18/05/2015

Pai, eu vi-nos na areia

A pele dele deitada na areia, de costas, sem toalha de permeio, grãos quentes e rochosos, maciços, macios, aconchegantes, e ela sentada na barriga dele, uns sete quilos de gente, uns seis meses de mundo, uma vida enorme e longa, entregue inteira, intacta, àqueles braços, sorriso inquieto e desdentado, olhos limpos na descoberta do amor, aos saltinhos no colchão amado, respiração entrecortada de gozo — e, os dois, absolutamente felizes.
Juro, pai, juro que os vi brilhar, raiados de sol.
E, presa numa memória que não posso ter, olhei para cima, levei os olhos cheios de mar, e vi-nos brilhar, raiados de sol.
Vi-nos na areia, com os olhos cheios de céu, limpos, na descoberta do amor.


8 comentários:

  1. enterneceu-me. boa semana, LP.

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    1. É um tema recorrente do ♥, Mia.
      Boa semana :)

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  2. As tuas palavras neste registo têm o mesmo efeito que as cebolas quando estou a cozinhar .
    Espero que possas perdoar a comparação :)
    Beijos LP :)

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    1. E há lá melhor comparação, se fores assim como eu, que até o sumo da cebola já me serviu de desculpa para afogar mágoas? :)
      Beijos, Imprópria (já tinha saudades de ti) :)

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  3. Tão bonito! Fiquei enternecida com a descoberta desse amor. Esse amor que é o encanto dos céus limpos.
    Um beijinho

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    1. Incrível que uma imagem, a que assistimos ao vivo, nos transporte para o nosso próprio álbum de fotografias e, dele, para a nossa não-memória...
      Obrigada, Miss Smile :)
      Um beijinho de boa noite.

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  4. «Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!»
    Este post está carregado de cervantismo. Que bonito!

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    1. E, quando menos esperamos, lá se desamarra ela, numa imagem, num odor, numa música, gritando-nos as saudades que carregamos connosco -- impiedosa.
      Obrigada, JM.
      Beijos

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