02/06/2021

Afinal, a anti-social sou eu

Por mais que pense nisso — e confesso que o faço amiúde —, não consigo decidir qual das três foi a maior provação a que me vi sujeita durante a fase aguda do meu Covid: aquela cólica que me fez desmaiar de dor, ainda em casa; o tamponamento pós epistaxe, de que já aqui falei; uma das minhas três companheiras de enfermaria. E ando rés-vés para decidir por esta última. 

Nos primeiros quatro dias, fiquei por lá sozinha, eu e três camas vazias (e não, não sofro de solidões dessas, estava lindamente), que até parecia que estava num privado, ai tu queres ver que me enganei na porta e vim parar à Luz, socorro, accionem-me o seguro! Depois puseram uma senhora numa das camas, que era porreira, mas fazia videochamadas em toooodas as refeições e chamava ao vírus Covi. Quis explicar-lhe que COVID é um acrónimo para Coronavirus Disease, mas contive-me sempre. Estou a ficar bastante madura, eu, quando calha. Dois dias depois, instalaram mais duas: a humana de que falarei a seguir, e uma outra, que praticamente não falava, fazia telefonemas em surdina e dormia. Portanto, enfermaria cheia, ou melhor, super-cheia, já que a que me punha nervosa ocupava um espaço desmesurado, não só fisicamente falando, como também pela atitude da mulher. Ou seja, tive a oportunidade de conhecer uma pessoa que conseguia concentrar em apenas uma só — ela própria — tudo o que eu detesto num ser humano (embora tenha que admitir que ela me apanhou talvez nos piores quatro dias que ali passei, clinicamente falando, pelo que a minha visão (turva)/ paciência (zero)/ tolerância (outro zero)/ sentido crítico (cem) também podiam estar adulterados): entrou numa surpreendente e deslocada expansão de alegria, equipou-se com o pijama do hospital, deitou-se na cama e desatou a conversar, em profuso e compacto monólogo, com as outras três — de entre as quais, aqui a bruta — que ali estavam, todas mais ou menos obrigadas. 

Um - Esta pessoa começa toda e qualquer frase por "eu". Naquele caso, era "Eu sou..." e depois lá vinha um auto-elogio qualquer, do género uma força da natureza; muito activa; super-animada; incapaz de estar quieta. [E calada, acrescentaria eu, humildemente.];

Dois - Esta pessoa impinge a história da sua vida a perfeitos desconhecidos, quando esse é um assunto com zero interesse e pelo qual ninguém perguntou;

Três - Esta pessoa faz videochamadas. Numa enfermaria. Aos altos gritos. Para uma família que grita com ela. E faz ruídos enquanto grita (por exemplo, num momento, um dos filhos varria um chão de obra, coisa para se difundir em todo o espaço do lado de cá). Ou liga para as amigas, que estão na esplanada. Todas aos gritos. Ali às tantas, perguntei se aquilo era mesmo necessário, mas não obtive resposta;

Quatro - Esta pessoa — menina para os seus noventa quilos, apesar de, segundo ela, ser professora de Educação Física — disse aos médicos (por duas vezes, ouvi eu) que, desde que ali havia chegado, já estava farta de fazer ginástica. Óbvio que os médicos nem resposta deram, que imagem mental se faz de uma declaração deste tipo? O odre a fazer um mortal encarpado à retaguarda em direcção à minha cama, que era em frente? Eu sei, porque estive sempre acordada enquanto ela também esteve, que o máximo de ginástica que o panzer fez foi a rotação dos tornozelos, em breves sessenta segundos, sentada na caminha. 

Cinco - Esta pessoa obedece ao protótipo da que vai para casa/ trabalho/ vida em geral gabar-se que era a animação daquela enfermaria. Não. Helena. foste. responsável. pela. morte. de. vários. neurónios. meus. e. também. por. taquicardias. e. subidas. da. minha. tensão. arterial. e. da. febre. Assume. só.

No dia em que teve alta, e uma vez que a ambulância que a levava a casa se atrasou um pouco e logo fiz filmes de que ela poderia ficar mais um dia, congeminei assassiná-la. Mais umas horas com semelhante seca, seria, garantidamente, a morte de alguém ali dentro: a dela, que, ou saía pela porta, ou saía pela janela, ou a minha, de catatonia.



17/05/2021

Claro que tinha que fazer a coisa com algum estardalhaço

Já comecei este texto não sei quantas vezes, apaguei de todas elas, mas sinto que é importante divulgar o que aconteceu na minha vida no último mês. O vírus entrou-nos porta adentro, não sabemos se a ordem cronológica foi a do percurso do contágio: começou numa filha e correu a todos, menos a cônjuge, que foi, até ao fim, la pièce de résistance, de tal forma que foi "obrigado" a fazer um teste de imunidade (a Ciência quer perceber como é que alguém convive diariamente com uma chusma de infectados e passa por isso sem mácula), que resultou numa alta percentagem de imunidade, mais ou menos inexplicável: ou teve e não deu por nada (sendo que tinha feito N testes, todos negativos, nas últimas semanas, por contactos directos com infectados vários), ou não teve nem terá. 

Filha — vinte e dois anos — internada ao cabo de dias de febre e tosse, cuidados intensivos após três dias de internamento: oxigénio simples insuficiente, portanto, recurso a oxigénio por alto fluxo e, por prevenção, mais perto do ventilador, caso fosse necessário, o que, felizmente, não aconteceu. Foram três dias em que os nossos corações pararam. Não há visitas, há apenas um telefonema do médico de cada vez que há alguma novidade, as restantes vinte e três horas e cinquenta e nove minutos do dia, é esperar. Mas, calma, há um telefonema por dia — com videochamada — para todos os doentes da UCI que não estão em coma, o que, no caso, era só ela. E os outros não eram velhinhos, que ninguém se iluda. Estava, a título de exemplo, um homem, pai de uma filha bebé. Ao todo, a minha criança esteve internada nove dias.

Não a vi chegar a casa, porque teve alta  no dia em que fui ao hospital, por recomendação do Saúde 24, pensando que ia só ser vista e depois voltava: estava há cinco dias com febre, que não cedia a drogas nem a mezinhas, esparramada na cama e a desgastar-me só para ir fazer um chichi, ao ponto de ter a sensação de ter ido correr os meus sete quilómetros de domingo (só que sem suar), e não me pareceu que melhorasse nada. Afinal, fiquei por lá catorze dias. Sim, foram duas semanas de hospital. Não passei da enfermaria, mas passei as estopinhas, as passinhas do Algarve, o diabo a quatro. Talvez o caruncho derivados da idade explique muita coisa do que se passou naqueles dias, mas a verdade é que nunca nada estava bem. Nos primeiros dias, o tratamento anti-Covid não deu resultados aqui na flor, teve que ser mudada a medicação, e depois protagonizei um episódio épico de sangramento nasal, que me valeu o tratamento mais doloroso que algum dia sofri na vida (tamponamento, não queiram saber. Ter um nariz estreito só piora), depois era o coração aos pulos (pulsação de 130 logo de manhãzinha, quem é desvairada?), depois era o oxigénio que descompensava facilmente, todo um cenário "Se calhar, não é desta que morro, mas ó, se calhar até é". 

Já passou. Estou em casa há uma semana, já tão melhor do que nos primeiros dias que até já fui pintar a melena, já recomecei a trabalhar, mas tudo tão devagarinho que, se me dissessem que ter oitenta anos é isto, eu acreditava piamente. 

Mensagens a reter:

1. Não é porque és jovem que estás livre;

2. A porra da merda do vírus é algo de muito mais sério do que parece. Estimo que não me apareça pela frente um negacionista. Silenciá-lo-ei à dentada e à unhada.



16/04/2021

Profilaticamente isolada

Por razões não sei de que foro, que, exactamente por essa razão, não cabe aqui explicar — ficaria longo, ou então descabido, ou simplesmente não me apetece explicar (ah, a amarga liberdade, que gradualmente se vai perdendo por este deserto afora) —, encontro-me física e espiritualmente retirada da realidade (seja lá o que isso for nos dias que correm por estes dias) que é o mundo (oh) lá fora, ou seja, a rua. Assim, estou sem a matraca que me faz a lide doméstica, mal ou bem. Tenho, por esse motivo, aprendido algumas coisas, ou melhor, tenho relembrado que elas são como são, como afirma o povo quando não tem mais nada para dizer (bastas vezes), utilizando jargões que mais não são do que bengalas para o coxear do discurso desconexo. A saber: As minhas casas de banho têm sido lavadas com limpa-vidros, o que redescobri agora, já que já havia chegado a essa conclusão aquando da quarentena, nos idos 2020. Mal ela regressou ao trabalho, apliquei-lhe uma descasca de que não tinha memória nos últimos vinte e dois anos (entretanto, perfez vinte e três “de casa”, stricto sensu, as aspas aqui só vêm compor este ramalhete em jeito de rosário de amarguras), o que, aparente e realmente de nada me valeu, a não ser ter-lhe valido a ela um par de lágrimas (matematicamente, uma por cada olho, se tiver os dois sacos a funcionar em perfeito paralelo), que eu, halleluja!, não vi, mas recordo ter vagamente escutado umas fungadelas — que também podem ter derivado de alguma alergia (vai-se a ver, ao líquido para os vidros com que me higieniza as retretes, mas não os vidros, a avaliar pelo miserável e opaco estado a que mos deixa chegar), mas que eu, cruel, porém justa, olimpicamente ignorei. Quando a pessoa regressar, lá terei que repetir todos os blás da outra vez, ou, em alternativa, sujeitar-me ao diálogo que já antevejo, ou anteouço:

- A Sandra voltou a limpar as casas de banho com o líquido para os vidros. Diga-me porquê.

(Eu, sempre em busca do conhecimento; eu, antropóloga do serviço doméstico; eu, aplicando psicologia ao nível do uso de detergentes; eu, passada da marmita por dentro, mas por fora uma serena senhora, a evitar que me salte a mola e lhe solte os cães.)

Respostas possíveis:

- Aaaah...

- Eu já lhe tinha dito que precisava de um spray para as casas de banho, mas comprou-me um limpa-vidros e estou a usá-lo até ter o frasco vazio para poder meter lá a lixívia.

E é tudo por hoje.

Se me sinto mais leve? Não. Não tenho comido mais do que o costume, mas no próximo domingo não irei correr, e isso sim, pode fazer toda a diferença (mental). Tenho que voltar a dançar.

https://m.youtube.com/watch?v=N2oiBSL_D80

08/04/2021

8 anos

Se não me falha a matemática, já que me falhou a memória e, por conseguinte, a data, aqui o coiso completou ontem oito anos. Anda parado, é certo, mas, ainda assim, vale tudo, inclusivamente tirar olhos, nesta contagem crescente, que é como a daquelas relações à distância, em que tudo funciona bem talvez por isso mesmo, e os meses e anos se vão sucedendo e contabilizando em bodas e outras vitórias semelhantes. 

Daqui a dois anos menos um dia, portanto, perfazemos bodas de estanho. Por enquanto, limitamo-nos a entrar, mais ou menos gloriosamente, na primeira adolescência. 

Imagino que nos desejem mais oito destes. Eu ainda não sei se desejo tanta vida para isto.

[Muito obrigada na mesma a quem ainda aqui passa e fica e volta e torna. Sois valentes.]