Vi-me obrigada a percorrer quase seis quilómetros da minha estrada até uma localidade que responde pelo antagónico nome de Amadora, principiante, não profissional, amante não amada, antiga Porcalhota. O GPS já me mandou dar uma volta a um quarteirão inteiro porque lhe desobedeci e virei à esquerda duas ruas antes. Não estou contrariada, a única preocupação que carrego é a dúvida de se encontrarei lugar para estacionar. Carros em cima do passeio, carros bloqueando portões e eu alinho em espinha o meu, saio do ar condicionado, enfrento a canícula com a distância que me merece, verifico que não há estacionamento pago e que estou precisamente à porta da tabacaria-papelaria que para ali me chama. Não só: a funcionária acaba de abrir os estores após a pausa do almoço.
Entro e ela detesta-me. Vou no meu as usual, macacão de ganga fininha, com manga de balão, sandálias de salto, malinha de marca bonita. Nos últimos séculos emagreci dez (ou foram doze?) quilos, porque a vida é muito puta, abençoada, que me cai (literalmente) melhor a roupa assim. A loja está mergulhada numa inquietante penumbra, a mulher de bochechas gordas e descaídas recebe-me de cara trancada, só percebo que é obesa mórbida ao cabo de alguns segundos, veste toda de preto, o ar cheira ao suor dela. Sou delicada, desejo boa tarde, digo ao que vou — levantar uma encomenda —, ainda não comecei a procurar o código no telemóvel, já ela dispara: “Transportadora?”. “Não sei, não diz em lado nenhum, deve ser DPD”. “Se não me der o nome da transportadora, não posso entregar-lhe a encomenda”.
Nem ripostei diante de tamanho disparate, encontrei uma palavra que nem sabia que era o nome de uma transportadora (“Vinted Go”, sabiam?), o que ainda me valeu um “minha senhora…” em anafado suspiro de enfado, agarrei na embalagem, saí dali para o sol, para longe da mulher gorda, deprimente, arrogante e mal cheirosa. Quando entrei no carro, eu já era ela, triste, num luto carregado, todos os dias a mesma roupa, arrastando tmágoas e banha a um tempo, metida num emprego de merda, numa rua perdida num lugarejo do planeta onde ninguém quer estar.