04/03/2015

Eu hoje tive outra criança

Quando cheguei, estavam a iniciar uma actividade: desenhar um neurónio num papel autocolante vermelho, para colar num quadro. A vida é demasiado estúpida e tem ironias que bem se podia enterrar viva, como esta: a mesma pessoa que passou a vida toda a pôr os neurónios dos outros no lugar, é agora esta, a quem se pede, como a uma criança, que desenhe um neurónio. A tarefa roda a mesa, todos tentam, a lápis encarnado. Uns fazem pela mão da monitora, outros nem isso, e nós duas vamo-nos entretendo a comer chocolate. Nunca comi tanto chocolate em toda a minha vida como nos últimos meses, tenho a certeza. Nem na infância, que me está cada vez mais longínqua. Em silêncio, agradeço directamente a boa genética a quem ma deu, mãos nas mãos, chocolate nas bocas. Chega a nossa vez. Nossa, porque eu não posso sair dali, logo agora. Quero estar quando a mesma pessoa que passou a vida inteira a pôr os neurónios dos outros no lugar, tiver que desenhar um neurónio encarnado. O molde é parecido com uma flor, mas com um caule grosso e raízes de árvore.

- Um neurónio não é assim...

Quisemos saber como era, então. 

A mão magrinha a agarrar no lápis cor-de-rosa.

- É cor-de-rosa...

O lápis a percorrer o papel, um desenho em cone, uma estrelícia no topo, uma gargalhada de gozo "Não tenho jeito nenhum para desenhar", as duas a rir, que graça tem não saber desenhar, que graça tem ter lucidez para assumir semelhante dislate, que graça tem observar o mundo dos adultos pelos olhos de uma criança e ter a capacidade de nos rirmos dele.

Olho, com o orgulho maternal que tão bem conheço, para o desenho mal desenhado da minha mãe e comovo-me de alegria desajustada quando ela assina o desenho e escreve por baixo "médica". Como se não bastasse, assisto, pela primeira vez, aos passinhos que dá, cadeira de rodas arrumada de vez, até um sofá, onde nos sentamos lado-a-lado, como em casa, há muitos anos, primeiro eu pequena e encostada, mais tarde trocadas as posições dos braços, os meus por cima, enrolados naqueles ombros magrinhos, como agora, toda aninhada em mim, cabeça pousada no meu peito, ombro encaixado debaixo do meu braço, os meus braços a agigantarem-se para a enroscarem toda em mim, a prendê-la, a apreendê-la, a segurá-la, só mais um bocadinho, não ma leves, Pai Nosso, que estais no céu, não ma leves, só mais um bocadinho, minha, minha, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, não ma leves, minha, minha.


6 comentários:

  1. Anónimo5/3/15

    Encontrei-te há umas duas semanas, e não saio mais daqui. Isto pode ser só um blog, mas quando te deixas vislumbrar é lindo. És Linda. Vou ficar. Abracinho, Margarida

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    1. Margarida, obrigada.
      Não sei se é só um blog, nem sei se tudo isto são só blogs. É conclusão que não consigo tirar definitivamente.
      Obrigada, outra vez.
      Abracinho apertado.

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  2. E fico eu agora para aqui, com um nó na garganta...
    A vida troca-nos as voltas e, de repente, somos nós que damos colo e mimo às nossas pequenas mães.
    Parabéns à tua mãe! Foi/é, com certeza, uma mãe muito querida para ter uma filha assim tão grata e ternurenta.
    Feijoca, orgulhosa mãe de uma miúda de 75 anos.

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    1. Grandes razões tens para te orgulhares da tua pequena menina de 75.
      A minha é quase uma boneca, e conta mais uns quantos.
      E faz progressos todos os dias. Todos os dias me dá alento para continuar a vivê-la.
      Obrigada, Feijoca.

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  3. Essa 'outra criança' que hoje (ontem) tiveste, é uma maravilha. Educa-a bem.

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