23/09/2021

Com amigas assim, quem precisa de... (outras) amigas?

Enquanto me hospitalizaram e eu não tinha mais nada para fazer, a não ser, aparentemente, arranjar modos vários de não me darem alta, dei-me a um estudo antropológico das minhas amizades, através das mensagens SMS que recebia, nalguns casos bi-diariamente, noutros penta-diariamente, ou até ad-nauseum-diariamente, tendo chegado à conclusão que sim, talvez, quem sabe, é possível que seja verdade que atrais aquilo que és. (Enfim, isto não pode ser levado ao rigor rigoroso, caso contrário seríamos todas belíssimas, e não somos. Percebem?) Bom, em primeiro lugar, apercebi-me de que tenho muito mais amigas mulheres do que homens. Vá-se lá perceber porquê, os homens não costumam ser meus amiguinhos. Olhem, ide-vos encher de moscardos, já não vão aos meus anos.

Quase posso afirmar que saí do hospital com uma carrada de stress pós-traumático digna de ir directa para a Psiquiatria. As pessoas não têm consciência da profusão de mensagens (e não telefonemas porque cortei o canal logo pela raiz) que uma humana recebe quando internada, às quais não consegue dar vazão, só lhe restando uma de duas alternativas: ou responde, ou ignora. E acontece que grande parte das mensagens contém trinta perguntas, não se contentando o emissor, depois receptor, com um simples: "Estou melhor". É um "Já falaste com o médico?", "Já comeste?", "Já cagaste?", “O que é que surgiu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A sério, pessoas? 

Não consigo, assim de cabeça(da), eleger a best friend forever of das minhas mensageiras, sem que me sinta mal-agradecida ou malévola. Ou injusta, pois a verdade é que tal nem é possível, já que houve duas que ficaram ex aequo na capacidade de serem, como dizer…? Um ferro. Uma mala. Uma sarna.

1. A amiga que todos os dias me mandou mensagem de como estás, à qual respondi, imaginem o que quiserem, pois, indiferentemente do que dissesse, contra-respondia: “É uma recuperação muito lenta”. Imagine-se que a minha resposta à primeira abordagem do dia era: “Estou excelente, aos pulos na cama, já ensaiei o triplo mortal encapado à retaguarda com dupla pirueta”, que sim, lá vinha a contra-resposta pré-fabricada. Um dia enviou-me um longo texto a relatar que ficou presa na varanda e teve que chamar quem passava na rua, mas quem se passou fui eu, e então não dei resposta. Esperava-me uma recuperação muito lenta, nomeadamente deste tipo de interacção;

2. A amiga que todos os dias quis saber notícias, e, tal como a outra, tinha uma contra-resposta-tipo: “O que é que disse o médico?”, porque, convenhamos, ninguém melhor do que o médico — que, por vezes, ainda nem tinha feito a ronda e, quando já, tinha estado comigo, na loucura (não nessa loucura), dez minutos por dia —, sabia como é que eu me sentia. Um dia, à laia de solidariedade na saúde e na doença, disse-me que o marido estava com uma prostatite, e eu, impossibilitada de esgrimir de igual para igual esta espécie de argumento, já que nasci sem próstata, não respondi.

Para elas — se me lessem, mas felizmente que não, pois esta revolta sem reviravolta mágoa há-de passar-me (a tal recuperação muito lenta?) —, mas especialmente para mim, vale o lema: “Se não tens nada de útil ou agradável para dizer, simplesmente mantém-te calado”.


22/09/2021

Às vezes, também eu vivo no limite

Rosinha, minha canoa, transmutou-se, por motivos não óbvios, mas vários, num carro partilhado do lar que acolhe estes ossos que agora aqui escrevem. Meu boi envelheceu drasticamente, talvez nem seja possível arranjar-lhe novo dono, encontrando-se apenas à espera que um meteorito venha dar-lhe paz, o que pode nunca vir a acontecer, pois está jazendo na garagem.

Depois, acontecem episódios destes: pessoa humana liga a ignição de Rosinha, toda lampeira que vai dar um giro, e lê o sinal de falta de combustível. Havia emprestado a viatura a uma das crianças durante a manhã, ou melhor, um dos consortes havia feito uso do bem comum. Quando aquele sinal se ilumina, costuma carregar lá no botão que avisa quantos quilómetros ainda pode percorrer sem ficar apeada de colete reflector vestido e ar compungido numa qualquer estrada da vida. Digamos que deu 0. Zero. Dava para, tipo, minha gente, zero. Zero mais zero, é igual a zero. Podia, em suma, ligar o motor e ficar dentro do carro estacionado, à espera que ele se desligasse naquilo a que os antigos chamavam o peido mestre. 

Raciocinando soluções, ir buscar um jerrican de gasóleo era qualquer coisa de impensável: as quatro bombas mais próximas, equidistantes, todas a mil e quinhentos metros: uma a direito, duas a subir, outra a descer. Três mil metros de saltos altos não me pareceu fazível, pelo que se está mesmo a ver qual das quatro escolhi: se tudo falhasse, era destravar Rosinha e weeeee, lá vai disto. Pois, porque empurrar a coisa, lá está, de saltos altos, nem falecida, quanto mais a vender saúde. 

Enfim, ar condicionado desligado, vidros abertos, um quilómetro e meio de rezas e algumas promessas — nomeadamente, “Apagas-te agora e nunca mais levas Evologic” —, transgressão muito bem efectuada com vista a atalhar caminho, lá levei Rosinha até à manjedoura com tranquilidade. Para ela, porque a pessoa condutora ia nuns nervos tais, que desconhece ainda hoje como é que não entrou em auto-combustão, agravada pela profusão, no local, de combustível, passe o pleonasmo.

Ainda não foi desta que estreei o colete (tamanho XXL, não acho normal. Terei que lhe fazer uns ajustes e personalizá-lo com um cinto, ou assim), nem tive que adoptar aquele semblante de vítima do infortúnio.


20/09/2021

RESPECT

Se acharem que é spoiler, é não lerem # 15

Hum, não sei o que diga. Moí os ossos ao meu povo para que algum deles me acompanhasse a ver esta fita. Quase tive que ameaçar deslargar o lar para todo o sempre, cortar os pulsos (de um deles, não os meus) ou fazer greve de fome até ficar igual à Claudia Schiffer, mas em morena e bela. Está bem que podia bem ter ido sozinha, porém deu-me a birra e queria levar pessoas. Consegui convencer, através de suborno, uma única que se prestou e lá foi comigo. E, no final das contas feitas, apanhámos uma pastilha de duas horas e meia sem intervalo [carinho e amor para o legislador que permitiu o regresso do balde de pipoca à sala, pelo que pude permanecer desmascarada durante todo o filme, a chafurdar-me naquilo], a ponto de praticamente ter-me visto na contingência de ter que lhe pedir desculpas e de a indemnizar, para confirmar a óbvia conclusão de que, para se ter algum sucesso — e (consequente?) queda retumbante ao fim de meia dúzia de anos — no showbiz, há que abraçar as drogas ou ser-se naturalmente um bom borracholas. Parece que o plateau não é para sóbrios.



19/09/2021

Disparidades

Convocada para estar presente numa reunião com o homem do gabinete sem janelas, que toda a gente da minha família (a qual, conforme é sabido, é algo numerosa) — menos eu — já conhecia, entro e a primeira coisa em que reparo — fora o facto de não haver janelas, não sei se já disse —, é que ele tem um braço mais curto do que o outro. Terminada a reunião, comento com quem me acompanhou que não sabia que o homem tinha uma assimetria nos braços, e vá que não fiquei muito espantada que a minha companhia não tivesse em tal reparado, pois que é distraída, pois também que o assunto que nos levava ali era de maior absorção para ela do que para mim. Chegada ao lar, faço uma alusão ao facto, e não é que os restantes elementos da prole — um dos quais jogou à bola durante anos com o referido — me garantem que nunca deram por nada? Pessoas, eu estou a falar de uma diferença de vários centímetros, tendo em conta que o braço esquerdo do homem está em permanente ângulo de noventa graus. Qualquer coisa de evidente, que salta e pula à vista desarmada. Porém, explicações para semelhante mistério, já equacionei N:

1. Vi mal. Estive com ele à frente cerca de meia hora, mas foram trinta minutos de ilusão de óptica/ delírio/ alucinação;

2. Ele estava com uma cãibra ao nível do cotovelo, perfeitamente indisfarçável;

3. O homem comprou um fato num saldo, made in Tiroliro, e o molde de um dos braços era totalmente diferente do outro;

4. O homem teve um pequeno AVC assim que me viu, que basicamente disfarçou como pôde, ou seja, mal;

5. O homem já nasceu assim e eu estou rodeada de distraídos.