15/12/2014

Carência | s.f. Necessidade de alguma coisa básica; falta, privação: carência de alimentação.

Nesta altura, mais do que "Feliz Natal", ouve-se por todo o lado - peditórios de rua, programas da manhã, rádio e também jornais - a expressão "crianças carenciadas". Ora, expliquem-me lá a mim, que sou demasiado estúpida, o que é que são crianças carenciadas. 

Daqui para a frente, corro o risco de ser tomada por fascizóide, desatenta, desumana ou mesmo burra, mas o risco é o meu middle name e há tantas coisas, como esta, que me transcendem, que quase urge que me expliquem aquilo que, pelo menos através dos sentidos, eu ainda não consegui alcançar.

O que vejo a sair dos hipermercados são carrinhos de compras cheios de brinquedos enormes, transportados por quem não só tem o ar mais humilde como também, evidentemente, não tem casa para receber cozinhas inteiras, oficinas, escorregas, baloiços e casas de bonecas onde cabem cinco índios. 

A minha empregada ganha uma merda na minha casa, tem casa para pagar, carro para sustentar, já para não falar em dois filhos que fazem os impossíveis por se manter na escola o maior número de anos possível. A filha tem 18 anos e continua alegremente no 8.º ano. Mas ela vai oferecer-lhe um tablet, vai uma apostinha? Só não levanto agora daqui o cu para lhe ir perguntar, porque fico a saber a vida, desde o nascimento até há cinco minutos, de todo o bairro das Galinheiras, senão era limpinho. Mas, se não for um tablet, é um telemóvel de última geração, semelhante ao dela, muitíssimo mais caro que o meu - que nem caro foi - que sou quem-lhe-paga-o-ordenado.

Será que se referem aos filhos dos ciganos [ei, alto aí, que eu não sou dessas! Ter olhos não é igual a ter preconceito. E conheço muito bem a realidade das escolas da cidade de Lisboa por dentro], cujo rendimento mínimo de inserção nunca chega para o pequeno-almoço dos filhos, usufruem de SASE escalão A, mas depois vive uma dezena de adultos completamente (ou aparentemente) do ar que respira?

A sério, sem qualquer desmérito para o resto do país, mas também sem cair na tentação de pensar que Portugal é só Lisboa, não resisto a pensar que, quando se fala de "crianças carenciadas", está a referir-se a tudo menos à realidade desta cidade.

16 comentários:

  1. "A minha empregada ganha uma merda na minha casa" - aumenta-a. (Sempre muito atarefada e depois até tem empregada para lhe fazer as coisas... enfim, Tias! Assim é que se vê as pessoas como verdadeiramente são :P)
    "tem 18 anos e continua alegremente no 8.º ano" - espero que seja a delegada turma!

    Fora os teus dotes fascizóides supra enunciados, há por aí muita criança carenciada, sobretudo de amor e juízo na cabeça dos pais. Fora as outras que são mesmo carenciadas.
    O que a mim me revolta é que só o são no Natal (já escrevi sobre isso num post antigo) no Inverno têm frio e fome, mas no resto do ano, não têm calor nem sede.

    Nesta altura do ano não dou nada para peditórios, (no resto do ano também não), mas quando posso levo roupas `
    as Cáritas e instituições semelhantes.

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    1. Calculei, quando escrevi aquilo da minha empregada, que alguém viesse espernear. Agora, se eu te disser que ela trabalha 10 horas por semana numa casa de 6, já achas bem?
      A filha, simplesmente, quer seguir a carreira da mãe.

      Eu dou todo o ano, mas sei muito bem a quem.

      Quanto às carências afectivas, essas são transversais e não directamente relacionadas com o poder económico das famílias.

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    2. Duas horas por dia. Casa de 6 é muito redutor, mas pronto... subiste de novo na minha consideração :P

      "Eu dou todo o ano, mas sei muito bem a quem." - a língua portuguesa é tão traiçoeira que nem vou comentar :P :P

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    3. Ah, já tinha subido? :)

      E o pacote, que não há maneira de ser entregado?

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    4. Não tinhas subido, mas eu dou sempre um valor fixo e depois as pessoas sobem e descem consoante as vicissitudes da vida.
      Coisas minhas, não ligues!

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    5. Já devo ter descido tantas vezes... :D

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    6. Como sabes, não posso dizer que "não desceste" se não as "sombras sem nome da blogosfera", acusam-me de andar no engate.
      Cuidado comigo. :P

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    7. Olha, e cuidado comigo :P
      Não são sombras, são pessoas que gostam de ver o circo a arder.
      Palhaços.

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    8. Gastar 2 comentários com esse assunto, foi demais. Este é o 3ª pior ainda ;)

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    9. Vou voltar ao assunto pestanas, é melhor ;)

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  2. Cá na terra é a mesmíssima coisa. 'Té m'irrita, arre.

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    1. Onde é que elas estão, então?

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  3. Por acaso pergunto-me isso amiúde quando vou de 2 em 2 semanas ao supermarket. Mas pronto, cada um faz com o dinheiro, próprio ou dado, o que puderem e souberem...

    Mas que as há carenciadas, há. Vejo-as todos os dias :)

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    1. Aquilo é um mistério...

      Pois há. Mas e os pais? Pá, que me irritam essas gajas, a quem nunca falta o dinheiro para o galão no café, para o tabaco de que não prescindem, para as unhas de gel e para as nuances, e depois trazem os putos com piolhos, ranho e subnutrição. E são as primeiras da fila dos sacos da paróquia, com mercearias e roupa para os filhos. São peditórios para os quais já não dou.

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