30/03/2015

Campo magnético fisico-químico

Se as reacções químicas que provoco em os humanos deixaram de constituir grande mistério a esta altura da minha vida, já as reacções físicas que despoleto nos objectos continuam sem qualquer explicação. Não percebo por que é que interfiro com as antenas de interior, assim como interfiro com os alarmes das lojas, assim como apanho choques eléctricos nas portas - e, às vezes, no interior - dos carros. 
Desde miúda, ainda no tempo das televisões com antena interior, que estava proibida de passar à frente da televisão, porque dessintonizava os canais (que eram só dois, mas conjuga-se no plural na mesma) e aquilo fazia um ruído de chuvada que era uma desgraça, para além de esmerdar a imagem toda. Como a televisão estava na sala mais concorrida da casa, onde estavam todas as estantes de livros e o estirador do meu pai, eu tinha a grata incumbência de me deslocar aí de gatas, já com oito, dez, treze anos, com vista a não comprometer o programa dos outros elementos da minha família. Capaz de ter sido esse momento que veio a determinar que me tornasse mãe de quatro, um dia.
Com os rádios a pilhas - não sei se sabem do que se trata, mas ó: eu não vou explicar, olha, procurem, que eu não sou vossa mãe e já me chega a multidão que fabriquei -, é a mesma coisa. Tenho um assim na casa-de-banho, e não, não é para quando me lavo, que, nesse momento, liberto a fadista (embora desnuda) que há em mim, nem é para quando me sento, muito ardente e cheia de ardor, na louça peniqueira, mas sim, e tão-só, para quando passo a graxa na cara, alongo as pestanas com o rímel e transformo o pato em cisne... hah, desculpem o exagero. Reformulando: quando transformo o cisne em cisnão. Passo à frente do bicho e lá se vai a sintonização para o pandeco, lá vem o tal ruído fchhh, parece a chuva, que não é certamente, porque a chuva não bate assim.
Também sofro nas lojas, designadamente à saída, porque apito. A frequência com que me acontece é tal, que já tenho mesmo um discurso preparado para a ocasião, tipo os Oscars. Digo assim: "Eu sei que sou eu. É que eu apito. Acho que é dos dentes". Eles não sabem nem sonham, mas é a mais pura verdade o que lhes estou a dizer naquele momento: como ainda sou do tempo da amálgama de prata e sei lá que mais poluente se punha nos dentes para tapar as obturações, julgo eu que é isso que irrita para lá os alarmes todos. Ou então, é também o meu campo, o tal que eu não vejo, mas que sinto, tal e qual aquela dor que se tem, mas ao contrário, porque esta sente-se.
E apanho choques nos carros. Já sei que toda a gente apanha, mas garanto que eu apanho ainda mais. Porque comigo é sempre tudo em mais, em grande, em bom e em estúpido. Sou capaz, por exemplo, de apanhar na cara de um homem, do qual me despeça com um beijo na cara. Homens que comigo partilham uma viatura, de três, uma: ou vos barbeais em condições, ou vos despedirdes de mim com um aceno de mão, ou me beijais descaradamente em os lábios, com vista a resolvermos, em conjunto, a questão do choque na boca. É que fico electrocutada labialmente, ouviram? Depois há outra circunstância, ainda relativamente aos choques: dotada de cérebro, temente à descarga, passei a fechar a porta da viatura empurrando o vidro, ou dando com o pé na porta. Tudo muito bem, sem esticãozinho, muito lampeira, fermosa e não segura, mas certamente calçada, sigo caminho. No entanto, como a descarga não fica feita, e a Karmen é uma cabra do genital, acabo por levar o choque na mesma, na primeira oportunidade que surge ao destino - geralmente, no botão do elevador. Deve ser esta quantidade de electrochoques que faz de mim esta pilha (de nervos, de graça, de talento, de charme, etc., etc.), com o ar mais sereno do mundo. Pois, pudera. 

A mim, que me dava tanto jeito ser esta:

Mulher-Elástica, de Os incríveis

Calhou-me na rifa ser antes esta:

Violeta (cujo super-poder é ter um campo magnético), de Os incríveis

13 comentários:

  1. Ficção a esta hora? 'Balha-me Deuze' :-)

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    1. Tu não lês, pois não? :P
      Just asking...

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    2. Just answering, leio.

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    3. Ah, então desculpa a minha pergunta.
      É que, fora as bonecas,não há rigorosamente nada que seja ficcionado no post todo...

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    4. 'Fora as bonecas'. Afinal há ficção.

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  2. Tu achas mesmo que eu vou ler este wall of text que publicaste? Mete parágrafos nisso e eu reconsidero :P

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    1. Acho :P
      Metes a primeira, aceleras, aquilo começa a bombar logo, quando deres por ti, you've got the power :P

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    2. Not gonna happen. Não leio walls of text :P

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    3. Sugeria-te, delicadamente, um copy-paste para um doc do word, depois enter-enter-enter a cada linha mais curta (sinal de que vem lá outro parágrafo) :P
      Não sei... dá muito trabalho?

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    4. Sugerir "delicadamente" não custa :P

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    5. Assim como fazer, delicadamente, um copy-paste, também não dói nada :P

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  3. Eu acho que tu tens poderes...
    Vê lá isso.
    Se tiveres avisa, que ainda não consegui pedir o aumento e preciso de poderes adicionais...

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    1. Tenho, cada vez mais me convenço que é mesmo uma via profissionalizante, caso todas as minhas outras valências me falhem.
      Para o teu caso, sugiro a franqueza penetrante: nunca afastes o olhar do teu alvo (opta pelos olhos do inimigo, qualquer outra parte do corpo pode reverter a situação contra ti) e não uses palavras acessórias como "preciso", "filha", "crise", "dificuldades", nem expressões emocionais, tais como "seus grandessíssimos chulos", "ando a ser explorada", ou "vão roubar para a estrada". A partir daqui, constrói um discurso seco: "Venho lembrá-lo que não recebo um aumento há x anos e que o meu trabalho vale seguramente mais do que aquilo que me está a ser pago neste momento". Levantas-te e dás o golpe de misericórdia com o menear da anca até à porta.
      (E agora temos as yupies todas a destilar caganitas para cima desta última frase, porque elas nunca, por nunca, usaram o poder da pestana, e até coçam os coisos nas reuniões, se for preciso)

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