21/09/2018

Mihinha

A Mia, minha gata mais velha, foi operada ontem. No sábado demos com um caroço numa maminha, no domingo fez análises e ficou marcada a cirurgia para quatro dias depois. Tirou as maminhas todas de um lado, daqui a quatro ou cinco meses, já com dez anos, tira as do outro. 
A minha Mia nunca teve bom feitio, nunca foi o gato dócil que era a Mel, uma vez mordeu-me a ponto de me deixar uma cicatriz na perna, sempre odiou estranhos, nunca se enroscou nas visitas. Mas também não pediu para ir para a nossa casa, chegou-nos com três semanas, foi alimentada a biberon, tudo por um imperdoável capricho meu. E pode ter sido isso que fez dela desconfiada, insegura, ansiosa. 
(Adoro-a.)
E quebra-se-me o coração vê-la assim, ainda mais sabendo que vai acontecer de novo daqui a meses. 
Não sei como se mede o tamanho do amor que se tem a um animal, mas não deve haver uma régua, sequer uma balança fiel.




Foi tão blogger da minha parte # 9

Por mais anos que me passem sobre o lombo, nunca vou aceitar a lei das prioridades na sua plenitude de cada vez que sou confrontada com as ciganas [ai, Jesus, que coisa tão racista de se afirmar no blog!] [Olhem, não, quanto muito, etnista] e as gajas da Musgueira/ outro bairro assim desses [vá, agora elitista, ou estilista, ou lá o que é], que já vão para as repartições munidas de criança ruidosa, nem sempre de colo, nem sempre com menos de três anos, elas de auriculares na tola, telemóvel de última geração, o que quer que isso seja, chicla na boca, zero pachorra para a criança, e isto não é uma generalização, foi coisa que estes que o forno há-de cremar viu ainda hoje. Ainda apanhas, cumótro dia, disse uma para o petiz, de modo audível para o resto do povo, ou porque o volume da música (?) não lhe permitia sequer ouvir o que dizia. A sério que me pergunto o que é que estas pessoas vão fazer manhãs inteiras para as Finanças, a não ser fazer-me desacreditar na Humanidade.
Ao cabo de uma pequena tormenta de meia-hora de guinchos de uns e chinfineira de ameaças de outras (crime público, bitches!), fui atendida por um senhor que me tratou por Linda. (Queres ver que este sabe do blog? Estive para lhe sugerir uma parceria e tudo: ele limpava-me os impostos e eu dizia bem das Finanças dia sim dia não.)

20/09/2018

And that awkward moment # 51

em que ela me revelava os inalcançáveis e ocultos segredos do uso de uma água micelar — seja lá o que isso for — enquanto desmaquilhante, me aconselhava a utilizar discos de algodão para o efeito, e teve o cuidado de me recomendar (palavras dela) um disco diferente para os olhos, outro para a boca e outro para a cara.

E que eu, após esclarecer que não uso bâton, até entrei na mesma onda que a surfista do raciocínio, e respondi:
- O que me está a dizer é que não devo tirar a tinta das pestanas e depois passar o mesmo algodão pela cara abaixo?
- Exactamente.
[Exactamente. Lágrimas. Não de sangre. De tinta preta, mesmo.]

19/09/2018

Quando tudo te grita 'Não saias de casa!' # 5

Vá, que eu preciso de desabafar. Vão lá buscar os mochinhos, rodeiem-me e escutem-me, ou deixem-me.
Saí de casa com meia-hora de antecedência relativamente à hora de começo da aula de dança, para percorrer um percurso que não são mais do que dez minutos, mesmo tendo em conta os semáforos, as passadeiras, os xoninhas e etecetera. Subestimei a hora de ponta de Lisboa, subestimei que há uma casta de super-xoninhas que deixa o carro ir abaixo quando abre o verde, subestimei o quão difícil é encontrar lugar para parquear Rosinha, subestimei que preciso de cinco minutos só para me equipar, e até à paisana fui: um vestido que já deve ter sido mais largo, porque dantes me servia e agora está justo quase até ao sufoco, e uma sandalete de salto alto, que eu também não faço por menos. 
Digamos que, quando passei à porta do ginásio, faltavam quinze minutos para a aula, e de lugar para estacionar, nem sombra. Nem ao sol, na verdade. Afastei-me, assim, cerca de duzentos metros, e estacionei num parque daqueles que não só estão munidos de coluna de pagamento da EMEL, como também possuem um chão aos favos de mel em cimento, que consegue ser, simultaneamente, uma m. para os pneus e outra para os pés. Aconteceu, é claro, que a coluna de pagamento do parque ficava a, pelo menos, dez metros de onde eu me encontrava, mas o remédio era só um, como nas Finanças: pagar e não bufar. Perdi, portanto, a conta ao número de vezes que torci os pés nos favos de mel, até alcançar o pagamento do parque, e depois repeti a proeza no regresso, para pôr o raio do selo no carro. Palavra que equacionei usar a aplicação, ou então arriscar a multa, que me ficaria seguramente mais barata do que se tivesse fracturado um osso, que não fracturei. Neste meio tempo, já só faltavam dez minutos para a aula, eu estava a duzentos metros de salto alto da porta do ginásio, e o vestido, encharcado pelos meus nervos, havia-se-me colado à derme de tal modo que ponderei seriamente levá-lo para a aula, calçando apenas os ténis. Apressei o passo e cheguei quatro minutos antes do início da aula. O arrancar do vestido de mim foi algo doloroso, já que exigiu um momento em que, em asfixia, e em claustrofobia, tive que me contorcer toda lá dentro, arriscando a luxação dos dois ombros e dos dois cotovelos, para além da cervical e de todas as vértebras. Fui acabar de me vestir dentro da aula, já que foi lá que me calcei. (E sim, atravessei o ginásio a correr, descalça, como a outra.) (Não tem importância, eles estão habituados.)
É óbvio que não dancei nada de jeito.