de cano alto — as pretas ou as castanhas —, nem nada, e sim para poder calçá-los com saias e vestidos sem parecer uma gaja de Chelas, que o melhor mesmo era podermos andar descalcinhas e como eu compreendo a gaja do téne, a gaja da sabrina, a gaja do sapato Dr. Scholl*. Numa delas, que não vou dizer qual é, mas posso adiantar que é aquela do nome com um urso a quem tooooda a gente chama cerveja, encontra dois pares razoavelmente catitas, mas ambos sem par, ou seja, poderia trazer uma de cada, não fora correr o risco de parecer mais maluca do que já não é. Noutra delas, encontra online um par mesmo-mesmo-aquilo, que está descontinuado. Arre égua para este adjectivo, em se referindo a trapos e seus complementos. 
Ao cabo de mais umas quantas pesquisas — o meu disco rígido deve estar hirto de tanta loja e muito mais cheio do que o meu roupeiro — e buscas, eis que lhe surge o par ideal, não para a vida, não para a dança, não para a borga, mas para o exigente pezinho (ou para a exigente cabecinha, cada um interpretará). 
Ah, saldos, ah, que só há 35 e do 39 para cima, ah, que só há o que está exposto. 
Ah. Que só há para a dama pé de cabra e para a patuda em geral. Caneco, não se pode ser vulgar em lado nenhum, nem no tamanho do pé?
Já no lar, nem ao trabalho tive que me dar, de ligar a computa: foi mesmo através de Ai-fostes. 
1. Ir ao site;
2. Procurar pelo número da referência;
3. Escolher tamanho;
4. Adicionar ao cesto;
5. Confirmar compra;
6. Escolher método de pagamento;
7. Guardar referência, entidade e quantia.
Sete cliques. Só precisava de ter polegar para lá chegar.
(Claro que depois, como a minha vida tem que ser este filme exótico, ainda tive que ligar para o banco que me assiste o netbanking, e falar com uma operadora que, para além de não me ter resolvido o assunto, ainda fez a fineza de me arranhar os ouvidos quando eu protestei com a dificuldade que estava a ser proceder a um simples pagamento por MB, com "o banco não implanta essas medidas", e depois referindo-se à "empresa para a qual pretendo efectuar o meu pagamento" — palavras minhas —, chamando-lhe "Bresca".) (Ai, desculpem, não queria dizer o nome da loja. Bershka*, aquela a quem também há quem chame Bérssssca.)

*NMPPI

Só as démarches que uma senhora passa para chegar a isto

26/12/2017

Ai, que magia tens, Natal

Acabo um trabalho, com prazo espartano o-mais-depressa-que-conseguir, isto pela manhã do dia 23, antevéspera de Natal — sábado. 
Envio a parte final — pois a maior parte já está do lado de lá —, e recebo imediatamente um aviso automático de Não me encontro no escritório, é favor mandar para a minha colega X, que eu cá só volto para o ano, lá para o dia 3.
[Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.]
Envio então para a colega X.
Hoje, dia 26, que me parecia ser dia de labuta, muito mais do que o dia 23, mando para a colega X a conta. Só naquela, a ver se me pagam.
Recebo então um aviso de não recebimento, erro com um número que não fixei, mas que sei significar caixa cheia.
[Mais uma, directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.]
Talvez para o ano.

15/11/2017

Espero que não haja câmaras de filmar naquela sala

Carrego carinhosamente comigo, há três dias, um torcicolo. Ainda assim, ao primeiro dia de dores escruciantes, meti-me numa aula de GAP. A parte do A deste feliz e bem engendrado acrónimo — abdominais — pode ter constituído dos momentos mais dolorosos de toda a minha passagem por este planeta azul. Tudo sem um ai, que eu posso ser portuguesa, mas ainda sou uma senhora. 
Felizmente, o volume da música estava muito alto, e a instrutora tinha um microfone agarrado à cabeça. 


14/11/2017

Era só um enrolador de pestanas térmico

Se a minha vida não podia ser tão mais simples, um mar de rosas ou um campo de papoUlas ao vento, verdejandes e carmesantes, esvoaçando pólen alergeno em toda a sua dimensão e capacidade? Podia, mas já não era eu.
Num exercício conjunto, vamos todos supor que eu quis, um destes dias, vir a ser possuidora de uma coisa estética, agora não interessa para aqui o quê. Ora, o normal, seria adquiri-la, experimentá-la na minha cobaia preferida — OK, eu — e, eventualmente, vir aqui para o buraco rasgar-lhe elogios vários, ou, quem sabe, descoser-lhe críticas ferozes. Na loucura, dava uma de blogger a sério, fazia um tutorial e explicava os meus porquês para tão arrojado passo.
Ao invés, deu-se início a mais uma novela por episódios em que consiste esta minha existência.

Ep 1 - 27 de Outubro: Farta de procurar pelo produto em dois ou três mil sites, cliquei na Avon*. Inscrevi-me no coiso, dei a minha ficha toda, para lhes dar oportunidade de encherem a minha caixa de mail com spam, e pensei que tinha feito a encomenda. Recebi então um mail lá da firma, afirmando-me que a minha encomenda tinha sido direccionada para a revendedora mais próxima da minha região. (Que é Lisboa, a pequena Lisboa, tipo a capital do país.) Isto, após ter sido informada de que a minha zona não tem revendedora disponível. (Eu percebo. Portanto, moro nos arrabaldes do epicentro.)
Ep 2 - 2 de Novembro: Apresenta-se-me, através de sms, Diana, a revendedora — que, afinal, existe, ou foi entretanto nomeada —, a querer saber se eu sempre quero a encomenda. Respondo que não, uma vez que não pretendo intermediários naquela compra (só para não lhe dizer que não estou disposta a levar mais uma seca nesta vida e ver-me obrigada a comprar mil produtos que não vou usar, só para que uma carraça me deslargue o pé), que passe bem. Resposta de Diana: Onde é que me encontro consigo para a entrega? É claro que trocámos miminhos a partir daqui, andámos à briga via sms, fizemos as pazes e acordámos a entrega para quando ela tivesse o produto consigo. Nos entrementes, diz que tem "passe da Carris", sugiro-lhe uma estação de metro junto a mim, responde que isso já é "muito longe". (E sou eu quem mora nas cucuias.)
Ep 3 - 12 de Novembro: Diana informa-me que já tem o artigo. Pergunto se quer combinar a entrega. Diana não responde.
Ep 4 - 13 de Novembro: Diana quer encontrar-se comigo. Combinamos local, depois de nos desentendermos mais uma vez — porque Diana desconhece em absoluto onde fica a cidade de Lisboa —, mas não hora. Insisto. Diana não responde.

Pergunta para queijinho: este negócio não vai acontecer, pois não?
Pronto, era só para saber se vou continuar a enrolar as pestanas com aquela bodega que parece uma tesoura que me vai cortar os olhos ao meio, e ainda me deixa as pálpebras de cima cheias de feridas da alergia ao níquel.
Beijinho bom, obrigada.

* Ninguém me paga para me calar

10/11/2017

Eu tenho problemas com tudo # 29

Sei que entrei naquele parque de estacionamento ainda não eram 4:30 da tarde. 
Tirei o bilhete à entrada, não só porque não havia Via Verde, como também porque, ali, as duas primeiras horas são grátis, e estacionei Rosinha. Fui à minha vida e voltei. Entre tirar o bilhete e voltar ao carro não passaram mais do que quinze minutos. 
O bilhete não estava na mala, naquela bolsa específica onde sempre os ponho, já por causa das coisas. Não estava na outra bolsa. Não estava na do fecho. Não estava entalado no porta-moedas. Não estava misturado com os mil papeis e o lixo todo do interior da mala. Não estava no tablier. Não estava no chão do carro. Não estava no tecto do carro. Não estava neste Mundo. Como um anjo alado, fora-se. Sumira-se no ar.
No ar, também o meu suor. Passei, então, ao Plano B: despejar a mala. Porque tinha que ser na mala que o tinha posto. Vi bloco a bloco, agenda a agenda, papel com anos a papel com anos, e nada. Parei para respirar, saí do carro, tentei raciocinar as possibilidades várias para explicar aquele sumiço. E também as que se me apresentavam, caso não encontrasse o bendito: qual é a tarifa máxima diária — que é o "preço" do bilhete perdido, conforme sabeis —, tendo em conta duas horas grátis? Quis multiplicar zero por zero, para não piorar a minha situação, mas piorei. Sabia perfeitamente que: 
A. Encontrava o cartão;
B. Não encontrava o cartão:
    i) Pagava a tarifa máxima diária;
    ii) Fazia uso de eyelash power e o responsável lá se compadecia e abria a cancelinha;
  iii) O responsável era uma mulher, pagava a tarifa máxima e ainda era enclausurada numa catacumba qualquer, despojada de todos os meus bens e raciocínio lógico.
Meti-me corredores afora, a pé, até à entrada do parque, pensando na possibilidade de o ter deixado cair quando o retirei da coluna. Mas também não estava lá. 
De volta ao carro, despejei a mala pela terceira vez, procurei de novo, liguei a lanterna de Ai-fostes, procurei em todos os recantos possíveis e imaginários — esses mesmos, que proporcionam posições à pessoa de uma elegância digna de registo fotográfico —, mas o c. do bilhete não apareceu. 
Toda eu era suor, desânimo, raiva e vontade de chorar de abandono e frustração e tudo o que assiste a uma mulher nestas horas. (Ninguém nos dá o nosso devido valor.)
Desisti. Há sempre um momento, em todas as lutas, em que o guerreiro, por mais bravo que seja, baixa os braços. Se não há, devia haver. Eu baixei os meus ao fim de quinze minutos de enfardar pancada.
Arrastava-me, pesarosa, para o gabinete do segurança, quando vi um bilhete no chão, a uns cinco metros do meu carro. Hora de entrada, 16:24.
Se não era o meu, passou a ser. Naquele momento, perdera todo o civismo, e tinha como único objectivo de vida sair daquele parque. Se fosse outro o dono daquele bilhete, paciência, pusesse-se ele de rabo para o ar dentro do carro dele, e tratasse de encontrar outro bilhete, de outro avoado da vida. 
Depois até segui as setas que indicavam a saída, mas, quando alcancei a rampa para subir para o exterior, elas estavam desenhadas em contramão. Posso ter saído pela entrada, sim. Mas saí. 


05/11/2017

Cuidado com os acrónimos

Ora, se eu já estava moída da minha musculatura por ter ido quarta, e por ter ido sexta, o que é que fui lá fazer ontem? 
Quis experimentar uma modalidade, que dá pelo nome de GAP, meia horinha, pareceu-me coisa de bom tamanho, rápida e intensa. 
Mal sonhando que GAP é o acrónimo de glúteos, abdominais e pernas, hahaha. Ha. Ha. Ha.
O instrutor, daqueles magros cheios da genica, gritou ao microfone que puséssemos caneleiras, que havia de um e de dois quilos, "Eh, turma, tudo a pôr de dois quilos!", vai a esperta, não querendo ficar atrás não sei de quê, e leva as de dois quilos lá para o colchão. À cautela, porque o seguro morreu de velho e a providência ainda cá anda, levei também as de um quilo, dando a entender que ia pôr todas. Mas pus "só" um par: o de dois quilos, ya. 
Lembro-me das frases gritadas, "Turma, levanta a perna!", "Agora insiste, turma!", "Agora pequeninos, lá em cima!". Só faltou chamar-nos "Seus maricas". Lembro-me também de ter arrancado uma caneleira, porque (ainda) sentia a perna a arder em flamas até à cintura, e de ele ma ter recolocado à força. Depois puxou-me a perna para cima e, quando a largou, ela caiu, inanimada e desorientada.
Hoje acordei e falecera. Partes de mim — glúteos, abdominais e pernas, designadamente — feneceram talvez de noite. Não estou sequer capaz de subir para o passeio, quando atravesso a rua. Pondero andar só pela estrada. Desconheço todo o mecanismo envolvido no acto de subir escadas. E de descê-las. Uma simples ida à sanita, urinar, digamos, é tarefa que me recuso a cumprir. Não me interessa, prefiro rebentar.
Como se não bastasse, hoje fui meter-me a zumbar uma hora, e depois mais outra hora nos alongamentos. Não tenho um único músculo inteiro, nem sequer nos maxilares, drivados daquele esforço. Tenho torcicolos por todo o corpo. 
Hoje odiei toda a gente graciosa e elástica. 
Para a semana há mais (caneleiras de um quilo em cada chispe e já gozam).


16/08/2017

And that awkward moment # 38

em que te cai o queixo aos pés e já não o consegues içar por forma a que se reúna com o maxilar superior?

Sais do mar ao teu melhor estilo, cabelos escorrendo sal e água gelada purificadora, um céu azul de doer, a praia com areal a perder de vista, ainda por cima pouco populosa para o dia que era, um feriado a meio de Agosto, numa qualquer praia dos arrabaldes desta capital europeia, calor do bom que não queima mas dá cor (assim uma entaladelazinha em termos culinários, vá), e te aparece no campo de visão a visão de uma mulher que conheces, mas não localizas logo. Ela vem de mamaçal à vela, aquilo do topless, e está com um dos braços a rodear o ombro de outra mulher, ambas íntimas assim uma da outra. 
E então, faz-se-te luz e não só reconheces a das mamas de fora, como também a localizas no espaço e no tempo.


E elas abraçam-se e beijam-se mutuamente os respectivos pescoços.


Então, tu passas a uma distância razoável, a suficiente para não interromperes o enlevo sexo-amoroso que as enrola, mas bastante para que consigas confirmar que ela é ela.

E é então quando reconheces a outra. 


[E, antes que me caiam aqui os homofriends todos (vinde, vinde, que tem até chicotinho), faço já o disclaimer que acredito no amor, que considero que cada um leva onde mais lhe dá gozo, que todos temos direito a ser felizes, que ninguém tem nada a ver com isso, and beca.]

Chocada? Não.
Não com isso que estais a pensar.
Mas minha incredulidade, se é que me é permitido explaná-la, advém de alguns factos a latere.
1. O facto de uma ser patroa da outra, logo a outra ser empregada de uma;
2. O facto de uma alardear a sua heterossexualidade como quem hasteia uma bandeira;
3. Uma ser a pessoa mais alpinista social, mais aspirante a thia, mais preocupada com a aparência, mais focada no bom gosto, na distinção, num certo apuramento artístico (apesar de le resvalar o pronome lhe constantemente e de errar intermitentemente na terminação de alguns verbos), e a outra ser a antítese física de tudo o que uma pessoa assim quer num homem, quanto mais noutra mulher. (E — oh, desculpem! — eu sou uma anormal animal, que entende que as relações amorosas passam por qualquer coisa de muito físico: no pica, no affair.);
4. As carradas de celulite, como bem observou minha sis;
5. Tudo nelas, aquilo da bota com a perdigota.

Vim-me embora no momento em que a uma tirou o top do biquíni dela e desatou a correr pela praia atrás do homem das bolas, um tal de Zuca, que apregoa as suas bolas em rima. Mulher bonita não vai pagar, mas também não vai levar. 

Se a minha vida não dava um filme de David Lynch, então também não sei para o que é que dava.