Mostrar mensagens com a etiqueta awkward moment. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta awkward moment. Mostrar todas as mensagens

05/10/2018

And that awkward moment # 52

em que, rua cheia de gente, e, portanto, plena de múltiplas escolhas, o ouvi chamar-me, “Senhora!”, o vi percorrer os trinta metros que nos distanciavam, lhe percebi a falência de siso, natural ou adquirida, lhe avaliei o andar titubeante e o olhar fixo em mim, a cabeça levemente inclinada para o lado, de cabelos ondulantes ao vento que não corria, pensando cá para com o fecho éclair do meu vestido-larido, “Que sorte magana esta minha, que não há chanfrado que não se me cole à bainha, mas será que fui padre noutra encarnação, mas terei sido psiquiatra, mas agora sou mãe da Humanidade?”, e estava eu nestes pensamentos quando ele se acercou e me pediu “um cigarrinho”. E, diante da recusa que lhe ofereci no lugar do cigarrinho, esclareceu-me - sem que lhe pedisse explicações - que era muito viciado, que já fumava para lá de quarenta anos e que estava a ver se não arranjava alguma coisa nos pulmões. Parecia-me ele um rapazola, o olhar redondo nem verde nem castanho - azul não, com certeza, azul não, porque não -, cheio de pestanas a dar nas pontas da franja às curvas, como se quisesse colar-se-lhe à testa, e depois aquela fala ssopa-de-masssa, tudo ironicamente infantil. Estava eu nestes pensamentos, como já disse, quando ele me perguntou a idade e eu vá que lhe disse a verdade. (Havia de fazer como a minha avó, que lhe acrescentava sempre mais doze - aqueles mesmos que fazia de diferença para o meu avô - e toda a gente pasmava diante da boa conservação, frescura e juventude dela, “Ai, parece muito menos!”, pois pudera, tinha muitos menos.) Responde-me ele, “Ainda é mais nova que eu...”, o rapazola. E ainda atreveu com o clássico, lisonjeiro ou apenas cavalheiresco, “Parece muito menos”. Nem tempo me deu para responder o estafado “Muito obrigada, mas tenho-os na mesma”, porque completou a frase com um “Parece que tem...”, atribuindo-me menos quatro do que, efectivamente, tenho. Eu tola, de cabeça de lado, titubeante e de olhar redondo, nem verde nem castanho - negro, o de sempre -, e ele, talvez percebendo, e tentando corrigir a gaffe, acrescentou, “Ou então...”, pondo-me em cima menos três do que, efectivamente, tenho. O rapazola.

27/09/2018

Ela fala tanto # 25

Depois do "bué", veio o "ya", e, desde hoje, o "tchau, beijinhos". 
É certo que se pode dizer que quase coabitamos, pois ela labora no lar que é meu há praticamente vinte e um anos. Se até a própria lei considera esta relação laboral uma relação com especificidades próprias, quem sou eu para querer estabelecer ditames rígidos empregador - trabalhador com uma pessoa que me entra portas adentro diariamente e até "viu nascer" metade dos meus filhos?
Mas é que me questiono se um destes dias não chegaremos ao cumprimento de "Hey", que usava aquela personagem maravilhosa, Nick Moore da série Family Ties ("Quem sai aos seus"), dos idos 80's do século transacto.


E depois, mais adiante um pouco, passaremos para o cumprimento dos punhos fechados, e seremos migas e manas para sempre.

20/09/2018

And that awkward moment # 51

em que ela me revelava os inalcançáveis e ocultos segredos do uso de uma água micelar — seja lá o que isso for — enquanto desmaquilhante, me aconselhava a utilizar discos de algodão para o efeito, e teve o cuidado de me recomendar (palavras dela) um disco diferente para os olhos, outro para a boca e outro para a cara.

E que eu, após esclarecer que não uso bâton, até entrei na mesma onda que a surfista do raciocínio, e respondi:
- O que me está a dizer é que não devo tirar a tinta das pestanas e depois passar o mesmo algodão pela cara abaixo?
- Exactamente.
[Exactamente. Lágrimas. Não de sangre. De tinta preta, mesmo.]

15/08/2018

And that awkward moment # 50

em que envias um SMS à tua ex-senhoria — a proprietária da casa que ocupaste enquanto a tua sofreu (amargamente) obras —, pedindo-lhe que procure uma fronha das tuas, por lá esquecida (e que não é uma fronha qualquer, uma vez que tem dimensões especiais de almofadão), e, já agora, porque é tua, e porque a queres de volta, e ela te responde,

É uma fronha de casal ou de solteiro?

...
...
É então que se te abrem várias hipóteses, as quais nunca antes ponderaste:
Hipótese A: Ela não sabe o que é uma fronha;
Hipótese B: És tu que não sabes que existem almofadas de casal e de solteiro (e as de casal dão para duas cabeças?);
Hipótese C: Existe toda uma panóplia de tipos/tamanhos de almofadas, de entre as quais a de unidos de facto, assim como uma sub-panóplia, que compreende a de solteiro-empedernido e a de solteiro-galdério, que tu desconheces;
Hipótese D: O que significam as fronhas iguais, naqueles "jogos" de lençóis de casal?
Hipótese E: Ela leu mal a pergunta;
Hipótese F: Tu leste mal a resposta dela;
Hipótese G: Tudo o que é esquisito vem ter contigo e tu atrais aquilo que és (daí os malucos, daí os bêbados, daí os cães, daí os chatos);
Hipótese H: O melhor é comprares uma fronha nova e esqueceres que o Mundo é assim mesmo, cheio de cenas que não são a tua cena;
Hipótese I: A tua vida é pautada por coisas e dava um (mau) filme de David Lynch.

11/08/2018

And that awkward moment # 49

em que sais de casa, está um porteiro dos que exercem a função num dos edifícios da rua onde habitas, a regar as relvas, pergunta-te se queres que te lave o carro - impiedosamente lavado há menos de um mês, mas já um esterco muy agressivo às vistas -, ficas agradavelmente surpreendida e logo agradecida, ai que sim, muito obrigada, está porquíssimo, mas até foi lavado e beca-beca, o homem de mangueira em riste, e - primeiro fail - afastas-te do carro (oh, pá, para não me molhar, não é? Ele ofereceu uma lavagem auto, não uma auto-lavagem), mas ele pede-te que entres no carro, para poderes ligar os pára-brisas, lá obedeces, lá os ligas, o jacto lava-te Rosinha melhor do que tu o farias, tudo muito bem, sais da viatura e prometes umas cervejas ao senhor, procuras mentalmente qualquer coisa de agradável para lhe dizeres, pouco habituada que estás a ser mimada por um quase desconhecido (e em stress pós-traumático porque ainda dois dias antes havias voltado a ser mal tratada por uma velha ranzinzenta senhora mal disposta na mercearia) (há ali shakras desalinhados, ou quê?), sabes que vais falhar nos teus intentos, parece-te que o que quer que digas vai ter necessariamente duplo sentido - e um simples ‘obrigada’ nunca se te revela suficiente -, mas, ainda assim, tentas:
- Ai, quem me dera ter uma mangueira como essa.


26/07/2018

Com este tom de tez, ainda assim tenho momentinhos louros muito meus

Exausta de ouvir a pergunta "Tens MB Way?", e de, à negativa, receber em contra-resposta a incredulidade e a estupefacção (só comparáveis à reacção de uma amiga de amigos, quando um dia lhe disse que não tinha carta de condução - porque, efectivamente, na altura, ainda não a tinha arrancado -, e ela praticamente assobiou para o ar, mas quando, logo após, lhe disse que não tinha microondas, a mulher se ia lançando pela janela, tamanho o assombro que lhe provoquei), olhem, instalei essa coisa em Ai-fostes. Pelo menos, nas vezes seguintes em que me questionassem acerca da detenção do tal aplicativo que faz maravilhas e malabarismos bancários através do telefone, não seria vítima do mesmo bullying ao me chamarem infoexcluída, ou, se o quisesse evitar, não teria que omitir a verdade, faltando-lhe ou distorcendo-a, de mais a mais porque não saberia manter a tanga, que, conforme sabeis, é justa e curta, pelo que mais depressa se apanha quem a usa do que a um coxo.
O problema adveio a posteriori, no momento em que finalmente pude responder sem mentir com todos os dentes que tenho na boca - actualmente, e espero que para toda a eternidade, vinte e sete, pois que me foi surripiado um recentemente -, e levei como, se não resposta, pelo menos esclarecimento, o seguinte: "Sabes que podes levantar dinheiro no multibanco através do MB Way?". 


Foi mais a imagem mental, sabem? 
É que visionei mesmo as notinhas a saírem Ai-fostes afora, regurgitadas, paridas, irrompidas.
Foi um breve momentinho louro, já passou, Chiu.

12/06/2018

E aquele momento, também um bocadinho awkward, em que te sentes um génio, mas sabes que isso só vai durar cerca de dois segundos e poderá ser único na tua vida?

Éramos apenas oito, e mais o mestre. 
Súbita e inesperadamente, diz-me ele assim para mim:
- Dúvidas, tens?
E eu que sim, pois se toda a minha existência é uma redondinha e opaca dúvida, quem sou eu para não ser assaltada por nenhuma quando se trata de gramática? 
- Então, no imperativo, só quando é na negativa é que o verbo se mantém no infinito, porque na positiva é conjugado no tempo certo, não é?
Ao mestre só faltou levantar-se e bater-me [calma] palmas, aliviado e feliz porque nesta bela cabeça entrou uma regra; aos outros sete, só faltou terem que ir buscar os queixos aos sapatos. 
Subestimam-me. 

10/06/2018

And that awkward moment # 48

em que estás numa aula de dança, aquelas mesmas que têm fama de "não se suar nada" — e sim, antes que perguntem e eu não saiba como responder sem me enterrar, titubear ou enveredar pela mentira deslavada, esta pessoa humana maquilha-se antes da actividade, porque lá está, dançar feia e pálida e com cara de dia seguinte aos santos populares não está nos seus projectos mais longínquos, e, assim, colocou um pouco de iluminador —, e notas, através do espelho onde, no teu delirante imaginário, és uma dançarina exímia e de uma beleza avassaladora, que tens uma lâmpada acesa na testa? E é que ainda te ocorre que oh!, estás a ter uma ideia brilhante, pára tudo, mas o que é?, queres ver que são os números do Euromilhões?, a cura para a piolheira? o método cabal com vista ao definitivo irmanamento da meia desirmanada?, mas, afinal, é a cintilante luz provinda do teu suor, e a única ideia luminosa que poderias ter tido — não colocar o iluminador, passe a redundância —, não tiveste?

16/05/2018

The girl next door # 15

Foi num destes feriados que rareiam, pela madrugada das 10, que me cruzei com ele (salvo seja), saídas por entradas do elevador que serve as nossas casas de telhado igualmente comum. Eu já voltava da vida desportiva, arrancada por mim mesma que fora do leito pelas 7, após noite insone de vigília expectante pelos pássaros que me voam do ninho pela noite adentro. 
E diz-me ele assim para mim, do nada: 
- Olha, hoje a minha Isabelinha faz anos. 
Vá que eu nunca o ouvira referir-se à sua Isabelinha como minha Isabelinha, e então pus-me parva, a tentar um raciocínio impossível, dada a hora e dada a falta de sono.
- A minha Isabelinha... — Insistiu ele. Corri-lhe a família mentalmente, a única filha não se chama Isabel(inha), e então fez-se-me uma ténue luz.
- Ah, sim. Eu sei, já me tinha lembrado. — Não era mentira, já que existe para aí uma raça de gente que sofre da vaca de ter nascido a um feriado (no caso desta, a data fez-se feriado uns anos após o nascimento dela, lá a gestante ainda teve uma pontaria maior), pelo que já me havia lembrado, sim.
Mas parece que ele ainda não estava satisfeito:
- Ah, é que podias encontrá-la...
- [Nível 2 na Escala de Awkward — manifestado pelo meu silêncio —, uma vez que o "Isabelinha" constituiu o nível 1.]


- E era para não te esqueceres...
- [Nível 3 na Escala de Awkward, com manifestação semelhante à do nível 2, mas com possibilidade de verbalização de uma qualquer resposta titubeada.]
- Já te disse que já me lembrei, daqui a bocado ligo-lhe.
- Mas é que, se a encontrares...
[Nível 4 na Escala de Awkward, semelhante ao bloqueio mental.]
- Ouve lá, são 10 horas, eu estou a pé desde as 7, estou incapaz de perceber metade do que dizes, importas-te de me deixar entrar no elevador? Eu ligo à tua mulher mais daqui a bocado.
- É que ela foi para o ténis e deve estar a voltar...
[Nível 5 na Escala de Awkward, correspondente a FKU.] 


(Só para vos situar: eu até faço anos no mesmo dia que o pai da Isabelinha, que, por acaso, não me tem dado os parabéns ultimamente. Mas eu sou aquela pessoa que tem trezentas mil obrigações e zero direitos, tipo Borralheira.)

21/03/2018

And that awkward moment # 47

em que te encontras numa qualquer farmácia deste berlinde, já retiraste a senha de vez,
(que é outro dos grandes mistérios insondáveis da tua magra — querias! — existência, pois que, seja ali, seja no banco, seja na segurança social, seja no supermercado, seja onde o Diabo perdeu os chinelos Prada, nunca, por nunca, existe uma mera possibilidade, daquelas que a lista das senhas apresenta, que te sirva como uma luva. Então, retiras a senha que te parece ser a menos longínqua da tua pretensão, ou a mais genérica quanto a ela, do género "apoio", "balcão", "outros". Pôxa, só te apetece tirar sempre a senha de prioritário e fazeres-te mais palerma do que já te tomam na realidade),
e a tua visão periférica, do lado esquerdo, te anuncia que se encontra, logo ali ao teu lado, uma pessoa a quem não te apetece falar? Não é das tuas relações pessoais, é daquelas pessoas com quem, em universitários tempos idos, que já lá vão e não voltam (lagarto, lagarto), te cruzavas todos os dias pela mera coincidência de frequentarem o mesmo estabelecimento. 
Rodas o salto cerca de 180º, mais grau, menos grau, e, subitamente, interessas-te por todas as estantes da loja. Sim, elixires, chuchas e lubrificantes incluídos. 
E é quando, também pela tua visão periférica, mas desta feita pelo lado direito, avistas outra pessoa a quem não te apetece falar. Isto dito assim, até parece que guardo esqueletos no armário, e ando a fugir da minha própria sombra. Não guardo, môres, acontece que no meu armário não cabe nem mais uma saia (última tentativa: ontem), e, quanto à minha sombra, nem sei por onde anda, pois, tal como o outro boneco, sou mais rápida do que ela. Mas esta pessoa é daquelas que, tal como a outra, pertence a um passado remoto, e eu terei exactamente zero para conversar com ela. 
Vai de rodar o salto mais uma vez, o que veio a revelar-se inútil, já que fiquei com um de cada lado, qual Cristo. 
Entretanto, fui atendida, e praticamente bichanei com a técnica, a ver se nenhuma das duas almas me reconhecia a voz e me estragava o arranjinho. 
Para sair, tive que optar por um dos lados, pois andar às arrecuas, apesar de ter maior probabilidade de escapatória, era bem capaz de dar nas vistas (e, com esta sorte magana, ainda me ir esbarrar com um dos dois). Então, pus-me cabisbaixa, orando com fervor "faz-me invisível, faz-me invisível, só três segundos", mas é que Ele não me deu ouvidos (deve ter sido por não me ter ajoelhado), e exclama a da visão periférica direita: "Olááááá! Estás boa?", tudo isto com um hálito fétido e cinco caixas de pastas de dentes na mão. Antes que eu pudesse responder (na verdade, estava em apneia), elucidou-me: "Vim aqui comprar pastas de dentes!". E logo: "Mais um beijinho! Olha, tu estás na mesma, o que é que fazes?". Desbloqueando a respiração, respondi: "Tu também". Depois fiz o que já devia ter feito minutos antes: fugi.

17/02/2018

And that awkward moment # 46

em que entras numa aula de dança, a titcha avisa que está com um braço magoado e, por conseguinte, não o mexerá da mesma forma que fará com o outro, tu não ligas nenhuma ao aviso (precisas de aquecer músculos, turbinas e alma), e depois percebes, já a aula vai para mais de meio, que, naqueles passos em que é suposto levantar os dois braços, tu és a única que está a fazer exactamente como ela — levantando só o braço "saudável" —, e, naqueles outros em que é para esticar o braço direito quando danças para a direita e o esquerdo quando danças para a esquerda, só tu danças para um lado na posição correcta, e para o outro, aí vais tu sem esticar o braço?
Devo ter um problema de identificação com as pessoas que me dão aulas de dança. Há muitos anos, numa época em que fazia latino-americanas + africanas, também aconteceu estar tão concentrada em fazer o mesmo que a instrutora, que, de uma das vezes em que ela levantou o braço, indicando a aproximação de três passos iguais, esticando primeiro três dedos, depois dois, depois um, eu
...
...
...
fiz igual.


14/02/2018

Eu tenho problemas com tudo # 30

Eu, por acaso, vinha aqui a passar, ainda meio azambuada do facto de ser madrugada [sou discípula de Marco Fortes, mas a vida não me permite obedecer àquele único cânone da nossa seita], e lembrei-me que era capaz de ser oportuno vir perguntar às pessoas que ainda devem (não o entendam como uma suposição, mas como o cumprimento de um dever) estar a dormir, quais as suas opiniões acerca de um problema que me assalta, e vamos já ver a seguir o porquê de até ser à mão armada: o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina. Hã? Nada mais específico, com tantos pronomes possessivos.
Então, depois de ter tirado — ou, mais concretamente, arrancado — a carta de condução, ensinaram-me a meter combustível na viatura que eu conduzia à época, meu querido boi. Quem o fez, foi uma pessoa conhecida, que encontrei na rua por acaso, à qual me queixei de que estava deveras preocupada, pois que estava com a gasolina à pele e não sabia colocá-la lá no coiso. A pessoa prestou-se, e imagino que se arrependeu no primeiro acto, pois que eu, ao retirar a mangueira da entrada do depósito, dei-lhe umas (o mais discretas possível, é certo) sacudidelas no ar, justificando-me, perante o espanto/horror dela, que não fazia ideia que não era assim, pois que só tinha um rapaz para três meninas, numa desproporção de 1/4, e ainda estava na fase em que ele tinha largado a fralda há pouco tempo.
Bom.
Concretamente, o gatilho das mangueiras das bombas de gasolina causa-me transtornos e angústias várias, tudo por uma razão muito simples para ele, dramática para mim (ou não fora eu um niquinho drama queen): ele dispara. 
Porque isto é assim: meto a mangueira lá na entrada [não, a sério, dêem algum apreço às minhas talvez vãs, porém desesperadas tentativas de não deixar resvalar o assunto], aperto o gatilho, e, em vez de sentir a fluidez com que o combustível jorraria para o interior da viatura, começa ele nos disparos, bang-bang. Ou seja, pára a cada, vá, cinco segundos. Eu aperto, a mangueira esmifra umas gotas, ele dispara, o processo pára. Aperto outra vez, mais umas gotas, pumba, pára de novo. 
Já me informei com quem sabe destas coisas (basicamente, toda a gente), e foi-me dito que meto mal a mangueira, que enterro pouco aquilo lá na entrada (chiu). Munida dessa informação, tentei dar o meu melhor nesse momento, e o resultado foi o mesmo. Até acho que foi pior. 
A solução que tenho arranjado tem sido pagar uma quantia qualquer ao balcão, em pré-pagamento, e depois, uma vez que este processo todo leva alguns minutos mais do que levaria em condições normais, simulo que estou a meter o dobro, com aquele ar de excêntrica enfadada, este-depósito-parece-o-de-um-camião.
Estou (in)conformada.
Queria saber se sou só eu, que é para, caso negativo, poder dormir descansada e andar na rua aos saltinhos descontraídos. Caso positivo, vou ter que tomar providências cautelares, tipo uns calmantes antes de ir à bomba, ou então, arranjar um motorista, a quem possa dizer: "Vá lá você, que é para isso que eu [não] lhe pago, que aborrecimento, quer levar um estalo?".

07/02/2018

And that awkward moment # 45

em que, fazendo valer um direito teu — alguém não passar à tua frente numa fila —, ficas com a leve sensação de que acabaste de assinar a tua sentença de morte?
Se não, vejamos: estás à porta de um local com balcão, e serás a próxima a ser atendida, mal a pessoa do atendimento se digne chamar-te. 
Uns dias antes, tiveste ali um pequeno quid pro quo com ela, por te lhe teres dirigido com um sorriso, a figura estar ao telefone, ter-te espetado com a palma da mão no ar, ter vagamente tapado o bocal do aparelho e ter-te sussurrado, com um modo que parece que não te agradou, "A senhora tem que esperar lá fora". Como se o local fosse a embaixada dos Estados Unidos, e ainda que fosse. Deu-se, então, que, passados minutos, a mesma pessoa veio chamar-te ao corredor (o "lá fora" dela), e, uma vez que te encontravas a jogar jogos no telemóvel, deu-se a tua vez de lhe espetares a palma da mão no ar, e lhe sussurrares, "Espere, agora sou eu que não posso". 
Porém, desta vez, e uma vez que já sabes que tens que esperar "lá fora", esperas lá fora, no início do tal corredor, na confinação com a ombreira da porta. E passa uma, muito despachada da vida dela, deseja bom dia, tu retribuis, e vai de pôr-se a conversar com a da-palma-da-mão-estendida. É quando tu barafustas e te enterras, no fundo. Literalmente, no fundo. 
...
Porque ela responde, tão simplesmente, que trabalha ali, que não quis passar à frente de ninguém, que pede desculpas. Tu pedes também, ainda dás a alfinetada à da-palma-da-mão-estendida, "É que aqui, temos que esperar no corredor, não sei bem porquê", mas não te safas de pensar que até apostas o teu braço direito em como a-outra-que-trabalha-ali ainda te vai sair na rifa, vais depender dela por alguma razão, ela vai avaliar-te, e tu... tu, até podes ter esquecido a cara dela (o que já está), mas ela... ela não irá esquecer a tua.

19/01/2018

And those two awkward moments # 44

em que, a propósito da mesma fotografia, baralhas duas pessoas diferentes?
Foi um segundo, em que estamos cinco: toda a minha criação e eu. Foi captada ao calhas, embora por quem sabe fazê-lo, estamos apertados no cubículo que é o elevador do prédio onde moramos — e onde já coube um carrinho e dois, um carrinho e três, onde já coubemos os seis também —, mas retrata, literalmente, um momento bom, e é uma daquelas fotografias que eu simplesmente adoro. 
Por estar tão actualizada (é da época do Natal), mostrei-a a uma amizade recente, brasileira, para que visse a minha obra de criação, dada a curiosidade que demonstrou. Apontando para mim, disse:
- Essa aí é a sua cara. 
Nada mais certeiro.
Uns dias mais tarde, a mesma cena com outra pessoa que, olhando para a fotografia, perguntou:
- Mas, afinal, eles são quatro ou cinco?
Isto dá-me que pensar na diferença entre a imagem que "vendemos" aos outros e a nossa realidade. Eu não ando cá a enganar ninguém, what you see is what you get, mas penso muitas vezes se quem me lê e quem me vê imagina que eu sou mais nova do que efectivamente sou, por conta de uma embalagem que eu, eventualmente, tenho sabido embrulhar razoavelmente. Mas fazer crer, dar a entender, às vezes mesmo afirmando com os dentes todos, roçando as raias do ludíbrio, para não lhe chamar mentira deslavada, isso não faço. Essencialmente, preciso — porque me dá um grande gozo — de me enganar a mim mesma. Quanto aos outros, espero que não se sintam intrujados, mas, se  isso acontecer, paciência: desatenção vossa, eu avisei.




03/12/2017

And that awkward moment # 43

em que trocas o destinatário de um sms, e acertas em cheio em quem não deves?
(É sempre, não é?)
Desde que tenho Ai-fostes que me tornei exímia na troca de destinatários de sms. Tenho criado confusões giras, desde avisar alguém que não me espera que já cheguei, a mandar beijinhos para a Sephora, ele tem-me ocorrido um nico de tudo. Aquilo fica lá com o campo da última mensagem aberto, aqui o ser humano não se dá ao trabalho de verificar de quem se trata, vai de dialogar com quem mandou a última comunicação escrita via telemóvel. Pelo menos, sou educada.
A pessoa tem uma filha fora de casa, a gozar um fim-de-semana prolongado. Quer saber notícias e manda-lhe aquilo assim: "Então tu, boneca?". A bendita mensagem vai parar à que fala tanto e me visita, a soldo, todos os dias úteis. Depois dá-se a circunstância de esta mesma pessoa estar dentro de um elevador, pelo que Ai-fostes se recusa a enviar o desmentido da salganhada a tempo. Então, recebi aquela resposta, que vou guardar carinhosamente.

A msg nao deve ser para mim

Portanto, sobejaram-lhe dúvidas. 
(Vá lá que não aconteceu ter escrito "Amanhã trabalhas, boneca?")
(Vai-se a ver e, quem sabe, nesse caso, responderia: "Mas há dúvidas, boneca?". Sem dúvidas.)




29/11/2017

And that awkward moment # 42

Dá-se que sou detentora de uma conta num banco que usa o sistema de matrizes para confirmar algumas operações bancárias, como pagamentos e transferências. Trata-se de um papelote que sai da máquina de MB, com uma tabela de números de três dígitos, num esquema algo complexo que garante que não há dúvidas de que foi o detentor da conta — ou, no limite, o gatuno que lhe furtou os dados — que procedeu à operação. Ao fim de uns meses, os números vão desaparecendo, um a um, pelo que é necessário pedir ao banco outra matriz.  
Na fase final da sua vida útil, o meu papel anterior proporcionou-me momentos de alguma adivinhação (e consequente frustração, tal como no Euromilhão) (foi só para rimar), porque — Murphy, és grande — acertava sempre no algarismo desaparecido, daquelas largas dezenas que a tabela oferece. Vai daí, fui ao banco buscar outro.
Para evitar que me acontecesse a mesma coisa, e sentindo-me, confesso, o pináculo da inteligência prática, forrei com papel autocolante transparente a minha nova matriz.
Hoje foi o dia em que acordei, me liguei à máquina cheia da fé, abri a página do banco, loguei-me, pus o iban do meu destinatário e o site pediu-me três números da tabela. A3, 2ª posição; G2, 1ª posição; C9, 3ª posição. Então, procurei a matriz no dossier daquele banco. Mas é que não estava lá. Procurei melhor, nada dela. Até que encontrei um papel branco como neve, forrado a papel autocolante transparente. 
Aprendam comigo, que eu não duro sempre: a cola come os números e as letras da impressora do MB. Se não sabíeis, ficastes; se sabíeis, fostes. 


23/11/2017

And that awkward moment # 41

em que, totalmente à toa, desencadeias uma reacção em cadeia, que se te contagia, e parece que, numa sala cheia de adultos, é possível que a concentração e o saber estar vão com os porcos em menos de um pum?
Aquilo do efeito dominó.
Alguém lê uma frase em Italiano, vengo in treno.
Em vez de treno (comboio), lê trenó
(Até aqui, tudo bem, toda a gente se engana, e ninguém se ri dos erros de ninguém.)
Mas a parva da mulher diz, Pai Natali, Pai Natali! [Bicha do Demónio, aos 03:03']
Depois, foi o fim do mundo (não em cuecas, vá lá). Começou na miúda — é mesmo uma criança, tem vinte anos — que estava ao meu lado esquerdo. Contagiou-se à outra que estava à nossa frente. Depois fui eu. A seguir, a que estava à minha direita. Foram largos segundos em que parámos tudo o que estávamos a fazer, para nos podermos encostar nas cadeiras, agarrar a cabeça, limpar as lágrimas, respirar fundo numa tentativa de acalmia e retomar, e rir até doer. E uma sala cheia de gente, parada, à espera que aquilo nos passasse. 
Eu, que nunca fui corrida de uma sala de aulas, estava a ver que era desta. Nunca é tarde para coisa nenhuma. 


15/10/2017

Momentinho louro # 5

Acabei de dançar e preciso de um duche. Estou no balneário do ginásio novo, aquilo parece-me tudo um luxo perto do outro, onde estive — também a dançar — anteontem. [Não consigo decidir entre um e outro, aquela cena do coeur balance.] Tenho espaço, tenho ar, não preciso de esperar que alguém passe, ou pedir licença para passar. O duche é simplesmente excelente [tenho que fixar a marca, mas ainda não foi hoje. De qualquer maneira, NMPPI.]. Para accionar a água, carrega-se num botão redondo, e aquilo cai como uma chuvinha, só que quente e a pedido, não é como a outra chata, que faz tanta faltinha nas hortas. O gel de banho cheira a limão, e isso para mim é o bastante para gostar dele, que fácil que sou. Está dentro de um dispensador, que tem um botão quadrado, onde se carrega, e aquilo cai como uma nhanha perfumada. Portanto, o duche processa-se numa alternância carrega-no-botão-do-duche-carrega-no-botão-do-dispensador, um-sim-um-não. Só apetece ficar, e ficar, e ficar até derreter, ou até fartar da brincadeira com os botões. Lavo-me uma vez, não me apetece ir embora dali, nada me chama para fora, e tomo a resolução de me lavar segunda vez. (Aquilo é tudo à vara larga, tanto faz que gaste mais ou menos gel e água, pago o mesmo, e sempre compenso os que pagam ginásio e não vão lá.) E pode ser a ganância, ou a preguiça, que me condenam a este estado miserável de troca de mãos. 
...
Estou ensaboada, quero carregar no botão da água.
...
Acho eu que carrego, mas a água não brota.
...
Carrego segunda vez, e nada de água.
...
(É muito mau se confessar que ainda tive dois segundos da minha vida em que achei que tinha havido um corte de água, exclusivamente na minha cabine?)
...
...
A parede cheia de gel de banho.
(Chiu.)

26/09/2017

And that awkward moment # 40

Entro na papelaria da antipática e do morto-vivo-ó-amor para registar um jogo do rapaz. Só é permitido jogarem maiores de idade, sei isso e quase respeito, mas ele também veio comigo fazer compras pesadas e carrega-mas todas. Por interesse, delicadeza ou pura boa vontade, não me interessa: ninguém me tira estes momentos só com ele e a expectativa de, a seguir, irmos para casa fazer mousse de chocolate juntos. Todos os amores são, em maior ou menor escala, desproporcionados e desequilibrados, ou não seriam amores. E este nosso não é excepção.
A azeda da mulher, que me conhece há mais de duas décadas, trata-me por "minha senhora" desde que eu era pouco mais do que uma garota. 
- Minha senhora, preciso do seu número de contribuinte.
Começo a debitar-lho, e ela interrompe-me ao terceiro dígito.
- Minha senhora, tenho que ver o seu cartão de contribuinte, não pode ser ditado.
[Na era em que esta pessoa vive, ainda existem cartões de contribuinte.]
Estendo-lhe o cartão de cidadão, a sentir a exasperação a tomar conta de mim.
- Tem aqui, minha senhora. — E acentuo o tratamento. 
Ela põe-se a ler, aproxima os olhos do cartão, só falta bater com ele nos óculos, e faz os olhos de toupeira ainda mais miudinhos.
- Cento e...
- Noventa e nove, minha senhora. 
- Cento e noventa e nove...
Ditei.então.os.segundos.três.números.E.ela.não.conseguiu.ver.os.terceiros.três.Por.conseguinte.ditei-lhos.também.
A seguir, deu-me um papel pequenino onde constava o meu número de contribuinte, e disse:
- Aqui tem, minha senhora. Para a próxima, escusa de ditar o número, basta trazer este papelinho.


19/09/2017

Momentinho louro # 4

Telefona-me o responsável por uma das empresas que contactei, com vista à remodelação de uma casa-de-banho e do soalho todo cá do lar. 
(Por acaso, está a ser uma experiência irrepetível: das quatro que abordei, só para começar, duas já me mandaram mail a declinar, que é aquela manifestação de vontade operada pelas pessoas singulares e colectivas quando não lhes apetece. Uma, porque a minha obra não se enquadra nos parâmetros de grandes remodelações gerais lá deles — tipo Querido, encolhi o orçamento familiar? —, a outra foi um simplesmente não, não aceitamos a tua obra.) (Directamente para a categoria só-a-mim-não-me-saem-empregos-destes.)
Digo-lhe o que pretendo, em traços muito gerais, que os concretos pretendo traçar ao vivo, assim que ele me visite. Falamos mais especificamente da casa-de-banho, e, lá para o final da conversa, ele pergunta-me: Onde é que ela fica?
[Vamos fazer uma pausa.]
Preciso de explicar que não percebo nada de obras. 
...
Sei lá, podia ser importante a localização da casa-de-banho, imaginem que era ao lado da cozinha e isso interferia positivamente com o trânsito dos baldes de cimento.
...
E cenas de obras. Pás, e assim. 
...
E que, entre uma pergunta e uma resposta, via telemóvel, entre dois estranhos, decorre o quê? Um nico de segundo. 
Também não percebo nada de cérebro humano.
...
Não sei em quanto tempo se processa um raciocínio qualquer, quanto mais um raciocínio lógico. Sei que respondi assim
...
Olhe, o senhor entra, segue em frente, percorre um pequeno corredor com cerca de três metros, e encontra uma porta à sua direita, perpendicular a outras duas portas, onde ficam os quartos. É essa porta à direita...
[suspiro.]
Chiu.
Posso ter tido medo que o homem se perdesse e não conseguisse atinar com a porta da casa-de-banho a intervencionar, como eles dizem