15/03/2015

Memorial no Meco

Olhem, sou estúpida.
Não entendo um memorial que parece uma marreta. Digam-me lá que é uma cruz, que eu vejo uma enorme marreta na mesma. 
Não entendo um memorial, criado por um artista, com o argumento de se sentir "um criminoso" caso não o fizesse.
Não entendo um memorial dedicado a seis adultos que, por sua iniciativa, e pelo seu próprio pé, se colocaram numa situação de desafio à morte.
Não entendo um memorial - qualquer memorial -, sequer.
Põe-te na pele dos pais - grito-me.
Não ponho - respondo-me. Na pele dos pais, há muito que o mar já me teria engolido a mim também.
Não veria memorial, não haveria memorial para ninguém.
Olhem, sou estúpida.



13 comentários:

  1. João Cutileiro foi o autor? Aquilo são quatro pedras. Haverá alguma coisa escrita que esteja no lado oposto?
    Bom, uma vez que estamos no Meco, deveremos interpretar uma escultura despida?
    Aquele divisória em tira vermelha e branca, tipo 'do not pass', serve para quê?
    E que tal aproveitarmos a foto para pedirmos às autoridades que cortem a erva e limpem o areal?


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    1. Não consigo responder a tantas perguntas seguidas, homem.
      Olha, sou estúpida.

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    2. Anónimo15/3/15

      A "erva" são plantas espontâneas que têm por função fixar as areias das dunas, de modo a que o litoral não seja invadido pela água do mar. Dunas estas que serão destruídas devido à rumaria que se vai verificar ao memorial.

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    3. Obrigada, Anónimo.
      ~
      OB, tens aí uma resposta a uma de tantas questões, bale?

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    4. A tentativa de elucidar saíu bem. Só que há ervas e ervas mas, se fosse essa a ideia, por que raio colocar o memorial naquele sítio?
      Ok, devo estar a ver mal o problema. 'Bale'?

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  2. Eu sou uma mulher do Meco. Aquilo está-me na pele.
    Não gostei de ver o memorial ali, grotesco, feito com uma pedra tão pouco nobre, que não toca ninguém. A mim nada, e eu que gosto tanto de arte e que a sinto acima de todas as coisas.
    Mas por outro lado sei o que significa aquilo. Em tempos perdi uma pessoa de quem gostava muito. Não tive tempo, nem podia, dizer tudo o que ficou por dizer, e um dia disseram-me que tinham feito 'um memorial' à pessoa. Fiquei em êxtase. Era um grafiti numa parede de um jardim. Passo por lá, e já passaram quase 15 anos, e lá está o grafiti. Eu gosto daquilo. É como se lembrasse a todos que aquela pessoa existiu e fez parte daquele jardim.

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    1. Daí que eu não entenda memoriais - este é demasiado bruto, é uma martelada na cabeça. Um memorial, a existir, tem que ser privado (como o teu), íntimo. Não esta profanação. E é muito fácil profanar a memória com um memorial de mau gosto. Além do que as circunstâncias, em particular, destas seis mortes, me fazem questionar muito da razão de ser de uma homenagem. Na avenida que fica em frente à universidade onde eles foram alunos, morreram um sem-número de jovens, atropelados, e que não se deram à morte, nem para ela correram de forma tão inconsequente. E, no entanto, não existe um memorial no Campo Grande.

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    2. Na avenida, em frente à Universidade onde eles foram alunos, morreu-me esta pessoa de quem te falo.

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    3. Então vê: deu-se à morte, assim à tola, como aqueles seis?
      Merecia um memorial, afirmo eu, nem sequer te pergunto.
      És tão feita da mesma massa que eu, que também conjugas assim as tuas mortes: morreu-me. Abraço apertado, Uvinha.

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    4. Anónimo16/3/15

      A mim, mais que o memorial, incomoda-me a posição do autarca que diz que está fora de questão tirar aquilo dali (dali= zona protegida, excepto se der visibilidade ou dinheiro?). Afinal comanda mais o quê? A vontade da maioria da população não vale de nada e ele passa assim por cima da vontade de todos, sem o mínimo de respeito? Há ali um monumento por todos os marinheiros, viajantes, desportistas, etc que por ali morreram?

      A mim a história do Meco é simplesmente sinónimo de meia dúzia de miúdos imaturos que faziam o quanto queriam e que um dia a brincadeira correu mal. Depois montou-se uma caça ao homem pelas familias (obviamente motivadas pela dor) e pela comunicação social (motivada nós bem sabemos pelo quê) ao único sobrevivente (que, sendo supostamente inocente) assistiu à morte de 6 amigos para depois a mãe de um deles lhe disser que preferia que ele também tivesse morrido.

      Ps: tanta tinta correu sobre o caso do Meco e nunca nenhum de nós obteve uma visão imparcial da coisa (os jornalistas não deviam ser imparciais?). Afinal até nos disseram - a comunicação social - que o fato do Dux tinha sido entregue molhado uns bons meses depois e depois supostamente os técnicos do tribunal disseram que não, que o fato tinha sido entregue seco e que tinha sido comprovado que o dito esteve no mar e que o fato não foi entregue molhado. A estação televisiva que andou a incendiar a opinião publica contra o dito rapaz veio retirar/corrigir essa noticia inical? Talvez tenha sido eu que não ouvi essa parte nas noticias...

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    5. E fazes uma ideia, por alto do que vai acontecer àquele memorial, então. Desde graffitis a arrancarem-lhe bocados à picareta, passando por fazer dele sombra no Verão, vai valer tudo. E isso vai ser mais um drama para as famílias, naturalmente. Não haverá quem policie a área, e não estou a ver as concessões das praias nesse papel.
      Ninguém é homenageado através daqueles blocos. E não, não existem memoriais a todos os que já ali morreram. De resto, há praias neste país que seriam autênticos cemitérios, se assim fosse. Quando eu era miúda, numa das praias da Caparica - só numa! -, durante um fim-de-semana, ficaram cinco pessoas no mar.

      E custa-me aceitar que, pessoas entre os 21 e os 25 anos, fossem miúdos. A sério. Jovens, na flor da idade, com a vida inteira pela frente, sim. Miúdos, já não. Nós é que temos uma tendência desresponsabilizadora, em função da idade, da educação, da zona do globo, etc. Até te digo mais: se, de facto, se tratava de miúdos, então que pais eram aqueles, que os deixavam ir assim, em Dezembro, no pino do Inverno, para uma zona de praia, se sabiam que eles não eram capazes de tomar conta de si mesmos?

      Quanto ao Dux, eu nem tomo partidos, nem deixo de tomar. É a palavra de uma pessoa contra a de ninguém. Ele pode sempre dizer o que quiser. Mas também, diga o que disser, ninguém vai acreditar nele, nunca, exactamente porque só ele pode contar uma história cujo resultado é absolutamente inverosímil, mas aconteceu. Mais valia o rapaz ter dito logo que empurrou os outros seis para dentro de água, para os matar, que, de toda a maneira, ninguém ia acreditar nele e, a esta hora, era vítima, logo mártir, logo, herói nacional.
      Quanto à cena da água no fato, papa quem quer. Eu não papei.

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    6. Anónimo17/3/15

      Acredito que o local se torne realmente um ponto de vandalismo. O que é uma pena tendo em conta que aquilo está numas dunas que deviam ser protegidas...

      Em relação aos miúdos eu contra mim falo porque tenho a idade semelhante aos deles. Mas nunca na minha vida imaginaria os meus pais a pagar-me fins-de-semana para tratar de assuntos da praxe, acharem normal o facto de "viver para a praxe" ou acharem natural que mesmo depois de acabarem do curso andasse mais preocupada em manter-me focada na praxe que a arranjar emprego. [Aliás nem eu acharia normal que os meus pais me fizessem tal coisa]
      Daí chamar-lhes miúdos porque é a minha denominação pessoal para todos aqueles que andam na universidade a passear os livros e a ser mantidos pelos pais (muitos que vão muito além dos 25 anos). Para mim são imaturos e acho que também foi por isso que fizeram todas aquelas "festas" com praxes "hardcore" que poderiam ter corrido tão mal como aquela.

      Em relação ao Dux não sou contra nem a favor dele [Em relação ao fato eu não me pronuncio com certezas, só reproduzi o que supostamente foram as conclusões dos peritos no julgamento em tribunal]. A única coisa a que me refiro é que ele supostamente viu 6 amigos a morrer, numa situação onde estavam todos de livre vontade e sabiam o risco que corriam.

      Sou (e fui) contra o jornalismo enviesado que moldou a opinião pública a um ponto, a meu ver, exagerado. Não me parece que a pessoa que mais se envolveu neste caso, num determinado canal, tenha sido idónea. Desde o inicio teceu comentários e mostrou julgamentos. Uma coisa é apresentar factos, outra é emitir juizos de valor e enviesar a opinião pública para a nossa opinião pessoal. Essa pessoa conduziu um julgamento em praça pública que não me pareceu de todo adequado. Sou apologista que se saiba o que se passível de se saber (tudo o que não esteja sob segredo de justiça) mas que seja apresentado factualmente - claro que isso não vende tanto como meia-dúzia (ou várias dezenas) de publicações sensacionalistas.

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    7. É bem verdade.
      Não hajam dúvidas que, para além dos próprios, que em muito concorreram para a sua morte, a responsabilidade de quem lhes deu educação é muito questionável, quanto mais não seja porque veio a dar aquele triste fruto. Mas, por outro lado, custa-me muito apontar culpados num drama com aquelas dimensões. Imagino a dor daqueles pais, por ter filhos em idades que, não tarda nada, são aquelas, e... que horror, isso bloqueia-me logo qualquer raciocínio que tente fazer a seguir.
      E digo-te que nem eu (nem ninguém) tenho certezas absolutas em relação a coisa nenhuma do grau de culpa do Dux naquele resultado. Acredito, porque não temos mais nada a que nos agarrar, que a investigação criminal foi feita, e bem feita.
      Aos jornalistas, esses, já ninguém dá muito crédito, por sabermos isso mesmo: vender papel é um objectivo que não se coaduna com informação isenta.

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