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26/11/2015

Quando não nos restar mais nada

e nenhum sentido nos puder valer, os olhos não nos disserem a verdade, o toque nos soar frio e o som já não for o nosso,

Teremos, como os animaizinhos, o olfacto, o cheiro de mãe, o odor de cria, que nunca nos enganarão, que nunca nos perderão.

Prometido. Por favor.

21/11/2015

Passaram dois anjos por mim

Dizem os brasileiros que, quando se faz um silêncio numa conversa de grupo, é sinal de que passou um anjo.
~
O primeiro, foi no momento em que ele, que sempre detestou sushi, quis provar, por amor a mim — por saber que eu gosto tanto, por ter consentido em ir a um restaurante de sushi por ser o meu dia, por querer partilhar comigo e perceber em mim o que é que tanto têm de especial aqueles rolinhos de arroz com peixe cru. Pegou nos dois pauzinhos, as vozes ecoaram que ia correr mal, afinal era a primeira vez, mas ele, mestre (Henriquinho), manuseou-os como se o tivesse feito sempre na vida, e levou um daqueles rolos à boca, certeiro. A minha voz disse, cheia daquele orgulho que me matará um dia, de tanto pecado, 
Este já nasceu ensinado.
E fiquei a ouvir a voz da enfermeira, quando mo trouxe, todo vestido de azul, cabelo preto cheio de ondas de mar, para me ensinar a alimentá-lo — e ele, de cabeça voltada na direcção do meu corpo, boca aberta no ar, só esperou que o deitassem no meu braço, para receber o alimento que eu tinha para lhe dar.
Este já nasceu ensinado
disse ela.
Fez-se ali um silêncio pequenino à mesa 
(É quando passa o anjo)
Tiveste um pensamento bom, estás a sorrir sozinha.
Ele a mastigar o sushi, com o gosto de quem gosta, irresistível passar a mão por aqueles cabelos de mar negro, e chamar outra vez, mais uma vez, para sempre,
Mamão.
~
Fui encontrá-la pequenina e inquieta, sentada numa roda de gente, alheada e minha — por isso a roubei para um canto, e desapareceu o mundo inteiro. Éramos nós, de mãos dadas como no meu primeiro dia que, afinal, foi o nosso dia um, de infinitos.
Uma mulher tinha acabado de lhe perguntar quem é que eu era, e vi-lhe os olhos em mim, responder,
Querida...
A mulher a insistir, a perguntar qual era o meu nome, e foi esse o momento em que achei que já chegava de nos fazerem doer, e fiz a mulher desaparecer, atirando-a para trás das nossas costas.
Hoje é dia 21 de Novembro, mãe.
Outra vez os olhos em mim, e um silêncio pequenino
(É quando passa o anjo)
Fez-se maior, o silêncio, quando nos envolvemos num abraço eterno — o mesmo que iniciámos  no dia do meu nascimento —, um enlaçar de braços que não mais se desfez.