17/12/2014

Vinha a pensar, pelo caminho

que não aprendi a cozinhar com a minha mãe. Nem a coser botões, nem a costurar à máquina, nem a bordar, a fazer tricot ou crochet. E, no entanto, sei fazer isso tudo, até mesmo de olhos fechados. Até mesmo. 
A minha mãe não sabe cozinhar, ao contrário das outras mães todas. Mas sabe rechear um perú e fazer-lhe uma costura cirúrgica. Não sabe coser um botão, mas sabe pregá-lo com linha e agulha, se quiser: ata-lhe nós cirúrgicos e ele fica no pano que já de lá não sai nunca mais. Sem saber cozinhar, a minha mãe ensinou-me a cozinhar: ensinou-me a alquimia dos alimentos, ensinou-me a usar os sentidos na cozinha, mostrou-me que tudo - tudo, sem excepção, até a água, ao contrário do que dizem as leis da química - tem um cheiro e, consequentemente, um sabor. E sempre me fez usar os sentidos todos, especialmente o olfacto, "aquele desprivilegiado sentido que a sociedade moderna subestima e fará desaparecer por desuso". "Usa o nariz. Usa os olhos, as mãos, os ouvidos e usa o paladar, mas, sobretudo, usa o nariz". Ensinou-me, assim, a cozinhar, usando o nariz. É o que me diz se o arroz ainda está cru, se a salsa está fresca, se a batata cozida passou do tempo. Ensinou-me que o mar cheira a melancia e a melancia cheira a mar, e porquê. E a distinguir, pelo cheiro das flores, se estão a pedir água ou não, as flores de que ela tanto gosta e eu já não. 
As mãos da minha mãe nunca cozinharam ou, pelo menos, nunca saiu delas nada que se pudesse comer. E, no entanto, nós dizíamos que a sopa feita pela nossa mãe sabia a chocolate. As crianças usam metáforas indecifráveis. Agora levo-lhe sempre chocolate, que lhe dou aos bocadinhos - e que está proibido não sei por quem -, e digo-lhe: "Vamos ao nosso cigarrinho?", logo a ela, que nunca fumou. Os adultos têm metáforas indecifráveis. Comemos aquilo a meias, para mim o almoço que não faço só para estar mais um bocadinho com ela, a ver os olhos dela iluminados de gozo, os meus dentro dos dela a sorvê-la com medo. E uso o nariz, como ela me ensinou. Cheiro-lhe a cabeça, cor-de-rosa, o cabelo, muito branquinho, e tudo me cheira a mãe. Tudo tem um cheiro, até a água, ao contrário do que dizem as leis da química. Foi a minha mãe que me ensinou.

12 comentários:

  1. não posso senão dizer que é um texto maravilhoso. .)

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    1. :-| melhor ainda seria se não tivesse que ter sido escrito.
      Obrigada...

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  2. "costurar à máquina (...) sei fazer isso tudo, até mesmo de olhos fechados" - imagino...

    O resto do post já é mais complicado comentar.

    Deixas-nos a ver o quadro que pintas com palavras, sem fôlego até ao ponto final.
    A água tem cor, a tua mãe ensinou-te bem :)

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    1. Só nunca experimentei virada de costas para a máquina, mas é já amanhã, que é para tirar teimas.

      E tu escreves bem, mas achas que os outros é que... ah. :)
      Tem pois. E tem cheiro. Cheira a água.

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    2. O cheiro permite-nos cozinhar até o que não gostamos de comer. Eu falo por mim...
      O olfacto é o meu sentido mais apurado, por isso, evito transportes públicos em hora de ponta. :)

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    3. O meu também. Pode ter sido bem treinado :)
      Não percebo as pessoas que cheiram e não dão por isso.

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  3. eu chamaria a isto, à maneira de Bach, uma prosa bem temperada.

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    1. Com chocolate e água, nem que seja a dos olhos...

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  4. Gostava de ser capaz de fazer/sentir tudo isso.
    um beijinho
    Gábi

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    1. Toda a gente consegue, não é do sofrimento que nasce a poesia?
      Beijinho, Gábi

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