30/11/2015

Este ano, comecei a árvore pela base

Ainda não montei a árvore de Natal, mas já a comecei. Comprei a primeira prenda, ontem à noite — para mim. Na minha casa, as prendas põem-se na base da árvore, que é um tripé de plástico bastante mal enjorcado, e que convém tapar rapidamente (na verdade, ninguém se importa, mas eu sim). Aquele tripé chateia-me porque não me cheira a resina. E o Natal não me cheira a resina desde que tenho uma árvore artificial, a imitar um abeto. 
Nós fazíamos a árvore num pinheiro, altamente negociado com os vendedores ambulantes sazonais, e transportado rua acima, uma a agarrar o topo, a queixar-se que a caruma picava, a outra a agarrar no tronco, a queixar-se que tinha as mãos (ou as luvas de lã, porque estava sempre frio — dantes, em Lisboa, fazia frio em Dezembro) cheias de cola, mal sabendo que é, precisamente, com a resina que se fazem as colas. Depois roubávamos pedras da calçada portuguesa, metíamo-las dentro de um vaso grande e espetávamos lá o pinheiro, a cheirar a Natal durante um mês. Como devolvíamos as pedras à calçada depois do Ano Novo, talvez não fosse bem um roubo, mas sim um furto com reposição natural da situação, ou um empréstimo forçado (por uma boa causa).
Nem umas nem outra das árvores da minha vida foram de bases muito sólidas. Mesmo com as pedras todas, era comum o pinheiro tombar, normalmente durante a noite — porque, conforme se sabe, o Pai Natal faz incursões uns dias antes do 24, e, como é desastrado e gordo, desarruma tudo. Principalmente, se se tratar de apartamentos, como forma de vingança, por não ter uma chaminé por onde descer. 
Nem umas nem outra das árvores da minha vida foram de raízes profundas: na verdade, os pinheiros eram ramos de pinheiro adulto, por imposição legal para evitar a selvajaria do desarboramento. E esta árvore artificial que tenho agora, não cria raízes, nem que eu a deixe todo o ano plantada no chão da minha casa. 
A copa das árvores parece simbolizar o topo, numa escala hierárquica. 
No topo de uma árvore genealógica, encontram-se as pessoas que deram origem a todos os ramos que a compõem. 
Na vida, e principalmente na vida de uma árvore, a origem está na base, a importância está nas raízes — sem as quais todo o resto da árvore não existiria: qualquer daqueles ramos, até ao topo, teria a sua vida comprometida, ou inexistente, sem a existência, o vigor — a vitalidade — da raiz da árvore a que está agarrado, por dela fazer parte.
Por isso, este ano, comecei a árvore de Natal por baixo — mesmo antes de ela "nascer", alimentei o seu ponto mais importante: a raiz — eu.

É esta, a minha prenda para mim.
(imagem tirada da net, que a minha prenda está embrulhada a preceito)

12 comentários:

  1. LP,
    Pergunta :
    Como é possível ????
    Uma Senhora (nascida na clínica de S. Miguel ) ,decorar/utilizar um pinheiro de plástico ?
    Uma Senhora que nos delicia diariamente em todos os posts?
    Não acreditava !
    Ou é pinheiro a sério ,musgo a sério ,ou esquece .
    Como é possível LP ??
    Esta agora ..,.

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    1. Eu própria consigo ficar siderada. Nem eu mesma sei explicar estes fenómenos. É muita idiossincrasia junta.

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  2. E foi uma boa decisão! Agora que penso nisso, acho que a primeira prenda debaixo da árvore nunca foi para mim. Talvez tenha mesmo que cuidar também das raízes da minha árvore! :-)

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    1. Também foi a primeira vez que aconteceu comigo. Mas é um óptimo princípio. É desta raiz que tudo parte, portanto, há que mimá-la :)

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  3. Irrefutável. Belíssima justificação. Opus retórica do latim de Linda. Ou, Linda como latim: é a base. É a basezinha. A instruçãozinha é necessária.

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    1. E nunca fez mal a ninguém, saber de onde lhe chega o alimento.

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  4. Good for you :) é mm isso. Tb temos de pensar em nós.

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    1. Cada vez mais, sob pena de desaparecermos :)

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  5. Ofereço-te um spray de aroma de pinheiro! :D
    Podes espalhar ao redor da árvore artificial.

    Deu até saudade do cheiro do pinheiro, do toque, das agulhas... Hum... Uma árvore de verdade dentro de casa era qualquer coisa!
    As minhas sempre ficaram de pé, sólidas, até serem arrastadas para o lixo, largando as agulhas castanhas pelo caminho e o aroma a pinheiro. Eram pregadas numa base em madeira.

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    1. E será igual? É que aquilo é uma mistura da caruma molhada, com a resina, com as pinhas, com o tronco, é tão inimitável :D

      Essa da base nunca nos ocorreu, mas olha que é engenhoso... Quando os pinheiros nos saíam mais altos, ou tortos (e a natureza nunca faz nada tão direitinho como são os artificiais), tínhamos a árvore no chão a toda a hora. E, na altura, as bolas eram de vidro! :)

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  6. Bom dia Linda. A base, a raiz, parece estar muito bem sedimentada.
    Boa semana.
    Um beijo,
    Mia

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    1. Bom dia, querida.
      Está, eu faço por isso. Às vezes custa, mas eu teimo.
      Boa semana também. Good vibes.
      Beijos

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